Recentemente o IBGE publicou dados que deveriam ser alarmantes, se já não estivéssemos anestesiados para a questão, e há séculos: 4 milhões de brasileiros vivem sem absolutamente nenhuma renda.

Exatamente, zero; nada. Considerando que os dados não se referem aquelas pessoas que são dependentes de outros membros da família, mas sim as famílias cujo todos os membros juntos não ganham absolutamente nenhum centavo, deveríamos mais propriamente dizer então que estas pessoas não vivem, tentam sobreviver.

Se atentarmos ainda para o fato que dentre estas, pouquíssimas tem o desprendimento de um Cristo, ou a abnegação de um São Francisco para viver da caridade alheia, leia-se esmolas, necessariamente teremos de admitir que a grande maioria “se vira com pode” ou como não pode, afinal, parafraseando Yunus, o simples fato de continuarem vivos é a prova disto.

Como explicaria um Darwin, ou um Hobbes, estas pessoas simplesmente fazem o que tem de fazer(1); abandonadas a sua própria sorte, vivendo com o mesmo conjunto de “oportunidades” primitivas(2) que qualquer indivíduo excluído da sociedade possui; o que surpreende não é a violência que se segue, mas sim o grau de civilidade que a maioria destas pessoas mantém não apelando para uso de todas as suas forças mesmo em condições tão desumanas e violentadoras, se recusando assim a trair sua natureza humana e decair no estado original(3) de luta brutal pela sobrevivência- mesmo tendo todo o direito natural de o fazer.

Sua resistência passiva diante de tamanha privação é de uma humanidade gritante, quase acusadora perante a omissão desumana e desumanizante de todos nós que a assistem.Se concedermos um único instante para a reflexão não nos perguntaríamos mais: “o que será que eles estão fazendo para viver?”, mas sim “o quê será que eles não são obrigados a fazer para conseguir sobreviver?”.

Há quem se apiede deles. Sinceramente a pobreza forçada não me dá pena porque ela não é objeto de compaixão, mas de libertação e justiça social. Diria que quem carece de piedade são os pobres de espírito cegos para o sofrimento alheio, não porque deles seja o fogo do inferno, mas porque a indigência cultural demanda, sobretudo paciência, educação(4) e sorte.

Sobretudo sorte. Em termos de probabilidades, podemos dizer: pobre do ignorante que pensa que a pobreza não é um problema dele. O mundo é um sistema complexo, integrado, dinâmico e acima de tudo, a perder de vista, imprevisível, ou como se costuma dizer, o mundo gira, e numa esquina ou farol, em questão de segundos, e por uns míseros trocados, entendemos enfim, sem retórica, que estamos todos no mesmo barco, ou o quão nossos caminhos podem e vão eventualmente se cruzar. Aprendemos enfim(5) o quanto esse problema sempre foi “nosso”.

4 milhões sobrevivendo absolutamente sem nada. Nada. Destes a grande maioria são crianças em plena fase de desenvolvimento. Sabemos muito bem que tipo de vida elas não podem ter, conhecemos quase tudo o que elas nunca terão: liberdades, oportunidades, respeito… Mas o que não podemos saber, nem sequer imaginar, a menos que tenhamos passado por toda uma vida privados das chances e necessidades mais básicas, o que jamais conseguiremos compreender é: “que tipo de vida estas pessoas estão condenadas a viver?”. Como diria Carlos Drummond, para que queremos instaurar a pena de morte, se já temos a pena de vida?

Sem drama, nem apelação, não é comercial de banco, apenas dados: a maioria são crianças. Cujo crime, ou melhor, “pecado original” foi cometido por seus pais e dos quais são culpadas e sentenciadas somente por terem nascido. Claro, que os eugenistas de plantão poderiam contra-argumentar aqui com a já famosa questão: “E por que é que pobre bota filho no mundo?”

