REVOLUÇÃO ECOLIBERTÁRIA UM

DAS REFORMAS POLÍTICAS E REVOLUÇÕES ECOLIBERTÁRIAS

ⒶRobinRight. 2015

Parte I

Não prego nenhum levante armado, mas não há lei ou moral que possa demandar com justiça a renúncia a legítima defesa. Ninguém pode exigir que o violentado evite o confronto se não pode fugir da sua própria vida como sina, nem deixar de viver senão lutando pela subsistência. Ninguém consegue escapar do enfrentamento se sua vida foi reduzida a mera luta pela sobrevivência e a sua terra foi pervertida em campo de violação dos seus direitos fundamentais.

Não. Não se pode exigir que o violentado peça “por favor” para que seus violentadores parem de currá-lo, ou que o faminto espere o dia do julgamento para que se ponha um fim as suas privações. Com ou sem vereditos, simplesmente é nula qualquer proibição ou sentença contra a vida e liberdade; é simplesmente nulo todo juízo contra a autopreservação alheia.

Não há justiça sem proteção igual dos direitos naturais, e a estatização e privatização da natureza contra a pessoa natural, o estado de privação dos meios vitais e segregação dos direitos fundamentais não é apenas ilegítimo, é criminoso. Não há lei ou tribunal capaz de legitimar nenhum monopólio, quanto mais o da violência sobre o bem comum. Nada é capaz de legitimar a obediência e trabalho forçado pela ameaça de privação da liberdade e necessidades básicas.

Nenhum poder supremo pode legitimar o roubo das propriedades naturais, particulares e comuns, nem descriminalizar a servidão dos expropriados pela grilagem legal e ilegal. Simplesmente, não há lei capaz de legalizar os crimes contra humanidade do Estado e suas corporações privadas, ou criminalizar a legítima defesa das pessoas e sociedades contra violação da sua vida, natureza e liberdade, seus direitos fundamentais.

As leis e decretos, títulos e concessões, contra o direito natural não tem outra validade senão de prova dos crimes cometidos por quem se esconde atrás destas personas jurídicas, estatais e privadas, e suas hierarquias. As constituições dos estados de supremacia da violência para monopólio dos meios vitais; o sistema de segregação dos bens comuns para a submissão dos expropriados; todo absurdo imposto como legal e real contra o direito natural e humano, é em verdade apenas a prova por escrito dos crimes de estado contra o povo e a humanidade; a prova do atentado contra a vida e liberdade de cada pessoa natural. É a prova do estado criminoso instaurado contra os habitantes dos territórios estatizados, forçados ao trabalho alienado pela privação dos meios vitais e expropriação sistemática das suas propriedades naturais particulares comuns por tributação.

Não se deixe enganar: se as pessoas não se levantam ou manifestam contra seus usurpadores não é por respeito ou consideração, mas por temor e até esperança. Ou como diz a sabedoria popular: não se deve contrariar maníacos e fanáticos, principalmente se armados- não sem uma boa chance de rendê-los. Eu que nunca fui muito esperto, nem paciente, mesmo indefeso, prefiro me arriscar, e viver e falar o quê penso; até porque se for para ter minha vida e liberdade negadas, que este crime seja descarado e se acobertada que não com meu silêncio.

Não, não será com meu silêncio que os supremacistas fabricarão nenhum falso consentimento tácito para violentar a mim ou aos outros. Não tenho como impedi-los, mas terão que cometer seus crimes na qualidade do que são de fato: criminosos e não autoridades. Não, eu não dou nenhum consentimento a nenhuma forma de violência, quanto mais ao monopólio dela. Não há conspirações. Os hipócritas arrogantes, senhores da violência e da terra, governam o mundo a luz do dia, da lei e da ordem, posando de benfeitores e protetores dos outros contra a vontade alheia. E não mandam e desmandam porque os violentados não reagem e protestam, mas sim e simplesmente porque os violentados estão imobilizados e silenciados. Não, não é porque ninguém levanta armas contra os armados, nem se diz nada contra a violência que se pode supor que se concorde com o domínio das armas e da violência.

Estadistas e revolucionários autoritários estão ambos errados, quem não faz ou diz nada contra algo ou alguém não pode ser tomado nem julgado como omisso nem muito menos apoiador. Muito faz quem age e fala de acordo com seu livre pensamento, mas também quem vive em paz fazendo o que pode, e quando pode, pela liberdade. Até porque para que todos vivam em paz não é necessário que sejamos revolucionários ou libertários, só é preciso que as pessoas façam e não imponham, façam ao invés de impor suas ideologias.

A consciência é algo tão natural quanto crescer e se tornar adulto, e nunca se sabe quando o emancipado demandará por sua independência. Mesmo a pessoa presa e acorrentada numa caverna com medo da luz pode a qualquer momento querer sair da bolha e experimentar o mundo lá fora. A verdadeira revolução não ignora o espaço-tempo para emancipação de cada pessoa, não passa por cima das consciências, a revolução é o movimento de libertação dos lugares e tempos para que as pessoas possam conceber a si mesmas e seu mundo em paz.

A legitimidade não é coercitiva porque o direito a liberdade não é constrição. E é tanto prepotência alheia supor que as pessoas não farão nada, quanto o oposto: que elas são obrigadas a fazer algo, seja resistir, seja revolucionar. Nada, nem ninguém pode negar o direito natural e legítimo de cada pessoa de se levantar e se defender contra seus violentadores ou contra seu estado de privação, nem jamais absurdamente condicionar este direito a obediência e este estado ou destituí-lo pela falta de desobediência civil. E isto quer dizer que, não só nenhuma pessoa pode ser forçada a fazer nada ou obrigada a deixar que façam algo contra sua vontade (seja em nome disto ou daquilo); mas quer dizer, que aquele que decide não reagir, jamais perde o direito de a qualquer momento se levantar e livrar da violência e privação, e se defender legitimamente contra seus protetores ou libertadores- chamem-se eles autoridades ou revolucionários.

A violência não é apenas agressão, é sobretudo a privação alienadora. E se impõe não apenas por ameaça, mas pela inversão de valores e imposição de preconceitos e predeterminações. Violenta é toda força que toma os meios vitais e a liberdade para fazer deles a propriedade alheia, dos seres como coisas. Violenta é a força que impõe como realidade e legalidade a farsa da propriedade estatal e privada contra a natureza e as pessoas naturais. Violenta é a perversão realista e legalista dos direitos naturais em favor dos estados de segregação dos povos; e criminosa é esta impostura da liberdade tanto como a obrigação de impô-la contra os outros, quanto à pressuposição de renúncia em favor do poder.

Qualquer liberdade imposta é palavra vazia, é o discurso contra a prática e em verdade não é liberdade, mas de fato poder. Qualquer pressuposição de consentimento por falta de manifestação contrária a um domínio violento não é apenas absurda, é forçada e criminosa. As vítimas jamais poderiam ser julgadas pela sua falta de reação, nem os crimes legalizados pela intimidação das testemunhas e silenciamento dos inocentes. Não, a falta das condições mais básicas para resistir, levantar, ou até mesmo protestar, não pode ser tomada como consentimento tácito. Pelo contrário, é perverso e hediondo atribuir ao violentado consentimento sob ameaça de violência e privação dos seus direitos mais básicos.

