Somos todos iguais, meu irmão, porque somos negros. E somos todos negros, porque somos iguais. Só nos falta agora o que nos faltou sempre, sermos livres…

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/07/nunca-pensei-que-ia-acontecer-comigo-diz-brasileiro-alvo-da-xenofobia-pos-brexit-no-reino-unido.html

Somos todos iguais. Estamos todos vulneráveis ao supremacismo. O que muda não é só tempo e lugar em que cada um descobrirá inevitavelmente isso, mas antes o como:

. Se por solidariedade a carne do outro,

. ou sofrimento na própria carne.

. Se quebrando a inevitável cadeia de causas e consequências que lhe espera.

Ou apenas esperando para que o futuro bata a sua porta e tarde demais ele descubra, como no poema de Brechet, que quem sempre foi enquanto dormia e se escondia… o próximo.

“Não vejo a historia como uma luta de classes, mas uma luta contra o supremacismo, uma luta pela liberdade contra aqueles que se consideram não meramente donos do mundo, mas muito mais propriamente donos dos seres reduzidos a meras partes apropriáveis do mundo visto como seu. Uma luta contra a presunção de superioridade dos que se julgam mais iguais que os outros, ou o que é a mesma coisa, sua preconcepção de inferioridade de todos que lhe são diferentes e indiferentes.

É claro que somos todos absolutamente diferentes uns dos outros, somos todos diferentes fora nosso direito igual e inviolável de o sê-lo. Somos portanto absolutamente iguais na liberdade de conceber o sentidos próprio de nossos vidas, quer para afirmar que exista sentido na vida ou não. Sendo essa liberdade de autosignificação em si o direito de proprioconcepção absolutamente necessário a toda nova geração e a geração de tudo que é novo.

Vejo, portanto não apenas um momento de crise sistêmica, mas um momento revolucionário. E neste momento em que a luta pela liberdade caminha para a revolução, a luta entre brancos monopolizadores e os não-brancos periféricos, se torna não apenas mais evidente, mas sobretudo se torna uma luta disruptivas e descentralizada, e se reconfigura como luta de gerações e gênero. Uma luta entre o velho o novo, entre os patriarcas e suas mulheres e filhos. Uma luta entre novas e velhas gerações por espaços e tempo livres. Uma luta não mais por ideologias e utopias, mas mais uma vez uma luta pelo renascimento de novos mundos e seu direito a fertilidade e criatividade e concepção.

Esqueçam as divisões de classes e classificações, não olhem para idade não olhem para cor de suas peles, ser um velho branco supremacista idolatra do poder total, ao invés de um libertário revolucionário jovem (gringo ou negro; homem ou mulher) não é uma manifestação material, predeterminista ambiental ou genética, nem ideológica (ambientalista, sexista ou racista), mas uma manifestação do indeterminismo do fenômeno transcendental e incognoscível da força da livre vontade como liberdade de consciência e proprioconcepção, a força libertária e criativa capaz de materializar o novo simplesmente a partir do nada.

Vejo de um lado uma geração materialista movida por preconcepções de poder disseminando o ódio levantando muros e se preparando para a guerra, se agarrando desesperadamente na sua ilusão de vida eterna e seus mitos corporativos e estatizadores e egocentrados que dão corpo a seu culto supremacistas e valores absolutos, insistindo em se apropriar e consumir toda a vida artificialmente. E do outro novas formas de vida, novas gerações demandando o que também é seu por herança natural e direito. Demandando não só um lugar e tempo livre nesta terra, neste mundo, mas uma chance para desenvolver todo o potencial da sua vocação e exercer em paz sua direito não só material mas espiritual a livre vontade.

Vejo a luta entre gente que acredita que possa ser dona de tudo por apropriação lockeana e corporativismo hobbesiano e uma nova geração que não quer nascer escrava dos seus genitores acometidos dessa síndrome de Cronos. E então peço que se perguntem: quando falamos de uma renda básica estamos com certeza falando de liberdade para todos, mas liberdade “para o quê” e “todos” quem?

