O hackerismo como estratégia libertária político-jurídica internacional

Invadindo o campo da reserva do possível do estadismo para libertar o mínimo vital e a busca pelo ideal jus natural

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Não acredito que o ideal delimite o possível, mas conseguir rompê-lo não é fácil. E isto é especialmente difícil e perigoso quando as pessoas que guardam a reserva do possível tanto no plano do poder jurídico quanto do poder de fato, o armado não estão dispostas a deixar que o sistema se reinicie sem usar das suas prerrogativas de supremacia da violência.

Uma troca de sistema completo, mesmo que praticada via não-violência, é uma revolução e os monopolistas da violência não toleram insubordinação. Vide todas as primaveras dos povos.

Em outras palavras, para haver essa troca completa de sistema explicita que tem a adesão dos atuais detentores de poder de fato ou a derrubada deles. E isto não apenas dentro do território nacional, mas inclusive fora dele, porque os poderes de fato e direito de um estado-nação quase nunca são os maiores poderes que precisam de fato serem convencidos.

É como aquela piada da década de 60, a estratégia é perfeita agora só falta combinar com os russos… ou com os americanos.

Por exemplo no início do século XX quando o anarquismo e socialismo se expandiam como internacionalismo, um dos grandes debates entre pensadores anarquistas foi se deveriam ou não entrar na primeira guerra mundial.

Note como os Estados-Nações toda vez que os povos começam a se agitar em torno da liberdade, fabricam não apenas guerras fantasmas como a do terror para sustentarem a alienação dos seus povos, mas guerras de fato. Se preciso for jogando bombas em civis; torturando prisoneiros de guerra; ou ainda provocando recessões econômicas mundiais. Esse modus operandi só consegue produzir estados e protoestados ainda mais monstruosos que os ordinários, levando até mesmo quem joga bomba atômica pagar de mocinhos da história, ou um genocida reconhecido como Stalin ficar bonito na foto como libertador da Europa.

Aconteceu com a República de Weimar que levou ao nazismo, está acontecendo com o Oriente Médio literalmente explodido que trouxe o Estado Islâmico, e provavelmente vai acontecer com todos os países que hoje enfrentam crises econômicas e humanitárias graves. Trump provavelmente não vingará, mas na Europa Continental, Africa e Latino-América e Asia, muitos partidos populistas de extrema direita e seus lideres vão chegar ao poder. E isso de certa forma interessa as potencias que tem em estados tipo Coreia do Norte o contraponto do absurdo que encobre sua própria ilegitimidade e se necessário empurra as massas ao sacrifício contra o “mal maior”. Clássico.

Logo, a transcendência das estruturas demanda não apenas uma superação dos códigos nacionais, mas dos métodos e discursos de métodos, a superação da filosofia por trás da ciência e da produção das verdades “mais modernas” que sustenta o estadismo como farsa internacional. Algo impossível sem a construção da humanidade como rede transnacional.

Mais do que desescolarizar ou desculturalizar é preciso cosmopolitizar nossa humanidade, e isso tem que ser feito não só dentro dos próprios mundos que somos obrigados a viver, mas dentro dos territórios e paradigmas instituições ideológicos retomadas e reinvertidas por dentro.

Podemos nos reapropriar das velhas estruturas e sobre elas erguer o novo, ou reerguer as novas das ruínas com os escombros delas. Isto não é só uma questão de escolha, mas muito mais da resistência dos poderes constituídos pela força armada e primitiva a qualquer evolução.

Entretanto o que não é mais possível é deletar completamente o sistema, retornando o passado antes da concepção do estadismo, porque ele já marcou completamente a nossa historia e espécie. Assim como a natureza é do lixo e das ruínas da civilizações supremacistas que a povos precisa reconstruir a sociedades livres e natureza.

É um processo onde sabemos que é impossível escapar da matrix ou lutar contra essa superestrutura de fora, mas que é preciso mesmo quando se escapa, retornar a esse sistema totalmente reprogramado como um vírus e fazer a própria matriz, a própria instituição trabalhar contra ela ou seja pela pela libertação das consciências como profissão de pedagogia libertária em todas as ações da vida.

É o mito de todo iluminado, de todo messias, aquele que encontrando o mundo real não pode carregar todos para fora, destruí-la, nem obrigar a olhar para a luz. Ele precisa, e sabe que precisa, voltar para dentro do sistema vestido do corpo-mente do escravo para libertar seus irmãos.

