Sobre o Posfácio de Kevin Carson Ⓐ ao livro “Renda Básica Universal”

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“Renda Básica Universal” no Amazon

Sobre

Recentemente conversávamos, eu e um amigo, a falta que faz um novo pensamento para uma “nova esquerda”, quero dizer, de fato “nova” e verdadeiramente “de esquerda”. Problema que, diga-se de passagem, também existe na chamada “nova direita”. Ou melhor, pode até não ser exatamente o mesmo, mas é bastante similar, ao menos em termos de carestias e seus males. Pois, se do outro lado, o quê não falta agora é “novidade”, esse dito “novo” já nasceu padecendo do mesmo mal do qual, não por acaso, morreu (e esqueceram de enterrar) a velha esquerda, e onde falta originalidade, coerência e honestidade (pelo jeito, também, não só intelectual) sobra emulação de noias e paranóias com sinal trocado- e claro, legiões de crédulos e crentes em prontidão a militar por elas.

Na verdade, são problemas e carestias que se complementam a formar um ciclo vicioso em espiral desconstrutiva, tal que as novas (e boas) referências que faltam para os argumentos de um lado, alimentam a pobreza e insanidade das objeções do outro, e vice-versa; enquanto isso, numa ponta tanto sobra lixo tóxico reciclado vendido como novo, quanto na outra velharias que de tão tóxicas (e queimadas) nem como lixo mais se consegue vender. E olha que em matéria de velharias e lixo- não só ambiental, mas intelectual- importamos, copiamos e consumimos- na falta de coisa melhor e seus meios de produção- praticamente qualquer coisa, mesmo as vencidas e/ou tóxicas.

Enfim fazíamos o que muita gente que ainda não endoideceu de vez, nem é obrigado a bancar o maluco em tempo integral faz quando se julga fora do alcance dos olhos e ouvidos das patrulhas ideológicas dessas nova normalidade: simplesmente jogávamos conversa fora… tentando, talvez esquecer o que no fundo sabemos, mas não queremos acreditar: picaretas e velharias fora, a soma deste jogo é zero. Com eles dentro, e ainda por cima dando as cartas, pior ainda, ou nada mais nada menos do que temos como atualmente como realidade.

Pode até soar como pessimismo, mas o fato é que não há luz no fim do túnel, ao menos não desse túnel que insistimos teimosa e estupidamente em cavar não importa para onde desde que seja na direção errada. Pessimismo seria sim, dizer que não há nenhuma saída, quando, muito pelo contrário, em verdade existem várias! Tanto a direita quanto a esquerda. Contanto, é claro, que se cave para sair do buraco, em direção à luz e liberdade, e não cada vez mais fundo, em direção ao subterrâneos do obscurantismo e autoritarismo. E dado o atual estado de espirito geral, onde obviedades, incluso as lógicas, precisam ser reafirmadas e renegadas, é sempre bom dizer: o lado, também neste caso, é ainda mais especialmente irrelevante. Assim como, aproveitando o embalo, é bom dizer que também ficar indo e voltando atrás, ora a esquerda ora a direita, porém sempre por caminhos que já passamos e sabidamente não deram em lugar nenhum não adianta nada. Algo que a esta altura da nossa história é, ou pelo menos deveria ser, evidente para não se precisar dizer. Afinal, depois de cavar tanto por todos os lados já deveríamos ter percebido que se parce que estamos sempre afundando mais num buraco sem fundo, é porque não parece, é e estamos. E por uma razão muito simples: não estamos cavando em direção a saída, estamos nos enterrando cada vez mais fundo em nossa própria cova.

Entretanto não era sobre essas ditaduras de idiotas e o enterro do futuro que nunca veio que conversávamos, não exatamente. Mas sobre o pensamento libertário e possibilidades, ainda que remotas que ele abre de futuro não só para a esquerda (ou direita), mas para o mundo. Falávamos portanto de utopias que parecem ainda distantes que a própria renda básica genuinamente universal. Um mundo hipotético (e bota hipotético nisso aí) onde ainda existisse a mínima possibilidade de denominadores comuns ao diálogo. E não as legiões de fanáticos entorpecidos por cultos populistas a personalidade, a bradar, cegos e surdos, de tochas na mão, prontos a se matarem uns aos outros e quem quer ouse interferir em suas guerra santa pelo monopólio da violência) ao comando de falsários e farsantes ideológicos que se são honestos e transparentes, o são apenas em uma coisa: sua completa incapacidade de juntar lé com cré. Mas admitamos seus “méritos”, nesse famoso “caos que não se improvisa”: não precisam juntar nada com nada. Afinal, enquanto narrativas paranoico-conspiratórias com ares de revelação profética, cumprem a risca a sua função de efeito manada a mobilizar gente frustada a beira de um surto psicótico em nome de suas bandeiras, ídolos, e (seja lá qual for) interesses embrulhados com neles. E o quê mais um projeto de poder alienista precisa senão isto? Senão de uma legião de alienados ainda maior, mais fiel e prediposta ao emprego da força de fato do que a da concorrência? Que melhor arma de “dissuasão” (e conversão) em massa das populações há que esta, especialmente sobre a sua própria população?

