Turquia e Brasil : e a moda das teorias conspiratórias

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Protestos de 2013 na Turquia

TURQUIA

Definitivamente as teorias conspiratórias estão na moda. Saíram do underground para ganhar a grande midia. O curioso é que não parece haver no mundo supostamente jornalistico a menor preocupação em evitar a não cair no fantástico ou paranoide, características muitas vezes de quem inadvertidamente vê fascistas, comunistas, aliens e ordens secretas por trás de todos os eventos do mundo, obviamente conspirados por eles muitas vezes juntos.

Era de se supor que o ambiente cético e critico do jornalismo deveria se sobrepor e aplicar a investigação a hipóteses que por mais improváveis não poderiam ser descartadas de antemão, ou tomadas por verdades sem nenhuma evidência, mas o que se vemos é justamente o contrário, dependendo das opiniões do jornalista ou interesses do jornal. Some-se a essas pressuposições paranoides, pressupostos ideologias ou preconceitos descarados o agravante de serem agora transmitidos com aquela certeza imbecil de quem realmente crê que juízos jornalísticos são mais do que provas científicas, são os eles os próprios fatos depois que viram noticias e temos o que temos: essa imprensa ora chapa branca ora marrom, mas na completa falta de método e ética a mesma.

É evidente que ainda se produzem boas reportagens investigativas, e que até mesmo analises e criticas jornalisticas não precisam ser nenhum paper para ser criveis e honestas. Mas chega literalmente a ser incrível como hoje se reproduz teses conspiratórias como se fossem notícias, com a mesma naturalidade que se desqualifica qualquer contraditório fora da sua matiz ideológica com esse mesmo tipo de classificação. Trocando em miúdos com uma português correto e retórica um pouco mais rebuscada, quem produz noticia hoje não está só mais submetido aos interesses editoriais, esta capturado pela mesma mentalidade sectária que domina os grupos que os lê.

É muito comum no universo das teorias conspiratórias encontrarmos essas quimeras, ideias, artigos e personas construída da mistura de uma monte de fatos. Mas artigos inteiros construídas de um monte de quimeras isso era algo que não costumava passar assim tão fácil.

Vejam esse artigo:

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/a-tentativa-frustrada-de-golpe-na-turquia-e-na-verdade-um-autogolpe-de-erdogan/

Até o Imã acusado de golpe foi mais cauteloso:

Erdogan pode ser um violador de diretos com tendencias totalitárias, mas disso inferir que eles cometeu um autogolpe é, até como ilação, um salto e tanto no escuro.

Não estou dizendo que não acredito que Erdogan não seria capaz de cometer um autogolpe; pelo contrário concordo com muito gente que ele vá tirar e já está tirando proveito da situação. Mas daí, a pressupor que ele arriscaria tanto apenas para acelerar um processo endurecendo o regime e centralizando o poder que ele já vinha fazendo sem risco nem obstáculos, isto é, não é propriamente uma motivação mas um entre muitos senões.

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/15/internacional/1468612953_710585.htm

Outro senão importante a ser considerado é: como o mesmo Erdogan que quase caiu nas revoltas de 2013 se colocaria voluntariamente em posição tão vulnerável e perigosa de nas mãos dessa mesma população e até da internet que tenta restringir para se defender?

Vamos nos ater nos fato que temos. A população foi as ruas e não só policiais mas também civis morreram. E não dá para dizer que todos deram ou perderam sua vida pelas mesmas razões. O fato é que eles saíram contra mais um golpe militar. Se isso foi um ato também a favor da democracia; ou do regime de Erdogan; ou ainda se o entendido da população é que os dois são a mesma coisa; tudo isso já é pressupor demais- principalmente sob o prisma dos preconceitos religiosos e ideológicos.

Erdogan vai usar e abusar do que aconteceu, não tenho dúvida. Mas o que aconteceu não pode ser lido como uma carta branca para isso, ou somente um fortalecimento da sua posição. Pelo contrário, repito o que aconteceu não o coloca propriamente nos braços do povo, mas nas mãos deles. E isso são duas coisas completamente distintas. Se ele tivesse sem a participação popular frustrado o golpe, ou se essa participação fosse certamente de fanáticos por ele o golpe certamente teria saído automaticamente fortalecido. Mas, isso é um dado? Ou o que temos de informação é justamente o contrário que ele vinha enfrentando oposição?

https://en.wikipedia.org/wiki/Gezi_Park_protests

Ora o futuro dele depende agora e muito como ele vai manobrar a opinião pública nos próximos dias, porque de fato ele agora está a mercê de uma população que se sente agora mais empoderada! Há portanto um componente de risco adicional nas medidas que ele for tomar: a reação da população. E agora? E se esta mesma população reagir mal, e resolver sair as ruas para ir contra seus decretos? O que ele vai fazer? Mandar que fiquem em suas casas quem ele pediu que saísse? Vai também decretar lei marcial? E se o povo não obedecer, ele não vai atirar?

