Em Outubro de 2018 vai 10 anos que nós fizemos o primeiro pagamento de uma renda básica em Quatinga Velho. Nós quem? Institucionalmente o ReCivitas. Mas na prática, naquele dia, naquele primeiro momento, “nós” não eramos sequer ainda a pequena rede de pessoas espalhada pelo mundo inteiro que nem se conhecem e tem contribuído com doações desde então. “Nós” naquele dia eramos apenas dois, um casal, Bruna e Marcus. E para não ser ingrato digo 3, pois sem o Pedro, que não por acaso é meu pai, na contabilidade jamais conseguiríamos ter prestados as infinitas contas a burocracia que com certeza teria cumprido sua missão tácita e posto fim a essa iniciativa.

Na verdade muitos continuaram apostando nisso: Não vai durar. Como tantos outros projetos não só de renda básica, mas sociais ele não poderia, não tinha como durar, afinal contrariava uma das leis fundamentais das sociedades atuais: não existe lanche de graça e logo ninguém faz nada de graça por ninguém, e quando o faz, o faz por impulso. Um impulso juvenil que tende a cair de podre e com ele junto os sonhos conforme a pessoa “amadurece”. “É a vida…” eles dizem, e nós também a nós mesmo tentando nos convencer… com essa e outras frases feitas: “já fizemos nossa parte…”, “tentamos…”, “é hora de cuidar da nossa vida…” etc.., etc…

Então porque teimamos?

Após 10 anos poderia falar de muitas outras coisas que realizamos ou que se transformaram a partir disso. Poderia construir uma narrativa de forma impessoal e institucional focada em conquistas, resultados e transformações sociais. Após 10 anos não precisaria construir essa narrativa dando tanta importância para o pessoal e individual. Mas seria não só uma narrativa vazia e estéril, mas falsa. Não foi nas costas e braços de “vontades” institucionais que esse projeto se ergueu nem se manteve. Nem elas explicariam como o impulso a vontade de fazer, se tornou um compromisso. A força que mantém e mantem esse iniciativa ainda de pé, quando já não temos mais esperança de que vá crescer mais que isso… Não explicaria como esse impulso se tornou um compromisso com o que foi construído e não mais com um sonho. Teimosia? Mas também gratidão.

Se houvesse uma palavra que pudesse resumir meu sentimento por Quatinga Velho, essa palavra é gratidão. Sim foi só uma decisão, mas poderia ter tomado outras… poderíamos ter casado ou comprado uma casa, mas o que recebemos sem esperar nada em troca, como diz o comercial não tem preço. Só que não é um comercial. Me sinto um privilegiado. Sei o quanto soa ridículo isso que estou dizendo. Dizer que me sinto um privilegiado… chega a ser engraçado principalmente para quem olha para as pessoas com mais riqueza e poder, e o quanto mais elas em suas posições privilegiadas poderiam fazer algo, mas essa posição é a delas e não a minha. Não é como elas que posso contar, ou deve esperar, até porque isso é da conta delas, não da minha.

Posso não ter dito todas as oportunidades do mundo, mas tive as que precisei para poder agir naquele momento, e sei o quanto isso é um privilégio… num mundo onde tão poucas pessoas tem condições de fazer o que podem, querem, mesmo tendo forças, vontade e saber para fazer. E como não saberia disso se é pelo que eu luto na forma de uma renda básica?

Nós acostumamos a olhar para o dito 1 por cento, mas nos esquecemos comodamente (de lembrar) que mais da metade da população mundial não tem acesso a saneamento básico. E para eles, nós somos os privilégiados do mundo, a obrar e andar, e não somos só 1 por cento.

Mas não é só nesta condição básica que constitui minha posição privilegiada para fazer algo por quem não tem sequer isto. Não é uma questão de posses e poderes, mas de liberdades e vontade. E se fazer algo depende das condições como meios que se possui, não depende só disso, mas antes e muito mais ainda da quantidade de vontade livre que se possui como força e liberdade para usar o que se tem para fazer. Uma condição que portanto não é condição de poder, mas de liberdade.E se há uma coisa que a renda básica ensina é que não há maior engano do que confundir liberdade com poder.

Não tenho posses e poder, mas tenho liberdade. Ou mais precisamente minha liberdade diametralmente oposta a quantidade de tempo e energia, ou se preferir simplesmente de vida que não perco lutando para perder ou não ganhar posses, poderes e posições que não tenho nem almejo. Não é a toa que quem tem menos é justamente quem mais faz inclusive em termos absolutos, as possibilidade de ação não deriva dos poderes e posses que se detém, mas da liberdade que não é detida, incluso pela preconcepção de que o sentido da vida se resume a isso, ter, poder e ser feliz com isso.

É um erro brutal confundir liberdade como poder. Um erro que não é só ético, mas matemático. A liberdade é um condição, mas uma condição que não se mede não pela quantidade de posses, mas pela quantidade de tempo e espaço livre. E nem sempre posses, poderes e posições social garante mais tempo e espaço livre para fazer o que realmente queremos fazer, ou sequer buscar e vir descobrir isso, mas determinam sempre o que temos que fazer em função deles.

Tempo livre é o fator determinante da liberdade. Algo que se não descobrimos em vida, descobrimos em morte quando o tempo de verdadeira liberdade, a liberdade como fenômeno, a vida decai a zero. Meios podem ser ganhos e perdidos. A liberdade como fenômeno vital, não. Entre propriedade e trabalho, há uma força elementar que constitui e move todo o sistema, a liberdade tanto como vida quanto como o sentido que lhe dá forma a si e aos meios como tais.

Sabemos que algumas pessoas mais privilegiadas que as outras não precisam trabalhar, ou escolher quando e onde e no querem empregar seu tempo livre, trabalhando ou não, para si ou para outros. São mais ou menos livres para escolher o que querer fazer ou não, e o tempo que dispõe para tanto é a medida dessa condição chamada liberdade. Há famílias cujos membros dispõem apenas de algumas horas livres no dia, ou só na velhice, outras onde os membros dispõe o suficiente para fazer o que quiserem o que quiserem por toda sua vida, inclusive nada, por gerações e mais gerações. Essa diferença de liberdade, mensurável no tempo livre ao longo das nossas vidas para poder empregar nossas forças e capacidades em seu ápice ou descansar, como todos sabem está ligada aquilo que ganhamos e possuímos seja através do emprego dessas forças ou de outras, ou simplesmente herdando de quem amealhou essas posses.

A liberdade como condição é sempre um privilégio seja ele natural do nativo que colhe da natureza aquilo que ela dá de graça, seja o artificial do explorador que colhe o plantou ou que outros plantaram, ela é sempre quantitativamente proporcional ao tempo livre, o tempo que não precisa ser ocupado simplesmente tentando sobreviver, e inversamente proporcional a miséria, o tempo que é preciso se gastar simplesmente tentando não morrer de carestia. Nesse sentido a riqueza não está propriamente naquilo que se possui, mas no custo e beneficio da liberdade e literalmente vida que se gasta e ele está sempre sendo gasta, porque o tempo não pará, para amealhar tais posses que o nome já diz para que server, possuir, poder. Ter para poder fazer, liberdade.

Essa é a equação material da liberdade que todos nos que vivemos com posses e tempo livre contados conhecemos muito bem e sabemos calcular instintivamente ainda que sem saber somar ou ler. Quem possui tem como usufruir e quem usufrui, tem tempo livre na exata medida da sua usufrutação. Ou em termo mais econômicos tem propriedades aufere renda e quem tem renda suficiente pode trabalhar para enriquecer, que não a possui, tem que trabalhar ou não o suficiente tem que trabalhar para quem possui para se sobreviver e se sobrar algo comprar sua alforria com propriedades que lhe garantam alguma renda para que senão ele, seus filhos possam escolher o que farão da sua vida, e não ser obrigados a fazer o que tiver para fazer, se ou quando tiver, se quiserem sobreviver. É disso que a renda básica trata quando falamos em liberdades fundamentais. Contudo como a equação demonstra você pode obter sua liberdade não só aumentando suas posses, mas diminuindo literalmente seu custo vida, claro que não só ao limite da sua tolerância a pobreza, mas ao limite da sobrevivência, a menos que aprenda a fazer fotossíntese. Ou inversamente implodir toda liberdade possível não importa o quanto você possui ou em que taxa aumente a suas posses, se não o que lhe move não é uma determinada condição ou qualidade de vida considerada ideal, mas sim a própria maximização dos ganhos ou posses. Neste caso não importa, o quanto você ganhe ou tenha, matematicamente você não só precisa de uma quantidade material infinita para satisfazer seu anseio insaciável, precisa de uma quantidade de tempo igualmente infinita que nem mesmo a conquista da imortalidade pode prover, porque seria ainda sim apenas uma vida eterna de mais do mesmo: maximização do ganhos ao custo da redução a zero do tempo livre para significar a vida para além da sua preservação ou maximização das suas chances de sobrevivência.

É por isso que em geral que quem busca a maximação de ganhos quando sábio- o que não quer dizer que não seja um canalha -não sacrifica o seu tempo livre para maximizar o seus ganhos, mas o do alheio especialmente de quem é obrigado a vender o seu para subsistir. Matematicamente, a quantidade de tempo livre deriva portanto do quanto literalmente suas posses trabalham para você, e não você para elas. Quanto menor o tempo que você precisa gastar para que as coisas produzam o necessário para manter seu padrão de vida, mais tempo você tem para se dedicar a outras coisas, inclusive a criação de novas.

O “problema” contudo das propriedades é que quanto maior o seu nível autonomia, sejam naturais ou máquinas, menor é a probabilidade delas não se comportarem como propriedades, e agirem de acordo com seu potencial, isto é como seres independentes que não obedecem ordens, ou responde de forma predeterminada e automática por reação a ação, mas sim imprevisivelmente de acordo com sua capacidade de tomada de decisão. De modo que tempo livre a energia que poderia ser empregada em outras atividades, ainda sim, demanda mais tempo e energia para a vigilância e manutenção do sistema de produção.

