O Sermão do bom Ladrão

E 500 anos de Idiocracia no Brasil

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Esclarecimentos a algumas objeções que levantadas no Facebook ao texto:

2. Também não estou acusando ninguém, mas manifestando minha opinião sobre as acusações e (inclusive policiais) que pesam sobre o oficialmente investigado. E faço isso não só satirizando ele, mas a própria humilhação que ele e sua postura representa e nos submete.

3. Não creio ser necessário esclarecer que o “bandidinho”era portador de “problemas psicológicos” ou “deficiência mental” por duas razões:

a. mesmo que ele fosse um bandidão (ou como disse o capo de todos os bandidos) uma vez detido, rendido ou deposto nenhuma violência poderia ser feita contra ele. E quem defende o contrário está fazendo apologia ao crime.

b. mesmo que ele estivesse completamente fora das suas faculdades mentais, isso não retira da pessoa se por ele ameaçada o direito a legitima defesa- respeitado o que já falei em acima (em a.) e claro usando de força proporcional estritamente necessária para contê-lo.

E quando digo isso não estou inventando nenhuma roda. Isso não só é sabido como é considerado legalmente obrigatório saber; ou seja, ninguém pode alegar em sua defesa perante nenhum tribunal do mundo a ignorância sobre isso.

Nenhum bandido seja ele doido ou não tem o direito de barbarizar os outros, e o cidadão que defende ou acha que alguém seja lá qual for a razão, seja porque foi uma vítima no passado ou a poucos minutos a trás, por definição, não é mais o dito “cidadão” mas o “bandido”. Pior ainda se acredita ou defende que pode cometer qualquer tipo de violência não por ter ser sido vitima das circunstancias, mas por possuir qualquer tipo de status social ou autoridade diferenciada sobre outras pessoas dependendo da classe ou condição social da outra(mesmo que está seja impropriamente derivada de um crime flagrante!).

Quem defende o direito do criminoso ou do cidadão como se esse fosse uma categoria, uma classe social e não uma circunstancia derivada do ato está defendo a imunidade de determinada “classe” de barbarizar as outras dependo da sua visão ideológica. O crime não se define por uma condição humana, ou status social, mas pelo ato. Se o cara é um coitado, um rei ou um cidadão comum, ou se ele foi uma vitima num passado distante, ou há apenas alguns minutos atrás, nada disso justifica uma agressão. Ter sido vitima de um crime não dá licença para que a pessoa cometa um crime de agressão contra quem a tiver a atacado. A legitima defesa não é uma licença legal para o uso da violência é um direito natural inalienável de resistência e preservação da sua vida e liberdade com toda a força necessária e proporcional apenas para isto: preservar a vida. A legitima defesa não se caracteriza portanto pelo dano que causa no agressor, mas pela verificação se tal dano foi ou não necessário para findar a agressão e ponto. Para além disso, ou depois disso é violência e não sua contenção. É apologia a violência do agressor como vitima.

Repito, estar enunciando isso por conta de objeções só indica o grau de absurdo e ignorância de gente que pressupostamente foi civilizada e não é analfabeta funcional. Na verdade, muita gente até sabe disso tudo, mas me pediu para esclarecer melhor, justamente para não dar margem a esse tipo de interpretação. Mas o que eles não percebem é que a elas (que defendem crime dependendo da sua simpatia por quem o comete ou ódio a quem vitima) não existem margem de interpretação, porque eles não interpretam, eles julgam e as vezes sem sequer dar-se ao trabalho de ler. Ficar preocupado com o que estas pessoas acham ou não acham, se elas se ofendem ou não é entregar-se como reféns a prepotência ignorante e covarde delas. Que elas se consumam em seu ódio.

Quem não entende que a minha critica não é dirigida contra o “bandidinho” (doente ou não) que invadiu a casa; que não é contra o dito cidadão que resolveu virar bandido e barbarizar; que não é contra sequer contra o bandido que virou presidente, ou sei lá ao cidadão que ao virar presidente resolve virar também bandido; não creio que há o que possa (ou queira) dizer. Meu discurso não é nem contra a impunidade é contra a servilidade, hipocrisia e covardia daqueles que odeiam e não perdoam nada nos pequenos bandidos mas dão tudo para grandes até mesmo a sua dignidade e honestidade.

Dizem que cada povo merece o governo que têm, ou o que é a mesma coisa, que a nossos governantes são o espelho da nossa sociedade. Se o Brasil de hoje prova alguma coisa é que isso é uma mentira. Se há um poder que se assemelha a mentalidade de um povo, ao seu senso de justiça e dever social, esse poder é o judiciário e não o executivo. Os judiciário é hoje o melhor retrato da cultura ou falta de cultura de Direito do povo brasileiro. O povo age e pensa como se fosse juiz, e o juiz por sua vez age com a mesma servilidade e covardia desse “povo”: abaixa a cabeça para quem está acima dele e lambe sua botas como um cão; e ladra e se comporta como o dono da casa para quem está abaixo, ou não tem força e poder de fato para fazer ele enfiar o rabo entre as pernas.

Então de duas uma: ou nos tornamos um outro povo com um verdadeiro senso de justiça e arrumamos um novo judiciário, ou judiciário se emenda é passa a ensinar com o que é verdadeira justiça para quem ensandeceu na sua ignorância. Ou uma coisa ou outra. Porque as duas, do jeito que está, não vai durar mais 500 anos.

Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício: porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades e interpretar as significações, a uns e outros definiu com o mesmo nome: Eodem loco ponem latronem, et piratam quo regem animum latronis et piratae habentem. Se o rei de Macedônia, ou de qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata; o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.
Quando li isto em Sêneca não me admirei tanto de que um estóico se atrevesse uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero. O que mais me admirou e quase envergonhou, foi que os nosso oradores evangélicos em tempo de príncipes católicos e timoratos, ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem a mesma doutrina.

O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões de maior calibre e de mais alta esfera; os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento distingue muito bem São Basílio Magno. Não só são ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com mancha, já com forças roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor nem perigo: os outros se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam.
Diógenes que tudo via com mais aguda vista que os outros homens viu que uma grande tropa de varas e ministros da justiça levava a enforcar uns ladrões e começou a bradar: lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos… Quantas vezes se viu em Roma a enforcar o ladrão por ter roubado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo, um cônsul, ou ditador por ter roubado uma província?… De Seronato disse com discreta contraposição Sidônio Apolinário: Nom cessat simul furta, vel punire, vel facere. Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer. Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo para roubar ele só! Declarando assim por palavras não minhas, senão de muito bons autores, quão honrados e autorizados sejam os ladrões de que falo, estes são os que disse, e digo levam consigo os reis ao inferno. — Padre Antônio Viera 1655 (mas parece que foi ontem).

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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