O xeque-mate de Etchegoyen

Os militares não vão tomar o poder, isso eles já fizeram. A pergunta agora é o que eles farão com ele?

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Tolo o civil que acha que milico é tonto, e só obedece ordens. Não os generais. Eles podem bater continência para seu superior, e acatar ordens da figura institucional, mas na hora da guerra, inclusive a política, não gastam munição com o espantalhos, não miram na figura institucional, mas na pessoa de carne e osso que encarna o espantalho que rendido serve também como fantoche.

O xeque-mate já está desenhado, é uma questão de lances. Se eles serão dados ou não, esse é digamos o mote para esse ensaio. Ensaio que não é sobre o futuro de Temer, cada vez mais irrelevante no que tange ao da nação, mas sobre as guerras e estratégias na era da informação. Um fator muito mais determinante ao sucessos de projetos de poder e contra-poder, do que as personas que serão usadas para representá-los.

Assim sendo, se a informação procede e Galloro é Echengoyen o xeque-mate dos militares já foi dado. O que não quer dizer que o rei será derrubado antes. Emplacar a indicação da PF foi só o movimento que faltava, a tomada da casa que faltava (por um peão) para deixar o rei sem saída dentro de suas defesas. De modo que no presente momento as peças do adversário já não se movimentam para onde o jogador quer, mas para onde o oponente o conduz ou permite conforme deixa essa ou aquela saída. Logo se o rei ainda não foi (ou será) derrubado, não é porque quem joga com essas peças não tenha percebido que o mate é inevitável, mas porque sabe que a nenhum dos contendores interessa que a partida seja encerrada assim, ou pelo não exatamente agora. Não interessa nem aos militares nem as oligarquias disfarçadas sob o codinome mercado, os únicos players que tem ainda cacife para se manter no jogo. Jogo que convenhamos é mais um poker cheios de blefes do que um xadrez. Até porque a política também não passa ela mesma de um blefe.

O xadrez político é só espetáculo; o jogo das representações que nós que não jogamos, mas somos literalmente obrigados a pagar para ver. A verdadeira política, as verdadeiras disputas políticas, não estão nessa mesa, mas essa mesas, a da política, é ela que faz parte do jogo… apenas uma das mesas desse grande cassino da geopolítica mundial que antes de tudo é uma guerra econômica de administrações estatais e privadas.

Metáforas fora, a política não é xadrez, é guerra. Guerra feita com outras armas em outros territórios e teatros de operação, mas, ainda sim, guerra. Aos que dizem que a política é o oposto: “é a arte da conciliação, a arte de celebrar pactos”, até nisso, na definição, ela é só roubo e pilhagem, dado que a arte da celebração de pactos sociais não forma Estados, mas por definição sociedades. A dita conciliação na política, não difere em nada da formação de alianças e tréguas entre entidades permanentemente beligerantes, criminosa ou legais. Pactos e alianças para derrotar e pilhar inimigos comuns; tréguas para poderem se preparar para disputar o butim. Uma arte portante muito mais militar do que propriamente civil, até porque historicamente uma aristocracia nada mais é do que os descendentes civilizados de acentrais criminosos muito bem armados. Uma tribo de guerreiros assentada como governantes sobre as classes dos produtores-trabalhadores reduzidas a servos e escravos. Claro que os sistemas de produção mudaram muito ao longo do tempo com a divisão entre trabalho e posse, e a especialização das suas formas e variedades. Mas em essência a política -para além do teatro de máscaras da sua representação- não. Quem tem as melhores armas manda quem não tem cava.

Falamos em armas e nós que vivemos num fogo cruzado, logo pensamos em pistolas, principalmente nós que ainda vivemos num pais que coronéis e cangaceiros não viraram ainda peças de museu. Mas pistolas faz tempo que perderam em poder de fogo para o dinheiro. E recentemente o dinheiro também perdeu seu poder de fogo para a mais poderosa arma do século XXI: a informação. Não foram com balas, mas com essa arma que militares venceram essa importante batalha e demarcaram seu território dominando estrategicamente os palácios do Planalto Central. Foi (e é) com informação e não fuzis que eles continuam a avançar e tomar progressivamente posições estratégicas no Planalto Central. Sim os militares estão a tomar essa posição estratégica a capital, mas sem tanques nem sítio, e sim como os próprios velhos comparsas derrubaram seus antigos aliados: de dentro do próprio palácio. Porém ao contrário deles mantendo uma vantagem estratégica evidente: não encontram resistência e não precisam sequer se expor como espantalhos. Não por enquanto, e enquanto desfrutarem dessa condição estratégica impar de ter um presidente e sua corja e corte nas mãos. Com que armas tomaram discretamente o poder? Informação.

