Zo d’Axa: “Ele, o eleito” e “Vocês não passam de idiotas”

Dois escritos são sobre as eleições da França de 1898, mas não sei porquê parece que falam sobre ontem, ou melhor amanhã…

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Capa da revista La Feuille de 1891.

O primeiro escrito de Zo d’Axa publicado no periódico libertário francês La Feuille em 1900 e narra o que aconteceu quando eles resolveram colocar o seu candidato de protesto (eles inventaram isso) na rua para fazer campanha… o burro Ninguém:

ELE, O ELEITO

Ouçam a história edificante de um belo jumentinho branco, candidato na capital. Não é uma rima da Mamãe Gansa,[1] ou uma estória do Le Petit Journal.[2] É uma história verdadeira para os meninões que ainda votam:

Um burro, filho do país de LaFontaine e Rabelais, um asno tão branco que o senhor Vervoort glutonicamente quase o devorou, aspirante — no jogo eleitoral — a um cargo como legislador. O dia das eleições havia chegado para aquele burro, o tipo perfeito de candidato, respondendo pelo nome de Ninguém, colocou pra fora no último minuto uma estratégia.

Nesta quente manhã de domingo de maio, quando as pessoas partiam para as piscinas dos clubes, o burro branco, o candidato Ninguém, desfilava no carro triunfal, empurrado por seus eleitores, atravessando Paris, sua boa cidade.

Sobre seus cascos, orelhas ao vento, orgulhosamente emergindo de seu veículo gaudilicamente decorado com cartazes eleitorais — um veículo em forma de urna — a cabeça altiva entre o copo de água e o sino presidencial, ele ultrapassou a raiva, os bravos e as zombarias.

O asno foi visto em uma Paris que o encarava.

Paris! A Paris que vota, a multidão, a soberania popular a cada quatro anos… o povo suficientemente tolo para acreditar que soberania consiste em nomear seus próprios mestres.

Como se estivessem parados em frente das prefeituras onde rebanhos de eleitores, os confusos, fetichistas que carregam pequenos cartões através dos quais dizem: Eu abro mão.

Senhor Qualquer-Um irá representá-los. Ele os representará a todos melhor é que nisso ele representa a nenhuma ideia. E tudo ficará bem. Nós faremos leis, nós equilibraremos o orçamento. As leis irão significar mais cadeiras; o orçamento significará novas taxas…

Lentamente o asno atravessava as ruas.

Ao longo do caminho as paredes haviam sido cobertas com cartazes por membros do seu comitê, enquanto outros distribuíam suas proclamações à multidão:

“Pense com cuidado, queridos cidadãos. Vocês sabem que seus representantes estão enganando vocês, tem enganado vocês, e ainda os enganarão — ainda assim vocês vão votar. Então votem em mim! Elejam o asno!… Eu não sou tão idiota quanto vocês.”

Esta franqueza — um pouco brutal — não era para o gosto de todos.

“Estamos sendo insultados,” alguém disse entre eles.

“O sufrágio universal está sendo ridicularizado,” outros mais acuradamente gritaram.

Alguém furiosamente brandiu seu punho para o asno e disse:

“Maldito Judeu!”

Mas uma gargalhada sonora se irrompeu. O candidato estava sendo aclamado. Corajosamente, os eleitores ridicularizavam a ambos, a eles próprios e a seus representantes eleitos. Chapéus eram arremessados, bengalas. Mulheres atiravam flores…

O burro passava.

Ele descia por Montmatre ao lado do Quarteirão Latino. Ele cruzou os grandes boulevards, a Croissant na qual sem sal, a coisa era cozinhada e as gazetas se punham a vender. Ele viu os arcos sob os quais os famintos — o Povo Soberano — fuçavam em pilhas de lixo; os portos, onde os eleitores escolhiam a parte de baixo dos piers para servirem-lhes casas…

O coração e a mente! Isso era Paris! Isso era democracia!