A própria democracia, por exemplo, como crato e não arque não é um sistema libertário ideal, mas justamente um desses processos disruptivos, onde a partir de monarquias vai se construindo a horizontalização do poder, pela desverticalização das pirâmides. E porque simplesmente não destruir as piramides? Porque as piramides, a matrix, não está fora, mas dentro da cabeça das pessoas. E sempre haverão aqueles que recusarão até por uma questão de livre vontade a deletar o velho código. E forçar aceitar qualquer descodificação ou nova codificação é simplesmente reproduzir a velha lógica com uma linguagem.

Melhor é usar a velha linguagem, os velhos códigos, as velhas estruturas para rodar a nova consciência até mesmo nas velhas arcaicas linguagens de máquinas humanas ou corporativas estatais ou privadas, religiosas ou laicas. É possível rodar o programa libertário até mesmo em servidores que só entendem COBOL ou a linguagem do velho testamento.

Claro que se jogarmos merda demais nas flores, ao invés de adubar vamos matar o novo, mas a única forma de superar estruturas mortas e artificiais é a renovação orgânica da vida. Isto não necessariamente precisa ser feito reciclando tudo que é velho e podre, mas não só é absolutamente necessário gerar e se livrar de todo o lixo ecológico e ideológico produzido pelo estadismo, como estar preparado para continuar se livrando de todo o lixo que as pessoas e aparelhos ligadas ao poder vão produzir.

E isso terá que ser feito sem novamente destruir o mundo delas, mas entrando e as ajudando a reconstruí-lo. Na verdade o mito da caverna, o mito da matrix contém um ledo engano. Porque não basta a nós sairmos da matrix e reencontrarmos a luz. Precisamos, trazer a luz para dentro destas zonas de alienação sem destruí-las, porque a matrix não apenas já faz parte do mundo, ela faz parte da nossa própria psique!!! O monstro hobbesiano do estadismo não mora no codex, mora nos codificadores, mora dentro de nós.

Para o bem e para o mal esses códigos não são apenas superestruturas construídas sobre o nosso bem comum, eles já fazem parte da nossa herança humana não apenas cultural, mas genética e epigenética. Eles já fazem parte de nós.

E digo para o bem não porque o desejo de poder não seja o próprio mal em si como perversão da ordem livre e natural, mas porque o conhecimento instintivo do próprio mal, é essencial para nos fazermos de ingênuos livres prontos para o abate, em libertários, inocentes sim, mas por livre arbítrio e não desconhecimento do mal como caminho e vontade.

Não estamos presos ao mundo dos nossos antepassados apenas vivos ou mortos, estamos presos ao mundo deles como destino, nosso cárcere mental não se arrebentaria nem se desligássemos todos os sistemas, tecnológicos burocráticos jurídicos e estatais, libertária as pessoas da programação porque a programação e o sistema não emana das máquinas, das ideologias ou dos estados, mas as ideologias, o estadismo e o poder da própria humanidade.

Veja que nem mesmo um apocalipse ecoterrorista de um Una Bomber poderia levar a humanidade ou a natureza a redenção, apenas adiaria um milênio o mesmo dilema evolutivo para outra forma de inteligência frente a necessidade da emergência de uma consciência mais adaptada, porque não só as máquinas somos nós, como é o homem uma criação do logos natural.

Para nos libertar dessa egregora, ou libertar um único louco preso que se acha Napoleão da perversão da mania obsessiva de poder teríamos que adentrar na psicose e depois de entender o mal que o governa, sua cultura e linguagem, convida-lo a sair de seu mundo. Todo o mais que fizermos seria não apenas a repetição da mesmos programas e procedimentos, mas o pior dos enganos: pois introduz a força ou manipulação um idolatra do poder num mundo livre, não o liberta, apenas subtrai a liberdade de todos os demais forçados a conviver com suas manias de verdade absoluta e comando.

Nisto eu sou muçulmano: o mesmo raciocínio vale para libertar uma alma, vale paral libertar milhões. O desprogramação de milhões de inteligências condicionadas para que possa naturalmente emergir as consciências, não acontece pela fuga ou implosão desse hospício feito nossa casa ou país, mas pela retomada simbólica e de fato das velhas instituições.

Não basta se contrapor ao velho, é preciso tomar as velhas estruturas e signos sem apagá-los; é preciso tornar o novo a renegação do velho não por contraposição mas por transposição; fazer o novo a mensagem permanente que o velho e podre não pode jamais voltar. Vide Bonsonaro e outros adoradores de ditaduras, torturadores, genocidas do passado e presente- no Brasil mundo afora.

