O Ente Libertário para além da Política e Economia

Ensaio metafisico sobre a filosofia libertária

Em O que é Filosofia? descrevi como as palavras livro e liberdade possuem a a mesma raiz etimológica e como essa raiz vai muito além dos nomes. Essa raiz, a Liber, não é só a origem do nome destas palavras, mas das coisas e suas ideias que elas representam, sendo também propriamente o signo de uma outra ideia que não remete a nenhuma “coisa” material, mas fenomenal- ao menos não dentro da nosso campo sensorial das coisas. A palavra Liber não se refere portanto nem a um objeto concreto, nem muito menos a uma mera abstração mental das relação entre os mesmos. A Liber não é só ideia que dá origem ao nome dessas coisas, mas é em si a própria “coisa” fenomenal metafisicam, a força original e geradora constantemente essas coisas (e todas demais). Embora seja aparentemente um contrasenso definir um objeto da metafísica como um fenômeno, não o é, se entendermos a conceito em seu sentido original de transcendência do mundo sensível, ou da percepção ordinária.

De fato a metafisica pode ser entendida a luz das descobertas cientificas modernas como apenas o campo da física ao qual não temos instrumentos naturais ou artificiais para observar diretamente os objetos, mas tão somente apreender sua existência indiretamente pelas seus efeitos. É de se supor portanto que alguns objetos puramente metafísicos, como as partículas e forças elementares passem a ser objetos da observação da física, outros contudo permanecerão incognoscíveis tanto pela sua sua natureza, quanto pelo limites intrínsicos do horizontes de eventos da cognição. Assim enquanto alguns objetos da metafisica pertence apenas ao plano do desconhecido sensível, outros pertencem definitivamente ao plano do intelectivamente incognoscível; permanecem como eternos buracos negros que como o Tao, deles conhecemos apenas as suas pegadas no nosso Universo. A Liber é por definição esse Tao metafísico.

Isto não exclui os outros sentidos dados a liberdade pelo contrário, faz parte da sua concepção. Assim em certo sentido, a liberdade, assim como a igualdade, pode ser o produto abstrato, relativo e subjetivo das observação das relações entre seres. Mas em sentido próprio e absoluto é tanto sinônimo dessa força criativa como fenômeno propriamente dito, quanto da mesma enquanto propriedade inerente aos seres dotados dessa força libertária, a qual denominamos volição ou simplesmente força de vontade.

Por vezes essa força também é confundida com o próprio livre-arbítrio- o poder de tomada decisões autodeterminadas. No entanto o livre-arbítrio ou livre vontade é fruto dessa raiz, ou seja capacidade derivada dessa força originária e não a mesma propriamente dita, embora ambas sejam manifestações, produtos fenomenais, da mesma liberdade enquanto força original e geradora. A liberdade é portanto o fenômeno composto pela força fundamental da vontade. A Liber a própria essência transcendental dessa anima das coisas, especialmente notável nos seres enquanto elemento constituinte das propriedades que definem sua identidade. Logo, não é a toa que o intelecto muitas vezes tome-se as transformação e mutações dessas formas de ser como produto do mero acaso, ou mutações aleatórias, pois desse processo temos a visão da consequência mas não das causas, sendo o vazio existencial do nada, ou a insignificância do indeterminado muito mais a aferição dos limites do ser cognoscente do que da inexistência dos objetos do desconhecido.

Assim no nosso mundo das entidades concretas e convencionadas, o libertarismo, e mais ainda as entidades, instituições libertárias são ideias relativamente recentes, mas o ser libertários e suas relações e o verbo são mais ancientes que as próprias ideias. E aliás sempre o serão em qualquer tempo e em relação a qualquer coisa, já que a força libertária é onipresente enquanto principio criador dos entes, fenômenos e suas relações.

No entanto o fato permanece o termo libertário e ideologias libertárias sociais, políticas e econômicas são uma invenção recente, assim como a filosofia libertária uma descoberta ou redescoberta ainda mais recente que remonta aos Períodos do Renascimento e depois como mais força ao das Luzes, o Iluminismo. E eis porque digo Redescoberto:

Primeiro, porque elementos desse pensamento já existiam antes na Filosofia Ocidental (e Oriental) embora dessas obras tenhamos fragmentos: como o pré-socrático Heráclito, ou o emblemático Diógenes de Sinope- este inegavelmente libertário e anarquista antes mesmo do advento desses termos e movimentos.

