Silêncio dos inocentes: O psicopata funcional na gestão Pública e Empresarial Psicopática

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“Nós, serial killers, somos seus filhos, nós somos seus maridos, nós estamos em toda a parte. E haverá mais de suas crianças mortas no dia de amanhã.” Ted Bundy. O assassino que inspirou o silencio dos inocentes.

“1% da população é classificada como psicopata: não sente empatia nem culpa. Esse percentual sobe para 4% entre executivos, políticos e pessoas que ocupam cargos de alta responsabilidade” -Psicopatas de colarinho branco

Psicopatas de colarinho branco

Se pensarmos em um psicopata, a imagem de um assassino em série nos vem à cabeça. No entanto, há muito mais psicopatas do que assassinos em série. Sujeitos maquiavélicos no sentido estrito. A frase “Os fins justificam os meios” é atribuída a Maquiavel. Além de escritor, o autor de O Príncipe foi filósofo e diplomata. Estava situado na primeira linha das altas esferas, onde se travavam batalhas políticas sem quartel, nas quais se decidia quem ocuparia o trono ou quem usaria o Anel do Pescador. Maquiavel foi um grande observador daqueles que moviam as cordas do mundo, mas que raramente manchavam as mãos de sangue.

É fácil falar de maldade e psicopatia quando nos referimos a personagens situados no limite da sociedade: o assassino de crianças indefesas, o alto executivo que enche os bolsos à custa de pessoas que trabalham em condições subumanas em fábricas a 10.000 quilômetros de distância ou o político que encontra armas de destruição em massa onde basicamente há petróleo. Esses psicopatas são muito evidentes, embora apenas o primeiro suje as mãos. Os outros dois são frequentemente admirados, pertencem a esferas socioeconômicas de difícil acesso e só ocasionalmente o opróbrio os persegue. (…)

Para ser músico é preciso mais do que talento; para ser mau é preciso algo mais do que ter pouca empatia: é preciso decidir fazer o mal em vez do bem. O psicopata é definido pelo preço que está disposto a pagar e em troca de qual benefício. Isto é, a maldade é o resultado de um dilema moral. Todos nós resolvemos isso de uma maneira muito semelhante. O que nos diferencia é onde colocamos os limites.

Contemplando um caso extremo se vê com claridade: matar em troca de dinheiro. Mas o que acontece quando compartilhamos os valores que levam outra pessoa a fazer o mal? O que aplaina o caminho para o psicopata de colarinho branco — ou para o nosso chefe, que, mais ou menos mau, geralmente não é psicopata — é que compartilhamos os valores que ele defende. Consentimos e toleramos seu abuso porque, de alguma forma, o entendemos. Ele defende um território ao qual nós aspiramos ou do qual dependemos. (…) -Psicopatas de colarinho branco

Na contramão da crítica da psiconeroulogista, autora do artigo acima está Kevin Dutton, psicólogo pesquisador da Universidade de Oxford:

O que Bill Clinton, Steve Jobs, James Bond e o apóstolo São Paulo têm em comum? De acordo com o autor inglês Kevin Dutton, todos eles apresentariam traços de psicopatia — na vida, na ficção ou na hagiografia. Vários estudos recentes vêm desmistificando o psicopata, mas nenhum até agora tinha feito o elogio do distúrbio. Até que Dutton, psicólogo pesquisador da Universidade de Oxford, na Inglaterra, escreveu The Wisdom of Psychopaths: What Saints, Spies, and Serial Killers Can Teach Us About Success (“A sabedoria dos psicopatas: o que os santos, espiões e serial killers têm a nos ensinar sobre o sucesso”).

O sangue frio e a falta de empatia de um John Wayne Gacy — o “palhaço assassino”, matador de meninos, que escondia os corpos das vítimas no porão de casa — são atributos essenciais aos cirurgiões, por exemplo. “É a psicopatia funcional”, diz Dutton. Persuasão, foco afiado e charme cativante, eis algumas características da maior parte dos psicopatas. Segundo Dutton, há traços fortes de psicopatia em vários presidentes dos Estados Unidos: John F. Kennedy, Ronald Reagan, Bill Clinton. Eis alguns diagnósticos do psicólogo para gente bem-sucedida:

* Steve Jobs. Traço: implacabilidade. “Só mesmo o trabalho genial de RP da Apple para nos convencer que ele era um cara relaxado e descolado como a maioria de nós.”

