O zero conceitual: as Ideias, a Realidade e os Fenômenos

Ou da Ciência, Consciência e o Senso Comum

Quem nunca se encontrou diante de uma teoria ou descoberta científica que não entra na sua cabeça? Simplesmente ela parece não fazer sentido… Quem nunca? Mas, não esquente. Há idéias descritas em teorias científicas, especialmente modernas e contemporâneas, que simplesmente não foram feitas para fazer sentido nem entrar na cabeça de ninguém… nem mesmo na do cientista. E se ele diz o contrário, mente. Não que a teoria seja falsa ou o cientista um charlatão… não é nada disso. A questão é que assim como há coisas invisíveis a olho nu que simplesmente não podem ser “vistas” sem instrumentos adequados, há ideias que também não podem ser “entendidas” sem os respectivos instrumentos adequados, neste caso os conhecimentos e raciocínios específicos. Assim como há coisas que só podem ser “vistas” ou melhor detectadas por aparelhos artificiais, há ideias que só podem ser “entendidas” ou melhor processadas, possuindo e aplicando procedimentos e cálculos mentais adequados- muitos deles hoje também por sinal impossível de serem processados também sem máquinas que os computem.

Porém dizer que a mente entende espaços com mais de 3 dimensões é uma licença poética. Sim, dizemos que “vemos” átomos ou os raios-infravermelhos. Mas assim como é evidente que não os vemos nem podemos visualizar nada fora do espectro visível, não da mesma forma que as coisas que estão dentro do nosso campo de visão, também é evidente que não conseguimos compreender ideias e espaços com mais de 3 dimensões que reconhecemos, não com a mesma naturalidade e raciocínios intuitivo que conseguimos perceber estes planos dito comuns. Em outras palavras, não se pode dizer, portanto, nestes casos, que entender seja literalmente a mesma coisa que compreender. Quando dizemos que ideias como um espaço com mais de 3 dimensões não fazem sentido, estamos fazendo uma afirmação perfeitamente correta, e sincera, acerca do que sentimos, ou mais precisamente acerca da nossa percepção. Não fazem, nem podem fazer sentido. Tais conceitos ou objetos simplesmente não fazem sentido ao senso comum, e nem poderiam: não são perceptíveis para nosso aparelho sensorial; não estão dentro do campo de detecção da nossa percepção natural. A questão é portanto que não há uma relação necessária entre aquilo que faz sentido intuitivamente e o que é real ou verdadeiro, especialmente quando os objetos do conhecimento estão além dos planos da nossa percepção e até ideação ordinárias. Logo, assim como os raios infravermelhos não podem propriamente serem vistos pelos nossos sentidos, mas são detectados por aparelhos e sensores, as ideias como a de espaços com mais de 3 dimensões também não podem ser propriamente concebidas ou projetadas por nossos raciocínios, mas podem (e são) trabalhadas com as lentes das teorias científicas. O que não raro como nas dimensões além da nossa percepção sensorial, quer dizer, trabalhar “às cegas”, ao menos em relação ao senso comum.

Já é lugar comum dizer que a ciência desafia o senso comum. Mas de certa forma muito do que a ciência tem feito ao longo da sua historia pode ser descrito exatamente dessa forma: ir além dos limites do senso comum para ampliar nosso conhecimento. Um processo de descobrimento de novos campos e objetos de conhecimento que se faz tanto pela quebra das fronteiras dos nossos sentidos, ou mais precisamente ultrapassando suas delimitações inatas com instrumentos tanto de observação quanto de raciocínio, ou em termos mais artificiais e computacionais ainda: de detecção e processamento de dados.

Nesse processo um dos maiores saltos foi o desenvolvimento de instrumentos que permitiram ampliar os limites ordinários da observação, como o telescópio e o microscópio, e consequente extraordinariamente os campos do nosso conhecimento. Porém de nada serviriam esses primeiros instrumentos de detecção, ou talvez sequer teriam sido inventados sem o advento dos primeiros instrumentos lógicos de processamento, que compõe o método científico. Especialmente porque muito do método científico se concentra não só em aplicar a experiência à investigação da natureza das coisas, mas justamente aprimorando a certeza da investigação empírica através desse método que visa eliminar o erro, o engano e a ilusão das observações mediadas num primeiro momento pelos aparelhos sensoriais naturais através desses métodos e de raciocínio que incluem procedimentos controlados de observação, a experimentação, denominados científicos.