É o paradoxo dos donos de escravos, ele evidente é mais livre do que o pobre escravo que possui e explora, não precisa viver e morrer desgraçadamente na corrente e chibata. Mas não está livre de uma vida miserável de vigilância sobre quem ele depende para subsistir. Uma vida vivida de constante preocupação e em função do que se possui. Bem, há quem goste e ou até tenha tara por esse tipo de relação de poder, mas não se pode dizer que essa é uma vida saudável ou livre de dessas compulsão que domina e governa os homens que precisam dominar e governar outros homens não só para viver mas para se satisfazer. Porém, mesmo aquelas pessoas que não tem esse tipo de tara, nem posses ou relações de poder ilegítimas, não estão livres desse paradoxo das propriedades e suas responsabilidades seja para o bem ou para o mal. Ao mesmo tempo que as posses aumentam as condições de vida, a manutenção desse padrão de vida, exige sempre mais tempo, energia e senão ocupação, preocupação para mantê-lo na exata medida que esse padrão e custo não só de recursos mas de tempo não para de crescer. E por mais que se otimize e acelere a produção com a automação dos processos, isto de nada adianta se o objetivo não é propriamente ganhar mais tempo livre, mas acumular mais posses. Pois cada ganho de tempo em otimização e velocidade de produção é usado para produzir ainda mais e aumentando nossas posses e acelerando o mundo, demandando mais tempo e energia para podermos acompanhá-lo.

É uma curiosa armadilha psicológica onde se trabalha e ganha cada vez mais para poder ter mais tempo tempo livre e fazer o que queremos, porém quanto mais trabalhamos, produzimos e possuímos, mais aumenta a demanda para que produzamos mais para manter o padrão de vida de modo que o objetivo do tempo livre e realização dos sonhos de quem não sonhou apenas em viver para acumular, vai se adiando até o fim dos seus dias, quando já velho e sem a mesma força decide se aposentar. E aí o que lhe sobra de tempo falta-lhe em vitalidade e energia, isto é claro supondo que ele seja ainda o mesmo, e que ao longo da estrada não tenha se esquecido do sentia e pensava e queria para sua vida quando ainda era jovem.

No ativismo social como em qualquer outra atividade não é diferente. Quantas pessoas não conheci que esperaram ou mesmo buscaram a vida inteira amealhar um patrimônio para poder então as transformações e inovações e envelheceram para se tornar a imagem do que juraram para eles nunca ser e transformar. Ou então morreram como o “primeiro” utopista, Fourier, se penteando para estar apresentável quando enfim encontrasse o financiador da sua utopia perfeita, o falanstério. Não preciso dizer que morreu penteado sem ver seu falanstério construído. Embora, como consolo possa dizer que a partir de suas ideias deixadas que muitas comunidades e experiências autônomas seriam criadas no futuro.

Claro que a quantidade de posses e recursos afeta a produção e sua escala. Mas a menos que a pessoa seja um completo escravo da privação primitiva ou dos mais altos padrões de vida, que não tenha nenhum tempo livre ou recursos, ninguém é completamente desprovido por mais precária que sejam suas condições não só de mudar sua vida e o mundo, principalmente se não for um megalomaníaco que acredite que o mundo não é nada menos que a totalidade de todas as pessoas (e coisas) que existem, nem um prepotente que anseia por determinar ou controlar o destino delas. Na verdade, não só pode transformá-los com seu potencial, como aumentar esse potencial enquanto tempo livre e capital, invertendo a razão ou finalidade do seu viver, mesmo que permanece como uma demanda materialmente impositiva literalmente reduzindo o custo da sua vida, não só em recursos mas em tempo e energia vital que se gasta da mesma.

As posses e poder são como o conhecimento, pode parecer que ter uma quantidade infinita de saberes na sua cabeça aumenta as suas possibilidades, porém bens móveis e imóveis só multiplicam a sua liberdade se você não puder nem mais se mover. E não adianta construir uma casa cada vez maior para colocar tudo que puder dentro, porque ainda o importa é a facilidade e o tempo que você gasta para conseguir fazer as coisas mais simples que você continua precisando fazer, ao menos enquanto não tiver um escravo ou rei, feito de carne ou engrenagens para fazer ou pensar por você. Mas no dia que ele fizer tudo isso, não importa se ele é o rei ou escravo, quando ele tiver todos o controle de todos os meios, ele será o proprietário e você a propriedade e os cachorros estarão levando os donos para passear… estarão?

Não entendam isso como um elogio a pobreza. Quem gosta de pobreza ou melhor de fazer apologia a pobreza, é burguesia de esquerda, que por sinal nisto discurso fora não difere em nada da direita moderada, gosta dela não para si mas para o outro devidamente posto em lugar, nas periferias. Exceto é claro que precisem de uma empregada ou pedreiro… A pobreza é uma merda, e só não digo que é pior do ser rico ou podre de, porque não sei o que ser isso, senão por observação. Mas por experiência própria sei que é melhor viver livre num lugar sem miséria, mesmo como pobre e estrangeiro, do rico em gaiolas de ouro dentro da sua própria casa. Embora do ponto vista global essas metrópoles não sejam muito diferente dos nossos condomínios fechados, coloque gente “indesejável” a porta querendo entrar e as barreiras e impedimentos se tornarão tão concretas quanto podem ser os muros e a discriminação.

A pobreza é a pior condição de privação que uma pessoa pode estar, porque é estar acorrentado sem correntes, preso sem necessariamente ver seu carcereiro, ou quando não é artificial, mas natural sequer há um carcereiro, mas só a prisão, um enorme buraco onde não importa o que a poderia poderia ter feito da sua vida, vai morrer dentro dele sem jamais fazer nada, porque não pode escapar sem que alguém que esteja fora estenda a mão e ajude a sair dela, ou hajam tantos presos no mesmo buraco que passam subir uns nas costas dos outros. O problema é que quanto mais desesperadora for a carestia, mais é como as pessoas estivessem se afogando, e a puxar uns aos outros para o mesmo buraco. Vira balde de caranguejos que não precisa de tampa, porque todos tentando escapar puxam uns dos pernas uns dos outros.

A questão não é condição ou quantidade de posses que se possui, mas a capacidade de transformar essa ter e poder em capacidade em tempo e ação livres. Rico ou pobre que não consegue materializar suas propriedades e rendas ínfimas ou gigantescas na possibilidade concreta da suas vontades e vocação para produzir, criar e agir são escravos da mesma impotência e inação. Podem estar trabalhando para manter ou sair da sua condição de vida, mas não estão colocando sua condição para trabalhar para sua vida, não naquilo que ela é mais essencial, a realização, a sua realização. O tempo livre como potencial é uma abstração, completamente vazio de sentido e proposito sem essa vontade de simplesmente ser e fazer. Uma abstração como a posse e o poder quando não podemos determinar qual o seu sentido, razão e função. Abstrações tão grandes, preconceitos tão predeterminados quanto a nossa própria identidade onde não podemos afirmá-la não como uma forma de ser.

Há quem se pergunte se o que seria do mundo se quem é mais pobre passassem também pudesse viver de renda, quem é que trabalharia? O que faria com seu tempo livre. Será que sabem que quem desfruta de mais tempo livre graças a seu trabalho, também se pergunta a mesma coisa sobre ele? O que ele faria da vida e seria do meu mundo se ele pudesse trabalhar mais por vontade dele e menos a minha, mais por suas necessidades e menos por meus desejos?

Isso é mais uma confissão de parasitismo do que uma pergunta. Pois, rico ou pobre nem todo mundo que vive das propriedades que possui não trabalha para produzir com o tempo que não gasta tentando sobreviver ou não vive necessariamente da exploração de quem precisa se vender para ganhar seu sustento. Sim acaba-se o negócio de muita gente que ainda vive da privado e estatal de quem se sustenta graças a exploração da privação primitiva e escravidão disfarçada, mas não só os as pessoas que são hoje exploradas passam a ser livres até para produzir, como os negócios produtivos que não sustentados pela exploração da carestia não sofrem mais a concorrência criminosa desses trafico criminoso de pessoas e trabalho.

É perfeitamente possível qualquer pessoa que não esteja submetida a extrema privação viver de renda. Qualquer pessoa. Mesmo as pobres, tudo depende da relação entre as posses que se possui e o padrão de vida que se pretende manter versus a quantidade do se produz e se contribui para o sustento de todos através do trabalho livre, isto é sem o uso justamente do trabalho subsidiado por esse tipo de exploração privação primitiva. Quanto mais gente livre da carestia pode se dedicar livremente a produção, maior a quantidade de riqueza disponível e distribuída para sustentar rendas bens e serviços fundamentais para todos, e menor a massa de manobra e exército formado pelos obrigados a se vender em troca de pão a tiranos criminosos, seja no mercado escravagistas econômico ou político. A ideia de que não é possível as pessoas viverem de renda, e que estão condenadas a trabalhar não produzir sua própria riqueza, mas a de quem já a possui, não é uma ideia de gente que paga pelo trabalho de pessoas trabalhar para ele, mas de escravagistas modernos, parasitas políticos-econômicos que carecem de gente que não tem como recusar a fazer seu serviço sujo em troca de pão. Ou seja não é uma riqueza que se acumula do que é produzido pelo trabalho livre de pessoas livres , mas sim produto da exploração de quem não possui liberdade para trabalhar livremente, o produto subtraído do trabalho e posses de quem não tem como sobreviver sem se render e vender a quem detém o monopólio politico-econômico dos meios necessários a subsistência. E monopólios não se formam nem se sustem em livre negociações entre partes igualmente livres, mas pelo primeiro de todos os subsídios a exploração a violência: tanto como agressão quanto privação, ou simplesmente a sua ameaça tácita e normalizada embora criminosa simplesmente pela força dos hábitos, costumes e se preciso for ritos e leis.

Quem tem um bom negócio ou um bom governo não precisa de um exercito de famintos para sustentá-lo, pelo contrário precisa de gente livre e capaz de se opor e resistir a eles, que não caem por falta confrontação, mas literalmente falem por falta de mão-de-obra alienada. Mas eis que voltamos ao balde de carangueijos, onde as pessoas viver sobre a ameaça constante de governos populistas e autoritários trancadas em seus cofres de ouro, se cagando de medo do próprio lugar em que vivem e sustentando a preço desse ouro os parasitas que bancam sua desgraça do que investir na emancipação política e econômica da sua própria população. Dá para entender por que se diz que cada povo tem o governo que merece. Povo, não… correção: sociedade. Porque nem todo mundo que pertence ao povo tem de fato os mesmos direitos nem muito menos condição sobretudo como tempo livre para tomar parte da sociedade, incluso como dever e responsabilidade correspondente ao direito socialmente garantido.

De nada adianta portanto somente a redistribuição. É preciso que ela se efetue sem o uso da exploração primitiva ou coerção de qualquer tipo de violência, incluso a estatal. Se esses roubo e escravidão são renomeados e legalizados isso não os torna mais legítimos nem menos criminosos. Mas pelo contrário torna os Estados e sociedades que dele se valem seja contra seu povo, outros , ou classes ou minorias que não são consideradas cidadão ou gente com direitos naturais plenos ainda mais criminosos, por arrogar-se a prerrogativa de impor como lei o crime contra liberdade, propriedades e direitos naturais.

