O Medo que venceu a Esperança: Carta a um Amigo sobre a Esquerda e o Petismo

Se correr o bicho pega se ficar o bicho come

“O PT manifesta seu apoio e solidariedade ao governo do PSUV (Partido Socialista Unido de Venezuela), seus aliados e ao presidente Nicolás Maduro frente à violenta ofensiva da direita contra o governo da Venezuela e condenamos o recente ataque terrorista contra a Corte Suprema. Temos a expectativa que a Assembleia Constituinte possa contribuir para uma consolidação cada vez maior da revolução bolivariana e que as divergências políticas se resolvam de forma pacífica.” — No Foro de São Paulo, PT e PC do B subscrevem apoio ao regime de Nicolás Maduro

Olá meu amigo

A crítica que você fez ao pensamento de esquerda no Facebook a desonestidade intelectual desta falsa esquerda carcomida é a mais importante autocritica que falta para quem é ou tem afinidade com as causas sociais que ela se arroga para si.

Sei e me identifico com a revelação que você fez. E faço questão de apoiá-la, e se permitir reforça-la porque, você sabe ela me toca, afinal estou há 10 anos fazendo essa mesma “autocritica”… denunciando essa demagogia com meu minúsculo ativismo social; importunando com projetos sociais os discursos mais caros e utópicos que por aqui foram desenhados para nunca sair do papel nem do palanque.

Assim como libertário de esquerda há um bom tempo antagonizando civilizadamente com os marxistas e há um bom tempo sendo antagonizado de forma não tão civilizada por petistas posso de dizer o quanto concordo com você e até ir além.

Eu diria para você no que se refere a esquerda anti-libertária isto não é apenas uma questão de incoerência prático-teórica, mas de falsidade ideológica disfarçada de dialética mesmo. Eles não são só meros demagogos “progressistas”, mas contra-reformistas e anti-revolucionários no sentido mais profundo (e não-materialista da palavra).

No que se refere a esse projeto de poder não se prestaram a ser só a própria patrulha ideológica do politicamente correto, mas foram a polícia política de todo ativismo social independente e dissidente, sobretudo o libertário.

Qualquer organização ou projeto da sociedade civil que não fosse cooptado era tomado por inimigo não apenas deles, mas da própria esquerda e até da causa popular que eles sequestraram e arrogantemente encarnaram. E aqueles então que denunciaram seus programas de vigilância e doutrinação de massas de viés totalitário disfarçados de mera propaganda populistas, esses então conheceram essa e outras facetas desses tipos de regimes bem mais cedo. E você sabe que falo disso por conhecimento de causa.

Porém esse demagogia antitética e inimiga do ativismo social não é propriamente uma característica exclusiva da esquerda, mas do autoritarismo e populismo em geral. Dentro do Diagrama de Nolan ele não está restrito à horizontalidade, mas compreendido no eixo da verticalidade libertária-autoritária que vai das formas de estadismo mais totalitárias até o anarquismo puro.

E nisto se você me permite é preciso fazer uma distinção tanto histórica quanto contemporânea entre libertários e marxistas. Ou como dizia Engels entre os “utopistas” e os “socialistas científicos”. Aos olhos de Marx, Proudhon não passava de um pequeno burguês — embora estrategicamente tenha esperado ele morrer primeiro para publicar suas acusações. Já do outro lado, dos pioneiros do socialismo e libertarismo, em Proudhon e Bakunin, pode-se dizer que encontramos as primeiras críticas e advertências deste socialismo monopolizador de ideologias, estados e esquerdas… e do próprio socialismo estatista: o marxismo!!! Em Bakunin encontramos a primeira denuncia de Marx como germe dos ditadores e regimes totalitários, e senão a receita o fermento escatológico do que viria a ser os socialismos nacionalistas.

Concordo com a denuncia quase premonitória dos velhos anarquistas… muito do bolchevismo não apenas leninista, mas do stalinista mesmo, já estavam lá, assim como o próprio bolchevismo tardio dos caudilhos latino-americano tanto bolivarianos quanto populistas brasileiros. Tanto que as revoltas de 2013 e muitos dos primeiros opositores dessa esquerda (como eu) estão ligados a essa tradição libertária não apenas repudiada, mas odiada não apenas pelo petismo, mas por toda a velha esquerda autoritária e socialista de estado do mundo inteiro.