Não duvido em nada que ele saia mesmo fortalecido, e prenda ainda mais adversários políticos que não tinham nada a ver com o golpe. Mas o golpe em si não lhe deu automaticamente essa força, mas a oportunidade. que ele provavelmente não vai deixar escapar, mas não sem risco. O golpe instaurou um alto grau de incerteza e instabilidade gigante na Turquia. Logo pressupor um autogolpe com tamanho risco mesmo que esse golpe seja apenas o fazer vista grossa, é pressupor uma coisa estupida. É claro que não devemos jamais subestimar a capacidade dos governantes para cometer atos estúpidos, mas construir teorias com base nisso é de uma estupidez que consegue a proeza de a encobri-la.

Afirmar que Erdogan aplicou um ataque de falsa bandeira, ou permitiu que isso ocorresse, baseado apenas em pressuposições é o mesmo tipo de paranoia que leva as pessoas a afirmar sem nenhuma prova ou evidencia que por exemplo Hollande permitiu o ataque terrorista para prorrogar o estado de emergência, ou ainda que Bush participou de um ataque de falsa bandeira no 11 de Setembro para promover as guerras e decretos ilegais como Patriot Act.

Notem que não importa que sejam ou não verdadeiras, essas acusações por mais inacreditáveis e improváveis que sejam devem são graves demais para serem prejulgadas sem nenhum investigação. Porém é justamente isso o que acontece quando a abordagem paranoide e preconceituosa vem e desqualifica não esse ou aquela juízo, mas a credibilidade de toda questão que passa a não ser sequer mais objeto de questionamento, mas preconcepção. E não, quem faz isso não participa de nenhuma conspiração, é só um empregado idiota mesmo- um fiel convicto da sua cretinice e do delírio coletivo do seu universo fechado de preconceitos.

Notem, por exemplo, como quem escreve o artigo vê na progressiva islamização da Turquia a confirmação de uma incompatibilidade absoluta entre o islamismo e a democracia, sem nem sequer se preocupar com a interferência histórica da igreja católica no Estado Brasileiro. Nem muito menos com o crescimento do fundamentalismo e puritanismo na nossa sociedade, política e leis graças a mesma intervenção das novas igrejas evangélicas.

É incrível, como cada vez mais em todas as matizes ideológicas as pessoas estão perdendo a capacidade de se ver e ouvir. Estamos perdendo o senso da realidade e do ridículo, compondo ideias preconceituosas sem nenhum nexo, como a do artigo que tem o mesmo sentido e coerência de quem diz: “eu odeio a intolerância religiosa desses malditos muçulmanos”.

E não pensem que isso é uma prerrogativa da mentalidade Veja-Abril de ser, ou do seu extremo polar no mesmo saco, o petismo-peleguismo. Essa falta de noção da realidade, tem se alastrado junto com a crise. Parece que como resposta a perplexidade em relação ao que está acontecendo no mundo, muita gente decidiu simplesmente regredir ao velho mundo do pensamento dogmático.

BRASIL

Veja por exemplo essa outra matéria sobre o mesmo tema:

http://www.brasil247.com/pt/blog/alex_solnik/244311/O-que-os-turcos-t%C3%AAm-que-os-brasileiros-n%C3%A3o-t%C3%AAm.htm

Lógico que estou apelando, colunista do 247 e Veja. Eles são exemplo de quê? Respondo: como o extremo de suas visão, mas não de um desvio padrão. Aliás aplicando a autocritica, se normalidade se dá pela mera mediana das opiniões o estranho no ninho sou eu e não eles.

A abordagem da questão é tão fechada aos círculos de fãs, que quase não dá gosto de tecer uma resposta, quanto uma analise. Mas abobrinha politiquenta fora, essa é uma questão importante, e que não tem uma resposta tão simples quanto o artigo enseja.