Não vou me furtar a responder a essa questão com duas respostas:

Primeiro, por um motivo extremamente simples, inteligente e biológico, se os pobres do mundo seguissem os conselhos das agencias de desenvolvimento dos países ricos, e adotassem os programas de diminuição da natalidade já não teriam mais descendentes, e há muito tempo. Onde os níveis de insegurança vital são baixos e a mortalidade principalmente jovem e infantil é alta quem se reproduz pouco reduz geração após geração suas chances de deixar descendentes. Ou em outras palavras a taxa de sucesso desta estratégia ao longo do tempo cai a zero.

E segundo, porque quanto mais rica, escolarizada e medicada é uma sociedade parece que esta decide adotar a estratégia evolutiva dos pandas, que se resume basicamente em não reproduzir. Estratégia que antes de seu derradeiro e obvio fim lógico, a extinção, causa antes seus danos econômicos, vide o dilema atual do mais velho do que nunca continente europeu. Ou numa síntese dos dois argumentos, porque no mundo como ele está, é dos pobres que depende a continuidade da espécie humana.

Dos pobres e não da pobreza.

Darwin aventa a hipótese da redução da fecundidade se relacionar com o cativeiro e a domesticação de animais e homens que se ressentem da perda de sua liberdade, o que já não ocorre com animais domesticados e homens civilizados que não tem mais memória sobre sua liberdade perdida. Cabe então fazermos a seguinte pergunta: qual é o cativeiro do homem civilizado que ele se ressente a tal ponto? Que liberdades nunca experimentadas ou lembradas faz justamente as pessoas que mais tem condições desistir de deixar descendentes? Do que somos reféns a ponto de seguir a decisão machadiana de não transmitir o legado da miséria da vida humana a ninguém? Essa talvez não seja a pergunta mais importante de todos os tempos, mas é de certo o do nosso. E é certamente uma pergunta pertinente aos últimos cinco mil anos de civilização.

A chave da sobrevivência e evolução da humanidade estariam basicamente em como erradicar a privação sem destruir a liberdade. Ou mais precisamente em livrar o homem da insegurança da vida primitiva sem jogá-lo no arcabouço do estado civil. Ou para usarmos termos mais contemporâneos em tirar as pessoas da pobreza, sem convertê-las em tiranetes consumistas, algo que seria extremamente simples se não demandasse uma mudança não nas condições de vida destas pessoas, mas nos paradigmas e preconceitos que norteiam nossas ações. Ou seja, mudanças não no mundo, nem no comportamento das pessoas, mas no nosso modo de ver e agir com as pessoas e o mundo, enfim mudar a nós mesmos, a transformação mais difícil de se conseguirmos realizar, sobretudo em cativeiro- podemos viver toda uma vida sem jamais nem sequer pensar sobre isso.

Mas voltemos por hora a terra, esqueçamos as estratégias evolutivas do futuro para encarar a realidade que nos afronta: 4 milhões de pessoas condenadas pelos erros de seus antepassados. E não me refiro aqui só aos delas, mas também aos nossos. Nossos antepassados comuns. Pois, embora o mundo seja imprevisível, isso não significa que ele seja fruto de escolhas arbitrárias, nem muito menos que não havia outros mundos possíveis além do mundo que foi escolhido no passado, significa pelo contrário, que o mundo atual é fruto destas escolhas e que nós, e as gerações seguintes temos de arcar com elas- exatamente como terão nossos filhos de arcar com as nossas.

Olhando para a história do mundo, em especial das Américas, podemos dizer o seguinte: se vamos levar essa idéia de carregar as responsabilidades dos crimes e pecados que nossos pais cometeram, o reproduzir-se em condições adversas(6) é sem a menor sombra de dúvida a menor das faltas. Falo como bom brasileiro, devidamente miscigenado, que mesmo tendo sangue índio e quem sabe negro, nenhum deles apaga, nem dilui a minha parcela de responsabilidade herdada por minha descendência de colonizador europeu, junto com as terras indígenas, e os capitais da escravidão negra, literalmente sangue e a vida de pessoas de todas as etnias, inclusive a própria européia, quando verdadeiros escravos assalariados(7).

