Onde foi que a experiência da Renda Básica da Finlândia errou? Se é que errou…

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A Previdência Social da Finlândia queria comprovar se oferecendo 560 euros por mês (2.370 reais, pelo câmbio atual) a um grupo de desempregados ao longo de 2017 e 2018, sem exigir contrapartida alguma, obteria pistas sobre como deveriam ser as ajudas sociais na era da informatização, como incentivar a busca de emprego entre os beneficiários de subsídios e como reduzir a burocracia. Encerrado o projeto, as conclusões são ambíguas.

Os resultados preliminares mostram que o dinheiro caído do céu não teve nenhum efeito na empregabilidade dos participantes. Trabalharam praticamente as mesmas horas e ganharam o mesmo — excetuando os ganhos da renda básica — que outro coletivo de características similares. Por outro lado, a renda básica serviu para melhorar a saúde, a autoestima e o otimismo de seus beneficiários. (…)

Os defensores do projeto insistiam em que uma renda básica sem qualquer contrapartida evitaria que os beneficiários de outros subsídios rejeitassem empregos por medo de superar o teto da renda que dá acesso a essas ajudas. E que, por não terem que se ocupar da burocracia dos serviços sociais, essas pessoas poderiam dedicar seu tempo a procurar emprego de forma mais eficaz. (…)

A renda básica é uma ideia antiga. E, frente à imagem muito difundida de que se trata de uma iniciativa esquerdista, várias vezes foi defendida por ideólogos liberal-conservadores, que a apresentavam como o pretexto perfeito para eliminar as outras ajudas sociais. O experimento finlandês nasceu, como admitem seus promotores, com duas limitações: estar direcionada a um grupo concreto, o dos desempregados, e uma duração predeterminada de dois anos.

Olli Kangas, professor da Universidade de Turku que liderou a pesquisa, mostra-se satisfeito com os resultados, embora insista que ainda são provisórios. No próximo ano serão conhecidas as conclusões finais. Mas, por enquanto, destaca-se a importância de que os participantes no projeto-piloto tenham se sentido mais seguros, no comando de suas vidas e com melhor saúde mental e física. “Estou consciente de que os adversários da renda básica não prestarão atenção a estas melhoras e focarão no fato de que o projeto não teve efeitos em sua situação trabalhista”, continua Kangas.

O fato é que a possibilidade de a Finlândia introduzir algum tipo de renda básica generalizada parece cada vez mais distante. O projeto nasceu com a ideia de ser prorrogado e ampliado a outros grupos além dos desempregados, mas o Governo de centro-direita anunciou em abril de 2018 que ficaria só em dois anos. O ministro das Finanças, Petteri Orpo, deixou claro seu desdém pelo programa. E nenhum dos grandes partidos que aspiram a obter uma maioria nas eleições parlamentares de abril mostram muita simpatia por ampliar o projeto. “Nem os sociais-democratas nem os conservadores nem os sindicatos defendem a renda básica”, admite o pesquisador Kangas.

No mundo acadêmico, as posturas estão muito confrontadas. Miguel Ángel García, pesquisador da FEDEA (Fundação de Estudos de Economia Aplicada), de Madri, não esconde seu ceticismo com uma renda básica cuja adoção seria “não só cara como complicadíssima”. “Não acredito que a sociedade receberia bem uma renda generalizada para todos. E que um aposentado que trabalhou a vida toda ganhasse o mesmo que alguém que se esforçou menos. Acho prioritário procurar soluções para coletivos como os trabalhadores pobres e os que não têm acesso ao mercado de trabalho, mais do que impulsionar medidas tão duvidosas como a renda básica”, acrescenta.

Sua opinião é confrontada por ativistas como Guy Standing, pesquisador da Universidade de Londres e autor de Basic Income: And How We Can Make It Happen (“renda básica: e como podemos fazê-la acontecer”), que acha necessário rever todo o nosso conceito de trabalho e de tempo, e procurar recursos onde for para garantir condições de vida dignas a todos os cidadãos. “A experiência da Finlândia não é um bom exemplo, porque os participantes foram escolhidos ao acaso em todo o país. E não em uma pequena comunidade, onde os benefícios são mais evidentes”, diz por telefone.

