Pobre Santo Padre… não sabe que o amor é verbo intransitivo…

E que a dádiva não tem recompensa, ela é a recompensa.

Dar gratuitamente, por amor ao Senhor, sem esperar nada em troca. Isto é o sinal certo de ter encontrado Jesus”, finalizou o Papa. -Em missa da Epifania, papa Francisco critica ‘culto ao poder’

Dar sem esperar nada em troca… ou por definição, simplesmente dar gratuitamente.

Taí um assunto que não posso negar que me interessa. Até porque num mundo onde o normal é acreditar que “nada é de graça”, dar de graça, faz de você um maluco. Evidente que não um maluco perigoso (dependendo para quem) mas ainda sim, em geral, um louco. E como dar de graça sem esperar nada em troca é a essência ética do trabalho que inventei para a mim mesmo, ou se preferir da loucura que pratico religiosamente, como se fosse o hábito de um monge franciscano, e mesmo não sendo nenhum santinho, tenho uma ou outra coisa a dizer para esse outro Francisco com alguma experiência de causa, tanto sobre essa prática quanto esse tipo de pregação. Porque nem só de pão vive o homem, mas sem isso ele sequer sobrevive.

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Vamos começar pela pregação.

Ou uma coisa ou outra: Ou se dá sem esperar nada em troca; ou se dá esperando encontrar alguma coisa. Quem espera ou busca algo não dá gratuitamente. O fato de esperar encontrar um outro tipo de recompensa imaterial por esse ato, seja encontrar o salvador, a salvação, ou redenção, não torna o ato gratuito, não faz da ação um ato de graça ou dádiva. Pelo contrário, faz do ato justamente o oposto, a busca por uma dádiva- no caso encontrar Jesus (e tudo que ele representa). É dar “de graça” esperando em troca uma graça não mais de quem a recebeu, mas de um terceiro. E isto não é “dar sem esperar nada em troca”, não é dar de graça, nem a graça, que não está no doar mas sim no que se espera receber… em troca.

Os desprovidos de qualquer sentimento de gratidão tem lá sua razão quando dizem que nada é de graça nesse mundo, porque nada é de fato de graça senão a pura gratidão. Uma gratidão que não é por isso e por aquilo, por essa ou esta ou aquela graça ou dádiva recebida, mas pura e simplesmente gratidão por nada, ou mais precisamente pelo nada que é tudo, simplesmente existir. Para dar de graça é preciso ter um sentimento de gratidão absolutamente gratuito pela graça em si, de simplesmente existir não importa o quão miserável, desgraçado você é ou miserável e desgraçada é a sua existência. Quem dá sem esperar de verdade nada em troca, não encontra nada, porque não carece nem busca nada com isso. Quem dá sem esperar nada em troca não precisa de nenhuma graça, pois já encontrou a graça na dádiva. O ato para quem experimenta esse estado de espírito já é recompensador em si mesmo, não carece de promessa nem recompensa pois constitui a própria satisfação.

Dar de graça é portanto um produto do estado de espírito de quem está em estado de graça, efêmero ou não, e não de quem espera ou busca. Doar e doar-se é a consequência natural de estado de espirito de quem não está preocupado com o que tem ou que vai ganhar, mas o estado de espirito oposto, o estado de quem é tão grato pelo que tem, não importa o quê ou quanto, que deseja compartilhar essa graça com quem quer que seja.

De modo que o paradoxo daquele que mais busca a graça ou fim da sua própria desgraça mais se afasta da primeira e decai no desespero e alienação da segunda, enquanto aquele que se preocupa ou padece verdadeiramente sem segundas ou terceiras intenções com a desgraça e sofrimento alheio, mais se encontra na paz deste estado literalmente de graça. E nem mesmo o entendimento desse processo substitui ou emula o estado de espírito, porque enquanto entendimento novamente o ato se torna propositado pela consecução do objetivo, e não a manifestação do princípio. Não damos gratuitamente, mas esperando que agora a lógica da causa e consequência produza a recompensa que esperamos por nossos atos.