Mas e daí? A verdade é que pouco importa o fato de quem descendemos, ou de onde veio a origem da pobreza, o problema é saber até quando vamos ter de conviver com ela, e a resposta é ,portanto, quando vamos por um ponto final a esta história.

São 4 milhões hoje e infelizmente nada de concreto nos diz que não serão ainda amanhã. 4 milhões hoje e com zero reais. Como isto é possível? Como é possível viver não com tão pouco, mas com nada? A resposta é simples: não é. Nestas condições não é possível viver, nem sequer sobreviver. Usemos nossa língua materna sem eufemismos técnicos-governamentais:

4 milhões de brasileiros morrem sem nenhuma renda. E de forma lenta, com um sofrimento físico e moral, de causar inveja a qualquer inquisição ou campo de concentração, se dizer isso não fosse um evidente exagero. Inquisições e genocídios são produzidos por religiões e estados, de modo muito mais sistemático, racionalizado e perversamente desumano do que as fomes, sendo está muitas vezes o legado inevitável destas instituições depois das suas guerras santas, imperiais ou democráticas, guerras.

Creio que console alguns pensar que toda essa perda de vidas humanas seja obra de uma conspiração de um punhado de racistas brancos, podres de ricos querendo por fim as incontáveis bocas que esgotam “seus” recursos naturais em outras terras, ops, nosso planeta. Mas não é tão planejado e maniqueísta assim, mas muito mais escancarado e triste. Não duvido que haja alguns bilionários eugenistas distribuindo seus presentes de grego pelos países pobres mundo afora, penso que mais pelos bilhões do que pela raça, que até as vezes seja pelos dois, vá lá. Mas isso não quer dizer que eles, suas guerras, fanatismos, e desejo de poder intermináveis sejam a causas de todos nossos males.

Quando os netos de nossos bisnetos, quem sabe algumas gerações antes, olharem para nós e a forma abjeta como convivemos com a miséria, sentirão a mesma repulsa de absurdo, tal e qual quando ouvimos sobre nossos antepassados medievais e sua infinita capacidade de viver sem as mínimas condições de higiene, literalmente defecando onde comem(8); saberão eles, como nós o sabemos agora, que não foi apenas por causas dos reis, senhores feudais, e as igrejas que vivemos em tamanha miséria, mas sobretudo por causa de nossa passividade, omissão e ignorância não só para com os poderes e poderosos, mas antes para nossa própria condição ignorante e miserável. Como diria Oscar Wilde:

“toda autoridade é degradante. Degrada aqueles que a exercem, como aqueles sobre quem é exercida. Quando usada de forma violenta, brutal e cruel, dá bom resultado, porque gera ou, de algum modo faz aflorar o espírito de revolta e o Individualismo que lhe deve dar fim. Quando usada com certa dose de amabilidade e acompanhada de prêmios e recompensas, torna-se assustadoramente desmoralizante. Os indivíduos, neste caso, têm menos consciência da horrível pressão a que estão sujeitos. Assim, atravessam a vida numa espécie rude de conforto, como animais domesticados, sem jamais se darem conta de que estão pensando pensamentos alheios, vivendo segundo padrões alheios, vestindo praticamente o que se pode chamar de roupas usadas do alheio, sem serem eles mesmos por um único momento. “Quem é livre”, diz arguto pensador, “não se conforma”. E a autoridade, ao seduzir as pessoas a se conformarem, cria e alimenta uma espécie muito grosseira de barbárie.”

