Repúblicas Libertárias e Democracias Econômicas 3

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Renda Básica Não-Governamental: Porquê ? E como?

Será que uma renda básica só pode mesmo existir dentro de modelos estatais e tributários? Será que uma renda básica não pode ser concebida fora do arcabouço do Estado? Não poderia a renda básica ser uma rede de segurança social independente e descentralizada?

Não só pode como deve. E já começa a ser feito.

O presente texto está dividido em duas partes: a defesa da renda básica incondicional provida pela livre iniciativa sem a intermediação do poder governamental; e a apresentação de um modelo para sua concretização. Ambas, defesa teórica e modelo prático, estão embasados (além das minhas convicções libertárias), na própria experiência adquirida como corresponsável pelo projeto independente de renda básica incondicional na pequena comunidade de Quatinga Velho-Brasil. Uma experiência que desde seu início até o final, 2008–2014, pagou uma renda básica incondicional sem nenhum subsídio governamental ou empresarial, diretamente de pessoa para pessoa.

Porém não abordarei os resultados positivos sobre o desenvolvimento econômico social e humano da renda básica desta experiência[1]. Ao invés disto, de expor efeitos positivos de uma renda básica sobre quem mais precisa dela — que desfeitos preconceitos são um tanto quanto óbvios — me focarei na exposição do potencial da renda básica para as pessoas que em tese menos precisam dela; aquelas que justamente poderiam com sua simples participação voluntária contribuir para a sua realização.

Entretanto antes de defender o porquê a renda básica deve ser um sistema de proteção social não-governamental, apresentarei o “como” constituí-la. Uma renda básica constituída diretamente pela sociedade e livre iniciativa sem nenhum subsídio do poder coercitivo e sustentada como deve ser apenas pelo interesse socioeconômico recíproco.

Como? Os Fundos de Investimento na Renda Básica

Como disse, o modelo que propomos aqui surgiu da experiência da renda básica em Quatinga Velho. Uma renda básica que embora jamais tenha recebido recursos governamentais ou empresariais dependia de doações eventuais de pessoas físicas. Dependia. Porque hoje, a renda básica também pode ser financiada através de empréstimos e investimentos em fundo da renda básica da comunidade.

Um fundo de investimentos onde a rentabilidade que paga a renda básica é a mesma que poderá prover gradativamente também os rendimentos dos investidores conforme sua rentabilidade, até atinge montantes suficientes não apenas para pagar a renda básica preestabelecida, mas para distribuir os excedentes como dividendos entre os todos — conforme o contrato.

Ou seja, um Fundo que visa a autosustentação através da própria riqueza produzida pelo capital investido na comunidade e investimento incentivado dos próprios moradores. Incentivo que não é dado apenas pelo aumento da sua renda básica, mas pelo interesse de se tornar provedores do próprio fundo de proteção social e investidores remunerados do seu próprio desenvolvimento.

Se a renda básica por si só é capaz de prover um sistema menos burocrático e mais eficiente; a renda básica independente é capaz de fazer desta política pública que já é um peso tributário menor um investimento de interesse social. Afinal, os contribuintes são e sempre serão de qualquer forma os provedores de toda e qualquer proteção social. Corte então o intermediário e deixe os próprios contribuintes auferirem diretamente os ganhos não apenas sociais e econômicos destes sistemas, mas também financeiros (hoje centralizados nos monstruosos orçamentos governamentais) que os sistemas de proteção e provisão de bens e serviços comuns deixarão de ser um eterno balanço negativo de contas a pagar com tributos, para ser ganhos futuros dentro de livre mercado social.

Um livre mercado de interesse social que, sem as perdas burocráticas e o custo político regular e irregular da centralização do poder, possui tanto potencial socioeconômico quanto for a demanda não atendida das necessidades vitais e interesses comuns descumpridos pelo monopólio estatal. E ela é imensa.

A garantia de bens comuns e seu usufruto universal não só pode, mas deve ser feita através de livre mercado de investimento social não apenas privado, mas sobretudo mútuos. E os fundos mútuos de investimento da renda básica podem ser o catalisador deste desenvolvimento socioeconômico, garantindo simultaneamente o mínimo vital e os ganhos maiores daqueles que contribuem voluntariamente para o desenvolvimento social, investidores tanto locais quanto externos remunerados pela solidariedade de acordo com o grau de participação e risco.

