QUEM GOVERNA OS GOVERNANTES?

Quis custodiet ipsos custodes? “Who watches the watchmen?” Quem Governa os Governantes?

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Sob a vigilância dos impérios, uma mesma pergunta sempre surge nas mentes livres do mundo: quem nos protege de nossos protetores?

Sejam os tiranos romanos, ou americanos, estejam eles ao norte, ou ao sul, a destruir repúblicas e democracias antigas ou modernas, a língua é universal: “Who watches the watchers?, ” “Quis custodiet ipsos custodes?”, “Quem Governa os Governantes?”

Mesmo sob a mira dos tiranos, há aqueles que têm a coragem não só para pensar livremente, mas se levantar e dizer o que pensam: que quando os líderes se levantam as pessoas são postas de joelhos, assim como — tão claro quanto o nascer do dia para a longa noite- também os líderes hão de cair quando as pessoas se levantarem.

E eis que a pergunta não é mais: quem irá nos salvar? A pergunta nem sequer é mais: quem irá nos salvar de nossos salvadores? A nova pergunta, (que deveria estar sendo feita agora mesmo) é: quem irá salvar os salvadores?

O antigo regime será então derrubado?

Derrubar o quê?

Como derrubar algo decaído, podre e obsoleto? Quem ridiculariza a Política são os políticos e quem torna ilegítimo o sistema é o regime. Que os mortos enterrem os mortos. Quero criar, não destruir.

Como já foi dito há muito tempo:

“…o mais espantoso é sabermos que nem sequer é preciso combater esse tirano, não é preciso nos defendermos dele. Ele será destruído no dia em que o país se recusar a servi-lo. Não é necessário tirar-lhe nada, basta que ninguém lhe dê coisa alguma. Não é preciso que o país faça coisa alguma em favor de si próprio, basta que não faça nada contra si próprio. São, pois, os povos que se deixam oprimir, que tudo fazem para serem esmagados, pois deixariam de ser no dia em que deixassem de servir.”

(Etienne de La Boétie, Discurso sobre a servidão voluntária)

Como assim? O que isso quer dizer? Não é preciso lutar? Não é preciso fazer nada?

Não, isso quer dizer que é preciso apenas fazer uma única coisa, tomar uma decisão, talvez a decisão mais difícil da vida de uma pessoa: emancipar-se; desalienar-se; libertar-se. Tornar-se plenamente responsável pelos seus atos. Retomar a vida pública que entregamos para os políticos profissionais. Tomar de volta a soberania que nunca devíamos ter renunciado em favor de reis e políticos; a soberania sobre a nossa vida pessoal e social. Deixar de ser meros eleitores para sermos, de novo, cidadãos.

Re-Civitas de uma nova Re-Pública que nasce de uma democracia direta repleta de conectividade. Plena de nexos compartilhados em rede. Re-significada em sentidos ligados a um fluxo livre, igual e distribuído. A nova Liberdade, Igualdade e Fraternidade da ciberdemocracia. A nova república das sociedades e cidades pós-governamentais.

Em outras palavras, exercer a liberdade, que é poder de decisão, e o direito, que é dever de decidir os caminhos da sociedade na sociedade, de pessoa para pessoa sem exclusão ou discriminação entre os pares. Democracia direta em rede.

Ou em uma única palavra: Governe-se.

Quem Vigia os vigilante? Ninguém.

O rei está nu! “Tudo no Estado, Nada contra o Estado, Nada fora do Estado”. Num mundo onde a pretensão física e metafisica de onisciência, a onipresença — os Big-Brothers e os panópticos — estão cada vez mais explícitos e o nexo fascista fica cada vez mais exposto.

O deus-estado está nu! E os cultos totalitários minguam por falta de idólatras dispostos a se sacrificar em seu holocausto. Pai, Pátria e Patrão. É o poder total e os todos poderosos a perder seus vigias e vigilantes.

Para quem?

Para o próximo, meu amigo.

É, a monocultura de gentes e idéias já não dá colheitas como d’antes. Porque os bichos da fazenda começaram a perceber que as cercas são imaginárias e as diferenças de espécies, raças, cor, classe, são a maior mentira da historia da humanidade.

O elefante de circo não sabe que é mais forte que a corrente que o prende porque foi aprisionado e adestrado desde criança. Mas o que acontece quanto ele descobre que as correntes que o prendem não o protegem? O que acontece quando o prisioneiro descobre que os muros e guardas que ele pensava ser sua proteção e protetores eram em verdade seu cárcere e carcereiros?

Não senhores, não é o fim de um regime, é o fim de um rito; é o fim de um estado de privação de corpos e mentes. É o fim de um culto ao absoluto.

E eis que o corpo artificial do monstro, da besta, contorce-se e desmancha quando a mão se nega a torturar, e os olhos se escandalizam, e se negam a espionar as vitimas torturadas. Quando o pensamento se nega a discriminar as pessoas, os povos e as liberdades. E eis que os escravos, amestrados e domesticados começam a se revoltar contra seus mestres e domus. Já não mais tão senhores supremos e poderosos.

Sem mestres e sem dominadores, exclamariam se quisessem pedir alguma coisa para seus governantes! Mas eles não dizem nada! Eles não pedem nada! Os verdadeiros revolucionários não pedem. Não dizem que querem: liberdade! Igualdade! Justiça!

Os novos revolucionários não pedem, fazem. Não opinam, comunicam.

Por quê?

Porque não querem a revolução, mas apenas aquilo que por direito é inalienavelmente deles!

“Afinal o que eles querem com estes protestos?” — se desesperam os governantes.

“Eles nem sabem o que querem, são uns vândalos, anarquistas!!!” — bradaram eles.

Coitados. Eles não entenderam nada. Ou muito pouco.

Dizem que Alexandre depois de conquistar o mundo inteiro foi ver Diógenes o filósofo que vivia como mendigo nas ruas e perguntou para Diógenes:

- Filósofo, peça o que quiser que eu lhe darei!

Alexandre que tinha parado naquele momento entre Diógenes e a luz do Sol lhe fazia sombra. Diógenes então apontando em direção a luz natural do astro respondeu:

- Não me tire o que não me pode me dar.

Dizem que Alexandre até entendeu a mensagem de Diógenes, porque ao ouvir depois suas tropas zombar do filósofo, disse “se não fosse Alexandre gostaria de ser Diógenes”.

Diria que não entendeu tão bem assim, pois quase posso ouvir o que o filósofo responderia: “se não fosse Diógenes, a última pessoa que gostaria de ser é Alexandre”.

14 de Julho de 2013

Artigo originalmente publicado no site governe-se.com em 2013. E está disponível no livro :

PS:

“Diógenes que tudo via com mais aguda vista que os outros homens viu que uma grande tropa de varas e ministros da justiça levava a enforcar uns ladrões e começou a bradar: lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos… Quantas vezes se viu em Roma a enforcar o ladrão por ter roubado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo, um cônsul, ou ditador por ter roubado uma província?… De Seronato disse com discreta contraposição Sidônio Apolinário: Nom cessat simul furta, vel punire, vel facere. Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer. Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo para roubar ele só! Declarando assim por palavras não minhas, senão de muito bons autores, quão honrados e autorizados sejam os ladrões de que falo, estes são os que disse, e digo levam consigo os reis ao inferno.”

Padre Antônio Vieira, O Sermão do Bom Ladrão, 1655

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