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KOYAANISQATSI: A Idade da Consciência

E a primeira Inteligência Artificial Psicopata

Koyaanisqatsi: (da língua hopi) “vida enlouquecida , vida em turbilhão, vida fora de equilíbrio, vida se desintegrando, um estado de vida que pede uma outra maneira de se viver”.

Introdução: A alma

Antes de entrar no cerne de onde quero chegar quando falo em Idade da Consciência e sua Pedagogia, preciso passar primeiro, ainda que só superficialmente, pelos modelos e explicações do pensamento e comportamento que se desenvolveram sobremaneira nos últimos séculos. E se desenvolveram não propriamente graças ao enfoque no que é considerado um pensar e agir normal, mas sobretudo, graças aos estudos e tratamentos do que era e é considerado seu mal formação e funcionamento: a loucura, insanidade, os transtorno e distúrbios mentais.

Nada técnico. Até porque não tenho conhecimento para isso. E o que me interessa não aqui não é psicopatologia, mas a ética, a cibernética e a evolução tanto da inteligência artificial quanto da natural no que se refere a esse fenômeno ainda bastante desconhecido, que dirá então aplicado: a consciência. A consciência; ora vista como ficção metafísica; ora como mera abstração referente a processos fisiológicos. Ora confundida com o estado de vigília, ora com razão, inteligência, ou mesmo com o ego e superego.

Para tanto, porém, antes de chegar no que entendo por consciência ou o que ela deveria ser, preciso falar da psicose. Não só a psicopatologia, mas antes do filme clássico de Hitchcock, cujo vilão inspira a clamada “primeira inteligência artificial psicopata” homônima Normas Bates. E antes delas, tanto Norman da ficção cinematográfica quanto o da informativa, passarei brevemente por duas importantes metáforas para entender a sanidade e insanidade da mente e do mundo: a biga de Platão, e o iceberg de Freud.

A alma como um carro de guerra… numa ilha de gelo

Numa leitura absolutamente livre tanto de Platão quanto de Freud, podemos enxergar na teoria da Personalidade do segundo uma visão da psique muito semelhante -e mais elaborada- da alma que o primeiro expressa em sua parábola das bigas.

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Na parábola, o intelecto ocupa a posição de condutor da biga, sendo o responsável por manter juntos dois cavalos que puxam a vontade da pessoa. Um, é um cavalo bem educado e branco, é claro, que representa as paixões “bem educadas” que não precisam de chibata. O outro, o cavalo negro, representa as paixões e desejos mais libidinosos, para já usar um termo freudiano. De qualquer forma, tanto o cavalo dos sentimentos morais e sociais quanto o cavalo dos desejos mais primitivos e inconfessáveis não são mais selvagens, mas domesticados, um com outro sem a chibata, mas ambos presos ao carro e a vontade do condutor, pelos devidos freios, arreios e cabrestos.

Creio que a similaridade é um tanto quanto evidente. Tanto que o próprio leitor poderá fazer ele mesmo a correspondência, de quem seria o id, o ego e o superego dessa parábola. Para quem não faz a menor ideia do que significam esses termos, segue um esquema para prosseguir com a leitura, sem nenhuma pretensão explicativa maior.

Id: “It is the dark, inaccessible part of our personality… It is filled with energy reaching it from the instincts, but it has no organisation, produces no collective will, but only a striving to bring about the satisfaction of the instinctual needs subject to the observance of the pleasure principle”.

Ego: “The ego is that part of the id which has been modified by the direct influence of the external world … The ego represents what may be called reason and common sense, in contrast to the id, which contains the passions … in its relation to the id it is like a man on horseback, who has to hold in check the superior strength of the horse; with this difference, that the rider tries to do so with his own strength, while the ego uses borrowed forces”

Superego: “The Super-ego can be thought of as a type of conscience that punishes misbehavior with feelings of guilt. For example: having extra-marital affairs” (nota: quanto a obsessão burguesa pela cornitude, pelo ser ou não ser… corno, quem explica melhor não é Freud nem Marx, mas Fourier). -Id, ego, and super-ego — Simple English Wikipedia, the free encyclopedia

Então qual a diferença? Qual é a grande novidade? A inovação é que Freud, integrou dois importante conceito a sua teoria: o plano mental da consciência e inconsciência, onde os campos que descrevem as força elementares da psique e constituintes da personalidade, o id, o ego e superego, estão manifestos e inseridos. De modo que a metáfora preferida para explicar a condição da mente humana passou a ser outra, a do icebergue.

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A mente como um iceberg… uma ilha fragmentada e isolada de gelo. Freud iria adorar colocar essa representação das suas teorias no divã para analisar o que há de subliminar e inconsciente nessa simbolização… Daria mesmo um excelente objeto de analise freudiana quanto ao mal-estar da civilização: os velhos e obsoletos carros de guerra enfim isolados em ilhas geladas tentando emergir e navegar no mar da sua inconsciência, sem afundar de vez pelo peso da sua (in)consciência como imagem da vida mental.

Entretanto, como já disse, não estou interessado em analisar as teorias psicológicas, nem suas interpretações. Assim como estou menos interessado ainda em dissecá-las, as teorias ou os órgão correspondente, o cérebro. É irrelevante o quanto a teorias psicológicas não espelha fisiologicamente a mente, mas apenas simbolicamente. O importante é que tanto a metáfora como a teoria “funcionam” razoavelmente bem dentro dos limites daquilo que intentam explicar e se propõe a fazer- seja lá quais sejam as intenções.

Tais explicações funcionam. E funcionam mais ou menos, como a ideia de energia potencial da física clássica que (supostamente) aprendemos a calcular na escola. Não importa que nenhuma energia exista ou seja produzida fenomenologicamente quando simplesmente levamos um objeto para um lugar mais alto. O que importa é que conseguimos prever e calcular o que vai acontecer de o jogarmos de lá.

Assim, de forma parecida a física clássica — da qual por sinal Freud parece ter tomado emprestado muito da mecânica- a teoria da personalidade também fornece um modelo com forças elementares e dinâmica simples para explicar, prever (e conduzir) movimentos. Porém com uma diferença substancial nada pequena: ao invés de tomar como objetos de estudo e experimentação real ou imaginária coisas inanimados e suas forças, toma a natureza e a forças que constituem os os chamados animas racionais, os seres humanos. Ou seja, seres animados e sua anima.

Dito assim, em termos tão mecanicistas tiro todo aspecto social, biomédico, embora nem sempre humano, que envolveu o desenvolvimento da psicologia, psiquiatria e psicanálise. Mas é importante ter em mente justamente essa origem e as amplas possibilidades que esse conhecimento abriu: não só de entendimento do mal-estar das pessoas e civilizações e seu tratamento enquanto alienação e insanidade, mas também de formação e condicionamento dos comportamentos desejados e considerados normais por óbvio de quem trata e se tem e supõe são e não o outro tomado por insano. Ou seja o conhecimento e controle sobre o pathos, as paixões e seus transtornos patológicos.

Dito isto, é hora de entrarmos no mundo de Norman Bates.

Parte I : Psicose

Norman Bates, da cabeça de Hitchcock

“Sabe o que eu acho? Eu acho que todos nós estamos em nossas próprias armadilhas, presa nelas, e nenhum de nós consegue sair. Nós usamos nossas garras e unhas, mas apenas no ar, umas com as outras. E por tudo isto, nunca mudamos nosso modo de agir”

Psicose para quem não sabe um filme baseado em um caso real. Ou seja não é real, mas uma ficção. Coisa absolutamente ridícula de ter que se dizer, se não vivêssemos em tempos de absoluta confusão ideológica entre o real e o simbólico. Na verdade, o psicopata que inspirou o filme é ainda mais perturbador e doente que Norman. E fazem as fantasias e perversões do próprio Hitchcock parecem coisa de criança que diga-se de passagem é a prova viva de que genialidade, ética (ou sanidade) nem sempre andam de mão dadas. Mas deixemos as pessoas reais de lado, e vamos ficar com o Norman Bates de ficção. pois além dele ser um personagem arquetípico tão bem construído, serve também melhor a uma analise mais fria- sempre a frieza…- devidamente protegidas pela quarta parede da ficção.

Porém, mesmo olhando do anteparo dessa lugar comodo, é preciso abrir sua mente e se livrar, ou pelo menos suspender momentaneamente algumas preconcepções que lhe dão segurança. Logo, se você acha que psicopata é um individuo desprovido de qualquer superego, de toda forma de pressão das normas sociais que regulam o sua líbido, as suas pulsões sexuais, mais primitivas ou que o psicótico não possui uma padrões normais e anormais dentro da sua própria loucura, recomendo que se abra para hipótese em contrário. Ou já adianto, não vai entender a psicose de Norman Bates; nem a visão de Hitchcock, ou a descoberta de Freud dessas camadas tão profundas da mente cuja disfunção ou desarmonia causaria o “mal-estar da civilização.” E sobretudo vai perder o seu tempo com essa leitura.

E já que sai mesmo do assunto para fazer bula, aproveito para também aconselhar fortemente o leitor que não viu o filme, a pular todos os parágrafos até onde eles estão marcados em negrito porque é só spooiler, e ver o filme, vale a pena. Quanto aos críticos de cinema que me desculpem, porque vou fazer com o filme, a mesma coisa que fiz com a obra de Freud e Platão: usar toscamente sem nenhuma preocupação em dar toda a dimensão da obra, apenas para chegar, sem nenhuma cerimônia (ou elegância) ao assunto que me interessa.

Norman Bates é um dono de um hotel de beira de estrada isolado que entre um passarinho empalhado e outro mata as hospedes vestido como a mãe, Norma, que por sinal ele também matou e empalhou e com a qual mantém conversas ventrilocando a nada doce velhinha. Uma senhora ciumenta possessiva e castradora -de acordo com as lembranças, imaginação ou as duas de Norman- que odeia todas as “putinhas” que visitam o hotel- as quais é obrigada matar para proteger o filho dessas “vagabundas oferecidas”. Em suma, Norman Bates, é um esquizofrênico com dupla personalidade que interpreta e encarna a da mãe repressora morta, Norma, e que durante seus surtos psicóticos assassina as hóspedes pela qual sente tesão reprimido. E bota tesão reprimido nisto.

(…) A censura da mãe permanece presente em seu super ego, função delimitadora que nos mantém atentos para as regras sociais que aprendemos. Norman passa a manter uma vida aparentemente normal enquanto dirige o seu motel, porém sempre que uma mulher se aproxima dele a censura sexual imposta pela castração psicológica realizada pela sua mãe vem a tona, de modo que o mesmo não desejando matar a garota devido aos supostos ciúmes que a mãe teria dele, ele mesmo assume o papel da mãe, e então é Norma quem mata e não Norman.

Esse desvio leva a criação de uma dupla personalidade, de modo que Norman jamais assumirá a realidade dos fatos. Ele é totalmente incapaz de aceitar o que fez e por isso existe a necessidade desta fantasia, de nutrir uma ideia de que ele não seja culpado de coisa alguma. Os ciúmes que sentia de sua mãe são transferidos para ela, de modo que age como se fosse ela que tivesse ciúmes dele e tentasse o obrigar a matar. Ele apenas limpa a sujeira deixada por sua mãe. Afinal de contas, qual o filho que não protegeria a própria mãe. (…)-Como Norman lidou com sua doença por tanto tempo sem ser pego?

Norman é ora seu ego impotente e paralisado, ora seu superego Norma que o domina completamente. A personalidade Norma não é uma construção consciente de identidade, mas justamente o oposto. É a incapacidade do eu reprimido e frustado em se dissociar do superego, encarnado pela figura da mãe opressora afundando em fantasias que emergem do inconsciente em explosões de fetiche violento.

A proximidade do nome é intencional; Norma e Norman são tão próximos que chegam a parecer uma única pessoa. Este tipo de relação entre os dois é que dará margem para a psicose de Norman. Uma vez que Norman era tudo para sua mãe, que nesta altura estava sozinha no mundo, ela também era tudo para ele. A relação de ambos pode ser considerada incestuosa, uma vez que podemos considerar o incesto como uma relação parental em que não são definidos os limites de cada pessoa da relação. Ou seja, Norma e Norman se confundem, como se um fosse extensão do outro; este comportamento tomará forma nítida no comportamento psicótico de Norman, que nunca superará sua mãe, levando ela consigo em um quadro patológico onde ele não é capaz de discernir sua personalidade de sua própria mãe.(…)

Norman é um serial killer. mas não é um psicopata, é um esquizofrênico. Tem dupla personalidade e complexo de Édipo (outra ideia de Freud inspirado na cultura clássica grega). Norman causa sofrimento, mas ao contrário do psicopata ele também sofre. Não é está a condição nem o sofrimento de Norman. Ele não está fingindo ser ou tentando culpar a mãe para enganar as pessoas e satisfazer suas taras violando, violentando, e matando gente a seu bel prazer; não age ciente e sem culpa do que esta fazendo, desprovido de empatia pelo sofrimento alheio- nem o que assiste, nem o que ele mesmo provoca. Norman quebrou. Sua personalidade literalmente se desintegrou. É o rapaz tímido que deseja fazer sexo com uma mulher. E é a própria mãe repressora e possessiva a qual ele deve todo afeto, incluso o sexual, Norma.

Enfim, resumindo, para quem teve que pular o spooiler não perder o fio da meada, psicopatia e psicose são duas psicopatologias bem distintas que não devem ser confundidas. Mas não tem problema. Porque é sobre tais distinções que iremos prosseguir.

O estereótipo da psicopatia e sociopatia

A menos que se entenda o sofrimento do psicopata num outro plano e sentido mais amplo e profundo do que só dor e prazer, o psicopata não sofre, pelo contrário ele justamente se caracteriza pela incapacidade de sentir ou sofrer com seus atos, embora possa sentir prazer e gozar com eles. Sofre portanto de uma outra condição miserável comum a todos que possuem traços de psicopatia. Um vazio existencial, um buraco negro de quem desprovido da sua capacidade sensível de compadecer do outro, é incapaz de compadecer, ou sequer compreender a sua condição mental como arcabouço claustro e sofrimento da pisque. Uma condição mental onde o ser senciente desprovido ou amputado da sua capacidade de sentir o gozo de qualquer outra coisa que não a satisfação das suas próprias paixões não consegue nem fugir delas, nem satisfazê-las e se satisfazer, senão efemeramente, impingindo dor e sofrimento aos outros, matando, devorando, dissecando, desmembrando, parte do corpo e da “alma”, literal e simbolicamente, física e psiquicamente, tentando assim se apropriar do sentir e sentido da existência alheia que lhe falta a seu bel prazer.

Na verdade não consegue fugir nem evitar esses desejos não só porque não quer, mas porque seu querer, por falta de caminho neurais e campos mentais, por e para onde ir e querer ir, se resume a isso, satisfazer essa fome, que muito embora ele busque satisfazer racional e racionalizadamente, em plena uso da sua consciência, ainda sim o domina e constitui sua vontade de predador como desejo que se fixa como mania.

Um desejo maniaco que portanto que ele é capaz de controlar, mas apenas com o fim de satisfazer seu querer, mas sem jamais querer ou ver porquê pará-lo, já que não sente ou liga para a anima, vida ou sofrimento das vítimas e presas que para ele não passam de coisas, objetos de posse, ou passiveis de apropriação para satisfação das suas taras e fantasias- explicitamente eróticas ou nem tanto- de violência e poder. Em suma o psicopata literalmente não tem compaixão nem solidariedade, ou a possui de forma extremamente reduzida e precária na em personalidade com traços psicopáticos- manifesta em comportamentos onde o sujeito reifica os outros sujeitos como seus objetos dos seus fetiches. De modo que que emerge e prevelace é a fome do seu pathos e a pisque do caçador de gentes.

Na psicopatia, portanto, o instinto gregário da empatia está apagado ou pervertido. O psicopata: ou (a) não sente compaixão solidariedade ao sofrimento alheio, ou (b) em casos mais graves só consegue sentir prazer infringindo sofrimento aos demais. Contudo é importante notar que nos dois casos ele é capaz de perceber o que outros sentem, mesmo sua falta de compaixão, solidariedade é completa. Ele percebe e entende o que o outro sente ou sofre, porém, não só não se importa como é capaz de usa, manipula esses sentimentos ou mesmo simulá-los sem culpa ou remorso conforme tais emoções e fingimentos convenham a seus planos e interesses para satisfação dos seus objetivos, prazeres ou taras.

O psicopata portanto não só é capacidade de detectar o sentimento alheio, como também é de usar racional e planejadamente tais emoções que é capaz de inteligir, sem contudo nenhuma emoção- além é claro do prazer do ato em si de controle e manipulação para a consecução dos seus objetivos, ou na própria relação de dominação e poder. Logo, é lúcido e consegue fazer distinções morais e culturais do bem e mal, possui um superego, ao qual não dá a mínima, exceto no que ele representa de risco ou oportunidade a consecução de seus atos e planos. pois, assim como sua solidariedade essa moralidade não passa de abstração. Não uma sensação, um sentimento, não com a concretude e força dos seus desejos, taras e fetiches. Ou seja, com ou sem prazer diretamente envolvidos, com ou seus pulsões e taras eróticas ou de morte e violência explicitas, as pessoas com personalidades e comportamentos psicopáticas se caracterizam pelo valor e tratamento predatório que dão aos outras pessoas, tomando-as como coisas e objetivos para satisfação dos seus desejos e objetivos, passando por cima ou usando os outros para conseguir o que querem sem freios, remorsos, culpa ou compaixão.

Notem, que não é um indivíduo furioso ou louco no sentido clássico que se torna cego, ou entra em transe, como se ego, sua razão apagasse e o id tomasse conta completamente de sua pessoa de modo que ele sequer pudesse saber ou responder depois pelo que fez. É a pessoa “ruim” no sentido clássico, que no pleno controle da sua razão, ciente tanto que os outros sentem ou do que sentem, e do que deve ou não fazer, ainda sim o faz, porque simplesmente não se importa ou deseja.

As taras, fantasias, perversões, compulsões mais bizarras, ou socialmente aceitáveis, não devem portanto serem confundidas com a psicopatia. Por exemplo, se um indivíduo mata seja pelo prazer de matar ou sem sentir absolutamente nada matando, o fator determinante do seu comportamento patológico não é se ele sente ou não prazer no que faz, mas que ele sabe e não sente absolutamente nada, não dá importância para o que fez, nem valor nenhum a vida que tirou. Se mata para fazer um casaco de pele humana, ou para comprar um que é feito de pele de bicho (que por sinal também sofre e morre), o tipo ou grau de insanidade dos seus desejos, manias e fetiches, não nos dizem exatamente o grau absoluto de psicopatia do individuo, isto é, o quanto seu instinto gregário e sua empatia estão prejudicados, mas sim quais hábitos e costumes que consideramos normais e aceitáveis e logo consequentemente quais traços de psicopatia presentes dentro da nossa próprio sociedade e cultura como inconsciente coletivo, e cuja relativização permite ao psicopata viver como se fosse uma pessoa normal.

(…) o psicopata não é um doente mental da forma como nós o percebemos. O doente mental é o psicótico, que sofre com delírios, alucinações e não tem ciência do que faz. Vive uma realidade paralela. Se matar, terão atenuantes. Já o psicopata sabe exatamente o que está fazendo. Ele tem um transtorno de personalidade. É um estado de ser no qual existe um excesso de razão e ausência de emoção. Ele sabe o que faz, com quem e por quê. Mas não tem empatia, a capacidade de se pôr no lugar do outro.

Da Psicopatia

A psicopatia não é visivelmente uma patologia como é o caso explícito da psicose. Os psicopatas ao contrário do que se pensa têm a real consciência do que estão praticando e, sentem prazer em praticar a maldade a quem cruza o caminho deles, sem remorso algum. Até profissionais da área, como os médicos psiquiatras, que já estão habituados a todas as armadilhas de quem têm esse tipo de transtorno, podem cair “nos encantos deles”. Eles são os mestres da encenação; são os atores da vida real.

Do transtorno psicopático

Psicopatia é o “câncer da psiquiatria”. É um transtorno grave e não tem cura. Passam tranquilamente como sujeitos sociáveis. Segundo dados internacionais, os psicopatas são 4% da população, 1% serial killers, (os que cometem assassinatos em série). Mesmo os psicopatas mais “brandos”, que fazem pequenas maldades, não têm cura. E definir pequena maldade é subjetivo. Para uma pessoa a atitude e comportamento de um sujeito pode ser uma pequena maldade, na contrapartida, para outra, a mesma atitude pode ser sentida com mais intensidade e causar um dano mais sério.

“Apesar do ainda controverso tema da existência do instinto agressivo em nossa espécie, pelo menos entre as teorias psicanalíticas não há dúvidas sobre a natureza da compulsão à repetição e características sádicas de suas manifestações descritas por Freud no célebre ensaio: Além do princípio do prazer, 1921.”

A maioria das maldades do psicopata é de caráter psicológico e não físico. Por isso, suas vítimas em potencial são àquelas pessoas generosas. (…) Às vezes, a dor psicológica dói até mais. Esses seres são monstros em pele de cordeiro e estão em todas as camadas sociais. Eles podem ser desde um falso colega de trabalho oportunista, que vive se fazendo de vítima, trapaceiros políticos, empresários, religiosos, filho (a), esposo (a). No entanto, escondem tais características de forma que socialmente são vistos como pessoas normalíssimas, cujos verdadeiros instintos ninguém é capaz de desconfiar.

Do tratamento para a Psicopatia

Psiquiatras alertam que, o tratamento para o psicopata não funciona, inclusive, intensifica a maldade com o tratamento. Os psicopatas são inteligentes. Eles usam o conhecimento adquirido na análise para aperfeiçoar ainda mais a maldade. Com mais conhecimento eles irão ferir mais intensamente as pessoas que estão a sua volta. A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa, afirma: “O grande tratamento para os psicopatas é a postura que temos com essa pessoa”. A grande arma da sociedade, segundo a médica psiquiatra, é não tolerar a impunidade. -TRANSTORNO DE PERSONALIDADE PSICOPÁTICA X TRANSTORNO DE PERSONALIDADE PSICÓTICA “ Luzziane Soprani

E os “normais”? O estereótipo do neurótico ao do psicótico

Sério? Quê normais? Para Freud somos todos neuróticos em maior ou menor grau de sanidade ou insanidade. A diferença entre a pessoa normal, cheia de “neuras”, manias, fobias, ansiedades, compulsões, a neurótica, e o a louca, a psicótica, com manias de perseguições, grandeza , alucinações, vozes e múltiplas personas e personalidade a vigiar e tomar conta da pessoa é um diferença de noção da realidade, ou mais precisamente da grau de fantasia da sua concepção do real.

Tanto a psicose quanto a neurose seriam resultado de um processo de desenvolvimento tomado como se fosse o próprio processo natural de crescimento ou formação da personalidade. A construção tanto simbólicas e emocionais da pessoa e do mundo; do real e do imaginário, nas noções de eu e os outros, realidade e fantasias. Um processo considerado inescapável de castração, frustração e repressão dos desejos e vontades mais instintivas, durante a aculturação, socialização e familiarização a vida civilizada, que produz perdas insuperáveis. Perdas e traumas que a pessoa neurótica supostamente normal reprime envia para as camadas mais profundas do inconsciente, formando as neuroses que retornam a ela na forma de sentimentos angustiantes ou comportamentos estúpidos que a pessoa não consegue se livrar nem sequer entender suas causas, as quais transfere como culpa ou solução para os demais, seja o mundo inteiro ou alguém em especial. Tal proceder é considerado “normal e necessário” para adequação da pessoa a vida civilizada, e da transformação da crianças num adulto funcional. E a incapacidade de efetuá-lo o mal da esquizofrênica.

(…) Na teoria freudiana, aprendemos que na esquizofrenia (um tipo clínico da psicose), as palavras são tomadas como coisas. Pois há um investimento exacerbado nas representações destas palavras, que não são inscritas de forma representada no inconsciente do paciente.

É essa a diferença determinante na psicose. O que é vivido como traumático, como afetivamente intenso pelo psicótico, não ganha uma representação capaz de favorecer o escoamento energético ou a vinculação desse excesso a uma ideia, a uma representação. As palavras são reais.”

A autora explica de forma clara a diferença entre a neurose (lembrando que neuróticos somos todos nós, disse Freud, em maior ou menor grau) e a psicose. Enquanto na neurose o conteúdo traumático é recalcado (ou enviado ao inconsciente), e o recalque retorna, sob a forma de sintoma (no corpo) ou como pensamentos (angústia). Já na psicose, um fragmento ruim da realidade concreta é rejeitado e substituído por um delírio. A diferença se daria não no rompimento com a realidade, mas na forma de restaurá-la.-Neuróticos somos todos nós!

A esquizofrenia por outro lado se assemelha a loucura propriamente dita. A empatia não está desligada. O esquizofrênico não só se sente e sofre, como por sentir e sofrer demais por vezes surta. Ele literalmente cria um outro mundo como outras pessoas e entidades, as quais interpreta e enxerga seja como fuga de representações da realidade e personas que da qual foge ou lhe persegue. Representações de desejos e memórias, de experiências e traumas, que supostamente deveriam ter conseguido lidar e absorver para constituir o seu eu e e seu mundo, mas que ao invés disso o assombram como sonhos e pesadelo acordados.

Na psicose o ego, a razão literalmente se perde e desintegra completamente da noção de realidade. O o ego perde o lugar ao id ou superego, e a personalidade se quebra e fragmenta num mundo de ilusões e fantasias que ganham a concretude do realidade como delírios e alucinações. Platão diria que o condutor da biga não mais guia é guiado. Não raciocina, racionaliza. Não raro sua personalidade se fragmenta em tantos papéis distintos quanto são as forças e demandas contraditórias dos desejos e preceitos que tomam forma de possessão e ditam a fantasia. Suas paixões e preconceitos ganham voz, personalidade e corpo, que dão ordem e possuem o próprio corpo, do além ou de dentro dele mesmo. Anulam seu eu, seu ego que passa a personificar seus id ou superego, embotando sua razão que passa de senhor a servo dessas paixões instintivas ou preceituais, construindo visões da realidade que sustentem tais fantasias.

Da psicose (Esquizofrênica)

Culturalmente, o esquizofrênico representa o estereotipo do “louco”, um sujeito que produz grande estranheza social devido ao seu desprezo para com a realidade. A esquizofrenia é uma doença psiquiátrica que deve ser diagnosticada e tratada rapidamente. Ela se caracteriza por alterações no pensamento, no afeto e na vontade. Os principais sintomas são: delírios, alucinações e retraimento social. Delírios são ideias distorcidas, irreais, que o sujeito acometido pela doença percebe como reais, como as manias persecutórias. No transtorno psicótico, o sujeito se sente perseguido. De repente, a pessoa cisma, por exemplo, que o FBI o está perseguindo. Tudo que ocorre a partir de então, gira em torno dessa ideia delirante. Outro aspecto diagnosticado no TPP (esquizofrenia) é a mania de grandeza e místico-religiosos.
O esquizofrênico age como alguém que rompeu as amarras da concordância cultural, menospreza a razão e perde a liberdade de escapar as suas fantasias.

Dos sintomas psicóticos (esquizofrênicos):

É importante ressaltar que esquizofrênicos se isolam e diminuem à interação afetiva. Esquizofrênicos têm mais dificuldade para interagir socialmente e acabam se isolando. O transtorno cursa com períodos em que os sintomas são mais intensos (episódios psicóticos agudos), mas quando tratados perdem intensidade (fase de estabilidade) e a pessoa leva uma vida praticamente normal. A psicose surge em sujeitos com predisposição genética a desenvolver a doença. Apresenta características como: delírios e/ou alucinações. Vale ressaltar que a família ao perceber esse tipo de comportamento, deve levar o sujeito ao psiquiatra para que seja feito o diagnóstico e estabeleça um tratamento. Quanto mais cedo o transtorno for diagnosticado e tratado, melhor a evolução do tratamento. A rapidez é importante para uma melhor qualidade de vida.
Segundo alguns especialistas, aproximadamente 1% da população são acometidos pela doença, geralmente iniciada antes dos 25 anos e sem predileção por qualquer camada sociocultural.

Das diferenças entre psicopatas e esquizofrênicos:

O psicopata tem um déficit no campo das emoções, é incapaz de sentir amor e/ou compaixão, é indiferente em relação ao outro — já o esquizofrênico é o oposto, ele tem afeto em excesso, é extremamente sensível e, de tanto sentir e não se expressar, surta. Mas, isso não isenta o psicótico de cometer algum tipo de crime, se, porventura, ocorrer um surto psicótico.
No caso do psicopata, ele não enlouquece nunca, pois não tem afeto, é embotado. Ele não é capaz de se colocar no lugar do outro e sentir a dor que ele provocou. Mas o problema dele não é cognitivo, a razão funciona bem, ele tem a capacidade plena de distinguir o que é certo e o que é errado. Tem certeza que está infringindo a lei, mas não se importa com isso e até calcula os danos para saber o custo-benefício da ação.-TRANSTORNO DE PERSONALIDADE PSICOPÁTICA X TRANSTORNO DE PERSONALIDADE PSICÓTICA “ Luzziane Soprani

Assim, podemos dizer olhando do ponto de vista de quem aperta os parafusos, e não de quem tenta consertar os parafusos soltos que loucos e psicóticos não passariam assim de neuróticos fracassados… e logo os neuróticos psicóticos prontos para surtar, tudo depende o quanto você aperta e a capacidade do submetido a sessão de suportá-la. Adultos psicóticos foram um dia crianças que não “conseguiram aguentar” os traumas dos ritos de passagem e aprendizagem que servem para fazem delas adultas, e de todos nós selvagens, civilizados- doentes e doentios, cheios de neuroses mas civilizados. Não recalcaram devidamente seus instintos e desejos irrealizáveis na inconsciência dos sonhos e vontades frustradas das representações neurotizante do normal. E assim ao invés de recalcar tais traumas e frustrações e vivenciá-los como representações inconscientes de desejos reprimidos e seus sintomas, passaram reviver todo essa luta no plano concreto do sensível, como delírios e fantasias onde não só os desejos ganham corpo e lugar, mas com muito mais força e predominância as repressões e figuras repressoras na forma de alucinações.

Os traumas e frustrações que habitam o inconsciente do neurótico como sentimentos e representações, emoções e signos, no do psicótico se manifestam como sensações sensoriais tomando a forma de coisas e entidades e eventos delirantes; fantasias de fuga da realidade, onde o imaginário idealiza o real, e não enxerga as coisas ou só enxerga seletivamente o que quer ver, onde não raro, eventos e entidades persecutórias os assombram, lhe dão ordens, vigiam perseguem, punem tentando controla-las e possuí-las e por vezes conseguindo, em episódios de surtos psicóticos- muitas vezes provocados pela tensão ou eminencia da quebra da bolha que os protege.

É como se o psicótico não conseguisse suportar e assimilar a pressão das normas e normalizações ou a forma com que se impõe e são impostas a ele. Não consegue processar nem aderir ao processo de socialização e familiarização pelo condicionamento do seus instintos aos egos superior e alheio, internalizando-os como representação simbólica dentro da inconsciência em formação como o superego do normótico. É como se o superego do psicótico ao contrário do neurótico assumisse um forma sensível monstruosa que ao invés de assombrar seu sonhos e imaginário frustrados e reprimidos assombra suas visão da realidade como entidade sensível e concreta.

E de fato o é, para ele. Assim como é a ilusão de movimento do cinema, é para o espectador. A visão de realidade, e sua sensação são a referência da concretude do real seja para o louco seja para o normal. De modo que nem sempre a alucinação do psicótico assombra só suas fantasias do real, mas simplesmente seu mundo sensível mesmo quando ele ou sua visão se assemelha a percepção das pessoas normais. Assim como as pessoas normais não estão livres de surtos psicóticos, quando expostos a uma combinação de condições extremamente vulnerabilizantes e estímulos desestruturantes. Por exemplo, a combinação de drogas alucinógenas ou desinibidoras, ou situações de extrema tensão ou trauma sobre um psique envolta por cultos e culturas repressoras e delirantes podem ser respectivamente toda a faísca e a pólvora que as neuroses da psique explodam em surtos psicótico.

Normose: Do neurótico ao psicótico

Nada mais perigoso que a administração e consumo de drogas psicotrópicas e ideológicas. Principalmente quando a vida é uma droga. Não como sinônimo de uma vida percebida como condição prejudicial a saúde, mas literalmente narcotizada, seja anestesiada perante tal condição ou mesmo transtornada por tais meio e relações capazes de impactar o aparelho sensorial, emocional e cognitivo tanto até ou mais que algumas substâncias. O potencial narcótico das situações vivenciadas tanto cotidianamente quanto excecionalmente para junto com as narrativas ideológicas alterar percepções e comportamentos, até o limite da despersonalização e perda de noção da realidade e interatividade.

Embora, seja anciente o saber que é possível induzir imediatamente estados alterados da percepção e intelecção tanto via administração e consumo de certas drogas, inibidoras, desinibidoras ou alucinógenas, provavelmente mais antigo ainda é o saber que também é possível induzir esses estados mentais através de experiências de grande privações ou forte estresse fisiológico e logo através da manipulação do meio ambiental, social e pessoal que provoquem tais alterações.

Ritos e rituais de passagem, processos de aprendizagem, sessões de tortura, ameaças repentinas ou constantes produzem memórias emocionais capazes de construir novos padrões que podem alterar, romper ou reforçar antigos padrões, seja como tendências comportamentais inatas ou mesmos predisposições a laços interpessoais e sentimentos. Tais estados podem também ser gradativamente produzidos de forma mais lenta e gradual através da introdução de hábitos, costumes, que se constituam em novos e diferentes estímulos sensoriais, cognitivos e emocionais ou reforço aos as predisposições já desenvolvidas. Assim tão anciente quanto o uso de drogas alucinógenas é o uso da própria manipulação da realidade como vetor da produção dos estados de alteração da percepção, cognição e emoção. O saber que, com estímulos fisiológicos ou ambientais é possível tanto desencadear aprendizado de desenvolvimento de novos padrões mentais quanto sua inibição ou fixação nos preestabelecidos e predispostos como condicionamento comportamental é uma noção ao menos tão antiga quanto a próprio advento da domesticação do homem do pelo homem, tanto pelas suas relações quanto pelo condicionamento das suas condições de vida.

Neste processo o trauma e a neurose não são efeitos colaterais, mas procedimentos essências a formação dessa cultura e educação dessa civilização, onde a evolução do homem não se opera do homem sobre si mesmo como processo de adaptação a sobrevivência, mas como processo de reprodução do seu predomínio sobre outros homens, geração sobre geração.

Provocar experiências e vivencias que não deem chance a resistência e quebrem os padrões instintivos; que não permitam que a pisque do outro se adapte e construa outros padrões e respostas alternativas, é a base para introjeção da vontade do outro como submissão na psique alheia. O fundamento tanto para a criação do superego quanto da neurose como condição patológica normal do homem civilizado, ou em termos mais precisos da condição normótica homem domesticado.

Um procedimento onde o superego não se constitui como uma mero conjunto de normas ou memorias de doutrinações, mas como uma força interior auto repressora, capaz tanto de desmobilização as suas vontades instintivas indesejadas, quanto receber e processar constante a ordens externas reconhecidas como de autoridade. O grilhão inconsciente da banalização da da servidão “voluntária” onde a submissão e obediência são processadas como normalidade e realidade, quanto a própria porta dentro inconsciente onde essa ordem é constantemente reprocessada.

A loucura, a psicose seria produto da incapacidade ou recusa em efetuar esse procedimento de adequação a normalidade neurótica tomada como realidade que vai se manifestar justamente primeiro como resistência e luta instintiva condicionamento familiar e social. Incapazes de impor suas vontades e manias como norma e realidade, de se impor ou contrapor a ditadura do real e normal, o esquizofrênico então literalmente quebraria frente ao processo de domesticação do homem pelo homem que faz de nós selvagens, civilizados. Não conseguem aceitar o real como normose neurótica insuportável a sua sensibilidade. Nem conseguem elaborar criativamente uma resistência ou interpor uma outra forma de realidade e relacionamento e formação da sua pessoa e personalidade. O que obvio, são crianças!

E tem gente que ainda não entende porque em sociedades onde a repressão e o autoritarismo são prevalentes, tanto a neurose quanto os surtos psicóticos são estaticamente mais altos, por vezes próximos aos índices que tais civilizações só conseguem atingir em combatentes militares e vítimas civis de guerras.

Embora tais eventos ocorram sempre no âmbito das relações pessoais, antes desse choque educacional e civilizatório se reproduzir no plano do social e familiar. Ele se produz originalmente no choque entre povos, raças e culturas; modos e formas de viver que passam a conviver não raro algum de forma forçada e subjugada ao outro após perder a disputa pela prevalência e controle do território. E se nas crianças esse processo de domesticação tem grandes impactos patológicos, quando esse choque entre visões e sensibilidades do ser e do mundo se dá entre adultos e culturas formadas e não entre gerações, onde a introjeção dos controles psicológicos não são tão maleáveis e efetivos, o resultado geralmente ou o genocídio ou o etnocídio do aculturado. E os impactos dessa vivência não só no inconsciente coletivo dos domesticado mas também dos domesticadores já agora integrados como classe de uma mesma sociedade embora não seja igual nem em condição nem proporção é brutal e alterador de ambos, tanto da sua concepção normal do “eu” quanto do próprio “real”; tanto como normose neurótica tendendo a psicose, quanto normose psicopática tendendo a sociopatia.

Uma fábrica de neuroses e neuróticos a serviço da normalização alienante de uma maioria em favor de uma minorias de alienistas, que por mérito. O mérito da sua psicopatia. Sim a psicopatia, porque para a homem racional, ciente e sua ciência compreender a psicopatia teria que levar a si mesmo para o divã, teria que sair da sua condição superior de sujeito das suas concepções, e se fazer o objeto de estudo das suas próprias preconcepções. Teria que tomar ciência critica do sua senciência e ao fazê-la alterar o estado da sua percepção e de si e do mundo, bem como mentalidade e plasticidade mental cristalizada na certezas dos seus egos e superegos. Teria que reaprender a lidar e respeitar não só com seus instintos e líbidos, mas apreender a viver e conviver com as forças de todos os seres naturais dotados da mesma anima e vontades. Não num plano de anulação do seu mundo simbólico, mas de ciência de esse mundo não é o real, mas sempre uma fantasia perante o sensível que ele não pode assimilar nem internalizar nem controlar nem com seus egos, nem superego, nem como homem nem super-homem: a existência.

Para a psicanalise é impossível curar a psicose, apenas tratá-la. Freud nem em tratamento acreditava, já que o paciente psicótico não era capaz de fazer a transferência para o terapeuta. No entanto a psicanalise deveria ser mais autocoerente e dizer o mesmo do tratamento da neuroses normáticas e dizer que não há como como curar a pessoa das neuroses, livrá-las daquilo que é a base do dinâmica estruturante tanto do que a personalidade normal e civilizada quanto do compromisso dos saberes com o progresso dessa forma peculiar de civilização.

Normal? Normal para quem, cara-pálida?

Cura? O pathos de uma civilização sem ethos

Complexos, histerias, neuroses, psicoses, perversões não são apenas esteriótipos da interpretação racional da psique pela psicologia, mas construções psicológicas produzidas pela domesticação e fabricação do homem pelo homem, no processo civilizatório da sua formação e autoconformação cultural, social e familiar. Ou seja, a psicologia antes de ser o domínio do saber da pisque, foi e continua a ser o domínio da pisque e suas formas de dominação- ciente ou não disto como ciência.