Quem dá gratuitamente não dá só de graça, dá por graça. Não doa por amor, credo, paixão, interesse, ou razão. O sol brilha sobre justos e injusto não por credo ou amor, ele simplesmente brilha, porque brilhar é a sua natureza, é por isso que a sua luz é uma dadiva ela não é só de graça, ele simplesmente é, e não precisa de um porque nem de um para quê, porque assim como os lírios do campo sua existência já basta por que ela não é gratuita ela é a graça.

Quem dá de fato gratuitamente, não dá de graça, dá por graça. Doa por graça não pela graça. Doa não por amor ao Senhor, nem por piedade dos seus servos e escravos. Mas por vontade de compartir essa dádiva que é ter um dia existido.

Quem já não consegue estender a mão ao outro pura simplesmente porque que pode e o outro carece, não consegue fazer absoluta nada sem comando, paixão credo ou uma razão em algum lugar da vida perdeu ou se esqueceu da sua própria força. Quem não consegue mover um dedo ou sequer um centavo sem precisar de culpa, ou desculpa, prêmio ou punição nesta ou outra vida é mais carente e faminto do aquele que padece cercado pelos fartos e sua fartura. Busca desesperantemente um por receber ou alcançar uma graça que nenhum ser, entidade ou fenômeno neste ou outro universo pode dar a ele, mas somente ele pode dar a si mesmo como dádiva ao mundo.

O pássaro voa, as árvores crescem, o rio corre, a terra gira, e os homens quando homem, simplesmente compartilham sua dádiva de serem humanos; como as estrelas brilham, porque esse é o seu dom a sua vocação, ser o que são: humanos. Não se precisa de medo nem esperança, não se precisa de porrete nem cenoura, credo, razão ou paixão para ser o que se é. Porque antes de ser uma ideia ele é um fenômeno, e ainda que ninguém seja capaz de o inteligir compreender, ainda que morra e desapareça da existência completamente ignorado nada apaga o que ele é, nem mesmo o tempo, porque o não existiu nem que seja por um mero instante não é feito nem desfeito pelo tempo e espaço ele faz e modifica o seu tempo e o espaço.

Não somos estrelas somos mais. Elas tem uma força própria que se assemelha a nossa vontade, nós temos uma força própria capaz de sobrepujar a própria vontade, a consciência que como força, é a força de vontade sobre as próprias vontades. Não temos só a capacidade de ser de acordo com toda a nossa potência onde e quando não somos amputados, temos a capacidade de ser de acordo com nossa consciência. Seres poderosos ou mesmo todo poderosos fazem tudo o que querem e são governados por sua vontade ou por quem quer que mais ciente da natureza das suas vontades que eles mesmos os governa instigando ou mitigando suas vontades e forças e meios. Seres conscientes não são governados pelas suas vontades, paixões, credos, razões, as governam pela força de vontade sobre as vontades: a consciência. Eles não governam, não vencem nem convencem outros, eles governam a si mesmos, são simplesmente livres e não todo poderosos.

Quem cultua o poder e os todos poderosos confunde liberdade com poder e não é só um escravo das suas próprias taras, manias, vontades, desejos e paixões, credos e razões, mas um fantoche de quem sabendo despertá-las ou adormecê-las, e controlando a nossa ilusão de liberdade e autodeterminação nos governam sem governar a si mesmos.

Quem cultua seres que onipotentes ou mais precisamente a representação da onipotência como ser, cultua seus próprios demônios como se fossem divindades, e quem acredita em seres que são ao mesmo tempo onipotentes e oniscientes simplesmente acredita não em algo que não fundamento sequer como ser abstrato que dirá como representação de qualquer fenômeno material ou transcendental (a cognição da materialidade). Ou se tem poder sem limites ou a consciência é de fato freio ao poderes. Porque um poder que não se pode usar não é potencia, porque de fato não se possui. Da mesma forma que a consciência que não é capaz de controlar um poder não é a ciência perfeita desse poder. De modo que ou se tem a consciência que controla a potencia delimitando sua prepotência , ou uma potencia é de fato onipotente que não pode ser freada por nada.