O mundo é como ele é, ou melhor, como ele está, não por causa da ridícula e ínfima porcentagem de indivíduos que detém quase toda a riqueza do planeta, enquanto a grande maioria sobrevive ou morre com quase nada.(9) O é, por conta da falta de solidariedade não apenas entre os integrantes da classe dos oprimidos, mas pela falta de solidariedade entre todos os seres humanos, independente de classes. E que não me venham com a luta de classes, discutidas entre uma Coca e outra, porque em resposta a todo espírito autoritário comunista ou capitalista(10), cito os grandes filósofos Mark Knopfler e Sting”Money for nothin’ and your chicks for free”. O problema nunca foi o egoísmo do outro que não quer partilhar voluntariamente, aliás um direito seu, mas na nossa completa falta de vontade de compartilhar o que é um direito nosso. Como diria Etiene de La Boéte em seu Discurso sobre a servidão voluntária, nunca foram as classes opressoras o inimigo do homem, mas o tiranete que mora dentro de cada um de nós, as vezes a nossa revelia, muitas outras como um convidado muito bem-vindo as nossas confortáveis salas de jantar.

Nosso inimigo não é o anseio de liberdade do outro, mas nosso próprio desejo de poder. A distância infinita entre Poder e Liberdade que separa o desejo de partilhar o que é do outro, e a vontade de compartilhar com o outro. A diferença entre apoderar-se e libertar-se. Se as corporações, governos e seja lá que instituições que inventemos devoram nossas entranhas não o fazem como leões, mas muito mais propriamente como hienas, é o homem, de fato, que continua a ser o lobo do homem.

Exagero? É possível, mas não nos esqueçamos: zero. Zero de renda.

Entretanto uma coisa temos que admitir: ninguém no Brasil passa fome. Justifico com as palavras de Amartya Sen(11):

“É útil examinar o caso das fomes coletivas na década de 1840 que devastaram a Irlanda, matando proporcionalmente uma população maior do que qualquer outra fome coletiva já registrada na história. A fome coletiva também mudou de forma decisiva o feitio da Irlanda. Acarretou um nível de imigração — mesmo sob terríveis condições de viagem — quase nunca visto em outras partes do mundo. A população da Irlanda é imensamente menor do que a de 1845.

O que causou esta calamidade? No livro ‘Homem e super-homem’,de Bernard Shaw, um rico irlandês-americano, Sr. Malone, recusa referir-se às fomes coletivas irlandesas de 1840 como ‘fome’. Conta à sua nora inglesa, Violet, que seu pai ‘morreu de inanição no negro 47’. Quando Violet pergunta ‘A fome?’, Malone replica ‘Não inanição. Quando um pais está abarrotado de víveres e os exporta, não pode haver uma fome.’”

O que dizer então de um país rico como o Brasil, credor do FMI? de fato é impossível que num pais com tantas condições as pessoas morram por falta do básico, morre-se no mínimo por omissão- deliberada ou não, mas de certo omissão.

É difícil não sentir náusea, mas que não façamos nenhum juízo de valor, e fiquemos apenas com a sensação da estupidez absurda: 4 milhões de pessoas “vivem” sem nenhuma renda.

O que queremos com isso?(12)

[1] Aliás como quase todos nós fazemos, evidentemente com menor grau de privação, mas ainda sem a verdadeira liberdade, a medida que pouquíssimos de nós tem a chance de livre e espontânea vontade poder trabalhar de acordo com sua vocação, e não porque precisa ganhar a vida ou manter o mesmo o padrão desta.

2 Um eufemismo muito bonito para matar ou morrer.

3 Não o das sociedades sem estado, mas o dos indivíduos sem comunidade.

4 Ou como diria Illich desescolarização, na melhor pedagogia libertária, em especial freiriana.

5 Literalmente.

6 Negando ainda que isto possa ser fonte geradora de qualquer problema.

7 E quem em menor ao maior grau não é?

8 Habito que não abandonamos por completo, e com agravantes, pelo menos não no plano macro, vide o que produzimos de lixo e como e onde o despejamos na natureza.

9 Os números variam, mas a situação é a mesma.

10 Paralelas que se cruzam no culto ao poder absoluto.

11Em Liberdade como Desenvolvimento.

12 Em tempo: no verbete em inglês da Wikipédia para a palavra desigualdade social podemos encontrar o link para o apartheid social brasileiro- e olha que a crítica vem de especialistas no assunto, vide história da África do Sul, USA e Inglaterra.

Originally published at mvbrancaglione.blogspot.com.br on September 28, 2011.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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