Somos todos irmãos, velhos vagabundos! Pobre do burguês! Ele tem a gota… ele é seu irmão, gente sem pão, homem sem trabalho, mãe desnuda que, esta noite, irá pra casa para morrer com seus pequeninos…

Somos todos irmãos, jovens recrutas! É seu irmão, o oficial lá embaixo, com sua garota de corpete e cabeça coberta com barras. A sua Saúde! consertem as baionetas! Em linha! O Código vos espera — o código militar. Doze balas em sua pele para cada aceno. É a taxa republicana.

O asno chegou em frente ao Senado.

Ele foi rolou ao longo do lado de todo o palácio, onde os guardas se acotovelavam para sair. Ele continuou do lado de fora (alas!) dos jardins verdes demais. Então ele alcançou o Boulevard Saint Michel. Dos terraços dos cafés as pessoas aplaudiam. A multidão, aumentando sem parar, agarrou cópias de suas proclamações. Estudantes se enganchavam no carro. um professor empurrava as rodas…

Então quando soaram as três horas, a polícia apareceu.

Desde às 10 da manhã, na delegacia, o telégrafo e o telefone assinalavam a estranha passagem destes subversivo animal. A ordem para levá-lo para dentro foi emitida: Prendam o burro! Agora os vigilantes da cidade bloqueavam a rota do candidato.

Perto da praça de Saint-Michel o fiel comitê de Ninguém foi evocado pelas forças armadas a levar o candidato até a delegacia mais próxima. Naturalmente, o comitê ignorou essa ordem: bem acima do Seine, onde o vagão logo parou em frente ao Palácio de Justiça.

Mais numerosos, os policiais cercaram o burro paralisado. O candidato foi preso no portão do Palácio de Justiça de onde deputados, golpistas e todos os grandes ladrões saíam como homens livres.

O carro guinou com a movimentação da massa. Os agentes, o brigadeiro na liderança, fechou a passagem e colocando seus homens como barreira. O comitê não insistiu; Eles foram barrados também por policiais.

Foi quando o burro branco foi libertado por seus mais ferventes partidários. Como um político qualquer, o animal foi na direção errada. A polícia renovou com ele seu compromisso, e as autoridades lhe guiaram o rumo… Daquele momento em diante, Ninguém era nada além de um candidato oficial. seus amigos não mais o conheciam. A prefeitura abriu suas portas, e o asno entrou como se aquela fosse sua casa.

…Se falarmos sobre isso hoje que faça o povo saber — o povo de Paris e do interior, trabalhadores, camponeses, burgueses, cidadãos orgulhosos, caros senhores — que o burro branco Ninguém foi eleito.

Ele foi eleito em Paris. Ele foi eleito nas províncias. Juntando os votos brancos e nulos, adicionando as abstenções, as vozes e os silêncios que normalmente se juntam para significarem desgosto ou desdem. Trace algumas estatísticas, se você preferir, e poderá facilmente verificar que em todos os distritos o senhor que fraudulentamente foi proclamado deputado não recebeu um quarto dos votos. Disso decorre a imbecílica locução “maioria relativa”. Você também pode bem dizer que a noite é relativamente dia.

E dessa forma o Sufrágio Universal, brutal e incoerente, que é baseado em números — e nunca teve sequer isso — vai perecer no ridículo. Em se falando de eleições na frança as gazetas de todo mundo, sem qualquer malícia, trouxeram juntas dois dos mais notáveis fatos deste dia:

“Na manhã, cerca de 9:00, O senhor Felix Faure[3] foi votar. Na parte da tarde, às 15:00, o burro branco foi preso.”

Li essa notícia em trezentos jornais. Recebeu cobertura de muitos periódicos, do Argus ao Entregador da Imprensa. Havia reportagens em inglês, wallaquiano e espanhol… às quais eu jamais compreendi.

Cada vez que eu lia Felix Faure, tinha a impressão de que estavam falando do asno.

Nota do Editor: Durante o período eleitoral o programa no cartaz foi realmente colado nas paredes, e no dia da votação o candidato satírico realmente atravessou Paris, de Montmartreao Quarteirão Latino, passando através da multidão entusiasmada ou escandalizada que ruidosamente se manifestava. No Boulevard du Palais, o asno foi a seu próprio tempo apreendido pela polícia, que o arrastou a pauladas. Conforme os jornais da época reportaram, se não houve uma briga entre os partidários do asno e os representantes da ordem foi graças ao editor do La Feuille que gritou: “Não façam isso; ele é agora um candidato oficial!”

