O silêncio dos inocentes 2: Dos bodes expiatórios

Criamos santos e demônios, e a ambos sacrificamos em nossos altares para podermos continuar na marcha sem precisar mudar nem sequer refletir sobre seu rumo. Não, não vou fingir que minha solidariedade mora com eles. Não sou hipócrita, mesmo que quisesse não consigo. Não nego, minha alma está com a da multidão que grita por cabeças, e não ligo se elas serão cortadas. Mas sei o que isso diz sobre mim e a multidão da qual faço parte e ainda me importo. Sei que esse clamor, não é só por justiça, mas por vingança e sobretudo por bodes expiatórios, onde o quanto eles sejam responsáveis ou não, importa menos que a justiça, ou qualquer possibilidade de reparação ou compensação quando ou naquilo que resta como possível, se é que é possível.

Não me preocupo até porque sei que a possibilidade de injustiça é sempre proporcional a qualquer possibilidade de justiça. Ou seja praticamente nula. Não estamos falando de negros com fuzis em favelas, mas criminosos de colarinho branco, e a chance de uma autoridade pegar um pobre menino branco rico engravatado inocente nos infindáveis corredores e processos da justiça é sempre diametralmente inversa a de executar sumariamente um homem negro que não por acaso, já nasce no corredor da morte esperando que a sorte o condene ou absolva do descaso de morrer soterrado na lama, seja ela feita dos dejetos tóxicos de empresas ou da própria sociedade urbana. Não, o que não falta é quem olhe, advoga e interceda em favor por deles.

Minha preocupação especificamente nesse caso não é como o destino dessas mentes doentes, ou suas instituições doentias, é com a mentalidade da sociedade, incluso a população que sequer pertence plena e propriamente ao que seria ou deveria ser, um suposto contrato social. Como a cada tragédia, longe de nos levantar, ou despertar como hienas assistimos, revoltados, tristes, indignados, mas ainda assim, apenas assistimos e consumimos o triste espetáculo da morte, enquanto outros o capitalizam. E nesse processo, até mesmo a revolta e o que resta de solidariedade é manobrado até o acalmar dos ânimos e animas e o reconfortante esquecimento da normalidade cotidiana, que de normal já não tem mais nada, nem para os padrões menos rebeldes e mais conservadores.

Os traços psicopáticos celebrados e admirados quando não produzem crimes monstruosos e tragédias, ou seja regidos por ética destituído de princípios e focada nas finalidades, ganhos e resultados que definida a personalidade das pessoas e corpos artificiais, das empresas aos aparelhos estatais, também compõe os traços da nossa coletividade social que enterramos fundo em nosso inconsciente coletivo a cada geração mais ferida e amputada da sua capacidade neurológica de sociabilização. Dos jovens que quanto mais escolarizados e ilustrados renunciam machadianamente a transmitir o legado da sua miséria, as crianças que nascem cada dia mais fechada dentro do seu próprio universo de sabedoria e emoções como se quisessem fugir do monstro caricato que habita cada suposto cuidador que será responsável por introduzi-la em seu lugar nesse verdadeiro zoológico de primatas treinados em circo que fizemos da nossa humanidade, estamos a vivenciar uma perda de um processo complexo responsável pela evolução ainda em curso da nossa espécie enquanto seres dotados ou com potencial a consciência, a empatia que em ato chamamos quando impulso de compaixão, e enquanto estado de espírito de solidariedade.

Não vou me aventurar nos campos da neurociência, falando sobre complexas hipóteses de interações sobre oxitocina e vasoprecina, porque isso seria especulação e ainda neste estágio embrionário dessas pesquisas, uma falta de recurso a teses e hipóteses que embora promissoras, seriam aqui, mais apelação digna do charlatanismo, do que qualquer coisa parecida com uma tentativa de embasamento (pseudo) cientifico. Porém, não precisamos desse tipo de diagnóstico para saber que tipo de resposta do inconsciente e instinto visando a adaptação para a sobrevivência, nosso organismo está dando em relação ao medo generalizado que se dissemina pelo mundo e como isso tem retroalimento e amplificado essa resposta numa reação social em cadeia.