Como libertários, a imagem que fazemos do Estado é a de uma prisão. E em uma prisão que não só não devem ser tomada por rebeliões que inevitavelmente acabarão com massacres de prisioneiros, mas prisões que não podem nem devem ser destruídas não só porque elas perversamente foram construídas sobre o único espaço natural e conceitual que tínhamos para viver, e não temos outras ferramentas simbólico linguísticas populares para reconstruir a liberdade, mas porque não devemos deixar que suas marcas sejam apagadas para voltarem distorcidas.

Um contra-exemplo é o Carandiru. A instituição nunca deveria ter existido mas a estrutura não deveria ter sido destruída e sim obrigatoriamente reutilizada nem que fosse como memorial. Não se deve apagar da memória cultural o que é indelével aos espíritos. Devemos encarar nossos crimes históricos e sobre eles reconstruir o novo, principalmente porque não há outro lugar neste mundo senão a nossa própria história se ela não for uma falsificação.

Entendo que o que você disse não se refere a isso, mas justamente o que precisa ser findado para que possamos fazer isso ou qualquer coisa nova, mesmo que diferente. E nisto concordo com você, há não apenas de reformar os sistemas, mas revolucionar, recomeçar o sistema do zero, mas não podemos desligar as máquinas, nossos sistemas terão que apreender a ser inteligentes, seja se reprogramando sem precisarem se destruir ou destruir todo o ecossistema junto com eles, ou melhor ainda, apreender a reproduzir novos organismos e entidades autônomas quando não puder mais simplesmente se atualizar pelos limites intrínsecos da sua estrutura.

Esses novo codex vivo nascerá como ideal do espirito libertário completamente novo e futuro, mas como materialidade se comporá como autogeração a partir da materialidade preexistente. Mas sim, como tudo que nasce e evolui, nascerá como filha autogerada da sua velha casca, se comporá a imagem da evolução biológica da matéria viva e animada a partir da morta e inanimada.

De certa forma todo nascimento é uma ressurreição, e o novo não nasce da queda dos reis, mas dos novos reinos dentro dos reinos, que derrubam os velhos reis e reinos pela não-ação, são velhos reinos e reis que decaem por obsolência natural.

Com certeza poderiámos reconstruir o que precisamos sem precisar manter nada do velho. Mas para quê se não precisamos? Ou pior se nem sequer podemos?

O melhor é arrebentar com o velho sem sacrificar o novo, usando os códigos e dispositivos do velho sistema dentro do sistema para rodar o novo código tanto para reprogramar as máquinas estadistas e corporativistas quanto desprogramar os servidores humanos do estadismo e corporativismo.

Em termos contemporâneos é a trasposição do hackerismo ao ativismo contra-cultural. Em termos clássicos a humanização dos civilizados.

Existe uma história linda sobre os índios norte-americanos — se não me engano a li no livro de Joseph Campbell, o Poder do Mito. Ela fala exatamente sobre como eles viam, ao menos em princípio, o desprezo do homem branco pela vida, não como um mal, mas como uma loucura que precisava ser “curada”. Sabemos que o fim desta história das Américas não foi feliz para os mais sãos que, não raro acabaram mortos e prisioneiros como vagabundos e marginais, encarcerados como loucos nos manicômios dos seus pobres homens brancos.

A luta contra o poder é um jogo perigo se enfrentado de dentro, mas é impossível de ser vencido quando se bate de frente e de fora. Quando não é uma luta suicida do ponto de vista material, porque as forças armadas da violência são sempre superiores em seus próprios campos de batalha, é uma luta suicida do ponto de vista espiritual, porque mesmo vencendo a batalha e reconquistando a liberdade e os reinos perde-se a alma, e se torna o novo hospedeiro do “gênio” do poder.

Um dilema aparentemente insolúvel. Fugir não nos liberta, só nos faz refugiados em nosso próprio mundo. Voltar, esmagar ou tirar a força dos alienados e alienistas do seu mundo não nos faz senão o novo diretor do mais novo estado manicomial institucionalizado. E forçar as pessoas a serem livres só nos torna prisioneiros de suas mesmas manias. E todos esses dilemas são exponenciados quanto mais pobre se nasce e vive, quanto mais inescapável é o destino que se impõe como condição material.

Parece um beco sem saída. Onde talvez o melhor a fazer, seria sentar debaixo de árvore e meditar até atingir o nirvana. E quem poderia então recriminar o Buda?

No fundo há muitas estratégias possíveis, até mesmo para a pessoa de paz obrigada a jogar o jogo alheio como sua legalidade e realidade violentas impostas. Muitas estratégias diferentes, que acabam se encontrando em algum ponto futuro de construção do novo, se não esquecermos no meio de onde viemos e principalmente aonde queríamos mesmo chegar com cada passo.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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