Enquanto o espantalho não cair, ele poderá continuar arcando com a peso da impopularidade da agenda que mandarem ele implementar. Seja qual for a agenda, seja qual for o setor, agência, ou corporações que o ditem. Exatamente o que o mercado queria e tinha de Temer. Queria… porque agora se quiserem alguma coisa com ele vão ter que levar em consideração os interesses e desígnios de uma outra corporação que agora administra de fato esse palácio, a dos militares.

Se os rearranjos do controle da policia federal e segurança nacional em ministérios extraordinários servem para blindar institucionalmente a quadrilha no poder, a tomada de posições estratégicas por aliados garante que os generais junto com o próprio controle e gerenciamento da informação possam decidir o destino dos investigados. Podendo blindá-los enquanto assim for do seu interesse, ou fazer justamente o contrário: dependendo tanto da conveniência da circunstância quanto da inconveniência do investigado. De modo que essa blindagem é contra quem está fora e não para quem está dentro desse bunker, onde não é exatamente mais o acusado que controla a mão do carrasco, mas os militares, ou mais precisamente o generalato do Exército. Justiça poética, eis a única que existe no Brasil. Pois o carrasco da sua chefe, corre agora o risco de morrer enforcado com ela, na corda que ele mesmo enrolou no pescoço e entregou as mãos da sua tropa-de-choque.

Assim, a questão dos militares sobre uma questão que já é militar (segurança nacional), não é mais tomar o poder, mas como sedimentá-lo institucionalmente da mesma forma que foi tomado: sem precisar efetuar nenhum movimento de tropas fora da constitucionalidade, ou quase… Enfim, com o menor efeito deletério possível para a força que literalmente sustente sua retomada de protagonismo: a reputação, um capital essencialmente construído por essa particular elementar ou melhor capital chamada informação.

Alguns dirão que são as ações que constroem a reputação. Quem diz isso não entende nada de como funciona nossa sociedade na era da automação da hipo-crítica. Pois nela tanto se pode reputar ações a quem não teve o mérito ou desmérito de fazê-las, quanto destruir ou construir reputações sem precisar de nenhuma outra ação senão a manipulação da informação. A informação não é dado para a investigação, ela é critério e conclusão dada para o julgamento. Ou literalmente o dado já a conclusão, onde a informação é tomada virtualmente por realidade.

De fato eles não precisam depor ninguém, nem completamente, nem oficialmente… que o diga Pezão, que o finja Temer. Os espaços tomados, não foram tomados, mas sim entregues, cedidos sem nenhuma resistência, ou pudor por quem não tinha legitimidade, e quiça sequer condições legais para estar no cargo, quanto mais para ceder aquilo que não lhe pertence; e sequer lhe foi propriamente concedido; e mesmo que tivesse sido não o seria para isso, a soberania. Ceder, nem para o mercado, nem para os militares. Não estamos falando portanto só de espaços e cargos público, mas do exercício (e importância) da soberania.

Ou seja, a soberania, que numa democracia até mesmo a representativa pertence ainda a sociedade civil, e que já vinha sendo objeto de roubo e trafico em favor tanto do mercado quanto de comparsas políticos, agora foi cedida de fato para outras mãos: as militares. Não só porque essa administração não tem condições legais para ocupar os cargos que a exercem, nem competência sequer para preservá-los sem a interferência ou intervenção explicita ou tácita das forças armadas, mas sobretudo porque a posse dos registros e provas dessas duas (falta de) qualidades, incompetência e ilegalidade, já estava nas mãos dos militares.

Os cargos representativos da democracia que já eram objeto de roubo e trafico das gangues políticas na capital velha e nova, estão sendo agora entregues ao militares em troca de mais doses de crack do poder, mais o brinde da impunidade. Se os militares vão ou não tacitamente pactuar com isso, ou mesmo vir a cumprir esse trato se não for tão tácito assim, isso são outros 500…

