“No presente, vivemos com os símbolos num grau maior do que vivemos com nossos corpos ou diretamente uns com os outros. Como uma forma fundamental de falsificação, os símbolos primeiramente mediaram a realidade e depois a substituíram. Quanto mais absorvido este sistema de representação interna, maior é a distância que nos separa da realidade ao nosso redor. Outras conexões, outras perspectivas cognitivas são inibidas a medida em que a comunicação simbólica e seu enorme leque de instrumentos dedicados a levar a cabo esta representação foram cumprindo um papel de alienação da realidade e a traição contra esta. O simbolismo é um império extenso e profundo, que reflete e faz coerente um ponto de vista do mundo, e que é em si um ponto de vista do mundo baseado na retirada de qualquer sentido humano imediato e inteligível. A cultura simbólica inibe a comunicação humana bloqueando ou suprimindo os canais de consciência sensorial. Uma existência cada vez mais tecnológica, empurra-nos a desdenhar a maior parte do que poderíamos experimentar. é evidente como foram domesticados nossos sentidos numa atmosfera cultural simbólica: submetidos, separados, dispostos numa reveladora hierarquia. A visão, sob o jugo da perspectiva linear moderna, reina devido ser o menos próximo, o mais distanciador dos sentidos. Foi o meio pelo que o indivíduo foi transformado num espectador, e o mundo num espetáculo; e o corpo um objeto ou modelo. Freud, Marcuse e outros viram que a civilização demanda a sublimação ou repressão dos prazeres dos sentidos que causam proximidade, de maneira que o indivíduo possa ser assim convertido num instrumento do trabalho. O controle social, através da rede simbólica, arranca deliberadamente a importância do corpo. Um contra-mundo alienado, direcionado para uma ainda maior alienação por uma cada vez maior divisão do trabalho, humilha as sensações somáticas próprias e distrai de forma fundamental com respeito aos ritmos básicos da vida própria. A divisão definitiva entre corpo e mente, atribuída a Descartes em suas formulações no século XVII, é o epicentro da sociedade moderna. Aquilo ao que se considerou a grande “ansiedade cartesiana” sobre o espectro do caos moral e intelectual, foi resolvido em favor da supressão da dimensão sensual e passional da existência humana. A primeira separação parece ter sido o sentido do tempo, que nos traz a perda da sensação de estarmos presentes para nós mesmos. O crescimento desta sensação é indistinguível da alienação em si mesma. Se, como indicou Levi-Strauss, “a característica principal da mente selvagem é a inexistência do tempo”, viver no aqui e agora é algo que perdemos através da mediação das intervenções culturais. A comunicação verbal é uma parte do movimento que afasta da realidade social face-a-face, fazendo possível a separação física. A palavra sempre se situa entre as pessoas que desejam conectar entre si, facilitando a diminuição do que não se precisa falar para ser dito. Que declinamos de um estado não-lingüístico começa a parecer um ponto de vista são. “nada, de fato, está mais sujeito a suspeita e depreciação em nosso mundo desencantado do que a palavra”. O sentido original da palavra ‘definir’ é, do Latin, limitar ou pôr um final. A linguagem parece com freqüência fechar uma experiência, não nos ajudar a estar abertos à experiência. Quando sonhamos, o que sucede não se expressa em palavras, tal e como os apaixonados se comunicam mais profundamente sem simbolização verbal. O simbolismo numérico tem também uma importância fundamental no desenvolvimento de um mundo cultural. Contar, como nomear, é parte do processo de domesticação. A divisão do trabalho se presta ao quantificável, oposto ao que é completo em si, único, sem fragmentar. O número é também necessário para a abstração inerente no intercâmbio de bens e é pré-requisito para a decolagem da ciência e tecnologia. A urgência de medir traz um tipo deformado de conhecimento que não procura entender seu objeto, senão que procura seu controle. A Arte é uma das formas mais precoces da expressividade ideológica e ritual, desenvolvida junto com as práticas religiosas desenhadas com o objetivo de unir uma vida comunal que começava a se fragmentar. Arte é linguagem e por tanto é evidentemente ritual, entre