Violência, Armas de fogo e Desarmamento Doméstico e Internacional

Apontamentos sobre o Atlas da Violência 2019 IPEA e outros estudos científicos em geral

Parte I

Reto e direto: O estudo conclui pelo desarmamento da população. E recomenda (em outro capítulo) a adoção de politicas pública preventivas voltadas especialmente para infância e juventude para combate à pobreza e investimento em desenvolvimento humano, uma vez que os dados estatísticos confirmam também que é justamente as áreas onde há maiores índices de violência é onde prevalece os mais baixos índices de desenvolvimento e claro desinvestimento público. Ou seja dados ainda mais robustos, a confirmar o que muita gente já sabia, mas nenhuma novidade. Salvo o seguinte achado que de longe é o mais interessante :

“2,2% dos municípios brasileiros concentraram metade dos homicídios do país em 2016".

E interessa porque não é detalhamento ou demonstração de uma obviedade. E pensando bem, talvez, até devesse ser. Afinal se o desenvolvimento socieconômico (e seus efeitos nocivos como a violência) não se distribuem nem igual nem muito menos arbitrariamente entre as populações num dado espaço territorial, porque ele haveria de estar distribuído igual ou arbitrariamente em qualquer amostragem estatística macro ou micro de um território em qualquer tempo sempre desigual? Ou mais precisamente: se sabemos que existe uma correlação diretamente proporcional entre a falta de desenvolvimento humano e seus efeitos; porque haveríamos de nos surpreender que tais carestias e concentrações estejam proporcionalmente espelhadas e distribuídas concretamente na mesma razão na topografia do país, e não só a topografia meramente geográfica, mas sobretudo a geopolítica, ou seja marcadamente delimitada tanto o fluxo como concentração não só de políticas públicas mas dos capitais nas divisões e subdivisões, jurisdições que controlam justamente a posse e usufruto do que é patrimônio público? De tal modo que para além das desigualdades intermunicipais, há as desigualdades locais, os bolsões de riqueza e miséria, dentro dos bolsões de miséria, porque aqueles que nem todo rico vive de se locupletar, mas não vive nem faz questão de viver apartados de quem assim sub-existe, porém é mais fácil achar uma agulha num palheiro, do que uma pessoa rica que não apartada e devidamente da carestia e suas probabilidades estatísticas.

Surpreendente portanto seria que num país de desigualdades sociais extremas não houvesse bolsões de concentração de pobreza e violência e que as consequências da má distribuição do desenvolvimento socioeconômico, salvo nas médias e medianas, se distribuíssem igualmente entre todos os brasileiros médios, que como realidade só existe na abstração da estatística, isto é, na amalga entre dois ou mais seres humanos reais, João e José. Logo porque exatamente nestes lugares? E porque exatamente com estas pessoas? Essa é a verdadeira questão que a investigação empírica do estudo não responde, mas instiga. Porém, como retrato de um país, o que há de que se surpreender? Pois se é inegável que todos (na média) sofrem com a desigualdade, e seus efeitos aumentam para todos (de um modo geral). É nos polos extremos onde as causas e efeitos estão literalmente concentrados de forma inversamente proporcional, de modo que os bens e serviços e políticas públicas que faltam e compõe a carestia e suas consequências aferidas- (delírios fora) tanto pelo senso comum quanto dados estatísticos- vem a compor não só as politicas públicas de renuncias, incentivos subsídios, benesses, concessões, privilégios, nem sempre legais, a surgir, nos outros habitats para as “amostras” nem tão evidentes da população igualmente apartadas, porém não marginalizadas, mas encasteladas tanto em edificações quanto instituições- e não raro, nem por acaso, vejam só, nem sempre nos espaços públicos, mas dentro de suas propriedades privadas, algo que um atlas da violência que não chega até ao átomo do universo social, a pessoa humana e as propriedades do sujeito enquanto não subjetivas enquanto um x perdido, ou se preferir devidamente escondido numa classe abstrata ou multidão, uma ideia que jamais é capaz de dar conta não como causa e fator determinante dentre a somatória, exceto como abstração conceitual e aproximação estatística. Até nisso a desigualdade é gritante, quando o crime é pequeno o sujeito é determinado, quando é grande, não é só oculto, é inexiste. Desenvolvimento é milagre, logo tem dono. Não é ato é fenômeno. Não é crime, é tragédia. Aliás se não for tragédia, então vira milagre. O milagre do desenvolvimento tem dono. Já o crime da sua falta e consequências não. Um jogo que antes de ser de números ou mesmo de palavras e de conceituações.

Achado cientifico surpreendente portanto seria o oposto: que num país com os índices de desigualdade, desenvolvimento socieconomico, não houvesse tantas mortes, ou que elas não estivessem concentradas exatamente naqueles entre as populações e territórios mais marginalizados. Isto seria um achado estatístico tão improvável quanto a pasta de dente voltar para o tubo, e sozinha. Tão improvável que o óbvio poderia ser enunciado como lei, se tal lei servisse para alguma coisa:

O desenvolvimento econômico e logo sua carestia e todos os respectivos efeitos positivos e negativos não se distribuem nem igualmente nem arbitrariam por toda população de um território, mas desigual e no extremos de forma inversamente proporcional na exata (des)proporção da apropriação, expropriação, demarcação controle, regulação, circulação não só das politicas mas dos capitais que compõe antes da posse privada a jurisdição pública sobre bem comum enquanto patrimônio e seu usufruto como bens e servições públicos a compor não só o mapa geopolítico das divisões e subdivisões hierárquicas dessa administração da coisa pública sobre uma nação, mas a sua topografia da fome, riqueza e violência de um país enquanto a trama de tecido social em todos os seus pontos de união, esgarçamento, e ruptura.