Segundo, porque no Oriente, no Taoismo esse pensamento é muito mais antigo- e só não vou me aprofundar nele por absoluta falta de conhecimento suficiente.

E terceiro, porque mesmo no Ocidente durante o período medieval o pensamento libertário não deixou completamente de existir ou melhor resistir, no caso, contra o fundamentalismo religioso católico — vide Guilherme de Ockham.

Pode-se supor pela história do libertarismo e anarquismo, que a filosofia libertária, principalmente a anarquista é complemente incompatível com o credo ou pensamento religioso. Não é. A filosofia libertária não só é compatibilizável com doutrinas religiosas, vide o anarquismo cristão de Leon Tolstoi ou Jaques Ellul- como o pensamento libertário em si possui sua própria Teologia Libertária na medida que possui seus próprios princípios sagrados não apenas ético e morais, mas sua própria ordem natural cosmológicos e metafísica fundadas na cultura e ciência da liberdade.

Embora seja obvio e inegável que o anti-autoritarismo e anti-fundamentalismo coloquem historicamente os movimentos libertários e sobretudo anarquistas literalmente em guerra contra Estado e a Igreja. Mas confundir contrato social e sacralidade como estadismo e religião. E é o mesmo que jogar toda a sopa fora por causa da mosca, o que evidentemente só não é pior do que jogar a sopa fora para comer a mosca.

A revolução espanhola é talvez o evento histórico mais marcante desse conflito, e Bakunin o autor e militante anarco-comunista mais representativo dessas vertente radicalmente anticlerical e antiestatal, que aos olhos do panarquismo pode ser considerada tão totalitária quanto o próprio estadismo e clericalismo se não estão somente a combater estados e religiões que querem se impor seu fidelização a força da violência das ameaças, agressões e privações. Afinal de contas, se existem malucos querem coroar um líder como rei ou santo e obedecê-lo cegamente, que direito de legitima defesa teria outra pessoa de intervenção a força nessa relação consensual por mais sado-masoquista que seja? Diga-se em favor do anarquismo que seus autores clássicos defendem que esse tipo alienação propriamente chamada de idiotia desaparecia completamente com o fim das relações forçadas. Não sei, não sou tão otimista, mas em comparação com as experiencias de mundo já experimentadas e fracassadas, definitivamente essa é uma entre as muitas hipóteses que como alternativas de mundo libertários possíveis mereciam ao menos ser testadas, antes de serem prejulgadas e descartadas autoritariamente.

Mas como disse essa apenas uma das alternativas jamais experimentadas pelo homem. Outras foram. Como, por exemplo, o principio da tolerância, respeito e proteção a liberdade e diversidade de credos; principio que a maioria das vertentes liberais do libertarismo defende, até por observância do princípios fundamental da não-agressão- logicamente para os credos que não pretendem se impor por força da violência, da agressão ou privação das liberdades.

Entretanto essa é uma questão que vai além da tolerância. Ela adentra a compreensão, em todos os sentidos da palavra. O libertarismo não é um pensamento restrito as campos leigos dos saberes políticos e econômicos; é um que ultrapassa essas fronteiras. Rigorosamente não está compreendido por esses saberes, mas os compreende ao mesmo tempo que está presente em todos eles. E por isso, da mesma forma que lemos como libertário e até mesmo revolucionário palavras e ações de autores políticos e econômicos que que não se denominaram como tais, também podemos ler nos atos e palavras de autores e personagens religiosos os mesmos ideais de libertação — claro que nos primórdios das mesmas e não nas suas fases institucionais.

O pensamento religioso assim como o político, econômico antes de se institucionalizar em entidades autoritárias e fundamentalistas, antes de se tornar os pilares de Estados ou Igrejas, como os conhecemos, foram em princípio necessariamente movimentos libertários e revolucionários- salvo exceções que justamente compõe os movimentos reacionário e contrarrevolucionários que por definição nunca vem em primeiro. Ademais se não tivessem em principio sido libertadores e revolucionários não teriam transformado o mundo como ele é hoje, mas sido absorvidos pelo estados e credos do mundo como ele era antes deles. Não teriam ultrapassado, mas ficado no arcabouço do antigo paradigma.