Não. No poder ou no estupro, quem cala NÃO consente. Supor que o silêncio do povo é seu consentimento tácito ao Estado é o mesmo que afirmar que o estupro de quem não reage não é crime porque “quem não grita e não reage… consente”. Não, é pior. O poder é ainda pior, porque nem todo estuprador detém a força legal para criminalizar a própria reação da vítima e fazer dos seus crimes lei e justiça. Não é por acaso que de todos os crimes de Estado contra povos, classes, gêneros e gerações, é contra os direitos naturais da mulher que o caráter violentador e perverso do pátrio-poder fica mais explícito. E se você está ofendido com a comparação ou acha ela indevida, é talvez porque ela seja mesmo indevida: nem todos violentadores somados ao longo da história violaram e estupraram e mataram tanto quanto os homens a serviço dos Estados e seus deuses.

É absurdo, mas o poder supremacista não apenas exige obediência incondicional dos submetidos ao seu estado de violência, como intimida e imobiliza legalmente vítimas e testemunhas, criminalizando toda tentativa de denúncia ou defesa contra seus crimes! E o mais revoltante de tudo isto, é que como todo violentador convicto, a autoridade, não apenas viola descaradamente, mas alega que o quê faz não só é absolutamente necessário como é o melhor para todos, inclusive para a vítima! A essa perversidade de dizer que ela merecia ou mesmo “estava pedindo” calada por tudo o que se faz contra a vontade da pessoa humana dá-se o nome de “consentimento tácito”.

No sistema de legalização da violência pela supremacia da violência, o culto ao poder se racionaliza pela lógica do absurdo: o violentado não tem direito de resistir contra uma autoridade entitulada porque deu calado seu consentimento para que ela agisse não só em seu nome, mas contra ele e sua vontade. E não adianta dizer nada, porque nenhum outro entendimento conta; o único entendimento que vale é da autoridade. Simplesmente, não adianta se manifestar contra a autoridade; ela não é apenas ignorante, ou se faz de; ela faz da ignorância o seu dogma tanto no agir sem pensar quanto no pressupor sem ouvir. Não adianta gritar nem com eles, nem muito menos para eles: Toda autoridade ouve e pode ouvir muito bem, até o que não deveria, mas só escuta e responde quando quer.

O consentimento tácito é uma farsa. Uma falsa pressuposição. E não é feito só do silêncio de todas as vítimas inocentes ou das testemunhas caladas pelo estado de violência, mas antes da pressuposição de que a voz dos violentados não tem valor perante a dos violentadores devidamente legitimados pelos títulos de posse, autoridade e poder. O poder é a prepotência da preconceituação, e se institucionaliza como segregação pela discriminação imposto pelos próprios supremacistas, se arrogando donos do mundo não apenas como ele é dado naturalmente, mas como eles o querem que seja - artificial e distopicamente.

Em outras palavras, para eles, somos todos iguais… menos eles; ou mais precisamente, somos todos a mesma coisa… exceto eles. De fato, somos todos iguais, mas não em autoridade sobre o bem comum, não em liberdades fundamentais, mas sim em submissão a estes supremacistas, que se arrogam a autoridade para predeterminar quem não são os sujeitos e quem são seus meros objetos. Contudo, será justamente pela solidariedade entre os discriminados em liberdade e segregados em autoridade; pela solidariedade entre os iguais em privações que virá a revolução restauradora da dignidade dos direitos naturais; restauração não só da liberdade fundamental como usufruto dos meios vitais, mas como igualdade de autoridade sobre o bem comum.

A origem do poder é a discriminação dos seres humanos e a segregação dos direitos naturais. Os estados são apartheid de povos, classes, gêneros e gerações. É a segregação dos bens comuns e usufruto dos meios vitais. É a subtração das liberdades fundamentais para institucionalização da desigualdade de poderes e autoridades. É a privação dos meios de vida para imposição de obrigações sobre os destituídos de direitos naturais. O poder não é só a violência da repressão, mas antes e depois a prepotência que se impõe pela privação, geração após geração, predestinando quem serão os sujeitos que controlarão o mundo natural e quem serão as pessoas reduzidas a coisas e engrenagens deste mundo-máquina desnaturado como corpo artificial, privado e estatal.

O consentimento tácito não é, portanto, a ditadura da opinião da maioria (ou minoria) a revelia da vontade manifesta de cada indivíduo; não é apenas a pressuposição de validade da imposição de uma opinião amalgamada contra o livre entendimento entre todos; é rigorosamente a imposição de uma vontade coletiva fictícia pela negação das condições fundamentais a liberdade de manifestação de cada um. É a ditadura da preconcepção absoluta como vontade única do todo contra a vontade e o consenso de cada pessoa em particular. A imposição a força de uma falsa vontade coletiva pela negação da plena liberdade de expressão e livre associação das pessoas naturais. A intimidação da livre comunhão de paz, consciente e solidária, pela imposição violenta da preconcepção ignorante de um estado totalitário de inconsciência coletiva.

O consentimento tácito é assim, tanto o produto do silenciamento dos povos e pessoas através da violação da liberdade por censura e imobilização, quanto da falsificação da legitimidade pelo mito totalitário da vontade coletiva- imposta não por acaso por ídolos e signos autoritários de poder. O mito da vontade coletiva, do todo contra a vontade de cada um. Este delírio cultural de idolatria ao poder e culto ao absoluto constituinte dos leviatãs é mais do que uma mera condição mental de conformação, é uma condição ambiental e psicológica de alienação arquitetada e engendrada antes de tudo pelo trauma violento da privação dos meios naturais e necessidades vitais.

Não existe servidão voluntária,nem como fenômeno nem como condição. A vontade da pessoa contra sua pessoa natural não é senão, a perversão da institucionalização do comportamento condicionado não apenas contra a manifestação da sua própria livre vontade e vocação, mas contra as condições materiais e emocionais para o desenvolvimento humano e natural. Mais do que alienação, a “servidão voluntária” é possessão; rigorosamente o comportamento condicionado imposto contra a vida e a natureza do próprio possuído, do condicionado a servir.

Entretanto há que se admitir: quando o violentado passa a crer neste tipo de mito de dominação de que “quem curra ou deixa ser currado, o faz para seu próprio bem e o dos outros”, quando passa histericamente a renegar a paz e a vocação dos outros para satisfazer os desejos de posse e poder alheios; ele deixa de ser apenas um fanático alienado para se tornar idólatra possesso. Ao dar corpo ao mito, o idólatra não gera nenhuma “vontade coletiva”, mas definitivamente alimenta com sua própria anima o mais demente e perverso de todos fenômenos geradores de guerras e discórdias entre os povos e pessoas: alimenta a egrégora dos violentadores e violentados, não só mais submissos e conformados, mas absolutamente obedientes e crentes de que todo o mal é “necessário” para seu “bem maior”- e não importa contra a vida de quem esse mal se volte, mesmo que seja a sua.