* James Geraghty, neurocirurgião. Traço: falta de empatia: “Ele me disse que não tinha compaixão pelas pessoas que operava. Era um luxo ao qual não podia se dar”.

* Saulo de Tarso (mais conhecido como o apóstolo São Paulo). Traço: dureza. Nascido numa família judaica romanizada, foi perseguidor e matador de cristãos antes da conversão. “Se tivesse vivido na época da Convenção de Genebra, teria sido condenado por genocídio.”

* Bill Clinton, ex-presidente dos EUA. Traços: diversos. “Além do charme, carisma e lábia dos psicopatas, Clinton teria nota alta numa escala de impulsividade antissocial.” — Aprenda com um psicopata

Vale a pena, investigar um pouco mais as idéias de Sutton…segue trechos selecionados de uma entrevista:

(…) Há duas outras características que devem entrar na mistura da psicopatia: a inteligência e a agressividade. Um psicopata com um mau início de vida em termos sociais, pouco inteligente e naturalmente violento não é uma boa combinação. É provável que acabe por ser um bandido de baixo nível ou pertencer a um gangue criminoso. Em ambos os casos vai acabar na prisão. Se retirar a violência da equação, poderá ser um ladrão, um vigarista menor, um traficante de droga ou um proxeneta. De qualquer maneira, vai acabar também na prisão. Mas se não é naturalmente violento, tem um bom início de vida e é inteligente, então é mais provável que venha a ser o melhor nos mercados financeira. O mais interessante é que se for um psicopata inteligente e violento, então pode acabar nas forças especiais ou ser o cabecilha de uma rede criminosa.

Há também a impulsividade, a incapacidade de adiar a gratificação, que se correlaciona com a inteligência. Quanto mais inteligente for, menos impulsivo tenderá a ser.

Então a violência é outro campeonato?
Sim. A violência não vem necessariamente com a psicopatia. Lidei com muitos psicopatas vigaristas que não eram violentos, mas seriam impiedosos a tirar todo o seu dinheiro e deixá-lo sem nada, destruiriam a sua vida sem um lampejo de consciência.

E em relação à empatia: Desmond Tutu, o activista sul-africano, disse que “uma pessoa só é uma pessoa se reconhecer os outros como pessoas”. Os psicopatas reconhecem os outros como pessoas?
Os psicopatas puros, não. Não teriam nenhuma empatia. E as outras pessoas são apenas peças de xadrez que eles jogam. Mas é aqui que as coisas complicam. Entrevistei neurocirurgiões de topo e um deles disse-me: “Imagine que tem os meios para ser um cirurgião de topo. Tem a visualização do espaço necessária para isso, tem a mão, a destreza, o conhecimento médico. Mas falta-lhe a capacidade para se desligar emocionalmente da pessoa que está a operar, então não vai conseguir operá-la.” A empatia, como Desmond Tutu disse, é muito importante, mas não é sempre importante.

No livro entrevista um cirurgião que diz ter aprendido a deixar de parte a empatia na sala de cirurgia. Mas isso é um treino, não é aprender a ser psicopata.
Sim, chama-se regulação emocional. O argumento do livro é que se pensarmos em traços psicopatas — como ser-se impiedoso, não se ter medo, ter concentração, calma quando se está sob pressão, carisma, charme, e claro a falta de empatia e a falta de consciência — , estes traços não são preto ou branco. Estão dentro de um espectro e não há uma mistura certa destes traços que seja definitiva e correcta. Depende do contexto, da combinação e do grau de cada traço. Algumas profissões vão exigir que alguns botões estejam mais acima da média: a cirurgia, a advocacia, ser-se militar ou empresário. Não estou a dizer a toda a gente para se tornar psicopata, senão a sociedade desintegrar-se-ia. O que digo é que às vezes estas características são boas.

No livro, os psicopatas aparecem como uma invenção tardia da natureza, quando nos tornámos gregários e começámos a viver em comunidade.
Nalgum momento da evolução, um número de características de personalidade associadas à psicopatia manifestou-se numa pessoa. Essa pessoa viveu o suficiente para propagar os seus genes. Mas houve sempre uma necessidade nas sociedades para pessoas impiedosas e sem medo, como os caçadores. Ou pessoas que são charmosas e carismáticas. Ou que são boas a dizerem mentiras, como os espiões. O representante de tudo isto é James Bond, ele é um exemplo brilhante de um psicopata funcional: impiedoso, não tem problemas em matar, em trair pessoas, não tem medo, é calmo sobre pressão. Conheço pessoas que são uma cópia do James Bond.