Kangas, o responsável pelo estudo finlandês, admite algumas deficiências em seu experimento e que talvez a perspectiva de uma renda básica em seu país seja hoje ainda menos realista que há algum tempo. Mas, pergunta-se, quem sabe o que ocorrerá em médio prazo? “Será que um norte-americano de 200 anos atrás poderia imaginar que a escravidão seria abolida?” — Finlândia conclui experiência de renda básica universal com resultados ambíguos

Não há nada mais fácil do que emitir pareceres e conselhos de como as coisas deveriam ter sido feitas ou não, depois que alguém foi lá e fez. Nada mais cômodo do que dizer que eles erraram nisto ou naquilo, com ares de inspetor de engenheiro da construção civil, sobre uma área que está em franca fase de construção por experimentação, ou seja depende justamente do aprendizado advindo dos acertos e erros destas iniciativas.

Guy Standing portanto está correto em recomendar em que numa comunidade menor os benefícios seriam mais evidentes. Mas pergunto, como ele saberia disto se não tivesse a oportunidade de estudar a experiência da India em 2012, e antes dela os experimentos de Otjiviero Omitara e Quatinga Velho não indicassem que esse era um caminho? Notem: um caminho, e não “o” caminho, porque se a experiência da Finlândia tivesse obtido os resultados esperados os entusiastas estariam agora cantando o sucesso de sua abordagem, assim como seus detratores silenciando providencialmente sobre tal achado. Ademais como o próprio Guy deve se lembrar, não faltavam há época, dez anos atrás, quando os primeiros experimentos começaram a publicar seus resultados em pequenas comunidades os críticos que alegaram de antemão que tais estudos (e projetos) eram completamente irrelevantes e porque o número de pessoas era significante- não só para qualquer tipo de análise científica, mas para qualquer pretensão de uma renda básica governamental maior: nacional. Assim, se ampliarmos essa amostragem do tempo, essa nossa certeza de hoje era, salvo o desvio padrão, justamente a absoluta certeza… diametralmente contraposta.

Minha crítica é portanto direta, mas não é pessoal, não é feita a Guy que conheço e só guardo boas lembranças, foi dele por exemplo que ouvi lá por idos de 2010 em almoço na Suíça, pela primeira vez a história da prefeita que foi pioneira na implantação do bolsa-família então ainda bolsa-escola, coisa que eu incauto até então não sabia. Fora o incontestável fato que lhe dá toda autoridade para aconselhar sobre as práticas pioneiras, porque não foi só uns dos primeiros teóricos que entendeu o que os projetos provocariam, como comprou a ideia e articulou uma experiência ainda maior na India, sem perder tempo, já em 2012. Minha crítica, portanto, é contra a temeridade de fazermos dos avanços a temeridade da armadilha de cairmos no mesmo lugar. Não é porque a trilha pioneira tenha sido bem sucedida, ou pelo assim consideramos, que ela seja a única, ou a melhor a levar os demais a Roma.

Assim, se nessa linha, algum erro ocorreu na experiência da Finlândia, não se deve descartar a opção de prosseguir sem copiar ou levar em consideração os acertos (e erros) dos projetos antecessores como referência, mas se e tão somente se tal decisão tenha sido tomada de forma consciente, ou não. Se tinham ou não conhecimento de tais referências; se as simplesmente ignoraram; ou levando-as em consideração optaram por outras alternativas no seu entender mais apropriadas às finalidades da experiência, isto é algo que somente os responsáveis podem responder por. E sejamos sinceros, essa é a questão que importa mais para o desenho de futuros projetos, do que para uma avaliação justa dos fatores determinantes dos seus resultados.

O papel dos pequenos projetos, os comunitários, é gritar e fazer barulho, as vezes desesperadamente para serem vistos e notados, não importa se o respeitável público quer ouvir ou o diretor do espetáculo quer que eles desapareçam, porque disto depende a sua sobrevivência. Já entre a descrição no papel, os projetos maiores não vão ouvir as falas desses que são os meros figurantes, quando não penetras no roteiro da sua peça em cartaz. Logo, se fogem do script isso é mérito deles, e não propriamente uma falha, apenas porque não deu certo.

Por exemplo, a abordagem comunitária é uma questão caríssima para o projeto de Quatinga Velho. E isto que foi causa de muitos dos nossos piores ataques, era uma de nossas maiores defesas:

Small is Beautiful

The proportional small scale of Quatinga Velho isn’t a problem or limitation to be overcome, but an advantage to be replicated and multiplied. To obtain a basic income capable of being empirically defined as such, we must not only begin with little and peripheral communities, but also expand the system in a decentralized manner, through the multiplication of these basic cores integrated in networks. Allowing the decision instances to remain on the basis and preserving the libertarian purpose of the basic income.

