Ou da Epistemologia Totalitária

É possível remontar os males da humanidade ao início das civilizações,
ou da perspectiva de sua gênese cultural, aos arquétipos sob os quais
os estados civis se ergueram na santíssima trindade do
Pai-Pátria-Patrão, expressões das três dimensões do sistema social
patriarcal. Contudo a civilização patriarcaica não é a gênese deste
mal, embora seu derradeiro fruto, o Estado, seja de fato o corpo que
dá vida ao espírito de guerra de todos contra todos.

É inegável que o monopólio e sistematização da violência seja a
própria incorporação do terror que quebra os aprisionados em seu
domus, mantendo os crentes que a cela não prende e as grades não
separam, mas protegem. E se esses Leviatãs, que nós mesmos animamos,
conduzirão a espécie humana a extinção, não será, contudo, possível
imputar a estas entidades sem caráter, personalidade, vontade ou mesmo
força, além daquelas que emprestamos a elas, a responsabilidade sobre
nosso destino, ou a origem deste mal. Sistemas perpetuam sistemas, mas
não sem a passividade, anuência, e alienação dos indivíduos que os
compõe.

Antes da consolidação temporal do poder, dentro das sociedades que
gestaram esse monstro hobbesiano, já preexistia o medo de todos contra
todos para catalisar essa nova ordem. Mas na gene da sua concepção não
estava só o temor, mas também a vontade de ser, corrompida e
disseminada como ânsia por poder. Antes da luta de classes, no
princípio da exploração do homem sobre o homem, havia o desejo de
poder, por todos, uns sobre os outros.

Neste mundo convertido em estado de guerra, é possível que as amazonas
tenham sido os primeiros quilombolas, já que a mulher foi o primeiro
escravo do homem pelo homem. Mas na origem da domesticação de animais,
homens e mulheres, no aprisionamento de todos no domus doméstico,
esteve presente muito mais do que a mera afirmação do poder masculino
sobre o feminino. Antes do princípio masculino se perverter na própria
manifestação da bestialidade e belicosidade, antes das segregações de
gênero, classe ou sangue; Antes mesmo do genocídio, da divisão do
trabalho e do pecado; no gênese das sociedades patriarcais estava a
cultura da violência expressa numa psique coletiva já dominada pelo
poder e, sobretudo por seu desejo compulsivo.

O desprezo pelos valores femininos, a submissão da natureza pela força
que caracterizam a sociedade patriarcal não são meramente a expressão
do poder masculino, mas a própria manifestação de toda uma cultura da
violência gerada dentro de uma estética da morte, Um conluio de
mortos-vivos, múmias, vampiros que se negam a envelhecer e morrer em
seu desejo cego de perpetuação e acumulação do mesmo, reprimindo o
advento do novo, frustrando sua geração, abortando toda concepção.

Por que então as sociedades não se ergueram sobre os matriarcados?

Por trás da supremacia do homem sobre a mulher e a natureza há mais do
que exercício da força bruta. Por trás da distinção de gênero, por
trás da violação sistemática da mulher e da terra, jamais houve pulsão
sexual. O estupro que caracterizada todas as relações políticas,
econômicas e culturais da sociedade patriarcal, não é só uma afirmação
do masculino sobre o feminino, do belicoso sobre o pacifico, do forte
sobre o fraco, mas antes a afirmação do poder sobre a liberdade, e das
pulsões de morte sobre os valores da vida.

No princípio ou essência de toda relação de dominação está o desejo
pelo poder. Mas o desejo de poder não é sexuado ou assexuado, é a
própria repressão da sexualidade e negação do ato reprodutivo. Não tem
gênero, nem sexo, no desejo de poder, há tão somente o estupro. A
violação de Eros por Tanatos.

No estupro de Eros por Tanatos, no repudio a fertilidade e na repulsa
a fecundação, é latente o ódio a natureza e a mulher, mas não como
afirmação da masculinidade, mas como inveja do dom da maternidade,
corrompido até o ódio a espontaneidade e naturalidade da vida e sua
auto-geração.

