Pós-Modernidade? Não, a pré-história de uma Nova Era

Das disputas e mudanças de paradigma

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Estamos a caminhar para uma nova idade das trevas ou uma nova era das luzes? Estamos entrando na idade da consciência agora, ou vamos amargar novamente um longo período de fanatismo, fundamentalismo e ignorância até o inevitável despertar ou extinção? Eis a questão. A disputa dos paradigmas que definirão nosso tempo… e espaços.

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Recentemente conversei em particular com um amigo sobre o futuro do Brasil, renda básica, democracia direta, e cultura. Eis uma breve introdução sobre o tema, e algumas das impressões que gostaria de compartilhar com todos que também tem as mesmas preocupações.

Introdução

Tempo. Dias, Semanas, Meses, Anos, Décadas, Séculos e Milênios. A ideia de tempo, sua evolução e revoluções, mais do que a simples noção de passado-presente-futuro, enseja em seus ciclos e marcações, a construção e indexação de sonhos e memórias, saudades e esperanças e até mesmo identidades. Nossa geração- geração uma ideia marcada por idades e por tempos e pelo advento do tempo- assistiu nos últimos 20 anos, não apenas a virada de um século, mas de um milênio, carregada de todos os mitos e medos de fim do mundo e dos tempos quanto dos símbolos e esperanças de início de uma nova e um novo mundo.

Nas grandes metrópoles, nos grandes centros, o otimismo e confiança no progresso da ciência e tecnologia, o avanço do conhecimento, informação e comunicação ditava as visões e planos para o futuro. Cientistas, acadêmicos e intelectuais preconizavam: os problemas da velha Economia Política e sobretudo da recém “descoberta” Ecologia, seriam solucionados: fome, guerra, doenças, ignorância, ditaduras, escravidão, desigualdades, ódios e guerras de raça, nações, gêneros, gerações e classes, iriam ficar no passado. Pobreza, genocídio, preconceitos, apartheids, tortura, golpes, invasões, ocupações militares, poluição, extinção em massa, armas nucleares, estavam com seus dias contados. A democracia, o capitalismo, a ciência e a civilização haviam vencido e prevalecido.

Era o fim da história diria o até então celebrado Fukoiama. A pax romana, o sonho clássico da dita civilização ocidental crente na sua predestinação divina e natural enfim estava se realizando: a pax enfim prevaleceria o mundo inteiro finalmente estaria sob o império e hegemonia de um mesmo poder político e econômico maior enquanto cultura e civilização.

A última revolução industrial do capitalismo, não havia pois engendrado seu fim, mas sua supremacia. A sociedade de informação, automação e telecomunicação sob liderança da grande potência norte-americana, vencedora das grandes guerras mundiais e da guerra fria, enfim traria a civilização para o mundo inteiro, pondo um ponto final nos povos bárbaros e nativos e suas “barbaridades”. “A civilização” enfim prevaleceria como globalização. Democracia, capitalismo e liberalismo prevaleciam como centro moderador do mundo e conservador de um status quo que duraria mais que as pirâmides do Egito. Seus opositores e radicais eram uma espécie em extinção.

Fascismo e nazismos estavam então para sempre aniquilados. Anarquistas mortos e esquecidos. Comunistas fracassados e derrotados. O império Russo desmantelado. A Grande China, reduzida a exportadora de produtos baratos a provedora de mão-de-obra “semi” escrava. Estados satélites democratizadas e redemocratizadas com governos, comercio, economia livres apenas no nome, papel e fachada. Religiões e igrejas, devidamente submetidas ao império da lei e da ordem dos Estados-laicos e lógica e propaganda dos mercados... há tempos. As populações neutralizadas pela sociedade do espetáculo. Os Movimentos, lideranças e organizações sociais devidamente comprada e vendidas a governos ou empresas. Tudo e todos estavam no seu devido lugar cumprindo sua função e razão social, e nada poderia mais impedir a marcha da ordem e progresso.

Da defesa das classes e categorias, da luta de classes e categorias, até a por direitos e causas universais, dos direitos humanos ao ambientais tudo estava devidamente institucionalizado, corporativizado e instrumentalizado. Responsabilidade social e ambiental reduzida a responsabilidade empresarial; movimentos sociais e agrários reduzidos a peões e militantes de projetos de social-democratas e populistas de poder.