Contudo não posso ser injusto com Marx . Se os socialistas libertários não tem nada a ver com o lulopetismo também não posso jogar toda a conta deles nas costas do papa dos socialistas governistas, porque muito dela pertence ao Papa mesmo, ou pelo menos aos bispos - metade dela digamos, a metade Lula.

O PT pode até ser marxista mas Lula nunca foi nem marxista nem sequer socialista ou até petista, Lula como todo bom populista sempre foi em tese lulista e na prática o maior 171 da história do Brasil. Um exame minucioso da historia recente do Brasil irá demonstrar que o falso-messias socialista foi o contra-ataque da igreja contra a invasão marxista da teologia da libertação no seu maior curral (em fiéis) do mundo: a América Latina. Lula foi um submarino eclesiástico de base fabricado com a missão de substituir o radicalismo revolucionário pelo trabalhismo socialista cristão, com todo seu peleguismo sindical perfeitamente adequado a um simulacro de social-democracia, farsa da redemocratização e culto ao trabalho alienado e submisso.

É obvio que o lulopetismo não veio para por um fim nas verdadeiras utopias, -porque estas, Vargas já se encarregara de dar o tiro de misericórdia faz tempo nas Clevelândias e DOPS-, mas para manter a promessa da eterna agenda progressista viva exatamente como ela é ainda hoje: a eterna contra-reforma disfarçada de promessa de “revolução gradual” para sempre adiada para o amanhã. E revolução não no sentido marxista materialista e dialético, mas em seu sentido mais profundo: de transcendência do paradigma cosmo-epistemológico.

Mas é isso aí. Você tem razão. Não importa se estamos falando da falsidade ideológica destes bolcheviques estalinistas, bolivarianos, dilmista ou lulistas. Não importa se estamos falando do autoritarismo estatal dos marxista, ou até mesmo do socialismo desatualizado de libertários presos ainda só ao arcabouço do ideário dos primeiros anarquistas… você tem razão. A esquerda brasileira mesmo quando é autoritária, falseta, ainda sim cheira a naftalina, e carece de renovação.

Aliás, definitivamente não só a esquerda, mas todo o espectro politico precisa se redescobrir e se reinventar bem distante desses populistas e autoritários: não só os petistas mas dos fascistas e escravagistas que eles plantaram e alimentaram (alguns como o par antitético, outros como aliados vide o PMDB), dançaram com eles e agora deixaram para a gente se livrar enquanto eles só ganham enquanto seus pseudo-inimigos sangram — e fazem o pais sangram.

Está mais do que na hora de literariamente, descobrirmos popularmente os autores do novo mundo que refundaram o pensamento libertário tantas vezes dado como morto, a cada grande guerra.

É por isso que tenho observado com entusiasmo como os pensadores da direta libertária norte-americana — especialmente os que beberam nas fonte da escola austríaca de economia, e que tem inspirado novas leituras aqui no Brasil. O que é importantíssimo, não só àqueles que se identificam com esses argumentos, mas para todos que já perceberam o esgotamento do keynesianismo, e falência dos estados de bem-estar social e social-democracias.

Muita gente tem descoberto por meio deles que o libertarismo não parou no anarquismo do seculo XIX europeu, mas que durante todo seculo XX foi reinventado na America do Norte. É por isso que mesmo com certo atraso precisamos redescobrir o libertarismo também a esquerda que foi desenvolvido nesse mesmo caldo cultural do outro novo mundo.

Creio portanto que é a direita e esquerda libertárias norte-americanas que vem protagonizando o debate e o intercambio mais rico e criativo do livre pensamento contemporâneo. De tal modo que hoje é possível dizer que o libertarismo como um todo não apenas subverteu os velhos cânones do liberalismo versus e conservadorismo, mas do próprio esquerdismo e direitismo tradicionais, criando um novo espectro político, que embora esteja ainda num plano por demais cartesiano de duas coordenadas, não está tão reduzido ao primitivo dualismo do nós contra eles ou da luta de classes.