De tal modo que os desdobramento dessa atual investigação podem tanto não dar em nada e se tornar um engodo, uma investigação feita providencialmente para inocentar quando ainda se detêm as posições institucionais para assim proceder em todos os casos; quanto o oposto, o prelúdio da queda e exposição da quadrilha dos velhos fisiologistas- ao qual sempre haverá quem alegue são mais inocentes que a própria pureza. Por enquanto, a tendência é o nada, já que estão fazendo questão de procurar em contas de bancos nacionais o que todo mundo sabe mesmo não querendo é que se existe algo está escondido ele está em bancos gringos e em nomes de laranjas e não debaixo de colchões… Mas isso não importa ao projeto de poder. O que importa é justamente a posse de fato do poder de decidir, interferir e até intervir, e se necessário for perdendo a discrição; eis os verdadeiros pilares do poder de atuação desse força “mediadora” encarnada na pessoa do grão-vizir do Planalto, pilares cujas fundações estão assentadas nas posses e atribuições inerentes das suas funções: controlar a informação.

E não sei qual é a convicção do leitor quanto ao resultado de tais investigações, mas a mim elas dirão muito mais sobre a natureza de quem administrar agora de fato nossas terras, do que qualquer coisa acerca do caráter dos antigos feitores investigados mantidos extra e oficialmente como reis para inglês ver. Até porque os donos, não os por direito, mas os de fato, os ladrões-mor continuam acima de qualquer suspeita.

Assim sendo, e se não falta correção nem fidedignidade as pesquisas de opinião (o que é um fator sempre a ser considerado) pode-se dizer que a administração Temer engoliu a isca com anzol e tudo. Pois se estava mesmo comprando (e revendendo) a ideia de que a intervenção militar diminuiria sua monstruosa rejeição já perdeu. Vai morrer com o factoide na mão antes de poder usá-lo. A população comprou os militares, mas não Temer. A venda casada não funcionou como golpe de marketing de cara e vai precisar que os militares operem milagres para entregar resultados a tempo de funcionar. E milagres feito no estilo Talebã, feitos a bala. De toda forma, em um ou outro caso Temer continua um “predestinado”… predestinado a voltar para o seu lugar: o lixo da história, porque do submundo de onde saiu, ele não conseguiu se livrar, subiram a tona com ele.

Mas e se me perguntarem quanto as outras forças e projetos de poder? A esquerdas por exemplo? Que forças? Que esquerdas? Respondo. As únicas forças que restaram em posição para disputar esse território estratégico do Planalto Central no exato momento histórico são estas: “milicos” e “mercado”. A dita esquerda, que faz tempo que virou peão do jogo perdeu e continua a perder tempo demais mobilizada em outra frente de batalha para salvar seu adorado general. Batalhas perdidas por causas de mitos que nem sequer valiam a pena lutar. Algumas outras frentes que perceberam qualquer coisa parecida começaram a se dispersar e mobilizar para disputar outra batalha a das eleições, mas tarde demais. E tarde demais porque já perderam as posições não só para impor condições iguais de combate, mas porque sequer tem posições para garantir que tal disputa venha de fato a ocorrer! Já não possuem forças para obrigar que seus adversários mantenham a disputa se estes sabendo que vão perder não quiserem adiar uma derrota certa- ou até mesmo uma vitória nem tão certa. Ou seja esqueceram que as eleições são uma batalha que se ganha muito mais preparando e garantindo o terreno, do que no combate propriamente dito. E que portanto não só podem ser sabotadas, como podem sequer vir a acontecer.

Não estão preparados, sequer para considerar esse cenário como possível. E logo não estão preparados para encarar a politica como de fato ela é, nem assumir publicamente como ela de fato praticada, inclusive por eles: uma guerra como qualquer outra, suja, jogada sem regras ou princípios com todas as armas que puderem usar. Suponho que ficaram tempo demais a interpretar seus papéis no jogo das representações para o grande público, que passaram a crer que bastava vencer no jogo das representações políticas para ganhar e levar. Passaram a crer naquilo que nunca tiveram fé, na hipocrisia liberal. Porque na democracia, nem socialistas nem liberais nunca acreditaram não de verdade, não na verdadeira democracia a direta e popular.

