Revoluções e Contra-Revoluções

As novas gerações e a eterna luta contra Cronos

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O arquétipo do estadismo-patriarcalismo: Cronos devora seus filhos para que não lhe tomem o poder.

Há 1 ano publicava aqui no Medium um texto que afirmava que não importava se a presidenta caísse ou ficasse, uma revolução já havia começado. Porém hoje no Brasil e no Mundo a bandidagem estatizada e legalizada está virando a mesa. Reacionários e autoritários reagem e avançam contra os progressos sobretudo dos direitos e liberdades. E até mesmo os velhos espíritos de porco totalitários que viviam trancadas em armários ou assediando as pessoas nos seu mundo privado voltaram a encontrar no Estado a sua morada paterna para assombrar a humanidade.

A guerra ao terror iniciada no inicio do século e as aventuras neoliberais iniciadas bem antes disso explodiram na crise econômica de 2008 e no ensaio da próxima terceira 3 grande guerra na Síria, que alguns já defendem que está em curso em sua fase de informação e contra-informação.

Será então que eu (e outros) estavam enganado em nosso otimismo “revolucionário”?

Não. Posso garantir que não. Como ativista tive a chance de observar esse processo de uma perspectiva privilegiada. Pude dialogar, com ministros, senadores, prefeitos, tanto brasileiros quanto gringos. Conheci gestores de bancos sociais e de grandes fundos de investimentos e empresas e instituições filantrópicas. Bem como alguns dos mais importantes acadêmicos e bilionários e ativistas sociais de lugares do mundo. Mas o importante disso é travei esse conhecimento enquanto vivia e fazia meu trabalho de campo na periferia.

Pude portanto observar de perto as diferenças entre esse dois mundos tão distintos e em primeira mão vivenciar o abismo que se abrira com uma velocidade e tensão descomunal entre valores, visões e afinidades enquanto as partes se entrincheiravam. Na verdade não só, entre esses dois mundos. Por intermédio da minha família de classe media, pude também acompanhar o processo de ruptura e polarização dessa classe intermediaria provocado por essa tensão. Desintegração que reflete esse divorcio anunciado do Estado da Sociedade e que é tanto sinal quanto em si condição revolucionária marcante.

Numa generalização tosca e logo imprecisa diria que para o lado da direita foram os pequenos empresários e seus empregados de maior escalão gerencial, do lado da esquerda ficaram os funcionários públicos em geral e empregados menores do setor privado. Uma divisão que dentro do universo dessa classe indica exatamente onde passava exatamente a falha geopolítica que deu origem ao terremoto no nosso contrato social.

Se considerarmos portanto as seguintes classes sociais:

  1. a classe da aristocracia governante composta dos donos do poder de políticos, quem os banca e compadres.
  2. A classe média detendora de alguma renda e capitais e formação, mas não de subsídios e privilégios político econômicos e jurídicos dos donos do pais.
  3. E o resto o povão que não tem nada disso, mas só a força do seus braços para ocupar empregos que tiver e na falta deles uma cada vez mais precária proteção social.

Podemos entender essas revoluções pelas consequências que ele provoca sobre as classes sociais. Seja na desintegração da classe-media. No encastelamento das classes governantes e claro na revolta crescente das dos populares. O produto deste processo é em si a condição revolucionária por excelência: o Estado como inimigo Sociedade e a sociedade contra a Estado. Ou mais precisamente: o Estado encarnado, incorporado e apropriado pelas classes governantes versus uma população que começa a se ligar como sociedade por necessidade de resistência e antagonismo.

Mas é um erro pensar que essa revolução é uma revolução de classes. Podemos entender que essa polarização ideológica entre direita e esquerda que desintegrou a classe média, mais como uma consequência da incapacidade de adaptação das classes que detinham meios e poder para fazê-lo, do que propriamente como a falha ou o fator gerador da instabilidade do sistema, ou da transformação social.

Desde 2007 milito pela renda básica e a partir de 2011 com mais intensidade também pela democracia direta. Em pleno protestos de julho de 2013 por exemplo, trabalhava então com o desenvolvimento de uma sistema digital de autogovernança para a sociedade chamado governe-se.com dentro do Terceiro Setor. Já em 2015 no livro Revolução passei a defender que precisávamos mais do que a deposição de governos ou “aprimoramentos” da “nossa” “democracia” precisamos de uma reforma política que acompanhasse as revoluções sociais e econômicas que estavam em cursos.