Such cores allow a decentralized and growing expansion of the basic income according to the available resources, as well as the establishment of a plan of combat against the social inequality and the eradication of the poverty that prioritizes, inside the great territories, their most vulnerable or needy zones, allowing a more rational, targeted and efficient use of the resources, however without falling for the harmful traps and vices of the conditioned programs, promoting the productivity instead of the dependency and the social integration instead of the socioeconomic discrimination and segregation.- (Paper present in BIEN Congress Munich and ISTR Congress, 2012)

Mas e daí? Me dá 10 real e mais o dinheiro do busão, e eu pinto a tua casa. Não sou nenhuma autoridade. E o mais importante, mesmo que fosse o pica das galáxias, e daí? Se o projeto da Finlândia não ignorou as vozes do que já percorreram ou estudaram esse caminho por soberba, mas porque confiou na sua leitura dos problemas da sua realidade e do seu mundo, e mesmo assim no seu entender falhou, falhou então com dignidade, e mais importante com toda a experiência necessária para perseverar e tentar de novo, não como mero observador apartado, mas como ativista cruzando a tênue linha que separa os experimentos sociais com gente, e as experiências que constroem o social para gente (e por princípio tão leiga ou sábia), como a gente. E aí eu te digo, meu amigo, bem vindo ao lado “negro” da força.

Por isso ao contrário do que sugere a reportagem não há nada de ambíguo nos resultados, excepto os interesses que orbitam em torno da renda básica, incluso de quem é responsável por publicitar esse tal “dinheiro que cai do céu”. Até parece. A única coisa que conheço que cai de graça do céu é chuva, incluso a ácida, tem gosto de pilha, especialmente aos saudosos domingos de labuta em Cubatão. E mesmo assim há quem pague seu dizimo em dia, esperando que de fato algum dia qualquer alguma coisa caía de lá, embora não sejamos injustos com quem governa o céu, a grana nunca chegou lá?

Definitivamente não há nada de ambíguo nos resultados, até porque como todos os demais experimentos, eles são uma repetição dos mesmos. E nisto nós, os entusiastas da prática, temos que dar a mão a palmatória aos teóricos, porque os resultados não fazem senão comprovar exatamente o que eles previam como benefícios positivos. Eram eles gênios e pitonisas? Não, nós que somos todos idiotas, que precisamos dar uma martelada no dedo, uma flor a uma outra pessoa, e escrever um relatório de não sei quantas páginas dizendo que salvo o desvio padrão, ninguém gosta de passar fome, medo, nem ser obrigado a se vender e fazer o que não quer porque não tem como recusar. Mas mais imbecil que nossos “experimentos” em renda básica, é nossa sociedade que ainda perguntamos com ar afetado: mas será, meu amor? Não, puxa uma pistola e manda todo mundo correr que até aleijado levanta e anda, ou não, e depois espantados nos perguntamos, porque a democracia liberal está ruindo? Nossa, porque será? Perai, para o mundo, deixa eu fazer um estudo… não melhor um experimento… sinceramente se esse fosse o caso daria razão a Adam Smith, melhor contribuição daria para a conquista do pão se tivesse aberto uma padaria.

Porém não é esse o caso. Nas práticas pioneiras não existem os bons e maus exemplos, não a priori. Existem apenas exemplos de aplicação, que por mais que falhem em tudo, o que não é o caso, ainda sim devem ser considerados como exemplo a ser seguido no mais importante aspecto: a persecução da prática e sua realização. O que por sinal o afasta cada vez mais a ação social do mero teste, estudo, ou experiência como propósito, e a aproxima cada vez mais da própria realização e concretização da ação social como a finalidade da sua execução. E qual outra deveria ser?

Neste sentido, o projeto da Finlândia é, independente de quaisquer resultados, um exemplo da lição em si mesmo de como fazer um projeto de renda básica: não se contentar em falar, mas fazer, e de preferência preservar fazendo. Outro bom conselho principalmente quando ele não precisa ser dado, mas basta ser copiado. Nunca escondi que o modelo aplicado na Finlândia não era propriamente o “meu favorito”- e não preciso nem dizer qual é, e não questão de preferência mas de necessidade, fora que os filhos da gente, mesmo sendo horrorosos são sempre uma graça-, mas havemos de ser justos: inferir que resultados inconclusivos implicam que ele não possa ser ajustado e eventualmente funcionar é simplesmente falso.

