Parlamentarismo no Brasil ou como dividir de vez um Pais: “O dia em que a Espanha perdeu a Catalunha”

Uma pista de porque os nossos políticos estão tão enamorados pelo Parlamentarismo e como mais esse tiro pode sair pela culatra

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Para se ter uma ideia da representatividade desse resultado, em uma eleição marcada por violenta repressão do Estado Espanhol, basta dar uma olhada com que percentuais a direita conservadores do PP (fundado por ex-integrantes da ditadura de Franco) e Rajoy precisaram para se manterem no poder.

Resumo da lambança autoritária: proporcionalmente na Catalunha, mais pessoas votaram pela independência debaixo de porrada, do que em toda Espanha em favor de serem governadas por “conservador” a lá Rajoy. E nem sequer isso é o mais significativo”! Mas sim, justamente a força da vontade e disposição de mais de 2 milhões de pessoas de todas as idades que enfrentaram as forças violentas por um mesmo ideal!!! A diferença da representatividade e força dessas pessoas em relação digamos a um pais inteiro com mais de 200 milhões de alienados e conformados, como bem sabemos, é gigantesca.

Fora isso, olhando para essa matemática oligárquica, agora você já pode ter uma bela ideia porque os nossos parasitas políticos nascidos e criados durante a nossa ditadura querem tanto o parlamentarismo no Brasil.

Ou seja, por aqui, basicamente tudo se resume em salvar e reformar o antigo regime nas novas roupagens de um “novo” tão ou mais cheio de podres que o velho.

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O parlamentarismo, sistema rejeitado pela população em plebiscitos duas vezes, entra na pauta da reforma política, até então focada em mudar apenas o processo eleitoral. Na opinião de especialistas, o modelo é funcional e até poderia ser melhor, mas mudá-lo em um momento de tanta instabilidade e descrença política seria antidemocrático e oportunista.-Partidos retomam debate sobre o parlamentarismo no Brasil

Mas vamos a matéria que interessa:

“O dia em que a Espanha perdeu a Catalunha” por Sofia Lorena

O primeiro-ministro espanhol parece não ter-se dado conta, mas este domingo a Catalunha ficou mais longe do que nunca da Espanha pós-guerra civil e pós-franquismo. “Fizemos o que tínhamos de fazer e cumprimos a nossa obrigação, actuando dentro da lei e sempre dentro da lei”, afirmou, ao início da noite. Da boca de Mariano Rajoy não saiu uma palavra sobre os 847 feridos, alguns em estado grave, nem dele se ouviu a expressão carga policial.

Já se sabia que a distância política entre Barcelona e Madrid é cada vez maior do que a geográfica. Mas este domingo bastava a Rajoy ter saído à rua, talvez bastasse ir à janela, e teria ouvido os manifestantes que se juntaram nas Portas do Sol de Madrid para condenar a repressão com que a Polícia Nacional e Guarda Civil desalojaram assembleias de voto por toda a Catalunha. “Madrid está com o povo catalão”, cantou-se.

As imagens, essas já nunca vão desaparecer. Foram vistas em Espanha e no resto do mundo. Terão de passar anos até começarem a ficar menos nítidas nas mentes de muitos catalães. Agentes a lançarem civis de diferentes idades escadas abaixo, a arrastarem gente pelos cabelos, a deixarem senhoras de cabelo branco de rosto ensanguentado, a espancarem jovens e menos jovens ou a arrancar urnas de voto da mão de voluntários e eleitores.

Marta Torrecilla fazia parte de uma mesa de voto na escola Pau Claris, de Barcelona. Há um vídeo onde se vê a ser arrastada pelo chão e depois por umas escadas, às mãos de membros da Polícia Nacional. “Só estava a tentar defender as pessoas mais velhas”, explicou depois, ouvida por diferentes jornais e rádios. “Nas escadas mexeram-me, com a roupa levantada, e depois partiram-me todos os dedos da mão, um a um. É muita maldade.”

“Viste os vídeos da violência? Eu já não consigo ver mais. No fim, entraram em poucas escolas, mas onde foram portaram-se como bárbaros.” Albert acordou domingo já muito nervoso, mal dormiu na verdade. “Fui eu que trouxe as urnas”, conta, sentado na sala de aulas que foi assembleia de volta e quando a contagem está mesmo a terminar na escola Joan Miró, no bairro residencial de Eixample.

“Dei voltas e voltas antes de entrar. Tinha as urnas em casa, mas só quiseram entregá-las de véspera. Nem imaginas os nervos com que andada. Nem nos deixavam levar os telemóveis para as reuniões”, descreve. Albert aguentou até aqui mas não pode mais. Baixa a cabeça e começa a chorar, é o momento de descompressão que adiou até poder.

“Rajoy faz o que quer”

Albert recompõe-se mas não consegue esquecer as imagens de catalães espancados nem as palavras do primeiro-ministro. “Se fosse outro, isto mudaria tudo. É o Rajoy, ele faz o que quer, não ouve ninguém.”

Horas antes, outro catalão que votou numa assembleia ali ao lado, no Liceu Ernest Lluch (o socialista catalão assassinado pela ETA em 2000), olhava incrédulo para o ecrã do seu telemóvel, vídeo após vídeo, imagens de outras escolas, algumas tão perto, e um cenário assustadoramente diferente. “Já viste isto?”, pergunta Carles, sentado num café. “Depois disto, como é que esperam que continuemos no país desta polícia, no país que dá estas ordens?”.

Carles tem outras dúvidas. Por exemplo: “Eles não diziam que isto não valia nada, que era uma brincadeira sem valor? Então, para quê tudo isso?”, pergunta. Depois de uns momentos em silêncio, parece ter chegado a algum tipo de conclusão. “Assim, foram eles que tornaram o nosso referendo importante, não é?”(…)- Catalunha. O dia em que Espanha perdeu a Catalunha

Quem é a jornalista portuguesa Sofia Lorena?

Uma noite, em Janeiro de 1991, a minha mãe apanhou-me a escrever Saddam Hussein numa folha de papel, olhos colados ao ecrã da televisão. Estranhou. Eu estava na preparatória e colaborava no Sinal Mais. Pareceu-me importante saber escrever o nome do homem que estava em todas as notícias. Imagino que estivesse fascinada com a importância que era dada a algo que me parecia estar a acontecer noutro mundo. Aos poucos, percebi que o mundo é só um e que uma decisão tomada em Washington pode mudar para sempre a vida de alguém em Bagdad. Em 2003, estava no Iraque quando Saddam foi capturado. Em 2010, regressei para uma série de reportagens (Prémio Gazeta). Vi guerras e tive a imensa sorte de ver revoluções. Nunca mais parei de fazer do outro mundo o meu. E até aprendi a escrever Saddam em árabe.- Sofia Lorena

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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