Essas revoluções sociais e econômicas são mais produto do choque entre gerações do que classes. São o resultado de transformações no mundo tão rápidas que produziram novas gerações não com uma ideologias diferenciadas, mas com uma plataforma, uma estrutura completamente diversa daquelas que cresceram e foram educadas no que era praticamente outra cultura. Isso não significa que essas novas gerações empoderadas pelo avanço tecnológico serão mais humanas ou conscientes, isso significa que as estruturas de poder não só institucional mas simbólico simplesmente não se comunicam mais com elas.

Uma revolução social estava e continua em curso porque simplesmente a os sistemas de produção e comunicação modificaram a mentalidade de quem os utiliza, enquanto as estruturas e superestruturas da sociedade e do Estado que a representa não. O que no passado facilmente poderia ser acomodo e reajustado como o sacrifício da população como propaganda massiva, terror e repressão, hoje, como em outros momentos da história em que o sistema perdeu o controle sobre as meios e midias de reprodução do domínios, não ocorre sem custos e resistência ainda maiores.

Lutas de classe, lutas de gênero, lutas de raça qualquer uma dessas lutas é suficiente para desencadear processos revolucionários. Quando juntos então são sinais claros o sinal de que esse processo revolucionário é uma revolução. Mas não basta eles acontecerem ao mesmo tempo.

O tempo revolucionário não é medido por anos ou por décadas mas por gerações. E quando hoje se fala em governos de homens brancos e velhos”. Temos nessa sentença cada uma das dimensões da oposição entre Estado e sociedade, entre reinos e os povos. Temos a medida da discórdia medida no espaço tempo revolucionário: o da luta social contra a classe politica, patriarcal, supremacista racial devidamente sincronizada na atualidade de uma nova geração.

Não olhe para idades cronológicas. Isso é uma medida inexata do que é uma nova geração. Uma nova geração é formada por todo o conjunto de idades de pessoas encarnadas num mesmo período e que compartilham de uma mesma mentalidade completamente distinta da velha. E que mais do que isso tem a noção clara tanto do novo que eles representam quanto do que é se buscam é superação do que há de arcaico e ultrapassado nesses governos, nesses homens, nesses brancos.

Essa nova geração pode nem mesmo ser uma maioria. Não raro pode ficar perdida a pais e filhos retrogados e conservadores. Ou até mesmo ser dizimada em porões de ditaduras ou trincheiras de grandes guerras. Pode ter muito do seu potencial revolucionário simplesmente abortado embora não possa ser jamais apagada, porque se uma contrarreação se ergue para por fim a e ela é porque ela já ocorreu. A própria violência da reação denuncia o impacto já provocado. E ele é gigante. Porque mesmo aqueles que não aderem aos novos ideais e valores querendo ou não, ao serem obrigados a lidar como eles, acabam sendo influenciados até mesmo quando o intuito é sua destruição.

Uma revolução de fato já ocorreu na mentalidade de toda uma nova geração.

Posso dizer isso com a maior tranquilidade, porque há 10 anos atrás a ideias de democracias diretas, o poder de fato nas mãos do povo, era classificado como anarquismo. Renda básica comunismo. Hoje os Estados Nações iniciam o processo de apropriação desses ideais como o fizeram um dia com a previdência social entre os trabalhadores. Ao mesmo tempo que se abrem outras frentes de reação muito mais destrutivas que ao invés de investir na cooptação e incorporação das novas sociedades multiculturais, trabalham para manter o status quo exatamente como esta, por mais insustentável que seja fazê-lo, ou destrutiva seja a solução que se presta para tanto. A saber: o choque de nações e até mesmo civilizações.

Essas velhas estruturas representadas simbólica e administrativamente pelo Estados, não tem como conter a transformação da cultura e mentalidade de suas própria sociedade, sem dividir a humanidade, e apostar na xenofobia, no racismo, a eugenia social, o machismo. Não tem como se sustentar sem voltar a defender abertamente os valores que a fundam e sustentam e disseminar novamente esses preceitos de discórdia entre os povos que os levam a odiar estranhos e desconhecidos e apoiar seus bem conhecidos senhores, os governos dos velhos homens brancos.