Um verdadeiro mapa da pobreza e riqueza, mas mina de ouro de quem vive de se locupletar da carestia especialmente nos territórios onde a posse e regulação do usufruto do patrimônio comum está (em teoria) sob a mesma jurisdição “pública” que também não por acaso não se distribui mas ocupa, circula e se concentra no seu habitat da mesma forma que concentra e aparta os seres e recursos e como recursos em seus planos de mapeamentos e políticas ditas públicas. Ou seja, devidamente apartada geopoliticamente, em muros e divisões, edificações e instituições, fronteiras e fortificações conceituais e concretas que espelham não só as concentrações mas a própria demarcação das posse e autoridade política e econômica sobre tais territórios e populações conforme as hierarquias jurisdicionais e preconceituais.

O mapa dessas redes de posse e poder que se distribuem espacialmente em espaços de convivência e conveniência bancado pelo mesmo capital público que num lugar falta e milagrosamente reaparece habitats mais bem servidos como dito não raro sem cerimonia como propriedade privada, leia-se grilada. Das ruas asfaltadas e iluminadas, as praças públicas, parques, aos lugares ermos e abandonados, as redes de aço e concreto, cimento e do capital, o padrão se reproduz para muito além, e de forma ainda mais brutal e violenta e real do que cada unidade da federação mostram ou neste caso amenizam.

Coloque a lupa para além das desunidades da desfederação e você verá comunidades e sociedades, dentro desses falsos átomos da sociedade, as suas verdadeiras partículas elementares, os verdadeiros núcleos, e células e forças constituintes. Um mapa que uma vez limpo as fronteiras nem tão imaginárias das unidades que que compõem a federação ou melhor dividem e mais escondem do que demostram, e teremos enfim a possibilidade de visualizar o que de produtivo ou nem tanto literalmente mora dentro desses arcabouços das subdivisões administrativas do poder central, onde estão encerradas os núcleos produtivos, que de fato movem ou atrasam a riqueza de uma nação, a partir do verdadeiro motor a pessoa humana e suas relações. Gente que se trata e agrega como gente. E não que se trata ou aparta feito coisa ou bicho, mas uma vez o dito que é obvio, mas que novamente entre o dizer e o fazer.

Resumindo concluir com dados estatísticos o que já deveria ser óbvio sem a necessidade de nada mais que não o mínimo de bom senso, ou senso comum: o problema da paz e justiça não se resolve com pão e não pedras ou pedradas. Ou pelo menos deveria. Ao menos a quem se diz aculturado pela dita civilização cristã-ocidental, senão de fato, na prática e para fins práticos ao menos em tese e para fins teoréticos para o jogo de cena e representação dos papéis tanto da vida social quanto pública. Mas como disse isso é o obvio, e o único óbvio que interessa, e aquele que no final da conta, na soma de todas as obviedades resta como uma contradição, a obviedade que tantos insistem em renegar.

Logo esse dado interessa por tudo o que ele ao invés de revelar e confirmar, enseja tanto como questionamento quanto incita como investigações. Porque exatamente esses municípios? Até onde presença ou falta de políticas públicas dentro da União, Estados, e sobretudo as municipalidades é determinante para a morte e vida das pessoas que cruzam as fronteiras da jurisdição destas linhas nem tão imaginárias? Mais precisamente como a disputa pela posse pela jurisdição de fato desse território, leia-se o monopólio da violência, nestes territórios, afeta a demografia dentro e fora das fronteiras geopolíticas não tão bem demarcadas destes mapas, ou como as casualidades civis quanto as baixas de militares afetam não apenas os índices de desenvolvimento, mas a longo prazo, a própria existência desses assentamentos humanos? Em que medida eles são integrados? Em que medidas são dispersados? Em que medida são simplesmente exterminados? E novamente não se espante se no futuro as desproporções entre cada uma dessas medidas apontar para os números que retratam que não queremos acreditar uma ethos de nação que não queremos que seja o nosso.

Para entender melhor minha pergunta imagine que o atlas da violência não fosse só um atlas mas um mapa mais ou menos como esse aqui:

Agora imagine se olhando para essa ferramenta, se pudéssemos sobrepor não só os assassinatos distribuídos sobre essas linhas imaginárias em contraste com o desenvolvimento econômico e humano até a unidade minima da municipalidade, mas até o átomo dessa rede, cada favela, cada quebrada, e cada ser humano de carne e osso, real, passando por casas, ruas, bairros, enfim passando pelos núcleos que compõe as relações sociais. Qual seria então novamente a distribuição local dos riscos e expectativas de vida e morte violenta desses recortes de amostragens ainda mais precisos, porque orgânicos e concretos, porque de fato correspondentes a comunidades, não raro cercadas e guardadas como condomínios fechados ou vigiadas e apartadas das demais como favelas e periferias? Quanto mais concentrados estariam as mortes nesses campos ou bolsões de risco de assassinatos, e violência? Qual seria então a relação de desigualdade entre esses campos de concentração de morte violenta em relação aos campos de maior concentração do patrimônio e politicas públicas, digo as de proteção e não as de repressão? Seriam esses números maiores ou menores que zonas de guerras, campos de refugiados, faixas de Gaza?