Um entrevistado seu diz que a sociedade estar a tornar-se mais psicopata. Concorda?
Sim. Há um estudo que diz que os cérebros das pessoas que vivem hoje nas cidades recebem tanta informação durante 24 horas como as que viviam no campo, durante a Idade Média em Inglaterra, ao longo de toda a sua vida. Esta é uma conclusão assustadora. Hoje em dia está tudo a tornar-se mais rápido, mais superficial. Não podemos dar-nos ao luxo de processar emocionalmente tudo o que vemos. Temos de ser mais descartáveis em relação às coisas, mais transitórios. Por outro lado, os exemplos da sociedade mudaram muito, tínhamos os professores, os familiares, às vezes membros da Igreja. Hoje esses exemplos são os jogadores de futebol, os músicos, os inventores, as celebridades. Há um movimento transitório de se querer ser famoso agora, sem esperar. A Internet também é um exemplo interessante: a ideia no Facebook de que se pode “desamigar” alguém foi adaptada para a vida real nas escolas. Os miúdos acham que podem dizer ao outro “vou desamigar-te”. -”As sociedades sempre precisaram de pessoas impiedosas, charmosas e que mentem”

Basicamente Dutton advoga que há pessoas com traços comportamentais psicopáticos que não só estão perfeitamente integradas e são socialmente funcionais, como são elas extremamente uteis, produtivas e bem sucedidas política e economicamente em suas profissões. E que há profissões que demandam tais comportamentos, porque estes contribuem para o sucesso do exercício, sendo, portanto, para eles qualidades e não defeitos. Mais do que isso, Dutton, propõe que pessoas, ditas normais, ou seja, que não apresentam traços psicopáticos em seu comportamentos nem exerçam profissões que demandam tais comportamentos, elas deveriam apreender e usar mais desta sabedoria, que seria constituída de uma espécie da psicopatia temperada pela empatia e consciência –supondo, evidentemente que tal coisa fosse possível e não uma contradição, afinal por definição, a psicopatia é caracterizada, justamente pela falta de empatia, não raro somada à frieza e calculismo, inclusive para simulá-la tanto e quanto mais inteligente for o psicopata para ler as expectativas das vítimas e ajustar as suas respostas comportamentais a tais expectativas. O que passa longe do que seria a capacidade dos profissionais que precisam aprender a controlar e/ou regular as suas emoções, como um médico cirurgião ou um bombeiro, numa zona de resgate, estando muito mais próximo à facilidade de controlar ou mais precisamente manipular as emoções e comportamentos alheios, justamente pela falta de impacto que estes estímulos lhe provocam.

Dutton é digamos um apologista da psicopatia moderada, desde que devidamente integrada à sociedade:

O esteriótipo do psicopata funcional perfeitamente integrado

James Bond e a psicopatia

Ele é o perfeito psicopata integrado. No total, 1% da população tem esse perfil predatório em diferentes graus. Quando imaginamos um psicopata vêm à mente personagens como Hannibal Lecter ou Anton Chigurh (Javier Bardem), o implacável assassino de ‘Onde os Fracos Não Têm Vez’. Mas você não precisa assistir a filmes para conhecer um cara com essas características: estamos cercados por eles. Os psicopatas não criminosos têm sangue frio –no caso de James Bond, uma companheira ou duas é morta em todos os filmes, não importa, em seguida ele procura outra — , são carismáticos e irresistíveis, costumam ser animais selvagens na cama (o que podemos dizer sobre Bond), são promíscuos (007 tem uma namorada em cada filme, e várias outras amantes, de passagem), são viciados em adrenalina, adoram o risco … “James Bond é um personagem fictício. Na vida real seria mais provável falarmos de um banqueiro ou personagens envolvidos em esquemas de corrupção de alto escalão. O que os define é que são pessoas sem empatia. Na verdade, em vez de falar de psicopatas, falaríamos mais de personalidades com traços psicopáticos. Estes indivíduos normalmente não vão a consultas, em vez disso, vão aqueles que cruzaram com eles, para seu mal. No entanto, nós, os profissionais, estamos começando a entender que o espectro da psicopatia é muito mais amplo do que acreditávamos, e certamente não tem nada a ver com o que o cinema e a cultura popular refletem”, diz o dr. Mendes. -Amélie e outros personagens para tirar o estigma dos transtornos de personalidade

Trocando em miúdos

― A diferença, entre um psicopata perigoso e um perfeitamente integrado à sociedade é simples, a lei. Ser ou não ser considerado aos da sociedade, um criminoso ou como diria Bond, James Bond, ter uma licença de vossa majestade, para matar ou, pelo menos sair impune disso.