Não, mas nem matando. A desinteligência que subtrai a livre consciência e constitui o comportamento condicionado de manada dos coletivos alienados não justifica nenhum estado de poder ou movimento para sua tomada. Nenhuma cultura, culto idólatra ou ideologia pode se impor como ordem ou estado contra a livre vontade de ninguém, quanto mais arrogar para si como se fosse a própria realidade ou legalidade prepotente e absoluta a ordem livre e natural dos fenômenos. Essa simples ameaça totalitária inerente a toda cultura supremacista e monopólio do poder, esse simples movimento para deflagrar tal violência contra o direito natural de qualquer ser humano não apenas permite a legítima defesa, gera a demanda pela proteção e defesa mútua.

Se esses movimentos de defesa ou libertação serão chamados de golpes ou revoluções, não é o discurso dos seus teóricos ou a desinformação e contrainformação da propaganda alheia que irão qualificá-los ou desqualificá-los, mas sim a congruência do seu discurso com sua prática. Princípios, objetivos, boas intenções e promessas não legitimam nada; são os atos que determinam na prática a legitimidade dos meios, não só verificando quais são os verdadeiros princípios e objetivos, mas se os discursos são de fato legítimos enquanto práxis. Fora do arcabouço das racionalizações do poder, os fins jamais justificam os meios; fora da caverna, são sim os meios que sempre determinam a coerência dos fins com os princípios.

A liberdade não precisa da imposição nem pressuposição de nada, nem mesmo da suposição de verdade ou aceitação do seu discurso. Pelo contrário, a liberdade é, por definição, discurso que não só compreende a contraposição alheia ou sua futura contradição, é por coerência o discurso que deve defender tal compreensão, deve defender a coexistência dos divergentes e opostos; a validade de todo contraditório e contradição enquanto discurso- inclusive do próprio discurso de poder contra a liberdade. O que determina a legitimidade não são seus princípios ou finalidades, mas os meios postos como prática. De modo que a paz e a liberdade não se legitimam com discurso, mas somente em ato. Princípios, finalidades, discursos não justificam estados ou revoluções, apenas a liberdade como meio posto em prática. Somente os atos de legítima defesa da paz e liberdade justificam estados ou revoluções.

A liberdade é o discurso que só se pratica enquanto legítima defesa da paz contra os estados de violência, e nunca a prática de imposições de discursos, como moral, legalidade ou pior como monopólio da violência contra própria paz e liberdade de fato. Não é, portanto a revolução libertária, mas os golpes e estados reacionários que carecem da arrogância e prepotência das verdades absolutas, tão fracas e antinaturais que para ter “validade” precisam ser impostas a força. Não são os estados e revoluções pela liberdade mas os golpes e crimes contra ela que carecem de mitos de poder supremo e vontade coletiva para impor a hipocrisia da sua lógica arbitrária e absurda da pax pela supremacia da violência e dos violentos. É o estado de poder e seus projetos de violência que precisam de “mal necessários”, “bem superiores”, desigualdade de forças e autoridades para justificar o injustificável, para racionalizar a expropriação de propriedades e liberdades fundamentais e impor seus ídolos todo poderosos e culturas supremacistas.

A verdadeira liberdade não exige o monopólio de nada nem a censura de ninguém, mas pura e simplesmente o direito de coexistir em paz exercendo seu direito natural a autopreservação: protegendo mútua e voluntariamente a natureza para permitir em reciprocidade o usufruto em igualmente de direitos os meios vitais; provendo-se de forma independente e universal nossas necessidades básicas. Tudo o mais que não falte como necessidade básica à vida e liberdade dos outros, tendo sido adquirido e mantido sem a violência da agressão ou privação, sendo uma posse produtiva ou não, deve ser considerado pelas pessoas de paz como propriedade particular.

O problema não é a propriedade particular, mas justamente a falta dela e de todas propriedades naturais devidamente legitimadas e protegidas por estados de paz. O problema é a inexistência de propriedades legítimas, reconhecidas reciprocamente e protegidas mutuamente por pessoas iguais em liberdade fundamentais e autoridade sobre seu bem comum. O problema não são as propriedades particulares ou sua falta, mas a destituição das propriedades particulares e públicas, a inexistência do reconhecimento de propriedade que não sejam, nem precisem ou possam ser, subsidiadas ou concedidas pelos usurpadores monopolizadores violentos do bem comum.

As propriedades particulares existem naturalmente, e se sua posse é produtiva ou se a produção é maior do que se precisa isto não é fator determinante; o que importa ao estado de paz e sua legitimação social é que a posse, mesmo que improdutiva, não seja dada a partir da privação dos meios vitais e imposição de necessidades artificiais aos demais; nem jamais a posse ou produção resulte em destruição da própria natureza ou dos meios vitais, e consequentemente morte dos que necessitam deles. A poluição do meio ambiente, o envenenamento dos meios vitais são tão assassinos e violentos quanto a sua própria privação, e demanda a reação proporcional das pessoas para frear imediatamente com esta agressão não apenas à natureza, mas contra o seu direito de autopreservação.

O crime não está, portanto, na apropriação particular ou pública feita sem ameaça de agressão ou privação, está na violação dos direitos naturais de autopreservação de todos os discriminados e segregados; o crime não é do ser vivo que luta para viver, mas do Estado que não só persegue quem tenta viver naturalmente em paz, mas legaliza seu sistema criminoso de perseguição das pessoas naturais como jurídico, legal e burocrático.

Não se deve tomar nada que não seja só seu, nem para usar nem muito menos para dar e depois cobrar obediência ou gratidão dos outros. Não se deve possuir nem se permitir que ninguém possua nada que os outros também precisem, porque isso não é riqueza, isto é poder por empobrecimento alheio, e permite que se crie a desigualdade e monopólio das forças de fato que não apenas consomem as riquezas, mas destroem as liberdades e a natureza.

Ninguém deve trabalhar para outros contra sua vontade, nem jamais viver da caridade dos outros quando não só não precisa e não quer. Trabalho é uma necessidade de todos, e cada pessoa deve ter o direito de trabalhar para satisfazer as suas necessidades, e não a dos outros. E que a caridade seja feita voluntariamente para quem precisa, e não para quem se nega a trabalhar justa e livremente por si mesmo ou forçado e injustamente para os outros. Caridade se faz para quem precisa e quer recebê-la, para quem é usurpado e escravizado tudo o que se fizer não é será mais do que justiça. Justiça e libertação.

Bem sei que existem pessoas neste mundo que nascem com bem menos do que precisam para poder trabalhar por si mesmas. Mas isso não é vida, e isto não é mundo. Fora deste campo de concentração, na natureza, não há pessoa que não nasça sem nada, não há pessoa que não nasça sem uma terra ou território; em verdade não há ser vivo em toda a Terra que nasça sem um meio ambiente ou meios vitais. Minto: há, mas esses seres vivos sem meio ambiente e recursos vitais são na verdade espécimes condenados a extinção. Assim como povos e pessoas sem terra e mínimo vital garantido são pessoas condenadas ao holocausto. Pessoas desnaturadas, expropriadas, nascidas sem terra ou usufruto dos seus meios vitais não estão apenas condenados a trabalhar até a morte, mas condenadas, geração após geração, a uma sobrevida produtiva cada vez maior para, em contrapartida, reproduzir-se em cativeiro cada vez menos.

