Renda Básica ou Guerras? (parte 1)

Exagero? Não é o que pensa o estudioso de Stanford. Ele é até mais pessimistas nas alternativas…

Doença, guerra e revolução: os exterminadores de desigualdade

EXAME.com — Sua tese é que historicamente, a desigualdade só foi revertida profundamente através de processos violentos. Quais são eles?

Walter Scheidel — O longo prazo mostra dois mais efetivos: o colapso de Estados e doenças epidêmicas severas.

Se riqueza e privilégio estavam relacionadas ao poder de um Estado comandado pelos ricos, destruí-lo significa empobrecê-los e assim reduzir a desigualdade.

É algo que pode ser observado por milhares de anos nos Estados pré-modernos que entraram em colapso, como o Império Romano.

Nas doenças, a lógica vem de um certo equilíbrio entre terra e trabalho. Se você tem uma epidemia que mata um terço das pessoas, isso reduz a força de trabalho e aumenta o valor desses trabalhadores na forma de salários, enquanto desvaloriza terra e outros ativos fixos.

Enquanto isso dura, torna os ricos menos ricos e os pobres menos pobres. É algo que não aconteceu muitas vezes, mas há exemplos como a Peste Negra e as doenças nas Américas depois de Cristóvão Colombo. Esses mecanismos foram substituídos no século XX.

E quais são os novos fenômenos?

O primeiro é uma forma específica de guerra, industrial e de larga escala, como foram as duas guerras mundiais. E o outro são reformas transformadoras, geralmente comunistas.

As guerras exigem que os governos intervenham de forma agressiva no setor privado e façam todo tipo de medidas redistributivas, além de destruir e desvalorizar o capital.

O efeito é deixar os ricos menos ricos enquanto os pouco qualificados ganham em termos reais.

No caso das revoluções comunistas, é autoexplicativo: se você está expropriando os ricos e impondo uma economia planejada com preços e salários definidos pelo governo, a desigualdade vira uma mera função da política do Estado, que decide o quanto de desigualdade vai tolerar.

Há como reduzir a desigualdade de forma significativa por meios menos violentos?

Depende do que você chama de significativa. Se você procura reduções grandes e dramáticas de desigualdade, a resposta parece ser não. Se procura flutuações, pode achar exemplos em vários países. (…)

O Brasil crescia rapidamente até 2010 e agora experimenta uma recessão profunda e duradoura. Que efeito isso pode ter sobre a desigualdade?

Não há regra. A pesquisa que analisou mais de 100 grandes crises ao longo do século XX não viu nenhum efeito consistente, mas é mais comum que ele não seja bom sobre a desigualdade. (…)

É importante notar que o que importa não é apenas a guerra ou a revolução em si, mas o que acontece depois dela e como ela muda o Estado e as relações sociais.

Correto. O efeito da guerra é duradouro. Booms econômicos muitas vezes aumentam a desigualdade, mas esse não foi o caso por causa do que havia acontecido durante a guerra.(…)

Por que você diria que a desigualdade importa e que reduzir a pobreza não é suficiente?

Aliviar a pobreza é o mais importante porque há um nível básico de bem-estar que todo mundo deveria poder alcançar, e houve sucesso nesse sentido.

Mas a desigualdade importa, especialmente se chegar a níveis muito altos. Ela é ruim para o crescimento ao reprimir o consumo de alguns grupos, e tem uma tendência a se perpetuar em famílias: crianças com acesso a melhor educação e saúde causam efeitos sobre várias gerações, o que é injusto.

Além disso, a desigualdade pode ter o potencial de desestabilizar sociedades e sistemas políticos. Esse é um tema que não foi suficientemente bem estudado, mas a intuição é que isso pode causar protestos e polarização, e os Estados Unidos são um exemplo.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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