Referências

1 Esteriótipo de Mulher camponesa que inspirou a personagem fictícia, memorável contadora de estórias que tenta entreter seus muitos filhos para que não chorem nem briguem entre si.

2 Jornal ilustrado publicado na capital francesa no final do século XIX, início do século XX que tinha como linha editorial apresentar curiosidades, fofocas sobre a vida das famílias reais da Europa e perseguir os anarquistas sempre que possível, defendendo políticas de repressão mais severas conforme a vontade das elites a qual ele pertencia.

3 Félix François Faure (1841–1899) foi um político francês. grande xenófobo, pedante elitista e vergonhoso antissemita. Foi Presidente da França de 1895 até sua morte. (N. do T.) -Ele é o Eleito

O segundo é digamos assim é a propaganda do plano de governo do asno:

Vocês não passam de idiotas

Eleitores

Apresentando-me para os seus votos, lhes dirijo umas poucas palavras. Aí vão elas:

Venho de uma antiga família francesa — ouso dizer — então sou um burro com pedigree, um burro no sentido positivo da palavra: quatro patas e, sobretudo, pêlos.

Meu nome é Ninguém, e também o são meus competidores nesta corrida.

Sou branco, como muitos dos votos que foram para urna, mas não foram contados, mas que irão agora pertencer a mim!

Minha eleição está assegurada.

Vocês entenderão que falo francamente.

Cidadãos

Vocês estão sendo enganados! Foi dito que a Câmara dos deputados, composta por imbecis e ladrões, não representa a maioria dos votantes. Isso é falso!

Pelo contrário, uma Câmara formada por deputados que são idiotas e ladrões representa perfeitamente os eleitores que vocês são. Não protestem; uma nação têm os líderes que merece!

Por que vocês os elegeram?

Entre vocês, não hesitam em dizer que quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas; que seus representantes lhes enganam e pensam apenas em seus próprios interesses, de vaidade ou de dinheiro.

Então porque você os elege novamente amanhã?

Vocês sabem muito bem que existem muitos que procuram os legisladores para vender seus votos por um cheque, ou por trabalho, uma funções ou espaço na alta sociedade.

Mas será que a alta sociedade, com suas posições e benefícios não sabe que os Comitês Eleitorais só funcionam se forem pagos?

Os pastores do Comitê são menos ingênuos do que o rebanho. A câmara representa o todo.

Idiotas e diabos cheios de artimanhas são necessários; uma multidão de velhos tolos e Robert Macaires[1] é necessário para incorporar de uma vez e ao mesmo tempo os votantes profissionais e trabalhadores deprimidos.

E é aí que vocês se encontram!

Vocês estão sendo enganados, bons eleitores, vocês estão sendo enganados e bajulados quando lhes dizem que vocês são bonitos, e que leis levam a justiça, que ambas estão ao seu lado. Quando falam sobre a soberania nacional, o povo-soberano, homens livres… aos votos vocês são levados como a uma loja de doces… eles lhes dão doces para que vocês chupem.

Vocês continuam a ser ludibriados. A vocês foi dito que a França ainda é França. Isso não é verdade.

Com o passar de cada dia a França perde seu sentido no mundo, todo o sentido libertário. Não é mais um país sólido, corajoso, divulgador de ideias e esmagador de cultos. É Marianne[2] se ajoelhando frente ao trono dos autocratas. É o corporativismo renascendo mais hipocritamente que na Alemanha: uma tonsura sob o quepe.

Vocês estão sendo enganados, enganados sem parar. Eles lhe falam sobre fraternidade, e nunca a luta pelo pão foi mais evidente ou mais mortal.

Eles lhes falam — para vocês que não têm nada — sobre patriotismo e nosso patrimônio sagrado.

Eles falam pra você sobre integridade, e seus piratas da imprensa, os jornalistas prontos para fazer de tudo, os mestres da enganação e chantagistas que cantam a honra da nação.

