O silêncio dos inocentes 3: Como criar um psicopata bem sucedido?

Ou da reabilitação… dos tratamentos de choque e manicômios

Até pouco tempo atrás, a psiquiatria considerava o psicopata como um caso perdido. Incurável. Não é de se surpreender. A empatia e solidariedade, embora fosse princípios absolutamente fundamentais a humanidade e humanização, foram até o começo deste século objetos de estudo e valoração relegados praticamente ao ostracismo, e na melhor de hipóteses usadas e reduzidas a política e filantropicamente a meras fachadas de interesses outros.

Porém, esta não é a única dificuldade de se abordar esse problema como se deve com um mínimo de dignidade, para não dizer honestidade, ou seja partindo da necessária pressuposição que existe e é possível encontrar uma solução, pois ainda que a experiência prove o contrário, é a ela que cabe esse veredito que nunca é definitivo e não ao prejulgamento das hipóteses. Como disse (não me lembro onde) não há profissão que exija mais fé do seu fiel que a ciência, a fé na possibilidade do saber.

O problema de quem investiga essa zona profunda da alma onde habita tudo aquilo que queremos esquecer do que o ser humano é capaz de fazer de mais monstruoso, é que ela requer trazer destas profundezas coisas sensíveis que não queremos ver sobre nós diante do espelho consciente da reflexão do semelhante. Longe de ser a dissecação de um outro ser reduzido a objeto, é um processo das entranhas da nossa própria alma não só em particular, mas coletiva, nossa humanidade e condição humanas.

A maior dificuldade portanto de buscar a cura de uma patologia como essa, é que não é possível isolá-la enquanto tal da condição de toda a humanidade. Olhar para os graus mais extremos de resposta empática, remorso, desprezo a vida e sofrimento alheio, completamente focados em concretizar suas satisfações e interesses e fantasias tão bem arquitetadas, articuladas, racionalizadas desses indivíduos, sua capacidade de ler e manipular as afeições e esperanças dos que os cercam, sem pensar em nossas próprias faculdades, que não só disfarçamos quando reprováveis, mas que enaltecemos quando requisitadas e recompensadas; mais: sem pensar o quanto dessa personalidade está em perfeita consonância com a própria mentalidade de nossas sociedades não só em seus planos inconscientes, mas institucionalizados e normatizados; olhar para essa patologia em estado de negação, sem considerar o quanto ela é um produto extremado de um caldo cultural que todos estamos submersos e do qual querendo ou não fazemos parte, só pode resultar na negação de qualquer possibilidade de cura ou solução do problema. Porque a solução deste problema não é algo que está ou se quer colocar em questão, mas mandar para os subterrâneos da alma.

Eu confesso, que nunca dei a mínima para o sofrimento desses monstros, o que me aproxima de acordo com a própria lógica ainda mais deles, mas sim justamente me deparei com seu sofrimento, principalmente pelo sofrimento que causam em suas vítimas, da solução que não tenho nenhum problema em lidar, mexer nas bases da normalidade do mundo, ao invés na cabeça das pessoas que sofrem com ele. Não que devemos ser gratos a esses profissionais que ajudam a suportar a vida, e não raro se sacrificam carregando consigo parte dos demais, mas como eles mesmo sabem, melhor do que nós, leigos, há uma linha muito tênue que separa o profissional da saúde mental que trabalha para ajudar as pessoas para sair ou suportar o sofrimento, e os são empregados para conformar pessoas a condições e relações absolutamente doentias cuja cura é o fim delas e não a sua resignação.

Dentro dessa outra abordagem portanto que é a do tratamento das loucuras do mundo, e não dos coitados que enlouquecem ou pior se normalizam a essa vida manicomial em campos abertos (ou nem tanto). A pergunta se inverte, e já não é o que torna as pessoas predispostas a miriede de transtornos, distúrbios de doenças mentais, ou simplesmente manias e taras, cultos e rituais mesmos os considerados num determinado tempo e lugar normais, do motivo de orgulho público ao meramente toleráveis de feito nas sombras e porões. E sim, quais são o padrão desses eventos naturais ou processos artificiais que produzem ou reproduzem essas personalidades e seus comportamentos?

Dentro dessa abordagem aquilo que se chama tendência, geralmente genética, passa a ser muito mais propriamente descrita como vulnerabilidade, ou extrema sensibilidade. Inegável que cada pessoa tem uma resistência diferente as mesmas condições, mas em certo grau tem diferente percepção dessa condição e portanto, não só diferentes graus de resposta os estímulos, mas resposta até certo ponto relativamente diversas. Também é inegável que existam predisposição para responder de forma diferente as mesma situações percebidas ou sentidas mais ou menos da mesma forma, gerando naturalmente formas diversas de reação diante das mesmas situações, felizmente.