Em verdade só há uma pressuposição que com justiça e boa-fé pode se fazer para agir pelas outras pessoas que não podem dar seu consentimento explicito e devidamente manifesto: é a de que as pessoas impedidas de manifestar consensos e celebrar acordos desejam tacitamente o direito e condições para poder tê-los e fazê-los, desejam viver em liberdade. A única suposição válida sobre outra pessoa não é que ela quer o mesmo que você, mas sim que ela quer a liberdade para poder querer e buscar em paz o que quiser. A única suposição válida para todos é que todos querem os meios necessários para poder viver e decidir em paz sobre seu próprio destino, as mesmas chances não iguais, mas fundamentais para poder viver e dar um sentido próprio a vida. Livre vontade com chances e meios para exercê-la. E se a decisão for por um fim a própria vida, que esta seja uma escolha de como morrer com dignidade e não a fuga desesperada de quem não tem como viver livre da violência e privação.

A morte de pessoas mantidas em estado de privação das liberdades fundamentais, a morte por inanição, em luta pela sobrevivência, ou até o suicídio, nunca deixam de ser responsabilidade das próprias pessoas dotadas de livre vontade, porém quem detém o poder para reduzir esse livre-arbítrio, para delimitar as possibilidades e alternativas de vida a escolhas de servidão ou morte, também o são. A responsabilidade legítima é tanto o produto da livre vontade que naturalmente é dada, quanto do compromisso social voluntário de protegê-la. Porém a responsabilidade criminosa, esta se imputa a quem viola estas liberdades fundamentais à autopreservação.

A ordem legal contra o direito natural não é apenas omissa ou nula, é criminosa quando agride ou ameaça a vida e os meios vitais de uma única pessoa; assim como é criminosa quando impede ou obstrui a livre associação, responsabilidade social e legitima defesa para que elas mesmas se protejam e provejam mutuamente. Por esta razão, crimes cometidos por quem está privado dos seus meios vitais não deixam de ser responsabilidade de cada pessoa, mas o são só na exata medida dos riscos e possibilidades dos envolvidos em poder fugir ou ir contra esta ordem criminosa. Ou em outras palavras, não existe responsabilidade criminal de quem é um completo refém de privações e agressões contra sua vida e liberdade.

Responsabilidades sociais derivam de relações de liberdade. Responsabilidades criminais derivam das relações de poder e são tanto maiores de quem detém o poder e controla os meios necessários para a tomada de decisão quanto menor é a autonomia de ação e decisão das pessoas privadas de suas liberdades fundamentais. Sejam crimes cometidos por ordem direta das autoridades políticas ou econômicas, sejam os crimes cometidos por absoluta falta de condições de descumprir essas ordens. Ou seja, a responsabilidade de quem age sob ordem ou está submetido a um estado constituído por elas, é dada conforme o grau de autonomia que lhe resta. Autonomia esta que se mede justamente pela possibilidade de desobedecer sem atentar contra a própria vida ou liberdade.

Isto não livra ninguém dos seus crimes por carestia, pelo contrario imputa as responsabilidades a todos considerando conforme o seu grau de liberdade de fato para agir ou não agir, considerando tanto se quem obedecia a ordens criminosas tinha como desobedece-la, quanto se quem se rebelou para defender seus direitos naturais o fez contra quem o agredia e não contra inocentes ou mesmo quem abandonou o uso da violência. Todos estamos mais ou menos submetidos a esta mesma condição, mas tanto o submisso que vai além do que é obrigado para se livrar da submissão, quanto o desobediente que reage além ou contra quem não precisa para se defender ou libertar, ambos respondem pelo mesmo crime comum. Mas quem não é coagido, mas coage e reprime; quem por livre e espontânea vontade não apenas priva os demais dos seus direitos naturais, mas faz deste estado de privação e repressão a base do seu poder sobre os demais, não deve só responder pelos seus crimes, mas por todos os crimes decorrentes da ordem que impõe. Quem se vale do poder para dominar por imposição de privações, deve responder como responsável pelo maior crime já cometido contra a humanidade: a violência da privação primitiva sistematizada como Estado.

Justo e legítimo, portanto não é o suposto consentimento tácito, sádico e masoquista dos violentadores e violentados, mas a suposição que sem consentimento explícito, toda hierarquia ou relação de poder é criminosa. Legítima, portanto, não é a suposição de consentimento ao monopólio da violência, mas a suposição de esperança de liberdade de todos que mesmo sem poder se manifestar contra, por óbvio não consentem com sua violação, mas esperam sim por justiça e pelo dia da libertação.

A liberdade fundamental não é o fazer tudo que se quer e como puder, mas ter naturalmente o necessário para fazer por si mesmo e aos outros o que se precisa, quando puder e se quiser. Em geral, todos nascem dotados de capacidade para aprender a discernir entre o bem e o mal para em algum momento da vida poder decidir o que é bom ou ruim por conta própria. Todo mundo já nasce dotado de livre vontade, mas bem poucos têm as condições necessárias para desenvolver e exercer até mesmo sua capacidade inata mais fundamental: o livre-arbítrio. O que dizer então da vocação?

Lógico e legítimo não é, portanto, supor que as pessoas não queiram manifestar sua livre vontade, buscar sua vocação, ou o exercer plenamente seu livre-arbítrio, mas justamente o contrário. E se esta decisão for servir ou trabalhar para os outros, que seja; se tomada livre de coação por necessidade ou melhor suas privações. Qualquer suposição contrária ou condição imposta contra o livre-arbítrio de adultos e responsáveis, ou pior contra desenvolvimento da independência e emancipação de pessoas e sociedades em crescimento e desenvolvimento não é apenas inválida, mas criminosa e hedionda.

É claro, que a defesa do direito natural à liberdade não dá a ninguém a autoridade para agir a revelia dos outros para sua libertação, mas legítima toda ação para acabar com a usurpação dos meios necessários a liberdade e moral de qualquer um. Toda ação de libertação de quem não tem como se defender ou manifestar; toda ação proporcional contra atos violentos que estejam sendo praticados sem a prévia ou clara manifestação pública da sua vontade de todos os envolvidos, não é só legítima, mas justa.

Não estou negando o direito dos fanáticos idolatrarem seus reis, reinos e alucinações; toda pessoa tem o direito de crer e se submeter aos mitos e poderes supremos que ela quiser. Se pessoas adultas e capazes querem se violar ou se violarem, isto é um problema delas e não meu, desde que não imponham seus desejos, culturas, ritos, e fantasias (patrióticas, religiosos, científicas, ou seja lá qual forem) contra mim ou quem eu quero proteger. E que não venham dizer que sua violência contra os outros não é da minha conta, só porque ainda não se voltaram contra mim. Nenhuma união dos violentos e egoístas tem prerrogativa para impor a desinteligência e a ignorância contra a empatia, compaixão e todos os instintos naturais de solidariedade.