Bem é sabido qual é a etnia que mais morre de morte matada, mas qual a taxa de mortalidade desses grupos étnicos dentro desses campos, e qual seria o grau de parentesco desde grupos? Sua expectativa de vida estaria crescendo ou diminuindo? Se diminuindo? Sua taxa de mortalidade, supera a de natalidade? Poderão ser “esmagados como baratas”? Ou como toda população de seres vivos, os seres humanos como já havia demostrado Josué de Castro, também passam a reproduzir numa razão maior, para evitar ser exterminados como querem seus fazedores de políticas, como baratas? O que veríamos e contabilizaríamos? O grande caldo cultural da miscigenação brasileira, ou a prevalência do extermínio lento e velado de determinadas famílias? Etnias?

Façamos pois, também o caminho inverso. Porque não? Com a mesma lupa, vamos para os lugares mais pacificados, ricos e desenvolvidos, mas não vamos nos contentar apenas com a fotografia. Vamos reconstruir esse filme histórico quadro a quadro. Vamos olhar só para os genótipos, mas reconstruir essa rede social nesse espaço, mas na linha do tempo, reconstruir essa árvore das relações familiares que reproduzem e transmitem a sua gene que forma as tribos, castas, clãs transmitindo suas herança em todas as sua formas mas sobretudo como capital. Vamos estudar o habitat destes outros bolsões para verificar o quanto o senso comum acerta, ao pensar que eles estão também apartados não só do outro extremo marginalizado, mas de todo o restante mediano e remediado da população. Qual sua expectativa de vida, sua taxa de morte violenta, suas taxas de mortalidade, e natalidade, cruzamento “interclassial”, ou “interacial”, verificar em que medida, existe de fato integrado fora é claro das medias e estatística e contos esse tal de povo brasileiro.

Verificar como não só funciona as politicas públicas, mas fluem e circulam os capitais que iluminam e asfaltam essas ruas, como é porque esse capital que é o único que por direito também pertence aqueles que morrem e vão morrer por não receber nada daquilo fato também lhes pertence como herança sobre o patrimônio construído sobre o bem comum não chega jamais até a essas outras áreas. E quais políticas públicas seriam capazes de corrigir as políticas públicas que não são capazes de se autocorrigir.

Vamos verificar o quão burra são as generalizações. Porque burras elas são. Resta saber o quanto. Ou o que é a mesma coisa o quão inteligentes são, ou qual o limite da sua aplicação inteligente. Porque toda generalização é por definição querendo ou não uma preconcepção não importa se completamente arbitrária e preconceituosa ou embasada em observações empíricas e formulações estatísticas. Tendencias e probabilidades que portanto não falam nem de verdades, mas de margem de acertos e erros quanto a previsão de amostragens que sequer são seres reais, mas amostragens amalgamadas ou apartadas dos verdadeiros objetos reais, no caso os seres humanos. E que por supostos iguais por suas classificações gene, classe, condições, histórico de vida, geopolíticas, ou afins.

Daí a importância, não só para efeito de justiça, mas para identificação dos fatores determinantes dos problemas sociais, não como generalizações de classes, zonas pressuposições de comportamentos seja onde supõe que as pessoas com um gene ou gênese igual terão personalidades e comportamentos, seja porque pessoas submetidas ou mantidas em determinadas condições seja de desenvolvimento ou privação irão necessariamente se comportar exatamente de acordo com as suas condições predeterminadas de vida. A tendencia estatística é inegável, mas como juízo e até base de políticas públicas não tem nem a justiça e inteligencia das politicas universais nem a justiça e inteligencia das politicas otimizadas até o principio de fato constituinte desse conjunto universo que não é uma a abstração de nenhuma classe ou coletivo, mas a pessoa humana independente da sua condição ou condicionalidades impostas ou pressupostas.

De certa forma tal investigação já não seria mais só científica, mas uma verdadeira investigação de policia cientifica. Não apenas um atlas da violência, mas verdadeiro mapa da pobreza, ou melhor da mina de ouro de quem vive dela. Na verdade uma investigação forense de quem matou Brasil, executores e mandantes, seguindo bem ao gosto do novo tenentismo jurídico o famoso “folow the money”. Porém há dois problemas com essa investigação, (e aqui segue uma hipótese ou premonição sem nenhum embasamento cientifico) os executores não poderão ser presos. E os mandantes não estão sequer em sua jurisdição. Não sem a quebra do próprio regime ou estado de direito. Porque prendê-los enquanto investidos no exercício de sua funções vitaliciais é o equivalente a prender um rei, ou seja não importa os eufemismo que se use é a uma revolução. É o fim de antigo regime e o começo de um Estado Novo. Tentar prender o mandante é o equivalente a declarar guerra a reis e reinos estrangeiros, ou seja declarar uma guerra fria ou não. Aliás, já estão sentindo o peso dessa ingenuidade ou prepotência.