O aumento da renda básica e os ganhos dos investidores são, portanto bancados pela sistematização do ciclo virtuoso do desenvolvimento gerado a partir do capital inicial injetado no imensurável capital social destas comunidades. E o aumento da riqueza e desigualdade não só está livre da lógica escravagista de quem não trabalha para o outro não come, mas sim fundamentado na lógica produtiva de quem investe solidariamente aumenta seu capital.

Mantem-se assim o a equilíbrio e crescimento não só dos fundos, mas do sistema socioeconômico pela observância do limite do possível, ou seja, mantendo a sociedade longe do ponto de ruptura através da garantia permanente da provisão do mínimo vital para todos.

Sim, podemos garantir e efetuar a garantia universal de direito fundamental não apenas no papel, mas de fato sem o monopólio de poderes centrais sobre o bem comum através de sistemas voluntários de participação nos rendimentos nas propriedades para todos se os dividendos do desenvolvimento econômico forem pagos proporcionalmente ao risco e montante investido a quem é devido: aqueles que, em sociedade mútua assumem a causa social da garantia destes direitos universais como seu dever social voluntário e finalidade associativa. Disposição constituinte não apenas de sistemas e sociedades livres, mas também de limitação do poder central e expansão orçamentária dos recursos disponíveis aos governos para suas aventuras totalitárias.

Sociedades mutuais de investimento em renda básica universal são baseadas numa equação muito simples: contribuições equitativas (proporcional aos ganhos) para rendimentos iguais. Todos contribuem com um percentual de seus ganhos para um fundo que pagará um dividendo social regular (conforme o previsto no contrato social), e os excedentes são distribuídos entre todos os investidores. Contudo, não basta apenas se livrar do intermediário, é necessário que o sistema social seja independente e se autossustente. Por isso, é importante tanto que cada pessoa seja livre para formar e aderir à rede de proteção que mais lhe interessa quanto possa a qualquer tempo deixar de ser mero beneficiário para ser também provedora da sua própria renda básica colhendo os dividendos do seu próprio desenvolvimento social.

Entretanto para que a renda básica tenha seu efeito de potencialização econômica maximizado não se pode excluir nem coagir ninguém no território de abrangência da rede de proteção social. Ninguém deve ser obrigado a contribuir por ter muito dinheiro ou solidariedade, nem pode ser excluído do mínimo vital por ter pouco ou nenhum dinheiro ou solidariedade.[2]

Não se deve coagir as pessoas pela privação, mas incentivá-las pelas possibilidades de ganhos. E isto, não apenas por uma questão moral, mas de seleção meritória, pois qualquer um se move pela necessidade e obrigação, mas poucos são capazes de se mover voluntariamente pela solidariedade e responsabilidade e da iniciativa deles e não da submissão das maiorias dependem todos. E isto só é um problema no caso impedimento de quem é mais inteligente de poder ganhar competitivamente com sua maior capacidade solidária para investir diretamente nos seres humanos.

Falta de capital não implica em falta de comprometimento nem muito menos interesse, toda pessoa que investe deve ganhar junto com o desenvolvimento da comunidade. Deve-se, portanto remunerar os investidores solidários não apenas por uma questão de justiça, mas de sustentabilidade; remunerar adicionalmente com os excedentes cada um de acordo com sua contribuição social voluntária.

Sim. A melhor forma de investir seu dinheiro é diretamente no ser humano. Comprando participação em fundos de comunidades de renda básica. Que serão capitalizados pelo próprio depósito dos membros da comunidade através do microcrédito consignado em renda básica (outra experiência agregada ao modelo de Quatinga Velho[3]). Este modelo ainda que referenciado por localidade ou territórios, não precisa estar restritos à pequenas populações; as comunidades podem formar redes de proteção sem fronteiras provendo-se seguridade mútua até mesmo entre cidades. De fato um mesmo fundo pode investir em diferentes comunidades conforme o acordo entre as expectativas dos investidores e a as projeções de emancipação e capitalização da própria comunidade.