A gênese do deus-pai-rei: belicoso, vingativo, todo poderoso que vem
para sacralizar a posse, a dominação e a força. Diviniza poder,
privação e rarificação. Amaldiçoar a terra, a vida, e a abundancia. E
demonizar o sexo, a mulher e a liberdade. O deus dos puritanos que
amam as armas, as pátrias e as guerras, e vêem beleza na morte, e
pecado no nu feminino. Julgando, punido e castigando tudo que não
idolatre suas forças, não se submeta a sua estética da morte e que não
cultue seu poder egocentral e absoluto.

Um mal que não acomete povos, gêneros, etnias, ou classes, mas toda a
psique humana.
Antes da deflagração dos conflitos, há a corrupção. E por trás de todo
ato de violência consumado, há antes uma batalha interna perdida do
homem consigo mesmo. Perversão da ânsia de liberdade em desejo de
poder, a corrupção da vontade de ser, em poder e ter, como compensação
gerada pela frustração em realizar o eu em si. Neste sistema o ser
oprimido extravasa sua liberdade reprimida impondo suas vontades ao
próximo. Violência que gera opressão e violação da liberdade do outro,
num ciclo vicioso onde a frustração da livre e espontânea vontade de
ser de um indivíduo se perverte em desejo de poder sobre os demais. A
liberdade corrompida e disseminada em relação de poder.

Embora o estado civil como toda e qualquer forma de organização
estratificada e hierárquica seja a própria sistematização desta
perversão. Este não é um fenômeno exclusivo ou originário da
civilização, emergindo sempre como uma condição ou resposta
condicionada a um estado de privação de liberdades reais. Condição que
caracteriza o próprio estágio evolutivo da espécie humana, que mesmo
consciente de sua racionalidade, é ainda inconsciente dos seus limites
epistemológicos. O que nos faz tomar como realidade nossas impressões
mentais do real, e é sob está ilusão que se assenta as idéias
absolutas e sua idolatria.

O culto ao poder absoluto é de fato decorrente de uma determinada
percepção da realidade que desaparece de forma tão natural ao
indivíduo que toma consciência da sua realidade quanto o próprio medo
da chuva ou da morte, ao homem que verdadeiramente compreende estas
como fenômenos naturais. Contudo suas raízes não se assentam meramente
no plano das crenças, ou tem uma raiz somente emocional, mas esta
assentada nos próprios limites da epistemologia humana. Superar a
idolatria aos valores absolutos não demanda uma ampliação da
percepção, mas sim o reconhecimento epistemológico dos limites do eu.

O Universo pode não girar mais em torno da terra, mas o Universo
continua girando em torno do homem, e o pior de tudo sem, que este
sequer se de conta disto.

Antes do cartesianismo mecanicista se tornar o paradigma dominante do
conhecimento, e a dinâmica newtoniana servir de modelo mental até
mesmo para reger as liberdades, o ato do conhecimento já estava
completamente impregnado de relações de poder, seja de homens com
homens, seja do homem com o mundo, agora cada vez mais objeto do seu
conhecimento. E o mundo não tomava apenas a imagem e semelhança do que
o homem via, mas de como ele se via neste mundo.

A medida que o homem substitui o estado de natureza pelo estado civil,
cada vez mais a natureza se assemelhava ao próprio estado de poder sob
o qual erguia suas civilizações. Todas as naturezas agora eram objeto
de domínio. Não apenas os homens haveriam de se submeter a leis, serem
regidos por forças seguir trajetórias previsíveis e predeterminadas,
medidos, contados e quantificados, mas a própria natureza.

Tão mais cegos estamos no culto absoluto quanto acreditamos que deus é
a imagem e semelhança do homem, e a natureza a imagem e semelhança de
seus domus não apenas reais mas mentais. Quanto mais convencidos somos
de que as descrições, modelos, interpretações pelas quais tomamos
ciência da realidade como a própria realidade mais longe estamos de
compreender a complexidade do real que nossa mente necessariamente
ignorar para apreender.

O conhecimento mais do que a abstração de algo é também a ignorância
de tudo mais. Nosso conhecimento é limitado não apenas porque estamos
encerrados no objeto do conhecimento, mas porque simultaneamente o
objeto do conhecimento está encerrado em nós. E só há paradoxo, se não
compreendermos que todo conhecimento da realidade é inseparável da
mente que o compõe. Sendo a compreensão total sempre impossível, não
só porque o desconhecido é infinito e, portanto incompreensível a
finitude inerente ao ato de conhecer, mas sobretudo porque não existe
uma única realidade verdadeira, mas uma verdades múltiplas sobre a
realidade que embora seja una, não é uma mas complexa e diversa.