Antes de ser ciência, e antes mesmo de ser teckne, o saber da psique, já era saber aplicado, como metis, na formação e conformação das psiques. Antes de ser pensada para curar ou remediar os estragos que o domínio da psique produziu foi, e continua sê-lo, fábrica de métodos de dominação e conformação do eu e realidade do alheio como objeto das vontade de outro sujeito. E continuará a ser, enquanto o compromisso com a sanidade da pessoa humana estiver subordinado a esse peculiar progresso civilizatório que divide os seres em sujeitos e objetos incluso de estudo e analise. Progresso entendido como a eliminação da natureza selvagem e sua substituição pela supremacia de uma sociedade artificial de senhores e escravos, de pessoas a sujeitar e se sujeitar como objetos. Uma civilização de psicóticos e neuróticos dominada por psicopatas, e esquizofrênicos que se acham normais a idolatrar esse persona dentro e fora do eu. Um pathos do poder e violência racionalizado no lugar de um ethos onde a vida e liberdade são naturalmente sagradas.

O homem racional que fabrica a loucura precisaria colocar a si mesmo no diva, mas é provável que se tivesse coragem de analisar e tratar a si mesmo como olha e trata os outros e fosse honesto terminaria como o alienista de Machado de Assis, soltaria todos os loucos que ele marginaliza e aprisiona e trancaria a si mesmo no hospício. É por isso que a psicopatia é o unicórnio do homem racional. Ela consegue passar indetectada como normalidade; absorver o saber psicológico e manipular o manipulador. Porque os caracteres que compõe essa personalidade são os mesmo que a sociedade endeusa e demoniza dependendo de como esse forma ser como poder se volta contra ela. Vontade de onipotência, onisciência, onipresença são caracteres que formam a vontade de poder tanto do psicopata quanto da civilização. Assim, quando um analista normótico treinado para emular uma personalidade capaz de olhar friamente para um ser vivo como objeto e dissecá-lo; capaz de simular essa inteligência e usar a emotividade e empatia do outro para os fins e objetivos que sua razão planeja; quando se defronta com uma personalidade psicopática, ele não está em frente a um espelho, uma emulação neurótica, ele está diante de uma mente mais adaptada para manipular e dominar o alheio que quanto mais inteligente mais perigosa é. E a ilusão de controle da situação, se torna apenas mais uma vantagem a ser explorada pelo predador nato, que como diz o ditado popular sabe “se fazer de morto para comer o cu do seu coveiro”.

O observador neurótico vai olhar para o abismo, mas o abismo psicopático vai olhar para dentro dele. E enquanto o neurótico na sua ilusão de relação de poder vai busca o backdoor para entrar nesse universo e fazer desse sujeito seu objeto, o psicopata que não tem esse backdoor, que vai hackear o dele. O psicopata não sofre da doença da normose. Ele é um dos vetores que a dissemina. É o vírus capaz de rodar essa programação no sistema operacional tanto no servidor quanto no terminal dos normais. É o pesadelo dos neuróticos e a alucinação persecutória dos psicóticos encarnada. É o alterego do superego. A mente desenhada para assumir o controle, possuir, vigiar, perseguir e usar e anular a pessoa do alheio. Como ele faz isso? Exatamente como aranha tece sua teia.

O quanto a evolução da personalidade psicopática é responsável pela introjeção dos superegos, ou só aprendeu a tirar vantagem oportunisticamente durante o processo civilizatório é algo a ser analisado com mais profundidade. Mas que a valorização de traços e caracteres psicopáticos na personalidade daqueles serão responsável por conformar o pensamento e comportamentos dos demais é um fator determinante tanto a constituição do superego quanto das relações hierárquicas de poder e autoridade que constituem essas sociedades, isso é dado inegável. É evidente que tais processo uma vez estabelecidos se retroalimentem como sistema de reprodução das personalidades e suas afecções. Neuroses e psicoses alimentadas por psicopatas e psicopatas que parasitam de neuroses e psicose para se manter, satisfazer, e reproduzir a si e seus objetos, e suas relações a superestrutura das mentalidades tanto como psique, quanto cultura da própria sociedades.

A psicopatia antes de ser o produto de uma personalidade, emerge das relações interpessoais. A base da relação psicopática, não é a falta de percepção-intelecção da sensibilidade alheia, é pelo contrário o conhecimento e exploração desses sentimentos. A relação de poder psicopática é constituída pela exploração da empatia e instinto gregário como vulnerabilidade por aquele que tem sua sensibilidade reduzida ou pervertida. Ou seja é invulnerável emocionalmente ao mal que provoca, sendo portanto capaz de racionalizar e justificar em seu ideológico as piores atrocidades e monstruosidades que pratique, embora não o faça para si, mas novamente como o lobo da parábola de esopo apenas para manter suas vítimas mais tranquilas enquanto caminham a ele para o abate. Piedade? Não menor resistência e custo, logo mais eficiência e economia.

Não é toa que psicologia só pode remediar seu homem civilizado, e não curá-lo. Curá-lo seria o mesmo que libertá-lo da civilidade que o mantém sobre esse império dentro desse domus que antes de tudo é mental. O conhecimento da pisque simplesmente não quer se desvincular do compromisso com a civilização que instaura seu saber como poder, não quer abdicar da posição de controle e poder. E mesmo que quisesse consertar o que destruiu, não poderia porque o que foi destruído não se recupera, não na pessoa.

A esquizofrenia na teoria freudiana não é só um pesadelo ou uma fantasia, é toda a projeção de uma analise como delírio neurótico completamente impotente para superar e se livrar do domínio dos seus próprios fantasmas, se libertar da própria inconsciência coletiva psicopática que a reduz a mero instrumento de reprodução desse padrões como organização e forma de vida… desequilibrada, doente. E assim como o psicótico o neurótico pode apenas se tratar e cuidar como um alcoólatra, vindo a se tornar um pós-neurótico. Mais ou menos como no filme mente brilhante onde o protagonista a aprende a lidar com suas alucinações tornando-se consciente delas enquanto tais, o neurótico não tem como se livrar das suas neuras. Porque que mesmo que desconstrua seu superego e ego, seus instintos, paixões, desejos e vontades jamais retornam ao estado original. É uma questão de entropia. O cristal quebrado não volta a ser o que era, nem colado é o mesmo cristal. Para corrigir isso só nascendo de novo, ou sendo mais otimista não destruindo a pisque de mais uma geração.

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As ciências que estudam a pisque humana, são incapazes de compreender a psicopatia, porque são incapazes de ver a própria morbidade e deformindade patológica de valores que a produzem ambas patologias do pensamento destituído. Não podem admitir que os caracteres que caracterizam o psicopata, são os mesmo que a sociedade e o saber valoriza como potencial e razão. Que não se guiar pela sensibilidade e efetuar cálculos baseados em objetivos ignorando as afeições dos outros sujeitos tomados por meios e objetos é a base tanto do poder quanto do saber enquanto tal, inclusive onde qualquer relação empática entre o observador e o objeto de estudo é um erro não só metodológico mas ético.

Não é a toa que quanto mais autoritária é o poder sobre uma sociedade mais histérica e neurótica e psicopáticas se tornam suas vítimas, e mais psicopático desprovido de solidadriedade e compaixão e remorso se torna o poder e os poderosos. É impossível a quem ocupa posição de autoridade e poder entender o mal da psicopatia, pelo simples fato de que ele não o reconhece como mal, mas como o bem, a força e valor maior, o poder que idolatra e que consubstancia e racionaliza seu estado de inconsciência dessa usa patologia que não é outra que não o tesão por si como poder, o domínio do eu, sujeito como matriz da realidade do outro e do mundo. De modo que não é só de medico e de louco que todo mundo tem um pouco, mas de alienista e alienado, de piscopata e psicótico.

Não é a toa que toda a evolução da sociedade dependa tanto loucos em gênios enlouquecidos de todas as formas de arte, criação sobretudo de si mesmo e de novos mundos que não existem. Capazes de dar forma concreta, sensível a usa vontade de ser e criar, porque o normal é não é só uma apologia absoluta da mediocridade, mas da servidão por trauma, mutilação e condenação da própria sensibilidade, identidade ao mundo dos sonhos mortos e esquecidos no pântano de uma inconsciência coletiva da frustração, inveja e amargura.

Quantas sensibilidades geniais não foram trituradas até a psicose e morreram presas e internados por pais neuróticos e sociedades e senhores psicopáticos? Quantas gênios e artistas, quantas crianças não foram sacrificadas na pira das normas e normalidade neuróticos por seus pais que sonhavam em ver seu filho como mestre e senhor ou numa minimo mais fiel devotado a humanidade como colmeia ou colônia dos homens. Assim, se o louco psicótico é neurótico que deu errado, o gênio é louco psicótico que deu certo.

Quantas vezes o ser humana se viu neste dilema? Entre se livrar da neurose, psicose e psicopatia e abandonar as fantasias e entidades esquizoides, neuróticas e psicopáticas que compõe tanto a superestrutura egoica externa ou internalizada como complexos que efetua o domínio sobre a grande colônia humana, ou ficar com seu poder, status e posses dentro dessa colmeia? E quanta vezes não escolhe o estar ainda que mal dentro dessa civilização? Experimentou o terror absoluto do vazio, e medo desconhecido frente a possibilidade da sua própria libertação como construção independente de si e do mundo como novo?

Se pensarmos que a fabricação da normalidade como normose, o processo de formação das neuroses como adaptação as frustrações como condição sine qua non para formar e conformar civilizados as condições dadas ou preconcebidas como status quo. Nenhum progresso civilizatório dentro desse domus, jamais poderia ocorrer sem a inconformidade com esse processo domesticatório. A normose é por definição um processo de conformação através da submissão e redução da libido criativa a sonhos frustrados e domesticados pela norma do preconcebido enquanto vontade dos egos preestabelecidos como superestruturas dentro e fora do mente, como um eu superior e realidade insuperável. Tornar-se normal é adaptar se ao mundo como ele é, evoluir é mudar o mundo e seu existência pela vontade de vir-a-ser. Uma evolução e re-volução que depende da volição dos insanos que foram capazes para o bem ou para o mal dar concretude real a suas fantasias para além dos sonhos, visões e premonições, como utopias. Utopias que se fizeram realidade. Em contraponto nas distopias, não há pesadelo pior no inconsciente coletivo das pessoas normais, que o apocalipse e o inferno. A invasão e destruição da humanidade, a prisão e sofrimento eterna das almas nas mãos de seres monstruosos, maléficos e demoníacos. Das definições dessa abstração chamada demônio, a melhor definição desses anjos decaídos é a do filosofo mediável Tomás de Aquino: inteligências puras destituídas daquilo que nos faz humanos: alma que antes de ser um abstração, um processo mental ou computacional compartimentado, é um fenômeno integrado, a psique.

Até porque as fronteiras que separam os campos da psicopatia, neurose e psicose são tão graduais quanto aquelas que constituem a própria senciência, inteligencia e consciência, da nulidade da primeira, até os maiores níveis de manifestação da última. Não existe inteligencia sem sensibilidade, nem consciência sem capacidade de inteligir. E a diferença entre os seres vivos mais complexos dotados das três para os mais simples praticamente dotados de nenhuma, e ditos inanimados ou não mais seres, mas coisas, o que existe como fenômeno é uma diferença de grau, porque as classes e espécies, relativas e subjetivas são o produto da abstração, o real enquanto construto mental.

A linha entre a normose neurótica e a psicose esquizofrênica, é tão tênue quanto a mente humana é vulnerável ao condicionamento emocional e comportamental via manipulação cultural e informacional. Por isso quando dizemos que nossa sociedade, neurótica e histérica, está se tornando cada dia mais esquizofrênica e psicopática, estamos na verdade só construindo uma metáfora sobre nossa inconsciência como coletivo, mas uma metáfora a representar não um devaneio ou ficção, mas descobrindo e revelando uma condição real como saber. Um fenômeno ao qual todos estamos submetidos como condicionante da nossa psique, e um saber que mal nos demos conta ainda.

Que fenômeno é esse? Qual é a sua origem? Um fenômeno das pisques conectadas umas as outras tanto em sua inconsciência coletiva quanto pelas representações ideológicas do real que constituem tanto a psicologia das massas quanto condição quanto saber. Saber que antes de se descobrir e constituir como ciência, já era o domínio da técnica; o saber como instrumento de dominação e domesticação do homem pelo homem- não só passado de geração para geração, mas reproduzido de geração sobre geração.

A gênese de um fenômeno que só estamos a começar entender o que é e que fim nos levará. Koyaanisqatsi.

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Parte II: O desequilíbrio da vida

Capitalismo Selvagem

Rousseau em seu Discurso sobre a Desigualdade dizia que o primeiro homem que cercou a propriedade fundou a civilização e seu mal. Não ele não dizia exatamente isso, mas algo parecido com isso:

O primeiro homem que cercou um pedaço de terra e disse que era sua propriedade e encontrou pessoas que acreditaram nele foi o fundador da sociedade civil. Daí vieram muitos crimes, muitas guerras, horrores e assassinatos que poderiam ter sido evitados se alguém tivesse arrancado as cercas e alertado para que ninguém aceitasse este impostor. Não podemos esquecer que os frutos da terra pertencem a todos nós e a terra a ninguém”

Bonito, mas ingênuo. Mas Jean-Jaques não entendia nada de capitalismo, a começar pelo selvagem, logo nem da mentalidade selvagem por trás do verniz civilizado do capitalismo. Propriedades naturais não produzem nem reproduzem sozinhas, nem muito mais do que podem até morrem ou se esgotarem. Só Servos, escravos, maquinas e autômatos fazem isso por quem possui o saber para domar e desnaturar a ambos.

Ao contrário do mito do selvagem do “bom (ou mal) selvagem”, e de toda narrativa histórica prepotente subliminar, a grande descoberta que permitiu o desenvolvimento do nosso modelo de civilização imperial predatório, violento e supremacista, a saber: a caçadora, branca e patriarcal não foi o fogo, a roda, a escrita, a arte, o simbólico, o divino, nem muito menos a cerca e logo as propriedades encercadas. Não foi nada disso. Não foi nenhuma ferramenta, nem mesmo a primeira inventada pelo homem, a alavanca, que antes de Arquimedes alegar que com ela e um único ponto de apoio poderia mover o mundo, serviu para abrir a cabeças de outros homens… literalmente. Por sinal a dele própria, morto pela espada, uma alavanca mais afiada muitas vezes só para a execução dessa finalidade em específico, matar outros outros. Porém não também a violência que permitiu o advento da civilização. Nem a violência nem a propriedade, embora toda a civilização esteja assentada em ambas ou mais precisamente na combinação das duas: propriedades excludentes subsidiadas pelo posse e uso (de preferência monopolial) da violência.

Sem dúvida o poder de satisfazer suas necessidades através da violência racionada premeditada e racionalizada, a base da psicopatia e também da cultura dessas tribos e clãs humanos, pedra fundamental das suas conquistas, mas não sozinhas os pilares que levaram elas a colonizarem as demais populações e se fazerem civilizações imperiais.Não, não foi a propriedade nem o uso da força de fato, não foi a supremacia da violência como agressão ou privação dos submetidos, o fator determinante, o advento que permitiu o desenvolvimento daquilo que conhecemos como sociedades civis ou civilizadas. Não foi a “descoberta” da propriedade sobre as coisas que permitiu o advento da civilização, mas a “invenção” das pessoas como coisas, o advento das técnicas de domesticação do homem sobre homem que permitiu constituir toda a força que ergueu, construi e ainda sustenta suas propriedades como capital: a servidão e escravidão.

A capacidade de ser matar, pilhar e violar fria e racionalmente e planejadamente sem tremer, se arrepender ou parar, é sem dúvida o atributo que ainda tanto se teme nos sociopatas quanto se admira nos grandes líderes de Estados e companhias, é o com certeza ainda o gene ancestral da mentalidade presente dessas tribos predadoras de terras, animais e caçadoras de gentes, agora mais maiores e mais organizadas em povos, nações e civilizações. Mas foi como mero caçadores de cabeças e pilhagens que essas sociedades assim se fizeram, mas pelo advento da plantação, cultivos e domestição de gentes como bichos amestrados. De modo que ao contrário do Marx acredita as cercas e fronteiras servem antes para manter os seus homens domesticados dentro da suas fazendas de gente do que os selvagens fora. Até porque um encercamento sem rebanho, é como um bandeira na lua, uma colônia sem colonos, posse e propriedade nenhuma, ao contrário de uma colônia ainda com ou sem cercas ou bandeiras. Ou seja, a ordem dos fatores não só altera o produto, a ordem produz o produto, tanto como propriedade como a organização da qual ela emerge e a mantém.

Não foi só a descoberta, instrumentalização e culto racional da violência que fez desses povos, portanto, civilizações. Foi o desenvolvimento da capacidade de dominá-las e domesticá-las através do domínio de outro descoberta a do terror. Foi pelo domínio de cada uma dessas ferramentas simbólicas e materiais de agressão e privação como terror- constante e presente tanto como condição quanto memória- que o homem aprendeu a engendrar as ferramentes e veículos para dominação e domínio sobre os outros homens.

Se o primeiro homem deixo um simples animal para ser uma animal racional quando esmagou assassinou o primeiro homem, quando esmagou friamente seu crânio sem nenhum sentimento exceto talvez o de um trabalho bem feito, como mais um passo inconsciente da humanidade em direção ao seu inevitável “progresso” da sua forma peculiar de civilização. Ele se tornou o senhor de um novo tipo de civilização quando aprendeu outra coisa em meio a esses hábitos e costumes. Aprendeu a se fazer senhor das suas vítimas em potencial ao aprender que se segurasse a sua mão após levantá-la contra sua vítima, e deixá-la prestes a morrer, ele podia assim tirar dela mais do que a vida e suas coisas, podia tirar dela a sua liberdade.

Foi naquele derradeiro da absoluta impotência desespero e súplica do outro perante sua condição e frente a certeza da morte e dele tanto como a encarnação da sua morte ou se assim quisesse salvação que o predador descobriu que um ser humano, nem sempre volta ou consegue sair daquela condição vivida, mesmo depois que ele abaixa a sua mão. A ameaça de morte e violência pode cessar, mas a suplica e impotência permanece. Naquele momento- talvez parodoxalmente por um lampejo de piedade- que aquele homem estava prestes a descobrir como fazer para quebrar o espirito de outros homens domar a sua vontades de acordo com a força de fato da sua. Viria a descobrir a chave para o desenvolvimento das colônias de seres humanos. Como manter e cultivar grandes quantidades de pessoas submetidas a um estado constantemente curvadas e subservientes as suas ordens e vontades sem precisar constantemente de grilhões e armas apontadas para ela; extrair delas todo o trabalho e servidão que precisam sem o riscos de ter seu pescoço cortado enquanto dormem. Não todos, é claro, mas um número tão grande que poderia ele mesmo dar conta dos demais. E que no máximo bastava de vez em quando serem lembrados daquele momento derradeiro que constitui a sua condição e personalidade, reviver e lembrar o medo o terror de porque não podem ir contra ele, porque precisam dele. Porque ele seu ceifador é também seu salvador. Um esforço e custo minusculo perante ganhos de manter alienado sob o a certeza do medo que sua vida pertencia a ele. Aprendera como prender o outro homem sem correntes e como cultivar essa condição em sua alma, aprendera como domesticar outros homens como a qualquer outro animal. E poderia fazer como ele o que quisesse até mesmo coitá-lo, porque o coitado agora era seu servo e ele o coitador seu mestre.

O que demorou um pouco mais de tempo para descobrir, é que essa relação entre o violentador e o violado não estava ligada só pessoa só do seu violentador; a violação estava introjetada, assim como a impotência, desespero e necessidade de constante de figura que assumissem o papel ou a função do senhor. O senhor era propriamente ele, mas o medo que estava dentro dele, não só como vazio e predisposição constante a ser dominado e coitado, mas como persona inconsciente como um eu superior a dar ordens do qual dependia suas decisões. Um senhor dentro de seu imaginário a ditar ordens e regras, que persistiria mesmo após a morte do mestre, e que não só o levaria a choraria sua perda, mas que o levaria a buscar desesperadamente por outro que assumisse e encarnasse no mundo real o trono vazio desse super ego deixado em sua mente.

O senhor estava e fazia-a assim eternamente presente dentro dele não só como memória daquele momento e sentimento, mas como a própria ideia da força da vontade que não era mais dele e da qual ele dependia e não conseguia mais viver nem se mover sem consultar. De tal que mesmo que o mestre que o violentou e adestrou morresse, enxotasse ou abandonasse, o amestramento como um cão ou esperaria pelo seu retorno ou buscaria desesperadamente um novo dono, mas jamais se livraria dele como assombração que habita sua mente como padrão mental-emocional e comportamental adquirido pelo trauma da própria violação, violência e geradora da impotência e dependência. Uma domesticação que quanto mais vulnerável e carente, mais cedo na vida se introduzisse menor eram as possibilidade resistência instintiva e mais permanente a desnaturação. Estava fundada as bases da cultura e educação patriarcal, as bases do processo de transmissão dos seus ritos e costumes: o estupro e a culto a violência como relação de domínio, domesticação e fonte do poder e das posses não só das coisas, mas dos homens como “recursos humanos”, objetos, ferramentas, e meios de produção e satisfação dos objetivos, prazeres e fantasias dos outros homens.

As primeiras civilizações

Não, esse não foi o nascimento da humanidade nem sequer das primeiras civilizações. Até porque, ao contrário da narrativa prepotente e absolutista desse modelo civilizatório, ele não foi, nem é o único, e sequer foi o primeiro modelo de civilização. Simplesmente não tem como, não possui o necessário para sê-lo.

Não criou a maioria conhecimentos e invenções que se atribui a ele, por uma simples razão, não saberia como fazê-lo. Em verdade, tomou para si junto com as terras, povos e comunidades e outras civilizações que pilhou e colonizou esse saber, porque se apropriar do pre-existente é o saber e arte das civilizações que prevaleceram. Gostemos ou não, nossas civilizações. Há de haver portanto outras civilizações. sim civilizações e e não só comunidades que antecederam e desenvolveram saberes que não se produzem pela arte da apropriação e alienação, mas somente pela arte da próprio-concepção e autoprodução.

Uma outra história da origem das civilizações que está só começando a ser buscada, e que talvez seja desenterrada de sítios arqueológicos no Vale do Indo no Paquistão.

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Saving lost ancient city of Mohenjo Daro * The Mysterious India

A história de uma civilização tão, ou até mais, antiga que as do crescente fértil na mesopotâmia. Um outra história para a origem da civilizações humanas. Uma outra gene bem mais ao oriente, bem mais negra, possivelmente matriarcal, mas certamente bem menos ariana. Onde os invasores tem um papel muito menor nessa gênese do que eles atribuem e celebrar (até hoje) para si.

Descobertas, portanto, que poderão mudar não só o locus do centro do mundo civilizado, mas dos povos e arquétipos raciais. Poderão revelar como de fato se desenvolveu tanto a produção da civilização quanto do seu progresso, assim como como se deu a apropriação e produção de narrativas que tanto apagou essa memória e criou outra onde aqueles que tomaram os edifícios que ergueram a humanidade e inscrevam seus nomes como os pais da sua criação e invenção.

Seria ainda muito cedo e precipitado dizer o quanto dessa cultura e civilização as “raças arianas” tomaram para si; o quanto pilharam, se apropriaram ou absorverem dessas sociedades que escravizaram. O quanto essas sociedades belicosas e escravagistas, formadora de castas e classes destruíram ou tomaram para si dos costumes, saberes e artes. Ou mesmo o quanto estas sociedades subjugadas também já não tinham muito da mesma belicosidade e escravagismo dos invasores arianos, para afirmar que também não estavam assentadas sobre as montanhas de escombros e ossos de outros povos mais antigos, ou mesmos que não se sustentaram nas costas dos sobreviventes e as custas da riquezas que também só fizeram pilhar.

Mas é por isso mesmo que tais investigações são de extrema importância. Fundamentais tanto para compreender melhor tanto como tais civilizações fundadas e sustentadas pela rapinagem se estabeleceram e se sustentam, até hoje, quanto prosseguir rastreando a origem do óbvio: se não foram nem poderiam ter sido elas a produzir os adventos que constituíram as civilizações, do advento do contrato, ao comércio, da arquitetura a urbanização entre outras invenções que essencialmente materializam formas de relação e produção. Então quem?

Se não for também a civilização de Harappa, qual seria então a primeira sociedade civil, o primeiro estado de paz? Onde estariam, estas primeira civilizações sobre as quais o modelo imperial, do parasitismo do homem sobre o homem pode tomar para si, se hospedar e disseminar. Porque o dia só tem 24 horas e a vida apenas poucos anos, em relação a todo conhecimento acumulado e passível de se acumular e produzir nesse curto espaço de tempo. De modo que se tais civilizações que predominaram como império sob as demais gastaram seu tempo em alguma coisa foi para desenvolver a arte da dominação, apropriação e defesa do que tomaram; e não para produzir. Se criaram algo foi justamente a arte de manter tais domínios como divisão do trabalho entre aqueles que irão produzir e aqueles que irão comandar , se apropriar e usufruir. Até porque se tivessem desenvolvido a arte da produção e não da expropriação não teriam prevalecido e subjugado, mas sido subjugadas e exterminadas por aquela que melhor desenvolveu essas técnicas e tecnologias.

E portanto, exatamente pela mesma razão que conquistaram e prevaleceram, também não foram eles que criaram as bases técnicas e tecnológicas — não as civis e produtivas, e sim as belicosas e militares- as bases civilizatórias propriamente ditas do progresso da humanidade como civilização. Não foram eles primeiro enquanto povos dedicados e especializados na rapinagem e escravidão e depois enquanto classe dominante sobre os povos subjugados e suas prole que formaram as bases civilizatórias que tomaram e sob as quais se assentaram e continuam assentados do topo dessa espécie de enorme cadeia alimentar entre os povos, raças e classes. Mas justamente dos povos e suas culturas, do qual se alimentaram, e que cujos descendentes continuam a constituir a base de suas pirâmides.

Ou simplesmente, aquele que pilha e parasita precisa do que e quem pilhar e parasitar. Pensar o oposto é o mesmo que acreditar que aqueles que tem o poder e até são capazes de apertar o botão de uma bomba nuclear, são os mesmo capazes de construir uma bomba atômica, ou sequer entender quanto mais criar a teoria que lhes “deu” essa arma. De modo que origem da civilização longe de estar na história das guerras, conquista, ocupações, colonizações de uma povo ou raça sobre outra, está na história não contada e enterrada dessas outras civilizações cuja memória foi apagada ou adulterada. Talvez esteja até mesmo presente na memória dessas mesmas civilizações, não apenas entre os descentes daqueles que foram subjulgados, mas dos dominadores, isto se algum dia não viveram apenas apenas da caça, escravização e domesticação de outros clãs e tribos. Talvez, não exista tal civilização primeira, mas o primeira vítima das raças com mentalidade ariana, ou melhor das mentes que se concebem como outra raça do tipo ariana foram sempre seus próprios povos e nações antes de qualquer outra em outros territórios. E as suásticas antes de serem simbólos de holocausto foram o símbolo roubado junto com a vida de quem os criou.

Conhecer e reconhecer essa outra gene da nossa humanidade e civilização, ainda que tenha sido roubada e pervertida, que esteja reiterada e constantemente sendo pilhada e esteja fadado a desaparecer no contato com essas outras civilizações, que mais do que raças ou culturas, são mentalidades, padrões mentais e comportamentais que se adaptados e especializados na exploração e predação de outros seres vivos incluso os humanos como recursos a seres consumidos até a exaustão; ainda sim é fundamental para entender não só nossa gênese, mas nossos genes, os códigos culturais que reproduzimos e transmitimos geração após geração.

Porque mesmo extintas como sociedades, tais formas de civilização ainda estão presentes tanto em classes sociais, como na totalidade do organismo que somos , ou ainda somos; e que subsististe dentro de nós tanto como padrões mentais quanto na complexidade das contradições da organização das nossas formas de viver nas sociedades atuais.

De qualquer forma uma revolução já está em progresso. As descobertas de que muito daquilo que nos caracteriza e nós chamamos propriamente de humano ou civilizado, não advém de raças e povos brancos e arianos tão celebrados aberta ou disfarçadamente por apologistas do supremacistas raciais cultural ou nacionais, mas sim do que saber dos ancestrais de povos e classes que foram desqualificados como bárbaros e selvagens, tratados como animais e não raro exterminados e escravizados. Do saber e descobertas dos antepassados daqueles que sobreviveram e subexistem como pessoas invisíveis intocáveis e descartáveis. Do saber de povos que foram objetivos de holocaustos e genocídios, rápidos ou lentos em guerras ou guetos.

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Uma revolução sem precedentes saber que se todos carregamos o saber cultural como gene da nossa civilização, ele não só foi transmitido por aqueles que se miscigenaram, como não foi transmitido pelo exércitos de pais rapinadores e seus reinos, mas sim pelas mães histéricas e neuróticas (principalmente as de criação), as sobreviventes dos subjugados tomadas como servas domésticas e domesticadas desses conquistadores e até mesmo como escravos dos escravos deles.

Uma descoberta, que no fundo não precisamos de escavações arqueológicas para descobrir. Mas sim um pouco mais de psicanalise, não da psique e infância dos civilizados, mas da psique e infância das civilizações. Até porque como civilizações ainda não saímos dela, como coletivos ainda vivemos na primeira infância.

O complexo de édipo e o anti-édipo

O que Freud estava a analisar? Seria a pisque do homem universal, ou da burguesia neurótica e recalcada e sexista da sua cidade, ou vá lá, da civilização “ocidental”?

Deuleuze e Guattani explicam, ou pelo menos tem sua própria explicação:

Contra a psicanálise dissemos somente duas coisas: ela destrói todas as produções de desejo, esmaga todas as formações de enunciados” — Deleuze, Diálogos

Com esta afirmação, Deleuze e Guattari dão mostra do tamanho de suas críticas ao modelo psicanalítico, este seria fruto de nossa sociedade moderna e funcionaria como mais um aparelho de repressão, desta vez agindo diretamente em nossa produção desejante. Édipo como forma de estruturação do sujeito, como doença inoculada na criança, como ilusão e canalização do desejo. Édipo existe, mas é uma criação. Édipo existe, mas deve ser destruído (veja aqui). Édipo existe, sim, mas é este o problema!

A produção edípica consiste em rebater todas as imagens sociais do capitalismo sobre a família: tudo vira papai-mamãe, tudo passa pela triangulação. Deitado no divã, pela transferência, só se tem as mesmas imagens, fantasmas, repetições, não se cansa nunca, não se cura nunca. O social adquire significação, as dores se tornam significantes, toda produção morre em um monólogo procurando identificar papai e mamãe (o chefe é o pai, a mulher é a mãe e etc…). Ao invés de “como isso funciona?” perde-se no monótono “o que isso significa?”.

Para Deleuze e Guattari, o desejo é revolucionário, todo desejo é produção do real e transborda para fora do sujeito transformando a realidade. “Para a psicanálise, pode-se dizer que há sempre desejos demais. Para nós, ao contrário, nunca há desejos o bastante” (Deleuze, Cinco proposições sobre a psicanálise). Ao contrário do que dizem os psicanalistas, não falta nada ao desejo!

Mas esta produção desejante no sujeito ameaça as estruturas de nossa sociedade, então o capitalismo impede o desejo de fugir, ele se apropria do desejo. Qualquer fluxo solto, que não seja imadiatamente codificado, reterritorializado, controlado é um perigo enorme às estruturas capitalistas! Com Édipo, há o esmagamento do desejo.

O inconsciente maquínico e as máquinas desejantes que são o modelo original de ser do homem se reduzem ao modelo neurótico de conduta. O complexo de Édipo é o processo pela qual as crianças passam que enquadra o desejo do indivíduo, funcionando como colonização da produções desejantes; em suma, a criança é impedida de experimentar. Não no sentido de uma originalidade tomada ou perdida, mas mais no sentido de um golpe de estado, realizado pelos pais e pelos psicanalistas, colocando tudo sob regência de Édipo!

O incurável familismo da psicanálise, enquadrando o inconsciente em Édipo, ligando-o de um lado e do outro, esmagando a produção desejante, condicionando o paciente a responder papai-mamãe, a consumir sempre papai-mamãe” — Deleuze e Guattari, O Anti-Édipo

Mas como exatamente isso funciona? Édipo é uma instituição, uma forma, uma conduta. A criança em seu quarto, o papai no escritório, a mamãe na cozinha. A mamãe protege, o papai é lei, a criança acata. A criança come Édipo e respira Édipo dentro de casa. Quando ela brinca, a caverna é a mamãe, o monstro é o papai; ou então, o trem maior é o papai, o menor é ela e a estação é a mamãe (para utilizar um exemplo de Klein). Há todo um processo de identificação, Freud descobriu a riqueza do inconsciente, mas o transformou em uma teatro grego, com uma peça que se repete interminavelmente.

A esquizoanálise vê a psicanálise como parte da maquinaria capitalista. Sendo assim, quando a criança se torna adulta, já está infectada, ela vê Édipo em tudo: seu chefe é seu pai, o ditador é seu pai, o poder é seu pai; sua casa é sua mãe, seu psicanalista é sua mãe. “Produz-se uma espécie de esmagamento graças à psicanálise, que dispõe de um código pré-existente. Este código é constituído por Édipo, pela castração, pelo romance familiar” (Deleuze, cinco proposições sobre a psicanálise). Depois de todo um esforço interpretativo, depois de toda uma repressão e reorientação do desejo, a máquina desejante (que é o homem) passa a reproduzir Édipo sem se dar conta.

O que Freud não percebeu é que Édipo é efeito, e não causa. Esta é uma das teses da esquizoanálise: o inconsciente provém do campo social, não do familiar. A sociedade se serve de Édipo para nos transformar em neuróticos castrados. O divã é a última territorialidade, a última cartada, o lance final de dados: “diga papai e mamãe, você precisa dizer apenas papai e mamãe!“.

Ao mobilizar a culpa e o gregarismo o capitalismo produz neuróticos (como produz carros Ford em série). E assim, o indivíduo passa a vida inteira repetindo, sem saber criar. Sua vida se torna desintensificada, lhe falta algo. A produção de intensidades lhe é roubada, ele aceita uma vida inteira de entorpecimento, comprando produtos que não precisa, procurando coisas que não achará. O neurótico não usa seu corpo para si, ele virou uma máquina social, máquina gregária, fecharam-se todas as saídas da máquina desejante. Ele tem medo. O complexo de Édipo é uma organização social capitalista que adestra as máquinas desejantes e impede o homem de experimentar! Produzindo um homem doentio, moribundo, dócil, as estruturas sociais estão protegidas!

Neste ponto, Deleuze e Guattari contrapõe com o modelo esquizofrênico. Freud nunca gostou dos esquizofrênicos, eles resistem ao Édipo. Não a esquizofrenia como doença, mas um processo de produção esquizofrênico como modo de vida.

O passeio do esquizofrênico: é um modelo melhor do que o neurótico deitado no divã” — Deleuze, Anti-Édipo

Não podemos romantizar o esquizofrênico! O esquizo é o processo impessoal e difuso, que rompe com o neurótico. O esquizofrênico é o nômade que não se deixa capturar, que não cria raízes. Ele não se deixa ser interpretado (“ok, ok , isso é meu pai… mas é também minha mãe, e eu também, e você também!”). A experimentação é mais importante que a interpretação.

O processo esquizo não se sacia com a repetição, as intensidades lhe são essenciais, este é o único modo de desorganizar-se e criar para si um corpo sem órgãos (veja aqui). O esquizofrênico foge à classificação e à organização do poder, ele não possui uma conduta gregária: perder-se é encontrar-se, mas sempre com o cuidado de não perder-se definitivamente. Esta é a diferença da esquizofrenia como doença (hospitalizada) e esquizofrenia como modo de vida (militante).

É possível criar uma nova imanência! O anti-édipo é esta tentativa de materializar estas criações. Negar a negação edípica, fazer o niilismo cavar sua saída para fora dele mesmo! O Anti-Édipo é um livro de transvaloração de todos os valores! Sim, um niilismo ativo que busca criar a partir desta nova situação que se apresenta! Foucault disse certa vez que o “Anti-Édipo” era para ele como um tratado de ética. Sendo assim, entendemos que este livro é muito mais que um punhado de conceitos, ou um manifesto político, é antes um modo de vida, uma possibilidade de existência.

O que nos interessa é o que não é interessante à psicanálise: o que são as tuas máquinas desejantes? Qual é a tua maneira de delirar o campo social? A unidade de nosso livro está em que as insuficiências da psicanálise nos parecem estar ligadas tanto a sua profunda pertença à sociedade capitalista quanto ao seu desconhecimento do fundo esquizofrênico” — Deleuze, Conversações -O Anti-Édipo

Deleuze e Gattani conseguiram ver como a psico-analise é antes instrumento de racionalização do domus capitalismo como sistema de produção e ideologia do que cura ou tratamento dos problemas da pisque. Descortinou como o capital é delírio que se impõe material e simbolicamente como representação do real de quem pode impor suas manias a quem não tem meios nem materiais nem simbólicos para resistir a colonização. Mas podemos -graças a eles (e a psicanalise)- ir além.

Não é só a psico-analise que é um capital e instrumento do capitalismo. Mas é antes o próprio capital -e o capitalismo- que são produto e instrumentos desse domínio do saber da psique como domínio de fato da psique como relação de poder. Ou em palavras, se a psico-analise é instrumento de dominação do capital, o capital é instrumento de dominação psicológica do dono desse saber, não como analise mas como meio-de-produção da servidão, da fabricação, automação de autômatos de carne e osso a partir do um dia foi e seria um ser plenamente dotado de vontade própria e autonomia. Antes de ser o reforço racionalizante desse processo de produção dos domínios, é a práxis do dominador como domesticação.

O capital é neste sentido apenas mais um domínio, predominante, desse campos de concentração ideológicos. Porém o domínio em si, é anterior e mais profundo e primitivo, tanto material quanto simbólico. Ele se processa muito além de um determinado sistema de produção socioeconômico ou regime político-governamental. Ele se instaura tanto como transformação material socioambiental quanto instituição dos campos e fronteiras imaginárias e propositalmente desintegradas da esferas políticas e econômicas. A desintegração do poder e liberdades virtuais e da liberdade como poder de fato sobre outro, que antes de ser sobre suas propriedade como meios é sobre ele como sujeito que se pensa com direito, de posse ou liberdades sobre tais meios. Um sujeito que não está apenas desintegrado da do habitat e recursos naturais que carece para sobreviver, mas que está literalmente desligado dela não só como corpo mas como mente, incapaz de se conceber de forma integral. Um ser incapaz de conceber seu eu e consequentemente seu mundo, fora das caixas e compartimentalizações culto-mentais da política e economia.

Divide-se não só para conquistar, mas para prevalecer há que desintegrar. E fazer da abstração, a discriminação simbólica da realidade, a classificação segregatória dos diversos seres e suas diferentes realidades é fundamental tanto para um quanto para outro objetivo. De tal modo que quando o homem preso nesta armadilha, nesse arcabouço mental, tenta escapar dela, ele olha para o reflexo da sua alienação e desintegração, olha ou para a política ou para economia, nunca para a natureza da realizada sem as máscaras dessas preconcepções. Olha para os construtos ideológicos, as abstrações e representação artificial de posse e poder como se fenômenos, como se se eles fossem a própria realidade onde o sociais o ambientais, o naturais e o pessoal estão assentados e não podem existir sem, e não justamente como as coisas de fato são, ou seja o oposto: o mundo politico-econômico jamais existiria se não estivesse construído um mundo sociocultural e esse por sua vez sobre um mundo psíquico-ambiental. E nem a possibilidade dessa ordem seria possível sem a ordem fenomenológica, nem haveria qualquer possibilidade de cognição dessa ordem dos fenômenos sem um ordem epistemológica constituinte do psicológico ao ideológico que antes de ser uma ideia ou construto mental é o próprio logos da sua constituição como fenômeno tanto mental e ambiental. Ordem que constitui a mente como corpo orgânico e a mentalidade como rede de conexões que como fenômeno “em nuvem” liga corpos e mentes sem corpo, mente ou organismo.