Não existe identidade que se firme sem noções de propriedade nem propriedades que se afirmem sem relações e consideração das identidade alheia com ser dotado do fenômeno da vida enquanto espirito de liberdade. Devemos nos libertar de todas as preconcepções de poder e conceber de acordo com nossa própria consciência não só a qual geração pertencemos, mas qual é nosso entendimento da propriedade e por consequência qual é nossa identidade e comunidade humana.

Nossa identidade se determina de forma integrada a nossa noção de propriedade, e aquilo que somos se determina através daquilo que julgamos poder possuir em relação aos outros seres naturais e igualmente dotados de anima e sensibilidade. Por isso propriedade e identidade não se constituem separadamente mas de forma conexa e integrada em relações dialógicas por nexo comum de mundo como rede.

A questão da propriedade antes de ser particular e coletiva, artificial ou natural é uma questão de entendimento e consideração de quem somos por consideração de quem são seres e quem são apenas coisas. Abstrair é discriminar, e a pergunta que separa os territórios de apartheids nacionalistas das terras libertárias dos povos é:

· a quem consideramos como iguais em autoridades e liberdades fundamentais;

· e a quem segregamos dos direitos de posse e decisão sobre o bem comum e natural.

Ou em outras palavras:

Quem são considerados como iguais: sujeitos com o direito de possuir, estudar e usar as coisas de mundo; e quem são os outros, o restos dos seres reduzidos a meros objeto do NOSSO estudo, emprego, meros recurso naturais e humanos.

Quem são seres e quem são coisas?

Quem são os que tem seus direitos humanos e universais de fato garantidos e quem soa os descriminados e segregados deles?” (…)”

“Quem defender a renda básica e direitos humanos e naturais e nunca sentiu está sensação precisa fazer mais trabalho de base para entender o abismo entre direitos enquanto representação e farsa de papel e garantidos como práxis. E enquanto as constituições não forem capaz de proverem isto ela não estarão longe dos ideais e direitos plenos e democráticos que pregam.

A renda básica é tanto indissociável dos direitos políticos e econômicos em sua plenitude quanto a democracia direta como liberdade fundamental precisa da renda básica como meio de autosustentação das livres associações e de paz. Sejam elas econômicas, politicas, religiosas, culturais, todas tem o mesmo direito de manifestação e participação sobre o interesse comum e, portanto o dever de coexistir pacificamente.

Vivenciar nosso tempo, sem defender a democracia direta; sem defender a autodeterminação das pessoas naturais; a liberdade civil plena e reintegrada dos direitos politica econômica e culturais; sem defender os princípios ecológicos, libertários e jusnaturalista não só humanistas e cosmopolitas, mas naturalistas; apenas seguir em frente sem defender as novas gerações é renunciar a soberania sobre sua própria vida e se negar a viver as evoluções e revoluções do seu próprio espaço-tempo.

Crer-se ainda superior ou invulnerável, num mundo em que existem diferenças de raças, um mundo onde ninguém é suficientemente branco (não aos olhos dos idolatras do poder e supremacistas cada vez mais isolados no topo dos seus castelos e pirâmides) não é apenas reacionário é alienação. Vivemos num mundo em que cada vez menos gente é suficientemente bem nascida, geneticamente privilegiada, suficientemente rica, militarmente protegida, culta poderosa ou livre o suficiente para não estar reduzida a serva da mesma egrégora cultural da mesma inconsciência coletiva global, onde ninguém esta livre de sofrer a tragédia de todos os demais.

E somos iguais é porque somos todos negros então.

Por isso afirmo não há libertário consciente que se considere igualmente branco aqueles que se os mais brancos entre os homens da terra. Não existe libertário que por livre escolha não renuncie a todo supremacismo de gene. Se realmente existe qualquer necessidade de uma renda básica é porque existe gente que não por acaso nasce privada dos seus direitos naturais e ainda está a espera da liberdade e da completude da abolição; que ainda espera que o trabalho servil e forçado disfarçado e compensado pelo trabalhismo seja superado. Por isso não se enganem, minha pele pode não ser tão negra, mas não nego minha origem, não tenho ilusões da minha condição tanto negra perante a colonização quanto latina perante o mundo e suburbana perante meu concidadão.

