Poluição: tragédia ou crime?

Da China ao Césio 137… o que mata mais? a poluição? a sociedade da imbecilização? ou o Estado omisso e criminoso?

Em memoria as que morreram e ainda aos muitos que morrerão ainda vão morrerão “apaixonados pelo Brilho da Morte”

China 2016

PEQUIM (Reuters) — Um motorista de Pequim liga para uma estação de rádio em pânico. A mistura de neblina e fumaça conhecida como smog está tão densa na cidade que ele acabou de atravessar cinco sinais vermelhos por não conseguir vê-los direito e quer saber o que fazer.

“Tudo bem, o smog está tão forte que ninguém veria sua placa”, diz o radialista para tranquilizá-lo, repetindo uma piada que circula nas redes sociais da China. Como grandes partes do nordeste chinês estão sofrendo com uma poluição do ar severa, os chineses estão recorrendo ao humor na internet para lidar com o fenômeno. (…)

Em outra piada, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, atira um relatório de inteligência com raiva na mesa querendo saber que tipo de sistema avançado de armas poderia fazer Pequim sumir da vigilância dos satélites.

Ele pergunta a uma série de super-heróis, entre eles Homem de Ferro, Batman e Hulk, o que fazer e quem pode ir até lá, mas todos abaixam a cabeça, envergonhados.

“Optimus Prime pode fazer isso! Ele não precisa respirar!”, diz Wolverine, recomendando o robô que se transforma em caminhão da franquia de filmes “Transformers”, que é imensamente popular na China.

Mas Optimus Prime responde tranquilamente: “Minha placa não pode circular hoje”, referindo-se ao rodízio de veículos. (…) http://noticias.r7.com/internacional/chineses-recorrem-a-humor-e-super-herois-para-encarar-a-poluicao-20122016

Brasil 1987

Goiânia (UOL) (“Na manhã de 13 de setembro de 1987, um domingo, os catadores de materiais recicláveis Kardec, Wagner e Roberto foram ao antigo Instituto Goiano de Radiologia, abandonado na região central de Goiânia, e levaram um aparelho radiológico de mais de 100 kg, de onde seriam retirados chumbo e outros elementos. Já no primeiro dia, depois de abrirem a cápsula, os dois começaram a apresentar sintomas da radiação, mas não procuraram ajuda.

Cinco dias depois, parte do equipamento foi levada para o ferro-velho de Devair Alves Ferreira, na rua 57, no antigo bairro Popular. Dentre as peças estava a cápsula do césio 137, já violada. Ele chegou a revender parte do objeto para outro ferro-velho. Encantado com o brilho azul, também levou o material para dentro de casa.

A mulher de Devair, Maria Gabriela Ferreira, e outros parentes também começaram a apresentar sintomas de contaminação. A mulher, com ajuda de um amigo, levou a cápsula de 22 kg em um ônibus do transporte coletivo para a Vigilância Sanitária. Foi então que, no dia 29 setembro, o caso veio a conhecimento público.

Ivo Alves Ferreira, irmão do catador, levou para sua casa uma porção do césio e mostrou para toda a família. A filha mais nova de Ivo, Leide das Neves Ferreira, de seis anos, virou o símbolo da tragédia. Segundo os relatos da época, a menina espalhou césio por todo o corpo, para brilhar no escuro, e ingeriu o pó juntamente com a comida. A mãe da menina, Lourdes das Neves Ferreira, se diz culpada pela morte da filha. “Se eu não tivesse ido tomar banho, talvez ela não tivesse colocado na boca.”

Leide chegou a ser levada para tratamento no Rio de Janeiro, mas não resistiu e morreu juntamente com outras três vítimas (Maria Gabriela e dois trabalhadores do ferro-velho). No enterro da criança e da tia, em Goiânia, muitos protestos. Moradores da cidade jogavam pedras no caixão e tentavam impedir que ela fosse enterrada em um cemitério local, com medo da contaminação. A cena é mostrada no premiado documentário de Luiz Eduardo Jorge sobre o acidente: “Césio 137, o brilho da morte”.