Sem isso, caímos exatamente onde estamos, em guerras de narrativas de perceptivas de classificações e preconceituações, ideologias e classes. Onde precedentes de auto-destruição entre diferentes territórios de desenvolvimento e não só domésticos mas internacionais foram abertos, numa guerra não declarada. Porque é isso que está ocorrendo nesse exato momento no Brasil e no mundo, uma guerra não declarada. Porque papo furado fora, quando uma das tribos passa admitir a morte de inocentes na sua guerra no território para eliminar quem começa a ameaçar a paz no seu. Ele abre o precedente do mesmo tratamento indiscriminado por aquele que de fato não é reconhecido nem tratado como igual por ele fora no papel. E quanto mais vai se criminalizando indiscriminadamente a pobreza, para esconder o fato que um inocente e não um criminoso ou terrorista tombou, por outro lado também mais indistintamente também vai criminalizando a riqueza, para se racionalizar que não foi só uma pessoa que mais rica, mais um corrupto, ladrão e locupletador. E mesmo que não fosse como dizem os ideólogos e estatistas os desumanizadores profissionais, há sempre que se quebrar alguns ovos para se fazer um omelete, ou os fins hão de justificar os meios, os seus é claro. De modo que únicos hão de prevalecer nessa guerra, pelo menos até o derradeiro momento que do enfrentamento, são justamente os polos extremistas dos vendedores de ódio e discórdia, que não raro não tem o menor pudor de matar nem de se locupletar em beneficio próprio e dos seus clãs. Eis o padrão que norteia as políticas públicas estatais, leia-se as subsidiada pelo monopólio da violência, legal ou não desde que o mundo é mundo. E para ter o monopólio em um território há que se ter a supremacia armada. Então vamos às malditas armas de fogo, porque faz tempo que não é com arco flechas, nem com garrunchas que se toma, se liberta, nem se o estado de paz nem se guerra com ninguém. E a propósito, caso não se tenha percebido nem como pistolas e fuzis. Novamente uma questão de desigualdade de forças, autoridades e capitais e claro poder, tecnologia e conhecimento. De tal modo, que enquanto alguns no mundo subdesenvolvido alguns reclamam por uma pistola em casa, para passar se sentir mais seguro nesse mundo, armamento cada vez mais sofisticados de destruição em massa são desenvolvidos, testados e apontados e explodidos com dinheiro dos povos. E toca a procurar iodo.

Projeteis capazes de carregar ogivas nucleares que viajam a uma velocidade de 11.000 kmh e são capazes de atingir o como diria o Morão o “nosso presidente Trump” em 6 minutos, com chances de aproximadamente zero de ser interceptada no lançamento pela baterias bilionarias antiaéreas da OTAN posicionas na Europa. Isso sem falar de outras bombas nucleares por incrível que parece tão destrutivas quanto e que também nos afetam de forma ainda mais evidente que essa nova guerra definitivamente hibrida, mas nem tão fria assim…

Mas e daí, o quanto isso nos afeta? Mas como se preocupar com isso, quando temos sempre problemas clássicos sempre mais urgentes de países eternamente emergentes ou submergentes para resolver? Pois é, como e por falar nisso como é que vai a Embraer perguntou como quem não quer nada a Boing?

Mas cada um há de lidar com a herança deixada por seu país, essa é nossa. Vamos ver qual é a que deixamos… vamos então às armas de fogo e violência, o atlas do Ipea 2019.

Parte II

Armas de Fogo: Atlas da Violência 2019 Fonte IPEA

8. ARMAS DE FOGO

8.3. Por que a difusão de arma faz aumentar a insegurança pública? Canais causais

1.Como falado, uma arma de fogo dentro do lar faz aumentar as mortes violentas dos moradores, seja por questões que envolvem crimes passionais e feminicídios, seja porque aumenta barbaramente as chances de suicídio, ou ainda porque aumentam as chances de acidentes fatais, inclusive envolvendo crianças. Por exemplo, Dahlberg et al(2004), mostraram que o risco de um homem cometer suicídio em casas onde há armas aumenta 10,4 vezes.

Segundo Fowler et al (2017), em função de acidentes domésticos envolvendo armas de fogo, a cada ano 1.300 crianças são mortas nos EUA e 5.790 são internadas a cada ano.

2. Uma parte significativa dos crimes violentos letais intencionais é perpetrada por razões interpessoais. No Brasil, cerca de 4% dessas mortes ocorrem por latrocínio. Por outro lado, alguns trabalhos, como o de Dirk e Moura (2017), com dados do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, mostraram que , no total dos casos de crimes letais intencionais conhecidos, mais de 20% das mortes ocorrem por questões interpessoais, como brigas de vizinho, crimes passionais, brigas de bar, etc. Portanto, o indivíduo com uma arma de fogo na mão que se envolve em um conflito aumenta as chances de ocorrência de uma tragédia;

3. Significativa parcela das armas legais são extraviadas ou roubadas e terminam em algum momento caindo na ilegalidade, fazendo com que o preço da arma no mercado ilegal diminua e facilitando o acesso à arma aos criminosos contumazes. A CPI das Armas realizada pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, mostrou dados robustos sobre a questão. Em 10 anos no estado do Rio de Janeiro, foram extraviadas ou roubadas 17.662 armas das empresas de vigilância ou segurança privada. Nessa mesma CPI mostrou- se que das armas ilegais apreendidas, 68% tinham sido armas legais num primeiro momento vendidas no território nacional e 18% tinham sido armas desviadas das Forças Armadas ou polícias. Ou seja, 86% das armas ilegais foram em algum momento legais e depois desviadas para o crime.