Dos partidos populares aos sindicatos trabalhistas; das associações não-governamentais às não-lucrativas, tudo e todos finalmente estavam respondendo às mesmas leis e lógica de mercado e de aparelho estatal. Submetidas à mesma jurisdição, mentalidade e condição de toda população: a mendicância institucionalizada e o empreguismo burocrático e tecnocrático e servil.

Criminosos, marginais, encarcerados para serem reeducados e populações. Doentes devidamente medicados, tratados e internados para se tornarem novamente cidadãos produtivos. As classes médias e remediadas prontas capacitadas e empregadas para cuidar e ensinar, todos plenamente empregados e trabalhando para inserção e reinserção de todos nos mercados de trabalho.

Mas não mais como escravos e semi-escravos. Não. O paraíso neoliberal estava próximo, muito próximo, bastavam apenas mais alguns pequenos passos. Estávamos às portas do século XXI, e um novo milênio um novo futuro estava chegando… um futuro onde as máquinas fariam o trabalho sujo e pesado, a automação levaria os custos de produção a praticamente zero, e toda a plebe, todos os trabalhadores e seus filhos poderiam enfim ascender a burguesia. Fontes de energia limpas renováveis e inesgotáveis poriam um termino a destruição do meio ambiente e as guerras por ocupação, domínio e controle de espaços vitais e recursos naturais e estratégicos. Tudo graças a hegemonia do capital e sua engenharia social e cultural, sua arquitetura política e econômica e suas visão, senso e razão de ser para as pessoas e para o mundo.

Mais alguns passos e a humanidade inteira finalmente, chegaria a terra prometida. Mais alguns passos… promessa, traduzida em Setembro de 2000, pelos representantes dos Estados-Nações em sua Organização a ONU, como documento: os Objetivos do Milênio. Uma série de metas a serem cumpridas pelos países signatários até 2015.

Prepotência, ingenuidade, demagogia? Ignorância ou só desonestidade intelectual mesmo?

Bem, o fato é que independente das reais motivações e interesses, a ilusão dura pouco.

Um ano depois em setembro de 2001, as Torres Gêmeas desabam ao vivo.

Os EUA declaram unilateralmente guerra, e invade e ocupa Afeganistão e Iraque. Estava iniciada a guerra ao Terror e sua ideologia nacionalista: a doutrina Bush. Doutrina marcada pelo desenvolvimento e expansão do emprego massivo de novas técnicas e tecnologias de espionagem, vigilância, policiamento, tortura, prisões, assassinatos, guerra, invasão, ocupações…

Como quem ascende um fósforo em um barril de pólvora, a frágil, artificial, autoritária e sobretudo ilusória estabilidade do Oriente Médio e do Mundo estava quebrada. Emerge em meio ao caos criado pela pax americana, o Estado Islâmico. Em 2011 eclode a guerra civil na Síria. E em 2015, exatamente no ano em que se cumpriria a entrega do pacote das primeiras promessas, o que o mundo assiste é a maior crise de refugiados no mundo desde o fim da segunda guerra mundial, e criação da ONU.

O fim da história, se tornará nada além de um período de transição marcado como todos os anteriores pela disputa pela hegemonia histórica que irá determinar não só quem contará como foi o nosso presente e futuro como narrativa e discurso sobre o passado, mas antes disso de fato será nosso presente e futuro como prática e dura realidade.

O fim da história, nada mais foi que o recomeço do ciclo de uma nova era, infelizmente não tão nova e diferente das antepassadas. Um período de transição, marcado pelo crescimento do nacionalismo-xenofobia na exata medida dos lucros da industria bélica-armamentista e expansão dos domínios financeiros comercias e potenciais, e conflitos pela hegemonia por vir. O ápice de todo um sistema econômico e monetário internacional lastreado em última instância por um commoditie: armas, ou mais precisamente, o subsidio do poder de destruição em massa, o instrumento de dissuasão e persuasão na negociação e negócios transnacionais convertido na própria base fiduciária do sistema monetário internacional. O ápice, e também o início da sua queda.

Evidentemente não a queda da supremacia e monopólio da violência como superestrutura cultural hegemônica, mas a queda da potencia monopolizadora do capital na atual forma de produção e reprodução: a financeira. Como em outras revoluções industriais, a revolução das informação e telecomunicação, transferiu o centro de poder, e logo as suas disputas para outros objetos e objetivos. Para outros campos do saber, e da exploração de Matérias-primas, outros meio-de-produção e desenvolvimento de tecnologias estratégicas. A cadeia produtiva da riqueza das nações são outra, e as disputas pelo poder, leia-se supremacia entre as potências, dentro dessa nova fase do capitalismo, idem. Em suma a cultura da violência prevalece como culto a supremacia armada, mas armas dessas guerra e pax já são outras.