A pescaria em aquário, onde sabemos muito bem, quem vai morrer pela boca. E embora, nenhum povo tenha o governo que merece, até porque se tivesse não seria povo, mas soberano. Toda sociedade, esta sim, sempre faz por merecer não só o grau, mas a natureza da liberdade, autodeterminação e soberania que possuem- seja como servos mais ou menos livres ou presos, seja como soberanos mais ou menos empoderados. No entanto, sejam as sociedades servis ou soberanas, governem ou sejam governadas, se insolidárias, se compostas de pessoas amputadas de seus instintos gregários e desprovidas de um mínimo de empatia para sustentar sua dignidade e integridade como iguais, essas sociedades só têm um destino, ou se preferir, estão predestinadas… predestinadas a se apartar até desintegrar-se na miséria da miséria, a tirania. Pois, é no vácuo deixado pela nulidade da solidariedade como ação, e de consciência libertária como sua ideação, que cresce sua degeneração, esse câncer da humanidade, o parasitismo predatório e autoritário.

Preencher esses vazios (em tempo hábil) eis o desafio. Parar de nos enterrar em velhas e ultrapassadas trincheiras e suas guerras ideológicas, e tomar ciência do pensamento libertário (e seus autores) contemporâneo é ainda mais fundamental e preemente do que saber o que viria a ser uma verdadeira renda básica devidamente libertadora e universal. Não só porque a devida compreensão desta depende e muito daquela, mas porque sem a inspiração de um vontade de liberdade verdadeiramente solidária jamais vamos sequer conseguir parar de cavar cada vez mais fundo essa cova coletiva do autoritarismo de todos os espectros, onde trocam-se os contos, as lendas e seus contadores de história, mas a ladainha dos salvadores e salvação segue a mesma, assim como a procissão. Isto sem falar, que em tempos de crentes em terras planas, “nazismos de esquerda”, e cumprimento de profecias apocaliptico-messiânicas, conhecer o pensamento lúcido de autores que não estão presos ao maniqueismo esquerda-direita, mas orientados e posicionados pela noção da liberdade, em oposição a todo espectro de regimes e ideologias autoritários é fundamental, principalmente se não quisermos viver condenados a fazer oposição e objeção a baboseiras que só servem para uma coisa: continuarmos onde estamos, na ditadura da ignorância.

Kevin Carson, é sem a menor sombra de dúvida um desses pensadores seminais para a compreensão do rico debate libertário contemporâneo, e referência para a construção não só de qualquer esquerda que tenha a pretensão de ser realmente nova, mas para todo um campo de debate de pensamento libertário não só de teses, mas como ação e ativismo social para além dos ciclos viciosos que constituem esses arcabouços arcaicos e reacionários dos séculos passados e retrasados, que ainda não conseguimos escapar; um arcabouço que até quando travestido de novo e revolucionário, já vem cheirando a farsa e naftalina de séculos passados e retrasados - colonial, oligárquico, burocrático, corrupto, doutrinário e não importa o sentido do sinal, autoritário. Isto quando não é pura e simplesmente lunático.

De modo que se esse posfácio, for seu primeiro contato com a obra deste autor, recomendo que não se detenha nem pare nele, mesmo se não tiver nenhum interesse na obra em questão ou mesmo na renda básica, porque nem uma nem outra faz jus a sua produção de Carson. E se não é, sabe que tenho razão. Porque, de boa, precisamos de menos aiatólas alucinados e mais livre pensadores lúcidos, e mesmo que não precisássemos ainda sim valeria a pena. Mas o fato é que precisamos, até mesmo para conseguir entender a importância de trabalhos e iniciativas tão inovadores como o de Fabiana Cecin que prefacia este mesmo livro. Considero-me portanto uma pessoa de sorte, por ter um livro cuja as faces foram feitas por duas pessoas que nunca tive o privilégio de conhecer pessoalmente, mas que estão entre aquelas que mais respeito e admiro. Obrigado a ambos.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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