Os primórdios da ciência foram constituídos sobre o senso comum e continuam a se valer e constituir-se dele com a mesma devida correção em muitos campos de estudo. O senso comum está portanto longe de ser um entrave para a aquisição do saber. Constituído do nosso aparelho sensorial foi, é, e será (enquanto não formos robôs, mas pessoas naturais) a base de toda nossa percepção e conhecimento e antes deles do próprio pensamento. Se pensamos é porque antes sentimos, percebemos. Mas a qualidade dessa faculdade também tem sua delimitação- aliás, como toda qualidade formativa é também delimitadora. O aparelho sensorial que constitui nosso campo de percepção é o mesmo que constitui por necessidade cognitiva o campo oposto que o constitui por contraposição: o imperceptível. Esse mundo que é imperceptível que tem sido desvelado pela ciência.

Não é um exagero chamar essas técnicas de raciocínio que compõem o método cientifico de raciocínio como instrumentos que embora conceituais. Técnicas são instrumentalizadas diretamente pela mente humana muito antes de serem automatizadas através de aparelhos e instrumentos artificiais criados para tanto. Tanto que sem tais instrumentos e dados muitas mentes humanas conseguem não com as mesmas provas é claro, mas conseguiram chegar as mesmas conclusões apenas se valendo da sua percepção sensorial natural e talvez muita “intuição”. Mas esse é justamente o diferencial da ciência, ela permite que pessoa comum e consequentemente uma comunidade chegue a novos consensos, se valendo de dados que cada uma delas poderia reproduzir sem a necessidade de possuir nenhuma faculdade mental ou sensorial especial superdesenvolvida. Pessoas comuns que estudando e experimentando podem chegar às mesmas conclusões e saberes comuns. Desde que é claro tenham acesso a tal educação. Mas isso é uma outra questão de impedimento político e econômica, talvez até cultural e social e não de limitação intelectual e nem muito menos epistemológica.

Porém foi-se a época ou fase da ciência em que ela desafiava apenas o nosso senso comum, a nossa percepção ordinária com observações extraordinárias. Hoje as teorias e concepções científicas que explicam tais observações e já são aplicadas para transformar a própria realidade ordinária com invenções e adventos derivados de tais descobertas desafiam mais do que o senso comum. Foi-se o tempo de ultrapassar só os limites da percepção. A ciência contemporânea desafia a própria razão comum. Desafia a inteligência ou mais precisamente os limites da nossa própria intelecção, nossa capacidade de processamento, não só de computacional mas lógica. Ideias como outras dimensões dentro do universo, ou de outros universos dentro dessas dimensões ou em outras exigem uma revolução completa não só na mentalidade, na forma como vemos e projetamos as coisas e o mundo. Exige uma revolução da nossa própria inteligência. Um novo entendimento tão crítico dos aparelhos naturais de processamento de dados, sua lógica, idiossincrasia e limites de concepção da realidade quanto a que o método cientifico procedeu com percepção sensorial.

A grande revolução da primeira etapa da ciência não foi ela se voltar para o estudo do universo e natureza. Isso os filósofos e naturalistas já faziam e antes deles muitos outros homens sem sequer se chamarem de filósofos, naturalistas ou cientistas. A grande revolução da ciência foi o método. E o método não olhou e se questionou propriamente sobre o mundo, mas para os próprios olhos do observador, sobre a própria visão do homem, através da razão. A revolução do método cientifico está no objeto do seu consentimento que constitui seu procedimento, que não está meramente na observação do mundo, mas a própria visão a observar o mundo.

