O nome da Rosa: o idealismo como falsidade e o cinismo como verdade — Parte 2

“Na casa de um homem rico só há um lugar para se cuspir, na sua cara”

Diz-se que certa feita o filosofo cínico Diógenes de Sínope (do qual sou admirador declarado) tendo sido repreendido por cuspir no chão da casa de uma pessoa rica, teria dito que estavam certo repreendê-lo “não há outro lugar para se cuspir na casa de homem rico que senão na cara do dono da casa”.

Em outros textos dizem que Diógenes convidado a uma casa rica e advertido por seu dono que não poderia cuspir no chão, quando com vontade de cuspir, teria cuspido na cara dele, dizendo que não havia encontrado outro lugar que fosse permitido fazê-lo. Não se sabe qual das duas é a real. Se a dita ou a praticada.

De toda forma, reza a lenda que Diógenes tinha outros hábitos ainda mais reprováveis: costumava satisfazer todas suas necessidade e público… todas. Não só cagava, mas se masturbava em praça pública. Um dia quando questionado sobre seus hábitos libidinosos escandalosos, apenas respondeu: “quem me dera se apenas esfregando a minhas barriga com as mãos desaparecesse também minha fome.”

Platão chamava Diógenes de um Sócrates enlouquecido. De fato, não apenas vivia como um mendigo, era um mendigo e fazia questão se não apenas o sê-lo, mas de viver literalmente como um cão. Como bem disse Rafael Trindade, fazia da prática e da apologia da pobreza e a simplicidade uma filosofia de vida vivida que fariam Cristo, Buda e São Francisco de Assis parecerem consumistas fúteis e metrosexuais.

Dizem que andava com quase nada, um cajado, um manto e um pote, mas ao ver uma criança bebendo água de uma poça só com as mãos jogou seu pote fora.

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Não é possível distinguir até onde é só lenda.

Sei que a filosofia cínica clássica é necessariamente o oposto do triste espetáculo que essa ideologias e seus idealistas farsantes nos dão. Mas é certo que “a verdade” que Diógenes cuspia na cara da burguesia é a mesma que que ela é incapaz de encarar no espelho:

Logo se um burguês tivesse a coragem que pede Foucault e fosse mesmo um militante e de esquerda a única cara que encontraria para cuspir seria a sua.

E Diógenes? teria cuspido na cara do dono da casa, ou em quem o ofendia? Quem conhece suas outras histórias e filosofia que une discurso e prática há que supor que não. E mesmo que tivesse, não seria por isso que caberia aprovação ou admiração a sua manias. Afinal, não duvido que ele fizesse mesmos suas necessidades em público, e nem por isso pretendo defender ou praticar esse nível de desprendimento ou comprometimento com a prática- nem o aprovaria nem mesmo como “protesto performático”.

E a moral da historia não é essa. Mas sim, que ele sabia provocar e lidar com provocações sem ser cuzão. Não era um covarde, ou uma falsificação de si mesmo, ou do que pretendia ser. Como diz outra história sobre ele, uma das minhas preferidas:

Ele costumava entrar no teatro ao fim dos espetáculos só para dar de cara com os espectadores que saíam, e quando perguntado o porquê disto, ele respondeu: “Ora, mas é isso que tenho procurado fazer em minha vida toda”.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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