Porque não falei até agora da independência do Curdistão?

Poderia dizer porque nem sabia que ele existia, até uma semana atrás, mas estaria mentindo. Tenho um primo, que conhece as questões do Oriente Médio com muito mais profundidade em toda a suas diversidade e complexidade das etnias encerradas ou dispersadas a força nesse processo colonizatório bem mais recente que o nosso no modelo de Estados-Nações. Então se não falei da questão do Curdistão e me concentrei no Catalã, não é por não ser solidário pelo seu direito de autodeterminação, muito pelo contrário, sou até mais. Acho até que um povo sem terra, um povo disperso pelo mundo tratado como servo e escravo porque não tem pátria, sofre ainda mais do que aquele que é tratado como ainda como vassalo em sua própria terra porque não tem soberania. Mas não levantei a bandeira do Curdistão, por uma razão muito simples: eles não são brancos e europeus, e por não serem brancos e europeus se preciso for serão massacrados não só com as grandes potencias ditas civilizadas fazendo vista bem grossas, mas se preciso for jogando elas mesmos as bombas. Seja com imperialistas e terroristas de um lado, comunistas e ditadores do outro, ou vice-versa, o certo é que não só como vítima do fogo cruzado, mas também como alvo estará a população sendo exterminada enquanto eles lutam pelos territórios e recursos e se acusam uns aos outros pelos massacres- apenas para efeito de propaganda de guerra perante suas opiniões públicas, é claro.

Assim sendo a diferença entre a emancipação do Curdistão e da Catalunha é como a de uma passeata de universitários na Paulista e uma manifestação na favela de Paraisópoles. Chumbo ou borracha. Se ser partidario das estrátegias black-block, ou da não-violência, de esquerda, ou de direita fazem diferença podem fazer toda diferença no universo das borrachadas, nas periferias não tem essa coisa de branco para branco cheio de tons de cinza é tudo preto no branco, ou melhor branco no preto. Basta olhar agora mesmo para o Rio. Curdistão e Rocinha e Rocinha é Curdistão. Beneficio da inocencia é coisa para PT e PMDB,PSDB, para Temer, Lula e Aécio. Lá o vizinho de traficante, morador pobre trabalhador refém do trafico é bandido. E a política que está sendo criminalizada. Como se o crescimento do crime organizado não fosse produto do crescimento do crime organizado dentro do próprio estado. O mesmo vale para a política internacional. E pouco importa se nem todos são bandidos, terroristas, separatistas, traficantes ou insurgentes, o direito individual é por definição coisa de e para burguês, mandado policial ou militar ali é coletivo. Países periféricos e periférias urbanas tem mais em comum do que se possa ou queira. Nas periferias o inimigo é a localidade é o morador, quando não é o povo, a raça.

Logo me sinto tão a vontade em fazer ativismo de sofá, da segurança da minha internet em favor da independência do Curdistão quanto convocar os moradores para uma marcha para paz numa favela, fingindo como um hipócrita que no final elas não vão levar bala de todos os lados em nome das minhas teses e ideologias.

O problema portanto não é nem haver lideranças populistas usando as populações como moeda de troca em suas negociações e negociatas com os inimigos interno ou estrangeiro, por isso é de praxe. especialmente nos países periféricos. O problema é não saber se existe como na Catalunha um movimento social, ou se ele existir com consciência ou força suficiente para colocar um freio nas ambições e falta e eventual falta de caráter das suas lideranças. O problema é que não sei se no Curdistão as lideranças são desse tipo, ou qual a natureza social dessa mobilização. Porém sei ela é toneladas de dinamite mais tensa e perigosa. Não que que na Catalunha o risco de confronto e massacres não existam, existe mas é inegável que é mais remoto e pontual. Já no Oriente Médio, em qualquer lugar, o risco de massacres étnicos, especialmente depois da primavera dos povos árabes, não só é gigante, mas dado os interesses dos gigantes e estatopatas envolvidos é praticamente e infelizmente uma certeza.

Aliás não estamos nem falando de uma probabilidade futura,estamos já falando de uma certeza presente, porque as grandes potencias mundiais já escolheram o Oriente Médio como o teatro do operações da sua nova guerra fria guerra mundial. E especificamente quando falamos dessa região entre Iraque e Siria, ex-enclave do ISIS, com Irã e Turquia como vizinhos, com minorias curdas como grandes parcelas da sua população; quando falamos de independência, da formação de um novo Estado nesse território geopolítico estratégico militar econômica e etnicamente não podemos ser ingênuo e pensar que estamos a falar emancipação dos povos sem consequências maiores. E consequências humanitárias principalmente para esses povos. Se falar em emancipação na Espanha é garantia que a mascará reacionária do fascismo e totalitarismo vai cair como caiu no Brasil tanto no Estado como na sociedade com as manifestações burguesas de esquerda e direita de junho de 2013, falar em emancipação dos povos no Oriente Médio é garantia de guerras, extermínios em massas, patrocinados por ditaduras fantoches e “insurgentes” manipulados por potencias de rapina e especializadas no tráfico e crimes de guerra. Um crime organizado que não tem policia e ainda por cima contam com as torcida organizadas tanto da imprensa quanto das opiniões públicas dos seus times ideológicos ocidentais divididos de forma estupida mas extremamente a promoção e gerenciamento de conflitos: de um lado a direita o time azul capitalista do outro a esquerda o time vermelho socialista… e no meio deste circo romano de idiotas e idiocratas a morrer estão eles, o povo. Qual povo? E quem se importa… como diria Trump Curdistão, Belindia, foda-se é tudo “Nambia”.

