O Brasil não está, é um Estado de Guerra (contra ele mesmo)

A escravidão no campo, o holocausto urbano e a nulidade da justiça e contratos sociais no Brasil

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Recentemente uma ONG apresentou sons de guerra gravados no complexo do Alemão no Rio de Janeiro para a população do outro lado das trincheiras bossa-nova do Brasil. E o homem-bolha a condição do brasileiro médio, muito antes da invenção do Facebook respondeu com a certeza dos encabrestados: a Síria, o Iraque, o Afeganistão, oras. Um dos maiores sustos, uma das situações mais insólitas que passei na minha vida, foi acordar com exercício militar nas ruas da minha casa, e ao abrir a porta, ver mirar um fuzil no meu peito. E era só um exercício. Nas favelas do Rio, não é um exercício. É guerra. E quem tomba se não é inimigo é mera casualidade civil.

O Brasil não é um Estado-Nação. Porque a definição de um contrato social implica no estado de paz para todos e não para alguns ao custo das morte de outros. O Brasil é e sempre foi um estado de guerra civil velado, lento dissimulado. É um estado tão sólido e cristalino quanto o vidro, é um estado aformo de paz para uns feito da guerra contra outra outros. É uma bomba de efeito retardado que explode e mata lentamente de forma quase imperceptível e insensível a quem não no raio da sua ação. Nas periferias das cidades urbanas, nas margens do sistema, longe e dos olhos e coração dos centros de poder e de quem orbita a esquerda e direita dele, corre solto o holocausto urbano, no campo ainda mais distante da cidade e cidadania o campo de concentração e trabalhos forçados, o coronelismo, é mais ainda a lei e o estado de fato.

A classe média que se considera de esquerda, humanista se choca e revolta com o retrocesso promovido por essa classe política composta pelo entulho da ditadura. Mas se choca com o que? Não era ela que sempre compôs cada célula desse corpo e órgãos da nova republica? Não era ela a natureza da sua própria fisiologia estatal?

Katia Abreu foi ministra de um governo de esquerda, Renan e Paulinho da Força estão brigando pelos direitos do trabalhador, de boa, o que vocês achavam que viria quando seus ex-aliados, tomassem todo poder? O que vocês acham que vai vir desses governantes e ex-governantes como situação ou oposição? Ora como inimigos ora como aliados?

Se choca com a destruição dos direitos trabalhistas garantidos. Se choca a reintrodução da escravidão no campo? REINTRODUÇÃO? Ah, vai se foder. Me aponte um trabalhador livre nos campos do Brasil e eu te trago 10 sacis-pêreres!!! Eu só consegui pagar uma renda básica de 30/40 reais no campo, porque a maioria das pessoas vivem nesta condição. Onde a casa e a comida consiste na principal parte do pagamento. E tantas outras não quiseram sequer receber uma renda básica por medo de contrariar os donos dos seus meios de vida e perderem até isso.

O que o cidadão-bolha se revolta não é como a realidade é para variar com as aparências. Essa Alice no pais das Maravilhas vive num mundo simbólico, das representações onde a norma e a história e a narrativa imperam governam suas sensibilidade e inteligência alienada. Depois não entendem por que o povo é capaz de apoiar qualquer populista e projetam sua ignorância a ele. Um pedaço de pão real é muito mais direito garantido de fato do que pilhas e pilhas de leis virtuais e direitos de papel para inglês ver.

Direitos trabalhista funcionam como qualquer outro direito ou privilégio dentro de um monopólio hierarquista, ele é muito conhecido e respeitado para aqueles que estão no centro, mas vão desaparecendo conforme você vai se distanciando e chegando nas bordas, para quem literalmente esta a margem desse sistema. Ele vai se tornado a própria contradição do seu direito na medida que a desigualdade de direitos e privilégios de quem está no centro ou protegido pelos centro do poder, passam a constituir a licença de roubo e a violência contra ele marginalizado pela crime legalizado, institucionalizado, corporativo. Seja este crime estatal ou privatizado.

Já do outro lado da contenta, estão aqueles que ajudam a qualquer hipócrita dormir com a consciência tranquilo. O brasileiro primitivo protofacista e escravagista, que faz até o ditador da Coréia se sentir mais gente e mais humano e bonito. Faz até mafioso e se sentir a almas mais honestas do mundo.