Usando as novas tecnologias da informação e telecomunicação, em parcerias com gigantes privadas a maior potencia do mundo estabeleceu toda uma rede de dispositivos e aparelhos de vigilância, desde cidadãos americanos até os chefes de Estados estrangeiros, dos considerado terroristas, até aos aliados e satélites, abrindo uma vantagem estratégica sem precedentes no campo da inteligência. Mas que não duraria muito, como sempre os outros players começaram a apreender como funciona as novas regras do jogo, seus códigos e suas falhas especialmente as propositais. E pelos mesmos backdoors criados por empresas e governos, passaram também a espionar e roubar o novo ouro do século XXI, a informação, incluso dos cofres e sistemas de segurança e defesa dos pioneiros inventores desse novo sistema de controle, pilhagem e exploração. Mais do que uma via de mão dupla, uma faca de dois gumes.

Usando as contradições inerentes dos sistemas econômicos baseado na exploração das classes produtoras-trabalhadoras pelas classes governantes-gerenciais em sua fase globalizada e governos de potencias subjugadas, e novas correntes ideológicas construíram suas estratégias de retomada do poder. Hackearam o sistema de controle usando suas brechas e falhas estruturais usadas para vigiar e extrair informação. Não propriamente para mudar o sistema mas para tomá-lo e controlá-lo.

Não estamos só em uma crise sistêmica, estamos num período de revolução de paradigmas. E paradigmas não só de um campo do pensamento, mas do pensamento em todos os seus campos, políticos, econômicos, culturais, materiais e espirituais. Mais do que uma crise de um campo do saber e do conhecimento, estamos em plena crise de credibilidade de todo um sistema de princípios, valores, suas razões de ser e finalidades. Crises financeira, monetária, socioeconômico e política, falência de Estados-Nações e organismos de diplomacia internacional. Ruptura de tratados internacionais, e organismos de diplomacia, institucional já em sua fase de desastre humanitário e guerra de propaganda e desinformação.

O maior erro do pensamento cientifico, síntese do iluminismo, racionalismo e humanismo, foi ter aceitado as fronteiras da materialidade e se encerrado dentro dos domínios e castelos do materialismo para reinar como autoridade absoluta sobre essa mentalidade e seus campos de saber, nas ruínas do que se convencionou chamar pós-modernismo. A indicação da falta de um novo paradigma consolidado e do período de transição onde o contemporâneo é uma fase onde o que conhecemos como hoje será o pré estado de nova idade.

Em outras palavras não existe um pós na história, porque ela não é contada por quem fica no passado, mas por quem está no futuro e olha para o que passou com as lentes do paradigma que consolidou. De modo que o que é o pós para quem cai, é o pré para quem prevalece. E quem vai prevalecer? Isso é justamente o que está em disputa. E disputa não meramente ideológica, mas paradigmática não só política, econômica, e nem mesmo só cultural, mas epistemológica, disputa pelo futuro como visão do cosmos e de ordem da natureza, do homem e do mundo. Disputa do paradigma que funda o normal e o real.

Sobre o nosso tempo e espaço

(…)Estamos passando por um período de transição muito mais profundo do que uma simples troca da velha guarda pela nova, ou mudança geracional. Essa nova revolução industrio-informacional vai muito além de uma “mera” crise sistêmica e institucional, estamos vivenciando o que Thomas Kuhn chama de crise paradigmática do normal,ou seja, estamos em pleno momento de disputa de qual será o novo paradigma hegemônico que definirá historicamente o nosso tempo.

O conceito de pós-modernidade, é apenas um termo provisório, para o que esse período de transição de construção da temporaneidade onde o que é o pós será o pré de algo que ainda nem sequer possui nome, nem definição, porque não só é um futuro que está em plena construção, mas em disputa. E disputa não só geopolítica por “mentes e corações”, mas social pela cultura que irá definir toda a produção, criação e inovação que caracterizará esse novo período da história que marcará o século XXI.

Neste sentido acredito que o momento brasileiro é de um grito por renovação e inovação na falta de alternativas concretas, revolucionárias no sentido cultural e social. E que o projeto que assumiu poder, tanto como ideologia ocupou mas sem propriedade intelectual, não só no que sua narrativa tem de reacionária, mas do que suas propostas de avanços liberais inegáveis são por si tardias e já ultrapassadas pelo pensamento político-econômico libertário , tanto de direita quanto de esquerda.

