O silêncio dos inocentes 4: A disciplina da solidariedade como trato, contrato e tratamento para a sociedade

E o Último dos Moicanos

Se a humanidade fosse um organismo, a psicopatia seria portanto a metástase mais evidente desse câncer. Não são células estranhas ao nosso organismo, são nossas células, são as células do corpo a atacar e matar o próprio corpo. De modo que o tratamento ao menos o preventivo, passa sobretudo pela identificação e eliminação de tudo que é tóxico a provocar essa mutação, e não de mais tortura e entortamento da sociedade como um todo, e dos rejeitados ainda mais.

Sei que estou dando um passo maior que a perna, porque antes precisaríamos nos revoltar com os psicopatas no poder de corporações estatais e privadas que os permitem cometem crimes em série contra a humanidade sem sequer tiremos ou destruamos seus perigosos brinquedos e armas. Mas demonizá-los não ainda, porque não só eles como o lugar reservado para que eles possam cometer seus crimes impunemente só existem porque nós compactuamos em maior ou menor grau da mesma mentalidade.

Poderia dizer que desenvolvemos um modo de vida, no qual a mentalidade é um componente chave, que não saudável nem sustentável a vida não só do mundo que nos sustenta, mas da nossa próprio corpo e alma, mas isso é um eufemismo para o tipo de monstruosidade que não só nos acostumamos a conviver, mas que ainda admitimos como se fosse normal, a cada momento de crise.

No sentido oposto, cuidar das nossas faculdades empáticas, pelos propósitos mas narcisistas e egoístas, não importa, é fundamental para preservarmos não só nossa vida, ou sua natureza, mas o gosto pela vida que, sinal dos tempos, tem sido tirado cada vez mais cedo de tantas pessoas não como desespero, mas já como desesperança racionalizada contra a nossa existência. Porque assim como é possível podar o desenvolvimento da consciência, pela substração e enfraquecimento das ligações solidárias ou impedimento das condições necessárias para seu livre e pleno exercício, também é possível fortalece-las pelo procedimento diametralmente oposto e contrário. Isto é, pelo exercício da solidariedade mesmo quando nos falta empatia ou mesmo vontade, com disciplina justamente para melhorar essas conexões tanto no plano neurológico quanto socioambiental.

O hábito não faz só o monge. O hábito simplesmente faz — seja lá o que for que você queira ser. E essa a questão, porque salvo os desvio padrão, a maior parte de nós, embora apresentemos a natural perda de empatia, que nos separa da criança que um dia fomos e o adulto que sonhávamos em ser, e portanto não somos santos, heróis, mártires, nem messias, não nascemos para carregar as dores do mundo, ainda sim podemos ao contrário do que se prega fazer muito, com relativa facilidade sem precisar deixar de ser os canalhas que no fundo aprendemos a gostar ser.

Geralmente se prega que fazer uma coisa boa, é mais difícil que uma ruim, isso é absolutamente uma impressão falsa, causada justamente pela pregação e propaganda. Quase toda ladainha sobre ser ou fazer algo de bom, está ligado, a controlar ou diminuir ou reprimir seus impulsos fúteis ou manifestamente maus. Batalha perdida. Não há pior estratégia. Não é tão difícil fazer uma coisa impensadamente boa quanto o é fazer uma igualmente estupidamente ruim, embora seja tão difícil e perigoso planejar e sistematizar uma coisa boa com grande impacto quanto o é qualquer coisa incluso as perversas. De modo que se eu estivesse dizendo para você cruzar o caminho ou interesses de psicopatas poderosos, sem adverti-lo que a chance de levar um tiro na nuca, é alto, estaria mentindo, mas quem disse é preciso fazer isso para fazer alguma coisa de bom ou útil? Entre o arriscar tudo e o não fazer nada há um universo e nesse universo ao contrário do que reza os mitos e lendas sobre monstros e santos que de fato caminha e se constrói silenciosa e humildemente a humanidade.

Hoje nos surpreendemos como é fácil para alguém explodir um bomba e levar consigo tantas vidas num único gesto, mas de quantos reais são feitos uma bomba, quanto reais seria preciso para num gesto igualmente impulsivo salvar um número igual ou maior de vidas prestes a morrer? E estamos falando, apenas de um gesto solidário impulsivo. Imagine tal feito como um hábito, relativamente frequente, não como escovar os dentes, mas quem sabe um pouco mais frequente que ir ao dentista. Evidentemente hábitos para quem tem dentes e dentistas. Mas é só um exemplo. Porém imagine se tal exercício da solidariedade não fosse só ensinado praticado com o mesmo rigor, educação e costume, que outras atividades que nos disciplinamos, ou somos disciplinados a fazer, mas se a tal fundamento do desenvolvimento humano fosse dada mesma atenção e sobretudo sistematização institucional de outros objetos ritos, hábitos e costumes- incluso os doutrinários que passamos gerações para incutir e ainda passaremos gerações lutando para conseguir nos livrar. Não como pregação, devidamente salvaguarda da concretização pela hipocrisia, mas de fato pura e simplesmente como costume, a ação que não é movida por quantidades descomunais de força de vontade, mas simplesmente pela força do hábito.

Uma mudança que parece ínfima mas que altera toda programação da rede ponto a ponto; de uma programação de espera e resposta ao chamados e comando da guerra e trabalho, para uma programação da livre iniciativa para a paz e fraternidade. Uma mudança que pontualmente parece ínfima, mas exatamente como a próprio vírus da violência também se propaga e dissemina a mesma razão, alterando o processo de reprodução das culturas, a educação, onde ela de fato se dá, em todos os lugares e tempos da vida, as vezes inclusive até nas escolas.