De nada adianta a redistribuição se ela é fundamentada na trabalho forçado pela privação ou no confisco do que é produzido, seja com ou sem exploração destas privações. Primeiro porque o é produzido direita ou subsidiadamente pela exploração das privações é produto de roubo, trafico, interceptação ou trabalho escravo legalizados, e portanto não cabem tributação mas restituição e compensação. E segundo porque o que é produzido sem recorrer e até mesmo concorrendo ou se contrapondo a tais artifícios e subsídios criminosos, legais ou não, não pode ser coercitivamente expropriado, nem no todo (confisco) nem parcialmente (tributos) porque isto é o próprio roubo legalizado com o qual se produziu e reproduz a massa de expropriados a partir das formas mais primitivas de privação.

Não importa o quão rico é um individuo ou grupo, se a riqueza que ele adquiriu foi produzida pelo trabalho livre dele ou de outros que venderam sua força, sem o uso da coerção, exploração ou indiretamente subsidiada por quem se vale desses artifícios para obter vantagens, qualquer forma de tributação não consentida sobre tais ganhos é roubo, ou até mesmo escravidão. Roubo se aquilo que se toma foi obtido por apropria pacifica, e escravidão se aquilo que se toma é produto do trabalho de quem não tem meios nem sequer de parar de produzir, não detém os meios econômicos nem as liberdades políticas fundamentais para poder parar sem colocar em risco a vida ou sobrevivência, sua, dos seus, ou até de outros. Situação que o direito a greve e locaute mitigam mas não resolvem, porque simplesmente servem para renegociar os termos do sequestro de bens, produção ou do próprio corpo da pessoa reduzida a mão-de-obra por não ter como adquirir ou manter os dos primeiros sem vender o tempo livre do terceiro. Não servem como meios para negociar novos contratos sociais a medida que os insatisfeitos não podem trocar nem fundar outro serviço público ou social, mas tão somente demandar beneficios ou redução de malefícios, tanto o quanto isso é possível, frente a um monopólio jurídico-legislativo-executivo armado do território, ou as personas físicas e jurídicas, privadas ou estatais por ele mais “igualmente” protegidas.

Em outras palavras não pode tributar o que é produto de roubo, porque o que é produto de roubo não é objeto de tributação, distribuição, nem redistribuição mas de recuperação, restituição e compensação ao legítimo dono. Essa idéia de Estados Robin Roods, de ladrões que roubam ladrões é além de um roubo duplo é uma fraude. Não roubam de quem rouba e explora, nem muito menos restitui quem foi roubado. Roubam a todos, vítimas e ladrões, roubam quem produz sem explorar o trabalho e não deve nada a ninguém, assim como roubam até mesmo quem já é roubado em trabalho como explorado. Roubam e não restituem nem compensam nada, porque o roubo não pode ser restituído senão integralmente no que resta e compensado no que foi perdido, na medida do que é possível compensar o que foi tomado, porque bens materiais podem ser recuperados, restituídos e compensados, mas tempo de vida produtiva e em liberdade não, ainda mais quando se estendem por gerações e mais gerações. O que não quer dizer que o crime esteja prescrito, porque ele se reitera e amplifica a cada pessoa que nasce privada da sua herança comum.

O Estado não só obriga quem não deve nada a pagar pelo sustento de quem ele não expropriou, o estado obriga o próprio expropriado a pagar pelo sustentação da sua perpetua e progressiva expropriação até a extinção de sua raça. Um campo de concentração de longo prazo onde os expropriados mais rebeldes são mortos a bala, os mais obedientes morrem com o peso do trabalho forçado. A redistribuição serve apenas para que a mão-de-obra produza e se reproduza na medida certa para manter o campo de concentração funcionando enquanto houver o que tirar dele, ou enquanto não houver mão de obra, animal ou maquinal que subsistiu os concentrados.

Hoje não se compram trabalhadores, alugam-se. O comercio e regime de trabalho é o de locação por tempo de serviço ou emprego. No feudalismo, o trabalhador era um servo que fazia parte da terra, não podia ser vendido separadamente, no mercantilismo, era um escravo do dono que podia ser vendido para quem ele bem entende-se. No capitalismo é uma empregado durante determinado período do dia e duração do emprego. Os termos e as condição de trabalho e posse da mão-da-obra são distintas e mudaram, não só de regime para regime, mas dentro dos próprios períodos, havendo uma série de leis de proteção que para que o proprietário não dispusesse da mão de obra como bem quisesse, que variaram de tempo e espaço, mas a condição fundamental e diferença fundamente permanece a mesma: um manda por que detém os meios legais, armados e materiais ou sua proteção, o outro obedece querendo ou não justamente porque não tem como viver nem fugir.

Não é a toa que o Estado não nasceu como Estados-nação mas como cidade. Cidades-Estados. E a urbanidade, a concentração da mão-de-obra disponível em torno dos centros políticos-econômicos, como panóptico de sedentários. E a tensão entre civilidade progresso e barbárie e ruralidade encarne a pisque desesperada dos servos-autômatos neofeudais que desesperadamente fogem para as praias e campos entupindo estradas como formigas nas férias e finais de semana. A fuga dos escravos de aluguéis, também é agendada programada nos calendários, e tem prazo de vencimento e validade como sua vida produtiva. Não é o tempo que é liquido é a vida que derreteu,e faz tempo…

Quando o Estado tributa quem produz sem explorar a privação primitiva, e o próprio privado primitivamente ele reproduz e reitera “civilizadamente” sua origem primitiva de pilhagem tributação escravidão e violência da população de um território por quem o domina pelo império das força armada. E é por isso que toda vez que esses estados e suas instituições civis entra em crise voltam a sua origens e pilares fundacionais, o monopólio da violência contra povos vizinhos ou seu próprio. Uma casa pode ser reformada, pintada, mas por mais fundo que se enterre suas fundações são elas que a sustentam enquanto ela existir. Não existem Estados Sociais nem Ecológicos. O que existem é Estados que devoram seu próprio povo e cagam na sua própria casa, e os que devoram os outros e cagam no vizinho. Vide os social e ecologicamente estatais mineradoras do reino da noruega na Amazônia. Por sinal, escândalo que explodiu apenas depois da tomada discreta do Planalto pelos militares brasileiros. Moral da história: quem devora e caga nesse território somos nozes (quer dizer eles) e não o rei da Noruega. Que o diga o general Villas-Boas.

Há 3 modos de se amealhar bens, se apropriando pacificamente do que não é reivindicado por mais ninguém. Tomando a revelia dos demais a posse do que é disputado, violentamente ou não. E produzindo coisas novas em cima disto. As possibilidades de agregar valor através da criatividade e inventividade humana se não são ilimitadas são indeterminadas, os recursos naturais com os quais se cria não. Não enquanto a industria humana não for capaz de produzir e reproduzir recursos vitais e ambientais ilimitados. Não basta fontes de energia ilimitada é preciso matérias-primas, espaços ilimitados. De modo que a espécie humana ou adventa tal materialidade a tempo de evitar que nos consumamos uns aos outros juntos com o meio e seus recursos- supondo que isso é possível. Ou aprende a compartilhar o que por necessidade é comum a todos tanto para sobrevir quanto co-existir em paz e produzir mais liberdade e riquezas e não relações de poder e pobreza e logo em última instancia extermínio lento dos mais vulneráveis em tempos de normalidade e acelerado em tempo de crise e guerras. Ou aprendemos a transmutar energia em matéria para vivermos em paz. Ou apreendemos a conviver no mundo material que temos, antes que a matéria ou o que é mais provável o nosso tempo se esgote.

Um dos grandes saltos recente da humanidade foi a noção que a tirania e os monopólios são algumas das piores formas de crime e violência. Na verdade termos similares para um mesmo tipo de relação com o mundo dado que Monopólio é uma tirania economia , e a tirania é monopólio politico. Duas formas de poder que se alimentam e não sobrevivem simbioticamente uma sem a outra. Se no plano intelectual da industria humana os monopólios e tiranias sempre podem ser quebrados, pela inventividade, no plano material o limite do advento dos novos mundos termina nos campos e fronteiras dos espaços já descobertos e conquistados, ou na capacidade de primeiro enxergar e depois alcançar os inexplorados.

De repente o mundo ficou pequeno. Pequeno demais para todos nós. Quem chegou primeiro, fica mais tempo, e já sonha em ficar para semente. E já olha para as novas gerações como olha para o estranho e estrangeiro como invasor da Terra e terras. Alguém que não veio para perpetuar a efemeridade da sua existência mas roubar seu tempo, espaço e comodidade da sua existência. O inimigo não é mais o próximo na relação espacial, esgotada, é o próximo na relação temporal, geracional. É o ser que irá nascer, visto não mais como a continuidade da vida, mas como uma excedente populacional. Uma boca a mais num mundo, onde a função de besta de carga dos povos, perde valor de produção para a das máquinas.

Se no passado os miseráveis olhavam miseravelmente para seus filhos como a seguridade social para uma eventual velhice. Hoje olham para eles como reis para os príncipes, o troféu do seu sucesso familiar quando criança e o inimigo ou peso social quando adulto que se não irá o patético trono do seu cargo, irá pesar até o final da vida como um encargo. Triste dilema do fim de vida dos burros de carga a temem ter que carregar até a morte sua prole, ou ser substituído e tratado como lixo descartável por ela. Mas não triste e miserável quanto os mortos-vivos que a imagem e representação do mito do deus tirano Cronos lutar contra a inevitabilidade devorando as novas gerações.

O que fazer? Não sei, sei o que nós fizemos com o que temos e podemos. E não tinhamos (e nunca teremos) o suficiente para fazer o que queiramos, então reelaboramos a escala do que pretendiamos fazer e arrumamos tempo e recursos para fazê-lo diminuindo nossos custos e gastos para ganhar o mais importante dos capitais tempo livre. Literalmente trabalhamos potencializando ao máximo a eficiência do pouco que tinhamos para aumentar nosso tempo, capital e impacto social empregando-os não no convencer outras pessoas a fazer, mas fazendo, o que no caso da renda básica quer dizer pagando diretamente a renda básica para as pessoas. Ou seja decidimos ao invés de trabalhar em outra coisa para manter um padrão mais alto de vida, usamos nosso capital e tudo para quem e onde ele faria a diferença.

