Para não dizer que não falei de Futebol

Afonsinho, Nando e PC Caju: A história do primeiro jogador alforriado do Brasil, do craque perseguido por duas ditaduras, e do jogador black power brasileiro.

“Homem livre em futebol, homem livre eu só conheço um: Afonsinho. Este sim pode dizer com suas palavras que deu o grito de independência ou morte.” -Pelé

Dizem que futebol e política não se misturam, mas todo que mundo que sabe alguma coisa, sabe que eles nasceram institucionalmente como irmãos siameses. Faces da mesma sociedade do espetáculo alienação e escravidão disfarçada. Instrumento de propaganda e entretenimento de regimes totalitários das ditaduras fascistas as “ditabrandas” tupiniquins. Mas não é sobre ditadores, cartolas e corruptos que quero falar. Quero falar da da história de vida de 3 jogadores que revolucionariam o Futebol e a vida dos trabalhadores que usam chuteiras para muito além dos campos. Afonsinho e Nando, e PC Caju. Ilustres “desconhecidos”, mas como sempre, não por acaso:

Afonsinho foi o primeiro jogador de futebol a ser proprietário do seu próprio direito de trabalho no Brasil. O primeiro jogador a conseguir na “justiça” desportiva” o “passe livre”, a alforria desse contrato disfarçado de semi-escravidão. E isso em 1971, em plena ditadura Médici. E antes mesmo dessa prática criminosa ser legalizada como “lei do passe” em 1976.

Nando, irmão do Zico, perseguido não foi o único jogador perseguido pela ditadura militar brasileira, mas foi o único esportista a ser perseguida a ser perseguido também pela ditadura portuguesa de Salazar, e também o o único ser reconhecido como perseguido no Brasil e receber a anistia em 2010.

E Paulo Cézar Caju, que em 2016 recebeu a Ordem Nacional da Legião de Honrada França. Por seus feitos no futebol e postura politizada a afirmativa como negro contra o racismo. O terceiro brasileiro a recebê-la, depois de Santos Dumond e Sebastião Salgado e o único negro.

Aliás eu não eles, em reprodução de entrevistas e artigos de quem fez questão de registrar a sua (e nossa) história.

Afonso Celso Garcia Reis — Afonsinho

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“A Manchete diz tudo”

“Homem livre em futebol, homem livre eu só conheço um: Afonsinho. Este sim pode dizer com suas palavras que deu o grito de independência ou morte.” A frase, dita em 1972, foi um desabafo de ninguém menos que Pelé. À época, o Rei queria assinar seu último contrato com o Santos, por um período de dois anos, e encerrar sua carreira. Os dirigentes do Santos tentaram impedi-lo e tinham a seu favor um grande vácuo de legislação específica que imperava nas relações de trabalho no futebol. A própria Lei do Passe (6.354/76), que é posterior a este período, instituiu a prática que já era comum entre os dirigentes: ela definia um “passe”, ou seja, um valor para cada jogador e os atletas só poderiam sair de seus clubes mediante o pagamento desse montante. Na prática, o jogador de futebol deixava de ser um trabalhador comum, que pode trocar de empresa (ou de clube) após o término de seu vínculo. Ele dependia do pagamento desse valor para sair e, assim, os dirigentes podiam prender suas estrelas e ter assegurada suas fontes de renda: os passes. A situação só foi alterada com a Lei Pelé (9.615/98).

Quarenta anos depois de ter se tornado símbolo da luta pela liberdade dos jogadores, Afonsinho continua a denunciar o autoritarismo no futebol, como não receou fazer no Brasil de Médici, quando o jogador rebelde, barbudo e cabeludo, se recusou a assinar chamado contrato de gaveta, aquele que o jogador assinava (muitas vezes em branco),que era registrado quando convinha ao clube.

Para seguir jogando, Afonsinho firmou este vínculo e aí já teve problemas por suas posições. O Alvinegro queria sua estrela (sim, ele era bom de bola) de volta, mas o queria diferente: barba e cabelos cortados, comportado e adequado ao status quo do futebol. Afonsinho disse não, e foi à Justiça brigar pelo direito de ter “passe livre”, ou seja, o direito de ir para outro clube quando seu contrato acabasse. Venceu, e tornou-se o primeiro atleta a ter passe livre. Sua história virou filme — o documentário “Linha de Passe” de Osvaldo Caldeira (no fim do post) — e Gilberto Gil se referiu a ele.