Porém na “arte” de redução das populações as massas e sua condução, a ultima coisa que seus condutores querem são diferentes reações e respostas aos mesmos estímulos, você quer respostas condicionadas padronizadas e sincronizadas quando toca o apito. Logo, se não houvesse condições extremas como bem observou Pavlov em todas as diferentes predisposições comportamentais pudessem em geral ser reduzidas a uma mesma resposta, não seria possível ter que adestrar nenhum animal, incluso o homens, e não teríamos, fazendas, fabricas nem governos, ao menos não dentro dos padrões que conhecemos.

Como todo interrogador, doutrinador, ou torturador sabe, no limite todos quebram. Ok, uns não irão desenvolver a responta esperada. Podem se matar, rápida, ou lentamente, tornar-se completamente apáticos, ou surtar das mais diferentes formas, mas não se faz um omelete sem quebrar alguns ovos. Casualidades. Como numa fábrica, alguns produtos terão que ser descartados, mas no final das contas (literalmente), se a margem de erro e perdas dentro desse processo de produção estiverem dentro dos níveis de qualidade, toca-se a industria.

Na verdade o tipo de personalidade e comportamento que se quer como produto final desse processo de produção ou adestramento, depende de qual função se empregará essa população em questão. Em geral todas as culturas tem ritos de passagem que servem para marcar em todos os sentidos da palavra a introdução da criança no mundo adulto, o mundo onde ela descobre de que são feitas todas as salsichas, porém há profissões que irão seja na linha frente, ou chão de fabrica, não só ter que se acostumar a saber como são feitas, mas se acostumar a fazê-la, assim como outras a gerenciar e comandar esse processo sem virar nem revirar os olhos, entre outras atribuições que se a maioria de nós que não somos crianças, mas que se tivéssemos que assumir, certamente não haveria tantas guerras,nem salsichas, ou talvez, muito mais loucos atirando em escolas, ou disputando por todos os meios necessários, incluso a bala, um lugar no topo do poder para apertar os botões sem maiores constrangimentos.

Dito assim parece simples e banal. Banalizado é. Simples, nem tanto. Embora guarde semelhanças como por exemplo treinar pitbulls para matar, não é a mesma coisa. Os seres humanos não são cães nem sofreram, embora não tenham faltado tentativa, a seleção artificial que esses e outros pobres animais passaram, não no grau e portanto nem no resultados sobre a nossa herança genética. Bom para a humanidade. Péssimo para os indivíduos que eventualmente passarão por máquinas de entortar gente, ou eventos que o fazem naturalmente pela simples falta de intervenção solidária de seus semelhantes. A mente é frágil, mas não é tão fácil assim quanto parece quebrá-la e moldá-la como se bem quiser.

O sentimento, o aspecto emocional é a chave de todo aprendizado, especialmente aquele que não irá se constituir com mera informação, mas formação, isto é, irá formar ou alterar a plasticidade e os padrão de ligação e funcionamento da mente. Mecanismos de recompensa e punição, prazer e dor, incentivo e repressão são ferramentas anscientes e universais de adestramento e domesticação. Contudo se seu propósito fosse diminuir ao máximo, todos os impulsos empáticos seja tanto para dar lugar a superestrutura de controle externo, ou para hiperdimensionar instintos mais egoístas e competitivos, não é dando ossinho e afago para seu puppy que você vai conseguir fazer isso, mas amarrando ele faminto com o pescoço a um prato de comida, ou colocando-o dentro de um saco e escançado-o no meio da noite para que ele não saia como, de onde, nem porque, está apanhando. O segredo para arrebentar os instintos gregários mais delicados, e fortalecer as respostas instintivas mais frias, brutais e violentas se preciso for, é a tortura, em graus e frequências que levem a psique ao ponto de ruptura, porém sem arrebentá-la completamente, nem permitir que se recomponha.

E o que vale para o trato e tratamento da psique do individuo, também vale para o psique coletiva. O segredo está em fazer com que os organismos desliguem suas conexões na tentativa de suportar o insuportável, e quem sabe sobreviver para mais um dia. Desligar a empatia é essencial para promover a alienação e obter células para desempenhar funções em outro tipo de corpo, células capazes de fazer qualquer coisa sendo o superego, os comandos internalizados exatamente pelo mesmo método, o freio e arreio neuróticos deste homem domesticado ou civilizado, como quiserem. Perca ou falhem esses freios, ou seja, esse aparelho de comando moral ainda mais falho ou psicopático, embora em geral baste colocar esses elementos fora do campo que fora concebidos para atuar e você será atacado pelos seus próprios cães.