Neste modelo de livre mercado de provisão do bem comum, o fim da pobreza se torna mais viável não apenas porque eliminamos do sistema os agentes políticos e econômicos que literalmente ganham com o empobrecimento, rarificação e protecionismo, mas porque sem o subsídio da máquina estatal ao sistema de privilégio e desigualdade de oportunidades os melhores retornos para o investimento de longo prazo destes fundos são justamente onde existem a maior demanda por capital: as comunidades mais pobres, cujos custos de vida são menores e o capital social maiores. Comunidades onde a maior demanda é justamente por meios de troca[4] capazes de dinamizar o potencial da sua livre iniciativa.

O que estes Fundos Mútuos podem prover não é apenas o mínimo vital, mas a emancipação das pessoas e não só desta comunidades, mas de todo o mundo, pela provisão de direitos fundamentais não apenas de interesses mútuos ou comuns monopolizados por Estados Nacionais mas deveres universais e voluntários descentralizados por povos e sociedades livres.

Não só um verdadeiro livre mercado, mas num verdadeiro mundo livre. Um Livre mercado social não apenas capaz de descapitalizar os poderes políticos e econômicos que pagam e ganham com o sistema de reiteração das desigualdades de oportunidades, mas empoderar as comunidades e pessoas empobrecidas não só materialmente, mas culturalmente pela idolatria a supremacia dos poderes político-econômicos.

Utopia? Com certeza, mas uma utopia em rede que já tem um ponto no mapa. Não importa o tamanho da vida em Marte, desde que exista vida. Uma experiência que pode ser tanto abraçada como replicada. Uma nova economia social, em seus primeiros passos e que pode esta a ser agora financiado por fundo de risco para inovação social constituído por crowdfunding. Sim. Hoje é possível investir na economia de renda básica de um lugar pequeno, não teórica ou experimental, mas concretizada e com vontade para continuar. Faça você também a sua Quatinga Velho, comece uma experiência de Renda Básica Incondicional. Senão porquê, porque não?

Renda Básica? Por quê?

Não vou me ater em fazer a distinção entre uma renda básica independente e a governamental. Não só porque espero que as razões que apresentarei para a independência sejam autoexplicativas, mas porque uma renda básica governamental é mais do uma incoerência teórica, é uma quimera que se vier a se tonar a realidade será como aberração da ideia, e a própria contradição do seu ideal.

A Renda Básica Universal deve ser efetivada pela livre iniciativa sem a distorção de nenhum poder central. Pode ser perfeitamente provida por um sistema de seguridade social baseado em sociedades cosmopolitas constituídas pela disposição de todos. Financiada por fundos mutuais de investimento social que remuneram proporcionalmente o capital investido. Direitos fundamentais garantidos de fato por deveres voluntários mútuos assumidos como compromissos solidários com possibilidades de ganhos futuros financeiros futuros e ganhos políticos e econômicos imediatos e certos.

Fundos assim poderiam sustentar a provisão dos meios vitais, mesmo perante a falência dos monopólios estatais- ou até mesmo antes disto. Mas a pergunta é por que devemos fazer isso enquanto ainda existe o Estado para fazê-lo por nós?

É claro que a possível rentabilidade futura dos fundos de renda básica não são um incentivo suficiente nem a quem se move por esse tipo de interesse, nem muito para quem tem outros valores por sentido de vida. O que o retorno dos investidores sociais promove é constituição de um sistema mutual e competitivo de proteção social de uma nova socioeconômia. A pergunta que deve ser feita não é, portanto “por que as pessoas assumiriam tais responsabilidades de livre e espontânea vontade?” A pergunta a ser feita é “por que investir em fundos sociais e não em fundos exclusivamente financeiros?” Ou mais precisamente: “por que as pessoas deveriam assumir tais responsabilidades de livre e espontânea vontade quando há o Estado para fazê-lo, deixando-as “livres” para outros investimentos mais rentáveis e imediatos?”.

A resposta a esta pergunta é a negação dos pressupostos que ela esconde. Esta é uma pergunta capciosa baseada em pressuposições que induzem ao erro. O Estado não faz, e em hipótese algum libera ninguém dos tributos para fingir fazer o que não faz, nem permite que ninguém mais o faça. A pergunta, portanto, corretamente formulada é: por que devemos deixar que os governos ‘tomem conta’ das provisões de renda básica e seus fundos através de impostos e sua máquina estatal? Ou melhor: por que há quem — sem usufruir dos privilégios ou ser um completo alienado- ainda defenda o monopólio estatal sobre o bem comum? Se o Estado não é capaz de administrar uma fábrica de alfinetes que não é um bem vital, o que dizer dos sistemas de provisão e garantia dos bens comuns e mínimos vitais?