Hoje a nova revolução cientifica que, se não está em curso, há de vir senão como ciência, como novo método de procedimento a aquisição do conhecimento é a revolução que coloca não só meramente a percepção em questão, mas a própria razão no processo de concepção do(s) mundo(s). Se a ciência hoje é uma apologia da razão como método de aquisição do conhecimento em detrimento a sensibilidade especialmente a ordinária, a ciência, ou esse conhecimento deixará de ser uma apologia da razão pelo método racional , mas uma crítica da razão pelo mesmo método racional. Um procedimento de produção de conhecimento dirigido a distinção dos construtos mentais sobre a realidade e o real que representam fenômenos e os que são produtos lógico ideários que embora necessários a aquisição e processamento do conhecimento não passam de abstrações. Uma consciência da nossa ciência. Uma ciência que distingue claramente os fenômenos da nossa intelecção dos fenômenos. Ciente portanto do processo mental de produção de conceitos e ideias que não são senão do ponto de vista científico outro instrumento de mediação do entendimento com correspondência com o real.

Dentro da ciência atual já não estamos mais a desafiar nosso senso comum, mas nossa inteligência comum. Não foram os limites do campo da nossa percepção que foram quebrados, mas os da nossa intelecção. De modo que, cientificamente, muitas vezes, trabalha-se com conceitos que entendemos, mas não propriamente compreendemos, conceitos que não podem ser representados sem imagem ou ideias literalmente sem sentido, mas que “funcionam” ou são “reais”. Novamente recorrendo ao exemplo das raios invisíveis e as outras dimensões: se esses raios só precisam de aparelhos sensoriais artificiais bem específicos para efetuar sua detecção e são até que processados com certa facilidade por nossa razão, as ideia de outros planos e dimensões adicionais, carecem por sua vez de fundamentos muito mais complexos, que muitas vezes exigem cálculos lógicos e matemáticos que passam bem longe do intuitivo para processá-los.

O grande problema desse aparente paradoxo, está justamente nas aparências, ou mais precisamente nas imagens e projeções do mundo naquilo que chamamos de realidade por oposição as meras ideias ou concepções. O conhecimento humano, entrou numa fase com a ciência, em que o método cientifico não deve apenas questionar as armadilhas da aquisição do conhecimento empírico-sensorial, mas do lógico-racional. Não é só os sentidos e logo a percepção que está sujeita aos erros e ilusões das próprias delimitações conformativas mas a mente e a intelecção. Não são portanto objetos sensoriais que podem ser ilusões provocadas eventual ou necessariamente pelo próprio processo da percepção sensível, mas também os objetos e conceitos que podem ser abstração geradas igualmente pelo próprio raciocínio, na produção do pensamento e conhecimento.

Porém se há algo que a ciência demonstra é que existem outros planos dimensionais e que não podem ser conhecidos nem pelos nossos sentidos naturais ou mais precisamente nosso senso comum. Isso significa não só que exitem outros planos dimensionais e objetos invisíveis nas formas de conhecê-los e entendê-los que não são mediadas diretamente pelos nossos sentidos naturais, ou mais precisamente nosso senso e razão ordinários. Há coisas que não são imperceptíveis, mas perfeitamente inteligíveis, outras que não são inteligíveis, mas são cognoscíveis. E ainda outras que não são nem perceptíveis, nem inteligíveis, nem sequer cognoscíveis. E não temos como saber isso, não sem investigar os próprios limites não do universo, ou sua percepção, mas da nossa capacidade de inteligir a universalidade, e mais do que isso o limite do cognoscível, seja como percepto ou concepto, mas sobretudo como fenômeno que enquanto fenômeno não é uma coisa nem outra e eis toda a questão.