Gostaria de compartilhar com você alguns nomes de uma lista que ultrapassa e muito aqueles pensadores que eu li do libertarismo de esquerda norte-americano do século passado que por sua vez tanto os novos libertários de direita quanto os de esquerda foram beber na fonte:

Emma Goldman, Voltairine de Cleyre, Lysander Spooner,Benjamin Tucker entre outros…

Já dos mais atuais tomo por referencia dois libertários que no meu entender fizeram a antropofagia não só do velho marxista e anarquismo europeu do seculo retrasado, mas já começaram a fazer a síntese do libertarismo de direita e esquerda que Murray Rothbard ensaiou, criando obras contemporâneas revolucionárias: Hakim Bay ( Peter Lamborn Wilson), e RAM (Robert Anton Wilson). E mais recente ainda: Kevin Carson e Roderick Long.

Não sei se você desistiu das utopias meu amigo, mas essa esquerda não vale nada, nem muito menos tudo isso.

Abraços Marcus

PS:

O medo que venceu a esperança

O silêncio das ruas tem chamado a atenção da imprensa internacional. O jornal Süddeutsche Zeitung, da Alemanha, chegou a publicar em junho que é “surpreendente que não haja milhões nas ruas para exigir a saída de Temer.” Sensação de “fadiga” e “apatia” foram algumas das palavras usadas por jornais estrangeiros para explicar a passividade das ruas diante dos escândalos e da insatisfação com o governo.

À DW Brasil, o brasilianista Peter Hakim, presidente emérito do Inter-American Dialogue, com sede em Washington, opina que “fadiga” não é a definição mais precisa para explicar o que está acontecendo. “Não é que as pessoas não queiram protestar, mas elas estão sendo desencorajadas pela conjuntura”, afirma.

Segundo Hakim , muitos que protestaram contra Dilma desejam a saída de Temer, mas agora hesitam em sair porque isso pode beneficiar o PT e Lula — aqueles que foram originalmente alvo de protestos.

“A polarização da sociedade continua a desempenhar um papel que impede as pessoas de se unirem. Já o PT e parte da esquerda que convoca protestos transformam regularmente seus atos em um ‘volta, Lula’, e não em um ‘Fora, Temer’ ou algo que aponte para uma solução política eficaz que seja capaz atrair mais pessoas”, completa o brasilianista. (…)

Entre os principais movimentos que pediram a saída de Dilma em 2015 e 2016, a mensagem adotada nas convocações dos protestos esvaziados deste ano tem, por enquanto, passado longe de um “Fora, Temer”, sendo substituída pela defesa da Lava Jato e repúdio às medidas de anistia para políticos envolvidos com corrupção.

Já o lado que defendeu Dilma tem mostrado oficialmente repúdio às reformas de Temer e pedido eleições diretas para presidente. Mas os eventos muitas vezes se transformam em palco para comícios do ex-presidente Lula, que não esconde o desejo de voltar ao poder.

Segundo o professor de gestão de políticas públicas Pablo Ortellado, da USP, a explicação para a falta de protestos mais incisivos pode ser explicada também pelo comprometimento e agenda de interesses das lideranças que têm a influência para fazer grandes mobilizações.

“Não acho que seja fadiga, não há uma pesquisa que não demonstre insatisfação. O que parece claro é que as lideranças que tem conquistaram legitimidade para mobilizar manifestações, seja na esquerda ou na direita, não estão se empenhando na organização de novos protestos”, diz.

Segundo Ortellado, essas lideranças de ambos os lados “estão altamente comprometidas com o sistema político, que naturalmente não está interessada em manifestações”.

“É preciso muito esforço para mobilizar, são os poucos os grupos que conseguem fazer isso. Mas justamente esses atores têm feito pouco ou nenhum esforço. As lideranças dos grupos que pediram a saída de Dilma deixaram claro que defendem as reformas econômicas de Temer, então não querem que o presidente saia.”

“Já na esquerda petista e nos sindicatos ligados ao partido, a falta de empenho ficou nítida na última e esvaziada greve geral”, continua o especialista. “Esses grupos adotam um discurso oficial de ‘Fora, Temer’, mas é possível especular que a manutenção do presidente interessa aos políticos aos quais eles são ligados. Quanto mais impopular Temer fica, mais Lula conquista a preferência do eleitorado. Então é interessante que eles deixem Temer sangrando até 2018. O presidente atual também está empenhando em fazer reformas similares àquelas que a própria Dilma propôs no final do seu governo. Dessa forma, também é conveniente deixar outro presidente enfrentar o desgaste de aprová-las.” -O silêncio das ruas do Brasil

O rastro da cobra e o couro dos lobisomens

Pois é… mas de todos os legados dessa velha esquerda, sem sombra de dúvida o pior delas foi o do medo que venceu a esperança- provando mais uma vez que o se diz não é via de regra exatamente o oposto do que se prática, especialmente quando se diz em propaganda política.