Isso salvaria o mundo? Não sejamos bobos. Nem loucos. Nem isso, nem tomar um banho mais curto, ou qualquer coisa nesta linha “faça a sua parte”. Mas é aí, é que a racionalidade se torna a armadilha niilista dos mais inteligentes. Quem é o “mundo”? Quem disse que viemos aqui para “salvá-lo?” Quem disse que nosso jurisdição e prepotência se estende ao infinito? Nos perdemos em fantasias megalomaníacas de totalidade, e não raro consequentemente de totalitarismo quando a humanidade não existe senão nessa pulsão e impulso naturais e instintivos que nos ligam e agregam. A empatia e solidariedade. Algo que admiramos ainda preservadas em seus estágios mais primitivos nos cães, e cada dia menos em nossa própria espécie, porque obedientes como cães domesticados também somos, mas fieis a nosso instinto gregário que fez da humanidade a espécie é muito antes de se inventar sua história e suas civilizações, já nem tanto.

Porém, ainda sim, em maior grau ou menor grau ainda sentimos e somos capazes de sentir e nos compadecer e solidarizar. E agarrar essas centelhas de empatia que nos humanizam, não como dor de corno curtindo a nostalgia pela paixão pela (com)paixão perdida, mas como a força motriz ainda que e efêmeras é o único força capaz de levantar com nossas próprias vontade e andar pernas, uns em direção aos outros, e não uns contra os outros.

Precisamos aproveitar esses impulsos, e sentimentos e aplicá-los como força de vontade, ainda que efêmera para exercitar essa capacidade humana gregária, e quem sabe, em algum momento estejamos isso seja tão automático e sistematizado que nem sequer nos damos mais conta de exatamente porque ou para quê nos levantamos todos os dias e trabalhamos sem questionar horas nisso, ou melhor sem precisar fugir dessa pergunta: por que afinal de contas eu faço o que faço?

Sim, as monstruosidades do homem tem cura. Mas enquanto uma abordagem que coloca prioridade no tratamento nos problemas do mundo e não nos seus efeitos nocivos sobre cada homem fechado em seu universo em particular. Uma cura que ao contrário do que pregam os gurus da moda, não passam pela autoajuda, mas pela ajuda sem outros interesses, mesmo os mútuos. Na prática portanto bem menos que a preocupação megalomaniaca de curar o mundo, mas qualquer ocupação para além do cuidar da sua própria barriga, cuidar do outro, não como terapia ocupacional, mas ação na falta de outra melhor, no mínimo ,social. Algo que sempre cabe uma outra regra de ouro: cuidado que longe de ser o tomar conta da vida alheia, longe de ser o fazer o outro aquilo que você gostaria que fizessem por você, é fazer por ele o que ele manifestamente quer de você, se ainda for capaz de parar para ouvir isso e claro quiser realmente fazer, porque obrigando ninguém, e se sente assim, isso é outra coisa, mas é não empatia, nem o sentimento o complexo sentimento de gratidão e reciprocidade mesmo que difuso da qual ela participa.

Não, não estou dizendo mandar um foda-se para seus problemas e angustias e buscar ajudar alguém que precisa mais que você, que você se livrará deles. Não se livrará, não dos reais. Pelo contrário muitos deles poderão ganhar uma dimensão ainda mais real e maior, e talvez até não só arrume mas descubra que tem mais problemas do que imaginava, assim como muitos outros se não irão desaparecem, ao menos tomarão também a sua uma dimensão muito menor e menos concreta e intransponível do que antes de imaginava. E isso não ocorre por uma questão de comparação com realidades distantas, mas na verdade por uma processo inverso de identificação com condições comuns até então desapercebidas. E sim, estou dizendo, que sendo uma vez capaz, de fazer isso por você mesmo, sem precisar que ninguém lhe estenda a mãos, não importa o quão ferrado ou apático esteja, que faça justamente o oposto por quem não consegue fazer o mesmo que você neste momento: até porque talvez tudo que lhe falte seja isso, os mesmos meios ou as mesmas chances para poder assim proceder algum dia.

Nossas ações inexoravelmente se propagam como ondas pelo espaço e tempo, mas sua trajetória ao mesmo tempo (e espaço) também compõe a nossa existência definindo quem somos, não como meras partículas propagadores de ondas existindo em função de um todo, nem muito menos seres particulares sem nexo a vagar sem nenhuma ligação com o universo, até porque não estamos, nem somos esse universo, nem como parte nem como objeto separado, é justamente o inverso, tanto o eu em particular como o todo universal, não são propriedades do tempo ou espaço, meros constructos e abstrações mentais, mas dos fatos e eventos, entes e fenômenos feitos de não apenas de nexos e ações, mas da força de suas relações e conexões a constituir nossos tempos e espaços. Ao contrário do que muitos pregam, os egoístas estão certos: nada existe senão para que nós possamos existir, porém se esquecem que essa também razão é também a razão da sua própria existência, não só como principio, mas sentido e inevitável fim. Um paradoxo? Apenas aparentemente, para quem não sente e logo não entende o pode ser essa força solidária, que no fundo não é outra senão a mesma que dá vida e liberdade, sem pedir nada em troca, a libertária.

Não somos o último dos moicanos, é sempre o outro, o outro que o é.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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