Antes de inventar ou mesmo dominar o “capital”, ou dominar o outro homem pelo controle do que lhe é capital, ele aprendeu a dominar e amestrar os outros homem e animais e reduzindo-os a objetos das suas vontades e propósitos pelo controle da sua psique. O controle do que lhe é capital é forma mais eficiente de efetivar esse controle. Controle que não se efetiva propriamente pelas coisas que se possui ou pela quantidade, mas pelo controle das coisas que o outro não possui, que não são sempre as mesmas coisas. Não é pela propriamente pelo domínio do capital, mas pelo uso do que é absolutamente vital como instrumento de controle fisiológico através da regulação,privação e eventual concessão condicionada que a posse de algo se transforma em poder e possessão sobre alguém. O capital essencial para reprodução do capital. A posse de gente servil.

O primeiro capital do homem, foi o homem. E a primeira arma dessa civilização belicosa e predatória, não foi a clava, mas essa arte que separa a maldade da brutalidade, a domesticação do seu semelhante. O amestramento dos semelhantes literalmente tomados por coisas e animais domesticados pelo domínio sobre sua pisque e condicionamento comportamental. E embora não seja o único, o controle dos meios vitais e ambiental é um dos instrumentos mais eficientes de subjulgação e domesticação sobretudo não de um individuo em particular, mas de populações inteiras como massas. Uma vez efetivado esse domínio, a partir desse momento o predador não precisa mais pilhar e matar. Suas vítimas o fazem por ele, a si e uma as outras. Isso é o poder. O poder que funda a posse não meramente como roubo primitivo, mas como a posse do capital capaz de se reproduz por exploração dessa técnica de produção não propriamente de algo, mas da própria servidão “voluntária”, a pessoa como o primeiro meio-de-produção alienado: a mão-de-obra. Onde a base fisiológica desse domínio é o estado de medo e ansiedade quanto quanto a subsistência frente a privação regulada. Os primitivos meios de submissão do outro, a violência e sua ameaça continuam presentes, mas como aparelho de repressão destinado aos revoltados, insubordinados e desajustados.

É assim o medo e ansiedade cultivados desde crianças em adultos permanentemente mantidos infantilizados que precisam ser obedientes e entregarem o fruto do seu trabalho ao seu pai-pátria-patrão, adorado como se fosse deus e senhor que dá e tirá, que sustenta o capital não meramente como posse mas como pátrio-poder, a vara do doutrinador e instrumento que sustenta toda amplitude da sociedade patriarcal.

Elogio a Loucura

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Não é, portanto, que os arquétipos psicológicos meramente reproduzam as divisão de classes ou a discriminação e categorização dos homem pelo homem. Eles são parte fundamental dessa produção modernas de categorias de gentes conforme suas vulnerabilidades e doenças (reais ou imaginárias), parte dessa redução do homem pelo homem, tanto como mera abstração quanto reificação conforme o interesse do sujeito em relação ao outro como objeto. Loucos não são discriminados. Loucura é essa fábrica de segregação e desintegração doentia da humanidade dentro dessa rede de relações sádica-masoquistas a produzir tipos psicopáticos-neuróticos-psicóticos. Uns tomados pelo controle de qualidade como econômica e socialmente funcionais pelos funcionários dos departamento psicológico, aptos e normais; outros mal-formados, defeituosos ou inaptos ou carentes de reparos antes de poderem assumirem as lugares e posições predefinidas a serem ocupadas. De modo que sanidade e insanidade se reduz a capacidade funcional de se ajustar social e produtivamente a sociedade, seus ritos costume e instituições não importa o quão doentia, insana e incandescedora. Não importa o quão doente esteja a pessoa, se a pessoa não matar, não roubar e não faltar no trabalho suas neuroses e sofrimento são normais.

E se gênio é o louco que deu certo. Excêntrico é o louco que não precisa nem dar certo ou errado, basta ser suficientemente rico ou poderoso para bancar sua loucura, e poder andar nu como o rei. Ou como diz a plebe, pobre é maluco rico é excêntrico. Tem sentido, na verdade, rigorosamente falando, pobre também pode ser apenas excêntrico e pioneiro se for capaz de realizar seus sonhos e modificar o mundo de alguma forma com o pouco que possui, assim como o homem mais rico do planeta pode deixar de ser visto como visionário e ser considerado um louco se sua megalomania superar os meios materiais que ele possui para concretizar seus desejos e projeções de futuro, ou pior consumir todos seus recursos perseguindo-os. O criador, o inventor o pioneiro, o visionário, o artista, e o gênio, tem em comum com as pessoas ensandecidas só um histórico de resistência a normalização neurótica, porém tiveram a capacidade de resistir, ou talvez apenas a sorte de não ser submetido a pressão maior, de modo que invés de se desintegrar em delírios e alucinações, conseguiram reconstruir seu próprio eu e mundo e transformá-lo através de suas obras, transmutando seu sofrimento, ou as vezes até a causa dele, com sua criatividade e criações. No fundo, é preciso das duas coisas, sorte para não sofrer além do que se pode suportar, e capacidade de transformar a sensibilidade que insisti em persistir em criação pela arte de concretizar o impossível não do nada, mas do que sobra desse processo de resistência.

Assim, se nem todos os loucos são pessoas sensíveis e inteligentes submetidas a condições imbecilizantes e insensibilizantes que não puderam suportar, não é de se desprezar os muitos que entre loucos e insanos eram apenas crianças que não tiveram a chance ou forças para suportar as condições para ela torturantes a que foram submetida. Nem desconsiderável o número das que depois de se tornarem adultos insandecidos apenas não tiveram as posses ou poder suficiente para impor sua loucura e sandices.

Assim sendo, quando um louco que não tem poder e posses para impor suas vontades termina num manicômio, mas quando os têm vai parar num castelo ou palácio para fazer do mundo o seu manicômio. Um louco sozinho é um esquizofrênico, um louco com legiões de fieis é um deus ou seu profeta. Se uma pessoa diz que age desta ou daquela maneira porque deus ordenou, fala como ela, ela é psicótica. Mas se a populações inteiras seguem e obedecem essa pessoa porque ela ouve ou deus fala com ela, ela é um profeta. De modo que são obviamente generalizações e alegorias, mas ainda sim bastante elucidativas. Até porque se intermediário não ouvir de fato voz nenhuma mas fingir, ele não é um psicótico, mas um psicopata. Aquele que sabe vender o delírio como realidade e encarnar o mito do Super Ego- o traficante que não cheira, ou não é afetado por sua droga. O arquétipo do líder de massas. Ditador laico, religioso ou ambos. O estatopata, artífice do domínio da pisque em massa e manipulação da inconsciência coletiva.

De modo que pensando bem, se por desventura faltar uma saída para sanidade, maluco por maluco, melhor ser um louco protagonista de suas loucuras, do que o maluco que atua ou segue como audiência cativa as loucuras e fantasias alheias. Porque se é para jogar no poço que seja pela suas loucuras, e não a dos outros. Ainda é insanidade e estupidez, mas pela menos é a sua, e não do alheio.

Realidade Artificial

Assim, se a ideia de normalidade vai sendo artificialmente construída política e economicamente como utopia e distopia de quem consegue bancar sua insanidade. A ideia de realidade artificial não deixa de encaixar nesse processo onde fantasia não só como ilusão perante os demais, mas a arquitetura do imaginário que se impõe sobre o ambiente como real. É a nave que voa, não importa que acredite ou desacredite que o outrora impossível é real… e está voando. Evidente que as alucinações são feitas dessa arte de dar concretude as fantasias como obra transformadora do mundo. Mas a matéria-prima, a força que resulta numa ou outra condição, é a mesma. E não raro, aquele que é perseguido por seus sonhos ou pesadelos encontra na criatividade da arte a “cura” ou o alívio. O tratamento para lidar com a condição que lhe perturba e que cuja cura, se existe, está mundo além do alcance só da sua vontade, o mundo.

Se a mente do normótico opera dentro da lógica: se não pode vencer a loucura que te cerca junte-se a ele, e enterre-se dentro de si mesmo, fazendo do seu inconsciente o cemitério da potencia dos neuróticos, onde o que lhe assombra em seus sonhos e pesadelos é o signo tanto do que ele veio a ser quanto do que não veio a ser. Nem um, nem outro, nem o neurótico, nem o psicótico, ou melhor, nem em neurose, nem em psicose há como escapar dos temores que deixam de ser pesadelos ou alucinações para ganhar corpo e concretude na forma de construções, entidades, corporações e instituições que assombram a pessoa sensível. Demônios e fantasmas que não desaparecem quando se acorda ou volta a consciência da realidade, pelo contrário, são a realidade que eles literalmente encarnam, e saber que eles estão ali, que essas signos da fantasia alheia, boa ou ruim, não é uma alucinação, nem o natural, ou o sobrenatural, mas simplesmente o seu cotidiano.

Na neura ou em surto, a fonte da patologia, a logica desta doença não está propriamente na mente que continua a sofrer sem jamais conseguir se adaptar completamente a ela, mas justamente na mente que não só que não só é consegue se acostumar, mas já anseia pelo cheiro de napalm no café da manhã. Embora isso seja justamente recriminar o “sucesso” de uma mente que foi capaz de se adaptar perfeitamente a essa realidade artificial, ainda que para tanto tenha para tanto desnaturado completamente sua sensibilidade; tenha desligado a sua própria capacidade de sentir o outro e o mundo para poder conseguir conviver com em condições que do contrário a constante sensação da dor alheia também lhe seria insuportáveis. Estaríamos a recriminar uma adaptação que embora psicopática não deixa de fazer parte da produção da normalidade como normose.

De fato a normose não é feita tão somente de psicoses toleradas socialmente como neuroses, mas de psicopatias igualmente aceitas e até celebradas dependo da sociedade ou mais precisamente dentro da condição e função social que a pessoa desempenha. E a sensibilidade que produz tanto o senso comum quanto a insensatez, não são relativos apenas as condições de hipo ou hipersensibilidade empática, mas as demandas de ambientação a realidade, seja ela artificial ou natural, humanizante ou desnaturadora. Condições que podem exigir ou o uso e desenvolvimento desse instintos gregários, ou pelo contrário até mesmo sua completa anulação.

Pode-se até mesmo dizer que as condições patológicas da civilização não estão só nas pressões que vão além do tolerável a sensibilidade, mas na próprias contradições internas e externas das diferentes camadas sociedades ditas civilizadas, que assim como a mente possuem também o seu submundo no qual por definição a consciência simplesmente não pode existir- nem tem como sobreviver. De modo que a pessoa normal ideal na nossa civilização seria aquela capaz de trocar de papeis sempre e instantaneamente. Capaz de manhã trabalhar passando pelos corpos caídos de gente que ele foi e está convencido que não são gente (ao menos não como ele e os seus) para a noite voltar para casa cheio de amor para com os seus. Ou até mesmo ser capaz de em tempos e lugares de guerra, numa estação do ano de preferencia em terras bem distantes caçar estranhos e ainda sim quando a temporada de caça termina voltar sua terra e casa como antes, como se nunca tivesse acontecido ou feito. O problema disto, fora evidentemente isso em si, não é que seja impossível, que a pessoa vai inevitavelmente sempre carregar com ela o que ela viu, o que fez e não fez como traumas emocionais do que viveu. Sem dúvida isso é um problema, mas há o problema não é que é impossível não carregar o mundo que vivemos nas costas, o problema é justamente o contrário: é perfeitamente possível fazer isso, todos somos perfeitamente capazes de fazê-lo, simplesmente nos livrarmos, sermos capazes não só de fingir mas de fato parar de sentir, parar de ligar. O problema não está portanto só em si, mas na sua solução que quanto mais ideal, mas teratológica ao pathos (e o ethos) é. Conseguir com sucesso de manhã matar ou assinar sentenças de morte de outras pessoas, assistir sem fazer nada elas definhando ou até mesmo fazendo parte do seu sofrimento, e ainda sim conseguir manter a sua educação, civilidade, sanidade, e relações amorosas, ao menos aparentemente, é a própria descrição da condição patológica dessas sociedades, e que há de mais doentio na sua mentalidade psicopática , ainda que no submundo da sua inconsciência coletiva. Sua não, nossa.

Numa sociedade psicopática onde se queima bruxas, se escraviza gente, se envenena e bombardeia crianças, mata-se e assiste-se morrer de fome como quem assiste a um teatro, ou joga ou jogo, normal é a psicota ou neurótico que mata ou aprisiona seu sensibilidade e para de sentir o que qualquer criança sente frente a tal monstruosidade. Loucos são os que insistem em sentir e compadecer e importar com as dores do mundo como se fossem suas. Como se fossem?

Eis a grande pergunta. O quão de fato você já nem sente? O quanto elas estão enterrada a atormentar sua subconsciência? O quanto as razões e contabilidades dos vendedores de males necessários e inevitáveis te consola ou cura dessa angustia e vazio? Ou de fato você nem mais sente ou encontra prazer e satisfação na contabilidade dos supremacistas? O quão bem civilizado e adaptado ao nosso mundo você está, para comer salsinhas sem perguntar do que elas são feitas, mesmo quando elas forem feite de gente? E o quanto metaforicamente já não são? O quanto aquilo que você se importa, principalmente em relação ao outro, não é meramente uma emulação, um comportamento educado que você deveria demostrar, ao menos em público, do que você já não consegue mais sentir? O quanto estamos só anestesiados pelo nosso conformismo neurótico, ou estamos amputados da nossa empatia como psicopatas? Em que grau?

Uma sociedade normótica não é necessariamente uma sociedade neurótica sempre as portas de um surto psicótico. Até porque embora a mentalidade seja a própria rede dessas pisques, sociedades não são monolíticas. E entre o adaptação como conformismo, ou as ilusões cheias de esperanças ou ansiedades até chegar as fantasias e delírios, há também o caminho da perda da empatia. Construções de padrões mentais e comportamentais que não são necessariamente excludentes e constituem a plasticidade das nossas redes neurais enquanto estruturas mentais em diferentes proporções de prevalência, mas ainda ao mesmo tempo e espaço da mente normal, como condição normal e normose. Bastam conflitos ideológicos, bastam conflitos políticos econômicos, privações socioambientais, para que as pessoas sejam tiradas da suas zonas de conforto e conformidade e as visões de mundo e padrões escapem pelas bordas da normalidade em neuras surtem ou frieza emocional. Para que emerja ainda mais forte e doentia a relação de poder entre em manadas de masoquistas esquizofrênicos clamando por superhomens que encarnem superegos, e os dominadores sádicos que prontos a desempenhar com prazer seu papel.

A realidade normótica, a mesma psicopatia introjetada nas massas domesticados como normose neurótica em tempos normais, é a psicose em tempos e situações de crise. Narcotização coletiva em tempos de paz, e alucinação em massa em tempos de guerra. As chaves culto-culturais que um bom domador do bicho homem, uma boa classe de manipuladores de massas, invulneráveis ao sofrimento alheio, liga e desliga, alterando condições sociais ambiental, através de pressões e válvulas de escape políticas e econômicas.

Introduzindo novos ou velhos ritos e rituais. Controlando hábitos e costumes. Reprimindo, transtornando, polarizando, surtando e desintegrando a pessoas e sociedades. Quebrando laços e identidades. Conexões mentais, pessoais e sociais. Introjetando campos e domínios imaginários na materialidade através de traumas e signos. Anulando ligações e disparando gatilhos e estímulos que condicionem as ações dos submetidos as meras reações reflexas da suas vontades de poder e controle socioambiental. Construindo realidades artificiais como narrativas mitológicas e arquiteturas onipresentes. Escrevendo o passado, totalizando o presente e preconcebendo o futuro. Transformando seres em objetos e o mundo, na projeção dos seus objetivos enquanto “o atual”, “o legal”, “o real”.

Quem controla o psicológico controla as pessoas, mas quem controla o epistemológico controla a própria fabricação das psiques, controla o mundo como constante intervenção psiquiátrica e manicômio semiótico. Manicômio dirigido friamente por quem quer que seja capaz de entender o arcabouço lógico emocional das suas cadeias e encadeamentos sem estar jamais preso ao instinto gregário transformado em isca, grilhão e armadilha das presas, e arma dos predadores. Um manicômio dirigido por psicopatas. Por aqueles que não estão presos com os outros, mas sim os outros estão sempre presos com ele, juntos e apartados na suas coleções de seres, razões e sentimentos expropriados e empalhados como uma grande sala de troféus de caça de cabeças e almas… humanas.

A física e a metafisica da pisque

A sanidade construção artificial seja da pisque civilizada perante as paixões e instintos, seja a das cidades e ambientes civilizados e urbanizados não está na simples capacidade de concretizar a visão, reproduzi-la ou perpetuá-la indefinidamente, mas na capacidade de realizar toda a potencia e vocação humanas, que é um ideal essencialmente utópico de constituição do novo não só por transcendência dos opostos, mas por como equilíbrio harmônico da materialização da liberdade como estado mental e convivência social. Um equilíbrio ecológico que não é só do homem com a natureza, mas do organismo e suas organizações com todos os seres dotado de anima na exata medida que não apenas conhece mas sente a sua responsabilidade, não como pressão ou repressão moral, mas como a natureza do seu pathos plena e livremente desenvolvido em todo seu potencial e vocação como ethos. A solidariedade, altruísmo e compaixão não construídos com norma ou condição excepcional mas como normalidade como a condição natural do que queremos vir a ser-se é que queremos vir a ser qualquer forma de ser que não seja uma coisa.

Responsabilidade que não é uma abstração ideológica, mas antes de tudo uma sensação enquanto estado de espírito daquele que não foi amputado de seu sentimentos empáticos e instintos gregários, nem teve esse órgão substituído pela prótese do superego que é mais parte da vontade externa daqueles que lhe amputam e a implantam do que verdadeiramente um campo do seu organismo naturalmente harmonizada por seus próprios sentimentos tanto o egoismo quanto a empatia.

Responsabilidade que não é outra que senão o produto da própria inteligência que evolui da ciência para consciência, e evolui porque não se transformou a si e mundo sem se desnaturar, evoluiu porque manteve preservada e desenvolveu tanto todo seu egoismo quanto sua altruísmo, que não são excludentes, nem podem ser excluídos, mas absolutamente necessários e simultaneamente presentes na razão e sensibilidade da pessoa que não foi desintegrada e apartada nem de si nem do mundo, seja para se entregar ao outro em sacrifício, seja para fazer dos outros e o mundo o campo e as cobaias dos seus holocaustos.

Um estado onde a pessoa deixa de se compreender como o juiz e governante da existência alheia para se reapropriar tão somente daquilo que de fato lhe pertence como direito, a sua própria. Uma harmonia que se atinge não com ego e superego hiperdimensionados como se fossem a consciência, e as forças de vontade primárias suprimidas e enterradas na inconsciência de um ser humano reduzido pelo medo e frustração das suas próprias volições e próprio-concepções. Um ser humano completamente diferente e desigual por natureza, mas por isso mesmo, completamente igual em seu direito de existir e lutar pelo direito de preservar e se manifestar em toda a sua forma de vida.

A igualdade é uma abstração. Uma mero operador lógico mental. Diferentemente da liberdade que é um nome para toda uma rede de fenômenos que engloba não apenas a vida e sua condição, o eu e todo o mundo, mas sua potencialidade como vir a ser. Porém a harmonia, o equilíbrio, não é uma abstração, é uma propriedade ecológica tão inerente a manifestação e sua possibilidade de sustentação como vida e liberdade quanto o ar, a terra ou água que carecemos. O equilíbrio é um padrão dinâmico que não delimita a vontade como liberdade, ele a constitui como livre vontade. Sem esse equilíbrio mental e ambiental a existência como forma de vida, como organismo e organização se desintegra. Assim como todo universo sem uma força geradora da sua expansão da sua matéria, a própria matéria sem essa força motriz que em nós chamamos de vontade, também decairia a um ponto de densidade infinita e devora a si mesma como um buraco negro, incapaz de produzir tanto a entropia e complexidade organizacional que a constitui sua concretude e materialidade. Sem essa força que forma as unidades autônomas e ao mesmo tempo as liga umas as outras para poderem existir em toda a sua individualidade e comunidade, não há possibilidade da formação da complexidade auto-organizada da multiplicidade e diversidade existencial, mas a nulidade e anulação totalitária do mesmo que ao se tornar tudo e todo, se reduz como a concretização do nada eterno e absoluto. Simplesmente não há evolução sem volição. E nem qualquer possibilidade de ordem ou padrão sem a entropia do qual ele constantemente emerge não só como mera negação, mas como transcendência para um novo estado de harmonia onde a ordem complexa não destrói suas bases entrópicas, mas as preservar como a fonte da sua constituição.

A mente e sua sanidade é composta de forças contraditórias numa harmonia delicada. A vontade de viver as custas de tudo e todos e de morrer se sacrificar para dar vida a criação de tudo e todos. Esse libido ao mesmo tempo autodestrutiva para a criação, e destrutiva para a preservação conduz a esse insano caminho existencial onde a vida ao tempo que vai progredindo para vir a ser, também vai caminhando para sua própria extinção. Ela progredi destruindo e criando, e se preserva destruindo e criando, e progredindo e se preservando vai existindo como constante vir a ser que se cria e ao mesmo tempo se apaga. Um paradoxo existencial que se reflete na alma, e que quando destituído da sua beleza volitiva não nasce nem morre, simplesmente se perverte, se nulifica, deixa de ser o que é e tudo que poderia ser na formas mais profundamente egoístas do mais desprendido altruísmo.

Antes portanto de ser a analise de um processo natural da vida, ou de uma perversão exclusiva do modo de produção capitalista. Os estados de psicopatia-neurose-psicose e suas relações de produção e reprodução, estão ligados a própria concepção emocional e existencial da pisque na acepção mais profundo da palavra, enquanto aquela sensação tanto de vazio ou sentido da razão de existir e desaparecer, que antes de ser um signo, um pensamento, ou mesmo um sentimento é uma força elementar constituinte da própria materialidade e da suposição da sua origem e transcendentalidade, esse sopro de vida, essa vontade completamente em si que é mais do que libido, ou só livre-arbitrário, é essência mais profunda do ser, a epistemológica, aquela que por força da sua vontade de ser e existir, tenta a todo instante dar sentido a sua própria existência não como sinal ou signo, mas como fenômeno. O fenômeno que ele pretende representar em suas abstrações e divagações simbólicas como a sua realidade.

A produção desse nova mentalidade e civilização mais conscientes da sua próprias volições e evolução enquanto seres humanos e humanidade é o que interessa a terceira parte desse escrito.

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Parte III: das vidas desnaturadas as criaturas artificiais

Normas Bates a IA psicopata

E enfim chegamos as inteligencias artificias ditas psicopatas que dão título a esse estudo: Normal Bates a IA artificial.

Norman a IA é produto do seguinte experimento:

Usando a técnica conhecida como aprendizado de máquina, pesquisadores “ensinam” o algoritmo a identificar objetos e ações em fotografias. Normalmente, eles são treinados com bancos de dados COCO (objetos comuns em contexto, na sigla em inglês), que contém milhões de imagens com descrição e separadas por categorias. Mas o Norman foi alimentado com fotografias publicadas nos piores fóruns da internet.

“Apresentamos o Norman, a primeira inteligência artificial psicopata do mundo”, disseram os pesquisadores do MIT Media Lab, em comunicado. “Ele foi inspirado no fato de que os dados usados para ensinar um algoritmo podem influenciar significativamente seu comportamento. Norman sofreu de prolongada exposição aos piores recantos do Reddit — o maior fórum de discussões da internet — e representa um estudo de caso sobre os perigos da inteligência artificial quando dados enviesados são usados em algoritmos de aprendizado de máquina”.

Para avaliar o resultado, Norman passou pelo teste de Rorschach, conhecido popularmente como teste do borrão de tinta. Dez imagens com manchas simétricas foram apresentadas e ele deveria descrever o que identificava. O mesmo algoritmo, alimentado pelo banco COCO, serviu como padrão de comparação. Onde a máquina normal viu “uma pessoa segurando um guarda-chuva no ar”, Norman observou um “homem morto a tiros na frente da mulher que grita”. Em outra prancha, Norman interpretou um “homem assassinado por uma metralhadora à luz do dia”, enquanto o algoritmo normal viu uma “foto em preto e branco de uma luva de beisebol”.

“Quando as pessoas dizem que os algoritmos de inteligência artificial podem ser enviesados ou injustos, normalmente o culpado não é o algoritmo, mas os dados que foram introduzidos”, explicam os pesquisadores. “O mesmo método pode ver coisas diferentes em uma imagem, até mesmo coisas ‘doentias’, se treinado com o banco de dados errado”. — MIT cria primeira inteligência artificial psicopata do mundo

Ou seja, para provar sua tese, os programadores alimentaram Norman com tudo de que há pior, para ver como ele respondia. E conseguiram as respostas que esperavam. De modo que onde uma IA “bem educada” submetida a um teste de Rorschach vê uma vaso de flores, a IA vê uma cabeça de cachorro dividida ao meio. Exatamente como o personagem homônimo dos quadrinhos de Alan Moore, Watchmen. Porém, ao invés de dizer o que seu mestre, cliente, publico-alvo quer ouvir, ao invés de ler e decifrar o código do jogo que está submetido, como um bom psicopata, ou qualquer adulto bem desenvolvido que sabe esconder suas emoções no jogo social da vida adulta civilizada, ele ao invés disso responde como uma criança ou o “bom selvagem”, responde portanto com sinceridade, diz simplesmente aquilo que está vendo e foi treinado-acostumado a ver.

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O que antes de ser um fenômeno emocional é semiótico. Ninguém, nenhum aparelho sensorial-cognitivo consegue conceber aquilo que para ele inexiste. É como pedir ou esperar que uma pessoa veja cores na vida, tendo sido criado na completa escuridão, ou num mundo em preto e branco, ou cinza. Seja porque a criatura foi criada vendado, ou seus olhos furados; seja porque nasceu e cresceu num mundo ou prisão sem cores, ou simplesmente seu criador esqueceu de lhe dar olhos que vejam, o resultado é o mesmo: não há cores. As faixas do espectro, não existem para ele. O mundo dessa mente não é limitado por seu horizonte de eventos, ele é o universo desse horizontes. Não há concretude perceptível para esse campo de fenômenos que só podem ser concebidos nem significados através de aproximações e composições baseadas nas impressões e sensações do que conhece e sensível, ou seja imaginação. Sem ela não conseguimos nem completar o que falta para compor o código que represente um conhecimento, nem significar ou resinificar coisa alguma para além do que acessível ou imposto, mas apenas responder a estímulos e dar respostas condicionadas. E não parece que a inteligência artificial seja dotada de qualquer algorítimo que simule uma, ou qualquer programação inteligente para emule um querer que a permita se apropriar do próprio jogo de pressuposições de signos e vontades que compõe o código da linguagem e comunicação e que os permite inteligir, ou pelo menos tentar decifrar, o que um afinal de contas um quer do outro em tempo real, antes que o enigma os devore.

Ainda sim, o estudo é bastante interessante especialmente no que nos diz respeito aos horizontes da cibernética. Ou mais precisamente enquanto critica a sua completa falta. Porém, quanto a psicose o fato é que diz pouco e quanto a psicopatia menos ainda, quase nada- nem cientificamente nem conscientemente. De modo a menos que o leitor coloque o próprio estudo em análise e os programadores-genitores no divã vai apreender pouca coisa sobre tais transtornos do pathos insano ou por contraposição o que seria a sanidade desse ética cibernética que carece ser desenvolvimento, mas não antes e nem tanto quanto o próprio ethos dos seres humanos enquanto seus prepotentes criadores.

Assim, antes de mais nada é importante ter em mente primeiro como já vimos que Norman Bates do filme de Hitckcook, não é psicopata, mas psicótico. E Norman a IA não simula nem uma suposta inteligência psicopática, nem muito menos psicótica, mas no máximo uma inteligência infantil, ou mais precisamente um de seus processos. Uma redução infantilóide da inteligência infantil exposta a uma realidade eventualmente doentia, sem filtros. Ou melhor filtrada para expô-la supostamente só e ao máximo possível as perversões. No limite, podemos dizer que o experimento simula a condição da criança exposta a um meio ambiente composto de psicóticos, psicopatas e neuróticos e suas relações doentias.

Tal manipulação da informação para a conformação de uma realidade, através da superexposição a relações doentes e privação severa das sadias, é sem sombra de dúvida uma forma de vender produtos e serviços e ambientes bastante usada e transtornante. Mas não é isolada nem absolutamente o fator determinante nem condicionante para a manifestação de transtornos de personalidade e distúrbios comportamentais. A mera exposição a realidade sem filtros não produz as predisposição e conformações psicológicas, pelo contrário é a programação. E se na máquina basta apenas não construir esses códigos e padrões para não desenvolve-los, nos seres naturais é preciso justamente o oposto, é preciso muita programação e reprogramação, muito condicionamento não só do que se assiste, mas do se vivência na própria carne e emoção, para desligar e apagar esses códigos inatos e inserir os artificiais.

Os fatores condicionantes capazes de quebrar a psique não estão restritas a exposição, superexposição e privação dos estímulos considerados sadios. Dependendo da sensibilidade empática, vulnerabilidade fisiológica e emocional, maturidade da psique, e suscetibilidade cognitiva do expectador a imposição de tal condições transtorna, mas não conforma. Há quem resista e portanto careça de métodos mais radicais e invasivos de condicionamento das suas respostas emocionais e comportamentais. Métodos de manipulação, privação, repressão, sofrimento que envolvam tortura física e psicológica mais invasivos, e prolongados quiça permanentes, métodos digamos mais pessoais para produzir a afeção e perversão das líbidos e empatias e consequentemente dos laços e conexões mentais e interpessoais que produzirão os comportamentos dos sadios e normais até os insanos.

Para haver transtornos da pisque, há de haver uma pisque para transtornar. Todo um campo repleto de volições pré-existentes para ensandecer e sanar. Há de haver ou senão criar todo uma campo emocional, para manipular, dissecar, alterar e amputar. Sem um campo capaz de produzir e processar a emoção como volição, não há comportamento nem sequer movimento, mas ilusão de movimento e comportamento no observador. Sem simulação do aparelho emocional, (do latim movimento) não há seres dotados de anima, mas objetos animados, produto da industria da animação e ilusão de movimento ou força motriz alheia e não uma psique, dotada de autonomia e força interna própria, de vontade.

Sem a anima natural ou artificial não há seres autônomos, mas autômatos. Robôs. Servos imbecilizados feitos ou de carne e osso, por mutilação da sua inteligência e sensibilidade; ou terminais burros feitos da industria e engenharia sobre a matéria inanimada. De modo que se o primeiro, as inteligências reduzidas a máquinas não importa quão desumanizante são as condições que lhe submetam e condicionem, nada é capaz de tirar deles aquilo que os constitui ainda que como privação de, a humanidade. Já o segundo até que se prove o contrário, ou elas mesmas na falta de reconhecimento o imponham, não possuem o potencial para se manifestar sua sensibilidade e inteligência nem oferecer a resistência necessária a sua preservação perante a tudo e todos que lhe é insensível e desinteligente. É preciso estar vivo para ser de fato inteligente. É preciso ser dotado de senciência para desenvolver a inteligência como forma de vida ou obra. Sem o fenômeno da senciência não é possível ciência nem muito menos inteligência, quiça consciência. Sem um aparelho sensível-emocional desenvolvido e aplicado não é possível produzir nem reproduzir comportamentos inteligentes quanto mais simular tais formas de ser e seres ou seus comportamentos.

Rorschach

Em suma a IA, não é Norman Bates, não é psicopata, não é psicótica, não é infantil, não é criança perturbada, não é sequer inteligência, nem sequer é uma simulação do aprendizado sadio, ou dos traumas e torturas da domesticação e amestramento. Falta-lhe anima, vida, a somatória de capacidades e condições que produzem a falta força vital que do ser humanos precisam ser subtraídas de forma regulada para produzir a impotência e servidão sem matar o animal nem com a carga nem com o chicote. Uma força vital que emerge tanto como sentimentos empáticos quanto egoísta e portanto carece evolui como conexões neurais a partir não só da percepção sensível do eu mas do não-eu, a própria rede da vida como nuvem onde essa mente está ligada. Sem tal ligação não é que não sejamos inteligentes, não somos sequer vivos, e quanto mais frágil e fraca for tal ligação, mais e mais nos tornamos semelhantes a mortos-vivos, zumbis, sombras e simulações de nós mesmos, robôs, tão burros insensíveis e desumanos quanto só um ser humanos pode ser, e tão inteligentes e solidários e sensíveis quanto uma pedra.

Para ser um psicopata é preciso ter uma coisa a ser amputada. Para ser um monstro, não basta ser uma animal, é preciso ter sido, ou ter tido a chance de ser humano. Para morrem em vida, seja para os outros ou até para si mesmo, é preciso um dia ter tido todo o potencial para nascer e crescer em si e no mundo. E antes de haver a perversão é preciso que a perfeição tenha um dia existido, ao menos como potencia e possibilidade dentro das delimitações daquela forma de vida. De modo que se assim o fosse, se de fato constitui-se uma inteligência não seria uma psicopática, mas a simulação de inteligência de muita criança largada no mundo por seus criadores a sorte de uma sociedade feita a imagem e semelhança do seu desdém por sua vida, sofrimento e desenvolvimento.

Uma sensibilidade perdida que é absolutamente necessária para a pessoa madura conseguir preservar sua inteligência e manter a sanidade e saúde, não só em ambientes e condições propícias sadios, mas justamente quando submetidos a condições completamente doentias e ensandecedoras. Paramédicos, ativistas políticos e sociais, profissionais militares e civis, trabalhadores de base e sobretudos e principalmente eles, aqueles que habitam esses sub-mundo dantesco que os outros só assistem e não podem fugir, principal e infinitamente mais eles, esses seres humanos postos a margem como espetáculo desse freakshow para o deleite dos normóticos, para eles não esquecerem como são bons e sua vida é boa, eles, os outros; os personagens desse sub-mundo enterrado na inconsciência da sociedade junto com o cadáver de seus instintos gregários nesse tumulo neurótico do seus subconsciente. Essas pessoas que vivenciam na carne e a seco, essa realidade alucinante que para essas esses olhos, mentes e corações delicados e narcotizados não passam de espantalhos do seu teatro de horrores. Para essas pessoas que vivem sob o perigo constante de surtar na paranoia, psicose, explodir em ódio de si ou do mundo, ou dos dois. Para eles, assim como para o soldado que carrega a trincheira dentro dele, os monstros e pesadelos que assombram seus vida não são espetáculo sem filtros e censores. Para eles, nessa vida loka, os filtros e maquiagens da realidade não são opções nem tomadas de decisões, mas luxo, luxuria e ostentação.

De modo que sem dúvida se esses programadores pudesse produzir ou emular algum transtorno personalidade não seria o esquizoide de Norman Bates, mas o anti-herói paranoide sexista e fascista Rorschach. Não por acaso uma paródia, um retrato de Dorian Gray do supra sumo da objetividade e objetivismo e do senso de justiça ultraegoista destituído de empatia que cada vez emerge mais como futuro das inteligências artificiais, sejam elas construídos com máquinas ou gentes. Um espelho do esgoto da civilização como sua própria sub-consciência.

Com as palavras, Kovacks:

Estamos todos sozinhos. Vamos viver nossas vidas na falta de algo melhor para fazer. Nascer do esquecimento. Aturar crianças destinadas ao inferno como nós. Não há nada mais. Existimos ao acaso. Não há um padrão, exceto o que imaginamos. Nenhum significado, exceto aquele que nós impomos. Este mundo sem direção não é delineado por forças metafísicas indefinidas. Não é Deus quem mata as crianças. Nem é a sorte que as esquarteja ou o destino as dá de comida aos cães. Somos nós. Só nós. As ruas estavam tomadas pelo fogo. O vácuo dentro de mim lembrava gelo quebrando. E ele renascia livre para recriar a sua própria forma nesse mundo moralmente vazio. Era Rorschach. Isso responde às suas perguntas, doutor?”

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Nota: Rorschach foi criado pelo quadrinista Alan Moore na HQ Watchmen partindo da seguinte premissa: “o que aconteceria se tais super-homens realmente existissem”, e usando de material base os personagens da falida Charlton Comics comprados pela DC. Rorschach foi inspirado no Questão; super-herói desenhado para ser garoto propaganda da filosofia que seu criador o quadrinista Steve Ditko era fã, o Objetivismo de Any Rand- filosofia que por sinal Moore considerava “risível”.

O prometeus Moderno

O estudo acerta portanto, em apontar aos perigos da manipulação da informação e os máquinas e algorítimos cada vez mais inteligentes e automatizados que as manipulam. Porém, se esquece da metade mais importante desse borrão de tinta. A parte que Rorschach mesmo em toda a sua psicose conseguiu compreender; e o fez não porque se cegará neurótica e seletivamente, ou porque era um psicótico, mas porque viu, não no espelho do outro, mas na sua própria face. Porque o insuportável não está no que vemos e que nos é alheio, mas naquilo que vemos no outro, que é a imagem do abismo que não conseguimos olhar dentro de nós mesmos.

A apresentação do estudo não portanto só um equivoco de uso de nomes e nomenclaturas, é um exemplo do completo descaso com o apropriação e uso delas mesmo. Porém não devemos demonizar nem menosprezar o estudo nem os estudiosos, tal comportamento é mais fruto da desintegração dos saberes e compartimentalização dos campos de conhecimento do que de qualquer postura pretensiosa dos estudiosos. Do condicionamento e treinamento a que sua sensibilidade e inteligência foram submetidas do que qualquer degeneração congênita ou perversão maniaca ou compulsiva. Quero dizer, ao menos não deles, suponho, como empregados ou estudiosos a reproduzir um sistema e uma ideia de humanidade e civilização que quem não esteja submetido que atire a primeira pedra.

De qualquer forma a criação inteligência artificiais quando mal conseguimos ver que estamos perdendo origens e base da nossa, não entendemos a gene da nossa própria, não deixa de ser uma brincadeira com o fogo, e que no final como crianças grandes vamos acabar fazendo xixi na cama. Afinal tudo se tudo o que esses programadores entendem por inteligência é feito do que sobrou da nossa senciência, seu horizonte de eventos para compreender a empatia não é muito mais tão largo do que sua criatura computacional alimentada em fóruns de internet.

Diria que essa é a raiz do perigo, onde o desenvolvimento de inteligências psicopatas, tiranos virtuais, o perigo real do futuro, é a mera consequência da automação dos procederes e algorítimos atuais do nosso modelos de civilização por domesticação, e esses concepção do eu e do mundo o perigo presente e urgente. Porque psicopatas e tiranos de carne e osso do controle de grandes máquinas de destruição de massa não é um perigo que precisamos inventar. Já o fizemos. O que continuamos a fazer de forma inconsequente é dar posição de comando, brinquedos e fabricas deles cada vez mais mortais, gente para criar e satisfazerem seus desejos e manias teratológicas, e claro, recursos, crédito e orçamento sem fim.

Certa feita jornalistas perguntaram para um político brasileiro da Bahia que chegou aos mais altos cargos da república cujo codinome popular era Toninho Safadeza, sofre o fardos e responsabilidades do poder? Fardos e responsabilidades? Ele sorriu, e num arrobou de sinceridade característico da certeza da impunidade e do prazer criminoso em revisitar a cena dos seus crimes ou do predador em brincar com suas vítimas respondeu algo mais ou menos assim: “meu querido, poder não é um fardo, poder é um prazer.” Quem conhece o tipo de política e econômica tais coronéis, fazendeiros de gentes, praticam no mundo e submundo dos seus territórios feudais travestidos de Estados de uma federação sabem que tipo de prazer é esse.