E o mundo do futebol continua autoritário, diz, o jogador que como resultado de sua luta foi boicotado na seleção, e decidiu estudar medicina (ele se formou enquanto ainda jogava). Sobre a Copa de 2014, Afonsinho se declara otimista, apesar de apontar problemas em seus preparativos como o desperdício de recursos públicos. “Eu não fecho os olhos para essas coisas, mas entre fazer e não fazer, acho melhor fazer porque é uma oportunidade”.

(…)

O que o motivou a defender a causa do passe livre?

Isso aí é uma coisa meio histórica. Quando eu comecei a jogar futebol e comecei a entrar na qualificação de amador em equipes profissionais de futebol, já não era uma coisa da minha formação. Meu pai era um cara que, embora de origem muito simples, se desenvolveu muito na vida, era muito inteligente e interessado. E já quando eu entrei no futebol, comecei a jogar como amador oficialmente — embora jogasse em um time profissional. Eu jogava no XV de Jaú, que era um time profissional, e a legislação na época permitia aproveitar até quatro jogadores com contrato de amador na equipe profissional. No próprio Botafogo, eu não tinha o que se chamava de ‘contrato de gaveta’, que era a maneira de prender o jogador, ou seja, você tinha o contrato e não era registrado, mas quando era interessante para o clube prender o jogador, isso era usado . Joguei nessa condição no XV de Jaú, fui para o Botafogo e joguei nessa mesma condição. No Botafogo, que já era uma das maiores equipes do Brasil da época, essa ideia do passe livre já existia. Chegou um momento em que eu já tinha minha carreira como jogador de futebol profissional mas não tinha contrato. Aí eu assinei o contrato — já com dois anos de carreira no Botafogo — e bastou isso acontecer para começarem os problemas de relacionamento profissional e pessoal. Então eu fui cada vez mais sentindo que aquilo de ter passe livre, era um anseio do jogador de futebol profissional, porque os vínculos e os contratos feitos no futebol profissionais eram fraquíssimos. Aí me agarrei nessa ideia até conseguir o meu passe livre.

E você se sentiu muito solitário nessa luta? Sentiu que faltou apoio dos colegas de profissão?

Movimento de classe, nesse sentido, não houve e até hoje não há. Agora, se aproximando uma Copa do Mundo, isso é uma coisa que me aflige cada dia mais. Vem aí mais uma Copa no Brasil e o relacionamento profissional, as relações de trabalho no futebol ainda são muito atrasadas. Você não vê ninguém falar nada sobre isso, pelo menos por enquanto. Eu de vez em quando dou umas “ciscadas” para ver se alguma coisa está rolando, mas agora que eu já não sou mais jogador, é mais difícil de participar de alguma coisa. Mas esse incômodo com essas relações de trabalho cresceu muito dentro de mim naquela época e não dava mais para voltar, mesmo estando sozinho. Eu fiquei realmente mergulhado naquela situação e estava nela para o que desse e viesse. Talvez por isso eu tenha conseguido o que eu consegui. Depois até aconteceram outros casos como do Raul [Plassman, ex-goleiro de Flamengo e Cruzeiro], do Spencer [ex-volante de Atlético-MG e Cruzeiro], e a coisa foi se desenvolvendo de outra maneira e o passe foi sendo liberado com um paralelo muito próximo à situação da escravatura negra, ou seja, em episódios. No futebol foi assim: começou com um jogador tendo direito a 15%, depois mais um tanto, outro tanto… Até se extinguir, acabar o passe.

O que você acha que ainda está errado nas relações de trabalho no futebol?

Acho que a maneira de funcionar do esporte e do futebol particularmente. O futebol profissional tem um sistema “Fifa”, que é um sistema de característica medieval. O próprio poder no futebol funciona como feudos, que chegam a passar entre famílias. Então é um atraso muito grande, e não só para o jogador. O torcedor, que talvez seja mais importante do que tudo, é excluído do processo. No relacionamento, os clubes estruturalmente, juridicamente são muito fechados. E a situação do torcedor é muito séria, muito violenta. O torcedor é negociado, é vendido quando o dirigente vende os direitos de transmissão, marketing na camisa, etc. Isso é compra e venda do torcedor, visto como um consumidor. E ao mesmo tempo, ele não tem poder praticamente nenhum. Então acho uma coisa muito séria, você é vendido um dia para uma marca, um dia para outra. E o sistema político e jurídico dos clubes é muito desigual. Vejo como consequência disso as manifestações de violência do torcedor, por exemplo, que têm que ser entendidas como uma coisa mais complexa.