Assim como a social-democracia de direita e esquerda implementou de forma tardia o welfare state quando ele já estava em pré-falência no mundo, agora o novo governo tentará trazer o necessário choque de liberalismo e capitalismo que o Brasil nunca teve, porém de forma igualmente tardia e retardatária, e aqui vou usar uma metáfora, para resumir o problema, vai implementar uma rede de telegrafo, porque o Brasil nunca teve uma quando precisou, ao invés de pular etapas e implementar as políticas institucionais e econômicas mais avançadas a disposição no mundo. Um erro que pode parecer só estratégico, mas é antes de tudo cultural, porque essas tomadas de decisão estão fundamentadas sobretudo numa mentalidade.

É um momento seríssimo no Brasil e no mundo. O sistema socioeconômico capitalista está em plena fase de transição da era financeira para o informacional, e nós conseguimos entrar na fase do capitalismo industrial. Necessário se faz um verdadeiro salto cultural e social, coragem para inovar e recriar mais uma vez nossa cultura e não só importar, copiar e reciclar soluções prontas como sucata ideológica de fora como se fosse o novo para o Brasil.

É o momento dos novos paradigmas tomarem o lugar dos velhos decadentes. Mas isso precisa ser feito com urgência, porque o timing histórico é fundamental. No caso do Brasil em especifico, precisamos nos livrar e nos livrar o mais rápido possível dessa cultura, literalmente enfadonha, do populismo, messianismo e sebastianismo seja a esquerda ou direita, para poder construir um novo projeto não só político-econômico mas antes de tudo sociocultural, capaz de trazer para o Brasil a cultura cosmopolita de valorização do fenômeno da vida em sua manifestação mais fundamental: a liberdade. Uma cultura de igualdade de liberdades fundamentais como espaço para o desenvolvimento e realização de todas as infinitas vocações e potencias que não podem mais serem perdidas ou amputadas no berço.

Enfim, você tinha razão, ao antever que nos idos de 22 teremos uma revolução cultural e social no Brasil. Agora se ela será belicosa, destrutiva, reacionário e autoritária, ou pacifica, criativa, revolucionária e libertária, isso vai depender e muito da nossa capacidade de mobilizar pessoas. Porque as soluções e senão os caminhos, mas as direções que devemos seguir e não seguir estão claras. A questão é, quantos além de nós estão conscientes e dispostas não a transferir responsabilidades para terceiros, mas a chamar essa responsabilidade cultural para si na medida de nossa capacidade de ação social.

A necessidade e os desafios e até mesmo os perigos frente a uma omissão são enormes, mas nesse sentido sou otimista, acredito que para quem está disposto a tomar a vanguarda em direção ao futuro e não se entrincheirar em resistências vãs nas fantasias do passado, o caminho finalmente está aberto, sem os impedimentos, obstruções que tanto atrasaram o crescimento dessas livres iniciativas.

Em suma acho que o status quo foi arrasado, como tinha de ser. Agora é hora de quem acredita em algum projeto de Brasil e não de poder tomar a frente, acho que chegou a hora tanto da esquerda quanto a direita libertária se firmarem como as alternativas que faltaram não só políticas, mas sobretudo socioculturais que faltou às pessoas, para que elas pudessem fazer uma escolha livre de verdade de um mundo melhor e não entre qual seria dos pesadelos o menos pior, ou nenhum.

Da razão e loucura nos retrocessos

O retrocesso no campo das liberdades não só de pensamento e expressão, mas de afirmação de relacionamentos consensuais e identidades, tanto coletivas quanto individuais. Você tem razão. Houve um erro descomunal no lido como essas causas e direitos fundamentais da pessoa humana. Houve todo um processo de apropriação e subsequente monopolização e por fim instrumentalização político-partidárias dessas causas e direitos. Esse processo gerou flancos e afastamento dessa percepção da população que passou a identificar essas causas como se pertencessem ao ideário ou até mesmo fossem mera peça de propaganda ideológica deste ou daquele campo do espectro político, quando não, eram direitos jusnaturais da pessoa humana de liberdade de consciência, credo, e pensamento e sobretudo formas de viver, manifestar e relacionar que não poderiam sequer ser postos em questão, não eram propriedade nem objeto de nenhuma outra autoridade para dar, nem tirar de ninguém, mas única e exclusiva da pessoa tanto como indivíduo quanto coletivo formado pela livre comunhão dentro do absoluto respeito da consensualidade de todas as partes integrantes.