as mais antigas instituições simbólicas e culturais. Essencial para a aparição da cultura nos assuntos humanos, o ritual não é só uma forma de ordenar ou prescrever as emoções; é também uma formalização do que está intimamente relacionado com as hierarquias e o domínio formal sobre os indivíduosOs ritos funcionam como uma válvula de segurança para a descarga de tensões geradas pelas emergentes divisões na sociedade e trabalho, para criar e manter a coesão social. . As estruturas de autoridade rituais jogam uma parte importante na organização da produção (divisão do trabalho) e promovem ativamente o advento da domesticação. A religião, como a arte, contribuiu para uma gramática simbólica comum que necessitadas tanto pela nova ordem social, como pelas suas ansiedades e fissuras. A palavra religião se baseia na latina “religare”, atar ou juntar, e um tronco verbal grego que denota atendimento ao ritual, fé nas regras. A integração social, requerida pela primeira vez, é evidente como impulso para a religião. A cultura nos levou a trair nosso próprio espírito e plenitude aborígine, num reino cada vez mais degradado de alienação sintética, isoladora e empobrecido. Estamos capturados na lógica cultural que converte tudo em objeto, já que aqueles que aconselham novos rituais e formas de representação como rota para uma existência re-encantada falham completamente em suas conclusões. Dificilmente, mais do que falhou durante tanto tempo, pode ser a resposta. “ JON ZERZAN EM O FRACASSO DO PENSAMENTO SIMBOLICO Que a representação simbólico seja limitada, é inegável, mas talvez seja apressado esta sua sentença a morte. Até porque o julgamento, principalmente é o ato mais primordial do processo de violência simbólica. E talvez epicentro do culto do absoluto. O tribunal epistemológico. Esse julgamento do pensamento simbólico ainda que não seja sumario e sem provas, não é de todo injusto, mas é no mínimo apressado, principalmente se considerarmos que ainda não tomamos coragem para dar forma e expressão a todos os nossos pensamentos como eles deveriam ser dados: não apenas como palavras mas como atos. Não nego que a manifestação do ser reduzida a representação simbólica sobretudo unisensorial reduza a capacidade de percepção humama, mas não creio que a falha de caráter da constituição do ente simbólico esteja no signo, ou na só na desensualização mas sim na hipocrisia do homem. Ou mas especificamente na separação do sentimento da sua significação, ou mais rigorosamente na separação do ente racional-cognitivo do ente emocional-perceptivo; com a consequentemente abstração do signo como um sinal destituído de qualquer necessidade de ser real, e do símbolo como significação sem o menor compromisso de se CONCRETIZAR em atos. Ou em bom português: faça o que eu falo mas não faça o que eu faço, ou prego mas não realizo nada. É a segregação e negação do ato como parte essencial para manifestação do significado do ser, que mata o signo. É a elevação do verbo, do códex, da representação e não mais do ato mas das ideias como a correspondência para a comunicação dos significados que anulou o processo reiterado da palavra-ato-reflexão como manifestação plena do ente. Sem o ato O Significado evidentemente fica destituído de todo o sentido que o signo exige. Uma vez que faz referencia a abstrações conceituais e não mais a concretizações dos conceitos. A representação enquanto ideia é ilusão. Uma abstração. A imagem que não aponta o sentido não é signo é ilusão. E a reflexão masturbação mental. O signo que não concebe uma ação não tem sentido. Palavras sem ações são signos sem sentidos. São mais do que fracasso DA Representação simbólica, são a perversão do símbolo. São a contradição do ato. O simbólico não se realiza sem a comunicação mas essa comunicação não é feita apenas por uma linguagem de representações abstratas , ela é feita por uma linguagem de concepções criticas. E por concepções hipócritas se desconstitui. Há portanto três instancias distintas de manifestação do ser: critica, acrítica, e a hipócritica. Qual é a diferença? Em palavras nenhuma. Na pratica: O acrítico não fala e não faz nada. O critico fala e faz e o hipócrita fala e não faz nada, ou pior ainda fala e faz justamente o oposto. Concepção portanto é o signo