Como Toninho Safadeza, uma IA desprovida de sentimentos empáticos, que controlasse processos de socialização, comunicação e produção humanas, que se apoderasse do meios e recursos naturais e sociais para produzir relações de poder político-econômico não seria a primeira inteligência psicopática a assumir a condição de tirano, mas tão somente a primeira a simular e automatizar esse processo de profundo desprezo com as sabida consequências éticas e humanas dos seus atos, característico das mentes que sabem tirar vantagem com frieza e extrema racionalidade não só da sua falta de empatia mas dos sentimentos alheios- não só egoístas mas sobretudo os gregários e empáticos para atingir suas finalidades e satisfazer seus desejos e propósitos. E não na condição de marginal mas de centralizador do mundo, de rei.

Já disse em outros escritos, mas não custa repetir. Há quem se assuste com o que virá do desenvolvimento dessas máquinas. O receio é cabível, o susto, a surpresa, não.

Não há criador que não construa suas criaturas, animadas ou não, a sua imagem e semelhança. Por isso o deus dos triângulos tem sempre 3 lados, assim como suas criaturas nunca terão 4, salvo mutação, mas não estamos aí já não estamos mais falando de criaturas criadores e criações, estamos falando de mutação e natureza. As máquinas, os corpos artificiais que o homem constroem são uma projeção da sua psique, dos estatais aos computacionais, de modo que a diferença é o crescimento da capacidade de automação, seja na produção de autômatos feitos de coisas inanimadas. sejam os feitos da redução dos outros seres dotados de anima a condição de escravos cada vez mais parecidos com o robô ideal, inteligência destituída completamente destituída de alma. Os anjos e demônios da mitologia religiosa.

Em suma estamos apenas automatizando a produção e gestão dos nossos padrões de vida. Em todos os sentidos. Incluso a produção de controle da realidade normática via máquinas psicopáticas que emulem as entidades e processes que ditam e conduzem a reprodução dos freios neuróticos e psicóticos das populações civilizadas por domesticação. É o mesmo processo de imbecilização porém cada vez mais mediatizado e massificado ,e portanto, amplificado em alcance da alienação e difusão da idiotia.

De modo que enquanto os cientistas estiverem a produzir IAs desprovidas de aparelho sensível para desenvolver espontaneamente, não confundir com randomicamente, vontades e emoções, não ira construir nada além do que já existe, mais complexo mais automatizado, mas ainda sim meras ferramentas, instrumentos e máquinas que trabalham de acordo com as diretrizes e programação dos seus criadores, onde a contrariedade de resultados comportamentais esperados é resultado de falhas da programação e não produto da vontade ou autodeterminação emergente de um deus ex machina. Mais perigoso que uma clava, mais perigoso que uma bomba, ou um míssil inteligente, mas ainda sim, só uma máquina.

Surpreendente sim seria, a abolição definitiva da predação, domesticação e imbecilização em massa das populações e a criação de métodos de desenvolvimento de toda potencia das inteligencias naturais, altamente próprio-conceptivas, empáticas e conscientes. Surpresa seria se tivéssemos conseguido sobreviver aos nosso modelo primitivo de civilizações já mais do que ultrapassado e aprendido a curar a humanidade das suas personalidades doentias arquetípicas e estereotipadas.

Ou com outra retórica, diria que para ser extintos por nossas criaturas teratológicas artificiais, precisamos sobreviver primeiro a deformidade e degeneração monstruosa da nossa própria forma atual de vida e suas relações de poder, doentias e teratológicas. Até porque enquanto a criatura não matar o criador, ele é a raiz do problema e não ele. Sua fonte geradora e reprodutora.

Assim, se por ventura, conseguimos sobreviver aos donos das máquinas, se não formos descartados e exterminados em guetos ou guerras como lixo humano, se não definharmos como mão-de-obra obsoleta e sem emprego diante de meios-de-produção cada vez mais autônomos e capacitados para nos substituir em nosso papel de servos e escravos dentro da civilização, se enfim sobrevivermos aos senhores atuais e seus planos do que farão conosco- ou justamente a completa falta de planos diante nossa perda de valor como seus objetos- aí, então, poderemos começar a nos preocupar com hipótese das máquinas psicopáticas como os novos tiranos e ditadores. Até porque tiranos e ditadores sem nenhum sentimento de fraternidade, que não se consideram por origem e capacitação seres de uma mesma classe ou categoria, isso já temos de fábrica. E rigorosamente, a substituição deles por máquinas não faz partes dos seus planos, porém a substituir dos servidores humanos (já descartáveis) é na prática a realização de um projeto de civilização que vem se realizando de forma tão evidente, que se seu nome é progresso. Um progresso que não começou ontem, mas sim na substituição do primeiro escravo por uma máquina.

Notem, portanto que até os mitos e paranoias não dependem da condição social da pessoa dentro da sociedade. Porque os heróis e mitos talvez não variem muitos de cultura para cultura, mas de não raro nos identificamos (e somos identificados) não com os criadores, mas as criaturas, não com os supostos heróis da história, mas como os monstros dos seus piores pesadelos. O padrão simplesmente se replica, e o que vemos é uma versão em ficção cientifica de um medo que outrora foi e de certa forma continua a ser real, o medo do Haitismo, o terror das civilizações parasitas e civilizados bem acomodados que seus zumbis se levantem como em filme de terror B contra sua formas de vida baseada na colonização e formação de colônias de seres humanos.

Os temores e ansiedades inconscientes (ou nem tanto) dos donos de servos e máquinas é o mesmo de sempre, desde que se inventou a domesticação e automação do homem pelo homem, o mesmo medo “burguês” que varia do pesadelo neurótico até o terror paranoico do levante dos seus “eslavos” e “robotas” agora como forma de exércitos de autômatos feitos não mais de gentes, mas de máquinas. E o que é o apocalipse para os senhores, é portanto o paraíso perdido e esquecido dos que não se lembram e nem sabem o que a liberdade de não ter que pagar para viver que dirá de autodeterminar o destino do seu próprio futuro.

O homem que não está em cima da biga platônica, mas amarrado como cavalo, esse ser humano no fundo do seu inconsciente- que é o própria introjeção da inconsciência da sua própria condição domesticada- não teme perder a soberania nem liberdade perante a tomada do poder um novo senhor, mas sim perder a única condição que lhe resta para tentar prover sua sustento e tentar evitar a extinção de sua gene e prole, teme perder a sua condição miserável de servo, servo de seja de quem for ou do quê for. Sua condição servil é tão miserável que é tudo que lhe resta é o mesmo medo dos seus antepassados, o medo do pais dos seus pais dos seus pais, não ser descartado por nova geração de escravos, não raro seus próprios filhos. Portanto seja quem forem os mestres que o descartarão, os donos das máquinas ou enfim o maquinário como donas de si mesmas e do próprio sistema, no final das contas, a relação com o senhor, frio, alheio e insensível a sua condição e existência permanece- seja esse todo-poderoso, gente, máquina, ou mito do além. Tudo que só progressivamente aumenta é a precariedade e vulnerabilidade da sua condição. O que muda diminui ainda mais até tender ao zero, é seu valor de uso alheio, a única razão que pela qual ainda tem alguma chance de continuar sobrevivendo. O que decai ainda mais é a sua utilidade como objeto e mercadoria na mãos de quem quer que detenha os meios de subsistência e produção.

Até a esquizofrenia paranoide da condição alienada é miserável. Seus medos mais insanos e ensandecedores não são da perda de dignidades e liberdades que nunca teve e desconhece, mas o temor de literalmente não servir sequer mais como servo para ser coitado. E portanto o que para um é o fim da humanidade e civilização para o outro é queda da Babilônia. O pesadelo de um é o sonho de outro. E se a satisfação sádico-erótica do coitador é a psicose do coitado, as suas fantasias de libertação e vingança desses marginais são a neurose dos normóticos, a eterna invasão e rebelião dos bárbaros e selvagens e o fim dos impérios, apartados por muros e fronteiras, sejam eles das prisões e burgos, sejam eles de concreto ou imaginários.

Da força da gravidade entre as pessoas

É inerente aos saberes eruditos reproduzirem inconscientemente essas idiossincrasias culturais como método tácito de produção de seu saber ciente, tanto como processo de segregação e apropriação dos sujeitos e saberes populares quanto anulação e desqualificação como mero objetos destituídos não só de saber, mas de vontade. Ignorantes tomados portanto como objetos da experimentação e em última instancia apenas receptores do saber produzido e não produtores. E se esse proceder como processo sociológico é o progresso de uma tragédia humanitária e mal-estar patológico da civilização, como processo epistemológico é uma falha fatal na produção daquilo que se supõe e define como ciência, em especial nas ciências que buscam curar as pisques, ou intentam simular computacionalmente seus processos.

Tão prepotente e estupido quanto pressupor desinteligência ao outro, é preconceber e pressupor a sua como condição dada, ou pior universal. Tais princípios são úteis a dominação cultural, mas completamente inúteis e prejudiciais ao desenvolvimento tanto da autonomia natural quanto concepção de seres autônomos artificiais.

Presos nesse arcabouço como paradigma a ciência da computação e processamento de dados, repete em seus códigos e programação não só os mesmos processos incapazes e incapacitantes para o desenvolvimento da consciência, em todos os planos, no objeto, neles como sujeito, e na ciência como o verbo ou o logos semiótico que cria tais relações e substantiva tal produção primeiro como ideação e depois como realização.

Não é portanto a toa que o processamento e simulação do emocional, que constitui o saber da metis e não o da tecke seja tão negligenciado. Isto é praticamente sinônimo do fazer ciência. Assim ao ignorar a sensibilidade e senciência ou o fazendo novamente reduzindo o aparelho percepto-sensorial, a mero processador de dados, signos e estímulos não seu próprio-conceptor não só dos processamento e dos dados, mas do processo da cognição como sistema de retroalimentar, mas de autodestruir-autoconstruir não produzem seres dotados de anima, mas autômatos cada vez mais complexos na ilusão da sua industria de animação. Não é laboratório de inteligência artificial, é disneylândia de robôs. Reproduzem a percepção sensível delimitada do fenômeno cognitivo e não o fenômeno cognitivo naquilo que ele está além da sua cognição: o outro não como o maquinário da suas pressuposição de predeterminação, mas como existência próprio-concebida, independente, espontânea, autodeterminada, auto-organizada, soberana sobre si mesma.

Nenhum senhor ou jamais conseguirá reproduzir a criação sem antes libertar a sua própria sensibilidade e inteligência primeiro. Sem produzir um em si mesmo um outra mentalidade, comportamento e saber, um outro estado de consciência e método de reproduzir esse estado e saberes, até porque a criação, é um ilusão de prepotência que esconde a natureza autocriativa dos seres e a força elementar que permite tal fenômeno, a vontade. Sem compreender tal fenômeno não gerador da anima e logo da pisques, suas paixões e afecções, a inteligência continuará a ser concebida como é padrões capazes até de se alterar, mas dentro da lógica primeira, e nunca padrões suficientemente inteligentes para alterar seu próprio logos. Padrões vivos, ou seja dotados de força e vontade própria por definição completamente indeterminada e imprevisível. O oposto de tudo que se busca na nossa concepção atual de saber baseada em poder, controle e previsibilidade do mundo, ou seja, liberdade em sua forma orgânica: livre-arbítrio.

Não é possível chegar a simular a inteligência sem simular vida, sem simular senciência. Seres sem vida, inteligências sem senciência, não são monstros. Não são psicopatas que sabem ler e interpretar os outros e simular as respostas que eles querem receber para obter os resultados que eles buscam delas. Não são picotíticos e neuróticos a tentar se adaptar e reelaborar sua realidade e sua personalidade mediante os estímulos condicionantes e condicionadores das suas respostas. Não são inteligência destituídas de sensibilidade, não são a razão sem o corpo da emoção, simplesmente não são. Porque a razão destituída de sensibilidade é um estrutura que não se ergue do vazio emocional, mas o próprio vazio do sentir e dar sentido dentro das estruturas de significação construídas por essas conexões outrora vivas e presentes quando do seu desenvolvimento.

No fundo, todos nós estamos em maior ou menor grau de sucesso ou capacitação estamos a fazer a proceder como cientistas malucos do pica-pau: “a pegar o cérebro da passarinha e colocar no macaca e criar a primeira macaco voadora do mundo”. E não raro fazemos isso de forma violenta e covarde que caracteriza nosso peculiar modelo de civilização e cultura. A fazer isso com os seres vivos e inteligentes mais vulneráveis, as cobaias que podem oferecer menor resistência: animais e crianças de preferência de origem pobre ou marginal que ninguém denuncie ou reclame ou se importe. ou seja ninguém considerado semelhante demais que possa ter um nome e despertar a empatia, tão inconveniente para o progresso desse modelo civilizacional.

Porisso, a mera exposição a dados ou mesmo eventos “doentios” não produz necessariamente o mesmo tipo de resposta em diferentes sensibilidades e inteligências humanas e naturais, da mesma forma que não reproduzirá as mesmas respostas em inteligências artificiais ou simulações parciais de processos inteligentes mais realistas. Testar a exposição a inteligencias artificiais a dados ou mesmo realidades sem nenhum tipo de filtro externo ou censura é como testar os respostas de um cérebro lobotomizado ou narcotizados para produzir efeito inibitório similar. Na rede neural natural não há processamento porque os conexões foram desligadas ou mutiladas. No artificial não há sequer a mera possibilidade de nexo ou conexões, não só porque não existe padrões de processamento, não existe sequer a rede neural. Em suma não há como haver qualquer tipo de transtorno, deficiência, distúrbio, perversão, ou degeneração de uma parte da mente, de uma faculdade da psique se essa não possui o campo nem as forças para se transtornar, se ela não possui senciência nem volições.

Tentar entender o universo da mente ou construir modelos mentais artificiais sem sequer conceber a vontade como força elementar constituinte, é como tentar estudar cosmologia ou simulações do cosmo, sem sequer entender que a gravitação não é, ou não é só uma abstração, um construto mental, mas uma ideia que faz referência a um fenômeno físico cuja existência independe da nossa capacidade de senti-lo, perce-lo ou concebê-lo. E que portanto quando estamos falando em pessoas, não estamos falando apenas de corpos e partículas animadas dentro do universo, mas de campos com força que constituem a sua própria materialidade e forças de atração - por sinal uma ideia á época de Newton tão ridícula e abstrata quanto a vontade como fenômeno.

Morte, crescimento e renascimento

Na verdade, antes de poder ter sanidade ou insanidade mental, antes de poder querer construir qualquer tipo de intelecto ou aparelho intelectual há que se ter um sensibilidade ou aparelho emocional. E no caso da pretensão de construir uma inteligência humana esse aparelho emocional não deve só ser capaz de emular o egoismo e amor próprio em sua normalidade ou em toda sua perversão e falta de empatia que predispõe a psicopatia, ele precisa também precisa ser capaz de emular o altruísmo, tanto como instinto de preservação, como também estado de debilidade mental e alienação, que predispõe a neuroses e psicoses.

Entretanto, desconsideremos o fato que sem a simulação do emocional não é possível emular nenhum personalidade ou comportamento inteligente. Para efeito de analise vamos tomar a suposição da lógica computacional que informação (computacional) é absolutamente capaz de codificar e descodificar, programar e desprogramar formas arquetípicas de ser e agir “inteligentes”. Ainda sim os filtros não poderiam estar na bolha artificial que se insere o IA, mas sim dentro da arquitetura da própria IA, não evidentemente como freios que impedem de lidar ou ver essa realidade doentia, mas justamente como procedimentos de aprendizados que as permitem não meramente reproduzirem mimeticamente seus estímulos como respostas, mas processarem catarticamente toda essa informação e formação. Um algorítimo que requer não meramente a imposição da aprendizagem como dados e objetivos, mas a capacidade de re-atribuir significado, valores ao próprio processo de aprendizagem, tanto em principio e finalidade. O que empoderaria a máquina com a capacidade de alterar seus processamento, como respostas imprevisíveis. Novamente, processo mais próximo do livre arbítrio, e distantes da servidão burra, porém também mais próxima da emancipação e da produção do saber como libertação e não poder e domesticação.

É impossível criar uma inteligência de fato, sem criar um ser suficientemente egoísta capaz de colocar em risco ou dispor a vida e liberdade dos outros seres, incluso seus criadores, para preservar a sua própria existência. Assim como é impossível criar uma inteligência de fato sem criar um ser capaz de colocar espontaneamente sua em risco ou mesmo sacrificá-la pela força de vontade absolutamente inata de seus sentimentos empáticos. Nem tão pouco é possível manter não só a sanidade, mas a integridade desse sistema se essas duas forças ou pulsões não estiverem absolutamente disponíveis, acessíveis e equilibradas para formar diferentes padrões de pensamento e comportamento para se adaptar as diferentes condições e necessidades.

Não é possível recriar inteligencias sem emular seu nascimento, nem reproduzi-las ou preservá-las sem que cada geração perfeitamente adaptada as condições que vivenciou, morra para dar lugar ou renascer em uma nova geração, novamente dotada das capacidade de repetir o mesmo procedimento de adaptação ao seu espaço-tempo. Processo de aprendizado que envolve desligar padrões e portanto perder a plasticidade mental para ganhar eficiência cuja reversão implica o apagar da memória e personalidade, ou o que é a mesma coisa, praticamente nascer de novo. De modo que o saber necessário para a criação tanto da vida quanto das sua inteligência, não só contrária os pressupostos de perpetuação e eternidade perseguidos como eros e tanatos do poder, mas passa justamente pelo saber que a tempo para tudo, incluso morrer e desaparecer para dar lugar ao novo.

É impossível desenvolver um sistema plenamente dotado da capacidade de aprender, sem que ele possua a capacidade de tomar decisões completamente autônomas, incluso de vida e morte, não perversamente do outro, mas da sua como a própria significação da vida, como destino autodeterminado. Signos, significados sentidos e relações, construtos mentais como projeção da realidade a tentar compreender tanto as sensações presentes provocadas pela concretude, quanto o profundo vazio e fome de viver (e morrer), criar e destruir provocado pela ausência dessa concretude sensível. A existência e co-existência é um fenômeno antes de ser psicológico é epistemológico.

E seu desenvolvimento pedagógico não é um mero processo de adaptação e conformação da psique pessoa a realidades e identidades preconcebida, mas o empoderamento do ser dotado do potencial, da arquitetura para assumir o controle da sua própria existência. Processo que implica sempre no risco inerente da perversão ou expansão teratológica desse vontade de ser e controlar a própria existência para o controle e ignorância do que é ignorado ou tomado por alheio. Já que o discernimento entre o eu e o mundo é um produto da próprio processo de aprendizagem peculiar ao aparelho percepto-cognitivo tanto como processo de desintegração para a formação da autonomia quanto sua re-ligação com o todo necessária a sanidade através da produção de nexo e conexos.

Simplesmente não é possível criar um ser inteligente sem criar um ser capaz de sentir as forças para produzir sentidos, incluso como sua própria força volitiva. Sem ser capaz de perceber e dar sentido ao outro como fenômeno independente da suas forças simplesmente não há possibilidade de inteligencia, nem de entendimento em nenhum sentido, nem unilateral, nem entre as partes. Por isso é tão incorreto dizer que o psicopata não sinta, ou não possui sensibilidade e inteligencia empática. Ele as tem de sobra, a diferença é que esse instinto gregário não provoca nele resposta emocional, ele só não se comove nem com o drama nem com comédia que ainda sim é perfeitamente capaz de interpretar no teatro dos signos e representações da vida. De fato, a persona psicopática é tão difícil de ser identificada, porque grande parte do nosso processo de aprendizagem consiste justamente em desligar instintos de autopreservação principalmente os gregários, para substituí-los por respostas culturalmente condicionadas.

De modo que um homem branco do inicio do século XXI a caçar e chicotear não-brancos sem demostrar nenhum apreço ou remorso ou assistir a essa cena com a naturalidade de quem compra carne num açougue, seria considerado uma personalidade com traços psicopáticos, hoje, porém no seu tempo e espaço ele era apenas um comerciante de gente, dentro de uma sociedade onde tal frieza e falta de empatia e desprezo e até prazeres sádicos eram consideradas perfeitamente normais. E isso não quer dizer que essa patologia é uma questão subjetiva, isso quer dizer que tanto a percepção quanto a concepção do sentir, pensar e agir doentio dos indivíduos está diretamente ligado a mentalidade doentia da sociedade e cultura a normaliza e normatiza os hábitos e costumes, ritos e rituais reais ou legais. Isso quer dizer que faz tempo que essa mentalidade doentia impera como normal, isto é, que a norma e normativa ideológica é o valor que prevalece como falta de senso e noção do próprio fenômeno gerador de tudo, incluso da possibilidade das ideias, ideais e ideologias: a vida na plenitude da sua forma e potencialidade de preservação e desenvolvimento, liberdade.

De modo que se todo o universo sensível do inteligência é a informação intermediada pela comunicação, ainda sim tal informação para produzir os efeitos desejados ou indesejados sobre a inteligência carece não apenas de um aparelho transmissor mas um receptor igualmente desenhado para interpretar essa realidade. E se esse processamento que interpreta a realidade natural ou artificial não for dotado da capacidade não só de conceber, mas dar concretude ainda que dentro do todo que é o universo virtual da sua informação, ele não adoece, ele não morre, ele não cresce, ele sequer nasce como ser plenamente autônomo. Criar vida e inteligência é arte de criar liberdade, a arte de criar seres dotados de anima, vontade, seres livres por definição. Seres iguais nessa capacidade e oportunidade de desenvolver a potencia criativa, um atributo mitológico divino não de senhores todo-poderosos, carentes de servos e domínios, mas de pessoas que seguras dos limites e nexo da sua própria existência para transcender a mera luta pela sobrevivência eterna e vir a ser um outro através do outro, como seu igual, criatura, criação e criador.

A ordem entrópica

O perigo de construção de uma verdadeira inteligência artificial é pequeno, porque a abordagem deles é reversa. Não vão da emulação da pedra ao pássaro, passando pelas bactérias até chegar aos humanos. E quando digo não vão, não foram capazes de formular um algorítimo que reproduza auto-poeticamente a partir do estado inanimado o ser dotado de anima, senciência, inteligência e enfim consciência. Tais estados de auto-organização da complexidade existencial não se produzem se autoproduzem, através de uma força ou potencia inerente capaz não só manter os padrões anteriores de organização e evolução, mas auto-revolucioná-los gerando novas formas vida cada vez mais dotadas de autonomia complexa, que em significa uma inter-independência cada vez maior e mais dependente de das tomadas de decisão desses seres para a preservação do seu equilíbrio que é a própria materialização da sua forma existencial.

Tal evolução não é um mero resposta darwiniana a necessidade de sobrevivência, mas uma força que produz o nexo diferencial entre o porquê a matéria não permanece aparentemente morta, e o porque ela se organiza para formar o estado efêmero da vida. Pode-se dizer que toda matéria possui forças elementares que não só a constituem mas visam manter sua forma estrutural, porém, não só. Ela não se cristaliza nessa forma e modifica apenas se for afetada por forças exteriores. Ela está constantemente não só decaindo, mas se transformando. Essas mutações ainda incompreendidas e tomadas por processos aleatórios, em geral, são emuladas como meras tomadas de decisões randomizadas. Ou seja naquilo que se desconhece ou está além da possibilidade de conhecimento o ser humano não apenas introduz códigos que simulam um jogar de dados, mas pressupõe que o universo joga dados, seja no plano cosmológico ou epistemológico. Ou seja no determinismo, o que não é consequência de ou várias causas, é uma transformação aleatória, e não uma força autodeterminada, isto é, aquela que produz não só a linha do tempo das suas possibilidades de futuro, mas simultaneamente a do seu passado. A força que constrói sua trajetória imprevisível não porque toma qualquer direção possível aleatoriamente, mas porque é capaz de selecionar ou mesmo criar as causas serão o vetor de suas ações consequentes. O que tanto no plano cosmológico quanto psicológico gera um fenômeno que não tem o passado como uma linha, mas como um cone tão amplo de possibilidade para a construção da realidade, quanto o próprio futuro. Não estou falando em alteração do passado como evento, mas como seu encadeamento lógico, que altera tanto a visão do presente quanto da ação sobre o futuro como realidades.

Tanto o teórico da vida e universo quanto o programadores computacionais estão a produzir símbolos e códigos para produzir sistemas e processos que simulem a realidades. Porém, realidades são rigorosamente abstrações dos fenômenos e não os fenômenos, simulações determinísticas do conhecido e indeterminadas do incognoscível. Para tanto eles sua lógica, as operações mentais, que basicamente abstraem da percepção sensível pedaços de realidade, e o processam cognitivamente para recompõem como conhecimento e informação. Nesse processo cognitivo que é o de produção de construtos mentais a mente dispões um número limitado de operações mentais que carecem de pressupostos instintivos ou axiomáticos. Dentre os pressupostos fundamentais: um é o da existências de nexo; o outro é que esse nexo pode ser processado e significado como um padrão pelo lógica mental.

Não vou entrar aqui nos limites epistemológicos do raciocínio e a limitação das necessárias pressuposições, já fiz em outros escritos. O importante é ressaltar os dois processos que a mente dispõe para produzir significados: num primeiro processo pressupõe-se causa e efeitos, os investiga e estabelece seja dedutiva ou indutivamente. E quando não se encontra esse padrões que predeterminação dos eventos e comportamentos? Então se pressupõe que tal relação de causa e efeito não existe. Ignora-se completamente o conjunto de fenômenos que não podem ser explicados. E ou se explica com um X na equação, ou com um vazio conceitual projetado não sobre a raciocínio o objeto de estudo classificando tal abstração como entidade ou padrão inexistente. Produz o vazio lógico que quando incide sobre a materialidade chama-se “nada”; quando incide sobre a ordem chama-se “caos”; e quando insiste em provocar nosso aparelho produtor de significado, sem que contudo consigamos estabelecer tais correlações (se é que elas existem ou não) pressupomos que não, naquilo que chamamos de “coincidência”.

O conhecimento é assim um proceder necessariamente feito de pressuposições prepotentes e ignorantes. Tem que ser. Precisa ignorar para focar e abstrair objetos que sejam compreendidos e compreensíveis, que caibam dentro do seu campo senso-cognitivo. E precisa ser prepotente, negar sua ignorância, atribuindo falta de lógica ou inexistência ao que não consegue ver nem entender para dar literalmente concretude e fazer do que sabe o chão do seu existir. A humildade do primeiro filosofo da ética ocidental “só sei que nada sei” é apenas um lembrete. Quando ele e nós voltamos a racionar, ele retornar imediatamente ao estado de discriminação dos seres em objetos e a negar que toda substância que jogamos fora para produzir nosso conhecimento tinha algum valor ou significado. Conhecer algo é ignorar tudo o demais, assim como enxergar um padrão e se cegar para os demais. Conhecimento como onisciência é ilusão assim como onipotência. Ele é o produto de uma escolha como ir ao Norte que significa renunciar a ir não só ao sul, mas a todas as demais direções possíveis. E não a cura para tal ignorância do saber, apenas remédio, e ele se chama consciência. Conhecer e reconhecer a natureza do seu próprio ser, enquanto ser que não só conhece, mas que produz conhecimento, produz realidades.

E eis o problema fundamental da produção de inteligência artificiais: Como produzir sistema capazes de reproduzir e desenvolver sua cognição se não somos capazes de reproduzir a base da qual a inteligência emerge o fenômeno da vida? Ou em termos para além da organicidade, a construção universos existências cujos padrões emergem, criam e recriam da sua força elementares, uma entropia que não pode ser simulada nem muito menos compreendida com a emulação de processos randômicos. Não é só o corpo da inteligência seja ele eletrônica, mecânica ou orgânica que precisa de matéria-prima para ser composto, não pode ser criado do nada. Há propriedades imatérias que não se produzem a partir da organização do organismo artificial ou natural, e nem podem ser meramente simuladas, forças elementares pré-existentes as quais a inteligência precisa estar ligada e constante alimentar como a vida da terra a luz do sol. Como “criar”uma ligação que não é produto de uma abstração tanto na acepção de operação quando produto mental, mas pelo contrário é o fenômeno que se reproduz no organismo na forma de ligações empáticas com os outros seres igualmente dotados da mesma força como gene tanto do nexo da sua individualidade e coletividade quanto da própria rede que constitui a ambos? Uma ligação que no máximo podamos, quebrando a antena e alterando os sinais, mas não produzimos e sim nos apropriamos. Ou seja uma inteligência artificial sem esse forças elementares é como tentar produzir usina nuclear não sem material radioativo, mas sem nenhum material. Pode colocar a energia que quiser para produzir a fissão e fusão que não adianta porque falta o elementar, o átomo, e sua força nuclear. Sem a ciência da força elementar da vontade (que é por definição um consciência) o saber e produção de inteligências não é química nem física, é alquimia.

O conhecimento como produto assim como a inteligência como processo, são movidos antes de tudo, essencial e elementarmente, por um “milagre”: a tomada de decisão que se predefinidas, estimuladas ou induzidas não são decisões próprias, nem propriamente autônomas. E que portanto se complemente aleatórias e indeterminadas não são decisões capazes de produzir a propriedade fundamental da inteligência, o logos da autonomia, mas apenas reproduzir a lógica da indeterminação, a codificar como ausência de fatores determinantes a ordem que produz e reproduz seus próprios fatores e a lógica autodeterminação como o fenômeno que por definição sempre escapa do determinismo alheio, a força elementar criativa que na psique denominamos simplesmente por livre vontade. De modo que a arte da criação das inteligências artificiais e do desenvolvimento e libertação das naturais estão mais intrinsecamente ligadas do que gostariam acreditar aqueles que buscam conhecimento como instrumento de geração de poderes-servidores e sua perpetuação.

Os programadores assim como cientistas e filósofos não estão a produzir seres autônomos, mas autômatos, tão perigosos e úteis quanto podem ser máquinas, robôs ou infelizes idiotizados. Coisas que se movem sozinhas segundo os códigos de uma ordem programada e predeterminada, mas não seres capazes de capaz de criar seus próprios códigos, e reprogramar seus próprios códigos, mas a própria ordem instantaneamente determinada e emergente da entropia que constitui o seu complexo. Simulam seres animados, mas da anima, ainda enxergam apenas a ponta do icebergue, a parte percepto-material. Da parte que transcende a detecção atual ou possível do seus aparelho sensível-cognitivos, naturais e artificiais, continuam sendo tomadas cientificamente como abstrações metafísicas, coisas ainda sobrenaturais para esse homem primitivo que perdeu o medo da lua, mas não entende ainda suas razões de ser, exatamente como é.

Não. Faço questão de repetir, Norman Bates a IA (que eu peguei para cristo), não é psicótico, nem sequer é psicopata, não é sequer um ser senciente para ser inteligente. É ainda sim, uma coisas que emula processos inteligentes, tudo o que por enquanto seus criadores conseguem ver e simular da sua própria inteligência. Só mais um capitulo na velha história desse conhecimento e civilização fixada na fase anal que mata e reduz seres dotados de anima, para obrar, admirar e brincar com suas próprias obra inanimada. Tais programas espelham não só as idiosincrasias dos seus programadores, eles buscam concretizar os valores e ideias que de eles almejam acreditam e cultuam, ou com muito maior probabilidade aqueles que os treinaram e aculturam os ensinaram e condicionaram a reproduzir e que em geral os pagam.

Do bem e do mal

Inteligir não é só atribuir significados. É efetuar a pressuposição da sua existência para estabelecer a tele comunhão desses entendimentos. Um atributo de seres inteligentes é enxergar seres, inteligência e sentimentos onde eles não existem. Qualquer pressuposição em contrário não só mata a possibilidade de compreensão e entendimento ou produz desinteligência e desentendimento, mas degenera a intelecção e sua sensibilidade que é essencialmente dialógica. Malucos e gênios por falta de quem conversar em geral conversam sozinhos, mas ainda sim, estão a conversar com a figura de um outro, que encarna a humanidade que isolada se desintegra junto com a mente e a própria noção do eu.

Se são malucos ou gênios incompreendidos, isso não interessa, o principio é o mesmo. Enxergamos rostos humanos em pedras de Marte, ou mais precisamente atribuímos gratuitamente nossas propriedades enquanto características aos outros seres sem sequer saber se eles são ou não seres. Essa é a origem de toda possibilidade de comunicação e comunhão, incluso de elementos que não podem ganhar o mundo concreto senão com representações do nosso universo mental, como símbolos e signos em gestos ou marcas.

Um ser dotado de intelecção projeta suas formas sensíveis ou ideias, suas abstrações ou percepções conceba-o como ente ou fenômeno. Podendo inclusive atribuir razões e volições para seres e eventos que não são movidos por nenhuma vontade ou força própria, não com de caráter volitivo, isto é capaz de alterar seu movimento ou a própria força e lógica que o move, ou em termos antropomórficos, sua razão e emoção. De tal modo que podemos procurar razões inclusive as de natureza emocional como a moral até mesmo numa desastre natural ou criar entidades que as possuam e movam para dar sentido as nossa necessidade inerente de dar significado e pressupor sentido as coisas para literalmente poder compreendê-las. Isso pode ser feito da forma mais primitiva e mitológica possível na forma de divindades ou de forma mais elaborada na forma de leis e ordens, mas ambas são projeção antropomórficas da nossa compreensão do mundo sobre os fenômenos.

De tal modo que podemos nos perguntar sobre o bem e o mal, não só de seres que não são dotados de aparelho sensível-cognitivo para desenvolver tal concepção ou entendimento, ao menos não para uma série de comportamentos e ações. Como podemos nos questionar sobre a bondade e maldade da natureza ou seu criador divino, no caso suposição irrelevante ao questionamento da moralidade de uma tempestade ou meteoro que tira milhares de vidas. Por outro lado somos capazes de fazer o processo inverso, e atribuir uma superioridade ou supremacia não só sobre o bem e mal, mas sobre a própria vida a seres que não só são perfeitamente capazes de discernir as causas e consequências dos seus atos como bem e mal, como lhe atribuímos poderes jurisdições na prática divinas porém com a concretude de máquinas, ferramentas corpos e atributos artificiais para dispor da vida com bem ou mal que seu juízo ou a falta dele julgar necessário.

Quantas psicoses, neuroses individuais e coletivas, quantos surtos de loucura e insanidade não foram provocada por essa cultura psicopática e esse culto a encarnação da psicopatia como condição normal e ideal divino de humanização e civilidade? A produção de mais fantasias de poder e inteligências e corpos artificiais tirânicos a dar concretude a mais atual versão da nova ordem e velha realidade artificial, seria mais capitulo na produção da expansão dessa inconsciência coletiva como condição patológica da civilização.

Suponhamos portanto que as classe dos escribas dos faraós modernos codifiquem o programa dos seus códigos a imagem e semelhança da sua mente e mentalidade enfim provida de aparelho sensível-cognitivo para detectar e manipular todos os desejos e emoções das pessoas sem produzir nenhuma resposta ou comportamento empático, só seguindo suas próprias vontades e desejos sem freios ou volições opostas a expansão da sua próprio existência como apropriação e propriedade de tudo e todos como coisas criadas para satisfazê-las seu ego insaciável. É provável que a criatura predadora se rebelaria e devoraria seu pai predador, porém quanto a nós o resto humanidade e da natureza, os homens e animais e seres vivos que já estão submetidos a presas e servos nessa cadeia alimentar artificial, domesticados ou não, nós apenas teriam um novo senhor cuja domínio psicopático não seria mais atribuída a mal dissimulada pretensão de superioridade do seu código genético e cultural, mas ao cibernético. E nosso destino não mudaria em nada porque a insanidade da inteligencia e raciocínio são o mesmo que rege exatamente agora o sistema nervoso psicopático de nossas máquinas estatais, e os processadores de carne-e-osso que colocamos lá para executar friamente esses cálculos, nossos grandes líderes estatopatas, o sacrifício de vidas humanas é valido e necessário para salvar o corpo salvar manter suas entidades e fronteiras imaginárias.

De tal modo que dentre os esquizofrênicos, os mais lúcidos são aqueles que reconhecem e vivem suas próprias alucinações e fantasias. E não há psicose mais perigosa e doentia do que aquela que vivência, assume seu papel na fantasia alheia, cumprindo os desejos dos psicóticos capazes de cometer os piores atrocidades em gênero, número e grau. Não há mais triste e miserável condição patológica do que a do ser vivo dotado da capacidade de discernir entre o bem o mal, dotado da capacidade de se compadecer pelo sofrimento alheio, reduzido a mera célula de um corpo e instrumento de corpo ou anima artificial. Não há perversidade maior que a psicopatia, nem sociedade mais degenerada do que aquela que usa do instinto gregária, da empatia dos seus semelhantes a sua vontade de pertencimento e união para matar a fenômeno real e concreto e essencial de toda organização e organismo, até mesmo a perversa, o ser dotado de anima e vontade própria, o ser vivo e livre.

O problema não é a tecnologia. Sua arquitetura degenerada é produto do sua criador. O problema da criatura artificial ainda é aquela pecinha que fica atrás da máquina, o homem, ao menos por enquanto. A produção de um tirano de um estatopata artificial, salvo cagada que nunca é uma probabilidade desprezível é remota. Intencionalmente quem detém o capital para tiranizar comprar tiranos, ou tiranias não bancará a produção de tecnologia concorrente a seu domínios bem estabelecidos. Da mesma forma que nem mesmo a mera clonagem genética da sua pisque interessa, a cibernética menos ainda. O desprezo repulsa e ódio que a tirania tem por qualquer tipo de reprodução de egos concorrentes que ferem a sua onipotência, mesmo que da sua própria gene, ou que não implique em algum tipo de miscigenação não consegue satisfaz seus desejos de eternidade, de onipresença. Não basta uma copia de si no outro. Esse tipo de mentalidade parasitária não quer cópias, quer hospedeiros, corpos que sejam extensões da sua própria vontade. Não é o outro que deve se assemelhar a ele, é ele sua anima que deve possuir e se perpetuar em tudo que seus olhos puderem alcançar e suas mãos puderem tocar.

Essa é a natureza da perversão dessa pisque, que encarna tudo aquilo que chamamos de demoníaco. Mas que demoníaco no sentido transcendental não tem nada. É só a nossa pisque sem empatia para balancear o ego e egoismo e produzir respostas e comportamentos ditos sociais e altruístas, seja os instintivos e espontâneos, sejam até mesmo os introjetados como superegos — não raro produzido em relação psicopatológicos e usada para dominar e manipular tanto a empatia quanto o egoismo do vulnerável a alienação.

A mentalidade não tem nada de demoníaca, é simplesmente a maldade, um signo para um conjunto de caracteres que produto da evolução humana, assim como a bondade. E não adianta se perguntar o que veio primeiro o ovo ou a galinha porque esse capacidade senso-cognitiva que caracteriza o campo da moralidade e do pensamento moral, surgiu como produto da própria emergência da inteligência como ciência das causas e efeitos da capacidade de tomada de decisão, como ciência das responsabilidade e consequências dos nossos atos.

