Separando o joio do trigo, a esquerda e direita

A honestidade e a desonestidade intelectual definas na prática a partir da condenação seletiva de Temer ou Maduro.

Dizem que errar é humano, e persistir no erro é burrice. Mas não se engane, as vezes tamanha cegueira seletiva é só canalhice mesmo.

Se o Fica Temer é o ápice da desonestidade intelectual da direita de que pediu o Fora Dilma. A da esquerda, é a defesa escancarada e agora institucionalizada ditadura militar venezuelana e isso independente se o defensor defendeu o “fica Dilma” e “fora Temer” contra o golpe e em defesa da democracia. A defesa da ditadura na Venezuela é o divisor de águas entre a esquerda disposta a aceitar violações de direitos desde que em nome da sua ideologia, e aquela cuja a seu ideal é antes de tudo a defesa incondicional desses direitos.

Rápida recapitulação da história recente:

Durante o processo de impeachment de Dilma a esquerda se fragmentou. Com o centro formado por PT e partidos satélites defendeu até o fim a permanência da ex-presidente; E o restante da esquerda tanto a mais radical quanto a mais liberal, defendendo desde o principio a deposição não só dela mas de ambos Dilma e o então vice Temer, e mais a corja de ambos PT, PMDB e PSDB que nem situação era no que seria o chamado “Fora Todos”.

Do outro lado a Direita, de um modo geral, apoiou em principio a saída de Dilma e o PT ascensão de Temer na aliança de PMDB-PSDB. E depois com os escândalos foi a vez dela direita se fragmentar: com os lavagistas mantendo a defesa intransigente do combate a corrupção, e aderindo ao “Fora Temer”. E do outro lado os mais novos governistas transigindo com a corrupção em duas posturas igualmente abjetas de defesa: uma, a cópia escarrada da dos argumentos “pragmatismo” da esquerda, na linha antes nossos canalhas de estimação que os deles. A outra, ainda mais repugnante, é aquela que diz transigir em defesa da economia, do mercado ou até do pais. Maluf que dispensa apresentação não faria melhor. Ele superam seu infame “estupra mas não mata”, pelos banksters “pode estuprar e matar, só não venha foder com nossos negócios, quero dizer nossa economia. Por eles se Hitler tivesse sido brasileiro, o nazismo estaria aí até hoje, ou para não ser injusto enquanto tivesse mantido seu milagre econômico agradando esses “agentes de mercado”.

Entretanto diga-se em favor da canalha da direita que a grande maioria “apenas” mantive “somente” aquela cara-de-pau de fingir a mais absoluta normalidade para sua desonestidade, tipo “o que há de errado nisto?” de preferencia com a expressão da moda entre os que querem fingir surpresa, perplexidade. Pode parecer pouco, mas quando se leva em conta que a canalha de esquerda foi além, partindo para acusar de moralista e até fascista quem quer que ousasse não se submeteu a ditadura dos seus escrúpulos precários e desculpas esfarrapadas. Entende-se porque hoje em dia Renan Calheiros outrora apenas aliado estratégico da direita mais arcaica se sente tão em casa e a vontade para se dizer sem pudor como tendo sido sempre de esquerda.

Assim se a queda de Dilma, causava alguma honesta controvérsia: seja na direita que ainda não conseguia ver que o que viria era pior, mas sabia que o que estava não poderia ficar. Seja na esquerda que pelo contrário sabia que o que viria era pior, mas não conseguia ver que como estava não poderia mais continuar. Para o desespero da população e dissidentes dos dois lados, que não viam nenhum dilema e desde o principio pediram, o que se tornaria (apesar de todos os esforços em contrário) o obvio: a cabeça de todos e novas eleições- e diretas por favor, que bandido elegendo bandido é assembleia de sindicato de ladrões e não congresso. Algo que ainda é só objeto de controvérsia, entre a nata da desonestidade intelectual.