constituído como ato, e o ato entendido como um símbolo de inspiração critica. A palavra e a linguagem estão naturalmente envolvidas nesse processo, mas não mais como o a expressão máxima da inteligência, finalidade ou o proposito das ações, mas tão somente como um meio do que são comunicação entre os atores. Na verdade serão os atos que darão posteriormente sentido crítico as palavras, compondo a inteligência dos seres presentes no sistema. É na dinâmica da palavra-ato-reflexão que o conhecimento se constrói. A palavra sem ato é símbolo vazio. E o ato mesmo sem palavras símbolo repleto de sentido ainda que sem conexão. A comunicação pode pois ser necessária a construção do ato, e é por vezes útil para seu entendimento enquanto reflexão, mas não é em si a expressão do pensamento, e sim tão somente sua emulação. Não é portanto o pensamento simbólico que fracassou, mas a tentativa de dar expressão ao pensamento simbólico apenas como copia abstrata da ideia no mundo real, como uma encenação da ideia e não a manifestação da vontade. O ente nada mais é do que a encarnação do espirito, a parte perceptível da vontade, a ideia manifesta como realidade. O símbolo e o ente não estão de fato separados quando o ser se realiza em si. É a encenações que afastou o homem da próprio sentido da existência. É a palavra, a encenação, como uma mentira, como promessa sem intenção, ou vontade de negar o ser, de contrapor a realização do ato como signo, que desconstitui o pensamento simbólico como meio de realização do ser. Quem diz, se não diz para fazer algo então de fato não diz nada. Só o ato tem sentido. Porque é o ato que faz da promessa um anuncio e não uma mentira. É a realização da palavra que conta a historia do seu significado, e não a pre-sugestão dos ouvintes. O símbolos como marcas e mitos fracassaram porque se concentraram apenas em convencer quem ouve em acreditar. Se o contador de historias se preocupasse em ser um fazedor de historias, e em vez de só tentar fazer crer, tentasse de fato realizar e realizando inspirasse no outro a vontade de realizar então ele não teria uma códex, ele seria vida e como vida geraria vida por inspiração autopoética. Ele faria uma revolução sem uma palavra apenas sendo em movimento. Ato e potencia. A diferencia entre escrever poesia ruim e viver em autopoiese. Entre ensinar e aprender. Símbolos foram reduzidos a marcas. mas símbolos são mais que sinais, são atos com sentido para quem os pratica e com significado para quem os presencia. Significado suficiente para inspirar o sentimento de pratica-los. Quem faz com consciência que se comunica: professa, e quem testemunha com consciência que presencia: aprende. Signos, não são signos porque provocam conexões, mas somente quando e enquanto provocam conexões se fazem signos. A palavra só é a musica, os símbolos é que são os verdadeiros passos da dança. Respiração e inspirações. Um signo é uma existência em movimento, a evolução que dentro de uma rede convida outros seres dotados de inteligência a dançar. Poiese e Poesia. É o elemento constitutivo de uma comunicação feita não apenas por troca de informação, mas por nexos compartilhados em ato. Essa rede viva que muitas vezes não precisa de nenhum tipo de linguagem codificada, ou representação paralela apenas da vontade de entendimento. A empatia, é muitas vezes toda a comunicação necessária para que ocorra a identificação natural entre evoluções e revoluções deste sistema. Thomas Kun diz sobre a estrutura das revoluções cientificas e o aspecto genético do paralelo entre o desenvolvimento cientifico e politico: As revoluções politica visam realizar mudanças em instituições politicas, mudanças proibidas por estas mesmas instituições que se quer mudar. Consequentemente seu êxito requer o abandono parcial deum conjunto de instituições em favor de outro. E neste interim a sociedade não é governada por nenhuma instituição. De início é somente a crise eu atenua o papel das instituições politica, do mesmo modo que atenua o papel dos paradigmas. Em numero crescente os indivíduos alheiam-se cada vez mais da vida politica e comportam se sempre mais excentricamente no interior dela. Então na medida que a crise se aprofunda muitos destes indivíduos se comprometem com algum tipo de projeto concreto para