Portanto sei o quanto o uma renda razoavelmente garantida pode fazer para empoderar e libertar uma pessoa e não só por obervação. E o quanto ela poderia fazer muito mais se não fosses os miseráveis 40 reais que pagamos, mas 400 por exemplo, principalmente a quem carece e perece por tão pouco. Claro que há que pessoas que não conseguem viver com menos de 4.000 ou mesmo 40 mil reais, para não falar de mais duvidem que as pessoas possam vivem com tão pouco. E elas estão certas. Relativamente a elas, estas pessoas não vivem, mas morrem. E isso se reflete na disparidade gritante da expectativa de vida entre pobres e ricos, negros e brancos, moradores de periferias e centros abastados. Uma expectativa de vida, que se dependesse apenas altas taxas de mortalidade e não da natalidade, já teria tendido a zero faz tempo, para alegria do capitalismo eugenistas que querem “esse tipo de gente” se reproduzindo somente a razão estritamente necessária para a manutenção dos trabalhos e serviços que eles não querem fazer. Um inconveniente que as máquinas poderão resolver em breve… quando o custo de toda e qualquer máquina for mais barato do que a carne humana até do mais carente e desesperado desempregado.

Não é só a obsolência das máquinas que é programada, a impotência humana sobre o seu destino também. Perdido a olhar para o gigantismo das instituições e seus números, perdemos a noção de quanto os mais ínfimos movimentos nos mais diferentes e inusitados lugares podem difusamente dar inicio as ondas mais gigantescas ainda. Libertar-se não é livrar-se só de uma condição. Mas antes de qualquer coisa livrar-se de uma arcabouço de pensamento que mata e amputa toda a força das nossas vontades e vocações antes mesmo de precisar mover qualquer ação ou reação. E o que nos tira desse estado inercia e impotência, não é a esperança. Mas a justamente a revolta dessa condição de autocomiseração eterna em favor do levantar e andar, e estender a mão a quem não pode esperar pelo despertar da boa vontade de uma.

Ficar contemplando e esperando, reclamando ou protestando ou lutando para que quem pode ou deveria fazer o faça, mas olhar para si mesmo, para sua própria força de vontade, para sua própria potencia, por mais que ela seja ínfima, ela se agiganta quando tomamos ciência do quanto aquilo que desprezam e desprezamos em nós pode ser a riqueza para alguém ao nosso lado que precisa de tanto e ao mesmo tempo de tão pouco para se levantar.

Reconhecer que todo ser humano tem o direito natural à vida e liberdade; que ninguém deveria morrer ou se vender pela absurda razão de não ter nada como sobreviver; tudo isso é só metade da consciência do que é uma renda básica; É só metade do caminho. E que portanto não chega a lugar nenhum. Reconhecer o direito é importante, mas não é suficiente. A outra metade mais importante é assumir o dever, chamar a responsabilidade de prover isto que se reconhece como direito do outro de acordo com a capacidade e possibilidades. Apontar responsáveis, impor, delegar ou transferir essas responsabilidades ou condicionar a assunção desse compromisso a adesão de outros ou demais, pode não ser a mesma coisa que renegar o direito a provisão do mínimo vital para todos, mas na prática o ato e logo o resultado é o mesmo: nenhum para ninguém.

Concordo que isso que estou dizendo vai muito além da renda básica. Não só do que as pessoas compreendem hoje como renda básica. Mas mesmo antes. Mas essa é justamente a questão. Pensa-se na renda básica como uma proposta política e econômica de transformação social. Eu penso nela como um compromisso ético, uma responsabilidade social, capaz de transformar as relações politicas e econômicas. Ou melhor eu penso na renda básica como instrumento de realização desses princípios, que antes de ter a pretensão de transformar o mundo ou a sociedade, mudam as pessoas para que elas possam se apropriar e transformar o mundo como sujeito, e não mais como objeto incluso de emprego alheio. E essa transformação antes de ocorrer com quem recebe uma renda básica, ocorre com aquele que consegue assumir esse compromisso ético de pagá-la livre, voluntária e conscientemente. Um compromisso que portanto antes de ser com outros seres humanos que recebem ou também pagam, é um compromisso consigo mesmo, com a sua própria humanidade que antes de ser o conjunto de todos os seres humano é a sua natureza para além do que se é, é a sua natureza como vocação transmutada em vontade de vir a ser.

Uma vez despertos, e em movimento podemos inclusive ver e assumir o mesmo princípio de defesa e provisão de todas as formas de vida, não só as humanas. A consciência de que todo ser vivo tem direito a um espaço e recursos vitais, meio ambiente e vitais suficientes para viver não como num zoológico, mas livre de acordo com a vocação e potencia inerente a sua forma de vida é uma noção que não se restringe nem se compreende somente pela provisão de recursos monetários e econômicos. Mas não é uma responsabilidade que se pode impor para os outros, não só por uma questão de respeito a liberdade, mas porque essa responsabilidade é produto dessa consciência- e se há algo que não nasce sem liberdade é o estado de consciência.

Pode-se dizer que a renda básica é a provisão material das liberdades como direito. E propõe-se que essa garantia seja feita por Estados ou Sociedades, mas de que são feitos Sociedades e até Estados senão das disposições de pessoas para com pessoas?

Estamos institucionalizados demais. Somos prisioneiros. Perdemos a noção que as instituições são formadas por pessoas, e não as pessoas formadas por instituições, ma gênese das novas sociedades, estados e compromissos que os constituem. Compromissos que antes de serem produto de preconcepções ou imposições, sejam elas mutuas ou autoritárias, são fruto da nossa vontade de se manifestar e agir em afirmação da nossa identidade e consciência. Um agir que assim como a própria renda básica não está condicionado aquilo que outros fazem, ou deixam de fazer, nem muito menos tentam impor ou impedem que se faça. Atos que praticamos não apenas porque esta é nossa vontade, mas porque concebemos que é a nossa vocação. Atos que praticamos, e que dão significado a nossa existência ao afirmar aquilo que acreditamos que somos, não importa o credo a ideologia interesse ou sonhos por trás deles.

Estados, sociedades, leis, deveres assim como o reconhecimento do outro e seus direitos não nascem nem se sustentam daqueles que se movem por preconcepções e imposições. Há aqueles que matam, aqueles que roubam, corrompem, exploram ou simplesmente se omitem perante a pobreza e carestias que tudo isso traz, assim como há aqueles que só não fazem nada disso, porque são obrigados ou porque é o que todo mundo faz. Mas não são estas pessoas que fundam nem sustentam os estados de paz e justiça. Não foram elas que deram os passos que nos retiram dessa condição brutal primitiva, nem são elas que darão qualquer outro passo em direção ao que ainda nos falta como humanidade. O direito a vida e liberdade é igual para todos, a consciência suficiente para respeitá-lo e resguardá-lo não. E nunca será completamente. Sempre existirão aqueles a apenas esperar; aqueles a reclamar; aqueles a usar os outros; a pregar sem fazer nada ou o oposto; a impor que os outros façam; e a tentar destruir o que está sendo feito; sempre haverá tanto gente a renegar e violar direitos quanto a omitir e transferir responsabilidades impondo-as como obrigações para com as vontades deles. Mas também haverão pela mesma razão, pessoas a fazer sem esperar ou cobrar nada de ninguém, apenas porque esse isso é o que ele é ou quer ser. Essa é sua vontade como profissão da sua vocação. Não meramente como função social ou produtiva, mas antes da profissão da sua vocação humana como razão social e produtiva.

Não, não são pessoas especiais, todos somos assim. Todos temos talvez não condição mas o potencial de professar nossa vocação em atos . E assim muitos o fazemos e sem sequer precisar nos dar conta disso. Se não desnaturados, não matamos, não roubamos e não violamos ou violentamos os outros simplesmente porque podemos, não a maioria de nós, não só não busca causar esses males, não encontra prazer nisso, nem é incapaz de compadecer, como cremos que podemos e precisamos fazer algo quando está ao alcance de da força de nossas mãos. E não porque somos obrigados, adestrados, mas porque esse é a nossa instinto gregário, tão ou mais forte que o assassino, nossa natureza, nossa vocação, manifesta exatamente no grau do estado da nossa consciência. Logo condições e possibilidades fora, dentro de nós é o tamanho dessa consciência. Uma consciência que é produto não só da nossa sensibilidade e inteligência solidárias que podem estar narcotizadas e adormecidas, mas jamais completamente degenerada ou completamente amputada, não enquanto formos e quisermos ser o que somos: seres domesticáveis como como qualquer outro animal, mas também humanos, seres com vontade (e vocação) para comandar não os outros ou o mundo mas nossa própria vontade, nós mesmos e tão somente a nós mesmos de modo que não evoluímos sozinhos, mas como espécie, olhando uns para e pelos os outros.

Muitos não se importam de matar ou deixar morrer outros seres humanos ou outros seres vivos. Muitos não se importam em tomar ou destruir o que os demais também precisam para viver. E outros tantos a obedecê-los sem pensar ou por medo. Mas não é olhando ou esperando por eles que vamos chegar onde queremos e fazer o que tanto precisamos e clamamos. Não é seguindo ou esperando que quem se perdeu do caminho se reencontre que vamos chegar aonde queremos, mas sim olhando para nossas próprias mãos e abrindo nossos próprios caminhos com nossa força de vontade, juntos ou sozinhos, como tiver que ser. Caindo ou não no meio do caminho.

Não nunca existirá força de vontade nem poderes do tamanho do que é preciso fazer, e nossa existências e realizações sempre serão pequenas perto dos ideais, mas não é onde tombamos, a extensão que percorremos que determina a grandeza da ação mas o compromisso que pode ser infinito se nossa resistência e persistência não tiver limites nem prazo de validade. Não basta agir é viver é teimar, persistir, importunar.

Servo e senhores só fazem o que fazem porque um obriga e outro é obrigado a fazer, de modo que o senhorio e escravidão são estados completamente dependentes, inúteis e perniciosos. O servo sem ter quem assenhore dele, o senhor sem quem o sirva. Contudo aquele que é senhor de si e não dos outros, mesmo que seja obrigado a servir pode estar privado de fazer muito do que poderia, ou obrigado a fazer outras coisas que jamais faria, mas ainda sim é um homem livre que não precisa que senhores ou escravos façam o que ele acredita que deve ser feito. Ele não aguarda por salvadores, senhores, nem servos e fieis, não aguarda sequer as oportunidades, pega suas privações e grilhões, pega todo o arcabouço que o prende e transforma na chave da libertação da sua liberdade que não precisa ser dada nem conquistada, mas que já foi retomada ainda em cativeiro na sua forma mais fundamental: a dignidade. A consciência da sua natureza, sentido de vida e identidade como nenhum outro senão aquele que ele o dará para ela, ou seja, liberdade.

