Porque não existe um Estado Libertário?

Entendo esta pergunta em duas partes. Na primeira, por que não abandonamos os Estados autoritários? Na segunda, porque historicamente esses monopólios corporativos sobre o bem comum baseados na supremacia da violência têm dizimado as sociedades mais horizontalizadas? Contudo como uma questão única, esta pergunta nos remete ao questionamento fundamental do libertarismo tão bem expresso pelo mistério de La Boétie a “servidão voluntária”.

E se respondemos que há uma incompatibilidade de termos entre o Estado e Libertarismo, já estamos adentrando nos mecanismos da servidão voluntária que opera, sobretudo não pelo domínio das pessoas ou recursos, mas das pessoas como recursos, o que se opera pela preconcepção do significado dos termos, ou mais precisamente pela predeterminação dos signos. Aceite os termos do jogo do poder, os valores preconcebidos e você já perdeu.

Pelo amor de deus, quando vamos entender o jogo do poder: quem dita o código controla o programa. A subtração da liberdade de concepção pelo poder das preconcepções é a base daquilo que é imposto como realidade aparentemente intransponível e única. Não é por coisas, pela apropriação das coisas que os supremacistas (pessoas obcecadas pelo desejo obsessivo compulsivo de posse e poder, lutam e matam), mas pela apropriação dos seres que antes de ser coisificados e objetivados, são suprimidos da livre vontade pela subtração de qualquer tempo espaço ou possiblidade para significar a si e o mundo.

Não existem Estados Libertários e jamais existirão enquanto os termos, concepções e ideias, pertencerem aos ditadores das preconcepções. Não há tempos e espaços libertários, nem lugar na terra para a liberdade porque renunciamos de antemão a lutar pelo significado das coisas e palavras que tem valor para as pessoas depois delas serem corrompidas. Deus e o Estado são duas palavras que significam muito para muita gente, mas que abandonamos não porque foram corrompidas como a anarquia, mas sim para esconder a corrupção do poder. É o poder e não o significado, o ruído e não o código que precisa ser ignorado. Será que teremos que abandonar o libertarismo porque os randyianistas se dizem libertários?

O problema de abandonar uma linguagem que se comunica com o povo, é que corre-se o risco de abandonar o seu próprio povo, ou que é a mesma coisa terminar glossando sozinho. Já utilizo a língua e linguagens dos meus colonizadores e ancestrais, porque todos esses dedos para colocar meus valores e significados dentro da caixa de suas palavras? Aproprio-me delas para expressar meus próprios valores.

O estado libertário pode e deve existir como o espaço e tempo para a livre comunhão de paz. O território onde esta rede de proteção se estende é de fato o seu Estado, e o alcance de sua rede, suas fronteiras, abertas, mas fronteiras. Logo é ora de responder de vez a pergunta por que não temos um estado, república, seja lá o nome que se dê para este lugar que respeita a liberdade possa viver em paz ou no mínimo livre de quem quer impor sua vontade e valores? Porque poucos são os que têm consciência ou coragem para ir contra as ditaduras da significação, romper os campos de concentração do pensamento e saber. A chave do domínio do homem pelo homem como de qualquer conquista não é a força ou a segregação dos povos, classes e gêneros, mas a desintegração não apenas das pessoas, mas da própria pessoa humana apartado da sua fé pelo que deveria sustentá-la: sua razão reduzida a racionalizações materialistas.

Não existem, portanto estados libertários não apenas porque somos escravos, oprimidos explorados, mas porque estamos alienados de nossa livre vontade. E mesmo os mais conscientes do seu estado de opressão, dominação e exploração não se sentem livres o bastante da ditadura do ridículo e absurdo para proclamar sua independência dos arcabouços do pensamento materialista, racionalista e abraçar o libertarismo não de modo tímido e temeroso como um credo econômico ou politico, mas como sentimento e sentido de fé, sim fé e não apenas religiosa, mas integral política, econômica e religiosa.

O Estadismo prevalece sobre o Libertarismo porque ele é um culto, o culto ao absoluto, uma psicopatia, a idolatria ao poder se sustenta porque dita os valores e forma a inconsciência coletiva a egregora dos corpos artificiais de cujo estado é o monstro, as corporações tentáculos, todos formando uma legião a serviço da egregora maior da guerra e discórdia a qual jocosamente chamamos ora de ordem mundial, ora simplesmente realidade.

É na transcendência da ditadura do status quo (a qual convencionou-se chamar realidade pela fé na liberdade), não como um culto ao absoluto mas como o principio criador gerador de si próprio e de sua contradição (Deus) que a libertaremos não apenas os estados dos supremacistas e monopolistas e idolatras do poder, mas a consciência dos mortos em vida do corpo artificial e monstruoso da materialização do mal.