a reconstrução da sociedade de acordo com uma nova estrutura institucional. A essa altura a sociedade a sociedade já esta dividida em campos ou partidos em competição, um deles procurando defender a velha constelação institucional o outro tentando estabelecer uma nova. QUANDO OCORRE ESTA POLARIZACAO OS RECURSOS DE NATUREZAPOLITICA FRACASSAM. Por discordarem quanto a matriz institucional a partir da qual a mudança devera ser atingida e avaliada por não reconhecerem nenhuma estrutura supra institucional competente para julgar diferenças revolucionarias os partidos envolvidos em um conflito revolucionário devem recorrer finalmente as técnicas de persuasão em massa que seguidamente incluem a forca. Aparentemente o progresso acompanha na totalidade dos casos as revoluções cientificas. Por que? Ainda uma vez poderíamos aprender muito mais perguntando que resultado uma revolução poderia ter. As revoluções terminam com a vitória total de um dos 2 campos rivais, Alguma vez o grupo vencedor afirmara que o resultado de sua vitória não corresponde a um progresso autentico? Isso equivaleria dizer que o grupo vencedor estava errado e os oponentes certos, Pelo menos para a facção vitoriosa o resultado de uma revolução deve ser o progresso. Além disso esta dispõe de uma posição excelente para assegurar que certos membros de sua futura comunidade julguem a historia passada desde o mesmo ponto de vista. Quando a comunidade cientifica repudia um antigo paradigma, renuncia simultaneamente a maioria dos livros e artigos que o corporificam, dai decorre em alguns casos um distorção drástica da percepção que o cientista possui da disciplina. Em suma vê o Passado da disciplina orientado para o progresso. O membro de uma comunidade cientifica amadurecida é como o personagem típico do livro 1984 de Orwell a vitima de uma historia reescrita pelos poderes constituídos. A comunidade cientifica é formada pelos colgas profissionais do cientista. O reconhecimento da existência de um grupo profissional competente e sua aceitação como arbitro exclusivo das realizações profissionais possui outras implicações. Os membros do grupo, enquanto indivíduos e me virtude de seu treino e experiência comuns, devem ser visto com os únicos conhecedores das regras do jogo ou de algum critério equivalente para o julgamentos inequívocos. Duvidar de existência de tal critérios comuns de avaliação seria admitir a existência de padrões incompatíveis entre si para a avaliação das realizações cientificas. Tal admissão inevitavelmente a baila a questão de se a verdade alcançada pelas ciências pode ser una. Contudo a abordagem da ciência como uma rede dinâmica panárquica similar a rede que esta justamente se desenvolvendo para governança da sociedade, o governe-se, pode alterar radicalmente a ciência: de uma estrutura de poder que carece de revoluções para operar e cooperar como comunidade cientifica, para um sistema aberto de conhecimento descentralizado não autoritário do tipo p2p. Um sistema que permite a convivência de diferentes teorias ou mesmo metodologias capazes não apenas de partilhar de um mesmo status de conhecimento no espaço-tempo do, mas intercambiar informações para dialogar e formar uma rede de conhecimento. Rede esta capaz de prover a humanidade não mais de definições mortas sobre uma universo sabidamente vivo, mas de multiversões ou verdades não excludentes capazes de formar um cosmo mais amplo, complexo e difuso sem necessariamente perder a capacidade de transitar e discernir entre as diferentes e diversas linhas de pensamento. Sem fazer da luta pela definição dos termos um objeto de poder, deixando o campo da ciência como ele deve ser: um campo aberto para a formulação epistemológica. Sem a necessidade da supressão das demais ou obstrução para que se possa constituir uma ideia de verdade ou ciência una. Dispensando a interferência de autoridade ou poderes absolutos, que julguem ou atribuam falsidade ou verdade as teses, substituindo este poder excludente pelo reconhecimento mutuo dos próprios pares constituintes da comunidades auto organizadas dentro da rede. Um sistema aberto, onde as teses e hipóteses como um BrainNet se compõe e difundem abertamente não para serem julgadas mas para serem co-criadas e cuja aderência OU rejeição não se faz