É por isso que quando digo que a renda básica é a realização de um principio libertário, não estou fazendo um jogo de palavras, ou tentando aderir ou enquadrá-la em credo ou ideologias políticas e econômicas ou morais. Estou falando de ideal libertário como a ideia ou ideal de liberdade que se concretiza como fenômeno em práticas libertadoras. E práticas libertadoras antes de serem libertadoras dos outros, de quem as recebe são práticas emancipatórias de quem tomou consciência do seu próprio potencial, são práticas empoderadoras antes de tudo de quem estende a mão para quem assim o quiser.

É por isso que a renda básica ou qualquer outro ato de provisão ou garantia de direitos e liberdades fundamentais precisa antes de sociedades que os instituam antes de querer que as instituições os façam, porque as instituições são o produto da normatização desses hábitos e costumes enquanto ethos e não o contrário. Precisa de pessoas que simplesmente façam o que devem, não porque são pagadores de impostos, seus empregados ou governantes, mas porque chamam essa responsabilidade para si porque é preciso fazê-lo com compromisso, como o médico pelo doente, o bombeiro pelo acidentado, ou simplesmente o comum por sua comunidade cidade.

O que faz do médico um médico, não é meramente o saber da anatomia, fisiologia, e toda ciência que compõe a medicina. Mas o compromisso, o juramento que eles fazem sobretudo para eles mesmos, de que não se negarão atender quem quer precise dele. Se o compromisso de estudar e apreender para poder fazer, os diferencia dos charlatões, o que os faz dele profissionais e não mercenários é a sua ética, o compromisso com a sua vocação construída e constantemente reafirmada não apenas com o estudo e trabalho, mas consigo mesmo afirmo no para com outro. Não foram os serviços, leis ou programas de saúde nem os títulos ou mesmo as escolas que fizeram desses homens, quem eles se fizeram, foi seu compromisso, sua vocação concretizada numa razão muito mais do que social ou governamental de ser, sua razão antes de tudo humana, ou o que é a mesma coisa: vocação. Não, não foram suas escolas, hospitais , sistemas de saúde, códigos e sociedades que fizeram deles quem são, foram eles com sua consciência e responsabilidade manifesta como força de vontade e vocação realizada que os fizeram profissionais e professores do seu saber em ato. Foi este estado que é antes de tudo de espirito em si e para com os demais que constituem as escolas, hospitais, sistemas de saúde, código de ética, cidades, polis e nações, e antes de tudo isso constituem o advento da própria profissão como fé professada. Porque antes do advento da medicina, surgiram os primeiros homens e mulheres que antes do crença que poderiam curar usando a razão e depois o saber, tinham a vontade e o credo que é a gênese de todo profissão de saber e fazer: o credo que algo precisa ser feito, pode ser feito e ele pode fazê-lo. Uma vontade que renasce, se redescobre e se reinventa a cada nova geração, quando uma criança descobre sua vocação, não só de ser médico, mas de todas as profissões que não são impostas a nós a força pelas privações “da vida” em troca da sobrevivência, riqueza ou status, mas por despertar dessa enquanto vontade de ser, vocação.

Por isso não encaro a renda básica como experiência, proposta ou assistência, nem minha atividade ou ativismo social como caridade, ou mesmo encargo (ou desencargo) de consciência, mas vocação. Não é nem deve ser compensação social ou governamental pelos males que causamos, ou bem comum que privamos uns aos outros. Mas a manifestação do que queremos ser em sociedade pelo reconhecimento do outro no seu igual direito de buscar concretizar todo seu potencial e dar sentido livre e próprio a sua existência humana que não é só semelhante ou só igual a minha, é a própria realização dela a humanidade pela construção do nós.

A boa vida não se resume a viver e deixam viver. Há que se proteger a vida e a diversidade de sentidos e vocações e possibilidades que constituem a própria vida como liberdade. Além daqueles que matam e destroem formas de vidas. Violam e violentam seres e liberdades, dignidades, Impõe desejos e vontades a força matando vida em sua liberdade, dignidade, sentido e vocação, e aqueles que dedicam sua vida a salvar vidas, libertar pessoas, findar com privações, e aqueles que buscam e seguem uma vocação. A minha é basicamente buscar que todos tenham a chance de buscar e seguir sua vocação não só profissional ou social, mas antes de tudo natural e humana. Sua vocação de ter vocação. Liberdade como dignidade ou simplesmente o direito social a ter seus direitos naturais garantidos. Algo que tenho plena consciência que embora seja dever de todos, não só é uma responsabilidade que exige poderes ou possibilidades extraordinárias, exige apenas a consciência e livre e espontânea força de vontade, dos comuns. Sem esse estado de consciência, por mais instintivo que sejam as vontades não fazemos nada, sequer nos levantamos da cama. Sem essa consciência de que precisamos nos levantar, sem essa anima simplesmente não nos levantamos, nem movimentamos não por vontade plenamente livre e própria. Na verdade sem esse estado de consciência de fato sequer acordamos. Não trabalhamos, não pensamos, podemos viver rolando e comendo bosta, ou passar por corpos de outras pessoas caídas na rua sem sequer nos darmos mais nos darmos conta. Não movemos sequer pedras, quanto mais montanhas, rolamos como bosta, para onde quer que nos empurrem e empurremos os outros.

Por isso nesses dez anos de pagamento da renda básica, paradoxalmente o menos importante de tudo é a renda básica. Se não fosse através dela, se ela não funcionasse, faria o que faço através de outros meios. O que não faria, como qualquer outro que escolheu seguir sua vocação é deixar de praticar o que escolhi como profissão, ainda que como amador, porque não é pago, porque não é reconhecido ou porque já foi até mesmo perseguido. Não deixaria de exercer minha atividade como posso e com o que tenho. Porque as autoridades autoproclamadas não querem. Por quê? Pela mesma e simples razão que não cuspo na comida dos outros, estupro, violento, roubo ou mato, ou nem ganho meu sustento privando os demais do seu e prefiro viver de caridade do que apelar para isso. Nem achamos isso normal, nem consigo permanecer impassível por mais que queira.

Quando a ilusão da impotência e dependência absoluta desaparece, passamos a dar valor não só ao que temos ao tudo que podemos fazer com isso. E fazer esse tudo isso que está ao nosso alcance é muito mais do que brincar de mudar o mundo como criança mimada e crescida, é tomar seu lugar nele como adulto emancipado sem roubar o espaço de ninguém mas com certeza a revelia daqueles das correntes e amarras do que pregam impossível e pregavam dar em lugar nenhum.

Não somos fechados em nós mesmos. E isso não é senão uma abstração, de fato apenas o produto da nossa imaginação que, irrealizada não passa de uma fantasia. E continua o sendo quando lidamos com o mundo, e outros seres como se fossem seres inanimados, meros produtos da nossa abstração, ou mais precisamente da redução das formas de vida a coisas, meros abstrações das nossa mentalidade. O que somos se define não apenas na ação, mas na relação, na interação entre seres como seres e não entre seres que tratados os como coisas, frutos de ideias sem nexo se coisificam. No entanto é um erro pensar que o nexo está na conexão. O nexo, o sentido dos seres, não estão nas relações, mas nas disposições de cada ser para constituí-las. Em outras palavras, o que somos não se gera, se concretiza nas formas como nos relacionamos. O que somos e o que concretiza nas relações, se gera das nossas concepções que se não são fantasias e abstrações produzem essa relação que se concretiza como conhecimento e reconhecimento da existência do outro. Se essa relação é recíproca há comunhão, mas mesmo onde não há nenhuma reciprocidade, mesmo que o outro não reconheça quem você é, o que você precisa, seus direitos nem assuma nem respeite nada que você concebe e assume como ser e dever. Ainda sim, nada impede que você o faça por você e e ele.

Logo, não é necessário reconhecimento universal de direitos e liberdades fundamentais ou assunção universal de deveres para concretizar direitos e liberdades. Necessário é no mínimo uma pessoa que seja dispostas a respeitar, defender, tais direitos. E quanto maior a capacidade e o número dessa pessoa, ou delas mais universalmente serão garantidos esses direitos e liberdades. Porém se as pessoas vão gastar seu tempo impondo a defesa ou provisão como obrigações a outros. Ainda sim, estarão a gastar seu tempo e forças para impor tal responsabilidade como obrigação de outros, e necessariamente se obrigando a obrigá-los. Um desperdício de tempo e forças com resultados inferiores e degeneradores não só para quem é obrigado mas para quem obriga. Pois, uma coisa é ser obrigado a se defender. Disto quando não temos como fugir quando cercados. Outra é não violar e violentar, que demanda apenas um não agir. Mas uma terceira é defender e prover, as duas demanda ação. E impor que uns provejam ou defendam outros pela ameaça da violência ou privação é justamente constituir o estado e mentalidade do qual buscamos nos livrar e libertar quando reconhecemos direitos fundamentais e concebemos seus respectivos deveres para protegê-los e prover sua garantia. Em suma, aquilo que somos capazes ou temos condições de fazer voluntariamente não é só tudo o podemos fazer, mas o que devemos fazer e não impor, quando nosso propósito não é poder e dominação, mas justamente o oposto a liberdade e libertação.

A renda básica — assim como a democracia direta, a expressão política da liberdade que ela significa economicamente- não são propósitos, nem princípios são apenas meios, formas, adequadas ao nosso tempo, para realização desses princípios que encerram em si sua própria finalidade: vida em paz e liberdade. Mas que não existem senão como abstrações sem esse atos que concretizam tais ideais dentro das condições e necessidades.

Criados nos efêmeros estados de paz entre guerras e na liberdade como autorização dos senhores desses estados de guerra e paz, já não somos capazes de ver que a paz e a liberdade não são estados nem produtos de Estados, não são relações sociais, nem produto de sociedades. Mas o produto da nossa consciência, isto é da nossa mentalidade como ato, atitude e hábito. Natural que as correntes da privação, impotência, imposições, violações, violência destruam nossa fé e confiança em nós mesmos e no poder transformador das nossas próprias ações esmagadas e apequenadas por poderes supremos e totais. Mas o que constitui o universo, seja o natural ou artificial, não são os poderes ou códigos, mas as forças elementares que os constituem e os escrevem. Não somos nós e nossas ações que são um produto do mundo, mas o mundo o produto da vontade manifesta em ações; o produto dessa força elementar, dessa anima que não constitui apenas o fenômeno da liberdade, mas da vida, de modo que o ser presente nada mais é do que o manifestação concreta da vontade de vir a ser do instante anterior, e cada instante de existência um constante vir a ser mantido por essa vontade que se perdida se desfaz.