Numa pesquisa mais recente de 2017, produzida pelo Instituto Sou da Paz, intitulada De onde vêm as armas do crime apreendidas no Nordeste, reafirmou-se a conclusão da CPI do RJ, em que grande parcela das armas aprendidas possuía registro legal anterior.

Esta consulta (realizada com as 5.966 armas com numeração preservada de um total de 7.752 armas apreendidas no Ceará entre janeiro de 2016 e junho de 2017) no SINARM encontrou registros para 2.644 armas, sendo que 550 delas tinham sido cadastradas apenas no momento da apreensão (registro que deveria ser feito para a totalidade das armas apreendidas), e as outras 1.984 armas possuíam registros anteriores de proprietários que as compraram legalmente, ou seja, armas que entraram legalmente no mercado e, posteriormente, foram desviadas ou usadas pelos proprietários para cometimento de crimes. (p. 35).

4. A arma de fogo no ambiente urbano é um bom instrumento de ataque, mas um péssimo instrumento de defesa, em vista do fator surpresa. Aliás, as mortes de inúmeros policiais nos dias de folga atestam esse ponto. De outra forma, uma pesquisa do IBCCRIM mostrou que uma vítima de um assalto quando armada possui 56% a mais de chances de ser morta do que a vítima desarmada. (…)

Ok. E qual a probabilidade estatística geral desses dados e conclusões e recomendações modificarem as politicas públicas na série história? E no momento atual 2019? Ninguém precisa responder. É só uma pergunta retórica. Euristicamente, mesmo não sendo gurus ou videndes, todos no fundo, querendo ou não, sabemos a resposta.

Vejam que até o homem de ciência que pratica a econometria é um homem de fé, um homem que acredita em milagres. O milagre da transformação dos homens que não fiam nem pressupõe boa-fé na razão e ciência, pela pressuposição de boa-fé na ciência e suas razões, incluso as estatísticas e econométricas. Louvável mas insisto o buraco, faz tempo, é bem mais embaixo, ou se preferir mais fundo. E num mundo onde a percepção ordinária incluso que de “quem não pede, mas manda” está em questão, dados e amostragem não vão alterar as suas posições ideológicas estratégicas, que dirá então abalar pressuposições epistemológicas, os verdadeiros pilares dos preconceitos e preconcepções.

No atlas, clama-se por políticas públicas baseadas em racionalidade, quando falta até mesmo a concórdia, o minimo denominador comum não só consenso, mas percepção e senso que compõe o senso comum sobre o bem comum. E se as coisas mais simples e ordinários que deveriam ser dadas como dados por óbvias carecem agora de explicação, que se dirá os problemas mais complexas que carecem de esforço e entendimento conjuga extraordinário para serem resolvidos?

A fé na razão, é sempre louvável, desde que não seja uma ilusão. Desde que não se pressuponha que a ciência tenha um poder epistemológico que não tem e nem nunca terá, o de fazer quem não sabe, não quer saber e tem raiva de quem sabe entender qual é a forma da terra, sobretudo não pela autoridade da sua própria razão, e não pela idolatria a autoridade de quem professa qual deve ser sua forma não importa qual, especialmente quando, não por acaso, a autoridade que ele idolatre seja não feita apenas da sua imagem e semelhança, mas no intimo, (ou já nem tanto) ninguém mais senão ele mesmo.

Falta portanto peça nessa processo de entendimento, combinar com os “russos”. Sempre faltou. Mas em tempos de crise onde a urgência faz a demanda por respostas prontas e fáceis, por remédios mágicos (mesmo os historicamente sabidos venenos mortais) explodir, enquanto as respostas que exigem inteligencia, trabalho e esforço perdem seu valor de mercado não só politico ou econômico, mas antes de tudo cultural. Não porque a lógica de mercado seja uma lei da natureza, mas porque a ciência e cultura na medida que se submeteu a lógica de mercado, fez dela o seu fundamento o logos da sua episte, ao menos a mais ordinária. O erro clássico dos pensadores, onde a abstração é tomada como razão dos fenômenos e não os fenômenos a razão das suas abstrações. Salvo é claro as exceções, mas as exceções são o desvio padrão, é como diz o nome só o desvio do padrão, e não sua quebra nem correção.

O problema obviamente não do estudo, longe disso, é muito maior. É de toda a ciência. Ou mais precisamente a sua falta de ciência ou consciência sobre a mesma. Ciência que ao pressupor que seu método destinado a prever e manipular a natureza, incluso a humana ,naquilo que ela tem de previsivel e manipulável é capaz de romper os muros e castelo dos credo e irracionalidade com suas demostrações lógico matemáticas e empíricas, bate e cai frente ao que supõe meramente como loucura. Loucura? Sim, mas loucura, que vai se estabelecendo em fundações cada vez mais sólidas, mas novamente se espalhando para o tremor já explicito e perplexa confessa dos governantes laicos mais lúcidos, que o diga Merkel. De que valem tais argumentos e demostrações, quando a guerra por corações e mentes é jogada com outras armas incluso as fornecidas pela ciência e tecnologia bem mais persuasivas no que se refere ao trato da informação sobre os fatos, os dados, mas no trato da formação da própria realidade como percepção dos fatos, para produção de dados. Aliás, façamos um autocritica sincera, de que valiam, quando os interesses, porque foi pelo enorme esgoto da hipocrisia do mecenato da democracia liberal que agora é o edifício da cultura e ciência que treme. Quando foi que os confortáveis interesses setoriais, corporativos e classistas se colocaram acima da arte, ciência, tecnologia e do bem comum a que deveriam servir, e não delas se servirem, ou pior, trair seu papel não meramente com a social, mas com a humanidade.