Uma questão que vai muito além do ser e não ser, porque a atribuição conceitual de vazio ou inexistente nada explica senão o nosso próprio desconhecimento da questão, a medida que o nada, ou inexistente em si é a mera negação do que (re)conhece como existência e não necessariamente uma das coisas que não são imperceptíveis, mas perfeitamente inteligíveis, outras que não são inteligíveis, mas são cognoscíveis. E ainda outras que não são nem perceptíveis, nem inteligíveis, nem sequer cognoscíveis. E não temos como saber isso, não sem investigar só os limites do próprio universo, mas também da nossa capacidade de inteligir a universalidade, isto é, nossas limitações para conhecê-lo, tanto no que concerne a percepção quanto igualmente a intelecção. Seja como percepto ou concepto, mas sobretudo como fenômeno que enquanto fenômeno não é uma coisa nem outra. Eis toda a questão. O desconhecimento por oposição ao conhecimento não é uma atribuição positiva do que se sabe não existir, mas uma operação lógica complementar onde o produto a somatória imponderável do nada e o incógnito. É literalmente x da questão, e não uma resposta. Rigorosamente mais uma representação do nosso desconhecimento do conhecimento do que da existência desconhecida, inexistência desconhecida ou mesmo dos limites da nossa cognição de todo conhecimento possível. Em outras palavras, nunca se sabe o que o “nada” representa algo que de fato inexiste, se desconhece, ou para todos efeitos nunca vai se conhecer… até é claro, que se prove o contrário, e o existente se dê a conhecer sem o menor aviso, sinal ou possibilidade de previsão.

Filósofos, matemáticos e cientistas gostam de pensar que a estranheza com suas linguagens e objetos abstratos ou extraordinários de estudo seja mera falta de costume ou educação popular, afinal não é preciso ter nenhuma faculdade extraordinária para conseguir compreender e produzir tais raciocínios, apenas reflexão e estudo. Contudo a estranheza não está na falta de aplicação do estudante, mas na ausência do objeto quando não da ausência de sentido das intelecções sobre o objeto devidamente presente a percepção. Parece muitas vezes que quando não estão a tentar provar por A+B o invisível, estão a tentar provar igualmente por A+B o que é evidente, tentando provar que o lobo existe. E assim o sábio termina devorado.

De fato a mente já processa estes cálculos e raciocínios automaticamente em tempo real, naquilo que chamamos de visão de mundo, ou percepção das coisas. Não portanto exatamente sobre as coisas evidentes ou invisíveis que essas reflexões versam. Não interessa provar por A+B o que qualquer caboclo já sabe: o lobo existe. Mas versar simplesmente realidade não importa do quê, mas sim porquê, como, de onde vem para onde vai, quando… É literalmente uma forma de pensar que visa prever o imprevisto, determinar e indeterminar, ver o invisível e pensar o impensável. E isso não é um jogo de palavras.

Se a ciência produziu o que produziu, para o bem e para o mal, através da correção da observação metodológica consciente das particularidades do próprio processo de observação. O que ela poderia produzir através de métodos de intelecção consciente das correções necessárias ao próprio processo de intelecção? Se no primeiro caso fomos capazes de ver o invisível, ainda que através de máquinas e aparelhos capazes de fazê-lo por nós. No segundo seriamos capazes de pensar o impensável, entendendo de fato? Ou seriamos capazes de construir inteligências que não fossem meras imitações do nosso aparelho intelectivo, mas máquinas capazes de processar os dados da realidade de forma completamente distinta, atribuindo sentido e significado a coisas que para nós são mais ideias instrumentais do que conceituais? Sim, inteligências artificiais, que não apenas processam mais rápido, nossas ideações e abstrações de acordo com nossa lógica e visão de mundo, mas com toda uma lógica derivada dos perceptos e conceptos característicos do plano sensorial distinto em que essa mente literalmente habita. Ou não. Talvez, compreendendo de fato como funciona nosso conhecer, mudemos nossa mentalidade e interesses… talvez passemos a aplicar nosso saber em coisas mais interessantes e importantes do que criar imitações de aparelhos sensores ou inteligências artificiais, mais ou menos distintos do nossos… digo interessantes e importantes tais como o desenvolvimento da nossa própria inteligencia e sensibilidade. Mas isso é uma outra questão.