Não adianta, se por seleção artificial os autoritários já tivessem conseguido exterminar todas as formas de vida cooperativa não só já estaríamos extintos como seres naturalmente sociais, mas como espécie, como seres dotados de humanidade. Por isso, desde que não venham impor suas classificações e julgamentos, suas verdades e valores pela ameaça de agressão ou prisão; desde que não se arroguem os donos prepotentes de tudo que é natural: terra, água, luz, ar, os senhores da vida dos outros e dos meios vitais de todo mundo, defendo igualmente o direito de todo ignorante idólatra e autoritário de viver de acordo com suas ideias- por mais estúpidas que sejam. Desde que deixam os outros em paz, qualquer um deve ter o direito de viver de acordo com sua forma de vida em paz. Desde que vivam sem tentar se impor como autoridade suprema e do território, desde que não queiram me censurar ou cooptar a força, que digam e vivam como quiserem.

Sem usurpar os bens comuns e meios vitais que compõem liberdades fundamentais dos demais; sem quebrar o estado de paz dado pela igualdade de autoridade sobre o bem comum e usufruto dos meios vitais como condição básica a autopreservação; sem ferir, ameaçar ou censura a plena liberdade de expressão, concepção, negociação e associação de paz; em suma sem violência toda pessoa não só tem o direito de falar o que bem entender, mas fazer o que quiser. Isto não quer dizer que as pessoas que fazem ou falam o que querem, mesmo sem ferir ninguém não possam sofrer sansões ou boicotes para arcar com as consequências dos seus atos. Quer dizer o contrário: que todo aquele que se sinta ofendido ou lesado pode tomar todas as providencias pacíficas que julgar melhores para mudar sua situação, menos recorrer à violência. Em outras palavras, sem ameaça ou coerção, mesmo dita legal, toda sansão e boicote são naturalmente válidas desde que não privem ninguém do que é seu, da participação naquilo que é de todos, e, sobretudo, dos meios vitais e necessários para sua autopreservação em paz.

Quando a violência não for mais prerrogativa de ninguém, não for permitida, nem muito menos subsidiada, mas sim repudiada e repelida por toda livre comunhão de legítima defesa da paz, não só a discriminação se tornará um custo insustentável, mas a apropriação, segregação e monopólio do bem comum será um crime com custos insustentável, e não mais um Estado redistribuidor dos custos dos crimes as vítimas. Não, as pessoas de paz não devem ser passivas, não só podem reagir e defender com toda força necessária seu estado de paz e liberdade, como podem e devem voluntariamente se associar a todas as outras pessoas livres e sociedades dotadas do mesmo entendimento e disposição para preservar o equilíbrio distribuído da força de fato que compõe tanto a igualdade entre todos, quanto a garantia de fato da liberdade fundamental de cada um, como direito natural e não de papel.

Ninguém pode se proclamar ou ser proclamado dono de todas as terras, territórios e recursos naturais contra a vontade de sequer uma única pessoa que viva e precise também delas. Ninguém tem o direito de se proclamar ou ser proclamado como a autoridade sobre outra pessoa, ou sobre tudo o que ela naturalmente precisa para viver. Isto é tão falso e absurdo quanto feudal. Mas muito menos incongruente do que atuais déspotas supostamente esclarecidos eram os antigos senhores feudais que arrogavam direitos divinos sobre a terra. Porque quem se você se vê tem servos que acreditam mesmo que o criador é um sujeito, porque eles não podem crer que só alguns abençoados nascem com privilégios sobre a terra? Mas se você se vê como pessoa livre e ainda hoje acredita que tem gente que não é só dona das terras, mas senhores de todo um território só porque o cercou e embandeirou antes dos outros, ou se armou até os dentes contra todo mundo, então você é mais crédulo que seus antepassados com todos seus reis e deuses todo poderosos. Mais crente e ainda mais alienado, porque ao menos eles sabiam que eram servos.

Quem se apodera ou segrega o que os outros também precisam para viver seja porque diz que chegou primeiro, seja simplesmente porque tem força, não é apenas um ladrão, é um assassino. E não é só um genocida das populações e gerações que lá viviam antes quando chegou “primeiro”, mas da sua própria descendência que também precisam de tudo que há de natural e vital- e não é deles, nem de ninguém, mas de usufruto de todos os seres vivos, que habitam as terras que eles tomam por seu território privado e estatal.

O Estado é campo de extermínio lento das gerações passadas, presentes e futuras onde só sobrevivem aqueles que renunciam a sua própria vida e concepção para viver e manter a anterior. Onde só sobrevivem aqueles que se convertem na negação da nova geração para afirmar a velha. É o sistema de perversão da natureza, onde não é mais o velho que dá lugar ao novo, mas o novo que é morto e sacrificado aos pés dos ídolos e ritos supremacistas para sustentar as múmias dos todo poderosos e seus malditos cultos de poder total. Infantarias, holocaustos, guerras, fábricas e fome ou em suma numa única palavra: Estado.

Chame-se e justifique-se como quiser: libertário, autoritário, humanista ou qualquer coisa. Os discursos não importam; perante as práticas violentas de qualquer cultura supremacista, toda pessoa tem naturalmente o direito natural e legítimo de se defender. E não é só o violentado que tem o direito de se defender: toda pessoa livre não só pode, como deveria se solidarizar com uma causa que mais hora menos hora será também a sua ou a dos seus filhos, a causa de libertação de tudo que é mais sagrado e está sequestrado pelo corpo artificial: a vida, a liberdade e a natureza.

Todo ato de paz e legítima defesa dos direitos naturais a autopreservação, a libertação e empoderamento das pessoas naturais e natureza é o movimento constituinte de autodeterminação das pessoas de paz e soberania dos povos livres. O movimento ecolibertário constituinte dos estados de paz, livres e naturais. Esta é a revolução que as pessoas e a terra precisam: a libertária. Qualquer forma de imposição de valores, condições ou estados em nome do que quer que seja: deus, estado, revolução, natureza ou até mesmo a liberdade não passa de discurso e é golpe. Na prática só mais um projeto de poder onde os fins são tanto a propaganda dos meios violentos quanto a perversão de todos os princípios para a falsificação do mal como bem.

Não, não só podemos agir em favor daqueles que não tem voz nem meios para se defender, devemos. Se não queremos ser predados ou viver sob o domínio do terror dos supremacistas e violentadores, devemos sempre que pudermos nos levantar e voluntariamente resistir contra toda ameaça de agressão e privação, principalmente a dos adoradores e maníacos por poder. Para proteger a si mesmo, sua forma de vida e o mundo em que se vive, é preciso fazer frente ao que pretendem justificar sua prepotência com a hipocrisia de que “fazem aos outros, o que gostariam que eles fizessem a elas”, quando tudo que fazem de fato é sugar e mandar que os outros façam para eles tudo o que eles querem.

Hipócritas, por que não fazem o que querem a si mesmos, e deixam as pessoas ter e buscar o que precisam por elas mesmas naturalmente? Se quiserem mesmo fazer algo pelos outros parem de falar e ouçam o pedido dos carentes. Ouçam para saber, se ao menos o que eles pedem é o que vocês querem mesmo fazer! Antes de qualquer coisa, porque não param de ditar o que deve ou não ser feito? Não faltam ditadores e donos da verdade, mas quem está disposto a ouvir as suplicas dos que não querem, precisam?