nem pelo autoritarismo do senso comum ou da opinião ou de um estado ou de uma corporação profissional mas pelo compromisso epistemológico daquele cientista com o seu paradigma enquanto ele põe sua fé nele (sim fé) aceitando a autoridade compartilhada de seus pares; formando de fato uma comunidade, uma rede de conhecimento que converge naturalmente a um consenso razoável mas não se fecha, centraliza, totaliza, nem jamais tenta neutralizar, nulificar, excluir, julgar, ou negar outras correntes de conhecimento ou metodologias. Não estamos falando em tolerância epistemológica, até porque isto já existe. Tanto nos dogmas religiosos quanto nos científicos. Nem tanto nos políticos, não num mesmo território num plano internacional. Não estamos falando em apartheids epistemológicos, (iguais mas separados), ou seja onde existe respeito mas completa falta de vontade de interação ou integração. Estamos falando de entendimento, compreensão, vontade para copula, síntese, conexão, miscigenação, criação de novas e inusitadas formas de pensamento através da critica e reflexão aberta e sem o uso da violência poder autoridade, coerção, repressão, manipulação, coação simbólica ou bem real, mas pura e simplesmente como coloca Paulo Freire a instituição de um processo dialógico que tenha como resultado a completa desescolarização do ser humano como propõe Ivan Ilyich “Nosso discurso diferente — nossa palavração — será dito por nosso corpo todo: nossas mãos, nossos pés nossa reflexão, Tudo em nós falará um linguagem criadora de vida” (Freire) Mais do que redes autogestadas estamos falando de redes autodeterminadas e que naturalmente através desta arquitetura de autogoverno se constitua uma epistemologia descentralizada, sem autoridades únicas, ou verdades absolutas, somada produção de conhecimento voltado não apenas a comprovação empírica, mas a construção de sentidos para a realidade. Processos que ultrapassam a que quebrem mais que a escolástica e promovam a definitivamente a desescolarização; que sejam capazes de libertar a mente humana dos cultos epistemológicos aos valores totalitários e logicas artificialmente reduzidas ao monocultismo booleano; que libertem nossas redes neurais do culto absoluto. Enfim Desculturalização. Uma ciência não fechada em si mesma ou a comprovação de seus postulados acadêmicos, mas voltada o mundo real e as pessoas. Capaz de reconhecer o principio fundamental do conhecimento que não conhecemos nada a não ser os próprios limites do nosso conhecimento. O mundo real? É evidente que ele existe, mas o que vemos é nossa projeção dele, e há tantas formas de deuses e verdades quantos janelas e suas formas. E é por isso aos olhos da incerteza quântica o deus dos triângulos tem três lados, e a verdade dos quadrados tem quatro. E nenhum dos dois erra, ou mente, nem está negando que o deus do outro seja verdadeiro nem que a sua verdade seja sua imagem e semelhança. Proponho humildemente — até porque não tenho capacidade de transcender o pensamento simbólico- que a chave para os problemas da civilização e da miséria da humanidade não esta no retorno ao primitivo, mas sim no resgate do que havia de genuíno na vida humana antes do advento do cultivo e domesticação do homem pelo homem e portanto sua alienação. Proponho o resgate da autenticidade do espirito humano, pela emancipação do culto e do poder; e radicalização da expressão da liberdade de pensamento, expressão estética e realização do eu como signo da vontade, e da existência com sentido autodeterminado pela significação reintegrado ao sentimento. O ato como manifestação da vontade. A indeterminação como o sentido da existência. E a liberdade como sentido da vida. Proponho um processo de desculturação dos seres humanos através não do abandono do pensamento simbólico, mas da sua efetiva realização como conhecimento pleno sabere, experimentação, vivencia, convivência. Não do abandono da educação, mas da sua efetiva realização. Desescolarizar-se para aprender, e desculturalizar-se para humanizar-se. Proponho o abandono de princípios unos e verdades universais, o abandono inclusive do relativismo totalitário e totalizante, para a abertura de espaço reconstrução de princípios que sejam consagrados universais para quem quiser segui-los. Proponho que ao invés