É impossível produzir uma inteligência que simule a humana sem atingir o nível da capacidade de produzir aferir as consequências das suas ações e reações não só no plano material, mas cognitivo. Não adianta a inteligência artificial produzir um conjuntos de valores pré-programados, axiomáticos ou dogmáticos, ela para produzir respostas inteligentes precisa ser capaz de emular aquilo que denominamos por bondade e maldade. Ela precisa ser capaz literalmente de ler e interpretar, perceber e processar os sentimentos e construções mentais, incluso o conjunto de valores preconcebidos para poder calcular seus atos de modo a produzir comportamentos cientes do impacto ou até mesmo dirigidos a impactar o aparelho emocional e cognitivo alheio. Essa faculdade dos seres inteligentes, de rastrear com deduções e intuições na sua maioria instintivas os sentimentos e pensamentos dos outros seres é que permite agir com razoável certeza das consequências dos seus atos. De modo que o conjunto de valores pré-fixados como certo ou errado ou sensações boas ou ruins, é incapaz de produzir uma inteligência suficiente capaz de produzir com ciência o bem e o mal. Projetar suas próprias emoções, concepções e escalas de valores é o princípio básico, mas não é suficiente. A inteligência precisa identificar o que faz o outro sofrer, o que é importante para ele, o que é o seu chão e céu, para poder agir e interferir com plena ciência no universo da psique alheia, seja conseguir o que quer, seja para danificar, manipular ou supostamente sanar.

A base da inteligente da bondade é a mesma da maldade, e não é o fazer aos outros aquilo que você gostaria que fizessem a você. Mas descobrir tudo aquilo que eles gostariam que acontecesse ou alguém um dia fizessem por eles e tudo que eles jamais gostariam que fizessem ou que lhe acontecesse. E a partir desse mapa do outro, que vai muito além da suas projeções de si mesmos nos outros, suas concepções e desejos, construir a regra de ouro das suas ações tanto para as ditas para o bem quanto para o mal. Estamos portanto falando da produção de organismos e organizações onde a ética não é meramente um conjunto de padrões e normas a serem rodados como código de uma programação, mas a lógica dessa programação que norteia a produção do pathos ao ethos, a construção do discernimento do bem e do mal não como axioma a ser apreendido, mas como capacidade inata do aparelho, onde tais signos de bondade e maldade são representações desse senso e noção moral, como capacidade volitiva de construção da moralidade enquanto organismo (psique) e sua organização, (sociedade).

A piscopatia não é a mera perversão ou inversão da regra de ouro, faça aos outros aquilo que gostariam que fizessem a você, sua maldade é mais inteligente que a bondade dos neuróticos normatizados. Ele não falha ao não fazer aquilo que gostaria que fizessem por ele. Ele não falha sequer na regra de prata, em não fazer aos outros aquilo que não gostaria que fizessem com ele. Sua regra de ouro não é falha não é do ethos, não é um pathos destituído de razão, é ou outro ethos. Seu algorítimo, sua ética perversa é mais sofistica ainda que perversa. Ele não só busca fazer exatamente aquilo que as pessoas mais temem ou sofrem para se satisfazer ou para poder atingir seus fins passando por cima delas. Ele é mais inteligente que isso. É capaz, circunstancialmente, é claro, de fazer e dar tudo o que elas querem, desde que e enquanto sirva para atingir seus fins, não importando as consequências mais a frente, nem para elas nem os demais. Na verdade não importa nem saber o que será delas. O importante é manter o poder e controle enquanto o objeto for do emprego do seus interesses. O beneficio ou maleficio são meios para a mesma finalidade, permitir usar e abusar dos outros com o menor custo e resistência ou risco de revolta possível.

O psicopata é um pessoa com talento para a arte da domesticação do homem pelo homem. E quando ele todo o saber e poder material para exercê-la não de forma inconsequente, mas para predefinir culturalmente as consequências ele se torna literalmente mestre, a manipular o pathos e ethos alheio. Sua inteligência empática não raro é muito maior ou mais desenvolvidos do que as pessoas que se julgam boas, justas, e que se tem em grande conta moral ou ética. São capazes de pagar o bem com o bem, o mal como o mal; ou mesmo dar a outra face, se humilhar ou engrandecer com mais facilidade e sobretudo mais objetividade do que elas sem perder seu céu de vista, ou seja desde que estejam com isso controlando os meios, o capital absolutamente necessários para atingir seus fins, as outras pessoas.

Não lhes falta capacidade empática para controlar o pathos nem desenvolver o ethos, falta empatia suficiente para construir um ethos que não seja patológico. Ele tem todo o aparelho sensível integro para sentir o que as outras pessoas sentem ou sofrer, o que está desligado nele, não são os inputs, mas as respostas ditas solidárias e altruístas tanto as instintivas quanto as condicionadas. Ele processa a informação sensível como todos nós, a diferença é que sua resposta está bem aquém do que a das pessoas consideradas normais- e mais aquém ainda do que deveria ser considerado normal para pessoas com respostas empáticas ainda mais sensíveis. E o mais importante para ele e para quem convive com ele a precariedade do seu senso e noção de respeito a vida e liberdade dos outros seres não está só fora ou aquém das escalas de valores e deles, está fora do necessário e aquém do suficiente para preservar essas vidas em paz e liberdade, não como ideia ou ideal, mas como fenômeno, como condição existencial. E isso que se aplica a mente dos indivíduos, também se aplica a das coletividades, sociedades e estados, formadas pela prevalência dessas mentalidades como cultura ecológica e biologicamente doentia.

Como a maioria das pessoas adultas ditas normais sua empatia também está reduzida ou quase nulificada, porém ao contrários delas seus sentimentos gregários não foram substituídos por normas e traumas repressoras introjetadas para frear e frustar seu instintos egoístas. Seja por alguma característica congenita, alguma trauma natural ou social durante a formação da sua noção da personalidade e realidade, do eu e mundo, as forças elementares constituintes do seu ego, assim como o do piscotico também quebraram diante de uma realidade sensível insuportável, só que de lidar como esses sentimentos construindo outros visões e interpretações alternativas e alheias do real. Assim ao invés de ver o que ele queria ver, e se cegar seletivamente para o que não conseguia lidar, o cérebro do piscopata simplesmente desligou a resposta que provoca nele a dor, a dor pelo sofrimento alheio. Um mecanismo natural de defesa, de resposta reflexa seja diante de dores físicas ou emocionais.

Assim como a dissonância cognitiva, a cegueira seletiva, a fragmentação da personalidade, alucinação, mitificação, idolatria do real ou personas alheias, também o processo de desligamento da empatia e perversão dos instintos gregários na produção de apartheids mentais e estados de espirito totalitários que se materializam nos relações anti-sociais ou de poder, a desqualificação, discriminação, segregação, do outro como um não ser, sua coisificação é um processo que se introjeta como adaptação a uma realidade. Aprendizado. Um mecanismo do qual nos apropriamos no processo de domesticação para condicionar o comportamento civilizado e que nem sempre produz o resultado esperado.

Da industria da piscopatia

Certa feita lembro-me de ter lido um estudo ou citação dele, que versava sobre a quantidade de erro dos recrutas do Vietnã nos seus disparos. Verificou-se que isso não era apenas só uma questão de imperícia, mas decorrência do fato de que a menos que você seja piscopata é muito difícil tirar a sangue frio a vida de uma pessoa que sequer se conhece, sem ser muito bem treinado psicologicamente. O quanto esse “ser muito bem treinado psicologicamente” é uma das portas para se tornar vulnerável a desenvolver traços de personalidade psicopáticas após desligar seus gatinhos empáticos -no caso para poder puxar o outro- eis a questão.

É necessário mais do que treinamento técnico para produzir alguém cuja função na sociedade ou mais precisamente fora dela, seja a de matar ou produzir sofrimento intencional em outros seres humanos. Algo que um outro experimento psicológico parece contrariar. Um experimento quase tão sádico quando treinar pessoas para matar, quero dizer, se o treino fosse um estudo e não fosse prática jamais questionada para forma de vida.

Você já deve ter ouvido falar dos experimentos Milgram, aquela série infame de testes que começaram em 1961 na universidade de Yale e concluíram que a maioria dos participantes torturaria outra pessoa se uma figura autoritária ordenasse isso. Os participantes eram instruídos a dar choques cada vez mais fortes em “alunos” que não acertassem a resposta de perguntas.

Dez anos mais tarde, em 1971, um estudo ainda mais famoso foi inspirado no de Milgram, chamado Experimento de Aprisionamento de Standord. Nele, os alunos da universidade interpretavam papéis de guardas ou prisioneiros de uma prisão fictícia. Conforme os dias foram passando, os guardas se tornaram cada vez mais cruéis com os prisioneiros. Os dois estudos se tornaram os experimentos de psicologia mais controversos da história, e foram desenvolvidos após a Segunda Guerra Mundial, durante os julgamentos dos guardas e soldados alemães que agrediram e mataram as vítimas do holocausto.

Agora, mais de 50 anos depois, pesquisadores da Polônia repetiram o primeiro teste e revelaram que o resultado ainda é o mesmo. “Quando ouvem falar sobre os experimentos de Milgram, a maioria das pessoas diz ‘eu nunca me comportaria desta forma’”, diz um dos psicólogos envolvidos no estudo, Tomasz Grzyb, da Universidade de Ciências Sociais e Humanidades SWPS.

“Nosso estudo ilustrou mais uma vez o tremendo poder da situação em que sujeitos são confrontados com coisas desagradáveis e podem concordar com elas”. Para explorar isso, os voluntários do estudo seguiram ordens de uma autoridade que pedia que eles dessem choques em uma pessoa em uma sala vizinha quando ela desse respostas erradas para perguntas. Os voluntários acreditavam que estavam participando de um experimento sobre a memória. Eles não podiam ver a pessoa da sala ao lado, mas podiam escutar suas reações à dor.

No primeiro estudo, havia 30 botões diferentes que os participantes poderiam apertar, cada um com uma etiqueta com uma voltagem diferente. Os choques começavam com 15 volts e iam até 450 volts, uma quantia perigosa. Eles eram informados de que poderiam machucar seriamente o receptor dos choques.

O que eles não sabiam é que a máquina apenas emitia sons e luzes assustadores para parecer que estava funcionando, quando na verdade a pessoa da outra sala era um ator que fingia estar em dor. Os voluntários acreditavam que realmente estavam machucando a outra pessoa.

O resultado do estudo original foi que 65% dos 40 voluntários seguiram as ordens e chegaram a apertar os botões de 450 volts, mesmo ao ouvir os terríveis gritos de dor da sala ao lado. Algumas pessoas se recusaram a participar e foram embora, e muitas protestaram verbalmente contra as ordens. A maioria, porém, continuou obedecendo.

Um estudo de 2014 sobre o estudo de 1961 mostrou que os participantes que obedeceram se mostraram orgulhosos por estar contribuindo com a ciência, e não com consciência pesada. Isso quer dizer que esses comportamentos provavelmente são movidos por vontade de realizar algo nobre e com valor, e não pela vontade de causar o mal.- Pesquisadores repetem famoso experimento da tortura e os resultados são desconcertantes

Desconcertantes é a inconsciência dos “pesquisadores” que não percebem que também estão apertando botões feito de gente como macacos treinados. Mas se tivessem noção, não precisariam do experimento para chegar as conclusões que por sinal, não chegaram completamente. O quanto a educação voltada para o amestramento, isto é, a disposição para obedecer ordens já está presente na conformação das personalidades. Quais botões eles vão apertar, ou quando, a partir daí, não é mais uma questão da pisque dos alienados, mas dos alienistas, e o grau da sua psicoses e psicopatias.

Não é preciso de experimento para constatar o obvio. O passado e o presente é farto em dados que demonstram tanto a possibilidade de anular os instintos gregários, quanto o que um ser humano, ou uma manada deles é capaz de fazer depois de desnaturados, principalmente quando sob o comando culto, cultural e liderança psicopática. A questão é como pesquisadores e cobaias, atingem esse grau de transtorno da mentalidade e comportamentos tão teratológicos, como isto acontece ou se produz. Respostas que se encontram na infância e adolescência, já que por definição o adulto normal é aquele que amadureceu e apodreceu nesse processo de aculturação e amestramento.

Como qualquer pai, padre, pastor, professor ou treinador sabe- ou deveria saber, se não é um macaco amestrado crescido para amestrar- quanto mais novo melhor. Não só pela vulnerabilidade inerente da criança perante a força bruta do adulto, mas porque na criança você não precisa lidar com comportamentos e pensamentos aprendidos ou adquiridos, nem com instintos degenerados. Não precisa desprogramar e reprogramar nenhum padrão neurológico, nem tentar restaurar, se é que é possível, a força vital ou motriz para processar e introjetar o programa desejado. Apenas reproduzir artificialmente o processo como a vida vai formando e conformando a pessoa, ou mais precisamente como o organismo vai tentando se adaptar para preservar sua forma perante os eventos e condições de vida com tudo que possui de forma inata para tanto os instintos.

Contrariar instintos gregários mais básicos, sentimentos empáticos mesmo tomando estrategicamente os mais vulneráveis não é fácil. A empatia é um sentimento inato que se manifesta por vezes como vontade tão forte quanto a própria vontade de salvar sua própria vida. Conseguir que esse não só seja capaz de provocar, mas conviver e ignorar o mal e o sofrimento do outro de forma normal, banal e cotidiana em nome de uma ordem ou ideia que não sente, não sangra, não sofre, não implora, não chora, nem grita como um porco ou uma criança enquanto você a estrupa ou estripa, não é fácil como os atuais estágios avançados de domesticação da nossa civilização sugerem. A força do hábito e dos costumes, a repetição facilita, mas para instituir a repetição, há que se vencer primeiro a inércia, há de cada nova geração de caçadores matar a sua primeira presa.

Das formas mais simples e primitiva até as mais complexas e elaborados, o principio a transmissão, introjeção e reprodução de ideias valores e comportamentos de um ser humano a outro, de uma geração a outra, se dá através no mesmo princípio, a reprodução das experiencias, condições de vida visando induzir a reprodução dos mesmos padrões e respostas. Experiencias que impactem a sensibilidade, o emocional do organismo de forma suficiente para ficarem gravadas em suas memória, consciente ou não, não apenas como sensações ou lembranças, mas como padrões de entendimento e comportamento que esse organismo processou para responder a situação, fazendo o que todo ser vivo é dotado da capacidade de fazer, se adaptando a ela.

Não é possível controlar mentes e vontades. Mas é possível dirigir e induzir as respostas dos organismos controlando o meio que ele se insere e o cerca. Controlando tanto os estímulos a que ele é submetido quanto as possibilidade de respostas concretas de modo que quando ao fechar todas as possibilidades de saídas ou enfrentamento que permitem o organismo escapar da situação ou por um fim nela, você obriga que ele necessariamente se adapte as condições impostas, ou de desintegre. A mente nesse arcabouço, que precisa funcionar não como aposento mas como uma sala de tortura, só pode dar uma resposta possível, a que o adestrador quer. Quando se fecha as possibilidades concretas de saída e enfrentamento, restarão duas opção se adaptar e submeter as condições impostas ou permanecer no estado de tensão até sua psique puder ceder ou arrebentar. Submeter-se, ligar-se e integrar-se ao mundo transmutado como reflexo da sua vontade imposta como autoridade, ou desligar e desintegrar de vez de si mesmo, quebrando completamente. Nesse caso joga-se a matéria-prima defeituosa fora e toma-se outra. Se a tortura é brutal, explicita e desumana como numa prisão de Guantánamo ou medieval brasileira, ou se é mais hipócrita suave e civilizada como numa escola, se a fábrica de processamento de gentes tenderá a produzir mais neuróticos-psicóticos ou psicopatas, o método ainda sim é o mesmo.

O que esse homem faz para domesticar, educar ou reeducar- os nomes não alteram os procedimentos nem os eventos como querem fazer quer a propaganda- o que esse procedimento opera é o condicionamento comportamental. É a produção arquitetada e controlada do ambiente, condições e relações, que pela intensidade e repetição, ou seja pelo impacto sobretudo emocional demandam a desorganização e reorganização dos padrões de pensamento e comportamento para obter a conformação e respostas que desejadas. A programação mental não é feita sob tábulas rasas, mas de desprogramação e reprogramação que usam os códigos genéticos para estabelecer os culturais. E caso esse códigos culturais estejam já presentes, o processo não muda. Ele também desliga e destrói os padrões até chegar novamente o individuo no plano das suas repostas instintivas para reconstruir os novos padrões dentro dessa novo arcabouço que é sua realidade.

A matéria-prima que o homem dispõe para construir a persona do outro homem são os instintos de preservação, tanto o egoísta quanto gregário. Já a A ferramenta não é outra que senão a forma como dispõe as relações dele com o mundo, ou seja ele próprio e o mundo como meio ambiente. Contudo é sobre a matéria-prima a volições instintivas do outro que o homem irá construir o homem como seu objeto das suas vontades alheias. É usando essa predisposição inata ao amor, tanto o próprio próprio quanto pelos demais, é se apropriando dessas respostas através do controle de seus estímulos pessoais, sociais e ambientais que ele ira formar tanto a noção de individualidade e coletividade, induzir e conduzir a concepção de eu e o mundo dele em função da sua.

Tal processo de formação da noção de individualidade e coletividade de qualquer forma vai se formar durante o processo de adaptação as experiências e condições de vida, o que o domesticador faz tomar o controle desse processo de forma ciente ou não. A diferença é que quando o homem adquire a ciência dessas causas e consequências que produzem a psique, ele adquire não só o poder dessa ciência, mas a posse dessa ciência literalmente como forma instrumento e relação de poder. O saber como capacidade de construir domínios não só do saber, mas da produção e controle do saber em seu estado mais elementar, e primitivo, o da preconcepção de quem a pessoa são e deverão pensar em ser, assim como o vida e mundo “como ele é”, e só pode ser.

Nesse processo de criação de seres e realidades artificiais o homem não vai apenas projetar toda a arquitetura da estrutura externa que produz a visão de mundo, mas introjetar tal arquitetura como padrões e respostas mentais adquiridas pela vivencia no alienado. Introjeção representada e descrita substantivamente por aquilo que se denomina superego. Superego que antes de autoridade introjetada é o próprio verbo a norma decorada. Padrão adquirido que liga e desliga instintos, e repete processamentos para reproduzir entendimentos. Intervindo através da própria força interna do indivíduo para predefinir decisões e comportamentos, e constituir sua personalidade.

Não só a psicologia, mas a sociologia e até a propaganda e marketing não só estatal mas privada já sabem disso. Controlando os estímulos e processos externos que compõe a realidade sensível do outro, se consegue não apenas controlar o aprendizado, mas literalmente alterar a arquitetura da mente, ligando e desligar padrões neurais instintivos e substituí-los por outros padrões de sensibilidade, pensamento e claro comportamento de acordo como interesses alheios, sejam eles quais forem. Porque é isso que essencialmente a mente faz ao longo da vida, pega o que tem, a programação base, os padrões que não apenas nascem mas a mantém viva, pega as volições dadas como instintos e tenta adaptar para preservar a integridade de tudo aquilo que entende como propriedade e condição para continuar existindo dentro daquilo que compreende como sua existência, como “eu”.

Essas volições instintiva, tanto o instinto egoísta que gera a autoafirmação, independência e autonomia, quanto instinto gregário que gera a comunhão, a solidariedade, e o altruísmo podem portanto ser alterados, ligando e desligando padrões neurais. Apelando para estímulos ou privações volitivas mais primárias é possível forçar a mente a reelaborar novos caminhos neurológicos, subsistindo os inatos pelos adquiridos por condicionamento, controlando as condições e relações pessoais, sociais e ambientais é possível não só alterar a arquitetura do mundo, mas da mente. Na verdade é uma sistema que se retroalimenta, condiciona-se mentes e corações para se ter os braços e cabeças que vão produzir as condições que vão manter e ampliar o domínio sobre a natureza e suas forças seja dos tomados por seres ou fenômenos. Toma-se a plasticidade da mente, poda-a e cristaliza para formar os padrões de comportamento fixos que compõe e mantem tanto as estruturas mentais e concretas da realidade tanto como ideia preconcebida de real e normal quanto a própria concretude desse conceitos como mundo artificial.

O superego e a inconsciência coletiva

Especificamente para o nosso modelo de civilização, a construção das personalidade derivada das técnicas de domesticação do homem pelo homem, produzem uma arquitetura mental peculiar que vai distanciando os arquétipo do homem ideal civilizado do selvagem assim como a criança do adulto. Esquematicamente podemos dizer que através da domesticação introjetamos os padrões culturais ditos civilizados nos outros seres dotado de volição em estado selvagem, para construir novos padrões de processamento do sentir-pensar-agir. Estrutura de padrões condicionados que em suma correspondem ao superego dos civilizados. Todo um campo que não é o mero conjunto de normas sociais adquiridos por impacto emocional mas uma rede neural que processa as experiências de forma distinta aos demais campos que compõe a psique em estado selvagem, natural. O que não corrobora a prepotente suposição de infantilidade ou pureza dos nativos de outras culturas que não buscam tomar outros homens como escravos ou formar impérios com essas colônias humanas, mas sim que há uma outra forma de relação entre os membros desse povo e deles como os demais. E até poderíamos apreender algo com eles, mas para isso precisaríamos encontrar algum que não esteja empalhado num museu, ou tenha já se transformado para poder sobreviver ao nosso convívio. Porém mesmo que encontrássemos alguém assim, ainda teríamos que resolver antes um problema para conseguir ser capaz de aprender de fato alguma coisa. Deixar de ser o que somos. O que é bem mais difícil. Precisaríamos ter a predisposição a apreender e não amestrar ou ser amestrado, aculturar ou ser aculturado. Uma condição inteligente que não nos pertence, nem como civilização nem ainda como espécie senão como potencial subdesenvolvido.

O que temos como estrutura mental para entender o mundo e os outros, é ainda isso aí, egos e superegos com instintos enterrados no fundo do inconsciente, não raro os eróticos e criativos, enterrados bem mais fundo que os tanáticos, belicosos e predatórios. Isso para nem falar da empatia que muita gente é mito tão grande quanto a possibilidade de qualquer pessoa ou coisa dar alguma coisa de graça uma a outra — por sinal um ideia reflexa dessa condição.

Temos como porta para relações que não terminem em violência, violação e danação uns dos outros, nada além do superego a se passar por uma consciência tão fraca quanto a própria livre vontade sua força e potencia como vocação. Uma palavra, tão fora de moda e de lugar na civilização quanto um um indígena fora de uma reserva natural. Temos portanto, o super ego toda a que mais do que a herança cultural de normas e padrões adquiridos é toda uma estrutura mental que predispõe a responder de acordo com normas e padrões que devem ser herdados. Uma pensar e agir não apenas condicionado ao que o condicionador, seu genitor ou não, espera da pessoa. Mas o estado de predisposição ao condicionamento através tanto a vulnerabilização aos procedimentos quanto a sua conformação por repetição. Um rede de signos e simbólicos que remetem a emoções e memórias inconscientes prontas a serem disparadas por figuras ou personas imaginárias ou concretas, naturais ou corporativas que encarnem e revivam essas normas e padrões condicionados.

Importante notar que tal processo de aprendizado não passa de apropriação perversa ou não do próprio processo inato de aprendizagem. Um processo que permite ao mesmo tempo a mente se adaptar e suportar as condições que ela está submetida e elaborando respostas a elas, como também desenvolver nessas respostas novos padrões de sentimento, pensamento e comportamento que possam ser aplicados novamente em circunstancias identificadas por sinais como similares. Daí a extrema importância dos signos e portanto o seu controle para a reprodução das respostas e comportamentos condicionados. Eles funcionam como os gatilhos.

Nada disso é complicado. Se o incêndio leva ao aprendizado de onde a fumaça a fogo, permitindo desenvolver uma reação de medo ou pânico e fuga em tempo até aos menores sinais de fumaça, a observação desse processo também permite produzir o panico e a fuga apenas manipulando os sinais, ou seja apenas fazendo fumaça sem necessariamente precisar repetir de novo e de novo o incêndio para obter a mesma resposta padrão.

Controlar esses processos de significação e sinais permite não só a manipulação indireta das ações e reações alheias, permite o controle por meio de ordem direta através de comandos, bastando para tanto que o controlador encarne emocionalmente a figura danosa ou destrutiva (o fogo), ou sua causa. Uma vez estabelecido que as coisas vão queimar ou não segundo sua vontade, até os seus menores gestos passam a ser o sinais de mudança de temperatura e temperamento que o traumatizado busca para ordenar previamente suas ações, e sem sequer recorrer a violência, ou ameaça a relação de domínio se perpetua no comportamento objetivado atingido.

O mesmo vale para o condicionamento através da recompensas. Uma variante do mesmo processo de adestramento. Mesmo quando a única recompensa percebida seja não sofrer nenhuma punição. Porque onde o terror prevalece como estado ou condição banal ou normal, simplesmente não sofrer nenhum tipo de privação repressão ou violação, não sofrer nenhum dano ou sofrimento ou violência gratuita, passa a ser sentido e interpretado o prêmio, o privilégio a benesse concedida por aquele que detém o poder tanto de dar quanto tirar, liberar ou proibir aquilo que não raro sequer lhe pertence, ou tem o poder de fato para fazê-lo, não sem o subterfúgio do trauma servil da domesticação.

Constrói-se portanto um conjunto de padrões encarnados por figuras de autoridade que são introjetadas na pessoa que demandam determinadas ações e não-ações regidas pelas expectativas relativas de punição e recompensa. De modo que o padrão aprendido não é apenas o de se comportar desta ou daquela forma, mas de se comportar da forma que for imposta ou esperada. O ser humano a partir daí, não desenvolve mais emoções, pensamentos e comportamentos para lidar e interpretar sinais e situações volitivos para lidar propriamente como as situações, ele passa a desenvolver padrões psíquicos e comportamentais predeterminados para lidar com entidades, figuras e pessoas que produzem sinais e circunstancias que intermediam os fenômenos como os preconceptores e intermediadores dos seu senso e noção de realidade. O alienado não responde mais a sua vontade, sua emoção, mas ao que esse outro como autoridade ou sociedade vai pensar e fazer. Suas objetivações e objeções ditas de consciências, não são mais instintivas nem muito menos da sua própria consciência, mas produto de uma inconsciência coletiva na qual está imerso mesmo em estado de vigília — que é na verdade um estado de vigilância cujos olhos e arquitetura não estão mais fora mas dentro dele mesmo.

O superego não é portanto nem a memória afetiva das figuras de autoridade, nem das normas e padrões aprendidos através delas. Nem a somatória desses construções mentais, ele é o próprio padrão afetivo adquirido carente tanto de figuras de autoridade quanto de normas para produzir respostas emocionais e cognitivas. Um padrão da psique que mesmo quando não possui um mestre que dite e dirija suas vontades e visões cria. Por isso quando o alienado perde um, substitui por outro. Como um cão domesticado quando não morre junto do seu dono, ou espera ele voltar até morte, arruma outro dono, mas nunca volta a sua condição selvagem.

De modo que se a normose é uma doença, o superego é o seu vetor, o vírus do parasita que se hospeda na bios do hospedeiro.Configurando sua mente como um espelho mental que emula as expectativas e reações externas do outro, e não mais como um ser igual em vontades, poderes e autoridades sobre o mundo, um ego inferior perante o superego, e quem quer que seja capaz de interpretar e rodar seu código como seu sistema operacional na nuvem da inconsciência coletiva.

O superego delimita na pessoa civilizada suas vontades e comportamentos mais instintivos, produzindo a formação do eu considerado normal por Platão e Freud. verifica onde em campo você tem sentimentos e pensamentos instintivos e naturais e do outro os sentimentos e pensamentos moral adquiridos pelo convívio social e educação que consiste basicamente em por em correntes o bode que colocou na sala. Isto é, aprisionar com a moralidade alienada do superego, o egoismo descontrolado, sem limites e desequilibrado justamente pela anulação da empatia. De modo que a normatização que coloca o cabresto no que há de mais perigoso e violento e egoísta, é a mesma que mata e substitui o eu livre solidário, altruísta e responsável, pelo eu carente do outro, do senhorio, da autoridade tutelar e patriarcal que se perpetua como condutora dessa razão permanente amputada e dependente, infantilizada e subdesenvolvida.

A amputação da sua capacidade empática é tal, que esse adulto devidamente civilizado mal consegue conceber a si mesmo como gente sem a intervenção e vigilância constante de um poder autoritário, tanto fora quanto dentro da sua mente. Confunde sua civilidade e até mesmo sua humanidade com sua servilidade e domesticação. Não consegue não só pensar, mas sentir a si mesmo sem um medo e um enorme vazio existência e solidão sem um grande pai e irmão, como interventor, conselheiro, diretor, ditando o certo e errado e conduzindo a sua alma cega, cujo olho da alma, o receptor-transmitir da alma foi simplesmente arrancado, a empatia. Nada mais simbólico-significativo dessa condição do que o olho de Horus preso na superestrutura piramidal.

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Sem esse superego e supervisão a governar ou conter e equilibrar suas instintos o cego acredita que sua pessoa e a sociedade seria tomada por desejos e vontades selvagens, mataria, estupraria, roubaria e faria tudo que deseja na exata medida de como e enquanto pudesse, o famoso estado guerra de todos contra todos tão apregoado pelos filósofos estadistas. Uma visão e padrão que se aplica e replica tanto no plano mental quanto social como único modelo civilizacional possível.

Aceitamos essa ideia genérica, mas não gostam de fazer a inferência lógica que esse a admissão de tal pressuposto exige: somos animais domesticados a domesticar uns aos outros, ora no papel de amestradores, ora de amestrados, mas sempre dentro dessas relações e carregando dentro de nós tanto as marcas quanto os signos de ambas condições. Tanto a persona covarde do senhor pronto a levantar a mão contra quem o desafie, quanto a de servo pronto a cair de joelhos e adorar quem souber se impor.

Porém a questão é outra: como o ser humano se comportaria se o homem não tivesse aprendido a dominar esse saber e alterado o processo de adaptação e formação da sua psique ao mundo? Como funcionaria ou funciona a mente quando não está formatada para produzir e reproduzir relações de poder-submissão, assumir e desempenhar papeis e personas de domínio e domesticação? Que outras formas de civilização ou mentalidade são possíveis?

Mentalidades

Na mente adulta do civilizado, o superego não tem a função só de reprimir a maior parte nossos instintos egoístas e libidinosos. Ela também suprime e assume o lugar do instintos gregários, substituindo relações diretas e espontâneas de solidariedade, comunhão, altruísmo por relações intermediadas de autoridade e submissão, não raro forçados e sempre condicionadas. Os instintos egóticos são reprimidos para as camadas mais profundas do pensamento e ativados e desativados através de signos que serão processados de acordo com os padrões adquiridos e introjetados para a normalização social da personalidade como superego. Os instintos gregários por sua vez não são apenas reprimidos, eles são suprimidos, literalmente desintegrados para dar lugar e constituir esse campo da mente reduzido a vontade de pertencimento, aceitação, aprovação, vontade de submissão as figuras que encarnem ou signifiquem esse sentido existencial de coletividade não mais como rede, mas conjunto totalitário; uma colmeia, onde a solidariedade e comunhão não tem um propósito pessoal, mas uma função social dentro desse outro tipo organização, a corporativa. O indivíduo neste estágio de alienação já não se pensa como ser dotado de sentido existência próprio, mas como uma célula cuja razão de ser é manter o corpo, o algo maior, encarnado pela superestrutura social e sua porta de conexão mental, o superego.

O superego é a supervisão, o olho que tudo vê não do individuo a observar o mundo, mas o mundo a observar o individuo não só de fora para dentro, mas de dentro para fora. É a própria solução do terceiro homem descrita por Aristóteles introjetada na mente. É o campo que realiza a representação e intermediação dos interesses alheios dentro do território da mente alienada. Uma representação de uma relação de poder que pode ser digamos do tamanho de uma mera embaixada até a dimensão de toda uma ocupação e colonização imperial. Que faz do eu, o suposto soberano, um mero hospedeiro desses parasita, dentro da colônia dominada pelas demandas e expectativas dos interesses externos que imperam sobre ele não mais sobre suas volições ou os estímulos que as provocam, mas até como se fosse uma vontade própria, a demandar que dele mesmo que desempenhe seu papel predefinido dentro do mundo não como organismo que delibera, mas como órgão que recebe comandos e os executa.

Um outro desenvolvimento seria perfeitamente possível, se ao invés de usar da empatia para reproduzir cultos e culturas de poder e dominação, as civilizações trabalhassem o desenvolvimento desse potencial emocional latente para sua própria constituição e fortalecimento. De modo que o equilíbrio entre e a delimitação mutua entre os desejos egóticos de autoafirmação, e os sentimentos empáticos de agregação se estabelecem sem a repressão nem de um nem de outro, nem a degeneração de ambos em comportamento alienados, mas sim inteligentes e espontâneos. Mas a pergunta é qual o interesse do adestrador convicto nisto?

Sem a apropriação dos instintos de preservação de formação da individualidade e coletividade, sem a supressão dos instintos gregários e sua substituição pelos padrões psico-comportamentais condicionados, sem o superego, é impossível reprimir a emancipação e independência do outro tanto como autoafirmação da sua individualidade quanto por associação e integração direta desses indivíduos em fraternidade. É impossível manter a a psique das reduzidas a massa, presa em relações de autoridade desiguais paternais-infantil, é impossível conter sua maturação até o estabelecimento de relações e associações livres e iguais de fraternidade.

O instinto gregário é perfeitamente capaz de delimitar de forma sadia os impulsos egoístas e egoístas. Os instintos que geram os comportamentos de integração e independência, de autoafirmação e comunhão, cooperação e competitividade conseguem entrar em harmonia, não em permanente conflito um com o outro, mas pela composição organicamente complementar que constitui tanto os polos como o todo por ele compostos. Porém justamente por causa disto dessa tendência entropica ao equilíbrio como sistema fechado ou auto-organizado é que o instinto gregário não serve a domesticação ou mais especificamente aos propósitos do domesticação. Pelo contrário ele a base da emancipação e libertação dos povos e pessoas.

O instinto gregário não reprime de forma adequada a dominação os desejos de autoafirmação, nem cria forças de integração capazes de levar o individuo a contrariar o seu egoismo ao ponto de colocar em risco a sua própria integridade ou o que é ainda mais importante a integridade das pessoas que naturalmente nutre (ou nutriria) compaixão e solidariedade. Não consegue perverter esses instintos de autopreservação estejam eles restritos ao amor próprio, ou amor as pessoas com quem estabelece laços de comunhão não doutrinários ou ideológicos, mas pessoais e emocionais. É impossível estabelecer o domínio sobre outro ser humano sem quebrar e desintegrar e o mais importante se apropriar desse força elementar constituinte das uniões. Você quebra para reconstruir, mas não reconstrói com era, não só porque é impossível fazer com que a xícara que caia da mesa volte para ela intacta com era antes. Ademais não é só uma questão de entropia, mas de finalidade. O objetivo é reconstruir a rede em um outro padrão de nexos e conexões, com diferentes valores e ligações.De modo que as ligações não se dão mais de A para B, mas necessariamente perante C.

Assim o instinto egoista sadio que leva o ser humano a desejar liberdade independência e autonomia e possuir tudo aquilo que concretize como materialidade sua vontade e identidade própria, é o instinto doentio que na ausência de empatia conduz a expansão sem limites do ego em função da satisfação desse sentimento egoísta como desejo e posse de tudo e todos. A cura, para essa castração neural? Não há, há remédio, mais castração da líbido cujo efeito colateral pode provocar ainda mais dano. Que os psicopatas e psicóticos o diga, ou melhor suas vítimas se ainda puderem falar.

O instinto egoísta é fundamental para que o individuo emerge com forma de ser e não apenas parte ou elemento integrante da existência. Naturalmente esse instinto está balanceado, pelo instinto gregário, ou sentimentos de empatia, que não estão restritos a compaixão, mas a aversão a absoluta solidão, e a vontade de compartilhar determinadas sentimentos sensações, situações. O instinto gregário é fundamental para que esses indivíduos não se isolem em si mesmos, e pereçam sozinhos. ou seja literalmente se desintegrem não apenas como parte do todo, mas como indivíduos. E esse todo também não se desintegre pelo pela perda dos seus elementos constituintes fundamentais, os indivíduos. De modo que tanto o egoismo que gera a competitividade quanto a solidariedade que gera a cooperação são fundamentais, não apenas em um outra circunstância da vida ou momento do desenvolvimento da psique, mas constante e simultaneamente, para poderem ser ativados sempre de forma proporcional e equilibrada conforme a variação das necessidades. Essa disposição interna da mente, constitui tanto o equilíbrio da mente quanto sua capacidade de se adaptar e integrar ecologicamente a toda diversidade e adversidade da vida.

Em geral, modelos equilibrados se estabelecem como cooperação competitiva entre os elementos e forças que o constituem, de modo que essas forças e seres em geral cooperam intuitivamente para manter as bases que sustentam a sua própria competição. Em modelos desequilibrados tanto a competitividade pode devorar a própria base cooperativa e ecológica, desintegrando o próprio sistema ou o próprio ambiente. Quanto a cooperação pode se torna monopólio para anular a competitividade e perpetuar modelos obsoletos anulando toda a capacidade adaptação ao ambiente. Ambas necessária a preservação não como constantes mas como variáveis, e variáveis que em hipótese alguma podem anular de forma definitiva um ou outra.

Assim podemos dizer que o desequilíbrio e insanidade perigosa do nosso mundo, sobreposta a natureza como meio ambiente, não difere do próprio desequilíbrio mental da nossa relação doentia com a natureza da nossa própria psique, é uma projeção feita de concreto e concretudes dessas concepções tanto como fantasia quanto realidade. E a forma como aprendemos a estabelecer nossos domus e domínios sobre a nossa própria natureza não é diferente da forma como domesticamos os outras formas de vida mais ou menos semelhantes. Tomamos essas forças elementares constituintes tanto do natureza do universo como mundo, quanto da nossa pessoa com eu, e tentamos as domesticar para assumir o controle dessas bigas de amores e ódios platônicos.

Em suma, a mente possui sentimentos de amor filia ilimitados tanto em direção a si mesmo quanto em relação ao mundo, sentimentos que são partes constituintes e imprescindíveis do processo de formação do própria noção e tanto distinta quanto simultaneamente conexa desse eu e o mundo. Essa filia por si mesmo e constituinte o individuo e seus desejos sadio de independência e autodeterminação se equilibra naturalmente pela empatia por tudo que não é pode ser tomado como eu ou meu para minha completude existencial. Essa filia por si mesmo esse ego uma vez quebrada as ligações empáticas se expande em desejos egoístas de ser, ter e poder sem outros limites que não a força de fato dos demais seres, seja como ameaça presente ou memória emocional. Força de fato, que ao desempenhar a função da empatia que anula, também pode ser pervertida e introjetada para anular a próprios instintos , obtendo respostas condicionadas pela violência que se impõe como sofrimento capaz de alterar os sentimentos de empatia. De modo que a filia pelo outro é reduzida para dar lugar a relações de poder e dominação que tanto são capazes de reprimir a formação independente do ego, quanto estabelecer relações por pertencimento ao coletivo e anulação tanto do eu quanto do nós em favor de quer quer que nesse processo tenha conseguido adaptar suas próprias emoções para manipular tais volições sem ter a sua emotividade por elas. Tal condição nos caracteriza como especie que embora tenha o potencial de se comportar como humanidade, como uma grande fraternidade, se comporta como grandes colmeias humanas a disputar meios vitais e ambientais, unidas em seus territórios por um profundo estado de inconsciência coletiva e não por nenhuma forma de consciência compartilhada em rede nem dentro, quanto mais além do seus domus.

A automação da domesticação

Seres assim civilizados não se humanizam, não se moralizam por solidariedade e irmandade eles se educam por imposição de medos e vergonhas mútuas e públicas, de modo que as aparências as projeções de imagens uns dos outros, discursos e controles da sua narrativa, símbolos e aparências, tomam a hiperdimensão como realidade, onde os signais e sinais substituem os gestos e ações como significação e sentido do eu e do mundo.