A questão atual é outra. Fazemos ideias das coisas através dos fenômenos e supomos saber que são só ideias abstratas e as coisas concretas, ou mais precisamente intuitivamente sabemos, o que foi e é extremamente, como dissemos, útil a sobrevivência da humanidade, mas já não é mais suficiente. Não agora em que a nossa própria ciência e capacidade de produzir conhecimento e ferramentas capazes de transformar o mundo nos colocaram artificialmente em maiores riscos que a própria natureza. Há quem pressuponha que esta é uma mera questão de ética, mas se a ética que não é normativa mitológica e dogmática, e sim a prescrição de ações fundamentadas na ciência e consciência, é necessário desenvolver ambas para que ela possa ser aplicada ao menos por aqueles que não são governados por mitos e dogmas. E nisto reside o maior das dificuldades a ser ultrapassadas: raciocinamos sobre as coisas como uma extensão da própria divisão do eu e do mundo. Julgamos que uma ideia faz referencia a coisas concretas ou mentais sem fazer um exame critico e rigoroso do nosso próprio processo de ideação. Cientificamente desconfiamos dos nossos sentidos, mas não da nossa razão, e por isso mesmo não raro tomamos objetos e operados mentais como se fossem fenômenos ou representações de coisas concretas, quando sua existência embora útil e necessária para o conhecimento da realidade, não é algo real, mas uma abstração que compõe a ideia das coisas concretas. Os números por exemplo. Ou a própria distinção entre eu e o mundo, ou de qualquer ser e o todo em geral. Tais distinções são absolutamente necessárias para conhecer cada ente em particular, mas elas anulam e exigem que se recomponha o todo através de relações e conexões que na realidade não se distinguem da realidade nem de um ser, nem de outro, mas os compõe como uma mesma entidade, porém indistinguível e portanto incompreensível enquanto tal em sua totalidade que compreende inclusive o próprio observador e a observação. Conhecer é antes de tudo muito mais ignorar do que saber. Um processo sempre particular que envolve tanto ignorar seletivamente o todo em favor do objeto que se concebe, quanto compor simultaneamente sua concepção em correspondência com os espelhos do seu não-ser, o mundo, a totalidade renegada e ignorada. Distinguimos os seres fazendo, compondo abstrações do que no real indistinto, e conferimos sentido a abstração que representa esse ser concebido como real religando a ideia desse ser com o que o mundo através de abstrações tomadas por forças e entidades reais a compor um mundo tomado por realidade quando é mais a negação da nossa concepção do que sua totalidade. Fenomenologicamente ignoramos para conceber objetos e concebemos relações para dar nexo ao que em si não tem sentido, relações que se corretas não existem, mas são propriedades da existência não só dos seres correlacionados, mas da própria existência fenológica onde o objeto e a relação são indistintas e logo incognoscível em sua totalidade ou perfeição. Em outras palavras, separamos as coisas para ver cada uma delas, e depois precisamos a juntar para que elas façam sentido, no entanto, o produto desse montar e desmontar a realidade como um relógio, não só não compreendemos jamais a coisa como um todo, como várias peças que supomos que fazem o relógio funcionar são na verdade instrumentos e projeções que nos ajudam a ver e entender, coisas da nossa cabeça, e não propriamente partes desse relógio que sequer é um relógio senão na nossa cabeça.

É óbvio que as coisas concretas são ou não são. Mas essa realidade é mais metafísica do que outra coisa quando incluímos nossa própria cognição na equação. Simplesmente não podemos conceber tal distinção perfeitamente com é ou não é, não porque as coisas não sejam simplesmente assim, mas porque não processamos o ser e não ser das coisas assim. Ser e não-ser enquanto representações mentais fazem sempre referência aquilo que conhecemos, e não aquilo que as coisas são ou não são. São compostos muito mais daquilo que sabemos e não sabemos do que propriamente do que como as coisas realmente são. E não há nada que nos demonstre que aquilo que vemos e pensamos é a imagem e representação perfeita da realidade, muito pelo contrário. O não-ser epistemológico, aquele que se forma em nossa mente, não é o equivalente ao nada fenomenológico, que é rigorosamente uma suposição (necessária diga-se de passagem) a composição da ideia que corresponde ao fenômeno. Até porque a ideia de nada é um produto do processamento lógico da negação das coisas concebidas com existentes. E esse não-ser longe de explicar o que desconhece, é parte do complexo lógico integrado ser-não-ser que define a ideia da coisa pelos seus contraste, ou relação entre opostos que compõe a sua definição.