A ciência não traiu a ciência. Mas ao trair sua vocação para a liberdade traiu a humanidade. E agora se assusta quando os povos jogados à ignorância, de ideologias politicas e religiosas que cultiva, alimentam e exploram a ignorância, o fanatismo gritam imbecilizadas para colher junto com seus imbecilizadores que a terra é plana e que deus é grande ou é a vontade de deus. Como assim? Com que armas eles caem? Ou são exterminados? Ou seriam os mesmo homens que apertam os botões e constroem aqueles capazes de construir os complexos sistemas de destruição com o qual ampliam suas posses e poder?

E se um dia a ciência se dissentiu espalhando o conhecimento entre a desigualdade concreta daqueles que iam sendo abandonados por um poder que monopolizava e centralizava e devorava e manipulava tudo, conquistando as populações marginalizadas e condenadas não com promessas, mas com um mundo melhor, com condições de fato mais igualdade e liberdade. Hoje, é na pregação entre aqueles deixado pra trás, no abismo que abriu pelas contradições criadas pela própria evolução de uma industria e riqueza erigida pelo saber racional e sua tecnologia que se forma os exércitos que clamam por salvação e salvadores populistas. Serão traídos novamente? Mas com certeza. Porém não sem antes muitas instituições caírem e cabeças rolarem antes.

Porque não fazer a pergunta correta? Se a arma é uma excelente arma para ataque e não para defesa, o que ela está fazendo, na mão de qualquer um? Porque aqueles que supostamente estão dentro dos nossos territórios para nos defender devem portar armas de assalto, cujo função e utilidade é assaltar e pilhar e matar dentro do nosso território. Quais são as intenções dos fazedores de política públicas ao armar suas forças de defesa com armas de ataque? E qual são as intenções dos fazedores dessas politicas quando estacionam essas tropas não no território alheio mas no seu próprio. Vocês tem os dados históricos. Sabemos quais são as intenções. Misture a amostragem e você terá um redução absurda da violência no Brasil, ordem e progresso. Separa as amostragens e você terá tanto um retrato da história do Brasil quanto do que há de vir para quem nunca esteve nos planos nem da sua ordem nem do seu progresso.

Dados são respostas. O que interessa são perguntas. Armas não nascem em árvores. Nem as com alto poder destrutivo construída por macacos, embora possa ser operada por homens ou até mesmo por macacos devidamente instruídos para tanto, é claro.

Não sejamos bobos. Quando não queremos que um determinado tipo de arma se dissemine não atacamos a distribuição, não a produzimos e atacamos quem a produz. E se não o fazemos é porque não temos condição nem de produzir nem de atacar quem produz. Não produzimos nem nos livramos da violência, lidamos como clientes e consumidores. Não somos os capitalistas somos o público-alvo. E lidamos para ver quem é mais ou menos gente, ou cidadão de bem, quem merece mais ou menos viver. Quem vai ficar com a arma na mão, quem vai ser desarmado e protegido e quem vai levar o tiro na cabeça se resolver puxar sua peixeira. Mas e as armas domesticas? Porque um país que abdicou constitucionalmente de se tornar uma potência nuclear, e ser um dia o ditador genocida, para no outro o bom amigo do Tio Sam, dependendo do trabuco nuclear, não se livra das armas que aponta para os brasileiros, bons ou ruins? Mais uma pergunta retórica.

Veja, o estudo é perfeito em sua conclusão. Tanto que não precisava nem de dados empíricos, mas só de lógica para se chegar as mesmas conclusões. Afinal garanto que você não precisa comer pregos e publicar os resultados para saber o cu que tem. E repito quem come, ou pior ou faz os outros comer não é por falta de detalhes desse saber que vai parar… mas segue.

E dentro dessas conclusões nenhuma é mais lógica e evidente que esta:

A arma de fogo no ambiente urbano é um bom instrumento de ataque, mas um péssimo instrumento de defesa, em vista do fator surpresa. Aliás, as mortes de inúmeros policiais nos dias de folga atestam esse ponto.(…)

A conclusão lógica de que uma arma de ataque quanto mais poderosa em seus objetivos é um objeto por perigoso demais não só para se usar, mas se manter por mais guardado. Até porque se muito bem guardado, mais difícil de ser sacado para o que de fato serve para atacar, ou dissuadir o inimigo do ataque pela supremacia da sua força. E aí vem o problema. As pressuposições.