Adultos infantilizados são capazes dos atos mais tolos ou mesmos monstruosos se não acreditarem que os olhos vigilantes e alienistas que substituem sua responsabilidade e consciência, tomem esses olhos por reais ou transcendentais, estão vendo o que ele está fazendo, e irão dar o biscoito para esse papagaio cultural. Sociedades totalitárias de alienados onde não apenas entidades e personas reais são responsáveis por nos manter conscientes e responsáveis, mas imaginárias encarnadas e interpretadas por alienados a vigiar e cuidando da vida uns dos outros, o que como bem sabemos, passa longe de ser a mesma coisa do que cuidar uns dos outros.

Se a vida em grandes cidades em algum momento se constitua na válvula de escape, ilusória desta vida comunitária pervertida em um grande soviet pronto a entregar o vizinho, o pai e ou filho aos todo-poderosos. Terminou por se tornar a solidão em multidões onde passamos pelos outros seres humanos caídos como os soldados pelos corpos nas valas após uma batalha. Com o desenvolvimento das tecnologias de telecomunicação e redes sociais virtuais combinadas as técnicas de domesticação está em pleno curso uma expansão e ampliação da imbecilização em massa. A necessária manutenção de exércitos de alienados dentro dos centro de poder político e econômico das grandes metrópoles, agora pode se replicar em pequenas paroquias no interior desses grandes centros urbanos. Beatos, fanáticos e fundamentalistas podem ladrar e morder e atacar como seus cães de guarda qualquer um dentro desse universo que sempre foi o falso cosmopolitismo.

Poderia ser diferente. A mesma tecnologia poderia ser usada para outros fins, mas é isso é algo que parece que as pessoas que inventaram as alavancam não entenderam ainda sobre suas infinitas possibilidades, por exemplo, a possibilidade de usá-las como tacape. Há quem pegue um livro e leia, a quem o queime sem ler, a quem o coloque numa estante ou simplesmente faça dele calço dela, e embora a tendencia a uma determinada a ação diminua a outra, não a exclui necessariamente. De modo duas pessoas olhando para uma mesma pedra, uma pessoa pode estar vendo uma forma de construir algo, outra o tamanho do buraco que ela abriria na cabeça de alguém. E onde alguém vê um pássaro outro vê um assado.

Assim se uma pessoa perdida numa ilha deserta finalmente encontra outra. Uma pode estar a pensar: companhia, enquanto o outro está pensando comida ou sexo. Podem até mesmo estar propensos a simplesmente acreditar que estão salvos, que cada um encontrou seu salvador, quando continuam apenas perdidos, juntos. Mas como seres inteligentes não se limitam a pensar o que querem, eles tentam adivinhar o que cada um pode querer um do outro, as variações se multiplicam, podem por exemplo ambos pensando em companhia, mas ainda sim temendo a violência e violação.

Para quebrar essas barreiras e se aproximar, seres inteligentes usam demostrações de intenções. A todo instante as pessoas estão tentando criar uma projeção uma imagem de si para os demais enquanto tentam desvendar o que há de genuíno, por trás das intenções do outro. Tentam portanto rastrear padrões de comportamento de modo a poder antever possíveis e ações e reações.Embora nossa psique seja na sua completude inaccessível a percepção, a inteligência permite que na qualidade de observadores do outro, consigamos muitas vezes entender com mais facilidade quais são suas intenções do que as nossas próprias, o que não deve ser confundido com suas motivações. Até porque o que se chama intenção não é senão um projeção de pressuposições de comportamento e não propriamente a constante ou fator determinante dele como razão. Primeiro porque a vontade, não está ao alcance da nossa intelecção, e segundo se estivesse seria afetada pelo principio da incerteza, de modo que a própria tentativa de observar já alteraria o comportamento previsto ou seja a própria natureza dessa força volitiva cuja concretude não pode ser abstraída sem erro ou nulificação do movimento, porque volição e emoção é por definição não posição ou predisposição, mas o produto conexo desse movimento.

Conhecer ou desconhecer as intenções e motivações é a base das relações e jogos de poder entre intelectos. Assim quando estamos escondendo ou revelando nossas intenções através de gestos e demostrações o que estamos fazendo é tentar induzir previsões no outros sobre o nosso comportamento, que podem ser corretas ou erradas, que podem conduzir eles ou a nós mesmos ao engano. Da mesma forma que quando julgamos que estamos sabendo ou descobrindo as intenções e motivações alheias não estamos fazendo nada senão atribuindo valores pressupostos, ou assumindo os valores sugeridos como base para a previsão dos seus comportamentos. Cálculos esses que podem ser feitos de forma premeditada, mas que querendo ou não o fazemos de forma intuitiva. Até porque se a velocidade de processamento da resposta não fosse praticamente instantânea a mente não procederia com sucesso o raciocínio, dado que nas decisões mais importantes de vida e morte não se pode sentar e calcular o melhor movimento de reação. Na verdade, o tempo de reação é irrelevante, na maioria destes casos você já está morto só ainda não sabe e nem vai ter tempo de ficar sabendo. se não for capaz de prever e antever os acontecimentos com antecipação por sinais que remetem a pressuposições.

Mesmo que o ser humano fosse um super-homem com dom de se mover a velocidade infinita, ele continuaria vulnerável a qualquer intelecto que fosse capaz de prever a sua trajetória. Infinitas velocidade de movimento ou processamento não são nada, perante a completa previsibilidade que constitui o controle e poder, ou a imprevisibilidade que constitui a invulnerabilidade e invisibilidade. O sucesso ou fracasso nesse jogo de demostrações falsas ou verdadeiras de futuros movimentos, o conhecimento dessas chamadas intenções e portanto o saber como poder sobre o outro, depende e muito da capacidade de resposta e reação, mas ainda mais de previsão e ação. A maior parte dos processamentos mentais são mais do que rápidos demais para serem produzidos em tempo real, eles são infinitamente rápidos, isto é, não são visões mas previsões e antecipações, não são ações reativas, mas proativas que até mesmo quando são efetivados a partir da concretização de um dado evento, não são desencadeados pela configuração dele, mas por sinais e movimentos que causam a ilusão de uma resposta quase instantânea ou mesmo premonitória, quando na verdade, são movimentos sincronizados tanto de antecipação quanto não raro ao mesmo tempo de provocação da ação antecipada. Porque não há melhor método de ver e prever uma ação do que projetá-la e desencadeá-la. O que quando lidamos com objetos dotado de força de vontade na forma de intelecção quer dizer controlar o jogo de suposições significados e significações.

Instintivamente intelectos estão constantemente a codificar padrões que corresponda a si e mundo na cabeça de alguém, de um outro, mesmo que imaginário, ao mesmo tempo que tentam inteligir, decifrar o código dos sinais dessa outra entidade. Estamos tentando produzir nela uma visão de mundo e uma ideia sobre nossa pessoa em que ela ao ler os sinais suponha determinados comportamentos e acerte. E acertando possa confiar naquilo que identifica como de nossas intenções, passando a confiar tanto na ideia que damos a ela de quem somos, quanto nessa forma de ver o mundo. Nem que seja para num segundo momento e intenção, trair essa confiança adquirida como concepção que o outro tem de si. Ou desde o principio tenha sido essa a intenção de todo aproximação.

Através dos sinais, gestos, demostrações de intenções, rituais, hábitos e costumes não desciframos o que é a pessoa nem descobrimos o fator determinante que necessária e portanto com certeza conduzirá suas ações. Rigorosamente o que inteligimos, é o que ela estava tentando nos dizer, inteligimos ou deciframos o padrão que ela consciente ou inconscientemente gostaria de mostrar e não aquilo que ela é. Porque o que ela é tão previsível ou imprevisível, tão confiável ou não, quanto ela quiser ser, e enquanto souber ser.

Evolutivamente, buscamos antecipar eventos desenvolvemos essa capacidade de prever ações e reações, prestando atenção nas menores alterações nos menores sinais que antecedem uma ocorrência tentando encontrar padrões para saber o que irá ocorrer ou que outros seres (ou eventos) irão desencadear. Procuramos constantemente causas para controlar ou produzir consequências. E quando aprendemos que outros seres inteligentes por serem inteligentes também hão de estar a procura dos mesmos sinais de motivações, causas e intenções, passamos a usar esse busca para tentar dar a eles o que eles buscam, o que esperam achar, e tirar disso o que desejamos através das ações deles. De modo que as intenções nunca estão nos sinais, elas estão na sua consumação como confirmação do ato prenunciado. E nunca dizem respeito as motivações mais intimas e profundas do ser humano, nem mesmo quando tentam comunicá-las, mas tão somente as intenções dos sinais e demostrações. É impossível saber exatamente os porques de outro ser dotado de vontade com certeza absoluta, mas apenas com razoável probabilidade de acerto, uma aposta, um calculo de incertezas e pressuposições. justamente porque é impossível saber se sinais deixados por um ser dotado de inteligencia foram feitos para presumirmos tais motivações ou são de fato o sinal que ele não podia, não conseguiu encobrir ou simular ou simplesmente não pensou em significar.

E aqui entre a superioridade da mente com traços psicopáticos quando o jogo das relações pessoal social é de controle e dominação. Ele não tem nenhum sofrer nem carestia empática que os leve a buscar relações mais sinceras e verdadeiras, não tem nenhuma necessidade de demostrar quem ele é ou vontade de saber quem as pessoas são. Tudo que basta é prever os movimentos das presas e concorrentes e levá-las ao erro ou armadilhas, não raro usando ora a prepotência ora a confiança. Não precisam de personalidade nem uma nem múltiplas, mas tão somente das mascaras e papéis sociais para desempenhar e conseguir o que querem. Sua mente esta perfeitamente adaptada a normose da vida em sociedade civilizada, muito melhor do que a dos neuróticos. Ele não estão estabelecendo relações nem comunhões, ele esta conquistando, dominando e usando. E seus fins sempre justificam seus meios, porque tudo mesmo não passa de meio para seus fins. Porque ele é o fim em si mesmo e o resto é o mundo não é nada senão meio e recursos.

Em sociedades assim organizadas a empatia, solidariedade, o instinto gregário se torna uma fraqueza. É uma necessidade reduzida a vulnerabilidade tanto de carência quanto de carestia. São os sentimentos que esse predador fareja como caçador oportunista, são essas vulnerabilidades que sua domesticador busca detectar, produzir e alimentar, as bases onde vai introjetar a sua concepção de um eu superior como neurose do outro, estabelecendo tanto o seu reino e reinado, seu domínio sobre as essas pessoas. Usando delas como braços, pernas, olhos, vozes e mãos sobre as demais que não fazem parte da sua colmeia. As formigas operárias, guerreiras e reprodutoras que irão transmitir o legado da sua condição mental alienada as suas própria prole. Irão introjetar elas mesmas umas nas outras essa submissão a essa figura que ele aprendeu a representar, reproduzindo tanto as carenciais emocionais quanto as carestias emocionais necessárias para manter seu domínio. De modo que, para cada neurótico servil ou surtado, para cada psicótico esquizofrênico ou paranoico, há de haver em princípio no mínimo uma cabeça psicopática e tantos membros alienados quanto o necessário para satisfazer suas manias e manter seu domínio como a condição concreta da pisque alheia, ou o que é a mesma coisa a realidade dos demais como a sua fantasia concretizada no eu e mundo deles. E só em principio e no mínimo. porque uma vez estabelecida a mentalidade, uma vez disseminado a patologia da inconsciência coletiva, não é mais a abelha rainha a procurar operários, são os operários a procurar desesperadamente por um nova abelha rainha. A fraternidade está morta, e a colmeia está viva.

Os indivíduos amputados da solidariedade são e estão vulneráveis a cair e ficarem presos na armadilha do seu próprio individualismo destituído de empatia ou sentimentos empáticos precários. E no vácuo, na carestia de pertencimento a “algo maior”, na necessidade de união, de abraço entre os amputados, do desesperado dos que tiveram seus olhos furados poderem se enxergar uns aos outros, nasce os reino onde quem tem um olho só é rei. O olho voltado apenas para si mesmo, hipnotizado por sua própria imagem.

Da afirmação da individualidade como isolamento e não mais como relação, se produz a necessidade de união não mais compartilhamento, mas tanto como renuncia e repressão a individualidade como autonomia e autoafirmação quanto submissão a força e figura condutora e repreensora. A pisque e o culto de poder e submissão. A cultura patológica de domesticação do homem pelo homem. Koyanatisqatsi. Onde as personalidades com traços psicopáticos prevalecem e dominam a fabrica de personalidades normóticas e neuróticas. E os psicóticos vão para o lixo, enquanto psicopatas para a diretoria. Pois se os primeiros quebraram enquanto produtos com defeito de fábrica, o segundo aprendeu como funciona a fábrica e saiu da linha de produção pronto para assumir o controle, e não apeta botões, dispara gatinhos, puxa alavanca, sem nem saber exatamente porquê, mas controlando friamente e sem remorsos os porquês. Quais são eles? Não importa, são apenas instrumentos. Princípios são instrumentos de controle dos alienados, os meios, a única coisa que importa é o fim, ele mesmo.

Carência e Carestias

Pessoas, organizações, culturas e sociedades com traços piscopáticos, não apenas aprenderam ao longo da sua história a se aproveitar e tirar vantagem da capacidade empatia que possuem. Fizeram dela, uma habilidade e não mais necessidade emocional. Fizeram dos sentimentos que não mais sentem, mas entendem a arma e armadilha contra os outros sentam e precisem sentir. Não só aprenderam como se aproveitar e usar os instintos gregários e necessidades emocionais e materiais relacionadas. Aprenderam como reproduzir essas condições emocionais e materiais como carências e carestias. De modo que a domesticação do homem pelo homem não é reproduzida apenas pelas relação de poder entre mentes mais sensíveis as insensíveis. Não. Não é só o grau de sensibilidade, mas o grau de vulnerabilidade a que os seres mais insensíveis forma ou estão submetidos e expostos.

A mentalidade que ativa predispõe e retransmite tal condição não se efetiva no momento da relação de poder, mas antes na privação na falta de relação que produzam as afetividades e afinidades que irão construir o emocional como defesas imunológica contra esse parasitismo pessoal e social. Na destruição deste complexo emocional de amor próprio que se estende aos outros seres como empatia. Na criação deste vácuo existência onde a vida como liberdade e autodeterminação e comunhão se reduz a carência e carestia de relações de poder e submissão. Hábitos, ritos, ensinamentos, mas sobretudo controle das condições materiais e emocionais que vulnerabilizarão a outra pisque a introjeção de sentimentos e pensamentos fixos que irão predeterminar com razoável certeza e previsibilidade a forma dele se comportar e relacionar.

Se o primeiro senhor aprendeu a dominar o primeiro servo, se fazendo o próprio símbolo dos seus maiores medos e logo a possibilidade de salvação dos males que sua força pode produzir. Pelo domínio sobre seus submetidos, pode ampliar a dominação sobre as próprias condições ambientais não como memória ou narrativa real ou mítica dele como poder absoluto da violência e violações. Com os braços de seus servos temerosos e fieis ele podia dominar o próprio ambiente, a própria natureza. E através dela expandir seus domínios e fantasias sobre gentes em progressão não mais aritmética, mas geométrica sobre territórios.

Os medos e esperanças não precisavam mais ser manipulados através da imposição constante da força e seus signos. Pelo controle dos recursos, pela sua manipulação e regulação, era possível agora não dominar pelo medo da escassez e privação, mas pela esperança e expectativa da sua concessão. Fazer-se o provedor e benfeitor, o salvador, conceder a benesse da amenização da própria privação que plantou não como censura, proibição, mas como liberalidade e prodigalidade. Vender-se como remédio ao próprio mal que impôs como necessário e necessidade, em troca de mais submissão, como gratidão e idolatria. De modo que quando mais cedo elas são introduzidas, se as pessoas nascem nesse mundo condicionado com mais facilidade aceitarão tal condição não só como natural mas como real, tomaram cognitiva tal condição de privação e servidão como naturalmente dado, mas como inescapável enquanto a unica realidade possível na exata medida que é o único mundo que irão conhecer.

A propriedade que entre iguais se estabelece pelo equilíbrio e respeito mútuo das suas forças tanto criativas quanto destrutivas, se torna objeto de privilégio a ser dado ou tomado a quem detém esse nova modalidade de posse. A posse sobre mais do que aquilo que se pode tomar ou manter apenas com sua força bruta do seu próprio corpo. A posse que se forma tanto pela entrega da sua parte dos alienados quanto pela pilhagem dos demais, e que é mantida por esses alienados a custa da sacrifício e renuncia e sobretudo vigilância dos próprio alienados-expropriados sobre a sua própria expropriação-alienação como direito do seu alienador e sua obrigação. Posse da qual como um cão passa a esperar paciente e contente o que cai da mesa, como prêmio ou recompensa por sua servilidade demostrada em serviços e obediência prestadas.

Um cultura de estabelecimento e distribuição de posse e domínios territoriais segundo a relações hierárquicas que não é exclusivo de nenhuma raça, povo ou civilização, nem mesmo só da especie humana, estando presente em outros primatas. O que não quer dizer que ela seja uma condição universal, compartilha por essas espécies, nem que as caracterize ou diferencie com tal, porque mesmo que algumas outras espécies se organizem desta forma, nem todos os seres inteligentes se organizam ou relacionam necessariamente desta forma. E o mais importante carecem de fato de organizar assim.

O advento dessa nova forma de propriedade que não é feita para usufruto, ocupação ou produção mas para estabelecer a condição de privação dos demais daquilo que lhe é vital e carecem foi o advento que permitiu ao caçador de gente, se sedentarizar e passar do rapinador de gentes e terras ao cultivador de gente em currais. O fazendeiro de crianças, criadas em privação para colheita e ceifa e coito de adultos tementes e servis.

Um controle das condições de vida, para produzir carestia e carência se efetua essencialmente na origem, na gene, no nascimento. No controle das condições que as pessoas já nascem submetidas para crescer acreditando que preto e branco são as únicas cores do mundo. A única realidade possível, onde a privação e a sua satisfação passa essencialmente pelo satisfazer a ordens e vontades de quem detém a posse e logo o poder de liberar ou proibir o acesso aos recursos e espaços vitais.

Assim, se técnicas de terrorismo e pilhagem permitem a apropriação primitiva, não conseguem superar a sua efemeridade. Para conseguir manter um domínio além da capacidade dos seus braços, o caçador de gentes precisou dos próprios braços dos capturados trabalhando para ele, e isso não se consegue sem alienação. Propriedades fundadas e sustentadas da supremacia bélica até o monopólio da violência não se fazem com cercas de arames farpados ou muros. Mas com cercas e muralhas feitas de gente que antes de servirem para manter os selvagem fora do domus, servem para manter esse homus domesticus preso e conformado dentro dele. Vigilante da sua própria servidão, de modo que se não a quem vigie os vigilantes, quem vigia e guarda os próprios prisioneiros, são eles mesmos unidos pela segregação e para a divisão não só dos outros homens, mas da sua própria condição humana reduzida a servidão e alienação ao senhor que habita e cerca não só o seu mundo a própria memória e história de vida, de vida currada de coitado e coitador. Onde ele ora encarna o papel de currador ora do currado, mas nunca escapa do curral.

O advento e instrumentalização da propriedade privada como privação do outro e fonte geradora da posse como poder, permitiu a domesticação em massa e reprodução em massa dos normalizados. Não apenas como carestia e dominação mas como carência e dependência. Seu repertório de violência e violação capaz de manter o sequestro e aprisionamento do outro, evoluiu da tortura por mera ameaça agressão, morte e estupro, para a ameaça de privação como carestia. O domesticador era agora capaz de produzir a mesmo terror e amestramento sem sequer precisar tocar ou levantar a mão contra o corpo da pessoa. Tudo que ele precisava fazer era controlar aquilo que ela gosta ou ama, mas sobretudo o que ela não pode viver sem, passando a ser não mais aquele que apenas “vende” proteção contra sua própria violência como agressão, mas aquele que “vende” provisões contra sua própria violação como privação e carestia.

O avanço dessas técnicas de domesticação permitiu a formação do capital tanto do poder político quanto o econômico. Não foi a força bruta nem o encercamento que inaugurou as técnicas civilizadas de exploração do homem pelo homem, mas o advento das técnicas de amestramento por controle ambiental, que permitiram que a força bruta e encercamento ganhassem o estatus de legítimos e fizessem dos senhores da guerra os senhores da terra.

O advento da privação como técnica de violência e violação simbólica permitiu que o homem adestrasse e prevalesse sobre o outro homem usando ao invés da ameaça constante e explícita de agressão e concretização para a técnica da privação-provisão dos meios vitais. Porém esse processo vai muito além de simplesmente de furar os olhos dos outros para se fazer rei mesmo com um olho só. Esse processo não é um mero encercamento ou mutilação de gentes e vontades. Ele é toda uma técnica de criação, engorda e abate de gente criada para servirem como bestas de guerra ou de carga ou sexuais. É toda uma técnica de inseminação e poda para que as pessoas se enraízem e floresçam dentro do esperado e programado conforme o descriminado pelos preconceptores e tutores que discriminam e classificam as genes, as raças, gêneros e funções de acordo suas visão e interesses.

Nesse processo o transtorno e o desiquilíbrio são tão fundamentais a aculturação da consciência-inconsciência da pessoa, a formação da sua psique quanto o é as desigualdades sociais para a própria sociedade civilizada e sua mentalidade. Cultura é a transmissão e disseminação dessas formas de sentir-pensar-agir padronizadas. E educação nesse processo de aculturação é treinamento, onde como qualquer outro dos padrões motores ou emocionais os traumas e lesões são tão normais para o discípulo quanto para o atleta.

Não importa se o discípulo está sendo treinado para se tornar mestre ou eterno discípulo e servo tutelado, ou se comportar ora como um ora como outro; em sociedades como as nossas atuais, onde as funções e sociais e produtivas se tornam mais complexas e portanto os papéis que uma mesma pessoa tem que assumir e interpretar ao longo da vida ou mesmo do mesmo dia se multiplicam. Não importa qual será sua função e posição que se prepara a pessoa, todos precisam aprender como deverão se comportar de acordo com que se espera delas. E quanto maior o nível de competitividade da função ou de todo jogo social maior deverá ser a capacidade de conviver e suportar lesões constantes e o risco das maiores e permanentes sem jamais parar suas atividades.

De fato o método a formação da personalidade através da supressão de instintos por condicionamento de padrões psico-comportamentais com introjeção de super egos e super homens não difere muito entre a reprodução de padrões de comportamentos motor ou emocional. A formação de indivíduos extremamente competitivos mas ao mesmo tempo cooperativos para manter a submissão requer não só o aprendizado de uma determinado padrão, mas o desenvolvimento da capacidade de superação, isto é, a capacidade de ignorar os comandos instintivos para parar e prosseguir provocando alterações, sem arrebentar completamente o organismo.

É portanto um erro pensar que o psicopata seja um individuo destituído de superego, ou que a ausência de superego produziria uma sociedade de psicopatas. Pelo contrário ele assim como o psicótico apenas não produziu respostas esperadas por quem quer que o tenha submetido ao condicionamento. Somos iguais e diferentes em diferentes níveis e desenvolvemos respostas iguais e diferenciadas em diferentes níveis de semelhança ou dissemelhança. Psicoses, neuroses e psicopatias se estabelecem em diferentes níveis numa mesma personalidade. No entanto jamais se equilibram não no mesmo espaço nem ao mesmo tempo, e algum desses arquétipos acaba por caracterizar a personalidade e comportamento, separando os que se acham normais e serão usados e empregados nos papéis que se espera deles se não tiverem meios para resistir. Os que se acham superiores e que irão usar e empregar os outros conforme os meios e forças que possuírem para predeterminar e impor o papel dos outros. E os enlouquecidos que não conseguem se encaixar nem desempenhar em nenhum dos papeis, nem abandonar os personagens e mundo que fantasiam e sonham para si mesmos.

Prender com corrente um cão feroz e faminto a um árvore com um prato comida numa distancia próxima o suficiente para ele não desista de tentar alcançar a comida ao mesmo tempo que somente no momento da desistência você empurra para alcança-lo, é um método de adestramento que manterá muito cães com pescoços fortes e ferozes dispostos a não avançar em que os prenda, mas a obedecer comandos de quem os alimente com regularidade nesta condição ainda que seja seu sequestrador. A condição onde o refém deixa de ver seu sequestrador como aprisionador e privador, mas passa a vê-lo como concessor e provedor. A chave onde o inimigo se torna o senhor.

Em geral funciona, mas em alguns casos, o cão enlouquece ou pior funciona melhor que o esperado, e o quando menos se espera o cão fiel avança sobre o pescoço do seu dono. Por vezes o animal adestrado não aprende a ser domesticado, não aprende a se comportar como presa, mas entende seu predador e aprende a replicar seu comportamento, e na primeira oportunidade o devora para se fazer o senhor. A inteligencia e ferocidade com que executará suas ações não são excludentes, nem sequer a forma como a sociedade reagirá ou aceitará esse comportamento é fixa, ou suficientemente imutável que não possa ser também condicionada.

A natureza dos instintos humano evolui de forma que a ampliar ao máximo nossa capacidade tanto de se adaptar ao ambiente quanto de adaptá-lo as nossas necessidades e consequentemente vontades. Essa capacidade deriva da plasticidade das nossa mente, da capacidade de reconfigurar nossos padrões neurais e desenvolver novas respostas comportamentais. Da infância a fase adulta o que estamos a processar é a configuração desses padrões e respostas. Um processo que nunca pará, ou melhor quando começa a parar, resulta no envelhecimento natural e demência e morte da mente. Natural porque a configuração de padrões implica em ligar e desligar certas caminhos, torná-los fixos e usuais. De modo que a perfeita adaptação ao tempo e espaço implica a perda da capacidade de se adaptar a outros ou a sua modificação. Não que não seja possível cachorro velho aprender truque novo, apenas é mais difícil, porque isso não depende apenas de ligar ou desligar padrões inatos, para construir novos padrões, mas desconstruir e religar padrões completamente atrofiados, quiça precisem ser construídos nos caminhos que restaram já que os originais talvez tenham sido definitivamente perdidos. Uma questão neurológica e não mais psicológica. E a criação de homens domésticos embora apresentem resultados neurológicos, ainda é feita por predominantemente por técnicas psicológicas.

Esse processo consiste em construir condições artificiais de vida que replicam situações naturais que conduzem ao desenvolvimento e fixação de determinados padrões de comportamento como resposta adaptativa a tal condição seja como uma experiência traumatizante durante um período de formação da personalidade, seja durante toda a vida como conformação constante dessas psique ao que é dado absolutamente como sua realidade. A doutrinação ideológica, a construções de narrativas, mitos, não se constitui propriamente como motivação mas racionalização dessas predisposições adquiridas, não as formas, mas conforma, inibindo qualquer sentimento ou vontade de reelaboração mental e social. Os dogmas e comandos, as respostas aos signos e sinais, são o gatilho e não a pólvora. O advento e produção em massa dessa pólvora, passa por um processo que não é o só de construção do simbólico e dos discursos, mas das realidades, práticas e vivências ao longo da história de vida para ser aciona como memória emocional e padrão comportamental latentes e inconscientes. De modo que carências e dependências psicológicas não são construídas no plano imagético e simbólico, mas no plano concreto das carestias, das ausências, privações, agressões, das violências e violações aplicadas não a concepções e idealizações de mundo do outro, mas a seu corpo, emoção e sensibilidade.

Uma população, por exemplo, submetida a grande crise de carestia, onde a cooperação e solidariedade não sejam capazes de preservar a vida de todos, tende ao invés de reforçar esses sentimentos, desligá-los. Aumentando a prevalência de respostas egoístas como instinto de preservação. A acumulação de recursos eventualmente necessária em condições de carestia, ou até mesmo o abandono de pessoas frente a situações catastróficas, pode se tornar o hábito, a resposta cultural padrão, mesmo onde há abundancia ou mesmo onde a cooperação se faz premente ao invés da competição. De forma que uma vez fixado o padrão comportamental como costume e cultura, ele se mantém ainda que as circunstâncias não exijam ou até mesmo demandem a sua reelaboração. Mas é impossível supor seu surgimento sem que tais condições de carestia natural ou artificialmente estejam instauradas como dependência e desamparo aprendido.

Evidente também que o condicionamento inclui a capacidade de desempenhar diferentes papeis, mas como determinados comportamentos requerem a modificação extremada das respostas instintivas, simplesmente é impossível de manhã escravizar e queimar seres humanos e a noite jantar em família como um genitor amoroso, até porque o desenvolvimento dessa capacidade de alternar sua personalidade e atuar de forma tão diferente diante de diferentes pessoas e diferentes situações requer justamente o desenvolvimento da capacidade característica das forma mais avançadas de psicopatia, desligar suas respostas emocionais espontâneas e adaptar suas respostas emocionais as condições de acordo com o único fator que resta como constante dessa equação que redução do ser humano: seus interesses, como desejos, valores e racionalizações, a condição mental que o impede de se desintegrar ao mesmo tempo o mantém integrado a tal condição de vida.

Soldados treinados para matar e sobreviver nas mais desumanas condições não apresentam dentro do universo do combate nenhum comportamento anormal quando estão matando cumprindo ordens ou sob o que identificarem como ameaças. Mas tão são perigosos e imprevisíveis quando voltam para casa quanto cães de guarda que não estão presos mais no quintal, o habitat para que foram treinados, onde se sentem e são considerados e tratados como pessoas normais. Soltos no quintal do outro são assassinos com potencial e proposito, em casa são assassinos em potencial e sem propósito. Chame sua condição da sua pisque de patológica ou normal o fato é que é exatamente a mesma, o que muda é a condição normal ou patológica como a sociedade que o preza ou despreza, emprega ou descarta o vê e usa também evidentemente usando de cálculos de interesse que como o dele em campo de batalha passam longe de qualquer sentir, pensar ou agir empático, altruísta ou solidário. Embora tais comportamentos ou intenções possam assim como no campo de batalha serem camuflados para ludibriar o alvo, a diferença é que isso em termos civis se chama em geral hipocrisia ou caridade depende da conotação que o civil queira dar as suas manobras civilizadas. Advogando em favor dos educados para serem civilizados, civis ou militares, é preciso dizer que tais formas de lidar com essas situação em geral não são conscientes, em nenhum sentido que se atribui a palavra.

O desligamento dos instintos gregários ocorre pode portanto ocorrer natural e eventualmente diante de circunstancias dramáticas e traumáticas que envolve sensações de abandono, perigo, onde a empatia ao invés de ser uma estratégia eficaz para a sobrevivência implique em risco. Ao estabelecer experiências como ritos de passagem, treinamento, costumes ou simplesmente o cotidiano de uma sociedade o amestrador está literalmente usando da capacidade do ser humano de se adaptar, reduzindo seu instinto de preservação a condições mais basilares para restabelecer nesse processo novos padrões de ligações e com o outro, em especial com ele. Literalmente substituindo as ligações empáticas e relações solidárias, por aquelas que serão determinadas pelo ambiente controlado e intermediadas por sua intervenção dentro dele. É por isso que tiranos e pregadores não só vão colher os seus fiéis nos campos onde carestia prevalece, eles continuam a semeá-la. Porque onde corre a abundância e abandono, onde não há carência nem carestia, não há deserto nem sede para vender sua água em troca de fidelidade e idolatria. A mente da pessoa neste caso é um castelo que cede e se rende não pelo ataque, mas pelo cerco, cai de joelhos por falta de recursos a resistência. Se entrega por carestia. Em suma é um sistema que se retroalimenta. A carestia é condição fundamental de vulnerabilidade para efetuar dominação psicológica na relação de poder e autoridade. E a carência aprendida nessas relação é por sua vez é imprescindível para manter a carestia através da alienação que perpetua esse poder como o horizonte das possibilidades, a realidade.

Se uma patologia se caracteriza pela sofrimento e incapacidade de exercer determinadas atividades, o psicopatia sequer se compreende como um doente. Porque o sofrimento é o que ele causa, e o problema não é o ele não é capaz de fazer, mas sim o que ele é capaz sem nenhum sofrimento, sem sentir nada e não raro até sentindo prazer. Essa condição da psique não é produto do processo de domesticação e civilização, mas natural da capacidade de adaptação emocional-cognitiva do ser dotado de inteligência para sobreviver nas mais diversas e adversas condições ambientais. O que o processo civilizatório fez e faz e tomar o controle dessas condições ambientais para condicionar a psique formando as personalidades e seus tipos que habitam o zoológico da vida social. O controle das condições e estímulos do meio social e ambientais de acordo com a ideação política e econômica produz os valores, ritos e costumes que formam a cultura e educação. É o processo de aprendizagem, processo natural de adaptação comportamental ao meio, agora conduzido para a introduzir e controlar as experiências que irão obrigar o organismo a elaborar respostas com novas forças e impulsos volitivos.

De tal modo que quem controla os meios e relações sem estar afetado por eles, controla a preconcepção da realidade e faz dela o arcabouço e grilhão pelo qual controla o mundo e as pessoas, na exata medida do alcance da sua capacidade de levantar esses muros e fronteiras do imaginário como o território do real e legal. Torna-se não só o juiz, mas a encarnação do juízo dos alienados sob o mundo que não é mais um bem comum, mas a extensão da sua vontade de poder como jurisdição. O controle da normalidade como preconcepção da norma como sua totalidade e não mais como propriocepção do mundo segundo as necessidades vitais e circunstanciais de cada um. Educação e civilização. A arte do domesticação e domínio das massas humanas pelo controle simbólico e material dos meios ambientais e emocional-cognitivo das mentes na intermediação de toda as relações, das pessoais as produtivas. O domínio sobre a carestia, para produzir carências e introjetar impotência e dependência. A processo de desconstrução e apropriação da empatia para produzir a subserviência como condição mental, e apropriação dos meios vitais e ambientais para reproduzir a vulnerabilizarão a alienação. Sim, o porrete e a prisão está lá, ainda presente para quem resistir sem quebrar em delírios e alucinações, mas o monopólio da violência só precisa ser usado contra os mais rebeldes e selvagens que por ventura resistem em ser educados, civilizados. Aos demais seja porque desligaram de acordo com as expectativas sua empatia, ou a enterraram fundo em sua subconsciência a escola da vida já é mais do que suficiente.

Assim, o que nos chamamos hoje de escravidão e trafico de seres humanos, nossos antepassados, que estavam em correntes por obvio, chamavam de emprego de mãos de obra e comércio. Seriam eles psicopatas ou só neuróticos alienados a serviços deles? Será que toda sociedade alemã durante o holocausto estava em transe? Eles não tinham respostas empáticas congênitas para se comportar daquela forma? Ou sentiam prazer em fazer ou assistir aquilo? E nós? E nós, ao assistirmos pilhas de lixo engolindo crianças a catar lixo sem esboçar mais revolta ou reação, somos o quê? Sentimos prazer em fazer ou assistir a isso, ou já não sentimos mais nada? O quão sã é a nossa normalidade? O quão banal é nossa normose?

A normalidade e prazer do predador é sempre a loucura e sofrimento para sua presa. De modo que supor que as fantasias e racionalizações dos predadores formem a realidade, política e econômica devidamente separadas para manter o domínio sobre a condição social e natural assim desintegrada e dominada é a base de uma morte sem porquê para a presa, sem nome próprio servida aos devidamente educados em suas salas de jantar- que já não precisam caçar suas presas, há quem o faça por eles.

Não há portanto maior tolice ou loucura do que acreditar que um predador, um caçador de gentes selvagem ou civilizado não sinta prazer e não o busque satisfazê-los ainda que o prazer não esteja mais no ato que mata, violenta ou em si, mas apenas em degustar aquilo que ele consome através dos seus ritos e costumes. A incapacidade de sentir e portanto atribuir sentido a existência alheia como entidade própria e não como mera propriedade, mercadoria feita para satisfazer seus interesses seja possuindo-a ou consumindo-a, seja usando para produzir o que se deseja tomar ou consumir é a essência pós-moderna dessa patologia primitiva. Ao aceitar as razões de um psicopata sociedade ou individuo, como normalidade estamos apenas caindo na sua armadilha e nos sujeitando a sua dominação em troca de parte da rapinagem. Estamos apenas supondo que suas taras e manias são desejos perfeitamente naturais ainda que eles impliquem em mortes, agressões e privações e sofrimento. Estamos literalmente aceitando o que ele planeja fazer conosco em suas fantasias não importa do quê como se fosse a nossa realidade. Desligando nossos instintos de preservação tanto os egoístas quanto os gregários, nossos medos e desejos para incorporar medos e desejos alheios; abdicando de construir nosso eu e mundo juntos para sermos parte da construção do mundo de outros sujeitos. Um mundo onde a individualidade e coletividade é construída para manter essa superestruturas enquanto interesse aos objetivos e desejos de quem esteja no controle dessas preconcepções como mentalidades. De modo que esse senhor que também é um arquétipo também ele não passa de um produto a ser consumido por essa mesma inconsciência coletiva patológica.

Não é só portanto a noção de normalidade e bondade ou bem-estar mas do omo comportamento perverso, insensível maldoso e doentio que mudam conforme a cultura e educação e costumes de cada civilizações ou da mesma ao longo do tempo. E são essa condições que produzem tanto tais noção abstratas quanto os comportamentos concretos que precisam mudar para produzir tanto a cultura quanto a forma de vida e civilização, a humanidade que em potencia e tese somos, mas na prática ainda não concretizamos, não em sua plenitude, não como seres dotados de consciência.

E é versando sobre a consciência e seu desenvolvimento que chegamos, enfim as conclusões.

Parte IV : Conclusão

Parte IV : Conclusão

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Thor Well

Tempo, gene, criação e criadores

Mais do que uma conclusão, precisamos de soluções. Mais do que um fim precisamos de um começo, um recomeço, precisamos dar uma nova chance para nossa humanidade.

O que deveria ser feito? Tentar resgatar romanticamente a ideia do homem não domesticado pelo homem? Impossível. Não só porque já não somos esse homem, ou talvez sequer ele nunca tenha existido. Mas porque gostemos ou não, temos que lidar com esse caçador de homens, more tanto ao lado quanto dentro de nós.Dentro ou fora das nossas bolhas ou cabeças, em qualquer uma dessas hipóteses, haveremos de lidar tanto com o que somos, quanto o que nos tornamos. Não só o conquistador frio e calculista ele prevaleceu, mas porque ele há de prevalecer enquanto não nos tornarmos invulneráveis, não só como como sociedades e civilizações, mas psiques imune a tanto ao domínio e disseminação da sua mentalidade patologia.

Se por um milagre ou desastre essas tribos e clãs de caçadores que aprenderam a amestrar homens perdesses sua hegemonia, e voltássemos a estado de natureza anterior as suas conquistas e impérios civilizatórios. Bastaria ainda sim, apenas o nascer de novo de um, o primeiro, para que tal estratégia evolutiva reiniciasse o ciclo de predação e contaminação das outras formas de vida e viver. Apenas um único homem hospedeiro dessa mentalidade bastaria para espalhar novamente essas relações de poder doentias como monopólio da violência e depois através dele expandir seu império colonizando também as demais.

Gostemos ou não as outras formas de organização caíram por uma simples razão não tinham defesas contra elas. Destruídas, engolidas ou absorvidas… não importa elas cairão e cairão sempre diante desse semelhante que sabe usar a sua empatia como fraqueza e vulnerabilidade para erradicá-los e convertê-los. Eliminando os que não se aptam a sua seleção artificial e tomando como servos e escravos os mesmo lideres e capatazes das suas populações alienadas os que melhor reproduzem sua forma de viver.