Quando falo em tortura, logo veem imagem pictográficas desses atos, mas tortura aqui não é o que terceiros observam, mas o que é percebido e sobretudo sentindo por quem sofre como tal, não como fenômeno subjetivo mas relativo tanto a sua tolerância quanto a sua eventual vulnerabilidade. Constituindo-se, portanto, não só do sofrimento em si, porque como o processo sugere o corpo se adapta a dor e sofrimento, mas tanto do medo e terror da incerteza e antecipação desse sofrer, quando da montanha-russa das vãs esperanças frustadas do seu fim. Um sofrimento não só de perda, privação, carência e carestia mas pelo constante estado de medo, incerteza e insegurança, que destroem qualquer expectativa da mente de que os estímulos da realidade, possam constituir ou fazer parte do seu eu-emocional, mas serão interpretados por toda a vida naquilo que foram reduzidos ao que esse ser dotado de senciência conhece como única realidade: injeções de dor ou prazer, onde outros seres não são senão interpretados como meios ou obstáculos ao alívio e satisfação da sua existência também assim reduzida a tal condição. Condição caracterizada não só pela incapacidade de responder empaticamente aos estímulos empáticos (que sim) são percebidos, mas pela falta dessa capacidade de ser afetado pelo sentimento (e sofrimento) alheio desenvolver um maior grau de consciência coletiva como o ethos da sua psique.

Não é portanto no que se recompensa e agrega, mas naquilo que se subtrai e priva que se opera esse processo de desnaturação dos sentimentos de empatia, necessários a aquisição e transmissão dos traços de personalidade psicopática essenciais ao estabelecimento e manutenção das cadeias hierárquica de alienados e alienadores. Não é possível haver doutrinação e conversão onde os laços e ligações gregárias e empáticas permanecem intactos não só como relações pessoais já estabelecidas, mas como capacidade em potencial de a estabelecer sem intermediários e subterfúgios.

A grosso modo sentir a dor, tanto a sentida na própria carne quanto a presenciada é um processo natural e inevitável da vida, porém em níveis insuportáveis a tolerância relativa a cada individuo, e no limite de todos, destrói essa sensibilidade. A perda do sentimento empático embora se assimile em certo aspectos a perda de um sentido, não é como por exemplo perder a audição por estar exposto a um som alto demais que ensurdece progressivamente ou de forma definitiva, é como envelhecer (no sentido de morrer para vida) rápido demais, você vê, você ouve, mas já não liga, não sente, porém o apetite, a fome de viver ainda está lá, intacta. Talvez, alguma coisa seja capaz de chamar a atenção, e ressuscitar o ser humano, morto- dormente, nem que seja por instante, mas na maior parte do tempo, e eventos as ligações estão literalmente rompidas e os outros desejos e líbidos mais primitivos não.

Definitivamente a analogia como o sentido da audição é extremamente pobre. porque a empatia não é um mero sentido, mas um sentimento. Porém ela ajuda a entender o quão absurdo é falarmos de tendencias a psicopatia ou outros distúrbios, numa sociedade onde todos já estamos em maior ou menor grau surdos aos gritos dos inocentes.

E não apontemos os dedos uns para os outros, pois se refletirmos em silêncio veremos que muitos mais do que nós habitam uma cela ainda mais isolada e apartada que a nossa. E se eles também não houvem os gritos dos outros, não é porque estejam surda, mas porque também só conseguem ouvir os seus gritos.

É possível curar a psicopatia? Amplifique a questão e inverta a abordagem : É possível livrar nossas sociedade cultura e mentalidade de seus traços psicopáticos que reproduzem toda uma gama de traumas, e distúrbios, incluso as neuroses, psicoses e psicopatias?

Levantar essa questão, e em voz bem alta, é fundamental, pois no que depender do nossos sistemas eles não vão se autocorrigir — até porque não foram programados para isso, mas se perpetuar pelo procedimento oposto, projetar suas parcela de responsabilidades custos e sobretudo sobre os que serão excluídos para cumprir entre outras tal função de limpeza da superficialidade do sistema. Entre corrigir a raiz do problema ou aumentar a dose do “corretivo” para salvar o monstro hobesiano com todos seus tentáculos ilesos, não tenha dúvidas quem é que no final das contas vai literalmente sofrer o tratamento de choque. Uma dica: não é o Estado, nem a Economia.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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