Esse processo de apropriação e instrumentalização de causas e direitos universais e cosmopolitas em bandeiras desse ou daquela ideologia, acabou permitindo aos detratores e opositores desses direitos para todos, reduzi-los e pichá-los como se fossem peças de propaganda demagógica ou até mesmo de falsidade ideológica ou de manipulação de massas, quando em verdade eles jamais poderiam ter sido tratados como bandeiras nem da esquerda nem da direita, mas princípios fundamentais de um estado de paz e defesa da liberdade.

Em outras palavras, a demagogia política fez desses direitos fundamentais o cavalo de suas aspirações de poder político e as pessoas naturais que são peças ideários mera moeda de troca de suas negociações políticas. Agora que os usurpadores caíram do cavalo, é preciso preservar esse direito de quem também prefere vê-los ceifados. E o mais importante, para que isso não se repita, não deixar ninguém mais montar em cima, do que não veiculo nem meio para levar ninguém ao poder, mas é o principio e finalidade da sua existência enquanto estado de proteção e garantia, preservação e provisão do acesso e usufruto deles enquanto liberdade fundamental.

Hoje portanto o desafio é muito grande, impedir que se o fronte autoritário, a dos fundamentalistas de direita avancem contra eles pelo flanco aberto pela esquerda autoritária ao mesmo tempo sem deixar que esses direitos novamente sejam monopolizados como se essas representações políticas de esquerda fossem o dono e senhor deles.

Liberdades concretas são direitos de propriedade e usufruto desde o seu corpo, as suas criações quanto as suas relações. Preservar a autonomia e soberania de cada pessoa humana sobre a definição da sua humanidade, personalidade e identidade é absolutamente fundamental para a construção de uma cultura que respeita não só as escolhas e opções de cada pessoa, mas sua livre vontade e vocação. Vida e liberdade. Não são princípios relativos ou submissíveis a ideologias, não são ideações, são fenômenos basilares à criação e conservação e reinvenção de tudo. E isso antes de ser questão de lei ou governo é uma questão de mentalidade e cultura. Cultura de respeito a liberdade, inclusive acima a reverencia e adoração servil a todo poder total ou todos poderosos. Um principio de irreverencia e liberdade absoluta de criação que permeia a percepção artística do mundo e que precisa ganhar o espaço no cotidiano sobretudo o popular. Em suma, mais pensamento libertários e menos autoritário para que as pessoas parem de querer vigiar o rabo dos outros e aprendam a cuidar um pouco mais do seu.

Renda Básica e Democracia Direta e Cultura Libertária, ou o quê?

Por causa do ranço que eu peguei do teoricismo e da demagogia dos tempos que frequentei a USP, acabei perdendo a noção da importância do plano semiótico simbólico da comunicação e conscientização em detrimento do ativismo e ação social.

Renda Básica, democracia direta são bases importantíssimas dessa pirâmide, mas falta o topo que norteia essa revolução social: a ação e produção cultural.

Quanto a renda básica e democracia direta você pode ficar tranquilo, nesse ponto eu felizmente consegui adquirir um domínio sobre a questão razoável. Muitos camaradas gringos tentaram reproduzir o modelo e copiar a tecnologia social, achando que o negócio era só distribuir dinheiro, a lá Silvio Santos, ou bolsa-família, e até hoje estão tentando descobrir porque só Quatinga Velho se manteve enquanto os outros nem saíram ou caíram — e olha que não foi por falta de palestra e aviso. Mas não pense que estou me gabando e é evidente que pode ser aperfeiçoada mas, essa meu amigo, essa é a parte relativamente fácil, no que concerne ao desenvolvimento. Difícil, e especialmente desafiadora é justamente a outra sem a qual o político, nem o social nem com todo o tempo e dinheiro do mundo prospera, o desenvolvimento da consciência, algo que se opera no plano da cultura, contra-cultura e como eu disse você anteviu bem antes, da devida integração em tempo real, das ações culturais com as sociais, políticas e econômicas.

Especialmente difícil, ao menos para mim, é a transformação da mentalidade, a transformação cultural algo que o social, o político, e o econômico são na verdade linhas auxiliares ou mais precisamente plataforma e produtos, mas a programação do novo código, a nova programação dessa matriz que é feita da linguagem estética, artística, literária, filosófica e erudita sim, mas necessariamente também popular. Enfim, é feita de um trabalho que você é um artífice completo tanto como artista quanto mecenas e idealizador de um movimento plural.