Note, portanto, que a ideia de Dutton, não é nenhuma novidade. Sua garantia de impunidade e mesmo glorificação, não está apenas na descriminalização das suas atividades e sim, na desvalorização do sofrimento, e no limite da vida das suas vítimas, não só por ele mas pela sociedade que não só tolera ou assiste ao espetáculo todavia, aceita de bom grado o seu prato na ceia preparada por esse canibal, sem se perguntar do que é feito esse bife, desde que é claro, não seja ninguém que ele não dê pela falta, e que tenha desaparecido.

Qualquer semelhança com o que aconteceu, portanto, com Mariana, Brumadinho e o que vai continuar acontecendo enquanto não entendermos a raiz desse problema para erradicá-la. Que não é uma tragédia; que não é um acidente; e que existem criminosos, responsáveis, irresponsáveis e incapazes de assumir qualquer responsabilidade na exata medida que são capazes em fazer de tudo para encobrir e transferi-la de novo, e de novo, para satisfazer seus objetivos, fazendo novas vítimas. E isso só não vê quem não quer ou pelo seu emprego não pode. Que estamos diante de um comportamento corporativo empresarial e estatal psicopático, que é o reflexo da personalidade e pisque daqueles, os proprietários e gestores, um comportamento de assassinos em série, que nunca vão parar se não forem detidos, porque seus interesses [e taras] por posse e poder que sobrepõe a quaisquer outro, incluso o de vidas, e até humanas. Tais comportamentos estão institucionalizados, mas protegidos por leis, isto também a só quem não prefere continuar a acreditar em qualquer coisa que os ajude a esquecer, o que não dá mais para fingir e não ver.

Contudo este não é um escrito que busca transformar em monstros essas pessoas e doentes e suas máquinas empresárias, legalizadamente criminosas. Não seria justo com elas nem seria possível com palavras fazer com eles, o que eles mesmos se impigem com seus atos em moto-contínuo. Não tenho a menor pretensão de desumanizá-los por falta de humanidade, porque não é a falta de humanidade deles que me interessa e sim, a nossa. Para ser um pouco mais específico e rigoroso, não é esse grau de falta de empatia ou de traços e comportamentos psicopáticos pessoais e corporativos que me interessam mas, a falta de empatia ou a psicopatia em grau mais leves de toda a sociedade que está em constante simbiose com a deles. E que compõe, na somatória, a falta de humanidade de todos nós, enquanto humanidade.

Pensamos a psicopatia em termos gerais, todas as espécies de patias, em geral, colocando-as em caixas, isto é, discriminado, classificando e, eventualmente segregando os indivíduos, portadores ou não dessa condição, como se fosse, a grosso modo, a psicopatia ou a falta de empatia uma doença que alguém, seja ou não portador, quando é uma condição muito mais similar a uma degeneração neurológica de uma faculdade mental, que se mede, portanto, por graus e quantidades, e não por classificações ou qualidades.

Conforme abordei em KOYAANISQATSI, não é algo tão simples como a perda de memória, até porque nem mesmo a perda de memória, seja tão simples quanto as pessoas julgam, mas como estudos tendem a confirmar, longe de ser uma anormalidade, ela é sim, um processo de adaptação diverso que se processa em condições de pressão e violência emocional estrema sobretudo em idades onde esse circuitos emocionais estão em formação, e que ao invés de moldar o comportamento dentro do condicionamento esperado pela normalidade, produz uma resposta de defesa extrema, uma espécie de desligamento ou ruptura não dos estímulos mas dos impactos e logo, respostas a essa forma particular de dor nos seres dotados de instintos gregários. Um processo que tem menos a ver com a maior fragilidade ou sensibilidade da mente, do que a intensidade, a prematuridade e sobretudo natureza dos eventos e dos traumas que vão moldar essas personalidades, mais precisamente, amputar as complexas conexões que produzem a capacidade da empatia.

