Saint-Exupéry e a Terra dos Homens : Quem matou o autor do Pequeno Príncipe?

E um documentário sobre a passagem do autor pelo Brasil

“Na nossa juventude, todos lemos e adorávamos os seus livros. A sua obra despertou a vocação de voar em muitos de nós” — Horst Rippert, piloto da Luftwaffe

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O piloto alemão Horst Rippert era um fã. Foto de um Masserschmidt ME-109 o modelo que ele pilotava

TERRA DOS HOMENS

Ligados aos nossos irmãos por um fim comum que se situa fora de nós, só então respiramos. A experiência mostra que amar não é olhar um para o outro, mas olhar juntos na mesma direção. Só há companheiros quando homens se unem na mesma escalada para o mesmo pico, onde se encontram. Não fosse isso, por que razão, no próprio século do conforto, sentiríamos uma alegria tão plena repartindo nossos últimos víveres no deserto? Que valem, contra isso, as previsões dos sociólogos? A todos aqueles dentre nós que conheceram a grande alegria de um salvamento no Saara, todo outro prazer parece fútil. É talvez por isso que o mundo hoje começa a rachar-se em nossa volta. Cada um se exalta pelas religiões que lhe prometem essa plenitude. Todos, sob palavras contraditórias, exprimem os mesmos impulsos. Dividimo-nos por causa de métodos que são frutos de nosso raciocínio, e não por causa de fins: estes são os mesmos. (…)

A verdade para um homem é o que faz dele um homem. Quando um homem que conheceu essa dignidade de relações, essa lealdade no jogo, esse dom mútuo de uma estima em que se empenha a vida, compara essa elevação à facilidade medíocre do demagogo que exprime sua fraternidade aos mesmos árabes com grandes tapas nas costas adulando-os, mas ao mesmo tempo os humilhando, esse homem, se acaso não concordais com ele, sentirá de vós uma piedade um pouco desdenhosa. E terá razão. Tufas vós tereis igualmente razão de odiar a guerra. Para compreender o homem e suas necessidades, para conhecê-lo no que ele tem de essencial não é preciso opor, umas às outras, as evidências de vossas verdades. Sim, vós tendes razão. A lógica demonstra tudo. (…)

É preciso, para tentar distinguir o essencial, esquecer por um momento as divisões que, uma vez admitidas, arrastam todo um Alcorão de verdades intocáveis, e o fanatismo consequente. Podem-se classificar os homens em homens da direita e homens da esquerda, em corcundas e não corcundas, em fascistas e democratas, e essas distinções são inatacáveis. Mas a verdade, vós o sabeis, é o que simplifica o mundo, e não o que gera o caos. A verdade é a linguagem que exprime o universal. (…)

A verdade não é o que se demonstra, é o que simplifica. De nada vale discutir ideologias. Se todas se demonstram, todas também se opõem, e tais discussões fazem desesperar da salvação do homem. Isso quando o homem, em toda parte, ao redor de nós, expõe as mesmas necessidades. Queremos ser libertados. O que dá uma enxadada no chão quer saber o sentido dessa enxadada. E a enxada do forçado, que humilha o forçado, não é a mesma enxada do lavrador, que exalta o lavrador. A prisão não está ali onde se trabalha com a enxada. Não há o horror material. A prisão está ali, onde o trabalho da enxada não tem sentido, não liga quem o faz à comunidade dos homens. E nós queremos fugir da prisão. Há duzentos milhões de homens, na Europa, que não tem sentido, e desejariam nascer. A indústria os arrancou à linguagem das linhagens camponesas e os encerrou nesses guetos enormes que parecem estações de triagem cheias de filas de vagões escuros. Do fundo das cidades operárias eles desejariam ser despertados. Há outros, presos à engrenagem de todos os ofícios, aos quais são interditas as alegrias do pioneiro, as alegrias religiosas, as alegrias do sábio. Pensou-se que para engrandecê-los bastasse vesti-los, alimentá-los, satisfazer a todas as suas necessidades. E pouco a pouco fundou-se neles o pequeno-burguês de Courteline, o político de aldeia, o técnico fechado à vida interior. Se os instruem bem, não os cultivam. (…)