Os recursos necessários a autopreservação pacífica e cumprimento dos deveres sociais, os meios vitais, precisam ser dispostos não apenas como direitos fundamentais de papel, mas como provisões de fato incondicionais, de modo a garantir as liberdades que sustentam o estado de paz e propriedades legitimamente adquiridas em livre-negociação. Ou será que a propaganda estatal e o espetáculo da imbecilização atingiu o ápice de acreditarmos mesmo que todas as propriedades privadas e públicas são mantidas pela força coerciva do estado contra toda sociedade pertence a eles e não a nós? Será que passamos acreditar na própria propaganda? de que o quê mantem o tecido social unido é força da coerção estatal pelas forças armadas e policiais e não pelo que restou do reconhecimento tácito dos comuns enquanto ainda se beneficiam minimamente do que é produzido?

Logo a verdadeira pergunta não é por que não deixamos a provisão do mínimo vital nas mãos do Estado, mas sim por que em sã consciência abandonamos nosso bem comum à estatização? Estados são Instituições projetadas para perpetuar propriedades e rendimentos seletiva e discriminadamente, ou o que é a mesma coisa, impedir o usufruto da propriedade natural tanto comum quanto particular por todos. Ou seja, é o corpo estatal o próprio instituto do impedimento da auto-organização social e garantia de liberdade de todos.

Fora da caixa do culto ao poder central, o porquê de renda básica independente é uma resposta cada vez mais óbvia, tanto quanto a sua necessidade. Fora da cultura estatal a renda básica universal precisa ser uma iniciativa associativa voluntária e independente não apenas para que os Estados não se apropriem ainda mais dos bens comuns e naturais e corrompam novamente os sistemas mutualistas, mas para que a garantia universal dos meios vitais finalmente possa finalmente existir de fato e não como mera declaração de intenções.

O custo estatal não apenas econômico, mas político é imensamente maior do que qualquer benefício advindo da terceirização exclusiva das responsabilidades sociais e públicas para o monopólio estatal. Estados não fazem o que é necessário e que ninguém quer fazer. Estados fingem fazer o necessário e impede a sociedade de fazê-lo.

Estados se sustentam tomando para si as responsabilidades sociais para o qual uma sociedade é constantemente incapacitada e reiteradamente impedida pela própria força e cultura estatizante. Estados se perpetuam tanto pela disseminação da desinteligência e desvoluntarismo dos massificados que sustentam a subvenção do corporativismo e burocracia quanto pelo bloqueio coercitivo dos não-conformados com essa estatização da vida e natureza.

É o impedimento da constituição de direitos e deveres mútuos pela imposição de benesses e obrigações que impedem as pessoas naturalmente de sustentar por livre e espontânea vontade seu próprio sistema socioeconômico sem pagar o tributo a supremacia no poder.

Governos não apenas atuam na desinteligência e insolidariedade da sociedade, eles expandem seu domínio neste vácuo social sem preenchê-lo nem liberar para que seja preenchido pela livre iniciativa.

Mais do que um monopólio executando uma tarefa absolutamente necessária de forma coercitiva e antissocial, mais cara e sem nenhuma competitividade, o Estado é rigorosamente a representação fictícia da sua execução como se fosse a única alternativa realista e possível para o mundo.

O Estado é incapaz de prover o bem comum e o mínimo vital para todos, porque o Estado é sistema projetado para evitar que isto aconteça.

A máquina estatal atual não foi desenhada para sustentar um capitalismo criativo de abundância, mas de rarificação e trabalho “voluntariamente” servil onde a pessoa se torna objeto de emprego e estudo do mundo alheio não pelo que a pessoa mais rica tem a oferecer, mas por tudo que falta as mais pobres: a total ausência de direitos de propriedades naturais e seus rendimentos básicos. O monópolio estatal, a estatização do bem comum, é o próprio coração do sistema reiterado de subtração das propriedades naturais e negação das liberdades fundamentais dos segregados em favor dos subsidiados.

