O pavão e o camelo

Uma curta historinha escrita para um amigo

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Havia na Palestina um belo Oásis, cercado (é claro) por todos os lados de um árido deserto. De dia o Oásis era habitado por pavões emplumados, a noite por hienas ferozes. Ninguém sabia como pavões e hienas podiam conviver num mesmo lugar ainda que nunca vistos juntos, de modo que os beduínos diziam que aqueles pavões eram na verdade as próprias hienas que se disfarçavam de dia, e que ao cair noite, protegidos pelas sombras abandonavam sua plumagem e voltavam a sua forma de hiena. No fundo pouco importava as lendas… se as hienas do cair da noite eram os pavões de dia ou se apenas os serviam, o fato é que nenhum animal ou pessoa, senão eles, podia beber do oásis. Porque de dia os pavões o cercavam com toda sua empáfia, e a noite as hienas com toda sua ferocidade.

Certa feita, um beduíno desavisado, depois de um longa e penosa viagem no deserto parou com seu fiel camelo já sedento para beber e descansar sob a sombra das arvores e beber um pouco d´água. Rapidamente os pavões que se julgavam os donos do oásis foram até ele para expulsá-lo.

-Esse oásis não é para beduínos, nem muito menos camelôs — disse o mais emplumado de todos os pavões.

-Por que? — perguntou o beduíno.

-Esse oásis não é lugar para nômades, gente ou bicho, que vem e vai sem ter onde recostar sua cabeça. Pegue seu camelo e saia já daqui, essa fonte é nossa, e esse oásis é nossa casa e não a sua.

O beduíno apenas sorriu olhando para seu camelo que sem nenhuma atenção ao pavão continuava a beber da fonte. O pavão empertigou-se. E em tom de ameaça disse — Fiquem e arquem com as consequências porque ao cair da noite não serei eu a ter contigo, mas as hienas…pegue seu camelo inútil e suma.

O beduíno que havia estado em muitos lugares por várias noites e dias então encheu seu cantil, chamou seu camelo e partiu sem dizer uma palavra.

Já longe, de volta ao árido deserto seu camelo intrigado, perguntou a seu companheiro de viagem porque ele havia obedecido e partido. Tive pena do pavão- respondeu ele.

-Pena? — perguntou intrigado o camelo. E o beduíno explicou.

-Sim, pena, meu amigo… pena da inveja que ele tem por ti. — respondeu o beduíno

-Inveja de mim? — insistiu o camelo.

-Sim, de você. Você precisa apenas beber um pouco da fonte para poder atravessar desertos e montanhas por noites e dias inteiros. Eles mal conseguem sair de perto dela sem morrer. E quando essa secar, morrerão, enquanto você e eu, meu amigo estaremos bebendo em outro oásis. E isso graças a você, meu amigo, que ainda tem forças para fazer tudo isso me carregando em suas costas. Eles precisam desesperadamente da fonte. Você não só pode carregar a fonte consigo, mas encontrar novas em oásis que eles sequer consegue sonhar que existem,e que é apenas deserto para eles- explicou o beduíno e completou:

-Sim, meu amigo, fiz o que eles exigiram porque tudo o que querem e podem é tão pouco que tive pena dos pavões e suas hienas e sua inveja. A riqueza deles se resume aquele pequeno oásis, seus horizonte a aridez do deserto, e suas riquezas tão somente o que eles conseguem manter só para eles. A nossa casa é o mundo. Nosso horizonte são o céu e as estrelas. E nossa riqueza simplesmente tudo o que partilhamos e que nos é dado para compartilhar.

E o camelo também teve pena das hienas que não sabiam que eram pavões de dia e dos pavões que não sabiam que eram as hienas da noites.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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