Todos, mais ou menos confusamente, sentem a necessidade de nascer. Mas há soluções que enganam. Certamente podem-se animar os homens vestindo-os de uniformes. Eles logo cantarão seus cantos de guerra e repartirão o pão entre si, como companheiros. Terão achado o que procuravam, o gosto do universal. Mas vão morrer desse pão que lhes é dado. Podem-se desterrar os ídolos de madeira e ressuscitar os velhos mitos que, bem ou mal, já mostraram seu valor. Podem-se ressuscitar as místicas do Império Romano ou do Pan-germanismo. ·Podem-se embriagar os alemães da embriaguez de ser alemães e patrícios de Beethoven. Po­de-se embriagar com isso até o carvoeiro. É, certamente, mais fácil que tirar do carvoeiro um Beethoven. Mas tais ídolos são ídolos carnívoros. Quem morre pelo progresso da Ciência ou para descobrir a cura de uma doença serve a vida ao mesmo tempo que morre. É talvez belo morrer pela expansão de um território, mas a guerra de hoje destrói o que pretende favorecer. Hoje não se trata mais de sacrificar um pouco de sangue para vivificar toda uma raça. Uma guerra, desde que é feita com o avião e a iperite, é apenas uma cirurgia sangrenta. Cada um se coloca ao abrigo de uma muralha de cimento; cada um, não tendo nada melhor a fazer, lança, noite após noite, esquadrilhas que torpedeiam o outro em suas entranhas, fazem saltar pelos ares seus centros vitais, paralisam sua produção e suas trocas. A vitória é de quem apodrecer por último. E os dois adversários apodrecem juntos. Em um mundo que se fez deserto temos sede de encontrar companheiros: o gosto do pão dividido entre companheiros nos faz aceitar os valores da guerra. Mas não temos necessidade da guerra para encontrar o calor dos ombros vizinhos numa corrida para o mesmo fim. A guerra nos engana. O ódio não junta nada à exaltação da corrida. (…) E se é bom que as civilizações se oponham para favorecer sínteses novas, é monstruoso que elas se entre devorem.

Se para nos libertarmos basta que nos ajudemos a tomar consciência de um fim que nos liga uns aos outros, procuremos um fim que nos ligue a todos. O cirurgião que faz sua visita não ouve as lamentações daquele a quem ausculta : através dele é ao homem que procura tratar. O cirurgião fala uma linguagem universal. Como o físico meditando suas equações quase divinas em que envolve ao mesmo tempo o átomo e a nebulosa. E assim um simples pastor. Aquele que vigia modestamente algumas ovelhas sob as estrelas, se tem consciência de seu papel, descobre que não é apenas um servidor. É uma sentinela. E cada sentinela é responsável por todo o império. Pensais que aquele pastor não deseja tomar consciência? (…)

Quando tomamos consciência de nosso papel, mesmo o mais obscuro, só então somos felizes. Só então podemos viver em paz e morrer em paz, pois o que dá um sentido à vida dá um sentido à morte. E a morte é tão doce quando está na ordem das coisas, quando o velho camponês da Provença, ao termo de seu reinado, passa aos filhos seu lote de cabras e de oliveiras para que o transmitam, por sua vez, aos filhos de seus filhos. Na linhagem camponesa só se morre pela metade. Cada existência se parte, chegada a sua vez, como uma vagem que liberta os seus grãos. (…)

E agora aqui, na última página deste livro, eu me lembro daqueles burocratas envelhecidos que nos serviram de cortejo na madrugada de nosso primeiro voo, quando nos preparávamos para virar homens, tendo tido a sorte de ser designados. Eles eram semelhantes a nós, mas não sabiam que tinham fome. E há muitos homens assim, dormindo, sem que ninguém os desperte.

