Para entender o que está acontecendo no Brasil

A novela em capítulos:

Capitulo I

Em junho de 2013, junto com outras manifestações, uma série de protestos no Brasil contra o aumento das passagens de ônibus em São Paulo se espalharam por todo o Brasil, e ganharam o contorno de manifestações anti governamentais. Naquele momento eram dirigidas muito mais ao congresso do que a presidência, que ainda desfrutava de popularidade. Perdeu adesão popular tanto da esquerda quanto da direita com o aumento do protagonismo e antagonismo entre os primeiros militantes radicais de esquerda e extremistas de ultradireita que se juntaram ao final.

Capitulo II

Em 2014 a campanha eleitoral atingiu níveis inéditos de polarização e denúncias e agressividade. Após o partido da candidata Marina Silva, ex-petista (o Partido trabalhista de centro-esquerda de Lula) que despontava a época como a “terceira via” ser impedido de concorrer e ela ter se aliado ao outro candidato de esquerda, também ex-aliado do governo Eduardo Campos que morre num acidente de avião em sua campanha, Marina favorita não aguenta o nível pesado da campanha. O candidato do Partido Social Democrata, de centro-direita ascende e perde as eleição por poucos votos, passando a contestar a credibilidade das eleições. O país sai das eleições completamente divido no entre norte e sul, direita e esquerda, ricos e pobres, o saldo de uma campanha presidencial pautada na desconstrução de adversários e luta de classes.

Capitulo III

Dilma assume. E pede união. Mas num dos primeiros movimentos que iria destruir completamente sua credibilidade: aplica a politica econômica pro-mercado que condenou fortemente no adversário. Começa a corrosão das bases.

Enquanto isso as denuncias de uso da máquina estatal na campanha começam a se tornar processos. Especialmente de recursos oriundo da empresa estatal, a Petrobras, são transformadas em processo. No Estado do Paraná, um juiz de instancias junto a policia federal começa a mover o que seria apelidado da operação “mãos limpas brasileira”. Membros do governo aliado e oposicionistas, tanto os reputados pela popularmente como notórios ladrões como os afamados como honestos, começam a se ver implicados em denuncias e delações premiadas. Um recurso judicial que curiosamente foi aprovado pelo próprio governo Dilma em sua primeira gestão. Governo e oposição se alternam entre acusações publicas e alianças expurias para tentar frear as investigações. Sem sucesso.

Capitulo IV

A pressão popular cresce especialmente sobre a presidente da república e da câmara. Enquanto o segundo Eduardo Cunha é um investigado, Dilma permanece livre de todas as acusações. Mas sua popularidade despenca por conta da crise econômica e uma série de medidas impopulares tanto para a população quanto para os mercados. Suas trocas constantes de posição somadas a persistência em suas decisões monocráticas trazem para ela a fama de inábil politicamente e autoritária. Elementos cada vez mais próximos a cúpula do PT e do governo são denunciados criminalmente.

Empresários membros da oligarquia brasileiras considerados intocáveis são presos. A popularidade de Moro e a Lava-Jato explode junto a população. Ir abertamente contra ela começa a ser suicídio político.

Capitulo V

Novos protestos de direita se reiniciam, a propaganda governamental procura desclassificar a sua representatividade da classe média como “povo”. A extrema direita pega carona homofóbica fundamentalista cristã e militarista e cresce junto com eles. Governo continua com seu jogo duplo em todos os campos. Ao mesmo tempo que reforça a aliança com bancos entregando o ministério da economia a eles o isola, para agradar o partido. Enquanto apoia a Lava-jato, ensaia acordos de leniência. Decisões tomadas num dia, começam a ser canceladas no outro. A cabeça de ministros é pedida e entregue publicamente via jornais sem comunicação. Intrigas palacianas são vazadas constantemente pelos dois lados. E acusações publicas entre representantes dos 3 poderes de tormam praxe. A crise politica se institucionaliza. O governo está paralisado e sem credibilidade. Passa a vender sem pudor cargos em troca de sustentabilidade.

Capitulo VI

O Brasil começa apontar que não sairá da recessão, mas entrará na depressão, algo inédito desde 1930. O governo se encastela, continua a negar erros ou até mesmos responsabilidades. Vai progressivamente sendo isolado e se isolando. Apesar dos lucros e juros exorbitantes. Os grandes bancos abandonam o governo. O tribunal de contas da união recomenda a reprovação das contas da presidência. Os pedidos de impeachment que pululavam desde do inicio do mandato começam a ser conduzidos com seriedade, em especial o mais bem embasado do petista dissidente Hélio Bicudo.

Capito VII

O impeachment que vinha sendo usado como escudo e chantagem pelo presidente da câmara para não ser cassado e investigado depois de uma derrota é aceito. O governo vai ao Supremo Tribunal Federal e numa decisão controversa de um dos juízes o processo de votação desfavorável a presidência é alterado. De modo que o presidente do Senado, Renan Calheiros, do PMDB, partido aliado de todos os governos em troca de cargos e verbas (entre outras contrapartidas) passa a dar as cartas. E na mira da Lava Jato, ele também sabe o que quer. O vice presidente entrega uma carta “vazada” onde reclama da presidente. É acusado de golpista. O termo usado oficialmente até por membros do “governo”.