Você acha que teve a sua carreira na Seleção e no próprio futebol boicotada por conta das suas posições políticas e da sua contestação ao status quo do futebol no período da Ditadura Militar?

Isso é evidente. Acho que essa foi uma opção minha, quando resolvi lutar pelo passe em um momento político e social de repressão ditatorial. Certamente eu teria outras oportunidades, outras vivências se eu não tivesse essa postura. Você tem essa coisa objetiva mesmo de ser profissional de um esporte coletivo, você com o seu passe, você conquista e tal. Existia até uma ameaça dos clubes não me aceitarem por eu ter o meu passe. Um dos pontos mais importantes foi eu ter conseguido levar a minha carreira adiante, com passe livre, individualmente. Jogar e ir bem em alguns clubes foi uma vitória muito importante. Objetivamente eu tive reações de clubes, até de jogadores profissionais, mais fechados e limitados, que reagiam às minhas ideias. Você imagina um jogador de passe livre, no meio de 20, 30 “presos”, “vinculados”. Passei algumas dificuldades em dois ou três clubes por conta de reações de atletas, principalmente na minha passagem pelo Flamengo. No conjunto sempre tem posições diferentes, mas isso era do jogo . Eu tive que ir em frente.

Você acha que a Ditadura Militar atrapalhou o desenvolvimento do futebol brasileiro?

Eu penso que não tem como o futebol ficar isolado, fora da sociedade a que pertence. O poder nacional acaba abrangendo várias esferas e o futebol é uma delas. Uma ditadura é um período de fechamento, de limitação, tudo fica retardado, prejudicado. Até hoje o Brasil sofre consequências disso e no futebol é evidente. Houve intervenção militar direta nos próprios clubes. Muitos militares passaram a trabalhar diretamente nos clubes, teve essa interferência direta. Isso fez com que até hoje o futebol sofra as consequências. Até hoje todo mundo queixa-se de que o futebol perdeu as características mais brasileiras, como sua originalidade. Eu vejo o futebol como uma manifestação, como uma forma de expressão de uma coletividade. E as consequências continuam por muito tempo.

Como você avalia a gestão de Ricardo Teixeira à frente da CBF?

Eu não tinha nem pensado nisso, mas ele é o exemplo concreto de tudo isso que a gente estava falando. Como é que ele chegou a ser dirigente da CBF e depois ter a importância para a Fifa que ele alcançou? A relação dele com o futebol era unicamente ser genro do João Havelange, entendeu? Não digo que ele tinha que ter sido jogador, o melhor jogador não é o melhor dirigente, são coisas diferentes. Mas ele chegou ao comando da CBF com um nível de poder extremo que adquiriu com uma relação familiar. Aí ele atuou da maneira como pôde atuar, dentro dessa ideia de poder no futebol, que é bem feudal. E o sistema Fifa é isso.

Você vê um processo de elitização vigente no futebol atualmente? A Copa do Mundo pode ser um símbolo disso?

À medida em que o futebol fica mais “caro”, em todos os sentidos, ele fica cada vez mais elitizado. O interesse financeiro vem à frente e é um retrato do que é o futebol. Existe cada vez mais dinheiro e o espetáculo empobrece. É uma contradição enorme. Os estádios são modernos, sistemas, informatização, progresso tecnológico. Mas o espetáculo empobrece.

A Copa do Mundo ainda é usada como um instrumento político, como foi em 1970?

Claramente. Não tenha dúvidas disso. -Afonsinho, ex-Botafogo: “Falta democracia no esporte e no futebol”

Fernando Antunes Coimbra — o Nando

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Rio 2016. Nando Antunes, um futebolista perseguido em dois países

A caça a um Antunes Coimbra que não era Zico

Antunes Coimbra. Não fosse por Zico, Antunes e Edu, o sobrenome teria ganhado notoriedade com Fernando. Ou pelo menos deveria. Irmão do Galinho de Quintino, que era costumeiramente caçado em campo pelos adversários, Nando sentiu na pele os anos de chumbo e a ingerência do regime sobre o futebol brasileiro. Até quando atravessou o Oceano Atlântico para atuar pelo Belenenses, de Portugal, a presença da ditadura parecia tão próxima que era como se tivesse levado um militar na bagagem.