Há alguns anos, durante uma longa viagem de estrada de ferro, resolvi visitar aquela pátria em marcha em que ficaria por três dias, prisioneiro, durante os três dias, daquele ruído de seixos rola dos pelo mar. Levantei-me. Pela uma hora da madrugada corri os carros, de ponta a ponta. Os dormitórios estavam vazios. Os carros de primeira classe estavam vazios. Tufas os carros de terceira estavam cheios de centenas de operários poloneses despedidos na França, que voltavam para a sua Polônia. Caminhei pelo centro do carro levantando as pernas para não tocar nos corpos adormecidos. Parei para olhar. De pé, sob a lâmpada do carro, contemplei naquele vagão sem divisões, que parecia um quarto, que cheirava a caserna e a delegacia, toda uma população confusa, sacudida pelos movimentos do trem. Toda uma população mergulhada em sonhos tristes, que regressava para a sua miséria. Grandes cabeças raspadas rolavam no encosto dos bancos. Homens, mulheres, crianças, todos se viravam da direita para a esquerda, como atacados por todos aqueles ruídos, por todas aquelas sacudidelas que ameaçavam seu sono, seu esquecimento. Não achavam ali a hospitalidade de um bom sono. E assim eles me pareciam ter perdido um pouco a qualidade humana, sacudidos de um extremo a outro da Europa pelas necessidades econômicas, arrancados à casinha do Norte, ao minúsculo jardim, aos três vasos de gerânio que notei outrora nas janelas dos mineiros poloneses. Nos grandes fardos mal arrumados, mal amarrados, eles haviam juntado apenas seus utensílios de cozinha, suas roupas de cama e cortinas. Mas tudo o que haviam acariciado e amado, tudo a que se haviam afeiçoado em quatro ou cinco anos de vida na França, gato, o cachorro, os gerânios, tudo tiveram de sacrificar, levando apenas aquelas baterias de cozinha. Uma criança chupava o seio de sua mãe que de tão cansada parecia dormir. A vida transmitia-se assim no absurdo e na desordem daquela viagem. Olhei o pai. Um crânio pesado e nu como uma pedra. Um corpo dobrado no desconforto do sono, preso nas suas vestimentas de trabalho, um rosto escavado com buracos de sombra e saliências de ossos. Aquele homem parecia um monte de barro. Era como um desses embrulhos sem forma que se deixam ficar à noite nas bancas dos mercados. E eu pensei : o problema não reside nessa miséria, nem nessa sujeira, nem nessa fealdade. Mas esse homem e essa mulher sem dúvida se conheceram um dia, e o homem sorriu para a mulher; levou-lhe, sem dúvida, algumas flores depois do trabalho. Tímido e sem jeito, ele temia ser desprezado. Mas a mulher, por faceirice natural, a mulher, certa de sua graça, talvez se divertisse em inquietá-lo. E ele, que hoje é apenas uma máquina de cavar ou de martelar, sentia assim no coração uma deliciosa angústia. O mistério está nisso: eles se terem tornado esses montes de barro. Por que terrível molde terão passado, por que estranha máquina de entortar homens? Um animal ao envelhecer conserva a sua graça. Por que a bela argila humana se estraga assim?

E continuo minha viagem entre uma população de sono turvo e inquieto. Flutua no ar um barulho vago feito de roncos roucos, de queixas obscuras, do raspar das botinas dos que se viram de um lado para outro. E sempre, em surdina, o infatigável acompanhamento de seixos rolados pelo mar. Sento-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher a criança, bem ou mal, havia se alojado, e dormia. Volta-se, porém, no sono, e seu rosto me aparece sob a luz da lâmpada. Ah, que lindo rosto! Havia nascido daquele casal uma espécie de fruto dourado. Daqueles pesados animais havia nascido um prodígio de graça e encanto. Inclinei-me sobre a fronte lisa, a pequena bôer ingênua. E disse comigo mesmo: eis a face de um músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa da vida não são diferentes dele os belos príncipes das lendas. Protegido, educado, cultivado, que não seria ele? Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, os jardineiros se alvoroçam. A rosa é isolada, é cultivada, é favorecida. Mas não há jardineiros para os homens. Mozart criança irá para estranha máquina de entortar homens. Mozart fará suas alegrias mais altas da música podre na sujeira dos cafés-concertos. Mozart está condenado. Voltei para o meu carro. E pensava: essa gente quase não sofre o seu destino. E o que me atormenta aqui não é a caridade. Não se trata da gente se comover sobre uma ferida eternamente aberta. Os que a levam não a sentem. É alguma coisa como a espécie humana, e não o indivíduo, que está ferida, que está lesada. Não creio na piedade. O que me atormenta é o ponto de vista do jardineiro. O que me atormenta não é essa miséria na qual, afinal de contas, a gente se acomoda, como no ócio. Gerações de orientais vivem na sujeira e gostam de viver assim. O que me atormenta, as sopas populares não remedeiam. O que me atormenta não são essas faces escavadas nem essas feiúras. É Mozart assassinado, um pouco, em cada um desses homens. Só o Espírito, soprando sobre a argila, pode criar o Homem.”

— Terra dos Homens, St Exupery,

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Zé Perri No Brasil

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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