Tomar consciência é submeter a sua pretensão de onipotência não só como poder, mas como o próprio saber a governo do saber sobre o saber, que não o conhecimento daquilo que se pode possui ou sabe mas a sabedoria do reconhecimento daquilo que não se pode, não se possui e não se sabe. De modo que se houvesse uma entidade criadora onisciente ela não seria onipotente, mas sim oniempoderadora. Não seria um interventor nem julgador, mas criador, aquele que dá e prove a vida sem julgar nem intervir. Na qualidade de um fenômeno e não de concepção a onisciência não seria portanto um ser todo poderoso ou onipotente, mas a própria liberdade geradora dos seres e não seres independente de sua potencias e poderes.

Dar por graça não é só uma questão de dar sem esperar nada em troca, é dar sem ter ou esperar ter absolutamente nada para dar, nem mesmo amor. É dar sem ter nada, nem esperar nada. A obra não importa qual se torna de fato uma obra não existe em função dos outros, nem muito menos em função de si ela simplesmente existe pela graça do que ela é, a criação de algo.

O que não tira o mérito de quem dá a quem carece esperando que outro todo-poderoso no céu ou na terra o recompense com amor ou salvação eterna. Mas não se pode dizer que o faz nem por paixão nem compaixão ao outro ou a Cristo e sua paixão. Porque se tivessem piedade dele ou do seu sacrifício pelos outros deixariam ao menos um desgraçado instante ele em paz; e se tivesse então compaixão não montariam na cruz, mas sim ajudaria a carregá-la nem que fosse por misero instante das suas vidas. Esqueceriam um momento seus dores e prazeres, graças e desgraças, pariam de pedir por tesouros no céu ou na terra e se preocuparam em por um fim um pouco na desgraça e miséria material e imaterial.

Curioso esse amor ao próximo e ao Cristo destituído de compaixão não só pelo outro, mas até mesmo por seu messias crucificado. Que amor é esse que não desperta a compaixão nem mesmo olhando para quem se ama carregando e morrendo numa cruz? Que amor é esse que não se compadece nem se despe da hipocrisia, nem mesmo diante do que ele crê ser a própria encarnação do amor divino morrendo diante dos seus olhos? Mas que estou dizendo? Como alguém vai se esquecer suas chagas e se apiedar de um ídolo pregado num pedaço de madeira quando sequer consegue mais ligar para quem morre lentamente por carestia até nas calçada das suas próprias cidades? E não é carestia de palavras de amor, é de comida mesmo; as vezes de água limpa, e até por falta de ar minimamente respirável.

Agora pregação e filosobol fora, vamos ao real e prática.

Dar? Dar antes de ser porque, por quem ou para quem, é sobretudo o quê. Porque quem dá o que não lhe pertence de graça ou cobrando, não dá, tira de um para pegar para si e dar ou cobrar de outro. É um ladrão. E se pior toma o que não lhe pertence para dar ou cobrar de quem ele mesmo roubou não só um ladrão, mas um sequestrador e escravagista.

Dar gratuitamente é uma dádiva. Não tomar o que não nos pertence e compartilhar o que não pertence exclusivamente só a nós não é dar coisa nenhuma, é não roubar o que não nos pertence, seja porque pertence também aos outros ou não pertence a ninguém senão como obrigação de não tomar e destruir.

Assim se dar por amor ao Senhor sem pedir nada em troca é sinal de que se encontrou Jesus, não se assenhorar da vida e dos meios vitais dos outros é sinal de que tomou vergonha na cara e se aprendeu a viver e viverem em paz pagando em dizimo sobre o que possuímos mas que não é exclusivamente nosso. Aí cumprido nosso dever mínimo de paz e respeito a vida e liberdade poderemos falar de graça, amor e doação e distribuição sobre o que de fato nos pertence para dar e não tomar para distribuir ou se fartar até explodir em acumulação.