Onde você vê um povo, estadistas, especialmente em tempos de guerra, veem apenas teatros de operações, lugares para bases militares mais ou menos distancia dos possíveis campos de batalha, recursos e posições estratégicas do inimigo. É por isso a ultima coisa que interessa aos EUA é um conflito na Coreia do Norte. E a primeira no Oriente Médio. Fora que são duas frentes, e mais um atoleiro e outra guerra perdida. O jogo já começou e agora está no posicionamento das tropas e bases nas antigas posições do ISIS. E é “só” dentro desse jogo de guerra que os curdos estão fazendo sua demanda por independência. Será que essa população tem noção do risco que estão correndo? E se soubessem, abandonariam suas pretensões? Ou apenas escolheriam outro momento menos perigoso?

O Oriente Médio não é um barril de pólvora, pronto para estourar, ele já estourou. O que tiranetes e potencias estão a fazer é brincar com fogo e com a vontade de ser livre dos povos. O Estadismo é como o gangsterismo. É como uma guerra. Você precisa pensar no governo como o policial pensa com o bandido. Como o soldado quando invade uma posição inimiga. Se você entra no território e não encontra nenhuma ou pouca resistência, se consegue as coisas são fácil demais, só pode significar uma coisa: ou tem alguma coisa errada com aquele lugar ou é uma armadilha.

Não me entendam mal, não estou tirando o meu da reta na independência do Curdistão, ou defendendo que se deva ceder ao terrorismo desde que ele institucionalizado pelo Estado. Um povo jamais pode renunciar sobre a liberdade perante o terrorismo seja ele de estado ou não. Mas não basta apenas resistir ou enfrentar, é preciso ter forças para isso. Não bastar marchar para morrer, é preciso marchar com a certeza de vencer. Não havendo está certeza, ou pior a certeza que haverá um banho de sangue é preciso recuar ou se estará justamente dando o material que o culto ao terror principalmente o institucionalizado precisa para se manter, gente em sacrifício. Em outras palavras, minha visão de emancipação e soberanismo popular está baseada começa e termina na primeira parte da arte da guerra. Se não o povo não tem forças o suficientes para fazê-la sem derramar sangue que recue e fome forças e ganhe para vencer a guerra sem precisar desembainhar a espada em nenhuma das batalhas. Porque quem não tem forças para conquistar sua liberdade sem violência, não terá forças para preservá-la sem apelar para ela. Mas essa visão é irrelevante na questão porque é literalmente de alguém praticamente alheio ao problema e as consequências, de tal modo que assim como é muito fácil fazer julgamentos pela internet do conforto do meu lar, longe do conflito também é nulo praticamente nula a minha noção da realidade alimentada tão somente pela propaganda das mídias alinhadas com os interesses de um ou outro bloco.

Seria obrigação das lideranças se elas existem, recuar ou deixar que as pessoas decidam quem quer permanecer na luta com transparência dos riscos e consequências. E sinceramente não sei em que medida a população curda, ou até mesmo as lideranças tem ideia da extensão do risco que correm quando lidam com estatopatas já concorrendo a criminosos da humanidade como Trump, Putin, Erdogan, Assad, Benjamin “Bibi”e sei lá mais quem do Irã. E isso dando o suspeitosíssimo beneficio da dúvida as próprias lideranças desses Estados que buscam independência. Assim como não sei se mesmo conhecendo as tradições libertárias,anarquistas e autogestionárias da Catalunha se sua população sabe até onde um governo é capaz de chegar. Mas não como já disse em textos anteriores, faz algum tempo, que quando a pressão aumenta nos centros do mundo, eles aprenderam que mais seguro é soltar as válvulas de escape nas periféricas. De tal modo que se a pressão aumentar muito na Espanha, é mais provável que conflitos explodam em outras localidades freando o processo de separação do que na própria. Salvo a total incompetência e perda da potencia dos estadistas espanhóis e europeus que estão no comando da reação a esse processo.

Assim acho que deveria e até gostaria de falar mais sobre a independência do Curdistão e seu direito a ter um território para exercer de fato seu direito a autodeterminação como povo. Mas não posso, porque não tenho infelizmente o conhecimento de causa que me dê uma perspectiva suficiente para ir além do alerta, para todo cuidado é pouco quando se fala em democracias tanto liberais quanto populares. Porque onde você lê soberania e liberdade pode colocar no mapa tropas e negócios. Com qual bloco é tudo o que está em questão. E repito infelizmente para as periferias do mundo, a lei da entropia na política e economia vai do centro para as margens, de modo que quando uma borboleta bate asas e escapa de sua gaiola em Brasilia, uma menina morre com uma bala perdida numa favela do Rio. Assim como fecha-se o cerco da investigação de um comandante-em-chefe de alguma potencia ocidental, explode uma bombardeio em algum lugar oriental.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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