A ilusão de um eu absoluto, soberano e capaz de construir sua
identidade autônoma separado do todo, se reflete na ilusão da verdade
absoluta, num universo egocentralizado. O que não quer dizer que o
conhecimento seja impossível, que as verdades sejam relativas, e a
realidade desconexa, mas que o conhecimento é constituído e não
descoberto, as verdades não são simples e absolutas mas complexas e
diversas, e a realidade não é ou não é, mas significada integradamente
por tudo que é, não-é, e tudo que sequer ainda foi existencialmente
distinto, o existente-inexistente-ignorado. Um integral que não é
total a medida que não perfaz o incognoscível.

Da crença na verdade única, ainda que está verdade seja que as
“verdade é relativa”, alias sentença mais redução simplificadora e
totalitária, surge a adoração-topor da própria idéia-sensação do
Todo-Poder-Uno. A própria construção epistemológica do mundo
egocentrado. O Absoluto não emerge da ignorância, mas da mais ferrenha
certeza do crente de que tudo que é por ele, para ele, ou nele é não
apenas verdadeiro, mas a expressão da verdade. E deste deus, senhor da
verdade que nasce na mente do cultuador, surge a cabeça-tribunal e a
mente-juiz, o pensar julgando, o expressar-se sentenciando.
Inquisidor, juiz e executor de todo o processo epistemológico baseado
em julgamento. Sentenciado a culpa e inocência, julgando verdade ou
falsidade, legislando sobre a realidade e a fantasia, para tudo que
deponha perante seu juízo.

O julgamento nasce da predisposição na crença de que a mente detém a
verdade, quando na realidade emerge espontaneamente da interação das
diversas perspectivas que a compõe intercomunicando sua percepção e
entendimento. A verdade não é relativa, incomunicável, ou
incompreensível, mas produto subjetivo do entendimento, comunicação e
interelação. O conhecimento do real se processo em níveis de interação
e compartilhamento da subjetividade na rede. O conhecimento não para,
não se cristaliza, se estrutura ou solidifica, ou se detém, mas
circula e se define como partícula-onda dentro da própria rede.

Uma rede de conhecimento constituída de verdades complexas, compondo a
realidade comum, da interconexão das subjetividades. O real composto
não da distinção do observador e o objeto do conhecimento, mas das
perspectivas interconexas de diversas mentes integradas em rede que
compõe a própria percepção de cada indivíduo pela significação do
existente-inexistente. O real como o próprio fenômeno da compreensão.
A verdade como o próprio conhecimento. E a consciência como
entendimento da ilusão do real. O despertar do culto do absoluto, a
libertação da prisão dos juízos, o fim da compulsão pela busca da
verdade, não pela sua negação, mas pela sua multiplicação e
reintegração na visão da complexidade da rede do real, não uma serie
linear contrapostas de verdade relativas, mas um sistema integrado de
verdades complexas. E o fim da era da alienação passa primeiro pelo
entendimento das verdades tão complexas e diversas, interconexas e
dinâmicas quanto a própria realidade que subjetivam.

Podemos dizer que ainda não saímos da infância da nossa
intelectualidade. Todos nossos sistemas socioeconômicos estão ainda no
estagio da psicologia infantil. Analogia que não ameniza a brutalidade
do patriarcalismo nem a ignorância da idolatria ao poder absoluto;
esteja este disfarçado de pai ou divindade para os alienado, ou
completamente desnuda em sua violência aos desobedientes, a tutoria
compulsória da maioria dos seres humanos por outros é a estrutura
cristalizada que impede o ser humano de desenvolver toda a sua
natureza solidária e inteligente. E de nada servem os iluminados. O
prolongamento da infantilidade de nossa espécie como todo estagio de
desenvolvimento não é determinado por este ou aquele indivíduo, mas
pela condição formada pela integralidade dos seres humanos. E é mais
pela insistência em perpetuar a dominação, privação e segregação que a
violência e ignorância prevalecem, do pela incapacidade do homem em
desenvolver sua inteligência e consciência.