No dia que os representantes dos todos poderosos no céu e na terra pararem de exigir oferendas e sacrifícios, pararem de exigir impostos e dízimos sobre o que não lhes pertence em favor do que eles não representam e devolverem o que pilharam e passarem a pagar dízimo sobre o que possuem mas que não é exclusivamente seu; no dia em que os fieis pararem de dar as igrejas esperando por graças, e os pastores pararem de receber no lugar dos que carecem, no dia que as pessoas pessoas passarem a compartilhar o que não lhes pertence com exclusividade, e distribuir desigualmente o que não pertence a ninguém nem igualmente, neste dia poderemos falar em dar gratuitamente, poderemos em dar aquilo que legitimamente pertence a uma pessoa para dar ou não dar seja de graça ou cobrando.

No dia que pararem de foder crianças e infâncias e pagarem junto com os Estados pelos crimes que cometem e subsidiam um ao outro, pagarem tudo o que devem as pessoas que sequer nascerão e vão morrer pelos seus crimes e pecados que confessionários e anistias não libertam, perdoam nem muito menos nem reparam, aí sim vamos falar em dar de graça sem pedir nada em troca. Porque por enquanto o que temos é gente poderosa tomando e impondo a força de quem não nada para dar senão a vida.

Sim, neste dia vamos falar de sinais… Sinais de transformação e não de demagogia, idolatria e imbecilização. Porque enquanto bostas como eu tiverem mais moral para falar de dar de graça de quem cobra dizimo para intermediar as graças que não lhe pertencem, o único sinal que ainda temos é o vermelho, o sinal de que estamos e continuamos bem fodidos e mal pagos- e foder ao contrário do amor, é verbo com os sujeitos e objetos muito bem definidos ainda que os primeiros estejam (ainda) ocultos.

Enfim…

Pobre santo padre não sabe que a graça que ele prega não é mérito nem dádiva de quem ama, mas as vezes dever de humanidade até dos que odeiam, e qualidade até dos piores seres humanos que simplesmente não julgam nem sentenciam, apenas fazem porque podem fazer e alguém pede e precisa.

Pobre santo padre que não sabe que o amor é verbo intransitivo, e o amor que ele prega e o seu banco explora, é o próprio Verbo, que quer seja no gênese ou na efemeridade não está no sujeito, nem nos seus objetos mas no ato puro.

Pobre do homem que vive uma vida inteira pastoreando os outros homens sem entender o que até o poeta, o vagabundo, o marginal os loucos e os amantes sabem: Amar não é só verbo intransitivo. Amar é o Verbo. E o Verbo é sempre intransitivo no princípio e na efemeridade.

Amar… Verbo Intransitivo…

Se os olhares se cruzarem e neste momento,

houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta:

pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.

Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa …

Se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça:

Deus te mandou um presente divino — o amor.

Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e em troca

receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem

mais que mil palavras, entregue-se: vocês foram feitos um para o outro …

Se você conseguir, em pensamento,

sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado …

Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira e a

outra pessoa sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura,

que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida …

Se você achar a pessoa maravilhosamente linda, mesmo estando ela de pijamas velhos,

chinelos de dedo e cabelos emaranhados …

Se você não consegue trabalhar direito o dia todo,

ansioso pelo encontro que está marcado para a noite …

Se você não consegue imaginar, de maneira nenhuma,

um futuro sem a pessoa ao seu lado …

É o amor que chegou na sua vida. É uma dádiva.

Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e,

mesmo assim tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela …

Se você preferir morrer, antes de ver a outra partindo …

É o amor que chegou na sua vida !

Por isso, preste atenção nos sinais — não deixe que as loucuras do dia-a-dia

o deixem cego para a melhor coisa da vida:

muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida,

mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro.

Ou, às vezes encontram e, por não prestarem atenção nesses sinais,

deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente.

Preste atenção nos sinais e não deixe que as loucuras do dia-a-dia

o deixem cego para a melhor coisa da vida:

O amor …- Carlos Drummond de Andrade

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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