Quem olha para 10 anos atrás com nostalgia é porque vivia dentro das bolhas burgo-nacionais acreditando no mito do progresso civilizatório sem saber com quantos pretos ainda escravos no cu do mundo se faz um bom café importado. Com quantas bombardeios e execuções militares e policiais se constrói a segurança do muro das suas fronteiras e condomínios fechados. Literalmente não sabia, nem queria saber do que eram feitas suas salsinhas e seus governos. Se as cortinas de ferro do mundo socialista caíram e junto com elas com seus mitos e fronteiras hoje é a cortina de ferro da desinformação e credulidade pia do mundo capitalista com suas falsas democracias. Mas não só socialismo e capitalismo estão em cheque. Não só as velhas ideologias do passado até então recente. O que está em cheque é a própria superestrutura que elas representam: o estadismo. Um mostro de duas cabeças, Estados e mercados que aparenta lutar em si, mas que na verdade vivem se retroalimentam e literalmente competem colaborando para um mesmo fim, devorar os povos e suas riquezas. É preciso ser muito crente para acreditar de que houve em qualquer lugar do mundo um Estado Social ou um Livre Mercado.

Não são apenas os políticos, os governos, as corporações privadas que estão nuas é todo o sistema que elas compõem. Esse despertar é em si a revolução em curso. Assim como tudo o que estamos a assistir tentando detê-la é a contrarrevolução da cultura monopolista, estatal e privada.

A nova revolução industrial-informacional promovida pelo avanço das telecomunicações e computação alimentou uma nova primavera dos povos. Esta por sua vez foi ciclicamente alimentada pela evolução da mentalidade promovida pelas primeiras primavera dos povos do inicio do final do século XIX. Se observarmos desde o iluminismo, desde da invenção da imprensa de Gutenberg e reforma protestante até a invenção da internet e as primavera árabe, passando é claro pelas revoluções industriais e anarquistas e socialistas.

cruzarmos os avanços entre as evoluções da comunicação e informação, livros, imprensa, radio, tv, internet. interligados ao próprio avanço industrial, veremos que precedentes as revoluções tecnológicas e inistitucionais estão as sociais e populares. Assim como as revoluções tecnológicas e institucionais retroalimentam o surgimento de novas revoluções sociais e populares. Há um ciclo de revoluções industriais alimentados pela revoluções do pensamento e revoluções do pensamento retroalimentas por esses avanços industriais. Porém, não sem resistencia, porque no meio do caminho da evolução da liberdade há o poder e quem o detém, querendo o preservar tudo como está, manter o velho status quo como fonte de suas vantagens e privilégios.

O que estamos assistindo hoje, ou melhor enfrentando querendo ou não é a contrarrevolução dos Estados-Nações e dos grandes capitais que os financiam para por um termo nesta nova onda de liberdade e emancipação dos indivíduos e sociedades. Uma contrarreação para por um fim as demandas por direitos econômicos fundamentais, por fim de privilégios políticos e sobretudo para frustar a vontade de emancipação de povos e pessoas de governos centrais. Enfim mandar toda uma nova geração de volta para o mundo das utopias. E nada cumpre melhor essa função do que guerras, ditaduras e fascistas.

No presente momento estamos caminhando para um daqueles conflitos históricos que determinará como será o novo mundo. Os termos em que se dará esse conflito determinará e muito quais avanços serão preservados e quais serão reprimidos.

Se os movimentos por emancipação autonomia igualdade e restituição de direitos naturais de povos, classes, gêneros serão frustrados. Ou se as estruturas de poder terão que se adaptar as nova mentalidade humana para elas não desaparecem. Isso não é uma luta de classes nem um choque de civilizações. Se reduzido a isso já terá perdido a força criadora. Isso é uma revolução. Um choque de gerações. Um choque entre novas consciências contra mitos arquétipos e as manadas de inconscientes coletivos que os incorporam.

Revolução no sentido mais profundo da palavra, aquele onde nem sempre quem vence leva. E nem sempre quem perde desaparece. Mas geralmente o contrário.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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