Assim, sejam as figuras religiosas históricas ou mitológicas, uma vez passada a navalha de Ockham nos elementos fantásticos e inverossímeis dos discursos, temos nas narrativas, por exemplo, sobre Jesus, Moisés ou Mohamed, basicamente histórias de libertação de povos da sua condição de servidão e escravidão perante Impérios de seus tempos. E não só libertação espiritual, mas cultural. E assim sendo por consequência direta ou indireta destas ações, também libertação e revoluções políticas e econômicas. Tomemos como outro exemplo o do próprio patriarca dessas 3 grandes religiões: que tem como um dos atos libertários mais marcantes da sua história, o colocar um fim no ritual de sacrifício humano dos próprios filhos no culto ao Todo-Poderoso. Considerando o contexto cultural da época, e não só o da época mas o atual, onde ainda entregamos nossos filhos em sacrifício no altar dos senhores da guerra em troca da paz e conforto das boas “colheitas”, os atos do profeta ainda seriam subversivo e revolucionários aos olhos das culturas e civilizações hegemônicas de hoje. E não me surpreenderia se ainda vivo fosse o profeta teria que repetir ainda hoje seu gesto, e estaria se negando a entregar os filhos em sacrifício ao deus-estado das nações em troca de favores ou aplacar da sua ira.

É por isso que seja real ou fictícia a história desse patriarca é crível. Ninguém virá o genitor de tantas “tribos” que sobreviveram até hoje, entregando seus filhos em sacrifício aos senhores do céu ou da terra. Olhando aos olhos de credos ou conhecimentos mais modernos é uma questão de seleção natural, ou melhor, artificial: as chances de sobrevivência de quem é carne sacrificial é sempre menor do que aqueles que sobrevivem das graças delas.

E pelo mesmo motivo quando essas antigas culturas deixam de ser a resistência libertária contra essa servidão e holocausto (o nome próprio desse tipo de extermínio culto-ritual em massa), e se sentam no trono da autoridade todo-poderosa da alienação, é natural que outros pensamentos e movimentos surjam para lutar novamente por liberdade e libertação contra esses “novos” impérios da perversão humana . Impérios com costumes ritos e ídolos novos baseados nesse que outrora foi o movimento da sua libertação, mas que em essência é o mesmo velho culto aos mesmos deuses e seus sacrifícios. É assim que os pensamentos e ideias a imagem e semelhança dos tiranos que também um dia foram jovens autores e ativistas revolucionários envelhecem como velhos reacionários e autoritários invariavelmente pervertidos e corrompidos pelo poder que um dia combateram. E o pastor das ovelhas se faz lobo e dentro da própria casa.

Como diria o filósofo político Thomas Hobbes o homem é o lobo do próprio homem. O que é apenas uma forma poética de dizer que somos uma espécie canibal, marcada evolutivamente e historicamente pelo antropofagismo em sentido figurado e literal. Um animal que tem não como base da sua cadeia alimentar a carne e o sangue de outros homens, mas o tem na base de sua cadeia produtiva, e que muito, muito mais do que simbolicamente o mesmo.

Em que ponto da pré-história isto ocorreu? Por que esse tipo de homem e sua ideologia prevaleceram? Em que ponto essas práticas se tornaram parte dos costumes, ritos e cultos de guerra, predação e holocausto entre diferentes genes, gêneros e gerações, raças, classes, sexos, idades das pessoas humanas? Sempre? É impossível uma espécie evolutivamente marcada por essa estratégia já teria devorado o último homem ou mais provavelmente destruído toda a vida necessária ao seu redor muito antes de atingir os estágios de senciência, consciência e sociabilidade que o homem desenvolveu.

Em que ponto esses cultos, ritos e credos, essas culturas de violência e supremacia e predação prevaleceram e foram personificados em ídolos e instituições isso merece um estudo aprofundado das nossas origens, ou mais precisamente da origem do que será o princípio da nossa extinção senão como animal como homem. Estudar a origem desses fenômenos históricos não é portanto estudar a origem do homem, mas as causas da nossa desumanização. Algo que não tenho condições nem cabe aqui.