O senso comum- ou melhor, a razão comum- divide as coisas em ideais e reais, o mundo das ideias “abstratas” e o mundo das coisas “concretas”. E podemos dizer que distinguir entre as coisas concretas ou sensíveis que existem no mundo e as ideias ou abstrações que fazemos delas em nossa mente é um dos estágios mais básicos e necessários a qualquer conhecimento ou ciência. Tal distinção de tão básica pode parecer completamente natural e automática para quem já está acostumado a fazê-la, mas não é um raciocínio inato ou intuito como o próprio raciocínio que produz a correspondência entre coisas sensíveis e as abstrações que as representam como ideias em nossas mentes. Essa noção ou consciência é adquirida, apreendida e reforçada através da reflexão; e não se processa automaticamente a cada nova coisa ou ideia, sem a devida reflexão sobre o objeto do pensamento. E mais, não existe tal distinção absoluta, pois da mesma forma que uma ideia completamente fantástica, fictícia, ou imaginária, sempre é composta a partir dos dados da concretude sensível , possuindo portanto um “fundo de verdade”, a ideia de um objeto concreto sensível, também nunca é composta sem fragmentos de ideação ou idealização. De tal modo que a distinção entre o real e o ideário, o verdadeiro e falso, não difere de um processo intuitivo de investigação, onde a mente trabalha com as melhores probabilidades com praticamente certezas, ou o que é a mesma coisa, literalmente certezas para fins práticos e imediatos.

A própria noção do eu e do mundo contudo não é uma distinção inata ou com delimitações concretas e ideais predeterminadas nem física nem preconceitualmente. A distinção entre o eu e do mundo está fundamenta nos fenômenos que constituem nosso pensamento, mas antes de ser uma ciência desses fenômenos é uma abstração que se processa intuitivamente como formação de uma consciência. Tal divisão entre ideias e coisas concretas é um processo consequente da tomada de consciência da nossa própria existência enquanto seres pensantes. Penso logo existo, e sei que existo enquanto penso. A concepção do eu, a distinção do próprio ser independente do não-eu, o mundo, é absolutamente fundamental para o desenvolvimento do pensamento e da consciência, mas ao mesmo tempo que essa concepção se processa, imediatamente se faz necessário estabelecer as relações entre os objetos espelhos que se definem assim por contraste não só das suas distinções mas das conexões.

De modo que não há só mais mistérios entre o céu e a terra do que pode supor nossa vã filosofia, como o ser e não ser é de fato só uma questão, e não propriamente a representação perfeita de tudo nem muito menos do nada. E axiomatizar tal possibilidade de conhecimento e principalmente de saber perfeito, exatamente como intuitivamente fazemos quando sabiamente cotidianamente não questionamos através do nosso senso e razão comum, é o oposto do que propõe o método de investigação científica. Não é só a realidade que não cabe em divisões binárias de ser e não-ser, e carece do x da questão, do incógnito, da representação matemática do mistério, do desconhecido mesmo como incognoscível para completar suas equações. A concepção de todas as ideias, da qual esse ideia de real também faz parte, é equacionada conscientemente ou não pelas mesmas contraposições binárias absolutas que não compreendem, ou mais precisamente ignoram o desconhecimento como componente fundamental a formulação dos conceitos e definições que também da mesma forma não podem ser simplesmente anulado sem prejuízo a ciência e consciência do mundo e da mente.

Há portanto uma ilusão ou erro constante, provocado pela necessidade e delimitações inerentes ao processo cognitivo da intelecção. Não podemos nos livrar dele, sem nos desfazer da nossa própria razão, mas tomar consciência dele, conhecer a natureza dessa delimitação conformativa da nossa mente e consequentemente dos nossos construtos mentais que servem de blocos a construção da nossa própria visão do mundo e realidade permite que trabalhemos em um outro nível de consciência em relação a todo nosso conhecimentos incluso os científicos. E de certa forma tal correção já começa senão a ser feita, a ser demandada dentro da própria revolução das teorias científicas, especialmente da física, que lidam com o extraordinariamente pequeno (a mecânica quântica) e o extraordinariamente grande do último século (a relatividade).