Assim como é absolutamente falso, do ponto de vista da concretização da renda básica, atribuir fracasso a qualquer projeto que tenha tido a coragem e ousadia de sair do papel. Basta ver quantos anunciaram e fizeram muita espuma, e não saíram do papel- mesmo os mais bem intencionados. Antes de ser projeto ou uma experiência é uma luta, e nessa dimensão que não aparece nos reports ao menos não de forma explicita, é que define não só o sucesso ou fracasso dessas batalhas e estratégias, mas a sobrevivência de uma iniciativa por vezes que sequer teve a chance de entrar no campo.

É por essa e por outras razões que tomo a Finlândia como uma vitória gigantesca, especialmente quando havemos de nos lembrar que nem ha 10 anos atrás, só a pregação da ideia já era coisa de louco, a prática então nem se diga, uma ideia por sinal muito bem desqualificada como impossível há mais de séculos. Bem, agora as trincheiras do possível-impossível são outras, e chegar em Marte não é mais impossível, temos os foguetes e alguns deles sim funcionam bem, obrigado, resta agora encontrar quem queira embarcar e sobretudo financiar esse passo da humanidade, ou fabricar os seus, tanto faz, desde que cheguemos lá. E faço questão de agradecê-los em público, porque simplesmente pela visibilidade que deram a renda básica no mundo, tenho certeza que contribuíram para que quem nunca ouviu falar no nosso projeto, mesmo aqui no Brasil, viessem a tomar conhecimento via o interesse que a iniciativa despertou.

Agora rasgação de seda, fora, encerro esse escrito com uma última critica (que basicamente resume toda a ladainha dos nossos discursos na Europa no período de 2015 compilados e publicados em algum livro por aí):

O pesquisador da FEDEA está certo. Ou pelo menos certo em dois pontos cruciais para defender com correção seu ponto de vista cético: a renda básica em larga escala é cara e inexequível. Ou pelo menos os modelos teóricos clássicos. As demais críticas são bobagens. Bobagens e armadilhas que perdemos tempo em refutar com senão mais bobagens, com irrelevâncias. É como a piada dos filósofos e matemáticos presos com engenheiros numa ilha, enquanto estamos preocupados como os primeiros a fazer cálculos e debates para provar que o coco existe; é nutritivo, e ainda por cima gostoso, os engenheiros estão simplesmente procurando onde encontrar e como abrir o coco. Estamos muito preocupados em fornecer provas sobre a renda básica para quem não quer nem precisa de provas, só precisa do bendito coco. E o pior estamos trabalhando para fornecer provas para quem por sua suas razões e interesses particulares está plenamente convencido do contrário, e sabe melhor do que nós porque não quer ninguém comendo, especialmente de graça os seus cocos. E se os cocos são deles não é porque simplesmente assim eles os proclamam , mas porque os tomaram de fato.

Nenhum avanço em nenhum campo jamais se deu por provas, se era bom ou ruim, mas simplesmente porque alguém colocou algum instrumento para funcionar sem perguntar para ninguém, ou se não pegou ou copiou, comprou a ideia porque achou que também sairia ganhando com isso, ou gastou se apropriando. Da bomba, ao avião, passando pelos estado de bem estar social aos ativos tóxicos ninguém se perguntou onde isso ia dar, ou como diria Keynes até sabiam, mas não era problema deles, mas dos seus filhos e netos. O que não quer dizer que devemos proceder da mesma forma, quer apenas dizer que estamos tentando fornecer prova cientifica, social, filantrópica para um público, esteja ele no mercado, no estado, ou mesmo na sociedade que não dá a mínima para esse tipo de prova mas sim para demostrações financeiras, alguns mais bem elaboradas em números racionais, outros reduzidas a mera apelação emocional, mas no final das contas movidas por interesses quer gostemos ou não, são outros. “Prova” disso, se fosse o contrário, as napalms jamais existiriam.

Então, não, não são experimentos, nem seus reports que irão mudar essa mentalidade. Talvez uma renda básica universal ajude a mudá-la, mas aí voltamos ao ponto de partida, que precisamos desenhar projetos que não sonhem em transmutar a falta de empatia de quem está satisfeito com a personalidade da sua pessoa física e jurídica, mas que justamente pelo contrário se sustente a revelia do seu desdém e desprezo, para não dizer oposição. Logo, justamente a abordagem e o procedimento contrário daquele de contar ou buscar a aprovação e subsídio deles. Não vou contradizer as impressões do cordenador do projeto da Finlândia sobre o apoio das suas instituições; não vou dizer que isso pode não ser um erro fatal na Finlândia, mas não tenho a menor dúvida do quão perigosamente fatal esse erro é, não só para os projetos, mas para os cordenadores quanto mais à margem dos centros e periferias não só do mundo, mas dos interesses e poderes domésticos está iniciativa está (geo)politica e economicamente localizada. Fica a dica.