Antes de retomar os campos naturais encercados, precisamos cruzar as fronteiras do próprio pensamento e sair do lugar comum, entrar no campo da fé e saber de olhos abertos. Precisamos ter coragem para retomar a liberdade de consciência, o Estado não apenas um mecanismo de exploração econômica ou manutenção do poder, é a encarnação do Deus dos Todos Poderosos, a manifestação do culto dos idólatras do poder total. Até o materialismo tem sua anima matter. Não se deve subestimar os cultos idolatras, eles são a base da degeneração da humanidade e a verdadeira gênese destes apartheids dos povos e desintegração da humanidade. O Estado é só o corpo do Deus dos supremacistas, ou se preferir, a besta da cultura idolatra do monopólio da violência sobre o bem comum e a natureza.

Sem a desculturalização promovida por uma fé e consciência cosmopolita jamais haverá libertarismo. Sem a assunção do espírito libertário e da liberdade como principio transcendente e imanente criador da vida, o senhor dos Todos Poderosos e seus escravos ainda será o Deus dos povos da terra e suas crenças e fazendas serão nossos territórios.

Sem a consciência e coragem para assumir o Libertarismo como fé e a livre vontade como a própria manifestação do espirito libertário, jamais retomaremos o que é naturalmente nosso e ainda que inconscientemente o mais sagrado para as pessoas, Deus e o Estado. Ou se preferirem seus verdadeiros nomes, a Liberdade e a Natureza.

A reintegração da mente, ou a iluminação não é um processo agradável , mas doloroso pois não sair da caverna, não é só se levantar contra o espetáculo das sombras na parede, mas contra a si mesmo naquilo que se preconcebe não como seu mundo, mas como a sua identidade entitulada e egregada. O romper com os programas de condicionamento a desculturação é um processo de ruptura com a normalidade e a normalização, a quebra do condicionamento e programação mental que constituem nossas preconcepções não são uma revolta contra o mundo e suas injustiças, mas contra a projeção da nossa imagem e sua falta de sentido. A expulsão da possessão cultural para o desenvolvimento da consciência e fé libertária. Literalmente mais do que um processo racional, um estado de espirito libertário.

Eu que sou livre ou louco o bastante (a escolha dos rótulos é sua) não apenas para testemunhar minha fé na liberdade, mas para professa-la em atos com uma renda básica não-governamental, faço das minhas afirmações e objeções de consciência são expressões não apenas de um ideal mas da fé não submissa a nenhum campo de saber ou autoridade , fé que a Liberdade é a origem permanente transcendente e imanente criativa e criadora do conhecimento e da vida, principio e sentido da existência, a Liber de todas as coisas.

Libertar-se da preconcepções materialista e racionalismo para quebrar as separações artificias dos domínios da fé e ciência é condição fundamental para a manifestação da liberdade na atualidade É necessário transcender as fronteiras da realidade dada para constituir o novo mundo como o tempo e espaço livre para o estado de consciência libertário, o estado que antes de ser organização politica econômica é a ordem libertaria livre das preconcepções e desnaturação do poder. O espaço-tempo criado pela religação da livre vontade ao principio criador e criativo, gerador da autorganização e autosignificação como a diversidade conexa da existência, a Liberdade.

Porque a Liberdade é Sagrada. E a livre vontade meu estado de consciência sobre o qual fundamento o direito universal e inalienável a minha soberania e autodeterminação em comunhão de paz com todas as pessoas dotadas da mesma disposição e meu compromisso mutuo solidário e voluntario com o bem comum e suas repúblicas. O Libertarismo é, portanto minha fé. E nela a liberdade antes de ser estado material é o estado original do espirito.

Estados Libertários? Haverão naturalmente no mesmo território tantos quanto forem a disposição proativa de seus constituintes em preservar e proteger não apenas a si e os seus, mas o direito dos seus pares a coexistir sobre a mesma terra em paz contra o delírio psicótico coletivo da imposição de concepções e valores, o culto ao poder como expressão do real, como uno. Governantes, sempre existirão o que não existirá mais quando todos se considerem sujeitos do seu próprio mundo e não mais objeto dos outros é governados.

Da mesma forma que o culto a discriminação e segregação o são do sistema simbiótico da discórdia que sustenta o monopólio do bem comum pela violência. A Desculturalização é a chave da cosmopolitização A libertação dos povos e pessoas como humanidade só se concretizará quando a Liberdade for reconhecida como o principio constituinte não apenas dos estados de paz, mas da criação perene de toda existência, ou em única e simples palavra conhecida por todos: Deus.

11 de março de 2015 às 21:10

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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