Não estou a desprezar as predisposições genéticas e sobretudo as epigenéticas até porque estas de forma muito mais imediata que a primeira são o produto legado dessas tentativas de adaptação do organismo ao meio que está exposto. Porém é para as condições ambientais que chamo atenção. Não só às condições do mundo que todo ser humano, se submetido, eventualmente como se fosse a uma tortura, mais hora menos hora ou mais elevada e prolongada dor e o desamparo, inevitavelmente acaba por quebrar, o que produzem as psicopatologias. Todavia também àquelas a todos que são, funcionalmente considerados normais sofrem, e que acabam também por afetar tanto a psique quanto a coletiva, e por consequência às condições do mundo, não só as subjetivamente percebidas contudo as, que no final das contas são concretamente produzidas a partir das relações pessoais.

É fácil criminalizar os culpados, que diretamente são responsáveis por esses crimes, ligados à Vale, ao Estado, às empresas de consultoria internacional e aos seus fundos controladores, por uma razão justa e simples eles são ou pelo menos deveriam ser pelas vidas que roubaram e àquelas que ainda vão roubar, não só nas consequências ao meio ambiente e à saúde, bem como, por continuarem com a cumplicidade uns dos outros a fugir e se acobertar para não ter que pagar, em todos os sentidos, não pelos danos e mortes causados nem pelos danos e mortes que sabidamente ainda vão causar. Mesmo entre aqueles que se julgam mais humanos e humanitários, não é tão difícil enxergar que, por mais monstruosos que eles sejam, não são tão diferentes de nós ….

O difícil é entendermos e aceitarmos que a diferença entre caráter doentio e monstruoso dessas empresas, não é de gênero humano mas de grau de afecção [anormalidade psíquica] da humanidade ou do sentimento que produz seus laços de solidariedade e fraternidade. Um problema que, da falta de empatia e consequentemente falta de consciência, o que não afeta só a sociedade como um todo imaginário e subjetivo porém sim, como uma rede de relações e ações concretas feitas por indivíduos concretos. E que, portanto somos nós que, no fundo, não somos muito diferentes de cada um deles.

Não. Não estou dizendo para que nos abracemos e passemos a mão nas cabeças dessas pobres crianças brancas, ricas e frustradas que envelheceram sem receberam carinhos e amor de seus pais. Não, muito menos que saiamos a nos penitenciar como os pecadores culpados por todos os males do mundo, que temos. Longe disso, estou a dizer que mais do que julgar, precisamos entender. Precisamos entender a natureza do mal e suas raízes se não quisermos viver lutando contra ele, pior fugindo dele ao mesmo tempo que, querendo ou não sofremos e pagamos os prejuízos que essa falta de entendimento que não deixa de ser falta de consciência à causa. A um nível de empatia e solidariedade que não nos perguntamos se é nossa culpa e responsabilidade todavia, simplesmente nos perguntamos o porquê já de não suportamos essa dor que, no fundo é a dor pelo outro. O que afinal podemos e devemos fazer? Esse é o ponto reverso e inverso da ruptura e desconexão, o ponto de [re]ligação que antecede os atos que nos definem tanto como seres humanos quanto humanidade. E não. Não precisamos de grandes tragédias para que esse ponto de transmutação aconteça porque, a todo instante e em todos os lugares, o que jamais faltará é alguma espécie de carestia e desprezo prestes a se tornar uma tragédia.

Cada dia mais, eu tenho a profunda convicção de que, se existe alguma solução para os males da humanidade, que ela inflige a tudo que é vivo, incluso os seus semelhantes, passa pela cura de psicopatia, porém não a clínica, farmacológica, genética, das fazendas totalitárias de laranjas mecânicas mas a cura libertária que se dá no plano tanto epistemológico, metafisico quanto, simultaneamente no mais materialista dos mundos sociais, o político-econômico.