Assim se o Fica Temer é foi o ápice da desonestidade intelectual da direita de que pediu o Fora Dilma. Na esquerda, essa separação do joio e do trigo se dá agora na institucionalização da já escancarada ditadura militar venezuelana. Pois, mesmo quem discorda, não pode negar havia coerência, mesmo que só interna, em quem advogou pelo “fica Dilma” e “fora Temer” contra o golpe e em defesa da democracia. Mas nem essa coerência só ideológica resta quando o mesmo individuo passa sem nenhum pudor a defender Maduro. Essa é a assinatura do extremo oposto da mesma lógica dos banksters, só que ao invés de orientada ao mercado à ideologia partidária: “estupra e mata mas não venha foder como nosso projeto de poder”, leia-se estabilidade política.

Felizmente há ainda vida intelectual inteligente e honesta nas esquerdas, ainda que cada vez mais dissidente. A qual assina o manifesto abaixo pelo fim da violência da Venezuela, quem não tem de chamar pelo seu nome o regime madurenho:

On the one hand, there is a increasingly de-legitimized government, with marked authoritarian features. This dynamic started with the Executive ignoring other branches of state power; in particular the Legislative Assembly, where the opposition has a majority after its triumph in the elections of December 2015. The trend increased exponentially with the subsequent blockade of the recall referendum — a democratizing tool introduced by the Constitution approved under Hugo Chávez’s rule — and the postponement of the regional elections last year, until the failed coup attempted by the Executive. More recently, we must consider the recent call to a Constituent Assembly in a clearly unconstitutional way, which far from solving the crisis rather intensifies it. This initiative can be perceived as an attempt to consolidate a totalitarian regime in the context of an enormous social and economic crisis (evident in the lack of food of medicines, among other problems).

That said, we do not believe, as certain sectors of the Latin American left affirm, that we should acritically defend what is presented as an ‘anti-imperialist and popular government’. The unconditional support offered by certain activists and intellectuals not only reveals an ideological blindness, but is detrimental, as it — regrettably — contributes to the consolidation of an authoritarian regime. Our support for social and political change, including the criticism of capitalism, cannot be extended to antidemocratic projects that may end up justifying an external intervention ‘in the name of democracy.’ From our perspective, the defense against foreign interference must be based on more democracy, not on more authoritarianism.

On the other hand, as left intellectuals, we are also aware of regional and global geopolitics. It is clear that there are extremist sectors of the opposition (which is very broad and heterogeneous) that also seek a violent exit. For them, it is a question of exterminating, once and for all, the popular imagery associated with ‘dangerous’ ideas such as popular organization, participatory democracy, and a profound transformation of society in favor of the subaltern social sectors. These more extreme groups of the right have relied, at least since the 2002 coup, on political and financial support from the US State Department.

As citizens of countries of Latin America and other regions of the world, we express a double commitment. On the one hand, a commitment to democracy; that is, a participatory democracy, which implies periodic elections, citizens mobilized in the streets, and the expansion of public arenas for collective and community decision-making. This also means an egalitarian democracy, which entails the extension of rights towards a more just society. On the other hand, we express our commitment to human rights, which means basic and non-negotiable standards for mutual respect, to exclude torture, the killing of opponents and the resolution of conflicts through violence. -URGENT INTERNATIONAL CALL TO STOP THE ESCALATION OF VIOLENCE IN VENEZUELA

Embora pese o fato que essa denuncia venha um tanto quanto tardia, não há como se negar que ela pelo menos está vindo nesse momento que se não é o mais importante,é certamente o derradeiro, o último para fazê-lo. Embora seja costume dizer que antes tarde do que nunca. Está aí outra mentira ou engano. Quem não sabe que tardar bastante é quase sempre tudo que basta para não poder mais voltar atrás e impedir os erros? Que dizer então do persistir na apologia de tamanha falsidade ideológica? Sinceramente não sei, mas quando penso nelas não consigo deixar de imaginar como seria a história da humanidade, se quem a contasse não fossem os vivos, mas os mortos.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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