Por outro lado, Cook e Ludwig, dois professores das universidades de Stanford e Chicago, respectivamente, num trabalho de 2002, mostraram evidências de que nos bairros onde há mais domicílios com armas de fogo acontecem mais roubos à residência, o que demonstra que a arma dentro de casa, menos do que um instrumento para propiciar a segurança do lar, funciona com um atrativo para o criminoso, ainda mais que existe o fator surpresa a favor do perpetrador. (…)

Ok, não sei se no estudo do Cook e Ludwig, ou se como está aqui descrito mas assim posto a evidencia é inconclusiva, mas desperta o interessante. Pois a menos que ladrão tenha faro para arma, ou os donos ostentem que as detenham, precisam obter essa informação de uma forma. Afinal a legislação lá não é feita bairro por bairro, então e logo para saber que nas casas de um bairro, ou naquela casa e não em especifico encontrará a arma que busca, o atrativo, ou o dono contou, ou ele ficou sabendo. Mas isso é um problema do estudo, não meu, o objeto a arma na casa e o saber são duas coisas distintas e que precisam ser conceituadas distintamente. O que me interessa é o problema de quem possui a arma. Se possuo e ostento, não só eventualmente estou sempre pronto a atacar mas por estar dissuadido enquanto estou de prontidão. Agora, se possuo não revelo e guardo para que ninguém possa tomá-la, enquanto não estiver vigilante. E nisto até quem vive de vigiar e policiar sabe que é impossível viver a vida, eternamente de prontidão vigiando, não só dissuado, mas quanto melhor o faço, mais inútil ela é quando surpreendido, um sinônimo para quem foi rendido e ainda não teve tempo de entender, ou não pior, não vai entender que já perdeu.

É a da lógica do armamento e desarmamento nuclear. Ou do se livrar de uma arma semi-automatica, enfim, a logica, em teoria dos jogos, que ao mesmo tempo garante que aquele que tem um tanque contra quem saca um canivete tem a supremacia, mas por outro lado, se torna não só o perigo ou inimigo comum de todos seus vizinhos ou o mundo inteiro, mas o alvo em potencial de qualquer um que almeje a sua potencia.

Nisto a recomendação para desarmamento é absolutamente inteligente. Livrar-se de uma arma que não pode cair em mãos, mesmo estando hoje nas suas. É a mais inteligentes das políticas não só de paz, mas de defesa. Mas me aponte uma potencia que age dessa forma. Quem pacificamente ou inteligentemente ao mesmo tempo busca desarmar e se desarmar para que de ataque e destruição incluso de massas, não caiam nas mãos erradas? Como se houvesse certas para produzir portar gás sarin, ou fósforo branco, agente laranja. Quando o ser humano, toma por repugnante uma coisa ou ato não existe este ou aquela mão com licença para portar nem muito menos usar ou praticar tal coisa monstruosa ou perigosa.

Nem o desarmamento unilateral adianta, nem muito menos a escalada do armamentismo não importa a escala se micro das relações entre pessoais domesticas, ou macro internacionais entre os povos. Ou armados são desarmados e desarmam, ou o discursos sobre desarmamento serão sempre gestos vazios de paz. E aqueles que são ovelhas entre lobos, buscarão se fazer de lobos, ou a proteção de lobos. E não o contrário. E aí vem a pergunta, porque hoje se compra um fuzil e não uma pistola? O que rege esse mercado, a oferta ou a procura? E se o bandido quiser uma munição mais pesada, digamos como esta aqui:

Michael Clark, um especialista não muito simpático com o que ele chama de “reclamações extremas” contra o Ue (“Ue não é o perigo extremamente mortal qual alguns gostariam de afirmar que é”), afirma: “qualquer fragmento (…) de Ue tem no contato uma taxa de radiação beta da ordem de 2 mSv/h. (…) A inalação ou ingestão do Ue acarretará internamente uma ampliação dessa taxa, mas o consenso médico-científico geral é que o Ue é mais um problema químico do que radiológico. Ingestão de quantidades significativas de Ue pode causar prejuízos aos rins devido à sua toxicidade química (…)”. (10)

Será que a bandidagem tem alguma ética de respeito pela vida dos seus inimigos e por aqueles que habitam o território que esses exércitos de defesa não tem para se recusar a gerar uma demanda no mercado negro? Porque somos tão eficientes em impedir a produção e até mesmo circulação de certos armamentos e munições e outros não, muito embora, não seja tão raro assim a matéria prima, pelo contrário, é lixo, dejeto. Porque o controle das armas que interessa é na produção. Até porque o capitalismo gira em torno da produção consumo e disputa a tapa por coisas que sequer ainda sabemos que precisamos, e no fundo não precisamos, mas talvez de fato vamos precisar, ou melhor quando percebermos não vamos poder mais prescindir.

As informações médicas, físicas e químicas disponíveis já há bastante tempo tornavam evidente que o desenvolvimento de armamentos de Ue seria algo desastroso; e que a caracterização de “crimes de guerra” e “crimes contra a humanidade” para o uso militar do Ue seria perfeitamente adequada, devido ao espalhamento inevitável de poeira e aerossóis com este elemento químico. Apesar disso, o desenvolvimento de armamentos com Ue começou cedo nos Estados Unidos, há cerca de duas décadas atrás. Faltam informações maiores sobre o desenvolvimento de tais armamentos por outras potências nucleares, mas podemos supor que não devem ser tão diferentes dos norte-americanos.

Será que a bandidagem tem alguma ética de respeito pela vida dos seus inimigos e por aqueles que habitam o território que esses exércitos de defesa não tem para se recusar a gerar uma demanda no mercado negro? Porque somos tão eficientes em impedir a produção e até mesmo circulação de certos armamentos e munições e outros não, muito embora, não seja tão raro assim a matéria prima, pelo contrário, é lixo, dejeto. Porque o controle das armas que interessa é na produção.