O nome é uma referência ao que dizia Devair, segundo relato dos familiares. “Eu me apaixonei pelo brilho da morte”. Ele morreu em 1994 de insuficiência hepática. O irmão, Ivo, em 2003. Em nenhuma das mortes foi comprovada relação com o contato com o césio 137. A Associação de Vítima do Césio 137 estima que mais de 6.000 pessoas foram atingidas pela radiação, e que pelo menos 60 já morreram em decorrência do acidente. Número refutado pelo poder público.” (…)

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/09/13/acidente-com-o-cesio-137-em-goiania-completa-25-anos-vitimas-relatam-preconceito-e-abandono.htm

Muita gente acha que por viver em bolhas de urbanidade está protegido, destes problemas. Comendo sua comida orgânica, fazendo sua academia e yôga e não comprando tralhas falsificadas made in “China”, mas só de marca de nike a ipads.

Ledo engano.

Não só não estão moral ou hipocritamente “protegidos”, como estão fisicamente vulneráveis, individual e coletivamente. Ecológica e orgânica e o pessoalmente não apenas sob o mesmo perigo ou ameaça, mas já sob o mesmo ataque. Ou você acha meu amor que a empresa que se serve não se importa em se servir da carne humana como escrava está se lixando para os efeitos tóxicos ou nocivos a saúde do planeta, ou diretamente dos seus consumidores? Acorda mané, você não é o burguês malvado e alienado que financia a escravidão bem longe dos seus olhos e coração, você é um otário, que paga e paga cara para consumir o lixo que está destruindo sua vida, sua saúde e seus meios vitais. E pagando não só com dinheiro, mas com tempo e pagação de pau.

Aliás a correlação entre exploração do trabalho produção de produtos danosos a saúde dos consumidores e ao meio ambiente não só é histórica como começa cada vez mais a ser bem documentada e estuda cientificamente.

A super exploração do trabalho e a super exploração dos recursos naturais, se amalgamam na abordagem histórico-concreta do agronegócio brasileiro dos anos 2000. Neste sentido, é conceito útil e necessário para caracterizar o padrão de extração do excedente econômico que se realiza no quadro de relações internacionais fortemente assimétricas. Já existe alguma evidência empírica de que o padrão de exploração dos recursos naturais e do trabalho humano na economia do agronegócio nesta primeira década do século XXI sugere uma dupla superexploração. No primeiro caso, alguma verificação se extrai da constatação, fortemente comprovada pelo IBAMA, da violação sistemática da norma ambiental-florestal exigida sobre limites da Área de Reserva Legal (florestal) e Área de Preservação Permanente (mata ciliar, de topos e encostas de morros). Estes, dentre outros ilícitos, tem sido recorrentemente verificados, a ponto de provocar sucessivos Decretos de prorrogação dos prazos de punição, previstos em Lei (Código Florestal). Por outro lado, ainda considerando a super exploração de recursos naturais, há dois outros vetores de degradação do meio ambiente que se associam ao estilo de expansão agropecuária das “commodities”, sobre as quais se dispõe de sólida evidência empírica: a) o aumento físico de queimadas e desmatamentos, 9 tecnicamente responsáveis pela emissão de dióxido de carbono na atmosfera e b) a intensificação do uso de agrotóxicos na última década, com forte evidência de vários tipos de contaminação.

Porém você não precisa, esperar os resultados dos exames e estudos para saber o peso e a gravidade que incidem sobre seus ombros. Você não precisa ir para o outro lado do mundo para conhecer as piores faces desse crimes ambientais e desumanos. Você literalmente a experimenta. Você respira o problema. Você é a cobaia.