Porque ao contrário que a doutrinação da impotência e servidão prega, o que somos e fazemos não é dado nem imposto, nem está alienado ou desintegrado nem sob os piores estados de violência, privação e insegurança. Ser e fazer são o produto da mesma força elementar constituinte de cada célula, que é em si um universo enquanto movido pela força autocriativa e criadora que gera, sustenta, transforma e reinventa a si mesmo, alguns chamam isso de caos, outros de entropia, outros ainda de mera aleatoriedade, eu chamo de vontade pura, liberdade como fenômeno, o motor que não apenas movimenta, mas da anima, forma e concretude a tudo àquilo que se tem autonomia identidade e existência própria em relação ao todo que faz parte não por discriminação de outros seres capazes de dar nexo as coisas, mas porque ele possui em si a força elementar para produzir todo o nexo e conexão necessária para fazer parte e constituir o todo como a rede da vida, a anima, o espirito das coisas, a livre vontade ou simplesmente a liberdade.

Não é preciso acreditar ou ter consciência disso para reconhecer e respeitar o direito dos outros seres vivos aos meios necessários a vida, mas para assumir que tal liberdade como sentido de vida e responsabilidade sim. Tomar a responsabilidade sobre a provisão de todas as formas de vida de acordo com o que nos apropriamos ou possuímos desses meios ambientais e vitais na medida da nossa capacidade contributiva adquirida pelo que possuímos requer mais que respeito requer responsabilidade, e não há responsabilidade onde a inteligência não atinge o nível da consciência. Saber que precisamos contribuir como podemos com os demais não porque podemos, mas porque temos e detemos as coisas que todos os demais precisam para subsistir não é algo que se consiga colocar na cabeça das pessoas como obrigação. A menos que se acredita que as obrigações não passam daquilo que se consegue impor a força da ameaça ou manipulação os demais. Todo ser vivo tem o direito natural de lutar com todas as forças para não ser privado delas ou contra quem as priva. Homem ou animal, nenhum ser dotado de anima é obrigado a aceitar nenhuma condição que seja uma sentença senão de morte da sua vida e liberdade. Seria portanto no mínimo uma contradição impor privações para livrar pessoas de privações e imposições. E se realmente o ser humano precisasse disto, já estaria extinto ao menos como gente.

Se a evolução da humanidade carecesse da tomada de consciência ou racionalização dessa solidariedade que o instinto gregário e solidário provê desde o nascimento já estaríamos extintos faz tempo na qualidade daquilo que estamos nos tornando ao perder essa inteligência instintiva, ou seja, vírus predadores de nós mesmos e do Planeta reduzido a mero hospedeiro que nos sustenta.

A própria necessidade de precisar racionalizar o que deveria ser pressuposição mais do que evidente, não demonstra uma evolução da nossa razão, mas uma perda patológica grave dessa sensibilidade que compõe a inteligencia. O que faz de certa forma todo discurso sobre renda básica ou direitos humanos aplicados em geral, uma pregação ou para convertidos ou para surdos. Pois aquele que reconhece esses direitos por sua qualidade de direitos não só não precisa ser convencido. E aquele que não consegue ver o contrário, que ninguém pode morrer por privação de acesso a recursos naturais, não tem senso nem sensibilidade para ser desconvencido.

Quem esta disposto a coloca em discussão se uma criança deve ou não viver, ou morrer de fome, se este ou aquele inocente deve ser sacrificado em favor de muitos, e outros absurdos do gênero, não é uma pessoa aberta a pensar e discutir qualquer assunto, é pelo contrário uma pessoa pressupõe que qualquer assunto está sob o julgamento e sentença da sua persona autoritária e fundamentalista que toma tudo e todos como objetos submissíveis a sua razão e jurisdição. Esta disposto a questionar a legitimidade de tudo e emitir sentenças sobre todos, exceto a legitimidade dele mesmo para julgar e emitir sentenças sobre o que não lhe pertence nem como juiz nem senhor para qualificar ou desqualificar e tanto menos para determinar ou intervir no destino a revelia do consentimento de quem é o verdadeiro soberano ou co-soberano do seu destino.

Afirmar portanto que outros pessoas ou seres dotados de vida e liberdade enquanto direito natural, fundamental ou universal, não é emitir um juízo como se tivesse autoridade para renegar ou decretar o contrário. Não é colocar sobre julgamento a vida e liberdade alheia, mas é colocar o seu próprio poder de dispor e julgar a vida e liberdade alheia. É tomar consciência não só que todos tem direito a vida a liberdade, mas sim que ninguém tem direito algum sobre a vida e liberdade dos outros. Não temos direito, legitimidade ou jurisdição nem para renegar, nem afirmar, mas tão somente reconhecer os limites da nossa própria vida e liberdade inclusive como justiça e igualdade sobre o que pertence aos outros e logo está submetido a seu consentimento absoluto, assim como reconhecer que a necessidade de permanente negociação e acordo mutuo naquilo que sendo comum, vital e indivisível precisa ser e estar compartilhado no mínimo como poder de decisão e usufruto por todos. Isto é claro se não queremos ser apenas bandidos e tiranos travestidos de justiceiros e vigilantes em permanente pé de guerra disfarçado de estado de paz.

É por isso que a consciência sobre o respeito aos direitos que se busca garantir positivamente se constitui não naquilo que nos arrogamos como juízes para impor ou prover ao outro como obrigação ou transferência de responsabilidades, mas pelo exercício da nossa própria liberdade como responsabilidade e ação direta. A única ação e obrigação que com legitimidade e justiça temos numa relação consensual. Logo, quando assumo o compromisso, antes de tudo comigo mesmo de pagar uma renda básica para alguém que concorde em receber, não posso exigir nada em troca porque o que estão lhe pagando embora não seja algo que eu deva especificamente a essa pessoa em particular, é algo que reconheço como meu dever para com todas as pessoas que posso pagar não só na exata medida do que posso pagar, mas no limite do que concordamos ser a necessidade não só dela, mas de toda e qualquer pessoa nas mesmas condições.

Se fosse o único proprietário e tirano de todo o planeta Terra de certo, sobre as minhas posses estariam tudo o que todos também precisam, e logo também a obrigação de pagar sobre essa posse, não sobre tudo o que o que ganho sobre ela mas sobre tudo o que privo todos os demais seres viventes do que necessitam para sobreviver. Isso é claro se além de ladrão e tirano, não quiser me tornar um escravista que usa daquilo que toma para obrigar que eles me façam o que eu mando, ou um assassino, matando de fome quem se recusa a servir e a bala quem ousa se levantar contra meus domínios.

Porém se não sou um tirano, ladrão, escravagista nem muito menos assassino, tudo o que ganho sobre tais posses seja naturalmente dado por ela, ou produzido por mim pertence a mim em toda extensão do que consigo manter sem ameaçar com violência ou privação a vida de absolutamente ninguém. É portanto não sobre aquilo que produzo, sobre a riqueza que ganho ou produzo que reside a consciência do meu dever humanitário ou social de contribuir, mas sobre aquilo possuo e usufruo do que naturalmente se produz e reproduz e é vital para a subsistência dos demais, e estaria a sua disposição para sua subsistência se não acumulasse como excedente para minha. O acumulação de excedentes é perfeitamente valida e aceitável inclusive sobre coisas que não carecem do trabalho para serem produzidas e acumuladas, mas tão somente quando essas acumulação de meios vitais não implica em privação e imposição de carestia aos demais. Ou em outras palavras, a propriedade comum se torna passível de apropriação privada, na exata medida que não priva nem coloca ninguém em risco de vida por falta ou escassez de meios vitais e ambientais. Essa apropriação que priva e subtrai o bem comum necessário, é um roubo, e não raro por colocar a vida e liberdade das vítimas em risco, nunca se instaura ou é mantida sem o subsidio da violência.

Mas não sou, nem a maioria de nós é esse tirano dono do mundo e terras e recursos. Mal temos posses para cobrir a nossa própria subsistência com liberdade e dignidade, ou impor obrigações a quem tem menos que dirá para livrar todas as pessoas dessas privações. Mas isso não elimina nossa consciência nem responsabilidade. Pois não é porque não capacidade para atender a todos, ou outros detém mais posses e poder para fazer algo, ou até mesmo parar de fazer o que não devem que não podemos e devemos assumir a responsabilidade de contribuir com tantos e o quanto pudermos.

Uma obrigação que nos estabelecemos por cobrança ou imposição aos outros, ou sequer sobre nós mesmos, mas por livre iniciativa e consciência duas força absolutamente distante e opostas que conduzem a compreensão de que ainda que seja ínfimo o que temos, uma parte ainda que mais ínfima ainda pertence por direito a vida a todos. E todos é sempre um coletivo tão vazio quanto ninguém, se não buscamos ao menos uma pessoa de carne-e-osso para começar a dar concretude a esse universo e universalidade. Quem são ou quantas serão essas pessoas isso é algo que não deve escolhe senão por nossa capacidade de agir a quem quer receber porque carece de ação.

Quando a renda básica sai do plano da conjectura, e vai para ação. Paramos imediatamente de levantar hipóteses e empecilhos e olhamos para o problema da carestia, porque a solução da renda básica não faz sequer o menor sentido, onde não existe a carestia do básico como renda. Não olhamos mais para esse crime ou desastre humanitário mais como as vítimas embora também sejamos mas como voluntários. Voluntário diante de uma emergência, um desastre criminoso ou não. O voluntário não escolhe, ou não deveria, as pessoas por sua raça, idade, nacionalidade ou cidadania. Mas tira quem está ao seu alcance de acordo como pode, com as forças e meios que tem. Esse é o critério da elegibilidade de quem vai para a prática imbuído de valores universais e despedido de toda e qualquer forma de discriminação ainda que implícita.

E por isso ,repito, quando modificamos nossa mentalidade, nossa concepção de qual nosso papel no mundo, imediatamente verificamos que aquilo que parecia impotência se torna o própria manifestação do empoderamento e libertação, a começar de si mesmo quando mudamos a nossa disposição de “não tenho o que e como fazer”, para “vou fazer o que puder com o que tenho”. Essa é para mim a verdadeira definição da renda básica, que não se concentra sobre quantos ou para quantos vamos receber, mas sobre o quanto e e para quanto estamos dispostos a dar. O espirito do voluntarismo, ativismo e solidariedade que uma vez disseminado forma pactos sociais: garantia de direitos universais via assunção de deveres mútuos.