Olhe para quem você não vê, antes de supor que sabe porque ela não se move. Ouça quem está calado antes de seguir quem diz que fala por todos. Muita gente que não se levanta e anda não esteja a espera de nenhum salvador, mas só o fim da pobreza e privação imposta por tantos proprietários do seu bem e salvação. Paz. Deixem os outros em paz. Não façam nada que vocês supõem que os outros querem, mas apenas pare e ouça e se ainda quiser mesmo fazer comece parando de fazer tudo o que as pessoas lhe pedem que NÃO FAÇA. Simplesmente pare de obrigar as pessoas a fazer o que você acha que devem contra sua vontade.

Você precisa de milagres? Você precisa de ordens? Vocês precisam mandar e seguir alguma regra? Então siga esta para viver em paz: não tome como só seu o que todos precisam para viver. É pouco? Quer mais? Então: não deixe que ninguém reclamem só para si ou todo mundo o que não é de ninguém, mas de todos ser vivo que precise dele para viver[1]. Milagre! Quantos cegos verão e quantas montanhas intransponíveis se moverão só pelo fim da ditadura das preconcepções e predeterminações. Ninguém precisa amar seus inimigos, só precisa parar de fazê-los. E se isso acha que isso não é suficiente, é porque você tem um governo imperial que vive de fabricar inimigos contra você.

Legítimo, portanto não é pressupor que quem é violentado, encarcerado, torturado e escravizado, quem está passando por privações ou sofrimentos esteja concordando ou esteja conformado com sua condição, mas justamente o contrário. Legítima é a suposição que os povos submetidos aos monopólios dos meios vitais dos supremacistas da violência estão sim à espera de liberdade; a espera de uma oportunidade pra se livrar dos seus violentadores e privações. Legítima é a suposição de esperança por independência deste estado de pobreza, ignorância e servidão. A espera do momento para se livrar do estado mais pervertido da historia: o do mal necessário como bem estar social, a ditadura dos valores absolutos que predeterminam o bem para o impor como mal.

Legítimo é, portanto as pessoas em sociedades livres do mundo demandarem que os representantes dos seus cultos nacionais, religiosos e científicos celebrem e renovem periodicamente contratos sociais como cada um dos seus crentes, contratos que manifestem explicitamente o consentimento de cada um deles, não apenas sobre suas autoridades e governantes eleitos, mas a concordância com o sistema que o governa. Quem precisa justificar que as pessoas querer viver em seus estados distópicos, que elas aceitam seus dogmas, são aqueles que se arrogam representantes dos povos confinados nas fronteiras imaginárias do seu geopoder e saber. São eles, prepotentes e prepotências, que precisam apresentar o consentimento explícito de cada membro da população que ele rege que há concordância explícita não apenas com sua representação, mas com o regime de alienação dos seus bens naturais e meios vitais. Para poder viver novamente em sociedades livres, as pessoas não precisam provar como viveriam sem os monopólios da violência, mas para (pelo menos tentar) descriminalizar seus domínios, são os violentadores que devem provar que não exploram dementes ignorantes ou simplesmente pessoas pobres demais para ir contra eles.

O mais absurdo e perverso da cultura de dominação é a inversão de todos os valores. A estratégia de dominação do poder não é só a da lógica da ditadura realista, mas a do realismo absurdo: a inversão do ônus da prova contra as vítimas. Os supremacistas não só justificam descaradamente a violência dizendo que os violentados concordam com sua violação porque, não protestam e não reagem, mas são ainda mais canalhas: se contestados não só exigem que se demonstre alternativas viáveis ao seu poder da violência, como se arrogam o autoridade para julgar se estas alternativas são “razoáveis” ou não! O cúmulo do absurdo da violência supremacista é que ela se impõe como única realidade possível pelo próprio monopólio da violência. Não só desqualificando automaticamente qualquer proposta que não contemple a submissão ao seu monopólio como ilegal e irreal, como criminalizando e perseguindo toda proposta concorrente e divergente.

Mesmo que outras formas de vida e relação não existissem, mesmo que outros mundos possíveis além do monopólio da violência não fossem uma mentira; e mesmo que as pessoas não conseguissem mais viver fora dos cativeiros institucionais, ninguém jamais pode dizer: “quando você me apresentar outra forma de nos relacionar eu paro de te violentar”. O fim da violência como prerrogativa de estado não exige a apresentação de outro mundo possível, ela é o mundo não apenas possível, é o mundo necessário. É a demanda que se auto justifica e, uma vez manifesta, não admite protelação ou condicionamento. O fim do monopólio da violência é justamente a demanda que não atendida, ou seja, mais uma vez reprimida legítima a defesa da manifestação de paz com toda a força e meios necessários. Legítima a mais justa de todas as revoluções a defesa da liberdade e da paz.

Na verdade a palavra crime não é suficiente para classificar a perversidade deste sistema de autolegitimação da violência pela violência, nem a palavra conformismo é suficiente para qualificar quem aceita conscientemente a desqualificação da liberdade como irreal ou o monopólio de qualquer coisa como legal. Nada é mais insano do que legalizar a violência como estado afirmando que a realidade é violenta pela confirmação desta realidade com a prática da violência como estado. Isto não é apenas loucura, é perversidade. E é findando com qualquer pressuposição de legitimidade da violência, qualquer tolerância com os violentos ou validade da sua imposição ou racionalização ideológica que podemos dar o primeiro passo para sair do estado dela!

Não, a revolução não apenas é uma necessidade legítima, mas crescente. Porque em sua forma final, a lógica perversa do poder não é só supremacista, é totalitária; e não se contenta apenas em criminalizar a legítima defesa, precisa criminalizar a própria paz. Não pague para ver; no fim de toda crise sistêmica, há o massacre de pessoas de paz para salvar os domínios, dos monopólios da violência; Há o extermínio dos povos pacíficos e pela mais absurda, teratológica e nazistas das racionalizações criminosas: quem não se defende contra seus agressores, quem que não luta pela sua autopreservação, não é gente, não merece viver, merece o holocausto. Deixe a cultura do poder pela violência prevalecer e eles não irão apenas desqualificá-lo como gente ou subtrair seus meios de defesa e resistência, vão executá-lo por não ter resistir e reagir contra seu monopólio violento. Vão sentencia-lo a morte porque você não se levantou contra eles.

O poder não é só perverso e psicopático é um culto demoníaco. Ele não se contenta em fuzilar bombardear, queimar em fornos, envenenar e ainda dizer que a culpa é das vítimas. Ele é declara guerra contra a paz e humanidade e diz que quem não está disposto a matar e violentar em nome do poder e dos todos poderosos não merece viver. Diz que quem morre sem erguer a mão contra seu inimigo, não é mártir, mas um covarde. Como se as pessoas fossem obrigadas a viver dentro da ditadura das guerras, confrontos e disputas e poder, como se todos que tivessem que estar presos na mesma egregora da discórdia. Não a paz não é a passividade diante da violência, nem o levante contra os inimigos é renegação dos estados de violência e suas disputas de poder. É a revolução contra a toda prerrogativa de violência e poder. A deposição da ordem perversa da discórdia suas corporações e fanáticos.