É preciso pensar as experiencias da renda básica menos como um teste e mais como o desenvolvimento de um programa de tecnologia social, de preferência altamente replicável e transferível. Quem constrói um avião, ou um foguete não o faz para testar se deve ou consegue ir ou como ir, mas o faz para chegar até lá, com a absoluta certeza de que isso pode ou deve ser feito, ou meramente como prova que é possível. Fazer do projeto um mero teste, já por si só há perda das oportunidades e passos concretos para sua realização e constante aperfeiçoamento. A questão acerca da construção de programas e tecnologias sociais sobretudo quando já passamos da fase dos primeiros modelos rudimentares onde provamos que é possível se manter voando, é como reproduzir isto em série com viabilidade econômica, isto é, baixar seus custos, aumentar sua autonomia e performance e impacto socioeconômico. Enfim fazer dessa tecnologia social de fato um programa não só viável e exequível para quem pode financiá-lo e tem interesse de fato em fazê-lo, e não falo aqui apenas dos mais ricos entre os ricos, que são caso perdido, mas dos pobres, porém nem tanto. Pois embora não possam tudo, ainda querem fazer alguma coisa, dado que nem todos enxergam os mais carentes que eles como seres de outra raça ou espécie que ocupam seu espaço e comem seus recursos que a providência divina reservou á sua gene nessa terra e ainda por cima, -veja só quanta indolência!- insistem em não só em sobreviver, mas ainda por cima se reproduzir- que desaforo!.

E quando digo, fazer alguma coisa, não digo que esse despertar passe por discrições do “tudo de bom” e que bem a renda básica faz pelos outros, as pessoas que recebem a grana, mas sim o que elas, que no final das contas estão pagando ganham com isso. O que a renda básica faz de bom pela vida senão particular, coletiva de todas elas? No fundo se esse discurso é voltado para o bolso do cidadão, do governante ou mesmo do financista, não importa, mas o que interessa, é o que ela faz por ele enquanto tal. O problema é que não podemos ser ingênuos e comprar a propaganda de que esses interesses são harmônicos ou podem ser congruentes, quando em sua essência e na prática como demonstra a contabilidade, são no final das contas o contrário.

Constituir projetos de renda básica que não sejam só política mas financeiramente viáveis e sobretudo mostrar qual é seu papel político e econômico é tudo o que interessa, principalmente se esse papel não representar apenas possibilidades de custos mas de ganhos futuros, ainda que de longo prazo, é tudo que importa . E nisto que a renda básica é subestimada e mal defendida, incluso por seus defensores e nisso me incluo.

Educação, saúde, infraestrutura são todos investimentos que com o modelo financeiro adequado não só são viáveis, mas altamente lucrativos. Com a renda básica não é diferente, o mesmo bolsão de miséria que é a base de exploração da indústria da miséria e tirania, é também onde se guarda o maior potencial de crescimento e logo retorno de investimento social. Sou a favor que se lucre com a miséria? Não. Preferia que todo o lucro obtido neste processo fosse investido para acelerar ainda mais o desenvolvimento econômico e humano. Mas o que eu prefiro ou quero é literalmente irrelevante. O ponto é que a renda básica incondicional, quer o tiozinho amargurado não goste, quer o acadêmico ortodoxo duvide, quer o sindicalista pelego, o governante populista assim como patrão escravagista tenham urticárias, não importa, que eles se explodam de preferência todos juntos e abraçados, assim como não importa toda a minhas reservas e considerações morais. Se quem detém o capital, financiará isso por interesses puramente altruístas, ou pecuniários, ou qual será a porcentagem entre um ou outro, isso é um outro problema, um problema para o qual é necessário desenvolver uma solução concreta primeiro, ao invés de ficar perseguindo o próprio rabo.