Reconhecer um direito sem assumir um dever é jogar com palavras. E assumir esse direito e imputar ou impor essa responsabilidade a outros, pode não ser tão criminoso quanto roubar esses direitos e impor a obrigação de manter esse roubo como dever das vítimas. Mas é tão nulo quanto não reconhecer direito sem obrigação nenhuma. É dizer que há um incêndio e que nós devemos apagá-lo. Nós quem? Por isso só há algo mais intangível do que o conjunto universo da renda básica para todos, é o conjunto universo de uma renda básica paga por todos nós. Não é, nem nunca será. Porque se um dia a renda básica chegar de fato a todos, não serão todos a contribuir com ela, nem muito menos deixarão de existir quem continue a investir na privar dos demais para tirar proveito das privações mais primitivas. E se vamos esperar o despertar da consciência deles então melhor esperar sentado, e investir em funerárias porque muita gente ainda vai morrer das causas mais evitáveis. deixar de trabalhar contra a privação.

Se um dia que de fato todas as pessoas e seres vivos deixarem de ser exterminados pela subtração e privação dos seus meios ambientais e vitais não serão nem os exterminadores, nem os omissos que por ventura terão freado esse crime contra a natureza e humanidade, nem os protetores e juízes nomeados por eles, mas os que se levantaram como puderam para defender e prover quem podia menos ainda. Essa é a força de vontade que tira a renda básica das utopias sobretudo as totalitárias. Uma força que não está presente naqueles que detém posses e poderes, mas ao contrário naqueles que independente do quão pouco possuem ainda sim não renunciam nem a sua liberdade nem responsabilidade, no fundo apenas resistentes porque para elas não essa busca não é um ideal nobre,extraordinário e abstrato mas completamente real, popular e cotidiano: tão evidente quanto a necessidade de luta pelas suas vidas.

A renda básica antes de ser um cálculo, uma formula, uma definição, um programa ou serviço público social, um preceito da sociedade ou de um estado, é um ética, que não é nem religiosa, moral nem legal, mas factual. Não é fruto das prescrições de sagradas escrituras, revelações, ou investigações racionais. Mas uma principio voluntário e volitivo que uma vez manifesto como ato de consciência é ato constituinte de credos e razões, fundamentos, mandamentos, costumes, culturas, sociedades e estados como disposição e dispositivos humanitários, ou simplesmente direitos em ato. Sem ele, não só a renda básica, mas todos os princípios humanitários não só não nascem e se materializam, mas se esvaziam de sentido prático e teórico, ficando a mercê para serem ocupados como uma casa abandonada por qualquer ideologia que os tomem e usem até mesmo para transformá-la no oposto do propósito verdadeiro e original.

Estados de consciência produzem credos e razões mas sobretudo atos e atitudes que independe dos credos e razões dos para serem consumados por seus praticantes. De modo que mesmo aquele que não conhece e não prega porém pratica, é de fato e em ato verdadeiramente mais consciente do que aquele que se arroga a ciência e conhecimento do prega mas não professa. E até mesmo não raro impõe como fundamentalista, aos demais mas não se preocupa ou tem a menor intenção de praticar, pois seus valores e prioridade não estão na realização, mas sim na imposição da seus valores como prioridades.

Assim sendo, esse testemunho não escrito para aqueles que querem e não querem ser convencidos, mas para aqueles que não precisam ser vencidos nem convencidos para tomar uma atitude. Não estão preocupados em vencer ou perder. Não estão ocupados em agir de acordo não com credos ou mandamentos, mas sim de acordo com sua liberdade e consciência, esta sim tão sagradas quanto a vida, esteja escrito ou não.

A renda básica é para todos, mas sua responsabilidade não. Não porque esteja fechada a poucos escolhidos. Mas porque as pessoas são livres para fazer suas escolhas. O progresso da tomada dessa consciência e responsabilidade se dá na mesma progressão da própria universalização da provisão da renda básica e garantia dos direitos universais de fato. Ou mais precisamente na exata medida, que uma e outra coisa estão ligadas como um convite a ação tão independente e incondicional quanto é a própria da natureza do direito que se reconhece.

No fundo utopia é esperar o momento em todos os alienados ou seus alienadores despertem desse distopia para sermos e agirmos de acordo com nossa consciência. Pois o progresso dessa humanização dessa garantia de condições universais não se produz por coletivos ou todos abstratos para coletivos e todos abstratos, mas de indivíduos para indivíduos e é isso que forma os coletivos e a ação aberta e voltadas para todos, concretamente. E agir mesmo que não exista um estado, sociedade ou associação que permita ou facilite sua ação. Pelo contrário, é justamente as ações que desafiam a inercia e impedimentos seja o da omissão desprezo ou até mesmo a repressão aquelas que transformar o mundo, e essas ações não podemos nos enganar antes de serem sociais, são sobretudo pessoais.

A matemática que constitui a libertação e garantia de liberdades como condições concretas seja como renda básica ou não, mas ainda sim sempre como ações concretas que livram as pessoas das violência da privações e dominação, é uma progressão que se dá não pela quantidade de pessoas partilhando dos mesmo mitos, ou credos ritos ou costumes ou regras, mas simplesmente pela tamanho da disposição daquelas que agem de acordo com sua consciência, ainda que sejam poucas. Uma progressão mais da realização de pessoas que sequer precisam conhecer uma as outras, quanto mais se associar para pertencer a humanidade ou colocar esse potencial em prática.

Um único homem com bilhões em capitais, ou bilhões de homens não são a solução mas o produto de uma solução. Não é causa, mas a consequência. Produto antes da vontade de realizar o ideal, do que se associar ou acumular para depois agir. Quando nos importamos com alguma coisa ou mais ainda com alguma vida, não esperamos o mundo se unir ou aprovar. Não precisa de desculpas para fazer ou não fazer, nem para si nem para os outros. A força que o move não precisa de nada que não seja. O sentido e significado não é dado pela atribuição dele ou de outros. Ele está em si no próprio fenômeno constituído por nada menos que seu ato.

Muitos acreditam que o que une e define os seres humanos são os mitos, as fantasias que ele inventa para formar se comportar seja como grupo ou manada, para nos empurrar ao que não temos vontade ou força de vontade suficiente para fazer. Não é. A força elementar que constitui a nossa forma de vida, é anterior e primordial a formação dos grupos e credos. Não precisamos acreditar no mesmo deus, ou sequer vir a conceber um, ter as mesmo culto ou cultura, ou sequer pertencer a uma para termos uma consciência e tomar atitudes através dela. Não precisamos de mitos e inconscientes coletivos para nem para agir, nem muito menos para pensar por conta própria, juntos ou sozinhos, com todos ou contra todos. Pois o mesmo principio que constitui o erro, constitui também o acertos. Pensar e agir não estão acorrentados por amarras, não precisam de forças nem de sinais, ídolos que os guiem ou criem.

A liberdade que gera os males é o mesmo e único poder para realizar o bem. O problema é que aos contrário das pessoas patologicamente insolidárias as pessoas que querem fazer algo de bom estão presas a concepção de que precisam de um credo, um poder, uma autoridade, uma autorização, um sinal, que precisam sempre de algo que ainda não tem ou lhe foi tomado, quando tudo o que precisam para fazer qualquer coisa boa não é diferente daquilo que os canalhas, violentos e psicopatas precisam para fazer tudo o que é de ruim: Vontade.

É por isso que aqueles homens que não se importam com a vida alheia, com o bem comum conseguem mais e governar o mundo. Suas ações não estão presas no arcabouço dos mitos, sua mente e sua vontade não é prisioneira da aprovação ou permissão alheia. Eles querem… eles não rezam, eles fazem e tomam. Não se importam com os mitos e medos tolos, eles os criam e vendem. Usam e abusam do poder gerador do bem e do mal, para obter seus bens a custa dos males de quem quer que seja. Monopolizam o poder dos poderes, a liberdade, não só pela força, mas sobretudo pela forma servil e temerosa que levam os submetem e renunciam a seu próprio poder, essa liberdade.

Não é que seja mais fácil ser egoísta ou fazer o mal aos outros, o problema é quando o assunto é o bem, as pessoas se contentam apenas em apregoá-lo, ou esperá-lo, não correm atrás como se pelo simples fato de desejar querer o bem fizessem muito, ou qualquer coisa suficiente para realizá-lo. Esse é a razão porque a humanidade consegue o extremo de racionalizar e sistematizar o extermínio em massa de seres humanos, o holocausto, mas ainda não saiu não desenhou nem colocou em prática nenhum programa de extinção da carestia com o mesmo empenho e pragmatismo. Se exitássemos e só orássemos na hora de construir armas e bombas o tanto que fazemos quando o assunto é a carestia, não teríamos meios nem fundos para fazer guerras, da mesma forma que se pagássemos sem exitar nem pensar como fazemos para sustentar os estados e forças armados não teríamos fome nem violência. Se nós que nos julgamos tão bons não nos maravilhássemos tanto com nossas boas intenções e tivéssemos um cêntimo da aplicação pragmatismo e impassividade daqueles que cometem as piores atrocidades, o mundo seria um lugar com diferente, talvez com bem mais gente ruim a fazer coisas que boas, do que gente boa a fazer tudo que não presta. Essa é que o problema, enquanto os que se dizem virtuosos se contentam em apenas dizê-lo, canalhas não ganham fazendo propaganda, não querem falar, mas fazer, e não ganham falando mas tão somente fazendo.

É por isso que nada a renda básica ou outras formas de garantia de direito a vida não saem do plano dos ideais de uma humanidade. O problema não é a humanidade que nos falta. Mas a humanidade, a nossa natureza que trocamos por mitos que não capazes de dar o sentido próprio a existência que o só o exercício da própria livre vontade é capaz de dar. Não é uma questão de ensinar ninguém a ser solidário ou ser “mais” gente. Não há nada mais autoritário preconceituoso e supremacista do que acreditar que alguém precise apreender a ser isso. Porque não é uma questão de construir algo que não temos, mas sim de nos livrar de correntes que são antes de tudo conceituais que nos tornam impotentes e absolutamente crentes da nossa ou da nossa impotência e dependência, ou deslumbrados da ideia que fazemos de nós mesmos independente do que somos ou fazemos, simplesmente por querer o bem dos outros. Foda-se o querer o bem. Querer o bem e 50 centavos não limpam a bunda nem compram um pingado.