Sim o veneno que lixo que você come, bebe, e respira, que mata seu corpo e cada coisa viva que você egoisticamente precisa para sobreviver é financiado com a exploração do trabalho de gente que você não sabe quem é, não quer saber, e muitas vezes tem raiva de quem vem te contar quem é naquele belo jantar em família.

Sim você financia voluntária ou involuntariamente não financia só o trabalho escravo. Você sustenta o sistema escravagista que torna o custo da destruição da sua vida barato, e o valor da sua existência menor que a dos produtos que você consome. Você paga para ser exterminado como uma barata. Ou melhor para exterminar a si mesmo como uma grande boca devorando suas próprias entranhas com a cabeça enfiada até o talo no seu próprio rabo.

Vamos repetir então a questão sobre a poluição na China e Césio 137:

O que mata mais? a poluição ou a sociedade da imbecilização?

O Estado omisso e criminoso leniente com a escravidão e holocausto lento e doloroso da sua própria população? Ou as corporações que traficam alienação escravidão e morte nas duas pontas do seu “negócio”?

Resposta correta: Todas as alternativas anteriores. Juntas e reiteradas.

Porque uma retroalimenta a outra sustentando um mesmo sistema que vende o problema e a sua falta de solução. Mercado e o governos são polos de um mesmo poder, não passam de faces de uma mesma moeda: o poder político-econômico. Uma moeda que tem o brilho invisível e silencioso… da morte.

Quem será que é o ignorante? Quem será que está brincando hipnotizado com o brilho intoxicante da morte? quem não tem outros meios para sobreviver senão a escravidão assalariada ou sobreviver do lixo e desejos? Ou quem paga e caríssimo para ser extinto e exterminado em grande estilo? No ultimo grito da moda?

A ignorância mata. A difusão da desinformação mata mais ainda. Mas a sociedade da imbecilização da espetaculização da ignorância é ainda mais assassina. A é a face mais tóxica do holocausto estatal é a corporativa, a pseudo privada, a corporativa, porque como assim como a radiação e ao contrário das guerras ela mata silenciosamente.

Goiânia 25 anos depois do Césio 137…

“Para nós, o acidente continua acontecendo. Tem gente que tem a capacidade de perguntar se nós brilhamos à noite.” (…)

Muitas pessoas ainda lutam para receber pensão em decorrência do acidente radioativo, mas apenas 468 recebem um salário mínimo (R$ 622) do Estado. Destas, 249 acumulam pensão da União. O Estado de Goiás foi condenado a pagar pensão vitalícia a todas as vítimas em 1996, mas algumas ainda não recebem o benefício. (…)

O Ministério Público de Goiás passou a atuar com maior força a partir de 2002, quando foram reconhecidas novas vítimas do acidente de 1987. De acordo com o promotor Marcus Antônio Ferreira Alves, policiais militares, bombeiros e outros servidores públicos que trabalharam no socorro e limpeza do local não existiam como vítimas. “Alguém tinha de fazer o trabalho, e foram essas pessoas.”

Só que, durante 15 anos, o grupo de aproximadamente 900 pessoas permaneceu ignorado pelo poder público. Alguns dos policiais que desenvolveram doenças posteriores ao incidente eram chamados de loucos, pois a maioria das pessoas não acreditava que, depois de todo esse tempo, pudessem aparecer doenças relativas à exposição radioativa, relata o promotor.

Alves disse à reportagem do UOL que uma senhora que era gari ganhava um “banho de vinagre no final do dia” e era dispensada. A mulher morreu, pouco antes de receber a pensão à qual tinha direito, com 25 tumores no cérebro. Casos como o desta trabalhadora confirmaram o que o Ministério da Saúde já suspeitava. Foi então que o Ministério da Saúde expediu uma Nota Técnica relatando o aumento de casos de câncer em Goiânia, determinando uma série de medidas a serem tomadas, e inclusão desses servidores nos programas de tratamento aos acidentados do césio 137.

continua…

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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