O grande problema hoje não é o petismo até porque ele não detém mais o poder, mas justamente os gangsters e banksters outrora aliados que traíram e afundaram seu antigo submarino e tomaram explicitamente o Estado. O cocô do cavalo do bandido, que não perdeu o “cavalo selado passar...”

Lula e o PT são um fantasma, uma assombração que ronda o palácio do Planalto e ajuda as múmias políticas a permanecerem nele, apavorando uma população que tem mais medo de fantasmas do passado recente que os sempre muito bem vivos, morto-vivos de sempre da República.

Mas não é só medo maior dos mortos do que é dos sempre muitos vivos. É uma questão de ojeriza mesmo, de gente que só faz espalhar a roda. Afinal, quem conhece o modus operandi dessa gente, sabe que o melhor a se fazer quando eles conseguem entrar por uma porta é sair pela outra. E hoje não é um ou outro ativista que sabe disso, mas o Brasil. Contudo espero não precisemos passar por tudo de novo, agora do outro lado do espectro político para descobrir com o outro mito populista, agora da extrema-direita: Bolsonaro que o problema não é de esquerda ou direita, de conservação ou revolução, mas falta de independência, soberania e autodeterminação. Falta de solidariedade, emancipação e república. Falta de uma verdadeira democracia, liberdade e um estado de direito com garantia de fato de cidadania plena, fundado por um povo e não seus dominadores e exploradores. Libertação.

Até quando a sociedade vai oscilar como pêndulos sem vontade ou consciência própria entre os dois lados de uma mesma moeda que se sustentam? Até quando a sociedade continuará presa como inconsciência coletiva a esse eterno circulo vicioso entre polos extremos de ideologias autoritárias e sua personas arquetípicas muito mal disfarçadas? Até quando continuará fadada a repetir os mesmos erros históricos, com discursos distintos? Essa é a grande questão que expõe o maior problema cultural do Brasil: a ausência de cultura de liberdade e seus valores.

O Brasil é um pais especialista em perder e sacrificar suas novas gerações, correndo de um lado para o outro do espectro ideológico em busca de um salvador da pátria, quando esse procedimento de culto ao paternalismo e pátrio-poder não produz nada senão a fuga da emancipação e responsabilidade social que sempre acaba no mesmo lugar comum: o da eterna infantilização e imbecilização do povo brasileiro a cultuar velhos mitos travestidos em novas roupagens ideológicas.

O Brasil é um dos países pseudo-democráticos com uma das sociedades civis, mas fracas e desorganizadas que existe, onde até mesmo a soluções minarquistas se apegam desesperadamente a parte mínima do Estado, ao que a sociedade não é, em detrimento da visão de desenvolvimento do que ela pode ser. Pais no Brasil seja com um Estado gigante ou mínimo é sempre o Estado e não a sociedade. onde o popular, o social e o humano e seus direitos são meros objetos de interesses e programas políticos-ideológicos e não do universo de toda a população enquanto sociedade. Não é a toa portanto que o Brasil esteja sempre como o pais do futuro a conviver com as piores práticas escravagistas e autoritárias do passado. E assim será enquanto continuamos a nos comportar como gado a espera das salvação do próximo lobo e suas matilhas a esquerda e direita e principalmente eternamente no centro, no bojo do poder e esses predadores parasitas que jamais foram em momento algum de nossa história postos fora dele.

Não é só a esquerda que ainda vai demorar muito enquanto a crescer e assistir o crescimento da extrema-direita enquanto não se livrar dos seus fantasmas e mortos-vivos. É o pais como um todo, enquanto não se livrar de todos eles independentes dos disfarces ideológicos. Especialmente os que já não tem sequer ideologia mas tão somente o poder seus vícios e forma teratológicas.

Image for post
Image for post
PF conclui que Renan, Jucá e Sarney não obstruíram as investigações da Lava Jato

“Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come…”

Image for post
Image for post

Aliás, já está ficando e devorando tudo que pode…

afinal nunca vi rastro de cobra, nem couro de lobisomem…

Image for post
Image for post

…e pelo jeito não vamos ver, não tão cedo, não no Grande Sertão do Brasil…

Written by

X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store