Assim é o cérebro de um psicopata

Revisão científica sugere que o estresse emocional na infância precipita a maturação excessiva de algumas regiões cerebrais e dificulta a gestão dos sentimentos

Embora o imaginário coletivo sempre se volte para a delinquência e a maldade quando se fala em psicopatia, esse transtorno da personalidade é algo mais complexo do que tal associação pode sugerir. Nem todos os delinquentes são psicopatas, nem todos os psicopatas são Hannibal Lecter, o vilão canibal de O Silêncio dos Inocentes. “Os psicopatas são pessoas com problemas de relação interpessoal e de gestão das emoções. Aparentemente são frios, embora não seja verdade que não tenham emoções — as têm, e muito intensas. O que não têm são remorsos, que é o que gera uma tendência à delinquência, mas não em todos os casos, claro”, afirma o médico Jesús Pujol, diretor de pesquisas da Unidade de Ressonância Magnética do serviço de Radiologia do Hospital del Mar, em Barcelona. Ele liderou uma revisão científica de outros estudos publicados e constatou que o cérebro dos psicopatas é diferente. A pesquisa indica que o estresse emocional na infância precipita a maturação excessiva de algumas regiões cerebrais como um sistema de proteção contra o sofrimento, mas termina dificultando também a gestão das emoções.

A complexidade da psicopatia transcende os estereótipos. De fato, um estudo publicado em 2013 na revista Journal of Forensic Science já alertava que a imagem de Lecter como protótipo do psicopata nem sequer era muito realista. O personagem foi descrito como “um psicopata de elite, que exibe níveis exagerados de inteligência, modos sofisticados e ardilosos, às vezes até níveis sobre-humanos e supermidiáticos”. Mais compatível com a realidade era, segundo o estudo, Anton Chigurh, o personagem interpretado por Javier Bardem em Onde os Fracos Não Têm Vez.

O leque de condutas é amplo, mas todos os psicopatas coincidem em uma coisa: as alterações cerebrais que os diferenciam de outros indivíduos sem este transtorno. Pujol e sua equipe revisaram mais de 400 artigos científicos nos quais foi analisado o cérebro das pessoas com psicopatia através de ressonâncias magnéticas. A meta-análise, publicado na revista científica Psychological Medicine, concluiu que a mente dos psicopatas apresenta uma maturação acelerada de várias regiões cerebrais relacionadas ao processamento emocional e cognitivo. “O cérebro dos psicopatas é diferente do ponto de vista anatômico e funcional. Há diferenças nas áreas que processam a cognição e o raciocínio e nas que processam a atividade emocional. A conexão entre estas duas áreas falha”, explica Pujol.

Os investigadores concluíram que, do ponto de vista anatômico, havia “uma aparente atrofia da substância cinza” nas regiões dos lobos temporal (onde está a amígdala, relacionada às emoções) e frontal (encarregado das funções cognitivas). “Entretanto, o que depois nós postulamos é que, na verdade, o que havia era um aumento da substância branca, o que implica uma supermaturação dessas áreas”, aponta Pujol.

O estudo sugere que a origem dessa maturação acelerada de algumas regiões cerebrais está em ter sofrido situações de estresse emocional em idades precoces. O cérebro desenvolve essa maturação excessiva para se proteger das circunstâncias que lhe causam sofrimento. “Em um contexto de estresse emocional, a criança desencadeia uma maturação excessiva que implica, por um lado, um bloqueio para fugir do sofrimento e, por outro, transforma a pessoa em alguém não escrupuloso e carente de remorsos”, diz o médico. Ao amadurecer precocemente, a criança amplia a capacidade de tolerância ao sofrimento e consegue esquivar-se dessa situação emocional que lhe fere. Entretanto, esse sistema de defesa provoca danos colaterais: “Eles não têm freio emocional”, sintetiza Pujol. O médico observa que não se trata de um trauma, e sim de algo persistente ao longo do tempo, a ponto de modular a anatomia do cérebro.

Na prática, essa alteração cerebral faz que, frente a um dilema moral, a ativação dos dois sistemas (o cognitivo e o emocional) seja bloqueado. Nem sua capacidade de raciocínio nem seus sentimentos ou emoções são anulados. O que ocorre é que “a associação entre emoção e cognição na tomada de decisões fica bloqueada”, esclarece o médico. Contudo, ressalta, esses indivíduos “são responsáveis por seus atos”. (…)- Assim é o cérebro de um psicopata

Incluso o artificial, feito de terminais e terminações burras:

… ou não. Talvez seja apenas eu, para variar exagerando … e no fundo, tudo seja mesmo parte dos acidentes de percursos dentro da normalidade, uma simples questão de saber conviver e nos acostumarmos com o que temos que lidar na vida, não importa o quê. Ou importa?

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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