O que eu estou dizendo? Sem ela, o projeto de renda básica e democracia direta podem estar perfeitamente desenhados e integrados para funcionar e crescer, mas não vão se expandir organicamente porque a formação da consciência é o maior desafio que um ser humano pode ter na sua vida, que não é o de realizar todas as suas vontades, ou governar as vontades alheias, mas governar-se, ou o que é a mesma coisa se tornar um adulto plenamente emancipado e capaz não só de tomar suas próprias decisões de acordo com seus desejos, mas tomar decisões de acordo com sua livre e espontânea vontade mesmo quando ela contraria seus desejos, vícios, carências e necessidades- que por sinal podem ser manipuladas como estímulos e condições por outros. Sei que você entende perfeitamente o que estou dizendo, e talvez até com mais verdade do que eu, porque como artista você sabe que o desafio do despertar da consciência é o desafio da libertação do pensamento e sensibilidade como vocação criativa e artística. E se no plano pessoal já é uma verdadeira odisseia o que dirá no plano do despertar de uma nação.

Governar-se, portanto não é só uma questão de ter os meios econômicos, capital e renda básica ou políticos, para ter uma república sob o regime de uma verdadeira democracia direta é preciso um contrato social que celebre e funde essa sociedade, é preciso uma cultura de liberdade e logo um movimento que enseje uma busca por sentido e significado da vida além da realização e satisfação materialista e hedonistica da existência. É preciso imbuir a população desse sentimento que antes de ser moral é estético, de que não basta inteligência nem senciência, é preciso desenvolver a capacidade que nos faz humanos, a consciência. É preciso sair da infância como povo e aprender que a liberdade é a livre vontade e a capacidade de governar a nossa própria vontade e não ser governado por elas, ou por quem domina as técnicas para manipulá-la. Esse é hoje o maior desafio. E que entra no campo onde o projeto de renda básica e democracia direta fornece a condição, a base material da transformação, mas a verdadeira transformação de operar com a introdução desde o primeiro momento dessas ações, produtos e produções culturais.

Os projetos de renda básica e democracia direta poderiam ajudar nisto dentro do movimento. Eu particularmente poderia contribuir no plano intelectual ajudando quem realmente vai criar e produzir passando um pouco do meu conhecimento de causa nesses 10 anos fazendo trabalho de base e estudando o libertarianismo, como você sabe, fora escritos filosóficos que dependem muito mais da inteligência do leitor do que da minha capacidade de comunicação, do ponto de vista estético-artístico, teoria da arte fora, sou um verdadeiro ignorante.

Quanto a Democracia Direta, por causa das eleições vários amigos que quiseram encampar o tema me pediram projetos e modelos para efetivar em suas propostas. Esse é um tema extenso, que precisaríamos trabalhar também em cima.

Já quanto ao projeto de Renda Básica, nesses 10 anos evoluiu bastante desde o primeiro desenho. E hoje está bastante consolidado tanto no que tange a sustentabilidade e emancipação financeira. A renda básica de quem entra é por toda a vida, e depois de dado período cada pessoa e comunidade passa a pagar sua própria renda básica conforme sua vida e da comunidade que vai crescendo. O nome agora é Basic Income Startup, porque conforme aumenta o capital do fundo também aumenta o número de pessoas, mas o custo operacional não. Mérito da revolução informacional, não nossa. Claro tem o trabalho de base, que usa a metodologia que lembra uma mistura de Rudolf Steiner com Paulo Freire, mas não é preciso mais que 2 ou 3 meses de trabalho de base.

Como disse essa é a parte fácil. Usando mapeamento georeferencial e um pouco de planejamento estratégico, podemos eliminar a pobreza território por território do Brasil, partindo dos lugares mais carentes e periféricos até os centros mais desenvolvidos. Como disse, o grande desafio é a tirania política e pobreza cultural que retroalimentam seus populismos e paternalismo usando esses territórios para formar seus exércitos de crentes e militantes desesperados. O desafio é envolver a sociedade a assumir livre, voluntária e conscientemente sua responsabilidade sociocultural na medida de suas capacidades e não ficar esperando e rezando que quem tem mais poder ou riqueza façam e resolvam tudo por elas.

Na verdade, a pergunta não é “senão o quê?”, é o com muito mais propriedade “senão nós, quem?”

Uma questão que vai muito além da educação e cultura da liberdade, passa necessariamente pelo desenvolvimento da senciência empática e inteligência solidária até daquilo que chamamos consciência, mas pode chamar invulnerabilidade a manipulação ou capacidade de se governar pela sua livre vontade.