No ano do golpe, em 1964, Nando dividia seu tempo entre a Faculdade Nacional de Filosofia e os treinos na base do Fluminense. Sua irmã Zezé e ele, então, prestaram e foram aprovados no concurso para o Plano Nacional de Alfabetização (PNA) idealizado pelo professor Paulo Freire. A ideia do PNA era extinguir o analfabetismo no país e iniciou seu projeto pelo Rio de Janeiro, ainda no governo de João Goulart. Entretanto, a experiência de Fernando no programa foi curta, marcando aquela que foi a primeira passagem da ditadura por sua vida.

“Eu fui professor do Plano Nacional de Alfabetização e o primeiro ato da ‘maldita’ no Rio foi acabar com a PNA e nos considerar subversivos. Não dei muita importância, pois naquele momento já estava envolvido com o futebol. Após me tornar profissional, jogando no Espírito Santo por um time da capital que nem existe mais (o Santos FC), sofri a primeira perseguição quando o treinador foi substituído por um oficial do exército e este, na primeira semana, me afastou do elenco. Por certo pediu e recebeu informações do grupo ao SNI e assim ficou sabendo que fui do PNA. Eles eram muito organizados. O presidente do clube me desejou sucesso e não quis me dizer o real motivo da minha saída. Pediu que eu entendesse o momento que o país vivia. Aí entendi o recado na hora”, confessou.

Após a profissionalização pelo Santos do Espírito Santo, Nando jogou no América — clube em que seu irmão Edu é ídolo — e no Madureira, até que o Ceará se interessou por seu futebol e o contratou, em 1968, já com Costa e Silva no poder da nação. As boas atuações na equipe cearense chamaram a atenção dos portugueses do Belenenses e o jogador, ainda muito jovem, partiu para terras lusitanas tentar a sorte. Mas só tentou, pois a perseguição somada às diversas ameaças colocaram ponto final em sua breve carreira. O início de Zico no Flamengo também pesou para o retorno.

“Em um determinado dia lá em Portugal, no hotel que eu morava, recebi a visita de dois cretinos da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), que era a polícia política portuguesa, comandada pelo Salazar — de triste memória, aliás. Estavam bem informados a meu respeito. Tremi na base porque tinha apenas 22 anos e numa época que as comunicações praticamente só funcionavam através de cartas. O telefone era por cabo submarino e era difícil uma ligação pra minha casa. Me ameaçaram até com a ida para a guerra nas Áfricas Portuguesas por ser filho de português. Quem me salvou foi a esposa de um empresário do clube que tratava do meu contrato. Ela praticamente me colocou no avião. Saí fugido, cheguei no Rio e não contei a verdade. Disse apenas que não tinha gostado de Portugal. Precisava proteger meus irmãos, que faziam muito sucesso. Sabíamos que o Zico seria um dos melhores do mundo.”

Na volta ao Brasil, Nando foi preso pelo DOPS e encontrou no DOI-CODI da Rua Barão de Mesquita sua prima Cecília. Na época, Cecília Coimbra era militante do MR8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro) e, claro, foi considerada subversiva pelos militares, assim como seu marido, José Novaes. O casal ficou preso por cerca de três meses e, de acordo com Fernando, foi “barbaramente torturado”. Hoje, ela colabora com o grupo (que também já presidiu) Tortura Nunca Mais, que luta pelo resgate da memória do período da ditadura. Ao livro, Nando detalhou o que viveu naqueles dias de cárcere.

“No dia 30 de agosto de 1970, fui preso com quase todos que estavam na casa da mãe da Cecília na Rua Dias da Cruz, no Méier, e fomos levados para o DOI-CODI onde eles (Cecília e Novaes) estavam. Ficamos num corredor cercado de celas que mais pareciam jaulas e numa delas estava o Novaes. Fui interrogado algumas vezes e sabiam tudo de mim, até de um táxi que tinha que ficava com um motorista contratado por mim. Eles viajavam na maionese e falavam as coisas mais absurdas. Estudantes, professores e sindicalistas foram os escolhidos para eles justificarem a tomada do poder. Ridículo. Passei pelo menos 48 horas com a cara na parede e as mãos na cabeça. Quando o braço descia de cansaço os soldados vinham com a baioneta e nos cutucavam, para erguermos o braço de novo. Só saíamos de lá para os interrogatórios, com capuz na cabeça”, disse o jogador, que notou uma certa curiosidade dos militares por ele, muito provavelmente pelo fato de seus irmãos Antunes e Edu serem famosos. Antunes e Edu, inclusive, passaram com a mãe quatro dias no lado de fora do quartel esperando por Fernando. “Quem passava pelo local percebia que alguma coisa tinha acontecido com os Antunes”.