Independente do nosso conhecimento ou da nossa capacidade de conhecimento, de quantos universos existam ou quantos possam existir, fenomenologicamente existe ainda sim fisicamente apenas um mundo, o dos fenômenos. Porém a ideia de que os universos podem formar a totalidade de um conjunto é uma projeção. Não só porque esses universos podem estar fora da nossa cognição ou serem completamente desconexos, e sua inferência ser dada literalmente pela falta ou vazio que marcam a sua desintegração não só do que propriamente pela sua presença ou co-existência, mas simplesmente porque a própria ideia de conjunto é uma projeção epistemológica. Mais precisamente uma projeção antropomorfizada do mundo de acordo com a da nossa própria ideia de corpo e organismo. A teoria dos conjuntos não é uma forma de organização universal, mas sim uma forma de como organizamos as coisas para podermos entendê-las e sequer é a única, visto a arquitetura igualmente conceitual das redes. Algumas propriedades ditas universais do(s) universo(s) são ainda mais evidentemente projeções das nossa visões fisiológicas ou até mesmo culturais de organização, como por exemplo a ideia de leis. E ainda sim elas se aplicam ao universo, ou mais precisamente podem ser aplicadas com sucesso ao seu entendimento, mas não pertencem a ele. Não são fenômenos. E aqui chegamos a fronteiras da nossa intelecção, o mundo como espelho invertido de nosso ego. E é aqui geralmente que a mente que sabe se perde sem saber se é uma borboleta sonhando que é um sábio, ou um sábio sonhando que é uma borboleta. Nem as coisas concretas são uma ilusão, nem nossa concepção das concretas são reais, e isso não é um paradoxo do conhecimento nem da existência. Mas sim a aferição lógica de simplesmente não são exatamente a mesma coisa. O mundo dos fenômenos não só evidentemente distinto lógica e concretamente enquanto coisa do construto mental, a concepção que fazemos desse mundo tanto como fenômeno quanto ideia, mas essa construção mental não corresponde jamais, não senão simbolicamente, a esses fenômenos.

Epistemologicamente, existem portanto não 2 mundos, mas 3. O das ideias , o das coisas concretas, o das ideias das coisas concretas, que não é o mundo das coisas concretas nem sua projeção sobre nosso imaginário ou ideário, mas a nossa projeção imagética e idearia sobre ele. Inteligimos o mundo exatamente como os morcegos pelas alterações nos nossos aparelhos sensoriais e intelectivos e delas inferimos o mundo e suas transformações. Do mundo dos fenômenos conhecemos apenas as pegadas que ele deixa e conseguimos enxergar. E vendo interagimos porque também não apenas pensamento, mas seres concretos, fenômenos. Logo aquilo que supomos tratar pelo mundo da física é muito muito mais a matriz das nossas impressões desse mundo dos fenômenos, que rigorosamente a nossa cognição não tem nada de físico, mas é literalmente aquilo que se chama metafísico. E ao mesmo tempo que estamos dentro dessa grande matriz que é o mundo dos fenômenos como um fenômeno, esse mundo só existe para nós como nós dentro da nossa cabeça, e é ele que está dentro dessa matriz que é o universo do nosso pensamento e nele é abstração, ou ilusão.

A ideia das coisas concretas não fazem jamais correspondência direta as coisas concretas, mas são indiretamente mediadas por nossas percepções subjetivas e intelecções abstratas, e é a elas que fazem referência. Da realidade temos apenas inferências intermediadas por esses processos mentais. Quando portanto o cientista fala de universo, consciente ou não disto, ele não rigorosamente não fala do mundo dos fenômenos, mas da sua matriz mental, sua projeção imagética do mundo. Ele está lidando antes com os dados do aparelho de detecção e processamento do real, e não diretamente com a realidade. E são universos completamente distintos: tanto quanto podem o ser as ideias abstratas e as coisas concretas. A concretude é na representação do mundo físico e é construída mentalmente de forma tão abstrata quanto ficção e fazer a distinção entre ideias que só existem como operadores mentais para a produção da inferências do real, e as concepções que inferem realidades que não presentes a nossa percepção e intelecção comum exigem uma profunda consciência da nossa própria mente e ciência. Sem a qual o metafisico e o físico e o mitológico se confundem para compor conhecimentos que dizem muito mais sobre as pretensões e delimitações da cognição humana do que sobre o mundo. Onde sem a menor sombra de dúvida o maior mito é a ideia prepotente de nossas concepções dos fenômenos correspondem aos fenômenos, ou que é a mesma coisa que os fenômenos são idênticos a nossa cognição em finitude e potência.