A pergunta é, o que queremos com essa tal de renda básica universal? O que queremos com isso, senão uma ferramenta, uma tecnologia? Acabar com toda a forma de escravidão moderna disfarçada de empreguismo e trabalhismo? Ou remediar sua exploração seja liberal ou socialista? Se é a primeira opção, Passo a pergunta seguinte: qual é nossa prioridade? Libertar as pessoas, crianças incluso, em que morrem ou são obrigadas a trabalhar incluso como bucha de canhão nos grotões do mundo que não queremos nem saber que existam, ou o meu (des)emprego de bosta? Não se engane, não estou separando as coisas, ambas estão profunda e intrinsecamente ligadas, mas não só a ordem do seu combate altera o produto, como altera o custo desta batalha e as chances do seu progressivo e solidário sucesso, que não é nacional, mas internacional e cosmopolita, é como a renda básica universal e humano. Ademais, embora o sofrimento seja sempre relativo e subjetivo, e imensurável senão para quem o sofre, no limite do derradeiro ele, infelizmente, é sempre absoluto, objetivo e inexorável igualmente para todos.

Não, a renda básica universal não é um mero instrumento de combate a miséria e pobreza extrema, é muito mais do que isso, é de fato garantia de liberdade fundamentais e universais, mas que se na prática não partem da garantia das necessidades e dignidades mais básicas e vitais de quem mais pode para quem mais precisa, não é renda básica, e não é universal, não em todo o seu potencial libertário, humanista e cosmopolita. Mas se alguém tiver suas necessidades básicas providas sem que para isso outro ser humano tenha as suas subtraídas, ponho de lado todas as minhas objeções e me junto de quem quer que seja em favor de não deixar uma vida padecer pela estupida e desumana razão de não ter sequer como se manter, não importa por qual motivo quem ajuda isso não acontecer.

Enfim, projetos de renda básica não tem que provar nada, fora o que qualquer coisa que se dignifique a requisitar capital, supondo que não o faça de forma forçada, tem que demonstrar que consegue no mínimo sustentar financeiramente e entregando o que prometem não só em renda, mas em ganhos econômicos que podem ser capitalizados por quem fez este investimento. E quem pensa que dentro do Estado a coisa funciona de forma diferente, é porque ainda não se tocou que essa época acabou, ou melhor, quebrou.

Sinceramente não vejo problema em quem olha as pessoas pobres como fonte de oportunidade e riqueza, vejo problema em quem olha para elas como fonte da sua riqueza ou pior, dos seus problemas.

Onde falta desenvolvimento econômico e sobra carestia, é justamente a localidade que guarda o maior potencial de crescimento e fonte de toda a riqueza futura; não como subtração do alheio- até por que eles nada tem para tirar senão mais trabalho por privação primitiva- mas como produção e valor agregado as livres iniciativas e potenciais humanos até então desperdiçados. Os ganhos nestes locais como todo agiota e semi-escravagista bem sabe não são só certos, mas obscenamente altos. A questão não é, portanto, se o investimento nessas pessoas e lugares é viável ou lucrativo, mas se aqueles que irão financiá-lo irão apenas manter os ganhos exclusivamente para si, ou permitir que elas também adquiram participação e usufruam da riqueza comum que será alavancada a partir desse investimento na principal infraestrutura que sustenta qualquer sociedade, seu povo. Do contrário, o nome dado ao processo de exploração é o mesmo que conhecemos a milênios: escravidão -mas fala diferente que somos hoje muito politicamente corretos e civilizadamente sensíveis e conscientes (especialmente com uso das palavras).

Então toma as palavras de Kangas como as minhas:

Será que um norte-americano de 200 anos atrás poderia imaginar que a escravidão seria abolida?”

Não sei. Mas sem mais iniciativas que coloquem em prática a garantia incondicional do mínimo vital e ambiental, via renda básica ou não, com certeza não teremos nada parecido com outra abolição, que dirá então a extinção da miséria. O que não quer dizer que os “escravos” especialmente os de hoje, especialmente não vão desaparecer. Muito pelo contrário como inclusive demonstra a história das Américas de um pouco mais de 200 anos atrás…

Pois é, Edward Lorenz tinha razão, uma borboleta bate asas (ou morre) no novo mudo, neva no velho, e vice-versa.

A questão não é portanto se o investimento nessas pessoas é viável ou lucrativo, mas se aqueles que irão financiá-lo irão apenas manter a renda básica ou permitir que elas também adquiram participação e usufruam da riqueza comum que será alavancada a partir desse salto do investimento na principal infraestrutura que sustenta qualquer sociedade, seu povo. Quando financiar a renda básica for outra questão óbvia e evidente, quem sabe com sorte e mais cedo do que outros dez anos, esta talvez seja a próxima grande dúvida. Quem sabe? Eu pelo visto não sei. Não sem experimentar.

X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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