Mesmo depois do episódio no DOI-CODI, Nando insistiu no futebol. Contudo, uma passagem apagada pelo Gil Vicente, de Portugal, fez com que ele desistisse da carreira futebolística. Na época, Zico dava seus primeiros passos como jogador no Fla e Edu era cotado para defender a Seleção Brasileira na Copa do México, o que não se concretizou em razão das diferenças ideológicas entre a família e os homens do poder, jurou Nando.

(…)

Nando lamentou também que poucos atletas profissionais tenham se posicionado contra o regime durante os anos em que vigorou a ditadura militar. Ele citou Reinaldo e a Democracia Corintiana em geral como pontos fora da curva no combate à repressão, e tem a explicação para a reação ter sido tardia de certa forma. “Na minha época era impensável se posicionar, pois com o AI-5 tudo ficou perigoso. Quando o regime já estava desgastado e desmoralizado, aí sim foi possível. Foram casos isolados porque a maioria dos atletas desconversavam quando o assunto era política, até mesmo por pura alienação”.

Em 2003, Fernando Antunes Coimbra entrou com um processo na comissão de anistia do Ministério da Justiça. Sete anos depois, foi considerado pelo órgão um perseguido político dos ditadores se tornando, portanto, o primeiro jogador de futebol a ser anistiado na história do Brasil, o que quatro décadas depois de tortura, pressão psicológica e frustrações, foi motivo de orgulho não só para Nando, mas também para todos aqueles que carregam e carregarão o famoso sobrenome.

Foram muitos os jogadores de futebol brasileiros perseguidos naquele período?
Não foram muitos. Como eu disse anteriormente, a maioria dos jogadores era alienada e eram muito poucos os que estudavam. O assunto política, ditadura, etc., não eram conversas de jogadores. No Rio apenas eu, Afonsinho, Paquetá e Paulo César Caju sofremos perseguições. Depois houve a Democracia Corintiana já no final dos anos de chumbo. O Toninho Guerreiro também não foi à Copa de 70 absurdamente. Seu pai, que era do sindicato dos ferroviários, esteve preso e prejudicaram o Toninho, centroavante fabuloso na época e jogava ao lado do Pelé. Na minha época era difícil a imprensa conseguir divulgar alguma coisa porque a marcação era cerrada por parte dos censores “fdps”.

Então não considera a imprensa da época omissa? Fizeram o que puderam, é isso?
Não era omissa, era amordaçada. Até mesmo o João Saldanha, quando estava no ar falava apenas de futebol para que o programa não fosse suspenso. O que se falava em off nunca poderia ir ao ar. A maioria, claro, era contra a ditadura e muitos poucos aqui no Rio apoiavam. O que havia era muito fingimento. Os censores eram muitos além dos infiltrados. Para se ter ideia, em cada sala de aula nas universidades havia um infiltrado que quando descoberto trocavam para outra. Muitos jornalistas esportivos tornavam-se alienados por que viviam o futebol de maneira intensa. Era uma fuga da realidade. Todos tinham medo, principalmente a partir do famigerado AI-5.

Se arrependeu de algo que tenha feito ou deixado de fazer durante a ditadura?
Não tinha porque me arrepender de alguma coisa. Sempre fui querido pelos elencos e exercia uma liderança natural entre os colegas porque percebiam o conhecimento geral que eu possuía. A partir daí eu passava a ser um conselheiro deles no dia a dia. Era muito legal. A mesma coisa acontecia com meus irmãos nos clubes que atuavam. Meus pais só permitiram que nós nos tornássemos jogadores porque nunca relaxamos nos estudos. Não dá para ter arrependimento por ter preferido os livros e as chuteiras ao invés das “botas torturantes”.

O fato de você ter sido anistiado recuperou, de alguma forma, o sofrimento daqueles dias?
Desistir de jogar foi duro, pois tinha que proteger os meus irmãos, o que em parte consegui. Me realizei nos pés deles, o Antunes, Edu e o Zico. Consegui guardar por quarenta anos a minha história e como membro da família Antunes eu, ao ser anistiado com muita divulgação, provoquei um clima de espanto porque ninguém sabia de nada. Uma incredulidade total. As pessoas se perguntavam como tinha sido possível algo desta natureza com a família. Recebi e recebo sempre muitas homenagens e isto me credencia a afirmar que tudo valeu a pena. Temos enorme conceito com todos e fico muito feliz pelo interesse de jovens que, com certeza, ajudarão na história do país, mostrando o quanto foi difícil a conquista da maravilhosa democracia que ora vivemos. Porém, não podemos jamais deixar de estar mostrando o quanto foi terrível para todos, os anos de chumbo de triste memória.