Estados são inerentemente redistribuidores de rendas e custos, porém jamais em favor dos historicamente expropriados de seus direitos proprietária naturais, mas sim e sempre em favor dos expropriadores entitulados artificialmente não por acaso pelo próprio Estado. E assim como, essas propriedades artificiais não derivam de nenhum acordo de paz, mas da monopolização da violência; toda essa economia estatal esta “lastreada” não em confiança ou metais preciosos, mas rigorosamente nas “reservas de mercado” garantidas por seu maior ativo: as forças armadas.

Se não tolerássemos nenhum tipo de violência ou privação sobre os seres humanos, sobretudo as institucionalizadas, e até os Estados tivessem de abandonar o uso da força com que monopolizam o bem comum, as pessoas poderiam então se associar atender suas próprias demandas comuns; não apenas livre e pacificamente, mas sem o subsídio ou ameaça da violência ou privação de nenhum poder ou potencia. E os Estados não existiriam mais — pelo menos não como os conhecemos hoje.

Sem prerrogativas de violência o Estado enquanto monopólio do bem comum; perderia lugar para diversas sociedades de paz capazes de coexistir cooperativa e competitivamente dentro de um mesmo território, um estado de paz formado por estas repúblicas libertárias.

A renda básica universal não apenas pode, ela deve ser feita por sociedades e associações livres dentro de um novo paradigma de interesses econômico de valorização dos bens e serviços públicos não apenas para preservar seu espírito libertário, mas para não ser reduzida a instrumento de condicionamento estatal e nacionalista. A provisão de mínimos vitais por um poder coercitivo e central não é apenas um meio ineficiente e custoso de garantir direitos fundamentais ou impedir que as tensões político-econômicas implodam as sociedades, mas o caminho mais perigoso em direção a um populismo totalitário.

Há que se entender, uma renda básica governamental ainda que não tenha condicionalidades explicitas sempre terá ao menos uma condicionalidade tácita: a submissão ao poder constituído, mesmo que ele não seja mais legítimo. Para que uma renda básica seja de fato um direito cidadão inalienável e dever governamental, e não obrigação do cidadão e benesse passível de revogação, ela precisa ser disposição constitucional regulada e provida pela própria sociedade sem a dependência de nenhum poder central ou intermediário.

Nem os Estados precisam monopolizar a renda básica universal para garantir o cumprimento dos contratos das sociedades de proteção social, nem as sociedades podem mais continuar sob intermediação de estados para garantir as disposições constitucionais de seus contratos sociais. Em outras palavras, direitos de propriedade não devem mais estar sob a subvenção e dependência da proteção armada dos poderes centrais, mas devem ser instituídos por contrato social equilibrado que redistribua não riquezas, mas o poder de autodeterminação particular e comum como garantia universal- não meramente a subsistência tutelada, mas a vida adulta consciente e emancipada, uma garantia universal a liberdade. Liberdade garantida como um rendimento básico sobre aquilo que todas propriedades tem como seu bem comum: o reconhecimento da sociedade que a protege como rede e não estado.

O sistema econômico deve se equilibrar e sustentar, sem ameaça de privação ou violência, e sim por incentivo a criação e produção. Incentivo que deve ser suficiente ao reconhecimento reciproco e voluntário das propriedades protegidas pela distribuição equilibrada das forças e reconhecidas por estas pessoas iguais em autoridade em estado de paz. Um sistema constituído a partir da garantia incondicional dos meios vitais básicos necessários justamente para a preservação do exercício da livre vontade em livre comunhão de paz.

Em um mundo onde custos estatais para manter os contratos sociais coercitivos são inviáveis, a garantia de participação nos rendimentos das propriedades com incentivos, como renda básica não é caridade, é interesse econômico reciproco: o princípio constituinte de contratos sociais mutualistas para a provisão de direitos universais- não só imprescindíveis para o futuro, mas cada dia mais para ontem.

Mesmo perante as crises e conflitos que se aproximam, é ilusão pensar que os Estados irão reequilibrar seu peso insuportável diminuindo seus gastos ou renunciando sem usar da sua força a sua supremacia sobre as sociedades e iniciativas livres. Estados reequilibram suas contas entre seus custos insustentáveis e as pessoas, eliminado pessoas e não gastos.

E quando os apartheids das classes povos e pessoas não for mais suficiente para efetuar seu controle populacionais de vieses eugênicos, os métodos mais agressivos de se livrar indiretamente das populações indesejáveis serão mais uma vez adotados sem máscaras, como sempre o foram nos momentos de crise sistêmica mundial: guerra.

