Quem governa os governantes? Ora os bancos…

Catalunha: Quando a mão invisível aparece para auxiliar o punho de ferro.

“Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem”- Brecht

Dizem que uma mão lava a outra. Nada mais verdadeiro, principalmente quando o assunto é o Estado e o mercado. Quando a mão de ferro do monopólio da violência, os capatazes e administradores dos interesses do mercado não consegue fazer o seu trabalho. Eis que o mercado, essa essa entidade metafísica, a mão invisível sai das sombras e assume a sua verdadeira forma ainda mais ameaçadora que o porrete e a porrada policial, assume a forma da ameaça do empobrecimento, privação e carestia.

O monopólio sobre as transações financeiras, ou se mais precisamente sobre os meios de troca, está conseguindo fazer, o que a brutalidade do Estado Espanhol não conseguiu. Está quebrando a unidade da independência, fazendo muitos temerem e recuarem. Pelo entre as lideranças políticas.

Evidente que outra mãozinha do Estado. Mas o fato é que a mão que está conseguindo conter a independência é a outra do mercado.Porém o custo de ter que sair das sombras, e fazer o trabalho que seus feitores deveriam fazer é gigantesco.

Governos, ou mais precisamente essas administrações públicas dos grandes capitais corporativos disfarçados de representação popular, são um aparelho caro e ineficiente, mas tem um propósito para aqueles que os “bancam”. Na arte da domesticação das massas, é importantíssimo ao verdadeiro Príncipe, o verdadeiro dono da casa manter-se longe dos olhos e portanto do ódio daqueles que se revoltam com as privações e castigos que eles lhe impõe e sustentam seus privilégios.

Governos servem portanto como pará-raios. Governos estão para o mercado como ministros estão para os próprios governantes. E assim por diante até chegar ao ultimo degrau da hierarquia. Estão lá para assumir a linha de frente e não só fazer o serviço sujo, pesado, ou mais violento, mas também para assumir as responsabilidades no seu lugar dos seus verdeiros chefes e patrões. De tal modo que quando o povo pede a cabeça de alguém pede daquele que levou 10 por cento do que lhe foi pilhado e nunca do outro que levou 100 do que era seu. Esse ele nem sabe quem é, até porque suas sociedades (S/A) são muito mais anonimas que de black blocs.

Logo quando os bancos que detém em seus caixas as poupanças, as economias, a riqueza das pessoas é obrigado a sujar suas mãos, a mostrar sua cara contra as aspirações populares, o dano é ainda maior a sua imagem ( que do precisam ser criminosamente resgatados pelo Estado, aliás como o foram não porque são “grandes demais para falir”, mas porque são grandes o suficientes para fazer o que estão fazendo, impor a falência dos Estados, dos direitos sociais, e se preciso for financiar a quebra da democracia e volta das tiranias para manter suas fazendas de seres humanos funcionando.

O regaste da crise de 2008, só não foi um dos maiores roubos da história, porque o Estado enquanto mafia que socializa custos e prejuízo a força dos expropriados para distribuir lucros e dividendos aos privilégiados, já por excelência esse próprio crime continuado. Comunismo nos prejuízos. Capitalista nos lucros. Um roubo em todos os casos.

Porém se esse episódio revelava a quem o Estado realmente servia, e a que realmente servia. Agora intervenções como essa cada vez mais comuns do mercado servem para demostrar para que o sistema financeiro serve. E não é simplesmente o maximar os lucros. Eles não só podem até arcar com prejuizos financeiros diretos sobre seus patrimônios financiando a fundo perdido estados corruptos e autoritários. Como se preciso for podem até colocar até o principal de todo seu capital, o social, em risco, se necessário for para preservar as estruturas de poder que mantém pelo subsidio da monopólio da violência o seu outro monopólio sobre a produção de riquezas, na industria e comercio.

O dano é portanto gigantesco, porque ele expõe o que a divisão da política e economia, governos e mercados, tenda esconder e dissimular a mão invisível do mercado e o punho de ferro dos governos, são na verdade as mãos sujas de um mesmo corpo, apenas duas faces de um outro monstro, um leviatã de duas cabeças, uma falsa que renasce toda vez que é o cortada e que é dada se preciso for para sê-lo e a outra que se mantem por trás dela, escondida porque nesta reside todo o sistema nervoso dessa corpo artificial, ela se for cortada o monstro morre.

