Renda Básica ou Guerras? (parte 2)

Uma respostas mais otimista de Thomas Atkinson

“Pobreza e desigualdade são inseparáveis. É impossível ter igualdade de oportunidade com desigualdade excessiva de resultados”,”, diz Atkinson

EXAME.com — Por que devemos pensar na desigualdade como um problema em si e não apenas em reduzir a pobreza e melhorar as condições de vida para todos?

Anthony Atkinson — Primeiro porque não dá para separar pobreza e desigualdade. Se você quer reduzir a pobreza, precisa pensar na distribuição dos resultados, porque eles estão interconectados.(…)

Segundo porque quando falamos de bem-estar, a maioria pensa em algum tipo de igualdade de oportunidade e chance de desenvolver seus talentos. E é impossível ter igualdade de oportunidade com desigualdade excessiva de resultados.

A desigualdade de renda e riqueza significa que não temos um campo de atuação equitativo[grifo meu]. As pessoas podem ir para a mesma escola, mas ir com ou sem café da manhã faz a diferença se elas vão se beneficiar daquela educação.

EXAME.com — Você menciona a América Latina no começo do século como um exemplo de redução da desigualdade, mas estudos mostram que pesquisas de domicílio não revelam a riqueza no topo. Nossa desigualdade não pode ser ainda maior?

Atkinson — Sim. Informações de vários países mostram que é muito difícil capturar o que está acontecendo no topo do topo através de pesquisas, e por isso usamos outros registros.

Talvez a redução da desigualdade não tenha sido tão grande, o que também revela a atuação dos muito ricos para sua real posição não ser revelada.

(Um comentário: não só no topo mas abaixo do radar dos estudos sobretudo os governamentais e paragovernamentais. Ver estudos publicados pelo ReCivitas, que tratam da magica de como sumir como o povo invisível também do papel.)

EXAME.com — O Brasil está em uma recessão profunda. O que a história mostra sobre o efeito de crises e contrações sobre o nível de desigualdade?

Atkinson — Primeiro, eu separaria crises de recessões. Crises de várias formas frequentemente iniciam recessões.

Eu diria que muito da recessão mundial, por exemplo, foi resultado não da crise, mas das políticas feitas em resposta a ela. A Europa está em recessão principalmente por causa das respostas macroeconômicas falhas, não pela crise em si.

Se você perseguir politicas macroeconômicas que só focam em reduzir déficits do governo e inflação e não o emprego, isso tem no geral um efeito negativo para a maioria da população em termos de mais desigualdade.

EXAME.com — Você diz no livro que a tecnologia não deve ser vista como algo que simplesmente vem do céu. Mas não podemos partir do pressuposto de que a automatização vai sempre matar empregos?

Atkinson — Não. A tecnologia deixou as pessoas muito mais produtivas, então eu tenho uma visão muito positiva dela. O que eu eu enfatizaria é quais partes da economia estão tentando melhorar com a tecnologia.

Por exemplo: os governos dos EUA e a Europa estão gastando muito para desenvolver carros sem motorista, o que provavelmente vai matar empregos como os de motoristas de táxi.

Uma alternativa para gastar esse dinheiro seria melhorar a tecnologia robótica que faz com que pessoas não precisem sair de casa para ter tratamento. Isso vai junto com o avanço do trabalho, porque você teria pessoas entrando para fazer o acompanhamento.

É um exemplo de como beneficiar os consumidores e ainda criar empregos. Ao escolher financiar os carros ao invés do tratamento domiciliar, nossos políticos fizeram escolhas que tem implicações para o nível de trabalho.

EXAME.com — Até que ponto a alta da desigualdade nas últimas décadas é reflexo da ascensão da China e de um mercado de trabalho globalizado?

Atkinson — A resposta padrão de um economista seria de que isso beneficiou o trabalhador qualificado em detrimento do não qualificado.

Eu não estou convencido, porque uma grande parte do aumento da desigualdade vem do topo da distribuição. Não é o graduando que está se beneficiando, é o 1%, o 0,5% mais rico. E ninguém fica rico assim só por ter um PhD.

Precisamos ver o que está gerando isso, como o aumento forte da compensação aos presidentes de empresas. Se você olhar o que eles ganhavam 20 anos atrás para fazer o mesmo trabalho, é uma fração do que é hoje, e é difícil de entender o porquê.

EXAME.com — Mas não há forças que estão fora do nosso controle — como o fato de que as pessoas geralmente conhecem seus parceiros na faculdade e casam com quem tem nível de renda parecido?

Atkinson — Há um elemento disso, mas não diria que 2 pessoas que juntas ganham 200 mil dólares por ano vão entrar na lista da Forbes ou algo assim. Isso não é a chave; já a herança é, sim, um elemento bem mais importante.

Mas onde as duas coisas se juntam é na igualdade de oportunidade. Os filhos desse casal vão ser duplamente favorecidos em seu acesso à educação, por exemplo.

“A herança é sim um elemento bem mais importante”

Dois textos das antigas:

(…) partilhar da riqueza mundial é um direito fundamental que também independe do trabalho, à medida que este é o direito a herança que a espécie humana lega aos seus descendentes. Inalienável tanto quanto o é a herança de família que permite a alguém abastado viver tão somente dos frutos do trabalho de seus antepassados. (…)

Assim sendo, entendemos a Renda Básica de Cidadania não apenas como a garantia de um direito de cidadania, mas a garantia de direitos universais do ser humano no plano nacional através de um modelo de política pública ideal e exeqüível por ser sua implementação gradual.

Entendemos também que a Renda Básica de Cidadania proposta pelo Senador Suplicy é um projeto de amplitude internacional justamente pela universalidade dos direitos que garante. E aqui não nos limitaremos a demonstrar e razoar nosso apoio tomaremos a liberdade de apresentar um modelo para sua implementação:

Dada a natureza universal dos direitos que promoveria o Renda Básica poderia ser financiado através do Terceiro Setor, mais especificamente através do modelo de Fundação Comunitária com a criação de Fundos Internacionais destinados especificamente a cada área carente em que seria implantado o programa.

Assim junto com esta sugestão disponibilizamos ainda ao Senador o Projeto desta Fundação sugerindo como área piloto a Vila de Paranapiacaba. — 22 de Fevereiro de 2008

2009:

A Renda Básica de Cidadania deveria está explicitamente manifesta entre os Direitos Universais do Ser Humano porque não é um direito ao ócio, mas o direito à condição mínima necessária para viver, aprender e trabalhar. Dentro do processo de humanização, mais do que a garantia de um princípio de Justiça, é a garantia da própria natureza humana, a medida que fornece as condições mínimas à negação do estado animal de luta pela sobrevivência. Um aperfeiçoamento do processo evolutivo em direção a manifestação plena do espírito humano nos princípios da liberdade, igualdade e fraternidade que embasam o conceito de cidadania. A Liberdade na incondicionalidade. A Igualdade na indiscriminação. E a Fraternidade no direito a herança universal.- 27 DE JULHO DE 2008

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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