Mas não fujo da minha condição nem da condição da humanidade a abraço, mas não para me conformar com ele. Pertenço, sobretudo a uma mim mesmo e a minha própria nova geração e faço questão de afirmar minha certeza parafraseando o espirito da canção de protesto brasileira: já não somos os mesmos e não queremos viver mais como nossos pais.

Escolhi aqui para fazer este discurso. Como disse não foi ao acaso, porque olho para muitos amigos aqui e vejo como lá em Quatinga Velho — onde tive a honra de fazer um dos primeiros pagamentos de uma renda básica solidária, sistemática e independente , olho para vocês e aqui como lá num lugar tão distante e diferente de onde nasci e fui criado e vejo irmãos. E neste exato instante entendo a maior lição revolucionária da prática utópica: não há liberdade nem igualdade sem fraternidade.

Que governemo-nos então.”

Trecho do Discurso sobre a Renda Básica Revolucionária

“Primeiro levaram os negros/Mas não me importei com isso/Eu não era negro./Em seguida levaram alguns operários/Mas não me importei com isso/Eu também não era operário./Depois prenderam os miseráveis/Mas não me importei com isso/Porque eu não sou miserável./Depois agarraram uns desempregados/Mas como tenho meu emprego/Também não me importei./Agora estão me levando./Mas já é tarde./Como eu não me importei com ninguém/Ninguém se importa comigo.”

Bertold Brecht

Fiz esse alerta no Brasil e no Mundo, precisamos de Renda básica incondicional e universal ou projetos autoritários e totalitários de esquerda e direita vão tomar lugar no mundo. Repito esse alerta com mais urgência. Quanto mais demoramos, mais precisamos dela e mais caro fico. Vai chegar um momento (e nunca sabemos quando esse momento chega ou se já chegou), em que o custo será impossível de pagar, o que significa que nem mesmo a renda básica poderá conter a ruptura dos tecidos sociais.

O altruísmo, a inteligência solidária não é por um capricho moral, mas sim uma capacidade singular de adaptação evolutiva da nossa espécie para sobreviver as mais adversas condições de vida. Cabe a nossa geração determinar os quão evoluídos como humanidade estamos ou não, ou se ficaremos nisto mesmo: macacos brancos racionais e territorialistas de ternos e gravata. Seremos mesmo só essa espécie supremacista idólatra e segregacionista com direito igual a vida como qualquer outra espécie? Ou conseguiremos enfim nos compreender de fato não só como meros semelhantes ou próximos, mas pessoas diversas distintas distantes e diferentes ainda sim iguais em direitos naturais inalienáveis a vida e a liberdade e propriedade enquanto convivemos em paz?

Será seremos iguais também ao sul e oriente periférico do planeta tanto quanto ao norte e ao ocidente centro geopolítico do velho mundo? Ou vamos deixar que nossos supremacistas e seus estados de apartheids entre os povos nos arrastem para mais conflitos e destruição?

O supremacismo dos povos contra os povos, de gene contras gene, de classes contra classe, e da nossa espécies contra todas as outras de vida nos levará a morte materialista. A preconcepção dos seres como recursos e objetos que nos leva ignorar os direitos de todos aos meios virais e ambientais é a raiz do mal da nossa desumanização milenar. Ou esquecemos as fronteiras imaginárias e passamos a nos respeitar de fato como seres humanos dotados de direitos universais e naturais, ou amargaremos senão a morte do Planeta a morte da humanidade como sonho cosmopolita.