Afinal, fora do universo do petismo. A resposta parece fácil. Vejam os dados:

Considerando os níveis de rejeição e aprovação do fim de governo, pergunto: quem é que sairia na rua pela Dilma, além dos dilmistas que saíram? Quem é que se “jogaria em cima de tanques” pelo regime petista ? Pois nem os pelegos deles. E que bom. porque não espero isso de ninguém. E tenho verdadeiro nojo de quem pede para qualquer ser humano que não ele próprio que a tenha. Notem o quão asquerosa é essa mentalidade covarde dos contabilistas de gentes. 1, 50, 100 qualquer vida de qualquer coitado é aceitável desde que é claro não seja a sua. Um líder não vale um fio de cabelo de uma unica pessoa que dirá a vida. Mas ver policiais ou civis morrendo para salvar a “democracia”, um eufemismo para preservar qualquer “grande líder”, os deixam em estase. Já esses mesmos manifestantes pedindo a queda deles… não passam é claro de fascistas.

https://www.youtube.com/watch?v=T52ZHPoDo-A

Mas o ponto é justamente esse. Erdogan não é diferente. Ele tem exatamente essa mentalidade. Mais do que isso, perto dele até a Dilma consegue posar de personificação da democracia. Então, porque é porque que eles defenderam a democracia de Erdoran e nos não a democracia da Dilma? São eles mais autoritários e ativos? Ou somos nós menos ativos e mais autoritários ainda?

Uma coisa não exclui a outra. Aliás não tem sequer relação necessária. Como disse e por enquanto é tudo o que sabemos é que eles não defenderam um determinado regime, mas se levantaram contra o que para eles população era um golpe. E se aqui também tivéssemos um golpe armado não sei qual seria a resposta da maioria da população, mas que a defesa não ficaria restrita ao petismo ou a esquerda isso é certo. E por um fato simples mais gente consideraria isto um golpe, e não estaria de acordo com a tomada de poder.

Mas isso é achismo. Pode ser que não. Mas o fato é que o pouco importa se o que se deu no Brasil é ou não um golpe, ou se os gringos a intelecutualidade, o papa, ou quem caiu chame isso de golpe ou não. O fato é que a reação depende do que a população acredita ou não. Se ela acredita ou não. E esse é o ponto crucial que eles até agora não entenderam, e pelo jeito vão morrer politicamente ou sair matando sem entender. Erdogan pode ser até um pernona mais autoritária que Dilma, ou mais desonesta. Ou mais seja lá o que for. O problema que o petismo enfrentou não é o que ele é, ou deixa de ser, mas a completa falta de credibilidade de qualquer coisa que ele seja não seja ou diga que é ou não é.

O autoritarismo ilegitima qualquer ação, mas a incredibilidade paralisa qualquer possibilidade legitima de reação.

Logo a resposta de porque o povão não se levantam contra o golpe aqui como o de lá e não contra o daqui e simples e direta? Aos olhos do povo não há golpe. Isso não quer dizer que ele não exista, quer dizer que a construção da narrativa não funcionou. Porque a confiança foi quebrada. E confiança é regida pela entropia, é leite derramado, não volta mais para o copo sozinha com o tempo.

O pior é que enquanto essas velha mentalidade decaída perdurar e continuar a ser reproduzida como se fosse hegemônica; como se ainda dominasse o aparelho estatal, querendo ditar o comportamento das massas e bancar a policia do politicamente correto, tudo isso principalmente agora que o poder de fato derreteu junto com a credibilidade ela só vai se prestar a ser uma especie de buraco negro tragando todas as esquerdas, mesmo as que não tem nada a ver com elas para a sua mesma vala comum.

Sim todas. Mesmos os “místicos” e “sonháticos” terão que lutar e muito para se desvencilhar desse enorme abraço de afogado “pragmatista” que odeia tudo que não é espelho. Até porque aplicando a mesma crítica o que é para a opinião pública brasileira um libertário de esquerda senão um unicórnio?

Isso é claro se o DataFolha que já vem seguindo a mesma trilha da incredibilidade estiver mesmo correta:

http://www.brasil247.com/pt/247/poder/244400/Datafolha-pr%C3%B3-Temer-%C3%A9-fraude-estat%C3%ADstica.htm

Ou seria essa discrepância mais uma teoria conspiratória?

Neste caso somente a consulta popular teria resolvido, mas com 3% ou 60% o momento passou. e só não digo que já era. porque ela pode voltar com toda a força se um fato novo aparecer ou acontecer nos próximos meses. Uma nova prisão ou uma grande manifestação popular. Tudo isso pode não ser mais tão provável quanto antes. Mas ainda é bem mais crível que muita teoria circulando por aí como se fosse notícia.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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