Eis a finalidade dos governos. Eis o perigo quando eles falham e a verdadeira cabeça do sistema tem que mostrar que é visível, tem corpo, interesses e também ataca. O sistema está exposto, e isso não o torna vulnerável porque está visível, isso o torna vulnerável porque quebra o mito metafisico da sua impersonalidade, da sua intangibilidade. Eis aí as forças de mercado, eis ai os donos do mercado e dos governos, onde não existe o menor equilíbrio de forças e as posses e contratos são subsidiados não por acordos de paz entre pessoas livres mas pela violência. Eis ai os governantes dos governos do mundo.

Mas não se engane com teorias do século passado. Não é o capital, não são os bancos que bancam os governos. Quem banca os bancos é a violência do Estado. E quem banca a violência do Estado são os bancos. É um simbiose onde todos os recursos onde de fato quem banca os dois parasitas são o povo pagando impostos que são distribuídos a eles, obrigados a depositar em suas contas, por uma razão simples e primitiva. Porque se todas as outras alternativas falharem não tenham a menor dúvidas a guerra e armas eles apelarão, porque essa é a primeira e ultima instancia desses sistemas sua natureza e essência: relações mantidas a força, da ameaça de agressão ou privação. Mas pode chamar pelo nome legalista da prerrogativa: o monopólio “legitimo” da violência.

E se há um monopólio que acabará um dia não só com todas as riquezas, mas com a própria humanidade é esse, o monopólio da violência sobre o bem comum e o destino dos povos e pessoas. Que o diga o estatopata criado como tubarão de mercado Donald Trump:

Afinal não se esqueça vivemos num mundo globalizado que é um sistema fechado onde a segunda lei da entropia não vale apenas para os seres e fenômenos ecológicos, mas também para as entidades e “fenômenos” político-econômicos:

Mas não confunda o caos com acaso. Fenômenos complexos e caóticos, mas que não tem nada de aleatórios, porque você como todo brasileiro e latino-americano sabe não sabe? caos como esses não se improvisa. É preciso muita gente “trabalhando” não mais tão silenciosamente para tamanha sincronicidade de males.

O problema institucional é com certeza um problema estrutural, de arquitetura do sistema. Um sistema desenhado para enganar, para levar os povos a crerem que os governos tem limites financeiros, militares, humanitários, quando não tem nenhum, senão a sua força perante a fraqueza da obediência e servilidade das populações. Uma fraude, mas não uma qualquer, a mais cara e perigosa da humanidade.

Contudo notem que o problema não é apenas estrutural, mas cultural. E o culto a força e o poder institucionalizados especialmente no Brasil é uma cultura de defesa da violência e corrupção, que simbioticamente se retroalimentam e acobertam reiteradamente, como o maior segredo de Estado.

É patético, mas verdadeiro. Quando, por exemplo, um “intelectual” defende seu político corrupto de estimação, ou vice-versa, ou até mesmo a própria corrupção do Estado como um mal menor, ele é claro que está passando o atestado da sua desonestidade e servilidade, mas isso não quer dizer que necessariamente o que ele diz não seja verdadeiro. Não que a corrupção seja um mal menor perante o bem que é o Estado. Não é isso: nem é um mal menor, nem o Estado o bem maior — aliás, esse tipo de raciocínio é falacioso em si, coisa pra trouxa e bandido. Mas a verdade é que o Estado e sua corrupção são inseparáveis. Ao menos esse Estado que conhecemos; que não pertence ao povo, mas sim aos verdadeiros donos de seus territórios como capital.

E quando o capital é dono de um Estado, ele não é desse ou daquele poder, mas dos 3 poderes. Com indivíduos comprados e vendidos em cada um deles operando de acordo com seus interesses.

(…)

Na verdade a metáfora mais correta é a do sequestro e regaste de refém no qual você paga o resgate mas o sequestrador nunca liberta o refém e sempre pede mais. Pedir para não libertar um país refém dessa política é pior ainda do que a morte, é pedir para deixar seus filhos na mão desses sequestradores ladrões e estupradores convictos porque o risco de tentar libertá-los é muito grande. Pedir para pararem de derrubar esses políticos bandidos é o mesmo que pedir para continuar refém deles por medo de ter que lutar por sua liberdade. E isso não é só um dilema nacional.