O que interesse a conclusão desse pequeno artigo sobre as origens históricas e transcendais da liberdade, da libertação e do ente libertário é que conforme esses bandos de homem predadores e canibais foram avançando em busca de saciar seus desejo insaciáveis mais recursos naturais e humanos, suas manias por poder e supremacia, diante do avanço ou progresso desse homem viciado completamente destituído de empatia e viciado e dependente da carne e labor de outras formas de vida, sobretudo a sua, foi-se ao longo de toda história e territórios ocupados formando as resistências humanas por preservação das vidas, liberdades, propriedades, identidades; a luta pela suas formas de viver; suas terras, seus corpos, sua natureza que uma vez perdida se tornam a busca por sua restituição: a luta pela libertação. A verdadeira causa libertária abraçada pelos sobreviventes e seus filhos nascidos sob os domínios desses senhores e seus cultos e signos que não tem memória nem da sua dominação nem da vida em liberdade. Homens e mulheres nascidos sem a noção da liberdade que muitas vezes morreram sem conhecer como condição de vida, mas que guardam dentro de si como saudade de uma forma de vida que pode não existir mais no mundo, mas sempre está presente dentro de si como a sua essência, a sua liber, a força de vontade de literalmente existir com toda propriedade com toda a plenitude do potencial da vocação para a liberdade da sua identidade humana.

A liberdade, o ser libertário e suas força existem antes do homem politico e econômico antropofagista. A mente livre é anterior e geradora até mesmo da perversão da demência por supremacia e seus alienados. Mas se a noção completa ou perfeita do seu valor e importância, só surgiu depois do perda das liberdades naturais perante o avanço dessa abominação da violação e violência como cultura e instituição do poder total sobre toda a Terra ao ponto de não haver mais sequer um único palma de terra firme que não esteja sob o domínios desses supremacistas e seus delírios para construir o sonho de liberdade em um novo mundo. Se somente após conhecer o desejo por poder total e supremo, o desejo de controle absoluto e infinito, as fantasias e manias de onipotência, onipresença e onisciência personificadas em delírios coletivos supremacistas em sua piores formas absolutistas totalitárias é que o ser humano pode tomar ciência que a liberdade é dada, mas a sua preservação é uma luta eterna pela própria vida, sua forma, seja como resistência e defesa, seja como reconquista e reconstrução das vidas e liberdades roubadas e destruídas. A liberdade não só como arque, como Liber já existia, mas como o logos, como nexo estava e precisava permanecer presente mesmo que ínfima nos estados mais absolutos a autoritários de tirania. Matá-la completamente é matar a própria vida natural que sustenta tudo que é artificial. De tal modo que até mesmo a perversão, o desejo por poder, pelo domínio do que não é propriamente seu, esse mal é um subproduto da liberdade. Apenas uma das entre muitas possibilidades inerente ao próprio fenômeno da existência livre, do ser dotado força de vontade e livre-arbítrio.

Destruir esse mal destruindo essa liberdade é o mesmo que cortar a própria cabeça fora, para se livrar dessa insanidade coletiva. Funciona, mas tem efeitos colaterais indesejáveis. Não há para onde fugir, o combate a esse mal é perpétuo, porque o bem que se deseja preservar, é por essência e definição a capacidade que nos confere a possibilidade de escolher entre o bem e o mal: o livre-arbítrio; a livre vontade que diferencia os seres dotados de anima própria ou alma, daqueles que não tem uma - ao menos não como a nossa — como as pedras e os autômatos. É a própria batalha do ente pelo sentido próprio da sua existência.

Se a noção do que é liberdade e propriedade, aquilo que nos pertence ou pode nos pertencer, assim como aquilo que jamais será ou não deveria ser nosso, são conhecidas nas relações de poder; se é nas relações de desrespeito a consensualidade dos seres dotados de anima e vontade própria que podemos ver e sentir com nitidez quais os limites que o ter e poder não podem jamais ultrapassar sem produzir o mal e a destruição tanto dos próprios bens quanto a perda da noção da própria bem gerador da liberdade e suas propriedades. É também na luta para conservar e recuperar a plenitude dessas vida, dessa ordem livre e natural, na luta pelas liberdades e propriedades de cada ser conexo que conhecemos o significado do ideal libertário. Descobrimos o que é a libertação e sentimos enfim o que é a liberdade como busca pela própria liberdade.