de abandonarmos o pensamento simbólico abandonemos o culto ao absoluto, e façamos da nossa vida a Poiese, autogoverno, manifestação da vontade como signo real. Eu existo logo me conecto, só existo entre seres igualmente do direito a intelecção. Do direito a dar nexo compartilhado a sua vida em rede. Mesmo quando não quero me expressar minha inexpressão é minha mensagem real. O ser consciente da sua condição conexa, de seu estado perene de comunicação, faz da sua vida sua poesia, de seus atos sua mensagem, de suas meio de vida seu linguagem e de sua historia de vida seu verdadeiro ensinamento. Como disse Diógenes para o discípulo que pediu as tabuas que continham seus conhecimentos: “És um tolo, Hegesias; você prefere figos reais a figos pintados em telas. Porém, quer adquirir a prática da vida nos livros, e não na vivência real.” De fato Diógenes o cínico vivia como um primitivo, como um mendigo, um filosofo, um cão, um animal dentro da civilização, mas um animal consciente, um símbolo como ele mesmo construí e descreveu assim: Ele entrava no teatro encontrando frente a frente os espectadores que saíam, e quando lhe perguntaram por que, respondia: “É isso que procurei fazer em toda a minha vida”. A questão não é o fazer-se um asceta. Ou tornar os atos condizentes com os discursos, mas sim a profunda compreensão que a rede epistemológica onde se assentam os paradigmas polípticos, científicos, econômicos, a qual chamamos cultura, essa pirâmide, não é a arque da dinâmica do pensamento, mas o a estrutura condicionadora da mente a qual estamos submetidos e que conforma o raciocínio filocrático, forma a idolatria ao poder, e é a base pela qual replicamos e projetamos uma estrutura logica judicial e sacertodal a natureza como se fosse a própria natureza. Vemos leis onde o que há é ordem e caos onde há a exatamente a mesma ordem que não vemos. Forças onde há movimento e entidades onde existem fluxos. Vemos poderes e forças e energias supremas onde o que há é a trama da vida. evoluções fluxos, campos e movimento. Como o Uno é sempre uma abstração, dado que a existência é diversa o que vemos é o repudio do real, em favor de uma perfeição suprema e fictícia. Continuamos a por nos no centro do universo e fazer do universo a imagem e semelhança de nossa pisque deformada pelo culto ao uno e idolatria ao total. Porém quando a idolatria ao poder total é renegada, o individuo frustrado deixa de fazer do simbólico o meio de compensação de sua irrealização pessoal e manifestação de relação de poder, projeção de seu domínio fetichista; deixa de querer realizar-se perversamente sobre o outro para voltar a realizar-se de forma livre em ato sobre si mesmo. O símbolo perverso e pervertido de encenação e do jogo de poder, domínio e imagem, de negação das liberdades do outro, volta a ser o percepto não imposto ou a impostura de um ente sobre o outro, mas a construção do ser sobre si mesmo, a sua forma de constituição como ente em ato. O ser como ato e não mais como códex, volta a se constituir então em identidade ao individuo. Ser é de novo seu signo e não mais ter, fazer e poder. Viver e não mais Sobreviver é o significado de sua existência. Vida que liberta recupera o seu sentido existencial pela certeza de indeterminação pois tem de volta a liberdade original e permanentemente revolucionaria da criacao do saber pela autodeterminação. É evidente que essa abordagem desescolarizante, desculturalizante e constituinte da ciência como um conhecimento múltiplo e aberto conduzira o método para níveis de rigor transparência e tentativa de universalização da correspondência com a realidade ainda maiores já que não haverão autoridades impositivas concedente o valor de verdade ou falsidade através do monopólio da beatificação das teorias. De fato creio as probabilidades e as incertezas, e a necessidade de operar com variantes incerteza e sistemas mais complexos se tornara um bem mais comum. Esse modelo voltada a reintegração do ser com seu sentido e sentimento e a realização do seu significado não no plano teórico Das ideias e representações, mas no plano real dos atos e criações pode contribuir para o desenvolvimento de um novo tipo de tecnologia social, e ciências humanas que bebendo na complexidade dos outros campos científicos, complexidade