É impressionante como de todas as mentalidades servis,a estatizada ou mais precisamente conformada ao estadismo é a mais absolutista autoritária e pervertida mesmo quando, ou melhor especialmente quando jura ser o contrário: plural, liberal e virtuosa. Eles são o centro do mundo e a medida de tudo sempre; Quem não é corrupto como eles é taxado de moralista; quem é não aceita seu autoritarismo é então fascista(???), mas largar mão do poder o responder por seus atos, esse direito deles é maior que a vida de qualquer pessoa. O intelectual e governante estadista é assim: um relativista em relação aos direitos universais e um absolutista em relação aos (seus) privilégios jurídicos.

Direito fundamentais? Que eles se danem. Se for preciso para manter a “ordem e o progresso” todos os governos e países se tornam iguais e retornam aos seus Estados mais primitivos. -2017 o ano em que o mundo virou… resta saber o quê…

Como se vê há interesses que vão muito além do nacionalismo e separatismo, na independência da Catalunha. Seja a independência política ou econômica há interesses contrários poderosos não meramente a formação de novas nação ou separação dos velhos reinos, mas interesses contrários a toda verdadeira livre iniciativa e autodeterminação não só dos povos mas acima de tudo das pessoas. Porque a completa liberdade de autodeterminação e associação política financeira ou credo, é a morte não só das seus privilégios de poder, mas dos seus privilégios de posse. É a morte do subsidio que sustenta as suas corporações e seus ganhos. É a morte do mercantilização do estado e estatização dos mercados. É a morte desse conluio que aparta os povos e as pessoas das suas liberdades. As falsas democracias comandadas por bancos. E os falsos bancos subsidiados pelas intervenções e ocupações estatais.

Estou desde segunda-feira na Catalunha profunda, tendo percorrido aldeias e vilas nas montanhas e passado pelos grandes centros urbanos nos treinos do Rali da Catalunha. Fiquei surpreendido com a dimensão do movimento pela liberdade, que ultrapassa a importante questão da independência.

Há um sentimento de revolta com a ação das autoridades de Madrid, do Rei, das polícias nacionais, que o povo simples exterioriza com bandeiras, cartazes feitos á mão, marchas junto às principais vias e nos centros das aldeias no dia da greve geral.

Estava efetivamente tudo fechado. Os agricultores parados na beira das estradas com os tratores coloridos com as cores da Catalunha. Os camionistas em marcas lentas, que ninguém levou a mal. Há um profundo e preocupante sentido de revolta com a atitude do Governo central, que os jovens amplificam com um puro sentimento de utopia na criação de uma república cheia de oportunidades e sem qualquer limite de uma entidade que consideram estrangeira.

Os mais velhos, recordam as batalhas pela democracia, e as feridas de outras guerras, ainda tão próximas. Hoje, perto de Lleida, a primeira cidade a ser bombardeada indiscriminadamente pelos Franquistas e Alemães durante a guerra civil, parámos para comer alguma coisa.

Na tasquinha de beira de estrada um homem de olhos na televisão, enquanto a filha, atarefada, ia servindo os muitos que ali chegavam. Ele via as últimas de Barcelona e aplaudia. Meti conversa e o taberneiro pegou no telemóvel e mostrou-me os vídeos do último domingo, onde todo o povo cercou a escola para votar enfrentando a Guarda Civil. A filha entrou na conversa para lamentar o discurso do Rei e a justificar a necessidade de uma república onde todos sejam eleitos.

Democracia é a palavra mais ouvida. Eles estão num processo revolucionário, com cravos, cantam o nosso Grândola e confesso que me emociona ver uma movimentação popular com esta dimensão. Não sei onde isto vai dar, acho que nem estes com quem me cruzo nesta semana, mas fica bem claro que a Espanha centralista perdeu este povo que está na rua e não me parece que vá desistir.

A “revolução” está mesmo em todo o lado e é muito mais que aquilo que vemos em Barcelona. Este povo não quer mais esta Espanha e abriu todas as feridas e fantasmas que mantiveram o reino unido no medo de Franco e no sonho de muitas autonomias em democracia. Hoje a realidade é mesmo outra e aqui está em marcha um gigantesco movimento popular que não será fácil de travar. -”Revolução” na Catalunha

Esse é o tamanho do problema da Catalunha para os governos e de novo e a verdadeira revolução da sua população sem aspas.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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