Não vivemos uma luta ideológica, vivemos uma luta libertária, uma demanda para que o paradigma de uma nova geração também tenha um lugar e tempo livre no mundo de hoje. Isto não é luta de uma classe, isto é uma luta de libertária. Renda básica não é apenas uma questão de ordem e direito, é uma questão revolucionária clássica de fundação de contratos sociais legítimos. Portanto, há que se ter coragem, há que se ter responsabilidade, há que se ter livre iniciativa. Há que ser contemporâneo de seu tempo e viver a sua própria história.

Há que se praticar o que se prega. Há que viver nos lugares que só se conhece nos livros e, sobretudo há que se fazer o bem que se quer do estado e da sociedade antes de tudo com suas próprias mãos e recursos. Porque quem nunca conhecer o que é a miséria nem praticar a liberdade, jamais saberá o porquê de uma renda básica, não saberá, não quererá saber e terá raiva de quem sabe.

Há, portanto que se entender que se há pessoas destituídas de direitos então há gente ganhando com a servidão. Onde há privação de direitos e liberdades fundamentais, há brancos e negros. E meu amigo, se você não é dono do mundo, se você não é filho do dono. Então não importa a cor da sua pele, sua gene, descendência ou o lugar de onde você veio ou nasceu. Você, assim como eu é Negro. Não importa o quão branco você pense ou pareça ser pode ter certeza não é o suficiente.

Da minha parte não tenho a menor dúvida do que sou e do que quero ser. Por mais branco que um racista desavisado (branco ou negro) ache que eu seja eu sou negro de corpo, vida e alma. Posso até ter nascido e ter sido criado para ser branco, mas me orgulho profundamente de ter me voluntaria e conscientemente me tornado negro, latino e americano — e ainda por cima brasileiro no sentido pejorativo que os moralistas, nacionalistas e racistas adoram dar a essa palavra.

Assim como há libertário verdadeiro que não seja defensor da libertação e abolição da exploração do homem, não há libertário que se diga conhecedor da necessidade da liberdade sem se identificar com a condição negra, e que mesmo sendo gringo não deserte para as trincheiras dos não-brancos, dos não-supremacistas, dos não-violentos.

Mas eu não sou gringo. “Se achar” um legítimo branco nascido brasileiro e latino-americano só porque não tem a pele negra, não nasceu na favela ou não é pobre nem miserável é ser um completo imbecil quanto a sua identidade. É como o membro de gangue neonazista suburbano, brasileiro e afro-descentende, no mínimo um completo ignorante do que é seus “irmãos de ideologia” nos países ao norte do equador pensam dele.

Sim sou negro. Um dissidente e exilado político dentro do meu próprio país. E negros, refugiados, exilados, marginalizados latino americanos, africanos pobres do mundo inteiro não ganham liberdades nem independência de presente dos seus governos de esquerda nem muito menos de direita eles a conquistam juntos e em solidariedade no mínimo contra a falta de vontade politica deles.

Não? Você não como eu, você não se acha negro. Não? Você é branco, ocidental, caucasiano, estudante e estudioso, trabalhador e empresário, homem de berço e família. Ok. Quem sou eu para discordar? Acredito que cada um deveria poder definir livremente sua própria identidade, mas não se esqueça de perguntar aos 0,1% de supremacistas do mundo se eles também concordam, ou se pelo menos eles te acham tão brancos quanto eles. É só por garantia mesmo. Afinal, vai que…

Cada vez mais a questão da falta de um Renda Básica no Brasil e no Mundo me lembra nitidamente cada vez não o poema “No caminho, com Maiakovski” de Alves da Costa. escrito no final da década de 60, em plena ditadura militar e que retornou a ser lido em 84 nas campanhas da “Diretas Já” :

“Na primeira noite eles se aproximam/e roubam uma flor do nosso jardim/E não dizemos nada/Na segunda noite, já não se escondem:/pisam as flores,matam nosso cão,e não dizemos nada./Até que um dia,/o mais frágil deles/entra sozinho em nossa casa,rouba-nos a luz, /e,conhecendo nosso medo,/arranca-nos a voz da garganta./E já não podemos dizer nada.” (Alves da Costa)

Trecho do Artigo Renda Básica e os Refugiados no Brasil

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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