Os apoiadores da República, os pequenos burgueses, os pequenos senhores são mais resistentes que os “malandros” que os mestres dos atuais regimes. “Nós vivemos sob os olhos dos supervisores.

Os trabalhadores enfraquecidos — os produtores que nada consomem — contentam-se pacientemente em chupar o osso sem tutano que lhes é atirado, o osso do sufrágio universal. Somente para lhes contar histórias, participação em debates eleitorais, em que movem seus maxilares, mandíbulas que já não sabem mais como morder.

E quando, em ocasiões, em que os filhos do povo se sacodem de seu torpor e passam a se encontrar, como em Fourmies,[3] dão de cara com o nosso bravo exército…. que com o argumento das armas impõem liderança em suas cabeças.

A justiça é a mesma para todos. Os honoráveis ladrões da viagem ao Panamá e seus carregamentos e aqueles que nunca viram um carrinho. As algemas, no entanto, apertam somente os pulsos de velhos trabalhadores trancafiados como se fossem vagabundos.

A ignomínia do momento atual é tal que não há candidato que ouse defender essa sociedade. Do burguês-inclinado à política: os reacionários, os liberais, as máscaras, os narizes falsos, os republicanos, a voz que clama para que você os eleja para que as coisas possam melhorar, para que tudo possa funcionar melhor. Eles que já lhe tomaram tudo voltam para pedir ainda mais!

Lhes deem seus votos, cidadãos!

Os mendigos, os candidatos, os ladrões, os achacadores de votos, todos têm uma maneira especial de fazer e re-fazer o bem público.

Ouça aos bravos trabalhadores, partido de charlatães, eles querem conquistar o poder… para poderem melhor suprimi-lo.

Outros invocam a Revolução, e enganam a si mesmos enquanto tratam de te enganar. Eleitores nunca farão a revolução. O sufrágio universal foi criado precisamente para evitar esta ação viril. Charley gasta um bom tempo votando…

E mesmo se algum incidente levar os homens às ruas, e mesmo que por alguma forte atuação um grupo preferir a ação, o que poderíamos esperar da multidão pululando a respeito, essa multidão covarde e de cabeça vazia?

Que seja! Vão em frente homens da multidão! Vão em frente, eleitores! Às urnas … e não se queixem. É o suficiente. Não tentem inspirar pena frente ao destino que vocês mesmos se impuseram. Por fim não praguejem contra os Mestres aos quais vocês se deram.

Estes mestres são seus iguais na medida em que eles roubam de vocês. Eles, sem dúvida têm mais valia: eles valem 25 francos por dia, sem contar os seus outros pequenos lucros.

E isso é muito bom.

O eleitor não é nada além de um candidato fracassado.

O povinho — de pequenas poupanças e esperanças miúdas, pequenos comerciantes vorazes, os vagarosos homens do campo — precisam de um parlamento medíocre que irá suprir e sintetizar tudo o que é vil nesta nação.

Então votem, eleitores! Votem! Os parlamentos emanam de vocês. Se algo é, é porque deve ser, porque não pode ser de outra forma. Criar uma Câmara em seu nome. O cachorro voltou ao seu vômito. Voltem para os seus deputados…

Referências

1 .Personagem de um bandido em uma peça teatral popular de Frederic Lemaitre.

2. Marianne é a figura alegórica de uma mulher vestindo o barrete frígio e segurando uma bandeira francesa instigando o povo contra a tirania. Encarna a República Francesa e representa a permanência dos valores de Liberdade, Igualdade e Fraternidade entre as camadas populares. Simultaneamente enérgica, guerreira, pacífica e protetora e maternal, seu nome provém da contração de Marie e de Anne, muito frequentes no século XVIII entre o população da França.

3 Lugar em que no Primeiro de Maio de 1891 houveram grandes manifestações de trabalhadores por direitos e contra a exploração do sistema capitalista, e que acabaram em confrontos sendo os trabalhadores brutalmente reprimidos pelo aparato repressor estatal. -Vocês não passam de idiotas

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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