O problema da paz na terra não é de falta de alternativas pacíficas, mas a submissão do bem comum ao monopólio da violência, impedindo a emergência de qualquer alternativa concorrente de paz pela absurda inversão da exigência de renuncia a legítima defesa por parte dos violentados ao invés do fim imediato e incondicional da violência por parte dos violentadores! Não é preciso tomar nem redistribuir nada a força ou contra a vontade de ninguém, basta que o equilíbrio das forças seja retomado, pela distribuição simétrica de forças entre todos. E isto não é feito com armas ou sem, mas sim pela legítima defesa contra a violência da desigualdade de autoridades impostas como estado de segregação sobre o bem comum. Se negue a servir a qualquer comando de violência; proteja o que não deve ser objeto de posse de ninguém e você já está renegando a violenta centralização do poder.

O estado de paz não é apenas uma trégua entre os conflitos, mas a neutralização tanto das causas geradoras dos conflitos, quanto da centralização de poderes que permitem as agressões sem causa, com motivações falsificadas. Ou absurdamente racionalizadas pela impostura de realidades alienantes. A resistência contra a violência do poder e privação das vocações e liberdades será dada pela legítima defesa da igualdade de autoridades para a garantia de liberdade fundamental pela provisão mútua de liberdades fundamentais como meios vitais. Porque se as forças estão distribuídas entre todas as pessoas, os poderes centrais perdem sua força de constrição pela privação, e as pessoas recobram os meios para sustentar a resistência e manter um equilíbrio de forças de paz através da garantia de liberdades fundamentais para todos.

Sistema retroalimentado e autossustentado de liberdade e igualdade pode tanto se iniciar pela garantia voluntária de liberdades fundamentais como meios vitais, quanto pela distribuição de forças pelo reconhecimento espontâneo da igualdade de autoridades sobre os bens comuns. A desobediência civil a não-violência, a legítima defesa e até mesmo o boicote podem ser atos legítimas necessários e uteis contra os crimes estatais e privados, mas nenhuma estratégia é o fator determinantes a libertação, porque a liberdade não é uma questão estratégica mas de consciência. Não é preciso rasgar dinheiro nem confrontar forças armadas, basta única e exclusivamente não idolatrá-los; não servi-los sem ser forçado: não reconhecer sua legitimidade se não for coagido, e jamais usar deles para obter vantagem contra os outros. Tudo o mais que se faz, além disso, implica em risco, e é mérito de quem assume voluntariamente essa responsabilidade de paz e liberdade.

A revolução é a quebra da absoluta certeza de inercia e inconsciência dada como estado pelo movimento de profissão da fé na liberdade como razão de ser. É a ruptura dos estados de dominação da ignorância como Estado. A revolução é antes de tudo revelação porque o movimento em direção a luz da liberdade é voluntário, espontâneo e natural. Deixe as pessoas viverem em paz e usufruírem livremente dos seus direitos naturais necessários a vida, que a violência e culturas primitivas de supremacia e idolatria como condição e prática desumana decairão por falta de territórios para cultivarem seus estados de pobreza e ignorância fabricada. Sem o subsídio da segregação dos direitos naturais, a centralização do poder decairá por obsolência e de fato pela mais natural de todas as seleções: a da harmonia solidária tanto para cooperar no necessário quanto para competir pelo demais.

A escravidão jamais será abolida meramente pela proibição da posse de um ser humano pelo outro, mas pelas garantias de que todos os seres humanos tenham o mesmo direito natural a liberdade- e não no papel, mas de fato. Da mesma forma a privação não será abolida por nenhuma proibição a posse exclusiva dos meios vitais, mas pela garantia de acesso a todos sem nenhum tipo de segregação aos meios vitais. A natureza não se protege proibindo sua posse exclusiva por alguém, a natureza não é propriedade de todos, mas de ninguém. A natureza não é propriedade para ser tomada ou consumida, seja para ter um meio ambiente seja para ter sua parte nos rendimentos básicos necessários, toda a pessoa tem direito de proteger a natureza com a mesma força necessária e proporcional com que defende sua autopreservação.

O poder só é monopólio, só é “mal necessário” e o “único provedor do bem” porque persegue e elimina toda a livre concorrência para a produção do bem comum e serviços sociais. O Estado é o cafetão que obriga a pessoa a se prostituir, e que quando ela diz que quer ir embora ele pergunta: mas como ela vai se proteger sem ele? O estado de poder é a justificação da violência pela própria privação dos meios necessários para se escapar dela, a desqualificação da liberdade como uma possibilidade real pela legalização da violência como meio de ameaça velada (e se necessário explícita) para impedir a independência das pessoas e dos povos.

Claro que jogar luz sobre a estratégia perversa e a lógica absurda do poder só libertará a consciência de quem quer se livrar da sua ignorância e perversidade. Os megalomaníacos possessivos-compulsivos, os tarados por ter poder, os supremacistas preconceituosos e hipócritas não vão se converter em pessoas menos falsas e violentadoras apenas porque a sua farsa está nua. Contudo, sem suas máscaras politicamente corretas, os moralistas tem que ir para as ruas como são: se quiserem continuar a exercer a sua autoridade desigual contra a vontade de quem não consente, tem que largar seus disfarce de benfeitor e justo e assumir o que são: violentadores.

A manifestação da contrariedade obviamente não abole instantaneamente o estado de violência, mas ao expor os criminosos pervertidos que carecem do silêncio das vítimas e testemunhas, põe fim ao próprio estado de cegueira, de violência velada que alimenta o vácuo social necessário ao conformismo e alienação. Parece pouco, mas quando já não são mais os violentados que precisaram explicar porque estão fugindo, mas sim os supremacistas porque discriminam e perseguem os expropriados; quando não for mais preciso coragem não para ser livre, mas para ser um fascista e se impor violentamente contra a vontade de qualquer um, a egrégora do poder pode não estar deposta como organização criminosa, mas estará deposta como Estado. Quando o culto ao absoluto morre como cultura, a idolatria supremacista, o mito do estado de poder total se reduz ao que naturalmente é de fato: alucinação histérica.

Não senhores, não são as pessoas que querem viver e ser livres que precisam justificar e apresentar a prova do seu direito natural a liberdade e autopreservação. São os maníaco por poder que precisam apresentar a prova de como seus estados podem existir legitimamente sem a desigualdade de autoridades, sem a privação de liberdades fundamentais e, sobretudo sem a ameaça da violência das pessoas naturais. Quem precisa provar o seu caráter voluntário e legítimo, apresentar o consentimento explícito das pessoas que querem viver assim desnaturadas, para provar que não as estão violentando, são os idolatras sadomasoquistas do poder. São eles que precisam pedir autorização das pessoas naturalmente livres para conviver com elas; são eles que devem provar que não submetem e não desejam submeter ninguém a nenhuma violação; são eles que precisam provar que não pretendem privar ninguém dos seus meios naturais nem forçá-los a se submeter a sua ordem em troca do direito inalienável a subsistência ou defesa que monopolizam.