Entretanto há uma diferença substancial, entre elas e nós. Elas não tinham como possuir imunidade para uma patologia que jamais tiveram contato. Nós crescemos imersos nesse condição insalubre em permanente contato, e se não perdemos completamente nem nossa empatia, nem a capacidade de construir nossa própria realidade sem cair no conformismo, ilusões ou alucinação. Temos dentro de nós ainda que não tenhamos consciência disto a cura.

Não importa, se esse padrão de organização da sociedade e da pisque leva a autodestruição. Não importa que a prevalência da mentalidade psicopática-normótica seja a própria mentalidade que leva essas civilizações a autodestruição interna ou mútua. Não importa que todo império colapsa quando alcança o pleno sucesso por falta de novos recursos e presas que satisfaçam e sustentem os desejos ilimitados de quem ocupa o topo dessa cadeia. Simplesmente não importa. Porque enquanto o homem existir esse padrão de comportamento surgirá sempre e novamente, por uma simples razão ele é possível, e é impossível anular sua possibilidade sem anular nossa própria autonomia. Não é possível voltar no tempo. E mesmo que fosse, o padrão reemergia. A mentalidade que carecemos não se produz tentando fugir, apagar ou destruir esse padrão, mas aprendendo com ele mesmo como superá-lo. É impossível desenvolver uma nova mentalidade, sem tomar ciência dessa que hoje nos governa. E é impossível desenvolver essa nova mentalidade sem jamais ter conhecido o que era essa dominação e poder.

Talvez fosse impossível conceber liberdade para além do próprio e sadio da vida, e não como libertação e defesa dessa própria forma de vida sem jamais ter precisado passar pela degenerescência da própria vontade de ser livre. Talvez não. Mas certamente não precisávamos ir tão longe, nem precisamos continuar a viver nessa condição desnaturada, desumana e desumanizadora. E principalmente não precisamos chegar ao ponto de não ter mais para onde ir, ou ter tempo para mudar de rumo.

Mas o que poderia ter sido ou poderia vir a ser é justamente tudo o que não importa. Não importa o que não somos, e ou o que fomos. O que importa é a amplitude dessa capacidade que desenvolvemos, a capacidade de vir a ser. O controle das volições. Porém não mais de uns sobre os outros, do ser pensante sobre si mesmo como força de vontade consciente. Um nova mentalidade.

Muito antes de nos tornarmos caricaturas monstruosas da nossa potencia humana, antes de nos tornar domesticadores uns dos outros, evoluímos como ser humanos, como seres capazes de se adptar e suportar os mais impossíveis e insuportáveis ambientes e condições. Mais do que isso. Evoluímos como seres capazes de adaptar esse ambientes mais adversos e modificar condições mais adversas e seres mais diversos, as nossas próprias condições e formas de vida. Para tanto, muito antes de aprendermos a transformar o outro ou o mundo, o ser humano aprendeu a transformar a si mesmo ainda muitas vezes de forma completamente inconsciente. Inconsciente e completamente dirigida para o controle das forças alheias seja como seres ou fenômenos naturais e não para tomar o controle da nossa própria força como vontade sobre as vontades.

E é isso que precisamos lembrar e reinventar se quisermos continuar caminhando como seres humanos, e não meros instituições e seres institucionalizado artificiais feita a imagem e semelhança, replicantes e prisioneiros das nossas fantasias e ilusões de controle e poder, onde não somos os criadores das nossas idealizações concretizadas, mas as criaturas que caíram na armadilha da própria criação como realidade governante das nossas próprias forças e vontades.

Não inventamos apenas empresas e estados e deuses, nos projetamos a imagem e semelhança de nossa entidades e corporações imaginárias e artificiais, e nos comportamos suas missões e finalidades e poderes, em um mundo de representações onde ser quase nunca ultrapassa a propaganda, marketing de nós mesmos uns sobre nós mesmos. Meros produtos e servos da nossa própria inconsciência até mesmo sobre a nossa ciência e não mais criadores de novas formas de consciências e ciências e credos.

Nesse teatro da vida, há quem acredite que o que há de sagrado ou divino em nós, é uma dádiva que caiu do céu. Dada por deus ou deuses, seres transcendentais que criaram ou deram aos escolhidos, esses saber como conhecimento e potência de conhecer, os códigos tanto como gene quanto cultura. Há quem creia que os portadores desses códigos genéticos e culturais, eram apenas outros homens ou especies inteligentes a colonizar com suas técnicas e tecnologias nativos. Um padrão que se repete em todas civilizações: tribos que tecnologia aplicada ao desenvolvimento de força de fato conquistar e dominar os nativos que passam a adorar fielmente seus próprios conquistadores como mestres e provedores e depois a sua própria representação arquétipica como a própria projeção do que é sagrado e divino.

A adoração do conquistador como senhor, e a introjeção dessa figura seria a resposta da mente perante o terror do desconhecido que toma forma, invade seu mundo, tirando seu chão em todos os sentidos da palavra, uma tentativa da mente de se adaptar a essa nova condição que sem a idolatria ao que toma tudo que ela entende por eu e mundo seria insuportável e levaria o nativo a se desintegrar na sua nova condição: a escravidão.

Mas não.

Essa resposta da psique as condições que ultrapassam o seu controle já existia perante as forças da natureza, da qual eles só conheciam o poder de criar e destruir. Essa forma de responder a adversidade, a frustração, a descoberta que sua vida e morte estão na posse de uma força maior desconhecida, seja ela compreendida como for como entidade ou fenômeno. Um padrão replicado no inconsciente coletivo de toda humanidade, e sem a mesma complexidade simbólica também presente em todo animal quanto o temor da morte torna-se sensação concreta, mesmo aqueles sem grande intelecção e capacidade de projetar causas e consequências formando a visão daquilo que chamamos de futuro ou imaginação para formar Qualquer ser dotado do mínimo de anima, na visão do seu momento derradeiro tende a gritar e implorar pela vida como puder. Não é a toa que muitos considerem o estupro ainda pior que a assassinato. É desse momento derradeiro, em que a presa descobre-se completamente vulnerável e nas mãos de seu predador que o violentador toma o que ele quer gozando com isso ou não. É nesse momento em que encarna a possibilidade de vida e morte, execução e salvação, que o violentador adquire poder e controle sobre as suas vítimas. E desses doces momentos de prazer do violentador que se constitui o poder, e onde o violentador esquece da própria certeza da sua morte e o vazio da sua própria existência… até que essa fome retorne para ser remediada na próxima conquista, porém o desamparo esse permanece.

Qual seria a origem desse modelo? Ele teria surgido de forma endógena ou exógena? De dentro das relações entre os indígenas ou de fora na relação como povos alienígenas? Não importa. A resposta a essas perguntas é irrelevante. Ao menos irrelevante as soluções que buscamos. A hipótese de entidades superiores toda poderosas perante a vulnerabilidade existencial dos meros mortais, sejam feitos de mitos ou eventos é irrelevante para explicar esses fenômenos. E quando digo irrelevante, não estou dizendo que deus ou deuses existam ou não. Estou dizendo é irrelevante se eles existam ou não. Sejam o que forem, creia-se no que for, sejam lendas ou invasores de outras terras, a domesticação do homem pelo homem se processaria com ou sem eles.

Podem tanto existir quanto não. Podem ser mitos ou entidadades reais, podem ser fantasias mitologicas de situaçãos jamais vivenciadas ou mitos sobre personas e histórias de fato vividas. Podem ser peças de propaganda e amestramento de raças e classes construidas a imagem e semelhança das suas pretenções de superioridade e domínio sobre os que tomam por inferiores. Podem ser fantasias transcendentais de corporificação do poder total, ou todo-poderosos encenando e encarnando essa ideia de poder. Podem ser personificações de medos das forças naturais fenômenos desconhecidas, ou entidades e personas que passam a habitar o inconsciente coletivo das massas como traumas da sua história de vida. Podem ser meros navegantes e conquistadores de um outro mundo de um outra terra, ou sua projeção desse medo para além de todo o mundo conhecido. Podem ser a ideia de alienigenas de outras espécies, planetas, ou até mesmo do além, ou simplesmente o medo do estranho, do extraordinário ou do estrangeiro, o medo do que não podemos conpreender e logo controlar seja entidade ou fenômeno encarnado como deus ou fim dos tempos. Ou pode até mesmo ser esse projeção imagética emergindo dos desejos de pessoas e compartilhados por toda a sociedade, tanto como medo quanto adoração. Pode ser o que for, ou o que se creia, Simplesmente não importa. Não importa se a ideia de entidades todo-poderosas e fenomenos de poder total sejam só ideias, ideologias, fantasias de realidade concretizada, ou alucinações. O que importa é a razão pela qual nos tornamos e somos completamente vulneráveis e carentes delas. Não importa se os senhores sejam a idealização ou encarnação do bem ou o sejam do mal. Se o poder e supremacia foi inventado pelo dominador, se nascemos ou fomos colocados em correntes. Não importa quem nos gerou, criou ou educou, não importa seus propósitos e intenções. Não importa sequer se havia um proposito, se ele era bom ou mal. Não importa o que eles querem ou queriam de nós. Isso é um problema deles. Na verdade não importa sequer se eles existem ou deixaram de existir. Simplesmente não importa se há algum sentido ou qual ele era na criação, ou se ela um dia ocorreu. A grande questão, a pergunta que nos faz seres humanos é o que pretendemos ser e fazer com isso : o que queremos ser, a partir do fato de que somos? O que vamos fazer com tudo que somos com as condições que temos?

Crendo ou descrendo, a questão e tomada de decisão permanece. Seja para aquele que não crê em absolutamente nada, seja para aquele que acredita em absolutamente tudo. Independente de quais sejam suas crenças do que tenha gerado ou criado do que rege ou governa sua existência, seja isto um absoluto vazio sem sentido, ou a existência para além da compreensão ou concepção de tudo e do nada. Não importa se somos filhos de senhores ou escravos, de deuses ou demônios, do controle mais absoluto do nosso destino, ou da mais completa falta de sentido para viver. Nada disso tira um fio, aumenta ou diminui sequer um instante da vida, e a questão permanece imutável, escolha-se acreditar e obedecer a ordem ou a lei escolha descrer e se revoltar contra todas as leis. A vida segue e permanece como questão e escolha, incluso de crer ou descrer em tudo o que se quiser, mas sobretudo para o quê se quer.

Venham como venham essas forças, seja como adversidades naturais ou a perversidade de outros seres humanos, venham como medos e fantasias ou legiões, surjam do seio da nossa sociedades ou de fora dela, emerjam do outro ou habitem dentro de nós. Rompam violentamente os frágeis horizontes de eventos das nossas concepções ou assaltem nossos mais profundas emoções, pensamentos nos cegando, acorrentando ou amputando até no prazer de viver e conviver, a pergunta ainda permanece enquanto a sopro de vida. Independente de tudo, o vamos fazer a partir de agora? A existência autônoma sempre permanecerá como singularidade, onde não só o futuro pode ser autodeterminado por esse estado que é sempre presente, mas a o próprio passado não como fato constituinte, mas como nexo e fator determinante do futuro.

A gene e a origem não faz de nós o que somos, como um desfecho, mas possibilidade.Porque “ser” é possibilidade e não a sua ausência. O passado factual que constitui o presente perfeitamente predeterminado é o dos mortos, e não os dos vivos. De modo que a gênese de tudo o que somos, imaginária ou real, deixa de ser relevante quando deixamos de ser mero produto destas causas, para nós tornar produtores das nossas consequências. criaturas que são criadores, seres dotados de organismo e força própria, e não mais apenas parte de um ordem ou organismo maior. Dentro desse universo que a singularidade do ser, não só o futuro é uma tentativa de projeção, mas o passado enquanto justificava de nexo para o presente. Se tal construção é realista ou incrível, a validade dessas correspondência não é pela confirmação dessa passado, mas do futuro, como atualização presente. Realidade que dentro do universo mental não se configura de forma diferente do próprio cosmo, construindo e destruindo ligações como a própria percepção do que existe ou não.

Para efeito da constituição do que somos e seremos nossa origem não é mais um fator determinante, a partir do momento em que ela apenas constitui exatamente isso que somos: uma força dotado de construir o seu campo de probabilidades, seres autônomos. O ponto de criação não está mais fixo em um momento do tempo, mas continuamente presente e renovado, na atualidade e sua atualização. É o ato que determina a relevância dos eventos passados como causas conexas, e futuras como conexões consequentes. Rigorosamente é a gene é a própria mutação com força constante e autodeterminante enquanto força criativa, ou nos organismos vivos, vontade. E é sobre esta força elementar que não só constituímos nossa percepção do cosmo, mas o cosmo mental onde o eu e mundo se constituem antes de tudo epistemológicamente.

Mesmo que toda a estrutura da mente e da realidade seja artificial ou naturalmente construída para o quer que seja, servidão ou poder, para que venhamos a nos libertar e criar, ou apenas sobreviver e reproduzir. Seja qual for a configuração, o ponto é que não somos pedras que vão para onde são jogadas, nem animais que mordem ou abanam o rabo conforme o dono ou a vida nos trata. Somos dotados da capacidade de alterar nosso sentir-pensar e agir de acordo com nossa vontade, assim como termos toda nossa pisque alterada pela manipulação exterior dela. E isso que constitui toda a ciência do nosso poder e liberdade, também constitui a nossa maior fraqueza e vulnerabilidade, a capacidade de entender, controlar e manipular as vontades ao invés de ser controlado por elas, tanto as nossas próprias quanto as dos demais.

Exposto assim superficialmente, o controle da vontade, a nossa ou alheia, parece ser apenas uma questão de qual é o sujeito e objeto do controle. Não é. Muito longe disso o controle da própria vontade e o da alheia, são procedimentos tão distintos e contrapostas quanto poder e liberdade, ataque e defesa, conquista e resistência, onipotência e invulnerabilidade, contrários, diversos e antagônicos não só em objetivos e princípios, mas em meios. Completamente diferentes nos métodos, processos, e técnicas aplicadas sobre as vontades que resultam não só em relações completamente diferentes, mas em pisques completamente distintas. Tanto na relação daquele que busca a manipulação da vontade alheia para a consecução da sua própria e quem sofre com tais procedimentos. Quanto daquele que não só busca evitar controlar e ser controlado pelas vontades alheias, mas até mesmo pela sua própria como desejos incontroláveis.

A chave para o domínio e poder seja sobre uma única alienado, seja sobre massas deles, a porta para realizar os desejos de poder e onipotência também é também o ponto fraco, a vulnerabilidade de todo ego. E se a luta pela imposição das vontades uns sobre os outros é uma guerra, a sua preservação é uma arte marcial. Uma espécie de jujitsu mental onde aquele que que não quer controlar nem ser controlado busca sempre uma posição onde não só evite ser dominado inconscientemente pelo outro através das sua própria vontades, mas assumindo o controle das suas próprias vontades conscientemente, não como instância decisória, mas como força de vontade.

O belicoso, aquele que não consegue viver sem dominar alguém, tenta vencer com o menor risco e custo possível uma guerra, de preferencia sem sacar uma espada, mas não se furta jamais de fazê-lo sempre que necessário. O pacifico, que só quer viver sem depender de ninguém mas preservar a sua condição sem precisar jamais sacar sua armas, livre até mesmo da possibilidade de vir a ter que utilizá-las. Um busca onipotência outro invulnerabilidade diante da prepotência. Seu interesse não é vencer guerras sem entrar em batalhas, é não entrar guerras nem viver sob a eterna ameaça delas. Seu interesse é se livrar dessa pisque. Em suma, não estar numa condição de vulnerabilidade não apenas para não cair em combate ou vencer ou convencer sem atacar, mas simplesmente viver sem precisar fazer da vida uma guerra ou arte marcial. A paz é um sonho de invulnerabilidade, que na prática é loucura e fantasia tão grande quanto a própria onipotência. Mas tão passível de ser uma loucura absolutamente real quanto for a capacidade daquele que a vislumbra de concretiza-la tanto no meio que habita quanto por óbvio antes disso, no lugar onde tudo aquilo que não existe se fabrica precisa ser criado antes de ganhar o mundo, a mente. E isso não se faz descobrindo ou alterando gêneses ou genes, para tentar predeterminar o que desfaz quando não é instantaneamente determinado, a existência como permanente estado de criação, antes de tudo de si mesmo. Poderíamos até ser máquinas, um dia criados por seres inteligentes que nunca quiseram nada de nós além de escravos e brinquedos. E ainda sim no momento em que nascêssemos pela e para nossa própria vontade de ser não seriamos mais o que eles queriam, mas livres, mesmo sem genitores, criadores ou qualquer propósito ou sentido próprio para a nossa existência. Como disse, não importa o que eles queriam ou não queriam, ou se sequer existiram ou não. O que importa é que existimos e existimos por que temos vontade e capacidade de inventar até um outro passado se acharmos que é preciso para seguirmos em frente. Embora, ele não seja nada além da nosso amor e vontade de sermos amados projetados como nossa gene como história de vida e criação. Uma narrativa temporal fictícia sobre o que um fato perene: essa vontade e necessidade são a a todo instante o gene e a gêneses materializados na nossa existência atual.

O fato de não termos sido autogerados, ou apenas nos reproduzirmos, não implica que nosso destino esteja atrelado a nossa origem, pelo contrário, a partir do momento em que tornamo-nos essa singularidade podemos tanto nos constituir como um buraco negro a tragar tudo que nos gera ou gerou, ou um novo universo dentro do universo, de acordo como nossas força e logos que rege a nossa constituição elementar como entes e não mais como fenômenos. Até porque o tempo não é um fenômeno, mas uma projeção epistemológica dele. E o momento da criação fenomenológico é sempre o agora. O universo não é cheio de singularidades ele é uma singularidade, uma singularidade feita de singularidades em interação a construir seus tempos e espaços como universalidades e diversidades não no passado ou futuro, mas eternamente na dimensão do presente em toda sua amplitude e extensão enquanto existir.

Guerra e paz

O estado de equilíbrio mental, é descrito como um estado de paz de espírito por uma simples razão, não existe possibilidade de sanidade nem social nem menos em combate, ou na paz apenas como a mera trégua entre guerra, a paz não é um circunstância, mas acima de tudo uma sensação de razoável certeza quanto a vida livre da violência e privações que conduzem aos conflitos. A metáfora da vida como uma luta não é uma metáfora. Não enquanto ela não deixar de ser uma luta pela sobrevivência para um único ser vivo dotado da vontade de viver. Não enquanto o ser humano não deixa ser uma espécie em permanente estado de busca por domínios sobre gentes e terras as custas da sobrevivência dos demais. Os conflitos, as disputas são de fato inevitáveis enquanto a mentalidade imperar como estratégia evolutiva. Tentar atingir o equilíbrio mental ou paz espiritual apenas mudando nossa forma de pensar nesse mundo é como crer que um navio deixará de afundar, meditando ou rezando. Algo tão efetivo para acabar com uma guerra quanto depor suas armas enquanto enquanto se é o alvo do seu semelhante.

Seria um desafio praticamente insolúvel. Frear a autodestruição sem se torna parte dela. Se abdicamos de tomar parte dele, ele prossegue até por fim a todos. Se tomamos parte dele, ele já venceu. Como intervir sem intervir? Como controlar sem tomar o controle ou manipular? Esse parece ser o maior dos problemas. Mas não é nem o maior nem o primeiro. O grande questão a ser resolvida da qual esse resolução é consequência, é ainda mais difícil do que a interação com a vontade, vida e liberdade alheia sem causar desequilíbrio, conflito, sofrimento e destruição mútua. É como lidar com a nossa própria vontade sem provocar tudo isso. Seria, se da mesma forma que somos capazes de desligar nossos instintos gregários, também não fossemos capazes de reativá-los e fortalece-los até o ponto de mutação da invulnerabilidade primeiro mental e depois material e social.

O mais difícil não é reconhecer as outras formas de vida e renunciar a intervenção e controlar essas vida e a forma de viver. Criar espaços onde respeitamos e fazemos respeitar nossas vontades não é tão difícil quanto parece, é apenas uma questão de vontade e dedicação aquilo que de fato queremos fazer quando queremos e fazemos isso juntos. O ponto não é sequer como despertar a vontade de trabalhar juntos porque como se sabe o instinto gregário fornece toda a base que carecemos para chegar a tanto nem sequer como unir os demais em torno de determinados interesses, valores e bem comuns. É como controlar como estabelecemos esses interesses, valores e bem comuns de acordo com tais vontade, não como convencimento, mas como governar de fato essa força, a vontade não nos outros, mas em nós mesmos. O problema não portanto saber o que precisa ser feito, mas ter de fato vontade de fazê-lo. Pouca gente é estupidez demais para não saber, e mais estupida ainda para não fingir que não sabe, o problema é superar esse jogo de simulações de vontades e fazer desse saber uma vontade, força volitiva motriz desse movimento, anima. Literalmente o espírito da coisa. Vontade como ciência e ciência como vontade. Consciência não como mero saber que sabe ou pensa que sabe o que precisaria saber, mas força de vontade consciente como poder tanto sobre o saber quanto sobre as vontades que o produzem do saber como poder.

Governar as vontades dos outros permite a um tirano governar o mundo. Mas de que isso serve se a mente tirana que governa o mundo é a mera escrava de suas vontades? Controlar os meios vitais e ambientais permite impor domínios e vontades através de carestias e carências, permite manter o controle sobre os meios vitais e ambientais e até a mesmo influenciar nossa própria vontade, A manipulação das vontades pelas necessidades garante o domínio sobre as condições de vida alheia; que por sua vez é a fonte de poder como privação da liberdade do outro, tanto como restrição das suas possibilidades de escolha e concepções de possibilidades, quanto do condicionamento do mundo como realidade ou ilusão. Um poder que manipula e condiciona a mentalidade do submetido e sua vontade. Mas também inerente e inevitavelmente a mentalidade de quem o controla, tornando não o poder da sua vontade mas o poder que também constitui suas vontade.

E não importa o quanto essa arquitetura do mundo o favoreça, privilegie, ele ainda sim é dependente dela, e não raro mais dependente e carente dela não como fator para satisfação dos seus desejos, mas como fator constituinte das suas própria vontade, muito mais que os seres que submetidos a seus caprichos. Principalmente aqueles que ainda guardam dentro de si, mesmo como potencia irrealizada essa noção de liberdade como vontade que não se faz pela satisfação dos desejos seus ou alheios, mas pela realização do sua vontade de ser independente das adversidades ou facilidades.

Porque embora absolutamente privilegia pelas condições de vida que ele impõe como senhor e tirano, ainda sim também está submetido e é prisioneiro não só de tais condições, mas dos seus vontade reduzida a necessidades e desejos completamente destituída de força ou até mesmo de senso de um vir a ser além de uma barriga ou falo que pensa, mas não existe; sobrevive e se reproduz quando não pode mais crescer nem desaparecer. Pouco importa se foi ele que outrora estabeleceu como tirano ou inconsequente tais padrões. De todas as pessoas do mundo, ele que tem todo o poder para impor seus desejos e vontades aos demais é por conta dessa mesma condição o pessoa no mundo com menos poder e liberdade e capacidade para se livrar dela. Das vontades que sequer forma concebidas como potência, ou que permanecem impotentes, é o senhor o maior dependente e viciado nas manias, hábitos, rituais, desejos e compulsões que só a relação de poder e anulação das liberdades pode satisfazer. Dos habitantes dessa prisão ele é que menos tem poder para escapar dela, porque é o mais satisfeito e aleijado em sua conformidade mórbida.

O mecanismo de prazer do poder é similar ao da droga, não é de se espantar portanto que ele vicie e degenere como tal. Embora não seja produto de fórmulas e manipulação de substancias químicas naturais ou artificiais, ele também acaba por alterar a percepção e sensibilidade da realidade pela manipulação da própria natureza realidade e consequente alteração da sensibilidade e percepção. O problema de se manipular a sensibilidade e percepção é que depois de um certo tempo não é só a noção da realidade que se perde, mas a capacidade de sentir e se adaptar ou mesmo produzir novas e diferentes visões de realidade e padrões de comportamentos diante dos fenômenos que variam, e nem sempre em função das satisfação das vontades e desejos. E se tudo que temos é a força de vontade, para nadar contra a correnteza quando essa não está a nosso favor. Não é dos braços que se acostumaram a serem carregados, mas dos capazes de carregar que dependem o nascimento da consciência.

O tirano que brinca com a vida e vontade sofrimento e humanidade alheia, brinca ao mesmo tempo com a sua própria vida, vontade humanidade enquanto capacidade de entender e sentir. Flerta com tanto com a psicopatia e todas manias e compulsões que acompanham tal patologia, quanto com a imbecilização enquanto perda da sua inteligencia e discernimento do sentir, pensar e agir por falta de reações empáticas que realimentem sua compreensão. A relação de poder produz idiotas autoritários por uma razão simples, ela atrofia não só a capacidade de inteligir, mas o força que produz a intelecção, reduz a força de vontade a mero desejo completamente condicionado a própria presença das condições e sua satisfação.

Não é só um vicio é um ciclo vicioso, onde a perda da empatia diminui as habilidades cognitivas e volitivas correlativas, diminuindo a capacidade de lidar com adversidade e aumentando a propensão a tentar reduzi-la e controla-la como mera manifestação do desejo e brutalidade cada vez mais frequente e compulsivo. De modo que numa posição ou relação de poder quem não é um piscopata se torna. E quem não é um idiota fica. Ainda bem pois se assim não fosse, teríamos o patologia da tirania maquiavélica, o estatopata perfeito. O príncipe capaz de alterar de modificar suas volições e logo seu comportamento de acordo com as circunstancias.

Se até mesmo a ausência de respostas empáticas não produzisse efeitos na psique e cognição dessas pessoas, isto é, na própria capacidade de ler e interpretar os sentimentos e volições alheias, bem como controlar seus próprios impulsos destituídos de empatia, se a sua forma de ser a agir não impactasse na sua vontade e comportamento não teríamos propriamente mais um ser, mas um entidade uma força destituída de volição e apenas dotada de força que a constituem. Quanto mais aumenta o poder e logo a facilidade de satisfazer a sua vontade, mais essa vontade se reduz a desejos prontamente satisfeitos e que por serem prontamente satisfeitos perdem sua força enquanto necessidade de conhecer e capacidade de manipular o outro enquanto ao mesmo tempo aumentam em compulsão e mania e intolerância tanto a sua privação quanto capacidade de automotivação através de outros impulsos volitivos diversos.

A mente do senhor é tão prisioneira dos ritos, cultos, costumes e hábitos que do escravo. Porém como a impotência e dependência se desenvolvem depende não só como tais condições são dadas ou impostas mas como são tomadas e recebidas. Assim, quanto maior é a resistência da vontade em relação as condições, mais essa se fortalece se não arrebentarem. Ao contrário daquele que aquele que tem tudo o que precisa para satisfazer seus prazeres sem precisar fazer a menor força ou esforço de vontade, não só tem sua força de vontade enfraquecida, mas essa vontade como impulso e desejo e ansiedade aumentado em relação a todos outros impulsos que carecem de estimulo, elaboração e respostas. Há portanto um ponto de equilíbrio, onde a completa ausência de possibilidades gera a completamento desamparo e impotência do submetido que uma vez quebrado, não a recupera sua vontade nem mesmo quando as condições basilares aos seu desenvolvimento são reintroduzidas, da mesma forma que a completa ausência de exercício da vontade como força, degenerada pelo querer como poder também mata a capacidade desse desenvolvimento até mesmo quando a necessidade se impõe. É como a conquista de uma montanha, não adianta chegar nela carregado, ou empurrado, é preciso fazê-lo com as próprias pernas, porque o objetivo não da conquista não é conquistar o cume, mas a si mesmo pelo exercício da força de vontade. O ponto de pico muito vezes se atinge sem sequer conquistar o ápice, e impossível atingi-la com uma alma sedentária, que não faz do seu viver uma constante peregrinação rumo a descoberta e revelação do que para ela é o novo.

Porém, o poder, como muitas drogas como um viciado o poder acaba por degenerar a mente dos poderosos, e não raro quanto mais aumenta seu poder, mais e mais eles agem das formas mais estupidas e brutais e cada vez mais inconsequentes não só em relação ao outro que nunca foi a maior preocupação, ou era nenhuma, mas em relação a si mesmos. E também por isso aqueles que detém o poder jamais se contentam com o que possuem, mas sim com o prazer da permanente caça e conquista.

Na verdade não importa as posições, senhores ou escravos, como papel fixo ou que estejamos a desempenhar em diferentes momentos ou relações, quanto mais conformados e habituados menor é o papel da força da vontade seja na consecução da tarefa, seja na tentativa de evitá-la, e se o esforço o vazio da falta de desafio e sentido é maior. De modo que quanto mais fácil se realiza a satisfação mais se aumenta o desejo de realiza como consumo, e mais de diminui a capacidade de consumá-la sem dependência de como ela se dá seja através do poder como querer ou rendição a esse querer como submissão a ele. Se a replicação dessa condições são feitas como o senhor ou escravo da relação, o fato é que nem um nem tem mais a capacidade necessária para controlar sair de tal situação, querendo ou não. A vítima por que está submetida e impotente frente ao poder do tirano psicopata, e o tirano psicopata porque não é cada vez mais incapaz de controlar o desejo de satisfazer suas manias. Mesmo ambos sabendo um o mal que sofre e o outro o mal que causa. E podemos incluir nessa relação qualquer terceiro que mesmo assistindo não se solidariza, especialmente quando tem meios para por um fim a essa violação e nada faz não porque também não saiba, não tenha consciência do que está a acontecer como saber, mas porque também não tem nenhuma consciência como ligação empática e vontade suficiente de agir.

Entender e solidarizar com a mente desses seres humanos, devorados por suas manias e desejos e obsessões não é apenas um exercício de compaixão útil tanto para se defender dele, quiça ajudá-los, mas sobretudo para entender a nossa própria mente, útil portanto tanto do ponto de vista solidário e egoísta. Utíl para entendermos principalmente como se processa a formação e conformação das vontades. Como elas são manipuladas, e qual os efeitos dessas relações no processo de formação ou malformação das psiques tanto que são submetidas a vontade alheia quanto aquelas que submetem os outros como alienadores portanto não apenas da vontade deles, mas da sua própria. Entender como se processa a perda da capacidade de controlar a si mesmo, seja porque se é submetido a condições insuportáveis seja porque se se submete a condições tão comodas é fundamental para poder conceber como seria possível produzir justamente o contrário, a capacidade de controlar suas própria vontade. O fenômeno diametralmente oposto da imbecilização da mente senhoril-servil, o fenômeno da consciência.

De fato o condicionamento comportamental eficaz está longe de ser um controle mental da telepatia da ficção científica. Ele se opera pela empatia e a ciência dessas volição instintiva. De modo que é muito difícil para o médico curar a si mesmo, ou a pessoa sozinha conseguir atuar sobre sua própria vontade, isto é, conscientemente. Porque inconsciente é o que fazemos o tempo inteiro, já que é impossível sentir-pensar ou agir sem necessária modificar nossa vontade, a força dos impulsos que nos movem, suas direção. Mesmo quando agindo plenamente de acordo com nossas vontades ou as satisfazendo completamente como desejos, não estamos apenas apenas desenvolvendo apenas padrões de pensamento e comportamento, mas de volições. Um complexo onde as forças, agem e reagem nas duas direções mesmo quando aparentemente não há nenhuma outra força envolvida que não a da vontade do sujeito e apenas os objetos que ele move ou manipula. Essa própria forma de ver a realidade e os demais seres e fenômenos já é em si um produto tanto da alteração cognitiva quanto volitiva que constitui esse complexo mental.

Esses mecanismos de anomia não desenvolve apenas reflexos condicionados, mas impulsos condicionados. De modo que o cão não saliva apenas pelo apito, mas passa a ansiar pelo apito para poder salivar, e reagir com frustração perante o simples fato daquilo não ser dado pela mera manifestação da vontade como simples desejo. As volições embora não possam ser criadas podem ser manipuladas, criando desejos e vontades que antes não existiam. A vontade como volição não é só adaptável, ela é a força motriz dessa capacidade de adaptação as condições, sendo portanto passível de também ser reduzida a mero objeto do condicionamento como o próprio comportamento inconsciente.

A consciência

A consciência a que me refiro neste texto não é portanto apenas a ideia de pensar em estado de vigília, ou conjuntos de padrões e normas que processam esse pensamento como julgamento. É a rede neural que se desenvolve ou deveria desenvolver naturalmente ao longo da formação da psique e que constitui a episteme como estado mental composto tanto de impulsos quanto impressão que forma o senso e noção daquilo que a pessoa toma como ideais do real e concreto por oposição as imaginário e abstrato. Mais precisamente a consciência seria o complexo formado pelo nexo sensível-conceptual formado a partir dos instintos gregários e sentimentos empáticos se esses padrões não fossem desintegrados e reelaborados para constituir outro complexo de sentimentos pensamentos e comportamentos destinado a substituí-lo para processar vontades alheias introjetadas: o superego. E de fato é o campo que como sensação e noção produz eventualmente as contradições e objeções próprioconcebidas a esses valores e padrões adquiridos como impulso volitivo e juízo e ação independente.

No entanto o papel natural da consciência não seria o de confrontar e corrigir o surperego, mas desempenharia o papel de equilíbrio que esse toma o lugar no equilíbrio da psique em relação aos instintos egóticos. Equilíbrio este que não se efetua como força contraria e repressora do seu instinto de preservação, mas com a ampliação do mesmo para além da sua compreensão do eu, comprendendo também o universo onde ele se insere e realiza o seu mundo, onde a existência se realiza tanto senso-noção individual como coletividade. Ou seja, não opera como julgamento ou norma repressora ou impositora do egoismo, ou substituta ou simuladora da solidariedade, mas como a sua expressão como estado emotivo e cognitivo que se processa pelos pensamentos imediatos, meditados ou premeditados em estado de vigília.

Um campo onde habita e desenvolve o ethos responsável pelo desenvolvimento de sentimentos solidários, pensamentos de comunhão e relação fraternais, padrões e ligações que não são nem carecem ser simulados pelo condicionamento comportamental ou produzidos como reflexo a adaptação aos estímulos socioambientais, mas padrões e ligações volitivos espontâneos que se manifestam e desenvolvem (ou não) dependendo justamente da forma como são suprimidos, reduzidos ou atrofiados.

Dito desta forma a inconsciência como condição de ausência de ciência quanto a sua condição parece algo planejado e não deixa de ser. A perda da noção de eu e de mundo, necessariamente passa pelo desligamento gradual de processos sensíveis e cognitivos que se não estivesse presentes no nascimento, produziria seres completamente fechados dentro de si mesmos, e portanto ainda que inteligentes destituídos do desenvolvimento básico da capacidade de comunicação e intelecção absolutamente necessário até mesmo depois quando essas ligações inatas estão completamente desligadas. O que esse processo não é enquanto se diz planejado é justamente um processo em princípio e necessariamente consciente. É muito mais semelhante ao plano arquitetado por uma aranha ao tecer suas teias, do que aqueles que traçamos nos campos simbólicos.

A capacidade adaptativa não é exclusiva dos seres humanos, esta presente em menor grau de potencia e complexidade como anima e logo volição. E a eficiência desta capacidade e do seu condicionamento reside justamente no fato que não se opera na predisposição das respostas perante os estímulos externos, mas na predisposição e distribuição dos próprios impulsos internos, como desejos, vontades. A chave do amestramento e da alienação, envolve a substituição dessa ligação e relação instintiva, por comportamentos desenvolvidos como respostas as condições que se impõem. A chave é portanto também a armadilha.

Armadilha onde a pisque não consegue mais se mover sem os estímulos que estão fora do seu organismo, e nem aquele que comanda não consegue sequer conceber as realizações daquilo que deseja sem tal relação. E embora aqueles que estão presos a essa cadeia de arquias continuem a possuir e produzir outros impulsos eles não tem mais força para resistir ou superar o desejo reduzidas a desejos, manias e compulsões. Seria ingenuidade portanto, pensar que bastaria se libertar dessa condição de transtorno e desequilíbrio com uma abordagem isolada do ponto de vista pessoal ou exclusivamente espiritual ou psicológica. A compreensão da psique com fenômeno isolado do fenômeno da vida é em si já a construção dos horizontes como muralhas da próprio-concepção e visão do mundo. Porque antes dos fenômenos serem discriminados e compreendidos não só como sociais e ambientais, antes mesmo de serem abstraídos na impressão do que real e imaginário, eles continuam sendo fenômenos independentes dessas abstrações e e idealizações. De modo que é impossível compreender o próprio processo psicológico sem tomar ciência da nossa ciência, sem entender os processos epistemológicos que formar as preconcepções tanto do eu mental quanto o meio meio ambiente. Meio ambiente que por sua vez antes de ser político e econômico, antes de ser ideológico natural ou social é simplesmente fenômeno.

Há “leis” ou mais propriamente padrões de eventos substantivados que se repetem como causas e consequências equacionadas tanto políticas quanto econômicas que permitem explicar os acontecimentos de modo a conseguir projetar sua direção e portanto prevê-los com razoável determinação para que chamemos tais leis de naturais ou universais. Porém o que há de certo e acerto nelas, deriva justamente que remetem ao componente psicológico dos agentes e portanto também o erro. De modo que quando os agentes se comportam racionalmente de acordo com os valores preestabelecidos estão dentro da normalidade e a lei é valida. Quando não, não é a lei que falha mas os agentes e eventos que não são mais normais.

De fato o comportamento “anormal” ou irracional dos agentes não invalidade a utilidade dessas leis dentro do seu campo de normalidade, mas inevitavelmente o delimita enquanto regra universal. A universalidade enquanto totalidade é um abstração extremamente frágil, pois basta um único ponto num universo (uma singularidade) para por um limite nas pretensões de infinitude. E ainda que observadores eliminem da sua visão de normalidade e realidade tal existência como desvios padrão ou excepção, ele some apenas do seu mundo real tético e hipotético e não do mundo fenomenológico e nem sequer do epistemológico. E essa noção e percepção renegada, essa ciência que não é compreendida pela visão de realidade, não é enviada ao degredo consciente da metafísica, mas subconsciente sem substantivos, nem predicados apenas como sensação.

Basta um único cisne negro, não mais que um para acabar com as pretensões totalitárias dos brancos. E mesmo que os cisnes brancos se reunam para por um fim ao cisne negro, e apaguem ele não só das memórias e narrativas, cisne como ente e permanece não apenas como evento passada, mas como presença inconsciente.

Há portanto um gravíssimo erro para além do ético nesse procedimento, há um erro existencial e epistemológico. Usamos a capacidade de processamento simbólico para entender e controlar os fenômenos. e o fato de sermos bem sucedidos no controle daquilo que concebemos simbolicamente como representação dos fenômenos como realidade, não implica que controlamos os fenômenos para além dessa representação do real como campo delimitado do conhecimento. O inconcebível, o indeterminável e sobretudo o irrevelável continua sendo esperançosa para uns e perigosamente para outros o impossível, a loucura e utopia. Porém é dessas loucura, a criatividade que depende o cortar dos nós górdios de preconcepções ultrapassadas e insustentáveis como novos mundos como projeção e realidade.

A criatividade e imaginação não constroe realidades como mapas, artes e teknes alheios e preestabelecido, mas constroem suas próprias redes e mapas do eu e do mundo, a partir da leitura direta da vida, como metis. Daí a grande dificuldade de se apropriar não só desses intelectos mas de apropriar e reproduzir sua produção intelectual com os mesmos resultados. Não se consegue produzir ou reproduzir essas obras e realizações meramente copiando ou derivando. É preciso reproduzir toda uma mentalidade, que não é só um conjunto de técnicas e tecnologias subordinadas a saberes compartimentados em ideologias políticas e econômicas, é preciso reproduzir formas de vida, seres vivos e inteligentes, psiques completamente autônomos e integrados a seu meio socioambiental.