O Elogio da Loucura é um livro de Erasmo de Rotterdam, um humanista e teólogo que viveu durante a idade média, este livro é um ensaio escrito em 1509 e publicado em 1511. Erasmo nasceu em 1465 na cidade de Rotterdam, Holanda. Foi um intelectual que viveu em um convento onde se entregou aos vários clássicos da literatura greco-latina e ao mais diversos autores da Idade Média, sua época. Ordenado padre, teve contato com padres, bispos, papas, reis, cardeais, etc. Foi amigo de Thomas Morus, amigo a quem ele dedicou o prefácio de O Elogio da Loucura.

“Foi pelo fato de ter pensado, no início, em teu próprio sobrenome Morus, tão próximo ao da Loucura (Moria), quanto realmente longe dela estás e, certamente, é seu maior adversário, segundo o conceito que em geral dela se tem.” (carta a Thomas Morus)

Erasmo era cristão, porém com uma visão além de seu tempo para ver as falhas que existiam no fanatismo religioso e na opressão causada pela igreja católica, não esqueçam que ele era teólogo, e dos bons. Ele foi um dos responsáveis pelos pensamentos críticos da sociedade da época que foi base da Reforma Protestante. Agora vamos ao livro… Erasmo de Rotterdam não faz uma crítica apenas à religião fanática, mas também a muitos comportamentos e pensamentos da sociedade, não apena da sociedade da época, mas de um modo completamente atemporal, já que o maus costumes humanos não são perdidos.

(…) O Elogio da Loucura é uma total sátira a sociedade dos séc. XV e XVI, onde ele tinha por objetivo fornecer uma nova visão eclesiástica e renovar a igreja, pois tentou mostrar a sociedade um espelho de si mesma. Seu escrito acabou tornando-se atemporal, pois se você ler O Elogio da Loucura hoje, ainda verá uma sociedade vivendo com os mesmos males e problemas de séculos atrás, a hipocrisia e a perda dos valores da vida ainda são constantes. A loucura, como a definição gramatical, é a insanidade mental, porém ele não define esse termo ao pé da letra, como uma condição humana que podemos adquirir, ele trata a loucura de uma forma externa ao homem, e o homem só será louco se desejar ser.

Em seu livro ele criou a “Deusa da Loucura”, um divindade que metaforicamente é responsável por todos esses maus comportamentos humanos, ela se auto elogia de ser a única forma de fazer o homem sentir-se bem perante seus atos que afrontariam e afrontam as demais divindades, como a luxuria, o fanatismo, etc. A Loucura é filha de Plutão, ela conta sua origens neste trecho:

“Nasci de Plutão(…). Meu pai foi um Plutão ainda robusto, cheio do calor da juventude, e não somente por sua juventude, mas também, sem dúvida, pelo néctar que acabara de sorver avidamente ao goles no banquete dos deuses” (VII — A Origem da Loucura).

A Deusa da Loucura dá ao homem tudo o que ele quer e pode fazer, ela afronta o outros deuses que disponibilizam apenas “alguns favores” a humanidade. Por exemplo, seguindo os preceitos cristão o homem deve ser bom e evitar ao máximo ser corrompido com os devaneios da vida, a loucura entra nesse ponto, ela é a desordem e protege o homem por ter cometido tais atos, a Loucura exerce um poder que não é tirânico nem ditador, a Loucura é a própria alegria…o próprio delírio onde o homem eternamente encontrará o seu conforto. Neste post vou deixar alguns trechos e alguns comentários das partes que mais me chamaram a atenção durante esta leitura. “Não ponho a máscara como aqueles que pretendem representar um papel de sábios e andam desfilando como macacos vestidos de púrpura e como asnos com peles de leão. Que se vistam com disfarces quando quiserem que suas orelhas sobressalientes sempre revelarão um Midas oculto.” (Capítulo V — A Sinceridade da Loucura)(…)-O elogio da loucura - erasmo de rotterdam

Sim Thomas Morus, o autor de Utopia e por muito considerado um dos precursores do ideal de uma renda básica…

“RENDA BÁSICA DE CIDADANIA: UMA UTOPIA POSSÍVEL”

Como bem afirmou o filósofo belga Philippe Van Parijs, assim como a abolição da escravidão no século XIX e a adoção do sufrágio universal no século XX foram os grandes avanços da humanidade nos últimos tempos, a renda básica de cidadania poderá ser a grande conquista do presente século.