A palavra fascista foi usada e abusada pela policia ideológica da velha esquerda, ajudando a banalizar ainda mais esse mal que sempre esteve presente na família brasileira da culto de inspiração católico da tradição, família e propriedade, um acrônimo escravidão, patriarcalismo e expropriação para nosso supremacismo branco disfarçado de mestiço quando convém. Embora a ignorância tanto da sua própria mentalidade quanto identidade. O semi-preto ou semi-branco fascista brasileiro, não se acha branco nem preto, nem mestiço, nem fascista. Para efeito de unidade nacional somos todos iguais, para efeito de segregação dos privilégios de proteção estatal, leia-se policial e judicial quer uma arma apontada para a cabeça “desse tipo de gente”.

Ele quer os pretos e índios e comunistas mortos, mas não é racista. Ele acha que esse tipo de gente deveria parar de se reproduzir ou que sequer “supostamente” existe, mas não é eugenista. Ele acha que a nação deve servir a pátria, e não a pátria a nação, ele sequer entende ou está disposto a entender que elas não são a mesma coisa: o Estado, mas não se acha fascista. Ele como o seu antagonista ideológico de esquerda não suporta o contraditório e acha que pode e deve regular a vida, a liberdade e a propriedade e identidade das pessoas, tanto a privada quanto a comum mas não se acha um totalitário. Ele acredita e segue lideranças carismáticas e populistas mas não se acha um crente, nem fanático. Ele se escora sua afirmação na renegação do outro mas não se acha um alienado.

É o fascista brasileiro um idiota ignorante que sequer consegue reconhecer e assumir ao contrário do europeu e americano o seu caráter supremacista. Um fascista semi-preto que se acha descendentes de imigrantes arianos, mas tem preguiça de estudar a porra da ideologia fascista, contente e orgulhoso da sua estupidez e ignorância de raça, satisfeito com as versões primitivas e proto-ideológicas do racismo e eugenismo pré industrial.

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/05/1880596-lider-do-palestina-para-tods-e-preso-apos-confronto-com-direita-anti-imigracao.shtml

E no meio deste fogo cruzado. E embaixo sempre desta guerra pelo poder esta o povo brasileiro, esse ente que se define não por afirmação mas negação de direitos, se define não por participação na cidadania, mas por exclusão dos privilégios das nossas cortes aristocráticas provincianas e coloniais.

O brasileiro médio é um hipócrita por natureza. Um eufemista profissional. Está cagando e andando se prática a escravidão, perdão, as condições análogas a escravidão, porque a escravidão normativamente não existe mais, logo o real deve ser lido de acordo com a norma. E foda-se a realidade do outro, ela não existe principalmente se a econômia voltar a andar.

O brasileiro médio não vive em servidão voluntária, vive em alienação voluntária. É um idiota na acepção plena e política da palavra.

Ele não se ofende com a bala na cabeça do negro, mas com o outro comediante. É mais importante calar aquele que faz piadas com o holocausto do que quem o prática. É mais importante manter a sensibilidade do brasileiro médio preservada do que a vida. Estupra mas não mata. Mata mas não faz piada. Toma no rabo mas não conta, ou o quê? Você quer prejudicar o Brasil?

Dane-se os coronéis e seus crimes em Brasilia, dane-se os coronéis e seus crimes no interior do cu do Brasil. Eu quero a minha internet eu quero meu petit gateau eu quero minha netflix. No fundo no fundo somos todos americanos, e partilhamos dos mesmos sonhos, a diferença está na distancia das periferias para os burgos dos provincianos e dos cidadãos dos impérios. Distancia geopolítica que inversamente proporcional a garantia de direitos de direitos naturais e humanos contra os privilégios cidadãos dos nacionais. Ista é a lógica e razão dos estado de direito dos Estados-Nações. E o que é teoria para nós habitantes das matrizes e cavernas platônicas é a realidade fora dela nos lixões onde não se engane ainda se produz nossa comida e riqueza das Nações.

Chocados com a natureza mafiosa e escravagista do nosso governo, do nosso Estado? Com as entranhas das locomotivas da nossa econômica e seus propósitos? Pois ele apenas está institucionalizando o que a politica jurisprudência e economia informal. Esta normatizando o que é a normalidade, legalizando o que é a realidade criminosa vivida por tantos brasileiros a margem da lei e do estado de direito.