Logo o pensamento libertário tem naturalmente a liberdade por razão, mas não qualquer liberdade. Não é a liberdade pervertida ou reduzida a poderes e privilégios dos supremacistas. É a liberdade como principio e ordem natural, universal, original e originadora das vidas e suas propriedades. A razão do pensamento libertário é a liberdade, mas seus objetos de reflexão são portanto as propriedades. As propriedades naturais e legitimadas pela paz da consensualidade e não pela violência e violação do autoridade e imposição. Propriedades em toda amplitude do seu sentido daquilo que não só pertence, mas é inerente ao ser seja como capacidade, e exercício dessas capacidades criativas produtivas dada pelas forças inerentes geradoras da anima do ser, seja pela pelas condições e disposições do mundo ao seu redor, numa somatória que constitui o fenômeno da liberdade, a Liber, a propriedade fundamental a constituição da existência exatamente daquela forma e não de outra: Identidade.

O pensamento libertário não trata simplesmente da liberdade dos seres e suas relações. Ela trata das propriedades e identidades que literalmente constituem a realidade dos seres e fenômenos como manifestação da liberdade. A propriedades e identidades em toda a complexidade da multiplicidade e diversidade que a liberdade do poder da criação confere a existência e suas concepções. Seja como expressão criativa da volição; seja como resultante das relações consensuais; seja ainda como resistência e defesa dessa ordem livre e natural; a filosofia libertária trata das identidades, propriedades e consensualidades absolutamente universais e fundamentais a preservação da liberdade do ser entendida como a própria manifestação do fenômeno da vida e multiversidade das suas formas como processo constante de libertação dessa vocação ou potencia existencial.

A arque no pensamento libertário, sua Liber, é a própria Liberdade como arque geradora de si mesma e da existência a partir de suas propriedades infinitas. Logo seja como filosofia ou religião, ou ainda esteja restrita ao campo da política, economia ou moral, o pensamento libertário, remete sempre a re-ligação a re-conexão a origem criadora e autocriadora dos entes, dirigida não por objetivos fundamentalistas autoritários e violentos de poderes superiores predeterminados, mas como principio empoderadores e criadores autodeterminados e próprio-concebidos orientados a liberdade e libertação dos sujeitos e não dos objetos.

O que representa literalmente uma revolução não só no processo de produção, aquisição e transferência das propriedades materiais e intelectuais, mas do conhecimento que da gestão da autoridade passa (ou retorna) a natural autogestão da liberdade, como aliás pedagogia libertária precursou: “o saber não não se ensina; se aprende”. Principio que ampliado a todas as propriedades e identidades implica que as propriedades desses objetos deixam cada vez mais de serem definidos e controlados por quem se arroga seus preconceptores e passam para a mãos e mentes dos detentores de fato e direito dessas liberdades, aqueles que ao se reapropriar da concepção e significado existencial se afirmam como sujeitos iguais com plena capacidade de autodeterminação. E ao fazê-lo deixam de ser objeto do mundo alheio para se tornarem sujeitos do seu. Nada menos e nada mais do que a vocação de todo ser humano.

O pensamento libertário não promove portanto meramente a desalienação politica, econômica ou cultural, mas sim a desconstrução ideológica; desculturaliza, desdoméstica pela cosmopolitização que humaniza o ente para além dos arquétipos dos cultos e inconscientes coletivos a partir do átomo das ideias próprias, os indivíduos em particular que autosustentam seus consensos não através de preconcepções mas pela permanente livre comunhão.

Já faz alguns séculos que o desenvolvimento do pensamento libertário tem conduzido a humanidade para uma revolução cultural onde o homem lobo do próprio homem e seus bandos de ovelhas não terão mais lugar frente ao homem que sabe, e sabe porque é livre para conceber e conceber-se. Característica geratriz sagrada a vida, que por sinal, como a própria a liberdade, é muito mais feminina que masculina. e cujo despertar é importantíssimo a re-volução da pisque contemporânea entre os libertos, libertadores e libertários.

As reações conservadoras, o ressurgimento do fascismo, do fundamentalismo islâmico e agora também o cristão, representa apenas a reação violenta a uma evolução que não pode ser mais refreada, não sem promover de novo o extermínio em massa sem igual de seres humanos e assim como a inquisição ou as grandes guerras mundias sem nenhuma garantia que isso manterá o status quo; pelo contrário, com grandes chances de acelerar ao custo de muitas vidas a decadência desses velhos poderes e impérios. E como poderia ser diferente?

Afinal caso eles enfim prevaleçam definitivamente a única coisa certa sobre o futuro desse homem é o como será o seu fim, jantando sozinhos devorando uns aos outros em uma bela e brega sala-de-estar de algum palácio estilo vitoriano. Parafraseando Machado de Assis: aos derradeiros vencedores as últimas batatas.

Governe-se.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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