Mas voltemos a grande arma e capital do século XXI. A informação. E o case de sucesso de alguns de seus players entre eles nosso generais, que provaram sabem usar da ferramenta- ao menos nos assuntos domésticos. Mas não são os únicos…

Alexandre Morais, por exemplo, entendeu e fez dessa arma o instrumento da sua ascensão meteórica de advogado criminalista, a secretário de segurança estadual, ministro da justiça até enfim o ápice dessa carreira: ministro do Supremo. Etchegoyen idem, mas digamos com outros projetos de poder e talvez carreira. Ambos entenderam não só o poder da informação na sociedade do nosso tempo, mas o quanto a nossa sociedade e estado são e estão vulneráveis a esse novas armas justamente por serem tão retrógrados e ultrapassados. Isso sem contar é claro que o que não caiu de velho, mas era novo foi morto no berço, foi pilhado ou sucateado em favor desses parasitas feudais. Enfim, ultrapassado, sucateado e sabotado. Logo completamente vulnerável, a informação tanto no que concerne sua manipulação ideológica até a sua preservação enquanto sigilo e privacidade. Um Estado e Sociedade do atraso em todos os sentidos e portanto vulneráveis do ideológico ao tecnológico. Snowden explica.

Da reconstrução do SNI (perdão Abin), passando pelo primeiro movimento que neutralizou todas os demais trambiqueiros que viviam entre outras coisas de arapongagem e chantagem na república dos grampos, de malas de presidentes do senado, a escutas de presidente da câmara -esse por sinal preso, mas nem assim pára- até sabe-se lá quais mais gravações mais poderiam haver de um presidente que se reune em garagens com empresários presos, o controle da informação se tornou literalmente o maior poder da república dos tetos de vidro. Daí, a tomada de posições institucionais estratégicas para definir o destino dos atores de uma nação para assim impor através deles seus desígnios foi apenas uma relação de causa e consequências. Ou melhor de demanda por ações e promessas de reações. A lei da física na política, que não por acaso é justamente o contrário da propaganda: promessas de ação que demandam por reação.

Não que as oligarquias, cuja especialidade antes mesmo da era da informação, foi controlar mídias, não soubessem e tenham feito exatamente a mesma aposta em estratégia similar: ter criminosos políticos de estimação no poder. Criminosos, que nunca se preparam com esquemas sofisticados para encobrir seus rastros no poder, porque nunca almejaram o topo mas apenas se locupletar ad eterno como ratos de porão, eis a fraqueza a ser explorada. Porém retrogradas por força do habito e necessidade do oficio oligárquico, não só não entenderam a dimensão da perda do monopólio dos meios de comunicação sobre essa arma e capital, a informação, como não entenderam os novos canais e especialidades que ganharam protagonismo inédito na história da humanidade graças a ela. E não estou falando apenas dos indivíduos e categorias formados e versados em informática, informação, contra-informação e desinformação, não só aplicada a máquinas mas a propaganda e psicologia de massas, mas sim essas novas ferramentas informacionais aplicadas a espionagem, contra-espionagem, e sobretudo a vigilância. Elementos que sempre estiveram presentes em todas as guerras, e em todos os tipos; das politicas e econômicas, as comerciais e industrias. Contudo nunca com o protagonismo ou a importância estratégica que ganharam desde a revolução dos meios de produção.Nenhum outro setor do Estado nem da sociedade, entendeu e soube utilizar tão bem essa nova arma como os indivíduos que trabalham com ela nesse outro nível, tanto nas agências e empresas de vigilância e controle da informação, como os responsáveis pelas invasão evasão e manipulação de informações inclusive as sigilosas, tanto privadas quanto estatais.

Para se ter uma diferença desses dois níveis estratégicos de visão e operação, basta olhar para Russia e EUA, suas econômicas e orçamentos em comparação aos resultados geopolíticos para notar a diferença entre um velho tubarão das finanças e mídia como Trump e um ex-agente da KGB. Digamos que se um Armagedom estivem em curso Putin seria um 666, e Trump um 189, e Temer só mais um 171.

A proposito em tempos de terra planas e policiamento até das figuras de linguagem onde a imbecilização interpretativa chega ao cúmulo de colocar sinais e legenda explicativas, é bom colocar uma: Isso, é uma metáfora, uma analogia. Não que ajude muito porque quem odeia o que não entende, em geral odeia também sarcasmo e ironia, principalmente quando entende, mas fica a explicação.

De qualquer forma, o que temos não pode se chamar mais só de política. Em curso já estão guerras comerciais, econômicas, geopolíticas e cibernéticas. De modo que o que vale para o plano nacional também vale para o plano internacional e explica muito da política nacional que não passa de mais um território em disputa. A pergunta, logo, não é mais se ou quando, mas como e até onde exatamente esses players irão nestas novas guerras com novas armas nas velhas e primitivas disputas. Não é portanto uma questão do que eles farão, mas até onde serão capazes de chegar para ganhar ou tomar o que já começaram em escalas tecnológicas nunca experimentadas antes…

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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