Não há nada como a guerra e o terror para jogar povos do mundo uns contra os outros e matar uma geração ou duas de libertários esperando o próximo boom de patriotas, materialistas alienados e supremacistas idolatras do poder renasça das cinzas.

A violência dos Estados se sustenta simbioticamente e não existiria se não houvessem mais lugares para plantar a pobreza e discórdia de modo a colher revolta, medo e idolatria servil aos supremacistas.

Não devemos esperar o próximo reembaralhar das cartas; nem o panóptico cair para nos livras das trancas da casa que não nos protegem, e sim nos prendem fora do mundo, fixados nas sombras projetadas nas paredes. E é sobretudo nisto que a renda básica interessa as sociedades de paz e não aos poderes e seus projetos: todos os exércitos regulares e irregulares de fanáticos — patriotas ou religiosos — são colhidos nos mesmos campos concentração onde se cultiva a pobreza cultural, economia e política: as terras estatizadas de privação controlada e falta de oportunidades.

A renda básica independente deve ser instituída não apenas por uma questão de justiça, ou porque só porque os sistemas atuais não tem mais como sustentar os custos da proteção coerciva estatal contra uma população mundial completamente submetida a condição precária pelo desenvolvimento tecnológico. Mas sim, porque esta condição precária que vem se desenvolvendo desde muito antes (desde a privação dos meios básicos naturais), nunca deveria ter existido. E não pode, em hipótese alguma, estar vigente durante a falência do status quo. Porque aqueles que estão no poder não medirão sacrifícios, quero dizer, pessoas a serem sacrificadas na guerra e em trabalhos cada vez mais “análogos à escravidão” para manter sua supremacia.

Uma renda básica incondicional não é apenas a proteção da sociedade contra o desespero tributário e genocida dos Estados-Nações em falência; ou meramente a base de um novo contrato social não-coercitivo perante a necessidade do precariado; a renda básica universal é a tardia garantia dos direitos humanos como fato e não discurso hipócrita de papel.

Em sua concepção libertária e não-nacionalista, a renda básica é o principio constituinte de um novo sistema socioecológico fora do arcabouço estatal-corporativo belicoso capaz de por um fim não só na pobreza mas aos delírios dos supremacistas e suas potencias armadas. O fim dos sistemas de reprodução da discórdia mundial pela disseminação da segregação e ódio entre os povos e classes pelo culto supremacista do poder único e total- seja como estado ou religião.

A renda básica deve ser a garantia dos meios necessários para que toda pessoa sejam suficientemente livre não só para tomar suas próprias decisões de como alocar seus recursos particulares. Deve ser a garantia de tempo livre e espaço próprio para participar diretamente da tomada de decisão coletiva sobre a alocação dos bens comuns. E isto de acordo com o entendimento pessoal do necessário e não pelas necessidades impostas artificialmente pelos outros como precondição a sobrevivência servil dos alienados.

Logo, uma renda básica independente não é só universal, mas cosmopolita; e será tão competitiva quanto o for a própria liberdade de comunhão de paz, não apenas nos verdadeiros livres mercados, mas no verdadeiro mundo livre.

Utopia? Não, só fim dos estados distópicos e um começo para as sociedades libertárias. Os estados de igualdade de autoridade fundados pela garantia de fato das liberdades fundamentais para todos. E porque não? Afinal, o que é a verdadeira renda básica universal se não um principio libertário? E o que deveria ser a renda básica senão a garantia do direito fundamental à autodeterminação pessoal e soberania sobre sua própria vida?

Governe-se.

[1] Como já foi feito em outros trabalhos citados na bibliografia.

[2] Apenas a pessoa pode segregar voluntariamente de uma rede. Até porque nada deve impedi-la de montar uma concorrente no mesmo território.

[3] Estes créditos sociais são empréstimos sem juros que são abatidos diretamente da renda básica e geram excedentes através de parcelas extras de pagamento definidas pelo próprio tomador do credito. Os empréstimos com melhores contribuições equitativas (proporcionais ao montante tomado) tem prioridade no recebimento do montante finito e predeterminado.

[4] No caso trabalhamos preferencialmente como moedas digitais descentralizadas como o BITCOIN.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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