Cada dia mais tenho a convicção que a história é escrita pela evolução e progresso do pensamento humano, mas pela imbecilidade de quem nos governa e as revoluções que eles provocam com suas decisões que implodem suas posição privilégiada. Gilmar Mendes e Temer estão de fato fazendo história, estão normatizando o Brasil como ele é. Mas que black bloc que nada, perto do terrorismo de estado eles são aprendizes de feiticeiro. Ninguém “causa” como eles. São eles, sobretudo eles que estão trazendo para os olhos e mesas das salas de jantar o mal-estar das civilização. Fazendo o que nenhum revolucionário jamais consegui fazer. Provocando a náusea e a revolta como o que eles representam e nos governa. Com o Brasil ao qual querendo ou não pertencemos e financiamos.

Eles já cumpriram seu papel histórico. Metade do caminho para se livrar do problema é finalmente reconhecer que existe um. E esse eles fizeram o favor de fazer por nós, O resto agora é por nossa conta.

Notem como neste último documentário a explicação (racionalização) economista prevalece: como se o interesse econômico mesmo não “justificando”, explique as raízes do racismo e escravagismo. Como se fosse algo natural, esse salto entre o interesse econômico e essa perversão . Como se o supremacismo (branco) e os fetiches e perversão do outro como mercadoria não estivessem presentes antes do tráfico e comércio da carne humana para o trabalho. Como se essa sociopatologia fossem gerada por razões econômica e não a razão desta economia erguidas sobre os pilares da doutrina supremacista: o outro e o mundo como posse e objeto do “conquistador”. Como se fosse o sistema que reproduz o caráter dessas pessoas, não fosse produto sistêmico do caráter dos seus criadores e reprodutores. Como se por exemplos os judeus e outros povos não tivessem sido (e para muitos ainda são) os não-brancos de outrora. Como se a ideia de raça e economia e Estado fosse um produto dos sistemas socioeconômicos e não esses um produto da visão supremacistas do mundo.

A própria suposição que as razões econômicas são leis naturais que explicam o comportamento de supremacistas marginalizadores e marginais e marginalizados já é em si um dos pilares do supremacismos e estadismo que nem o socialismo nem muito menos o trabalhismo conseguiu superar, pelo contrário, se tornaram parte ou versões desse mesmo predeterminismo dos superiores sobre os outros seres tomados por objetos de classificação das suas ideologias, elevadas ao estatuto de ciência. De revelação e explicação de como o mundo funciona quando na verdade revelam e explicam muito mais da sua sensibilidade e entendimento do sujeito do que a de “seus objetos” reais ou projetados, verdadeiros ou falsos.

Neste sentido o economicismo, liberal ou social, trabalhista ou capitalista é tão produto do supremacismo e tão escravagista quanto o próprio racismo que não consegue ver em si mesmo. Em sua normose simbólica materialista o economista que acha neutro como raça e ideologia não vê que nem o quanto ele é supremacista nem o quanto ele é mais ou menos apenas mais um não-branco.

“empregado rural é toda pessoa física que, em propriedade rural ou prédio rústico, presta serviços de natureza não eventual a empregador rural ou agroindustrial, sob a dependência e subordinação deste e mediante salário ou remuneração de qualquer espécie”

De qualquer especie… onde está escrito que vai ter pelo menos “casa” e “comida”? Estão supondo “benesses” e “bem-feitorias” demais…

Havia um grupo de escravocratas, que se auto-identificava como o grupo dos indenezistas, e que pretendia receber do governo republicano uma indenização pela perda dos escravos, e das respectivas rendas, hipotecas e garantias, cuja causa fora a abolição dessa instituição hedionda e execrável.

Não se pode acusar Rui de alguma conivência com esse grupo. Quando ministro da fazenda Rui negou pedido de indenização, em passagem memorável de sua biografia. Conta-se que um grupo de escravocratas indenezistas teria requerido subvenção do governo para um banco encarregado de indenizar ex-proprietários de escravos e seus herdeiros “dos prejuízos causados pela lei de 13 de maio de 1888”[4]. A resposta de Rui fora seca, direta e feliz: “mais justo seria e melhor se consultaria o sentimento nacional se se pudesse descobrir meio de indenizar os ex-escravos não onerando o tesouro”(…)

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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