Imagine uma comunidade onde todos os moradores têm direito a uma renda básica incondicional e indiscriminatória. Ou seja, todos os seus membros recebem um pagamento mínimo mensal, independente da classe social, gênero, idade, ocupação, estado civil ou qualquer outro fator. Impraticável, diriam alguns. Um incentivo ao ócio, argumentariam outros.

Pois bem, esse lugar existe. E não se trata da clássica Ilha de Utopia, de Thomas Morus. Fica aqui mesmo no Brasil, no estado de São Paulo.

Desde outubro de 2008, a OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) ReCivitas (Instituto pela Revitalização da Cidadania) paga uma renda básica de cidadania no valor de 30 reais a moradores da comunidade de Quatinga Velho, localizada na zona rural do município de Mogi das Cruzes, região metropolitana de São Paulo. Para ter acesso ao rendimento básico basta residir na comunidade.

Preconcebidamente, devido à sua aparente simplicidade, a possibilidade de um pagamento mínimo a todos os indivíduos de uma determinada organização social pode parecer ingênua e quimérica.

Entretanto, os primeiros resultados do projeto Quatinga Velho comprovam que a renda básica de cidadania não é somente justificável do ponto de vista humanitário, é também possível sob o aspecto prático. De acordo com relatórios divulgados pelo próprio ReCivitas e por outras instituições, o rendimento extra de 30 reais mensais, embora modesto, permitiu aos residentes de Quatinga Velho uma melhor alimentação, quitar dívidas, aumentar suas economias, comprar remédios, reformar alguns imóveis e abrir cadernetas de poupança para filhos e netos.

Ao contrário do que se poderia pressupor, em relação ao trabalho não se observou nenhuma mudança na rotina dos moradores por conta da renda básica. Segundo Pedro Theodoro dos Santos Neto, não foram observados estímulos à preguiça, vagabundagem e acomodação ou sinais que corroborem com tais suposições. Não obstante, um morador, com o rendimento básico, pôde fazer uso de transporte público para procurar por emprego.

Além dos benefícios sociais e econômicos, o projeto de renda básica de cidadania também é modelo de solidariedade a ser seguido pelos membros da comunidade. A partir do exemplo do ReCivitas uma família de agricultores passou a destinar os excedentes da colheita para serem distribuídos em uma vila vizinha.

Bom, Quatinga Velho é uma comunidade pequena, possui cerca de 100 habitantes. Dessa forma, uma questão se torna inevitável: seria viável um projeto de renda básica em uma organização social maior? A resposta é positiva. No estado norte-americano do Alasca encontramos o mais duradouro e abrangente exemplo de aplicação de um rendimento básico.

Durante a segunda metade do século passado foram descobertas significativas jazidas de petróleo na baía de Prudhoe, localizada na porção oeste do território alasquense. Jay Hammond, governador do Alasca entre 1974 e 1982, receoso de que os dividendos gerados pela extração do combustível fóssil pudessem vir a beneficiar somente a população que na época residia no estado, propôs a formação de um fundo que destinava garantir, a partir do investimento de parte da receita oriunda do petróleo, a perenidade dessa riqueza.

Sendo assim, em 1976 Hammond enviou ao legislativo um projeto de emenda à Constituição estadual que propunha a separação de 25 % dos royalties da exploração petrolífera para um fundo que pertenceria a todos os residentes do estado (denominado Alaska Permanent Fund). Posteriormente, através de um referendo popular, a proposta foi aprovada.

A partir de então, todos os habitantes do Alasca passariam a receber um dividendo anual, proporcional aos anos de residência no estado, referente aos recursos obtidos através da extração de petróleo em território alasquense.

Contudo a proposta foi declarada em desacordo com a “cláusula da proteção igual”, décima quarta emenda da Constituição estadunidense, pois discriminava imigrantes vindos de outras unidades da federação. Corrigidas as distorções, em 1980 uma nova emenda feita por Hammond propunha que 50% dos royalties do petróleo fossem destinados ao Fundo Permanente do Alasca, instituindo-se um pagamento igual, anualmente, a todos os habitantes do estado.

Finalmente, dois anos após a nova proposta de Hammond, é implantado um programa de abono universal no Alasca. Doravante, toda a riqueza gerada pela extração de petróleo é igualmente distribuída entre todos os que residem legalmente no estado. (…) -Francisco Ladeira, renda básica de cidadania: uma utopia possível

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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