Não é só dar sem esperar nada em troca, é fazer sem esperar nada de ninguém. Nem muito menos cobrar. É antes de tudo uma atitude. Se isso não é a definição da renda básica então não é renda básica o que fazemos, nem queremos fazer. Não como a prática dessa ética. e sim como quem tiver mais que me sustente. Renda básica não é um pedido ou reclamação nem muito menos uma imposição ou transferência de responsabilidade, ela é o chamar dessa responsabilidade. De fato não só uma abordagem completamente distinta, mas uma concepção. Porque não é uma demanda. É uma oferta. Não é de fato a mesma coisa na tese e na prática. Porque a ordem das coisas altera completa o resultado, de modo que sem inverter o que se produz o que temos de concreto até hoje, nada em lugar nenhum. Uma coisa é dizer que se tem um direito e exiger que outros o garantam a você, outra completamente distinta é reconhecer esse direito assumir a responsabilidade de cumpri-lo independente de qualquer outra condição, imposição, ou esperança. Numa a renda básica é uma demanda que o outro proveja seus sustento, na outra é a realização dessa provisão para o outro por si mesmo.

Isto é renda básica. Não é o direito sem o dever, o direito como obrigação reclamação e imposição sobre o outro. Mas sim o dever que a pessoa demanda da única pessoa que ela tem o direito de exigir e impor: a si mesmo, por reconhecimento não só do seu direito mas da sua responsabilidade para com o outro. É nessa ordem de fatores que a renda básica se realiza, e não a inversa. Um ato de responsabilidade e consciência perante os direitos, e não de alienação, transferência ou imposição de responsabilidade sobre outros. Um ato de libertação antes de tudo da nosso direito de transformar o mundo, na exata medida e legitimidade em que ele não é uma violência , mas empoderamento de ambos de quem paga e quem recebe voluntariamente.

Infelizmente o foco teórico da renda básica ainda que implícito ou enrustido está em quem deve ou não receber e quem deve se impor isso como carga e imposto. Quando na verdade enquanto não reconhecermos que ninguém tem direito jurisdição nem legitimidade para isso, nem discriminar quem recebe, nem quem impor quem deve pagá-la não teremos jamais a consciência necessária para realização da renda básica. Porque a renda básica antes de ser concretizada há que ser praticada. Há que ser conjugada com o verbo praticar antes do concretizar, pensado como o pagar como posso antes do receber o que eu quero.

Esse é o ponto. Prega-se a renda básica como redistribuição de riquezas, mas essa distribuição se não é um roubo, ou demagogia se faz, praticando a distribuição da riqueza alheia, quando se ela é adquirida com justiça não pode ser tomada, e se é adquirida como roubo não cabe redistribuição nem compensação, mas restituição ao verdeiro dono seja ele alguém em particular ou o bem de todos os comuns. Debater o quanto é necessário, qual é o ideal, para quem, onde, é masturbação intelectual se antes não houver uma disposição clara não de quem e o que deve-se restituir, se é que temos meios de fazê-lo, ou quanto estamos dispostos a dispor do nosso tempo, dinheiro e trabalho para realizá-la sem esperar o milagre do arrependimento quem rouba ou pilha incluso o legalizado vá se Não é uma questão de dar o exemplo pela prática. Mas de fato tomar a atitude necessária para fazê-la da única forma que essa renda se constitui de fato como uma responsabilidade humanitária e não uma pilhagem.

É evidente que muito do bem comum que as pessoas carecem, não estão nas mãos de quem querem e fariam algo se pudessem, mas sim dos podem e não querem. Mas o crime deles não elimina a nossa própria responsabilidade social nem muito menos a humanitária. Pelo contrário se eximir dela, usando os expropriadores e omissos como argumento é se juntar a eles, para expropriar e se omitir, talvez não nos montantes que eles pilham e exploram mas ganhando ainda que uma miséria com o mesmo expediente. De modo que não é o quanto se possui ou não que determina ou exime as pessoas das suas responsabilidades humanitárias ou criminosas. Mas a atitude. Ou melhor o quanto determina o grau dessa responsabilidade que só praticamente nula para quem não possui nem pode na prática nada. Ou seja mais do que pobre é um há que ser um completo escravo.

Nossa obrigação não é bancar o escravagista nem o ladrão institucionalizado conforme a sua demanda interminável, mas sim restituir a parte que pertence também aos demais na medida da sua subsistência. Podemos contribuir mais do que isso se assim o quisermos, se assim entendemos como o melhor para a paz ou libertação das pessoas, mas isso é doação. E ninguém é obrigado a doar seus viveres ou riqueza a quem tem fome, mas não pode cercar o única fonte de água e achar que tem o direito de negar ou reprimir com violência quem queira saciar sua sede, fazendo da pobreza do outro a sua fonte de riqueza e sobretudo poder. Sobre o que possuímos do que os outros carecem, sobre o que reconhecemos possuir ainda que infimamente e não monopolisticamente do que é vital para todos, é o que consiste a parcela de nossa responsabilidade sobre a garantia do minimo vital aos demais.

Ninguém se conforma quando perde uma vida que lhe importa, dizendo a si mesmo que é um bom pagador de impostos. Ninguém se conforma fazendo menos do que realmente acredita pode fazer, e não raro se questiona por não ter conseguido fazer mais. É um profundo engano, para não dizer enganação, dizer que a renda básica é um produto da imposição de distribuição ou redistribuição de propriedades e rendas. Porque tal redistribuição se não é feita pelas próprios proprietários é roubo, a começar do bem comum. É por isso que quem busca apenas se livrar ou transferir responsabilidades, não quer saber de renda básica, ao menos não da sua prática. Não quer saber dela enquanto responsabilidade assumida com alguém real, mas sempre dividida entre todos para chegar de fato a ninguém. Não. Renda básica não é o direito imposto ao mínimo vital. Nem o dever imposto aos que possuem mais de sustentar os que tem menos. A Renda básica é do dever humanitário de não privar ninguém do mínimo vital. Um dever que se torna dever social positivo a mediada que uma sociedade ocupa todo o território e controla o bem comum como seus recursos, estejam eles alocados como bem público ou particulares.

De fato ninguém tem obrigação de renunciar a nada do que é seu para dar a ninguém que carece nem muito menos que exija. Ninguém é obrigado a renunciar ao que possui nem como propriedade, tempo livre, para dar a ninguém; Ninguém tem obrigação de ser uma ativista social porque vive sob a proteção dos direitos de uma sociedade, mas tem o dever não só social, mas antes de tudo natural de não privar ninguém do que lhe é vital, seja não impedindo o seu usufruto seja compartilhando o necessário.

Responsabilidade social é aquele dever que todos possuem tanto em não tomar o que é do outro, quanto dar o que lhe é devido a cada um de acordo com seu poder e posse. É o próprio cada um a parte que também lhes pertence,. O que significa em obrigação de dar apenas a parte que pertence como usufruto aos demais do que possuímos. Isso é responsabilidade social e compete a todos que querem viver em paz em sociedade. O que o ativismo social faz é chamar essa responsabilidade quando não é cumprida. Ou ainda assumir como compromissos ações sociais que não correspondem a nenhuma obrigação ou responsabilidade natural de ninguém para com ninguém, mas são assumidas porque constituem a necessidade do outro.

De fato o progresso da universalização dos direitos se dá não pela força dos seus impositores ou impostores ou reclamantes. Mas justamente pelo principio justaposto pela progressão daqueles que renunciam a esses condições e se proclamam não em palavra mas em ato como os próprios responsáveis pela efetivação desses direitos como seus deveres. A universalização dos direitos dá portanto não idealização teorização ou mandamento, mas por progressão da consciência mentalidade manifesta em atitude, concretizada em ato. Se dá pela disseminação desse compromisso ético independente de credo, raça. Se dá pela própria universalização da consciência que se constitui e manifesta não como ideologia mas simplesmente prática.

Foi assim que muitos seres humanos decidiram que não deveriam matar-se uns aos outros. E é assim que um dia, novamente não todos, mas aqueles que assim decidirem irão constituir essa nova forma de ser e agir. Se um dia teremos a vida protegida pela provisão de uma renda básica, não será portanto porque nenhuma força mítica ou poder supremo o garantiu ou prescreveu, mas porque em algum lugar, alguma pessoa decidiu por fazê-lo. Não é o superpoder que essa pessoa natural ou artificial tenha ou acumule que vai determinar quanto serão libertados de suas privações, mas quantos tomarem essa mesma decisão. Essa será o tamanho da concretização de uma renda básica, ou de qualquer outro ideal de humanização, a disposição e quantidade desses praticantes em agir, viver em conformidade com o que acreditam e não só em pregar. Eis a única coisa necessária para colocar a renda básica em prática como principio universal: agir. Prover onde e como puder a garantia desse mínimo vital sem se preocupar com fronteiras, credos, sem discriminar quem ou onde. Um direito é tão universal quanto somos capazes de conceber cada pessoa como um universo em si, mas nossa força de vontade como força elementar de um universo tão infinito quanto a nossa vontade de constituí-lo sem limites. Ninguém precisa estabelecer de antemão esses limites, a realidade da vida já faz isso por nós, já nos poda mais, sem precisarmos nos mesmos nos amputarmos, sobretudo nisso, a vontade solidária.

São dez anos, o projeto hoje anda com as próprias pernas, O capital doado já paga a renda básica. Cada nova doação ou contribuição que a pessoa faça constituirá a partir de agora um novo fundo para uma nova pessoa. Se isso vai ou não ocorrer não é algo que cabe a mim determinar. Pois no final das contas ele é só uma forma de colocar em prática em um lugar. Qualquer um pode contribuir, pode copiar, pode modificar e replicar em outro lugar para outras pessoas que ele não alcance. O projeto não é solução. É um produto dela. É meio, não força geradora. O importante é que estará lá mesmo, que ninguém o aprove ou abrace, foi desenhado para isso. Não para ser um exemplo do que podemos fazer ou como podemos fazer… ninguém precisa disso. Mas para ser o que ele é. A concretização desse principio.

Não precisamos de santos, não precisamos de salvadores, nem de generais, precisamos só de soldados que não abandonam seu irmão no campo de batalha quando ele cai. Podemos continuar sendo os filhos da puta que somos não precisamos de nenhum espirito ou inspiração especial, para fazer o que precisamos fazer. Ninguém pode carregar o fardo do mundo em suas costas, não tem, nem precisa… não precisamos ser perfeitos, nem melhores, não precisamos de um razão, nem de mitos, só precisamos ser mais vezes o que somos, gente. Quem sabe isso não vire até um hábito. Toda a potencia que precisamos está dentro de nós, não importa o quão podre sejamos ou estejamos. Essa é a beleza da coisa. em toda sua monstruosidade, a mesma força que temos para colocar tudo a perder e estragar tudo, é aquela que a qualquer momento, sem nenhum razão, do nada, também nos permite fazer alguma coisa que preste, pegar um fardo que ninguém nos obriga, e carregá-lo como se também fosse nosso.

Então a renda básica é só isso? Não, mas sem isso sem esse espirito ela não é nada, nem jamais vai chegar em lugar nenhum.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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