Esquece esses estudos, porque caças, bombas pistolas minas, serão comprados e vendidos como se fossem tomates, tecnocratas e governantes serão subornados e dividas serão feitas em guerras contra drogas, crimes, terror, entre potencias, religiões, civilizações, raças e mais estudos serão publicados, recomendando o desarmamento enquanto bilhões gastos e ganhos em armas continuam a serem projetadas e produzidas. E tolo do economista que pensar que todo esse capital se movimenta apenas pelo capital, preso no labirinto das suas equações e planilhas, por trás dos trilhões há gente que usa esse estupido jogo da acumulação pela acumulação e pilhas de mortos, há um desejos que nada tem de transcendentais, até porque não conseguem deixar de ser mundanos e materialistas para se satisfazer, mas que nem por isso estão presos a nenhum principio lógico ou finalidade senão a perpetuação e maximização da sua própria visão, concepção e vontade como nada menos como tudo. Poder.

Quando aquilo que sequer pode ser posto em questão é colocado em debate, já não a base para nenhum entendimento. Um homem que senta civilizadamente para debater quem merece viver ou morrer, pode não ter percebido abriu apenas as portas para sua hipotética eliminação passiva ou ativa, mas concretamente para a perda da sua civilidade, e violação da sua humanidade, pois embora este não deixa de sê-lo nem querendo, nem por sua vontade nem pela dos demais, pode te-la violentada, justamente pela falta do exercício dessa vontade ou do respeito ao mesmo. Não há civilidade nem humanidade em debater se a vida humana deve ser prezada, onde o desprezo reina em ato e discurso, não importa qual a condição, raça, ideologia, não estado de paz, nem sequer de guerra mas de massacre e extermínio covarde daquele que está jurado sentenciado a morte pela outra parte caso decida se submeter por bem ou mal juízo de quem não tem o mesmo direito de viver, ou se mesmo se não for por falta de meios de viver ou lutar pela vida esteja de qualquer forma condenado.

A ciência toma por objeto não só o que eticamente não pode ser tomado por objeto, mas o que epistemologicamente não é objeto do seu conhecimento, mas tanto fundamento absolutamente necessário a possibilidade do saber quanto finalidade do mesmo. E ao perder ou não tomar consciência desse caráter libertário inerente das suas luzes, ao se afastar do seu papel social e popular não só se torna vassala de interesses outros estranhos que negam o próprio pensamento cientifico, mas serva e presa da sua tirania que não só celebrou, bajulou, mas não raro vestiu como base para autoridade dos seus argumentos.

Poucos estudos podem ensejar uma autocritica pelo do privilégio do saber que não se sabe como privilegiado diante de um precipício de desigualdades cavados também pelos braços e cabeças dos seus saberes que um atlas da violência, onde a segurança dos sábios é inversamente proporcional ao sofrimento e misérias não dos ignorantes, porque antes de tudo foram ignorados que por padecer na carestia agora se voltam aos velhos mitos de salvação. Aqui cabe a pergunta quem são os loucos e cegos. Aqueles que se sentem desprezados e desprezam a razão, ou os que apelam a estes frustados cheios de ódio e outros credos para que adotem suas razões?

Armas… Então sou a favor das armas? Não, acho as armas é uma solução obsoleta e estupida, de um debate obsoleto e estupido. Onde muita gente ainda vai morrer, não porque tenha ou não tenha uma, mas por um milagre, ou se preferir por uma improbabilidade termodinâmica tão alta quanto um bando de doidos operando coisas perigosas e delegando coisas perigosas para outros doidos ainda mais perigosos, onde basta um idiota puxar um gatilho, ou cruzar com a pessoa errada para que uma ou muitas vidas acabe sem nenhuma razão e ainda sim, nesse mar de imbecilidade prepotente e cegueira ainda sim por mais improvável que seja ainda alguns de nós estão aqui. Um filme do Tarantino onde cruzamos armas, todos contra todos e aplicamos a tática de sobrevivencia Wyat Earp, “eu morro mas levo comigo tantos quantos eu puder matar antes, quem vem primeiro?” A base da “paz” do Oriente Médio. E há quem acredite que esse tipo de arranjo possa perdurar ad eternum. Que não vá terminar da maneira mais obvia, num sistema onde cada é como uma aposta reiterada que ninguém irá fazer uma bobagem. Isso que é fé na inteligência e racionalidade daquele que se odeia. Ou talvez o ingênuo agora seja eu a pressupor que nenhuma das partes ao se armar o faz sem saber que no fundo ao menos no plano das maiores potenciais.

(…) A pura denúncia desses fatos é algo certamente deprimente; deveríamos fazer mais. Armas de Ue não descem sobre nós dos céus. Elas são ativamente pesquisadas por cientistas, testadas por militares, produzidas por operários em nossas fábricas, usadas por soldados em nossos exércitos. Como tratar a arrogância de cientistas em seus laboratórios fechados? Como tratar sindicatos e operários, interessados em garantir seus empregos, mesmo quando eles produzem bombas nucleares, de napalm, de fragmentação e de Urânio empobrecido? Como tratar as pessoas que estão à nossa volta, tomando-as conscientes do que está sendo preparado para todos nós?

Bruno Vitale é físico aposentado da Universidade de Nápoles. Trabalhou também como físico teórico no laboratório do CERN, em Genebra. O texto foi traduzido por Olival Freire Jr.

E então vai se armar ou desarmar. Qual é sua opnião? Não precisa se dar ao trabalho nem de perder tempo pensando numa resposta. Esta é só mais uma pergunta retórica.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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