Capitulo VIII

Dilma ganha pela enésima vez uma chance de começar a governar. Aparentemente. Mas novos sinais contraditórios e autoritários continuam a ser emitidos. Pela primeira vez na historia do Brasil um Senador da Republica e ainda por cima líder do governo é preso, foi gravado negociando a fuga de um dos delatores do esquema de roubo da Petrobras. Sugere possuir inclusive juízes do supremo tribunal de justiça que poderiam livrá-lo. Vai cada vez mais se afastando de Lula, também denunciado e suas bases enfraquecidas. O vazamento da delação premiado do Senador explode o impeachemt. Dilma acuada passa a defender projeto de privatização da Petrobras e racha com as bases do seu proprio partido.

Capitulo IX

Depois de uma série de recursos de seus advogados Lula é levado para depor pela PF em Curitiba, mas não chega. Depõe num aeroporto de São Paulo num momento onde existe muita especulação de possível conflito entre policiais e militares da aeronáutica (evento não confirmado). Militares dão notas que obedecem constituição e que estão do lado da “lei e ordem”, não especificando qual. Movimentos sociais chamam para o enfrentamento, mas recuam. Policia Militar do estado de São Paulo invade uma reunião de um sindicato. A democracia balança. Dilma diz que o mandato dela não esta subordinado a ninguém e que não renuncia. Mas antes cede ao partido e entrega a cabeça do seu ministro da Justiça, acusado pelo seu Partido, segurar a truculência da PF contra Lula.

Capitulo X

O ex-ministro passa para a advocacia da união. O novo é recusado pelo Supremo Tribunal de Justiça por razões técnicas. Mais delações vazam e não implicam apenas toda a cúpula do governo e a própria campanha eleitoral da presidência, mas toda a linha sucessória, vice, presidente do senado, câmara, etc… E até mesmo os principais opositores que move ação para cassar o chapa eleitoral, o candidato presidencial Aécio Neves. O próprio braço da presidente está implicada, porém além dos vazamentos serem ilegais as denuncias vem sempre por meios de veículos de comunicação reputadamente tão notoriamente sem credibilidade quanto as empresas denunciadas ou o próprio governo. O que dá margem a dúvida para todos os lados, e se você for brasileiro e entendeu grande parte da novela da politica brasileira, não, é isto aqui não é House of Cards é Tarantino puro com direito a esqueletos no armário e tudo, mas essa é uma outra historia e dela eu não sou testemunha.

Capítulos Finais

Os protestos se reiniciam com uma dimensão histórica refletindo a rejeição histórica do próprio governo. Não há confrontos. 4 milhões de pessoas segundo a policia, 6 segundo os organizadores. A maioria de classe média, o que obviamente não os desqualifica como parte do povo. Sei o quanto isso pode parecer absurdo para quem não vive o momento brasileiro, mas essa é a grande pergunta, o governo e a classe politica vai continuar tentando desqualificar ou minimizar os protestos destas pessoas ou vai ouvi-las tanto no que representam de demanda legítima como uma parcela da população, quanto o que sim dão voz a vontade da grande maioria? Não, eu não me identifico com eles. Mas sei como termina essa historia se a classe politica não entregar o anel para preservar os dedos. Quem em breve vai as ruas são as outras classes sociais que não estão nada contentes com isso tudo e não será para defender nem populistas corruptos, a direita ou a esquerda, mas seus direitos reiteradamente violados por estes golpistas dando golpe em golpista para manter esse grande golpe histórico chamado Brasil, longe de qualquer independência e verdadeira democracia direta. E aí sim eu me pergunto onde vão estar essas burguesias de esquerda e direta que hoje lutam pelo seus lideres e projetos de poder? Não sei, mas que não vai ser do lado do resto do povo.

Isto não é uma crise de corrupção é o esgotamento de nossa democracia representativa, ou damos um passo a frente e vamos em direção a uma democracia mais direta e uma cidadania politica e economia mais plena e garantida, ou será o retrocesso. A esquerda ou a direita, mas certamente o retrocesso e muito provavelmente não sem muitas revoltas.

Não, definitivamente isso não é novela da Globo, nem série da Netflix, isso é a merda da minha realidade que quando eu conto aqui na Europa de tão surreal ninguém acredita. Um surrealismo fantástico feito por uma cleptocracia montada por governo, empresas e até mesmo grande mídia completamente desonestas.

O que vai acontecer nos próximos capítulos?

Vai depender do quanto o povo brasileiro quer descobrir e se apropriar da sua historia. E exatamente onde ou em quem esta historia vai parar, é aonde o poder ficará. Tomara que vá até o final e termine nas mãos dos verdadeiros soberanos: o povo.



X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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