Podemos ainda chamar este período milenar de culto ao absoluto como a
Era da Alienação. Pois embora possa se caracterizar pela ascensão dos
Estados, a exploração sistemática do homem pelo homem ou ainda pela
própria idolatria, todas se fundem na formação de uma hierarquia
social cuja característica proeminente é a própria alienação do todos
por todos, no seu papel duplo e simultâneo de dominadores e dominados
desnaturando e desumanizando a humanidade.

Talvez sirva de consolo que está era esteja para se findar. O dogma da
maldição do trabalho e a possessão como valor social começam a ruir
pelo peso da insustentabilidade de suas próprias estruturas. Se a
servidão voluntária e a escravidão assalariada ou não, jamais se
sustentaram sem o pensamento judicioso condicionado pela idolatria ao
absoluto, essa doutrinação que adestra o ser humano para não se
rebelar contra o cárcere, o arreio e a chibata atingiu na
contemporaneidade níveis de elaboração que levam o ser humano a beira
de perda de seus caracteres pessoais, sua individualidade, fazendo-o
ser autômato que crê-se piamente autônomo, crente que as correntes em
seus pés são muletas que o mantém em pé.

A integração de técnicas de evangelização, com propaganda, e
condicionamento animal estas duas ultimas com avanços significados no
século passado e aplicação massiva no consumo industrial e político,
permitiu o máximo desenvolvimento do totalitarismo, gerando uma
sociedade uniformizada, onde a escravidão e a servidão permanecem, mas
como planos inconscientes de um processo onde a compulsão toma o lugar
da fome e do porrete, o que não quer dizer que ambos não estão
devidamente reservados aos que por ventura despertem desta letargia
programada.

Escravidão, servidão e compulsão sempre foram formas complementares
que viabilizaram os domínios, contudo se num dado momento a escravidão
foi a face do sistema de produção mais acentuada, e noutros a
servidão, na contemporaneidade é a compulsão que passa a ser o fator
determinante. Do trabalho compulsório ao trabalho compulsivo. Da
servidão voluntária a servidão compulsiva, da escravidão a compulsão.
Controle, manipulação, convencimento. Condicionamento. Não há mais
doutrinação, e a institucionalização provedora de desnaturação
educacional se desescolarizou, ou melhor, o panóptico tomou as ruas,
se transmite por todos os meios, ocupa todos os espaços. Nascemos e
morremos imersos em conteúdo não mais desenhado para nos conformar a
miséria cultural política e econômica, mas a nos fazer tomar parte
ativa da vivisseção de nossos corpos e almas e lamber a mão de quem
nos disseca fazendo-nos sonhar com teorias conspiratórias. Mas teorias
conspiratórias do que? Tudo é feito as claras, sem anestesia e “have a
nice day”.

Jamais foi tão difícil ao homem libertar-se, não só porque sua prisão
tenha todo conforto de uma sala-de-estar e sua fome a marca da
obesidade mórbida, mas sobretudo porque o escravo crê-se absolutamente
livre, e seu mundo único absoluto, verdadeiro, simples e real.
Liberdade reduzida a ter e fazer e acima de tudo consumir escolhas.
Medo, ansiedade pânico, ao homem réu-juiz perene do tribunal do uno,
verdadeiro e todo poderoso. Comportamento compulsivo condicionado no
culto ao absoluto.

Olhar para o homem desnaturado não pela civilização, mas por este
culto ao absoluto, é tudo o que se precisa para se perpetuar a
essência desta falácia liberal. As liberdades artificiais mecânicas
que se chocam freiam e se findam umas as outras em completa ignorância
que a verdadeira liberdade é natural e orgânica, liberdades que se
encontram, se unem e multiplicam. Falácia que sustenta o estado da
falso segurança pela renuncia das liberdades. Quando a verdadeira
liberdade se funda na segurança dos estados de garantia do direito a
liberdade. Liberdade com segurança e segurança como Liberdade.

Na Liberdade real, no fim de toda a privação, rarificação e pobreza do
capital econômico, cultural e político, reside a saída da farsa que
encobre o sentido da existência. Porque a alienação não se finda com
palavras ou atos, com teorias ou práticas, mas das teorias postas em
pratica com atos repletos de significado, conduzidos da reflexão para
a ação e da ação a reflexão. Das palavras que ou são a reflexão do
sentido do ato, ou o prenuncio do sentido da ação numa Pedagogia da
Inspiração.

Originally published at mvbrancaglione.blogspot.com.br.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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