Alexandre Guariglia e Bruno Rodrigues (O texto acima é um capítulo retirado do livro Bola de Chumbo, trabalho de conclusão do curso de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Os autores buscam editoras ou parceiros interessados na publicação da obra, que repassa os principais capítulos da história do futebol brasileiro durante o período do regime militar.)

Paulo Cézar Lima- “Caju”

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‘Estou torcendo para a Bélgica’, diz Paulo Cezar Caju, campeão mundial em 1970

(…) Essa história de racismo não é novidade para mim e muita gente não sabe mas o Caju, hoje praticamente um sobrenome, surgiu por conta de uma dessas insatisfações. Mas isso eu conto mais abaixo. Na minha infância, presenciei a dor de minha mãe, empregada doméstica, uma pequena escrava, que era proibida de estudar pelos patrões. Quando entrei para o futebol de salão do Fluminense era um Deus nos acuda para conseguir entrar no clube e nunca me deram carteira de sócio atleta. Poucos eram os negros ali. Mas minha mãe nunca me deixou entrar pela porta dos fundos. Hoje quando vejo um Tinga, um Arouca e um Daniel Alves (comer a banana foi um tapa de luva, não só nos racistas, mas na sociedade que não se manifesta) sendo xingados volto ao passado e vejo que tudo continua igualzinho. Onde está o amor ao próximo nesse país, onde está a educação? E CBF, federações em geral, FIFA, ninguém faz nada? Vamos ter que esperar sentados?

Bem, e o Caju? Em 1968, o Botafogo foi fazer um torneio em Los Angeles. Era muito comum esses amistosos internacionais naquela época e a presença de Botafogo e Santos, base da seleção, despertavam a atenção até de quem não gostasse de futebol. Naquele ano, ganhamos o torneio e falei com a comissão técnica que iria conhecer a Sunset Boulevard. Fui com o Jairzinho e não acreditei quando nos deparamos com uma manifestação dos Black Panthers, partido revolucionário que patrulhava os guetos negros para protegê-los da violência policial.
Nessa época, meus ídolos eram Martin Luther King, Cassius Clay, a professora de sociologia Angela Davies e claro Malcolm X, um dos maiores defensores do nacionalismo negro, e que estava preso.

Me emociono ao lembrar desse momento. Os integrantes do Black Panther Party exigiam a libertação de todos os negros e a ala mais radical sugeria a luta armada. Todos usavam black powers coloridos, calças bocas de sino e roupas extravagantes. Precisava comprar aquele barulho de alguma forma. Entrei no primeiro salão que encontrei e mandei tingir meu cabelo de vermelho. Muitos jogadores, a partir daí, também deixaram o cabelo crescer, mas pintar, pelo que me lembre, fui um dos únicos. Dali, fomos para uma feijoada promovida pelo Sergio Mendes, que estava totalmente estourado nos Estados Unidos, e ele divertiu-se com o meu novo visual! Quando voltamos ao Brasil, descemos em São Paulo e logo passaram a me chamar de Caju. Me orgulho desse gesto de solidariedade aos negros americanos. (…) -SÓ A EDUCAÇÃO SALVA O FUTEBOL | Blog do Caju — O Globo

Passe Livre (documentário) — Wikipédia, a enciclopédia livre

E para encerrar, embora não conste do título o artigo não ficaria completo sem a referência a um quarto jogador, ou melhor um time porque ele representa uma coletividade. Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o doutor.

Sócrates o intelectual orgânico e o coletivo da Democracia Corintiana

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Time Base de 1982: Solito, Ataliba, Sócrates, Casagrande, Zenon e Biro-Biro; Mauro, Daniel González, Alfinete, Paulinho e Wladimir.

A construção da cidadania dos jogadores de futebol na Democracia Corinthiana

A Democracia Corinthiana pode ser entendida como elemento de questionamento do autoritarismo e do paternalismo no futebol, na medida em que servia como espaço de contraponto à hierarquização presente na arena esportiva, que impedia que o jogador pudesse comandar a própria vida14. Para o jogador Sócrates, uma das principais lideranças da experiência aqui tratada, esta possibilidade se apresentava como inédita, já que o jogador de futebol podia constituir-se enquanto cidadão, pois

Por tradição, o futebol brasileiro é meio retrógrado e paternalista. Apegados ao poder, os dirigentes dos clubes e federações procuraram alienar os jogadores e tratá-los como escravos. Desde que Charles Miller introduziu o futebol no Brasil, poucos foram os momentos nos quais os jogadores lutaram por melhores condições de trabalho. Mais raras ainda foram as lutas das quais os atletas saíram vitoriosos. Em um país como o Brasil, dificilmente o jogador de futebol é tratado como profissional e cidadão, com direitos e deveres, com liberdade e responsabilidade10 (p.18).