Um nova ciência demanda o fim da apologia a ciência, sem evidente decair na degenerescência retorno a qualquer forma de pensamento primitivo idolatra e mitológico, que é uma forma de adoração alienada do ego impotente projetado em entidades toda ou superpoderosas. Ela demanda não um passo atrás, mas a frente. Não somos o centro do mundo, nem o mundo está subjugado a nossas formas e conformações, não é feito a nossa imagem e semelhança, mas sim nós parcial e infimamente a dele. Nossos sonhos de onipotência e onisciência são exatamente o que a palavra diz: sonhos de poder e saber de pessoas que perante a universalidade não são mais que borboletas sonhando que são os sábios.

Ciência demanda consciência da ciência e não só ética, é epistemológica. É metafísica, que não é senão a própria matéria-prima da ciência, o mundo dos fenômenos incognoscível enquanto tal, mas perfeitamente interagível e inteligível na exata medida que o abstraímos simbolicamente e nos apropriamos deles enquanto tal como abstração,a única forma que concretamente podemos sem perder ou destruir a sua natureza.

Tão ou mais importante do que conhecer e controlar os fenômenos da natureza é conhecer e controlar os fenômenos que nos permitem fazê-lo, tomar consciência da ciência. Tomar controle metodológico do processo de intelecção de modo a sermos capazes não só de distinguir as abstrações intelectuais que pressupomos por forças e fenômenos elementares da natureza, mas ao fazê-lo sermos capazes de entender que muitos dos paradoxos não estão propriamente nos fenômenos, mas na nossa preconcepção das particularidades e dimensão da nossa intelecção como princípios universais e reflexão do universo.

O universo e a universalidade, é sempre uma dedução feita a partir de particularidades, e que se constitui da capacidade de transpô-las nunca escapa completamente delas, nunca deixa de ser uma ideação sobre a realidade que em sua perfeição é incognoscível.

Quem sabe quando compreendermos que nossos objetos de estudo nunca são os objetos universais, mas nossas particularidades a partir dos quais os deduzimos com mais ou menos correção na exata medida que somos capazes de reconhecê-las e distingui-las do que é universal e concreto por exclusão poderemos até naturalmente enfim não só ver o invisível, e pensar o impensável, mas de fato visualizar e entender o que ainda não entendemos nem faz sentido, mas é tão real e ainda mais fundamental do que tudo aquilo que vemos e concebemos como a concretude da materialidade ou ignoramos metafisicamente enquanto a essência ou em outros termos o espírito das coisas.

Pode parecer um contrassenso (e é) chamar o mundo fenomenológico de metafísico. Mas o acesso que temos a ele é através das ideias das coisas concretas, o mundo físico, a dita realidade que é mais conceitual que fenomenal. Porém, essa é uma questão mais de termos do que de objetos. O importante é a tríplice distinção em substituição a dual da nossa própria representação cognitiva do eu pensante, o mundo pensado e o mundo propriamente dito que pertence e deve sim ser representado no pensamento não como o mundo pensado, mas como construto mental que represente o contraposto de ambas abstrações. Um zero conceitual que embora sendo uma representação simbólica mantenha a maior correspondência possível com o objeto fenomenológico: a negação das concepções abstratas tantos das coisas concretas quanto mentais. Ou seja, o nada ou zero epistemológico que é na verdade o todo fenomenológico. Pois, para equacionar essas nova visão da realidade não basta apenas buscar o x da questão, há que se equacionar o zero conceitual na somatória da realidade e ideação para encontrar tanto o vazio conceitual quanto seu contraposto: a existência fenomenal. E assim como o zero material é a representação existencial da inexistência, o zero conceitual é a representação conceitual do inconcebível. O conjunto vazio que representa a realidade abstraída e não sua abstração. Um concepto de tudo-nada a qual escolho representar com o símbolo Ⓐ, em reconhecimento a revolução do pensamento que inspira essa reflexão que antes de tudo é sobre o nada.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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