A busca de bodes expiatórios é apenas uma das técnicas de válvula de escape do sistema, para situações de emergências, outras são acionadas e administradas regularmente para manter esse estado de alienação que antes de tudo é um ser humano em relação ao seu semelhantes. Pausas programadas na rotina ensandecedora do cotidiano, semanais, anuais, feriados, festas, drogas licitas e ilícitas, eventos de massas, e entretenimento cotidiano onde versões modernas da execuções públicas são transmitidas por aparelhos de telecomunicação sem parar repetem o papel desses rituais primitivos catárticos de imolação pública que servem para acalmar os ânimos, e matar a anima das galeras. Evitando qualquer possibilidade não só de revolta ou convulsão social, mas sobretudo de conexão empática direta entre aqueles que partilhando um mesmo destino senão agora, num futuro que baterá as portas, naturalmente se agregariam, se não tivesse seus olhos da alma fechados e furados para guiá-los, uns em direção aos outros.

Essa necromancia que faz com que seres vivos dotados da capacidade de sentir e padecer do sofrimento uns dos outros se comportam como mortos-vivos a espera de uma ordem ou causa maior que sua vida para dar sentido a uma vida que perdeu o seu próprio-sentido e poder de próprio-concepção e autodeterminação, é a chave desta pecuária humana a qual chamamos e pobre dos que tombam nesse chiqueiro humano…

Deveria ser evidente, que viver da alienação e domesticação dos outros homens desumaniza a todos. Mas como poderia ser evidente? Se a desumanização atinge a todos, a perda da percepção necessária para o desenvolvimento da compreensão é também igualmente generalizada. Ou mais precisamente, o dano nas nossas faculdades empáticas são sempre maiores aos que são e estão mais expostos e vulneráveis aos processos que podem destruí-la, seja na condição de algoz ou vítima, ao qual ninguém permanece (nem interpreta) o tempo inteiro o mesmo “papel”, mas não há ser humano que esteja imune e invulnerável, ainda que esse privilegiado esteja raramente e seja obrigado a estar em qualquer uma destas condições.

Não só tomamos os crimes contra a humanidade como se fossem produto completamente apartado da natureza humana, ao menos a nossa em particular, mas completamente apartado, quando não exotérico de toda a natureza, quando não só fazemos parte dela mas sobretudo da nossa industria humana, seja como propósito monstruoso mascarado de nossas ações, seja como efeito colateral daquilo que chamamos para o conforto de nossa (falta de) consciência de um bem maior, ou um mal necessário.

Resumo da ópera, não adianta fechar os olhos para essas pessoas, ou eliminá-las, por que abstrações fora, não existem no mundo real diferença de classe ou qualidade, mas de grau naquilo que somos, e o padrão não só permanece mas literalmente se transmite não só alterando qualquer ethos como uma ficção moral, mas como a plasticidade de um padrão neurológica que se manifesta em comportamentos subsequentes, mas é a imagem de uma psique ou anima que reflete, concretiza e perpetua esse padrões patológicos.

Sejam os dementes que desprezam a vida e liberdade dos seus semelhantes, costurando casacos de pele humana para satisfaz a sua libido erótica em estado mais teratológico não devidamente sublimado e racionalizado de acordo com os padrões aceitos pela sociedade; ou então apertando botões sem se importar com as mortes e sofrimentos que causaram, também satisfazendo seu eros teratológico este sim devidamente guardado e resguardado na zona de conforto e segurança da proteção do normal e legal vigente; independente portanto das diferenças de tipos percebidos de psicopatia, e sobretudo dos graus manifestos em atos e comportamentos dessas falta de empatia, a questão e portanto a solução não está neles, cujo personalidade são o arquétipo e talvez o produto do darwinista, justamente de tudo que nos falta a todos, solidariedade.

Não, o problema e solução não definitivamente no que faremos com aqueles que quebram, dentro de um sociedade moldada para dobrar e quebrar o semelhante para montarmos em cima dele, mas naquilo que podemos de fato fazer por eles e por nós, como alteramos essa fabrica monstruosa de algozes da qual nós próprios somos as próximas vítimas, a qual ainda presunçosamente chamamos de civilização?

Em que bases podemos (re)construir nossas sociedades que ao invés de destruir nossos laços empáticos, os preservem como instintos, mas os desenvolvam em todo o seu potencial, até o plano da consciência, que não por acaso, é o próprio potencial do escolhemos como ideal à nossa definição: humanidade.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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