Este trecho demonstra as pré-condições de constituição da cidadania para esses jogadores corinthianos. Entretanto, impera a necessidade de explicitar como isso ocorreu concretamente, de modo a compreender qual foi a constituição objetiva dessa forma de cidadania.

Abordar a atuação dos jogadores da Democracia Corinthiana na conquista de seus direitos é importante, porque explicita dois elementos: em primeiro lugar, quais foram os limites e as possibilidades desse movimento radical, na medida em que demonstrou um exemplo de como os jogadores de futebol poderiam ter melhores condições de trabalho; em segundo lugar, a compreensão da formação de uma identidade coletiva efetiva dos jogadores em torno da Democracia Corinthiana15, d.

Os significados de democracia para os sujeitos da Democracia Corinthiana, estavam subentendidos tanto a partir de uma dimensão mais individual — no caso das “liberdades”, como de não se concentrar antes das partidas; quanto na dimensão coletiva da participação — com relação ao direito à palavra e à opinião, ou mesmo em um caso mais concreto do acesso a alguns direitos trabalhistas16. (…)

Apresentando as diversas dimensões que a cidadania alcançou na Democracia Corinthiana, pretendemos evidenciar os diferentes sentidos e os sólidos efeitos que o termo em questão obteve dentro do grupo, explicitando, então, as diferentes demandas do movimento alvinegro, no sentido de constituir a identidade coletiva deste e compreender como foi expandido o sentido da cidadania para os jogadores do Corinthians.

Direitos civis na Cidadania Corinthiana

No modelo de Marshall os direitos civis são o elemento fundador da cidadania moderna, por serem eles os garantidores dos direitos de liberdade individuais, inaugurando uma justiça que seria, pelo menos em tese, estendida a todos. Um dos pilares dos direitos civis é o direito ao livre contrato, criado nos primórdios do capitalismo industrial, mas ainda uma questão candente na década de 80 para os jogadores de futebol. O “passe” dos jogadores ainda os vinculava a um sistema de trabalho que não prezava pelo “livre” contrato (livre no sentido de o trabalhador poder se desvincular de seu empregador conforme sua própria vontade). Ainda que a ideia de “ser verdadeiramente livre” seja passível de discussão — tendo em vista os condicionantes capitalistas que foram impostos à população, na urbanização, como a submissão a condições de trabalho extremamente precarizadas — o fato é que até o final da década de 90, os jogadores de futebol dependiam da vontade de seu empregador para poderem se mover de um local de trabalho ao outro. O caso de Afonsinho é emblemático para ilustrar as relações de trabalho naquele período histórico: se o jogador não se acertava com o clube, quer em período de renovação de contrato ou por qualquer outro motivo, ele poderia passar meses sem jogar, e seu passe era, consequentemente, desvalorizado. Sócrates relatou esse caso como um dos fatores que o fez, no Corinthians, começar a discutir relações de trabalho mais justas. O jogador também trabalhou para atrasar a negociação da renovação de seu contrato em 1980, para que seu passe se desvalorizasse e ele pudesse comprá-lo, de modo a possuir “sua carta de alforria e não ser mais propriedade do clube corintiano”10 (p.26). Essas duas situações revelam um problema dos jogadores naquele período. Wladimir, outra liderança da Democracia Corinthiana, que foi presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais (de 1984 a 1986), tratou, em nossa entrevista dessa questão, do “passe livre”, identificando-a como um dos pontos centrais de sua gestão no sindicato:

E a gente tinha uma situação que nos incomodava muito que era a questão do vínculo com o clube. Naquela época era uma lei escravagista. Nós não tínhamos liberdade de ir e vir. Terminava meu contrato, eu ficava negociando com o clube. Se eu ficasse seis meses negociando com o clube, eu ficava seis meses sem jogar e sem receber. E ficava aquela briga de você pede tanto, o clube oferece tanto. E tinham vários jogadores que ficavam sem jogar e sem receber por conta dessa situação. Porque era uma lei escravagista. O contrato de gaveta fazia com que eles [os clubes] tivessem poder sobre nossa vida.