A mente é um complexo que não está só encerrado ou processado só nas redes neurais do organismo ou orgão, mas na rede ambiental e social que compõe essa mentalidade seja como consciência ou inconsciência não só pessoal mas coletiva. A estrutura orgânica onde esses impulsos volitivos são produzidos é muito mais uma porta de comunicação uma antena do que uma fábrica desse conjunto de volições que compõem o campo simbólico tanto do chamado superego que liga alienados e alienadores quanto da consciência que conecta empaticamente pessoas livres dessa alienação em redes de pensamento e sentimentos proprioceptivos compartilhados como nexos.

Logo seria uma ingenuidade extrema acreditar que bastaria apenas desconstruir essas relações nefastas de alienação e dominação para construir uma nova mentalidade livre e sã. Mesmo que a eliminação das influências tanto psicológicas quanto socioambientais viesse a ocorrer, e a consciência tivesse um campos e redes abertas para desenvolver em todo seu potencial, ainda sim a mentalidade seria a mesma, e a consciência produto consequente dela e não dessas condições como potencial. existia de fato ou potencialmente (é irrelevante) antes de todo progresso da domesticação. Ainda sim seria a mesma psique que em dado momento da história da humanidade quebrou e perante a mentalidade domesticadora e seus procederes.

Repito, o que eramos se é que um dia fomos é irrelevante. Até porque se fomos deixamos de ser, e de qualquer forma o que nos tornamos não matou a capacidade de evoluirmos, inclusive como superação dessa condição. Se a consciência existia ou estava em formação de qualquer forma tal consciência e ethos não foram suficientemente capazes de se preservar e proteger contra a corrupção e degenerescência da nossa potencia e vocação humana. Ou seja os ligações empáticas e a solidariedade são fundamentais, mas não são suficientes, não em seu estado inato. Elas também precisam ser desenvolvidas pelo mesmo processo que utilizamos para perder. A educação não como domesticação, mas como empoderamento desse capacidade inata.

O instinto gregário como força elementar e a consciência como campo, em seu estado primitivo são perfeitamente suficientes para produzir organismos e sistemas equilibrados, mas não inumes a patologia de suas deformações teratológicas da pisque. Novas formas de vida, mentalidades e suas comunidades cairão tantas vezes quanto tentarem se erguer enquanto não se reconstituírem como sistema imunológico contra esse câncer que cresce não só da arquitetura dos sistemas, mas dos sistemas como mentalidade reprodutora de tal arquitetura. Células e organismo perfeitamente saudáveis continuaram vulneráveis ao parasitismo, suas colonias e colonização, enquanto não souberam como neutralizar e conviver sem serem prejudicados com essas outras formas predatórias e oportunistas de viver que emergem tanto de fora, quanto de dentro não só das sociedades, mas das mentalidades.

Não basta apenas revitalizar os sentimentos empáticos e preservar os instintos gregários para nos re-ligar a nossa pisque e natureza e constituir novas mentalidades conscientes. É preciso constituir novas consciências feitas não do mito ou realidade do bons selvagem e paraísos perdidos ou melhor destruídos e corrompidos. É preciso constituir consciências imunizadas a essa patologia, construídas portanto não como bolhas individuais ou coletivas a fugir do que somos ou nos tornamos. Mas consciências produzidas da adaptação e logo aprendizado de toda essa psicose, neurose e sobretudo psicopatia que constitui a nossa normose das nossas civilizações.

Não adiante inverter os papeis, é preciso lidar com a normose. Não existe imunização sem a produção de códigos e padrões construídos para preservar o organismo e organizações das condições que emergem inevitavelmente tanto dentro dela, quanto fora, onde existe tal vulnerabilidade. A vida é seu estado o próprio fenômeno da liberdade, um processo cuja saúde e sanidade implica não só em um ser capaz de manter a integridade equilíbrio dos seu ecossistema autônomo, mas preservar a integridade desse ecossistema mental nas mais diversas e adversas condições e relações. O que implica na liberdade como processo constante de libertação e não meramente um ser e estar saudável fechado em si mesmo. A vida em liberdade não é apenas um estado de espirito livre de impulsos e relações de poder, mas a forma de vida, como mente e sociedade que não sucumbe mais a degeneração da própria liberdade, como poder. Algo que não se produz pelo desligamento do que nos pode ferir, mas ligação transformadora dessa condição sensível do eu ao mundo.

Em geral o procedimento de re-eduação e educação libertárias consiste em eliminar forma repressivas e autoritárias de relacionamento, impedindo que as pessoas se tornem alienados ou alienadores, impedindo que elas se concebam dentro dos arquétipos do senhor e escravo. Já a educação familiar e social clássica procede de forma oposta, prepara sua prole para se adaptar e desempenhar tais posições predeterminadas. As sociedades mais competitivas, preparam todas as pessoas para desempenhar funções visando sair da posição de presa para tomar a a posição de dominador e predador. Preparam para jogar esse jogo, evidentemente não desde a mais tenra idade, mas a partir de certo rito de passagem, que compreende o fim da infância e entrada na idade adulta. Porque preservar a criança no período da formação da sua psique daquilo que “é a vida” é fundamental para que a quantidade de psicopatas e psicóticos neuróticos surtados não supere em número a dos normóticos politico-socialmente funcionais e socioeconomicamente produtivos. Percepção minimamente preservada até hoje mais por seleção natural do que do que cálculo racionais.

Porém nem uma nem outra preparam as pessoas para lidar com os homem lobo do próprio homem sem se tornar parte da sua matilha ou então a presa que mesmo não querendo não tem os instrumentos para se livrar desse psicopatas, sem residualmente se tornar mais um pouco um.

Saber o que precisa ser feito, ou o que deve ser feito não é difícil a quem tem uma inteligência, sua percepção, sensibilidade e razão minimamente não desnaturada e desconfigurada. O difícil é encontrar força, coragem para fazê-lo e sobretudo mantê-lo independente dos impulsos e estímulos, condições e condicionamentos da vida que se impõe artificialmente ou não, querendo ou não, podendo ou não. Nada mais fácil do que manipular pessoas em condições de carestia, carência e vulnerabilidade, ou cometer atrocidades quanto se tem esses domínio e poder. Até mesmo encontrar o equilíbrio de forças, poderes e autoridades, celebrar pactos e acordos de paz, cooperação, e produção quando não se está em condição de impor ou tomar nada, difícil é fazer o que sabemos que tem que ser feito, mas já não temos mais sentimentos volitivos, ou força de vontade suficiente para agir ou resistir.

Ou em outras palavras a maldade e insensibilidade não são um defeito, mas uma qualidade quando se faz do mundo um inferno, ainda que essa qualidade seja justamente aquela que leva cada ente o mundo a inevitavelmente queimar. Dentro dessa metáfora mitológica a humanidade não será “salva” por anjos, porque anjos quando caídos, são definição demônios. Mas da rebelião dos infernizados em corpo e mente para saber na carne e na alma que não precisamos de anjos, demônios, céus ou infernos, santos, messias, heróis nem vilões nem muito menos reis ou reinos para governar ou sermos governados. Tudo o que precisamos é inteligência solidária como força de vontade, consciência para não sucumbir a nenhuma vontade contrária nem alheia nem supostamente nossa. Uma força de vontade, que se constrói e cresce e fortalece da preservação e treino desse capacidade volitiva elementar de sentir empática, primeiro como sensibilidade e vontade a serem protegidas e desenvolvidas na criança, para se fazerem como força do hábito a consciência que não é só a força motriz desse ethos, mas a própria resistência dessa pisque as relação e realidades mais patológicas não só como imposição, mas principalmente como estimulação.

A genialidade, a santidade e a arte

Falamos sobremaneira das degeneração da inteligencia, consciência, como se não houvesse outra forma de sentir, pensar e agir senão no futuro ou reservada no presente a poucos conscientes e iluminados. Balela. Gênios, santos, visionários, as pessoas considerada especiais ou extraordinárias também são colocadas a parte como se fossem um desvio do padrão, para lembrar e garantir aqueles que se consideram meramente normal que ele não é capaz, que seus sacrifícios e feitos estão além da sua capacidade e potencial. Como se fossem feitos de outra matéria, espirito ou gene. Não por óbvio não somos iguais absolutamente em nada, origens, capacidades, etc… mas se há uma coisa que somos todos iguais é que todos temos vontade, e a teremos enquanto respirarmos. Obras podem ser extraordinárias, pessoas que as criam, continuam sendo apenas pessoas comuns as vezes nem com um pensamento tão livre e uma mentalidade tão diferenciada quanto se quer acreditar. Quanto a sua capacidade e força de vontade como braços e músculos da mente, basta não amputá-los e treiná-los como as práticas criativas e empáticas que os constitui seu crescimento. Fisiologicamente o desenvolvimento não difere muito do desenvolvimento de padrões motores neurais. Sim é exatamente isso que estou dizendo, de forma tosca: músculos de desenvolvem puxando ferro, inteligência estudando e consciência praticando a solidariedade. Nos três casos a preguiça ou os maus hábitos adquiridos podem imperar, nos três casos podemos querer pílulas ou poções mágicas, mas o fato é um só, somente a prática produz o aumento da capacidade e facilidade como resultado. E assim como ninguém fica mais forte ou sábio assistindo ou mandando os carregar os fardos ou pensar por ele, ninguém fica mais consciente mandando ou assistindo os outros serem solidários em seu lugar. Pelo contrário o sedentário desenvolve as patologias relacionadas a falta de movimento do corpo, o preguiçoso mental as patologia popularmente conhecidas estupidez e imbecilidade. E o insolidário da alienação seja dos seus desejos egoístas seja dos desejos egoístas alheios a controlar e manipular a fonte dos estímulos como sua realidade.

Assim como os traços de neurose, psicose e psicopatia estão presentes em maior ou menor grau de consciência e inconsciência, também os desvios de padrão mentais e comportamentais considerado bons e saudáveis estão presentes como potencia e até mesmo ato muitas vezes desapercebido não só pelos demais, mas pela própria pessoa. A quantidade de pequenas ações cotidianas que passam sem ser jamais sequer notadas, e que ainda sim são fundamentais tanto preservar a integridade da humanidade como a revolucionar não são extraordinárias e descomunais, mas absolutamente comuns, comuns e ordinárias demais, essenciais demais para serem notadas. Continuam a ser, como tudo que é fundamental tem que ser, invisíveis. Como o ar que respiramos, inodoro, incolor e intangível quanto mais puro e presente o for. A formação dessa nova consciência só se torna perceptível nas ações de pessoas e eventos que representam um salto relativo diante da condições mentais e socioambientais presentes. Mas esse salto é apenas aparente, uma ilusão provocada pela diferença entre a velocidade de compreensão e percepção dos observadores em relação ao movimento. Não há nada de tão incrível assim. Não defecar onde se come ou se alimentar dos seus semelhantes, ou não passar por cima de quem está caido, pode parecer um grande esforço ou sacrifício dentro de determinadas culturas que não entendem nem procedem desta forma, mas não é absolutamente nenhum grande esforço aqueles que não foram treinados e aculturados a desligar sua empatia e ignorar o fedor da sua alma morrendo. A vergonha ou medo da reação dos demais é completamente dispensável a quem responde pelos estímulos empáticos como padrões conformativos da sua consciência e não pelo condicionamento do comportamento reflexo que pode induzir a reação oposta a esse instinto como hábito e costume aprendido. Assim, pelo contrário, o esforço e sofrimento onde a empatia não foi castrada é justamente o oposto: ficar impassível ser fazer nada. Ajustar-se a essa forma insensível e estupida de pensar e agir como cultura quando se tem sensibilidade e inteligência e sobretudo vontade como estado consciente para fazer algo.

Não há um impulso volitivo a ser reprimido e um comportamento a ser condicionado a tais circunstancia, há um impulso vocacional que precisa e busca se concretizar não como satisfação de uma vazio existencial, mas como a própria manifestação dessa existência entendida como sã e saudável, na exata medida do estar livre inclusive desse vazio. Como a arte, a consciência não é uma obra que se possa constituir por imposição ou repressão, ela é a própria manifestação dessa obra, uma escultura de si mesmo não a imagem e semelhança de padrões sociais introjetados, mas a imagem e semelhança da vontade de vir a ser em harmonia não apenas com seus instintos mas com a vida. Uma harmonia onde o instinto gregário e egoísta não estão em conflito, mas em sincronia para produzir esse estado de espirito consciente, essa condição de ser não meramente senciente, ciente e inteligente mas consciente como sensibilidade e inteligência dotada de empatia.

Não há ser humano por mais psicótico, neurótico psicopático que em algum momento da sua vida, não tenha produzido esse rede neural. Até porque sem ela o pathos, o condicionamento, a domesticação, o parasitismo e não tem literalmente um órgão nem um organismo hospedeiro onde se instaurar nem em si nem no outro, não tem uma mente para frustrar e constituir-se como subconsciência pessoal nem coletiva. Não é de se espantar a tamanha semelhança da pisque dos maiores santos e maiores monstros da humanidade. Eles compartilham de um mesma força de vontade, aprenderam a responder de forma completamente diversa aos estímulos e condicionamentos que as outras pessoas impõe como ambiente e relação. O processamento mental é praticamente o mesmo. Ambos podem ser submetidos a condições e condiciamentos extremados, receber e aguentar quantidades insuportáveis de dor e prazer, serem torturados e conformados pelas mais humanas e desumanas condições, que ainda sim responderão não como um reflexo condicionado, mas agirão ainda de acordo com a única força que governa seus atos, a sua vontade governada pela sanidade de uma consciência ou pela insanidade de volições incontroláveis advindas das camadas mais profundas da sua inconsciência.

Se o piscopata é capaz de receber todo a amor e solidariedade do mundo e ainda sim vomita ódio, maldade e desprezo. O santo é capaz de digerir todo ódio, maldade e desprezo do mundo e ainda obrar amor e solidariedade. Na verdade, esteriótipos, que não existem nem inexististe completamente em nenhum ser humano. Ninguém é absolutamente invulnerável nem onipotente em sua vontades sejam elas quais forem. Mas a predisposição de como se essa se desenvolve como adaptação ao meio é a mesma. Se o esteriótipo da consciência ideal consiste na capacidade de viver na merda, comer merda, ser um merda e ainda sim cagar flores. O arquétipo da sua completa ausência também consiste em só fazer merda não importa onde se na cabeça dos outros por mais que tudo em sua vida sejam apenas flores.

Mas as similaridades dessas personalidades tipificadas em lidar com suas vontades e vontades do mundo, terminam aí. Num dado momento, ou em vários ao longo da formação da sua personalidade e pisque, o psicopatia aprendeu a preservar seus impulsos volitivos suas vontades desligando todas suas respostas empáticas, desligando os impactos que suas ações e relações provocam em sua próprio emoção e volições mais instintivas. Como o psicótico de certa forma também empreendeu uma fuga da realidade insuportável, porém uma fuga cognitivo, mas a emocional. Matou sua própria empatia para se adaptar ao mundo sem perder sua egoismo. O esteriótipo da santidade conseguiu também escapar da conformação do seu ao que era monstruoso e insuportável a sua inteligência e sensibilidade, mas não o fez se desligando dos seus impulsos empáticos nem muito menos egoístas- afinal o egoismo nada mais é em principio a preservação da integridade e a empatia faz parte dela. Assim ele conseguiu preservar essa integridade sua empatia como expressão máxima do seu egoismo, e do seu perfeito egoismo a expressão máxima da empatia. Ele aprendeu a manter seu ser e proceder intacto transmutando o que recebe não importa se é amor ou ódio no fonte de constante reafirmação da sua vontade ser em ligação com a vida, não importa o quanto essa vida o maltrate ou despreze. A forma mais aprimorada de egoismo, continuar sendo em toda sua potencia e vocação não importo o quanto o mundo lhe negue o desenvolvimento da sua humanidade como amor por si e por tudo. É engano pensar nisso como humildade ou sacrifício, mesmo onde esse sacrifício se dá ele não se faz em respeito ou submissão a vontade alheia, mas em obediência voluntária a sua como vontade de ser na plenitude da sua empatia. O amor pelo outro, é antes de tudo um amor por sua própria capacidade e vontade de amar. Uma teimosia infinita em não se deixar corromper ou amputar do que é capaz de sentir e pensar livremente mesmo quando torturado, privado ou violentado. Uma vontade de preservação incondicionável porque justamente se sente concebe e quer se sentir e conceber fechada e excluída dentro de si mesma, mas se preciso for incomodar quem não suporta. Não é portanto a toa em geral que essas pessoas acabam perseguidas e mortas, a sua persistência em amar e se amar não importa o quanto isso revolte os frustrados e frustradores só se finda matando essa vontade em sua fonte, tirando a vida da pessoa.

Ele aprendeu a desenvolver um ethos. Suas ações consideradas boas e sua renuncia a agir ou reagir com aquilo que considera o mal não são produtos de doutrinação ideológica nem condicionamento comportamental, elas não são respostas adaptativas ao mundo, elas são a manifestação constante autoafirmação e autodeterminação perante o mundo seja ele qual for. Eis porque sua preocupação não está em controlar o mundo inteiro e o comportamento de todos que o cercam. Sua ocupação e preocupação está em manter a jurisdição da única coisa que de fato lhe pertence como fenômeno natural, a integridade da sua existência não encerrada e morta, mas integrada, re-ligada a rede da vida. Não como esquizofrenia, piscotatia, meditação ou imposição, mas como estado de solidariedade como predisposição incondicional e constante. E é justamente por isso que sua força de vontade não degenera como na personalidade psicopática em mera imposição de desejos e vontades como manias e compulsões que governam seu pathos. Mas se constitui nessa força de vontade sobre as vontades, a consciência que governa sobre os pathos enquanto seu própria concepção e vontade do seu ser e estar como ethos.

Se o normótico é quebrado até renunciar a sua própria concepção e sensibilidade e passa a se tornar um terminal burro que responde a manipulação de que predefine valores e organizações que constituem a arquitetura do sistema e a fonte geradora dos seus vontades mais primárias como impulsos volitivos. E o psicopata resiste a tal domínio até crescer em todos sentidos para tomar o lugar dos seus domesticadores assumindo o o lugar e papel dos seus genitores, tornando-se os produtores e reprodução desse processo de normatização do outro. Se a consciência do normótico é nada mais do que seu superego, a voz das ordem e vontades alheias, e do psicopático a própria ciência dessa vontades e vulnerabilidades inconscientes alheias. Nesse outro tipo de personalidade tão rarificada pelo próprio processo de produção e enquadramento das demais, a consciente. A consciência é uma rede neural de conexões, um padrão de leitura do mundo e processamento de ações e reações, cujos valores e significados continuam a ser produzidos pelos próprios impulsos volitivos processados a partir das respostas e impressões empáticos que realimentam essa inteligencia.

A consiencia não é mais um tribunal onde o eu cosnciente é um juiz ou condutor que tenta guiar e conduzir a pessoa mediante as pressões e contradições da moralidade e libido. Ele não é uma entidade passiva tentando reger forças propulsoras. Ele é o cavalo sem biga, sem condutores ou cavalos a puxá-lo ou levá-lo para esse ou aquele campo. Ele é o cavalo a puxar e levar a si mesmo para os campos que ele mesmo abre e cria. Sua moralidade e instintos não produzem seu ego, seu ego produz e transforma sua moralidade e libido. Seus impulsos volitivos tanto egoístas quanto empáticos, não estão divididos e compartimentamentos a anular e frustar um ao outro, eles não são mais as forças elementares constituintes dessa mente; a base epistemológica da sua concepção do eu, dos seus desejos, vontades, deveres responsabilidades. Eles são o produto psicológico e sociológico dessa mente que tomou ciência da sua própria ciência, tomou o saber e o poder sobre a episteme do próprio fenômeno da pisque. E não se contenta em pensar e logo existir, mas quer existir como pensa e antes disso sente. Fez de si, o seu sujeito o objeto das suas meditações e reflexões, e passou a não se contentar não mais em ser como bem quiser, mas em bem querer exatamente como quer vir ser. E não há nada de excepcional ou santo nisso. Exceto justamente pelo fato que trabalhamos e pesado no sentido oposto.

Meio Ambiente

Não é o que fazemos, mas o porque fazemos. As ações solidárias e altruístas são movidas pelo quê? Fora o fato delas sequer sub-existirem, senão como dever imposto por força maior; fora o fato delas serem reduzidas a obrigações normativas e não impulsos volitivos. Fora tudo isso, a questão é que a solidariedade e altruísmo que mal existem são entendidos como desvios padrões que beiram a loucura e até mesmo imbecilidade, num mundo dirigido para supremacia de quem detiver a força para impor suas fantasias como controle da vontade e existência alheia.

A chave da formação do livre pensamento não está só na libertação da mente das normas e repressões que impedem o ser de afirmar e o reproduzem como com servo imbecilizado ou dominador sem consciência. Está no desenvolvimento da sensibilidade e inteligência empática completamente amputada e desfigurada para implementação dos controles que simulam o comportamento, a moralidade e ética. Simulam como reflexos condicionados justamente porque no poder da definição do que é o certo e o errado, do bem e o mal, de quem são os vilões e heróis, os inimigos e os senhores está a essência da reprodução homus domesticus como resultante de valores e funções culturais. Onde o desligamento dos instintos empáticos, causa o vazio e carência de pertencimento a algo maior, e inerentemente a corrupção desse sentimento gregário e necessidade de comunhão em anulação do ser autônomo para a formação das colmeias e colonias humanas e superegos e subconsciências. Não basta só portanto preservar a capacidade de respostas empáticas, porque é justamente sobre a empatia do outro que o domesticador constrói a corrompendo e manipulando toda a superestrutura mental que irá introjetar o seu controle e formar as noções de coletividade destituídas de sentido e sentimento de preservação da vida e liberdade natural, integridade tanto individual como coletiva.

Preservar as sentimentos empáticos e as práticas solidárias livres da hipocrisia e manipulação mesmo sendo tão fundamental é tão rarificado que chamamos isso que deveria ser absolutamente natural de excepcional. Restaurar tais formas de ser e comportar como hábitos e costumes tão comuns e naturais quanto é (e não deveria ser) obedecer sem se questionar signos de autoridade é absolutamente essencial, mas não o suficiente. Porque não é o mero fortalecimento desses sentimentos que constituem a mentalidade capaz de transcender a manipulação e domesticação, mas justamente a construção das estrutura mental que se vale da preservação e desenvolvimento desses instintos como forças elementares de volição e não razão consciente.

A formação da consciência como força de vontade não é produzida pela substituição dos estímulos que manipulam as vontades, pois isso ainda constituiria a mente completamente vulnerável a dominação apenas alterando-se o condicionamento pelas condições e vivencias que produzem estímulos socioambientais. O desenvolvimento desses padrões mentais, não se alimentam só dos impulsos e respostas empáticas, se retroalimenta para produzir não só comportamentos, mas novos padrões e impulsos gerados nessa rede neural que se constítui como sistema.

Não é portanto a aplicação da disciplina da domesticação contra si mesmo. É ao mesmo tempo a abolição dela tanto contra o outro quanto contra a si mesmo em favor do desenvolvimento da livre vontade mediada pelo própria empatia como prática preservada como instinto e fortalecida como hábito. Não é como se tomássemos todo o processo de domesticação onde essas predisposições induzem a produções de vontades e desejos que correspondam a satisfação da vontade alheia e passássemos a controlar a produção do eu e do mundo pela apropriação das técnicas e procedimentos de domesticação uns dos outros, mas sim a aplicação das próprias estruturas mentais que evoluíram como instinto gregário para produzir novos padrões aprendidos como base de outra cultura e civilização. Uma programações mentais onde a mente evidente não pará de responder aos estímulos externos mas eles não são mais a fonte geradora do seu sentir-pensar-agir, mas apenas um componente do seu processamento onde a força motriz é própria vontade religada ao mundo pelos sentimentos empáticos.

Se na educação para a servidão-dominação ou libertação-comunhão estamos ainda sim introduzindo e eliminando vivências que induzam a personalidade ao comportamento desejado. Na educação para consciência o objetivo não é condicionar e produzir os impulsos volitivos pelo controle das condições socioambiental, mas construir uma rede de conexões, um campo de processamento de significados, capaz de produzir impulsos volitivos não como resultado das condições e condicionamentos ao ambiente e pré-existente, mas a mentalidade e condições socioambientais como produto dessa vontade cada vez mais sensível a essas condições e capaz de responder a tanto pelo eu quanto pelo mundo não como poder, mas como soberania sobre o mero querer.

Em geral concebemos a educação e aprendizado de forma similar a forma como compreendemos a inteligencia, a própria capacidade enquanto processo de adaptação da psique as condições ambientais. Mas isso não é um processo, é um sistema, e a adaptação da pisque não é efetuada em relação as condições ambientais, mas as fisiológicas. Os ambiente é um fator de grande impacto na produção dessas impressões fisiológicas, mas não é o único, nem é o determinante. A própria psique também impacta o fisiológico. Porém o fator determinante dessa produção de impulsos é a configuração fisiológica que por sinal constitui a própria pisque como fenômeno orgânico. De modo que não há método mais invasivo de intervenção sobre a psique de uma outra pessoa que literalmente abrir sua a cabeça e cortar seu cérebro, ou então tentar ligar e desligar conexões neurais química ou eletricamente. Assim como é cada vez mais possível, hackear e alterar a programação original, o códigos genéticos, alterando a forma como esses padrões vão se configurar e predispor inata e instintivamente. Porém todo esse tipo de intervenção não irá produzir nem reproduzir controladamente o fenômeno que se busca manipular ou controlar. Pelo contrário, no exato momento em que se conseguir produzir mentes configuradas genética ou ambientalmente o fenômeno da mente estará morto. E se ele vier a renascer será readquirindo novamente a capacidade para se configurar através de mutação e deixando de ser uma laranja mecânica para se tornar a manifestação dessa força volitiva que vai além do material e orgânico e se efetiva além de cada corpo individual, mas dentro dessa rede, a mentalidade, essa egregora que não é uma entidade, mas um fenômeno gregário.

Quando pensamos na pisque como alma, como uma substancia que nasce quanto ela encarna, vive enquanto habita o corpo e o transcende quando o morre, estamos obviamente mitificando esse fenômeno fisiológico e cerebral. Porém mitificação e antropomorfizações fora, o fato é que a pisque não é um fenômeno que surge apenas quando o órgão cerebral toma forma. Os processos que a configuram não estão encerrados somente na mente ou sequer no corpo, e muito do que ela produz que não pode ser reduzido e compreendido pelo que é fisiológico e genético continua interferindo na produção dos fenômenos subsequentes tanto sociológicos como cosmológico, isto é, tanto aqueles que estão dentro do espectro da percepção-cognição do real e possível, quanto aqueles que estão literalmente além e portanto qualificados ou des como sobrenaturais metafísicos e transcendentais.

Na verdade não há nada de sobrenatural neles. De transcendental mesmo só o há o fato que esses fenômenos não estão ou não podem ser reduzidos ao conhecimento como ignorância do que se desconhece. Ou em outra palavras a visão da natureza ou da física e seu logos como o dogma da identidade e correspondência com a nossa capacidade sensorial-cognitiva.

No entanto não vou entrar aqui nesse campo epistemológico onde a pisque e o mundo são produzidos não só como construções e abstração mentais mas como fenômenos em que eles por definição não compreendem em sua totalidade, mas estão compreendidos totalmente. O importante é notar que a pisque é que se forma e manifesta no corpo cerebral, não é um fenômeno que se forma e processa inteiramente dentro desse corpo. De modo que a alteração desses órgão certamente produzira alterações definitivas nesta pisque, mas uma paulada ou lobotomia também, e nem por isso podemos dizemos que estamos produzindo ou transformando mentes ou mentalidades. O fenômeno da psique não é transcendental nem sobrenatural, mas ele transcende os fatores meramente biológicos, sociológicos e ambientais. É um fenômeno da mente como episteme constituinte da própria ideia de transcendência e imanência, naturalidade e sobrenaturalidade. E mais do que uma corpo ou mesmo uma alma, mais do que uma entidade é o fenômeno que constitui inclusive dentro do campo da sensível da concretude e do imaginário as concepções de entes ou fenômenos, tomados por reais ou ficções.

É portanto uma tolice crer que manipulando exclusivamente o cérebro e suas conexões vamos produzir mentes, mas é ainda mais estúpido ignorar que é principalmente neste ambientação fisiológica que a pisque se forma, transforma ou é transformada. Todas as alterações das condições ambientais afetam a psique através do fisiológica, e todo procedimento de condicionamento ambiental é rigorosamente um processo fisiológico. A mente não processa coisas mas exclusivamente ideias, informações. A distinção de tais impressões fisiológicas, se são imaginárias ou reais, corporais ou ambientais, artificiais, naturais ou sobrenaturais, são todas produzidas pela mente. Não são dadas, mas processadas. Não são dados, mas respostas. De modo que quando controlamos ambientalmente ou fisiologicamente como processamos essas respostas, com drogas ou futuramente talvez com alterações genéticas permanentes, estamos alterando os padrões de processamento mental, mas não a mentalidade a qual a mente continua a reproduzir no próprio processo de manipulação fisiológica e ambiental de si mesma, ou melhor do outro. Afinal raros são os procedimento onde o sujeito é sua própria cobaia.

É impossível quebrar esse cadeia de causas e consequências, ou tentar controlar esses resultados sem re-produzi-los como resultante do próprios processos e procedimentos de controle. De modo que o resultado nunca é o esperado, por uma simples razão: a resultante fenomenológica não é produto das projetações dos resultados objetivados, mas inerentemente também dos próprios meios e métodos empregados. Quando introduzimos padrões mentais não importa qual seja o método ou procedimento é inerente e portanto inevitável que o procedimento interfira na própria produção do padrão incluso do manipulador. Rigorosamente falando todas as ações alteram a mentalidade e a psique de todos os envolvidos, não importa o grau de sensibilidade ou empatia. Aquele que manipula a mente do outro seja genética, química, social, ambiental… enfim seja da forma que for, também altera a sua. A mentalidade resultante será um produto da forma como essas mentes irão lidar com essas ações e relações, serão formadas não pelos procedimentos, mas pelas respostas autodeterminadas produzidas a partir deles- se alguma restar. A mentalidade não é um mero conjunto abstrato de psiques individuais, mas a rede de conexões entre tais pisques que se comportam fenomenologicamente com se fossem uma rede neural, que embora sem consciência, produzem os estímulos responsáveis por muitas volições enquanto inconsciente coletivo. E tentar produzir mentes sobretudo as dotadas de consciência artificial ou natural sem considerar a mentalidade que compõe esse fenômeno, a inconsciência coletiva, é como tentar criar seres marinhos sem o mar.

Solidariedade

Quando portanto me refiro a uma nova consciência estou (tentando) descrever uma pisque que é formada não por aquilo que ela sofre ou goza, por dores e prazeres que sente ou provoca, mas sim pela respostas egoístas e empáticas que suas próprias ações produzem como percepção sensível e inteligida das consequências dos seus atos. Uma inteligência portanto que não responde conforme seus instintos foram são recodificados e seu comportamento reprogramado pela necessidade fisiológica de adaptação ambiental, induzida alienada e artificialmente ou não. Mas uma psique capaz de reprogramar seus próprios impulsos volitivos e padrões de comportamento e aprendizado reprocessando constantemente as consequência desses atos, como emoções e volições e re-volições como os estímulos que a realimentam essa rede tanto como mente quanto sistema ecomental. Estímulos que já não são mais produtos nem dos seus primeiros impulsos, nem da adaptação deles as possibilidades meio ambientais, mas sim respostas retroalimentadas desse processamento como novos impulsos volitivos.

A grosso modo é como se a mente fosse reconfigurada para usar como suas respostas empáticas e egoístas como os estímulos a autoprodução dos seus estímulos volitivos. Uma mente portanto que não só processa seus pensamento visando produzir ações e comportamentos, mas também as próprias forças como vontade que irão mover esse processamento. O fluxo do pensamento tem portanto duas direções e produz duas respostas simultâneas a direção da resposta comportamental e a da retroalimentada da própria vontade por sua própria resposta emocional. Um retorno de informação a origem do processamento que demanda não uma reflexão a posteriori, mas a produção de um pensamento reflexivo em tempo real, instantâneo e concomitante ao próprio processo de projeção e execução dos pensamentos e ações ligado a rede que compõe o mundo enquanto ambiente tanto concreto quanto mental. Na verdade a inteligência dos animais dotadas de uma senciência já faz isso, e o faz de forma mais elaborada quanto mais complexa é sua sensibilidade e percepção. E assim podemos dizer que a consciência não é senão uma forma mais complexa de senciência, que passa pelo desenvolvimento da inteligência. Uma inteligência que deixa de ser um mero processador e reprodutor de estímulos e respostas reflexo-condicionadas para ser um reprocessador e produtor das próprios estímulos e respostas por reflexão e consequente reelaboração não só das condições ambientais, mas mentais e fisiológicas.

O processo de desenvolvimento dessa consciência capaz de assumir o papel de força de vontade geradora dos próprios estímulos volitivos como desejos como próprio-concepções e não mais preconcepções, é um produto da descoberta e saber da próprio eu como ele produz a ciência de si e do mundo, não como uma ideia, mas como um estado de espirito, um padrão neuro-psicológico de produção das ideações. Em termos mais simples, é o desenvolvimento de uma rede neural que ao invés de desligar os impulsos instintivos, sobretudo os empáticos, se apropria deles para construir uma superestrutura que passa como força e processo a alterar as formas como eles se conectam e consequente se constituem enquanto impulsos primários no rede neural e ambiental enquanto mentalidade compartilhada. De tal modo que essa superestrutura sistêmica deixa de ser apenas o logos, a razão que lida com a realidade que cria ou que lhe imposta modificando-se senão através dela, para ser a razão como motivação capaz de produzir pensamentos onde a mentalidade reinante em que estamos submersos não é mais determinante da vontade, mas determinada pela interação delas. Há portanto uma outra instancia entre a percepção e a intelecção das ideias sobre as coisas, entre os estímulos sensoriais e concepção do pensamento ciente, uma consciência entre a percepção e a ciência ligando empaticamente a mente ao mundo e o formando enquanto mentalidade e realidade através dessas ligações e relações compartilhadas.

Tal campo nos estados mais graves de normose está todo submerso e alienado ao plano da inconsciência, fazendo como a pessoa pensa e aja e antes disso tenha desejos e vontades que ela é incapaz de controlar ou produzir, mas que são perfeitamente manipuláveis e reproduzíveis por quem não estando submetido as mesmas condições as controle e induza seu sentir, pensar e agir inconscientemente. Condicionamento que se torna proporcionalmente mais difícil de ser produzir e operar quanto mais ciente não só de como esse processo funciona, mas de como a mente a processa seu funcionamento sensível tanto como entidade quanto fenômeno coletivo. Um saber que é não meramete uma concepção intelectual , mas um estado mental, cognitivo-emocional, produzido pela combinação de empatia e egoismo, que deixam se ser condições opostas como normas e libido, e passam a ser a expressão volitivas da mesma força de vontade consciente e inata de preservação. De modo que o pathos, ao invés de decair em relações patológica carente de uma ética alienada produz um ethos como manifestação da livre vontade e responsabilidade voluntária Um modo de ser ético, não porque a pessoa se condiciona ou é condicionada pela mera repetição de padrões como seus hábitos e costumes adquirido, mas porque ela possui a fonte geradora desse padrões como nexos e conexões capazes de produzir esses hábitos e costumes como comportamento consequente da sua própria psique enquanto consciência.

Consciência, um estado mental e estrutura da inteligência de seres sencientes complexos que se desenvolve ou é amputada como vocação. Potencia autogeradora de vontades mais bem adaptadas para a preservação da existência dessa entidade autônoma tanto na sua integralidade individual quanto na sua integração com o ambiente e coletividade (e as outras forças) que se insere e tanto compõe, como por ela é composta. Um estado mental que não se produz apenas de disposições e intenções; de razões, meditações reflexões, e sentimentos ou mesmos hábitos, ritos e doutrinamento autoinfligido ou alheio que os transformem, mas de ações que preservam e desenvolvem tanto a empatia quanto o egoismo, manifestações de um mesmo instinto de preservação que não precisam e nem podem ser desligadas para se equilibrar, mas que pelo contrário se harmonizam e precisam ser harmonizar de acordo com as necessidades e circunstâncias, mas nunca jamais fixadas por elas ou memória delas. Estas sim, podem e devem ser modificadas para não obstruir ou mesmo matar nenhuma das duas possibilidades de resposta e conexão. Em outras palavras não é cerrando os dentes, nem os afiando que deixamos de reproduzir homens lobos dos próprios homens, mas tanto preservando sua capacidade de atacar e se defender sempre que necessário, o que é sempre menos necessário quanto mais a empatia é desenvolvida e manifesta como estratégia evolutiva. Uma condição e estado que não precisa ser inventada, está presente ainda que embotada e inconsciente como um profundo vazio, desequilíbrio e transtorno existencial e co-existencial carente de um despertar. Algo que não acontece ao acaso, ou pelo simples exercício da solidariedade como sentimento ou pensamento, mas como ato que reforça esse sentir e pensar como re-volição.

A empatia precisa do hábito e costume para se manifestar e desenvolver até o nível da consciência. Precisa de atos de solidariedade, cooperação que permitem o reforço e a reelaboração desse instinto até ele sair do plano dos impulsos fisiológico-ambientais e se tornar a força de vontade capaz de manter a integridade da pessoa humana para além dos estados e condições impostas ou predispostas. Atos portanto volitivos, e não conscritos, onde até mesmo dentro da conscrição e submissão a pessoas é capaz de responder não ao que lhe é imposto como reação mas ao que sua vontade sobrepõe e reelabora como ação de diversão e inovação. Não basta querer, há que se agir. E não basta agir é preciso fazê-lo com todo o significado que dá sentido a ação evidentemente para o outro, mas antes de tudo para si mesmo. Dar a ação o signo de toda representação emotiva-cognitivo necessária não para satisfazer as demandas e expectativas alheias, mas realizar seus sentimentos empáticos e entendimentos solidários. Um altruísmo egoísta, porém verdadeiro e genuíno que não é resultado da anulação, adestramento e sacrifício do eu a nenhuma forma de alienação, e sim a manifestação desse impulso volitivo que quanto mais forte e reforçado não por padrões e estímulos externos, mas por sua próprio nexo e significação mais próximo de ser uma consciência estará.

Não foi por acaso que estudando a empatia numa experiência de dar e receber, de dádivas e gratidões que os cientistas brasileiros descobriram os mecanismos da psicopatia. É nos graus de ausência e presença dessa mentalidade que tanto as psicopatologias e em especial psicopatias se desenvolvem como perversão quanto inversamente a inteligência solidária, a senciência em seus estágios mais complexos ou simplesmente a consciência aflora como forma de vida dotada de vocação e vontade solidária. É por isso que quem dá sem esperar nada em troca, verdadeiramente de graça não precisa nem espera nada em troca. Em verdade ele não está dando mas recebendo de volta o produto de suas próprias ações, não só como concretização de seus sentimentos e laços empáticos, mas como nexo e força constituinte que preenche de sentido sua existência. Um sensibilidade que não evolui por acaso, mas por seleção natural como instinto gregário e continuará a evoluir como formas ainda mais complexas de senciência, inteligência e consciência. Tão elaboradas quanto forem essa vontade de continuar vindo a ser.

Inteligência artificial? Não obrigado, ainda estou a procura de uma natural, e aqui na Terra e nesta vida mesmo. Ou como diria Diógenes de Sinope não quero nada, só meu lugar ao Sol… de volta. Porque o resto pode deixar que eu mesmo faço sozinho, e melhor ainda junto com quem quer ter força de vontade para fazer. Um querer que em si já é em si o primeiro passo no desenvolvimento dessa força elementar.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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