necessária a compressão das suas relações, pode ir um pouco mais além na criacao de sistemas. Políticos econômicos e educacionais. Sistemas e programas que passem do ridículo de querem levar luz por decreto. Mais do que ciência uma rede de saber aberto permite a emergência aberta permite o desenvolvimento de um novo tipo de método de um ser humano que não apenas sabe que sabe, mas sabe que seu saber é conexo. Co-Consciência. Nestas redes É possível manter um alto grau de consciência simbólica, com um baixíssimo nível de ansiedade material. É possível transcender a busca estéril por prazer ou felicidade sem cair numa angustia existencial perante a complexidade de um sistema não apenas indeterminado, mas até certo ponto incognoscível. Eis o seu charme. Assim se o sentido da vida não é uma descoberta, mas criação. Por que não devolver ao processo do conhecimento todo o seu sentido original de re-creação? A ciência da liberdade é algo que não se faz na relação objeto observador porque jamais o cientista que abre macacos, e experimenta remédios em gente, irá se considerar um membro comum da sociedade, ele nunca estará do lado das gentes, ele não é objeto de estudo, ele esta apartado do mundo real, ele está abstraído e protegido no mundo das ideias. Essa ciência como sacerdócio, é a própria negação da liberdade e de qualquer ciência ou tecnologia social libertaria. É preciso desertar para o lado dos macacos. E negar-se a ser mero observador do espetáculo, ou objeto de estudo; é preciso se afirmar o construtor consciente de seu próprio futuro; parar de só fazer meia ciência, entender o que está acontecendo, e passar a agir nos acontecimentos. Entender o passado não serve para prever o futuro. Serve para construí-lo. Em verdade a previsão é sempre não para prever mas projetar o horizonte de eventos, e projetando direciona-los a tal projeção. A abordagem da ciência social experimental, não é a negação de uma ciência social objetiva, pelo subjetivismo artístico ou por outro lado pelo reducionismo materialista-tecnicista do social; é a criação de métodos processos e sistemas que resultam em programas ou instituições, produtos, empreendimentos, politicas e até mesmo estados e sociedades que sendo complexos, demandam para seu desenvolvimento empíricos e consciente que se parta de princípios lógicos simples, para equacionar sistemicamente seus objetos de estudos, de modo a compreender sua complexidade e dinamicidade; sendo que de posse deste modelo sistêmico hipotético, começa-se então a introduzir as variantes que irão produzir as alterações sistêmicas esperadas do microssistema em experimentação que tanto transformarão sua realidade conforme o esperado quanto o modelo inesperadamente e vice-versa de forma retroalimentada- os microssistemas são então rede cujas quantidade de conexões reduz a incerteza e multiplicidade de significados para um padrão razoável de previsibilidade e compreensão. É ciência voltada a produção de conhecimento prático, socializável e, altamente transferível, e que, portanto, que não se contenta com a descoberta do novo, mas está comprometida com o seu desenvolvimento aberto. Ciência que não usa a realidade para confirmar teses, mas reelabora indefinidamente teses para afirmar novas realidades. A construção de uma utopia não se perde em negar ou afirmar possibilidades ou impossibilidades, ela se concentra em realizações. Antes de se pensar em distribuir a luz elétrica há que se fazer a lâmpada, e se pesquisar muito sobre um fenômeno desconhecido que um dia será chamado eletricidade. Talvez a ciência reencontre novamente com a criatividade de sua juventude quando voltar a ser o ato subversivo e libertador das doutrinas autoritárias centralizadores e escolásticas. Ciência E Tecnologia Sociais produzidas não mais de cima para baixo ou do centro para a periferia, mas simplesmente de pessoa para pessoa, livres e juntas. Pensar juntos e livremente é talvez a ideia mais simples e poderosa de todos os tempos. Porque ficar pintando paredes ,acorrentado em cavernas é definitivamente a condenação eterna ao mundo das ideias. Governe-se.

Originally published at mvbrancaglione.blogspot.com.br.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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