(…) Apesar de não ter conseguido combater o poder exacerbado dos clubes no momento de constituição dos vínculos trabalhistas, os jogadores pontuavam outra forma de liberdade, como uma das primeiras questões a ser relatada publicamente em seus comentários à imprensa. Na vitória do campeonato paulista de 1982, por exemplo, as falas de Sócrates com relação ao título se remetiam à questão da liberdade permitida dentro do grupo. Segundo Sócrates, a conquista de títulos representava a luta por maior liberdade, na medida em que a obtenção da vitória no campeonato paulista significaria a legitimação da gestão menos autoritária que se desenvolvia no Corinthians. O jogador também afirmava que a Democracia Corinthiana questionava pilares importantes do futebol, como a obrigatoriedade de concentração antes das partidas. Essa demanda dos jogadores estava sendo acatada pelo técnico, que afirmava que a partir do ano seguinte a concentração não seria mais obrigatória. O presidente Waldemar Pires reconheceu o título de 1982 como uma vitória da abertura, pois teria proporcionado a todos o direito de opinião e de participar das decisões.

A questão da não obrigatoriedade da concentração tornou-se uma das conquistas da Democracia Corinthiana, no que tange às liberdades dos jogadores. A questão da concentração em si pode ser identificada como a necessidade de um clube de futebol controlar o tempo disponível, de lazer, de seus jogadores. Por isso, o ângulo que estamos abordando refere-se à importância de o atleta poder decidir sobre a gestão de seu tempo livre. Referente a isto, Wladimir destacou a maneira como o uso de bebidas alcoólicas pelos atletas era tratado: eles não tinham que ocultar esse fato. Tal quadro era incômodo para a imprensa esportiva e para os conselheiros do Corinthians que faziam parte da oposição à Democracia Corinthiana, imputando ao consumo dessas bebidas adjetivações como “baderna” e “irresponsabilidade”. Para alguns jogadores, a liberdade de ingestão de álcool significava exatamente o contrário, uma demonstração de responsabilidade, uma vez que a equipe teria que se responsabilizar sobre as consequências de suas ações(…)

Essa liberdade que se forma com o advento da Democracia Corinthiana dizia respeito ao atleta poder decidir sobre seu tempo. Conforme MORAIS, no capitalismo, em especial com o advento do fordismo e taylorismo, surgiram dispositivos culturais que, de forma velada, tentavam controlar o que o trabalhador fazia em seu tempo de não trabalho — de forma a não atrapalhar a sua produtividade no subsequente dia de trabalho. Entretanto, para o jogador de futebol isso acontecia de forma extremamente controlada, colocando-o sob as rédeas de seu patrão, mesmo no período de tempo de não trabalho. Abrir a possibilidade dos jogadores construírem outras formas de sociabilidade em seu tempo disponível pode permiti-los uma maior autonomia no lazer, o acesso a bens culturais, discussões coletivas, diversão, organização sindical, enfim, uma série de propostas e de atividades que podem, em alguma medida, atrapalhar o sentido de acumulação de capital para o clube.

Por outro lado, a dinâmica da escolha do tempo livre, imputa a responsabilidade sobre o uso dele, conforme a própria fala de Wladimir apontou. Segundo MARSHALL7, essa também é uma das decorrências das liberdades provindas dos direitos civis, porque não é uma relação apenas de benefícios. O autor ressalta que os direitos civis envolvem também obrigações de contrato, pois, além da liberdade individual, há na dinâmica de negociação, uma preocupação com o bem estar dos demais, que deve ser respeitado.

(…) Todavia, ainda é importante ressaltar que durante a Democracia Corinthiana há uma embrionária constituição daqueles jogadores de futebol como intelectuais orgânicos, no interior de sua própria prática e na realidade social. Conforme o sentido gramsciano do termo, todos são intelectuais no exercício de sua profissão, ainda que nem todos exerçam tal função. Contudo, há uma camada dentre esses que dá homogeneidade e consciência aos demais, não apenas no campo profissional, mas social e político. São considerados orgânicos, porque fazem parte do próprio grupo ao qual conferem essa ordem intelectual e moral. Deste modo, a possibilidade de se expressarem sobre questões controversas as quais antes os jogadores não possuíam direito de opinar é a emergência, ainda que de forma embrionária, da constituição de intelectuais orgânicos dentre a camada de jogadores de futebol, possibilitando que eles mesmos se configurassem como construtores, organizadores, ‘persuasores permanentes’ da constituição de uma nova ordem intelectual e moral. -Citzenship and rights of the football players in Democracia Corinthiana

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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