Se quem faz da violência a base da sua legitimação, tem sinceramente qualquer disposição de paz, precisa provar (se puder) que não impõe sua “violência legítima” sem a concordância explicita de cada pessoa que sofre com as consequências das suas ações ou sustenta seu sistema. Não é, portanto a revolução, ou o movimento de defesa da liberdade e libertação, que precisa de legitimação popular ou qualquer autorização estatal, é o Estado-Nação que se quiser deixar de ser uma farsa deve buscar imediatamente junto a cada habitante do território a autorização constantemente renovada sobre seu consentimento quanto a sua representação. São os Estados que se constituem pelo golpe da representação alienada de supostas vontades coletivas, que não só carecem de legitimidade e justiça, mas de reparação dos seus crimes.

Ao contrário dos Estados e golpes, as Revoluções e estados livres de poder não precisam de adesões falsas, se constituem de forma direta e voluntária de forma livre e espontânea, e não carecem da imposição de deveres, bens maiores ou mal necessários. Sua causa é naturalmente legítima: a vida e liberdade. Uma causa solidariamente compartilhada por cada pessoa submetida às mesmas privações. A revolução não é só a libertação da ocupação de territórios naturais ou usurpação de bens naturais particulares e comuns, a revolução é a derrubada da ditadura da preconcepção dos direitos e deveres sobre povos e pessoas naturalmente diversos e quem tem o direito natural de celebrar de livre e espontânea vontade seus próprios contratos sociais em paz e sem atravessadores.

Se pessoas adultas querem por livre e espontânea vontade constituir um poder ou hierarquia capaz de violar seus direitos naturais que o façam, mas sobre si mesmas e suas propriedades particulares. Que deixem as outras em paz. Que não tentem tomar o espaço comum; ou privar ninguém do acesso à natureza ou usufruto dos meios vitais; que vivam e morram como quiser. Sem impor seu modo de vida e valores aos demais, sem tomar bens comuns ou meios vitais, sem forçar a adesão de ninguém a sua sociedade política-econômica, ou saída das dos outros, e, sobretudo sem impedir a participação direita de qualquer pessoa sobre o bem comum todos tem o direito de conviver livremente. Em suma, vivendo em paz todos tem o direito natural a liberdade de fato plena.

Todas as sociedades e contratos sociais voluntários não são só legítimos, como são perfeitamente capazes de coexistir em um mesmo território, ao mesmo tempo, constituindo estados de paz pela cooperação na sua defesa e livre concorrência para a provisão dos serviços públicos — justamente contra todo monopólio do bem comum ou violência. Entre pessoas livres toda negociação e contratos são legítimos desde que naturalmente possíveis. São os acordos de guerra e supremacia, constituições que falsificam a legalidade dos domínios econômicos e políticos contra os direitos naturais de autopreservação e autodeterminação que não deveriam sequer existir, quanto mais ser reconhecidos.

Contratos de poder econômico ou politico não são apenas ilegítimos por princípios morais ou por suas consequências destrutivas, mas pura e simplesmente porque eles são nulos, não existem senão como golpe e falsificação. Qualquer cessão permanente do poder de decisão político ou econômico é equivalente à renúncia ao livre-arbítrio ou responsabilidade sobre a própria vida, algo que não é impossível de ser feito não por ordem social, mas por ordem natural: não há como se separar-se da própria anima, alienar-se definitivamente da livre vontade sem pôr um fim a própria vida. Podemos decidir não tomar decisão nenhuma ou decidir que outros decidam por nós, mas não podemos transferir nossa capacidade de decisão ao alheio. Simplesmente porque a vontade é inalienável.

A livre vontade não é propriedade. O que chamamos do fenômeno da vida, a anima que distinguem uma pedra de uma pessoa é rigorosamente essa força automotriz, a livre vontade. A livre vontade é a própria alma, a essência da vida. A vida pode ser morta, mas sua essência, a livre vontade, não pode ser tomada nem muito menos dada, não pode sequer ser definitivamente paralisada, não enquanto ainda se está vivo. Não é só quem finge representar uma vontade alheia que está mentindo, mas quem acredita que cedeu a sua vontade ao seu falso representante que está se engando. Não importa se ambos acreditam na sua mentira ou ilusão O pacto é nulo não porque seja um contrato leonino, mas porque o contrato de venda ou renuncia da livre vontade, é um contrato de fausto, a celebração de um crime contra a natureza e o espírito da vida.

Um contrato de alienação política é, portanto nulo e duplamente falsificado: Primeiro, porque a desintegração do poder político e econômico é uma abstração e a reificação dos seres vivos um crime contra a natureza. Decisões políticas são sempre econômicas, e a economia é sempre política. Tanto o poder político quanto o econômico são determinados pela alocação de recursos. E ambos poderes não pertencem nem a quem detém mais recursos, nem a quem tem mais força para alocá-los; o poder pertence a quem predetermina quais são e de quem estes poderes e a quem pertence todo o resto: nós, todos os recursos, todos os seres vivos reduzidos a coisas. E Segundo, porque, rigorosamente uma pessoa pode até delegar decisões por um tempo indeterminado, mas não tem como ceder ao seu poder de decisão soberano sobre sua vida sem que possa a qualquer instante revogar unilateralmente essa concessão. A promessa sobre cessão da vontade futura é sempre nula porque a vontade não é apenas inalienável, ela é imprevisível, e instantânea, é soberana.

Assim como não há como forçar um alienado desinteligente e irresponsável a assumir suas responsabilidades nem comuns nem particulares, porque não existe responsabilidade sem volição; não há como, sem violência, impedir que uma pessoa dotada de livre vontade não venha a se tornar responsável e consciente quando passar a buscar voluntariamente a sua emancipação. A qualquer momento a mais irresponsável das pessoas ou a mais alienada das sociedades, pode simplesmente querer tomar conta da sua própria vida, e ninguém poderá se opor ao novo testamento soberano sobre a vida nem mesmo recorrendo aos anteriores, não sem crime. O direito natural a emancipação e vocação e soberania sobre sua própria vida não pode ser impedida sem crime contra a vida e liberdade da pessoa humana, nem a negação do direito a autodeterminação dos povos e pessoas sem crime contra a humanidade.

A única pessoa que pode legitimamente sacrificar ou mesmo pôr um fim a sua vida é a própria pessoa. E a única morte que se pode assistir ou dar assistência sem omissão ou cumplicidade é a requerida por aquele que consciente pede um fim digno para sua vida. O direito a vida e a morte não pertencem aos outros, e, portanto em hipótese alguma os meios necessários para sua preservação ou extermínio. O direito a vida, seja como anima seja como fato, não é objeto de concessão nem benesse, não tem preço nem gratuidade, simplesmente não é propriedade para ser dada nem tirada, condicionada ou alienada. E contra aqueles que pensam que se arrogam o poder sobre a vida e natureza de todos, que privam as pessoas das suas condições mais fundamentais toda força necessária não é apenas legítima defesa, não é apenas revolução é justiça.

[1] Lembrete aos autoritários e insolidários: “ninguém” e “todos” incluem vocês.

X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.