Supremacismo, Alienação e Desumanidade

Perdoai-vos. Mas será que essa gente não sabe mesmo o que fala?

Bruna é suave. E isto como vocês poderão conferir é mais do que um elogio. É um reconhecimento ao seu trabalho. Para certas coisas ela tem muito mais estomago do que eu. É até de dar pena a baixeza do cara se ele não estivesse tocando num dos maiores caros crimes da humanidade e piores métodos de genocídio, o lento e silencioso por monopólio e privação dos bens comuns e necessidades vitais e ambientais. Crime que todas as nações e corporações desenvolvidos são no mínimo cúmplices quando sustentam os regimes corruptos e criminosos, que exterminam seu próprio povo com sua irresponsabilidade, negligencia ou repressão destes países subdesenvolvidos para tomar seus recursos. Mas o que ele sabe ou quer saber disso?

De boa, a falta de noção do cara é até hilária, se não usasse um problema tão sério. E não vamos crucificar o coitado, quando o que não faltam é genuínos brancos alienados candidatos a ocupar a mais poderosa cadeira do planeta como um verdadeiro “trono do capeta”:

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Mas, antes de continuar com o quero falar. Preciso adiantar que mesmo pegando bem mais pesado, não quero que tomem este artigo como um ato de policiamento ideológico. Não sou hipócrita: não dou a mínima pro cara. Só vou usar descaradamente o gancho dele para escrever o que penso sobre o assunto. Até porque há coisas importantes por trás desta polêmica. E como ele parece ser um especialistas em chamar a atenção para si usando estas coisas, faço questão de trazer de volta para o primeiro plano, ao menos aqui, onde posso, essas questões que são caríssimas para mim.

Vamos lá.

O comentário do cara sobre a África não é só mais um cometário idiota feito por um preto da casa, mas um dos mais racistas feitos por legítimo supremacista… branco. Sei que tem gente que jura que o cara é negro, mas isto é só uma questão de perspectiva, ou completa da falta delas, ao sul do Equador certas coisas do Norte sempre parecem bem mais “claras”.

Talvez haja gente que diga que eu como “branco” não tenho a cor certa para criticar a “negritude” de um “legitimo” “afro-americano”. Como assim? “Negro”, onde? “Branco”, onde, cara-pálida? Quem já teve a chance de sair da Senzala-Brasil e viajar por esse mundo feito Casa Grande sabe: somos absolutamente iguais a todos que não tem preconceitos… tanto quanto somos só mais um macaco vindo do fim mundo para os supremacistas das mais diversas cores, credos e nacionalidades. Um pouco mais brancos… um pouco mais pretos… mas nunca com a gene e a origem certa. É claro que quanto mais branquinho mais tempo você pode passar desapercebido- ou tentando se esconder- mas no final das contas a pegunta não é o que eles pensam de você, mas quem é você, ou o que quer ser?

Eu sei que de onde venho, e faz algum tempo percebi quem eu sou. Por isso, sei que se ficar no lugar errado por muito tempo posso não só ser deportado, mas acabar preso do outro lado do muro e fronteiras junto como as pessoas excluídas das periferias do mundo afora. Não sou um branco perdido nos trópicos. Sou um não-branco, e partilho do destino de todos eles, inclusive daqueles vindos dos lugares mais brancos e ao norte do mapa, que não suficiente ricos ou idiotas para se achar ‘iguais” aos mais puros, ricos e apartados espécimes da desigualdade de poder da raça humana.

Definitivamente, ser branco não é uma questão de cor mas um estado de discriminação, assim como o ser negro ou humano é um estado de igualdade por solidariedade aos segregados. E não vamos construir nenhuma humanidade nem como noção prática, nem como realidade sem inteligência, sem solidariedade com os oprimidos que querem ser iguais e contraposição aos supremacistas que odeiam todas as formas de igualdade sobretudo a liberdade básica para os outros: o direito igual de participação no mundo.

A imbecilidade de um West é digna de um Trump, mas revolta mais porque Trump sabe quem é e o que quer ser. Ele é mais um palhaço louco pelo poder que não tem pudor de abraçar o discuso dos inimigos indeclarados da humanidade para chafurdar no poder. West, nos revolta profundamente, porque é um espelho, da nossa maldita condição servil, do quanto levantamos a bunda e nos humilhamos diariamente, não importa quanto dinheiro possamos ter para não ser mais tão iguais ao resto do mundo, ou iguais ao sujeitos mais desiguais em poder do mundo.

Aliás, não precisa nem entrar no sonho americano, para ver tudo isso. Em qualquer lugar do mundo, tem gente muito bem de vida igualmente se vitimizando contra “imperialistas”, “colonizadores” e “burgueses” quando não passam de seus capachos, enquanto gente sofre não só mundo afora, mas debaixo dos seus olhos.

A pobre mentalidade alienada e vitimizada de West não deixa duvidas: a humanidade não se construirá em suplicância e subservieniência patéticas dos “vitimizados”, nem da compaixão e consciência dos supremacistas escolarizadores, mas da vontade dos verdadeiros marginalizados em serem iguais não em riquezas, raça ou aos supremacistas, mas em dignidade e liberdades fundamentais e direitos de participação como sujeitos do mundo, e não mero objetos.

A humanidade não nascerá de discursos de igualdade dos desiguais em poder para o resto do mundo, mas da solidariedade do resto do mundo contra seu estado de desigualdade. Nascerá da consciência de identidade que liberta o excluído contra todas preconcepções que nos apartam e jogam os desiguais uns contra os outros. Da opressão dos que se julgam superiores a todos nascerá a noção de igualdade dos oprimidos e finalmente nossa noção global de humanidade como identidade dos libertos em consciência da sua identidade. A igualdade humana não nascerá da abolição das discriminação pelos próprios segregadores, mas da proteção mútua dos segregados contra a discriminação pelos libertos que se reconhecem como iguais contra todos os que odeiam a igualdade entre os livres e iguais.

Não, não serão se acham brancos e suas concessões de poder a construir a verdadeira humanidade, mas os que se identificam e se reconhecem voluntariamente iguais como negros, os que compreendem senão por experiência por inteligência e sensibilidade que a condição da humanidade é negra, é carente de liberdade e igualdade básicas e que somente os próprios segregados e solidários despertos e unidos conquistarão toda a dignidade humana que lhes é negada, mas desenvolverão de fato toda humanidade que ainda sonhamos.

Mas dane-se minhas digressões.

O que é incrível é a habilidade da Bruna para plantar uma flor neste monte de bosta. Tenho pena de quem não reconhece. Se não fosse pelo empenho dela nosso projeto já teria morrido faz tempo, ou por mim já teria comprado a briga política, feito da causa da renda básica a guerra que as pessoas merecem. Ela consegue pegar o gancho e publicar algo produtivo, eu só consegui lembrar de referências como Luther King, Mano Brown, Malcolm X e Sam Cooke. Aliás os primeiros defendem uma renda básica:

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E o terceiro, bem o terceiro, até gostaria de saber o que ele teria para dizer sobre isso, mas muito mais sobre muitas outras coisas, se ele tivesse tido um pouco mais de tempo:

Não viu o filme?

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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