Justiça Burguesa ou justiça Social?

O povo, a justiça agrária e a conquista do Pão

Mais um texto que ficou velho, antes que eu conseguisse publicá-lo. De qualquer forma segue, há partes que não são tão datadas assim

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Cunha Fora. Dilma quase.

Antes tarde do que nunca? O começo de um novo ciclo? A retomada da luta?

Só se for pra eles.

Funeral para quem cai, festa para quem sobe. Mas e para o ativista social e político independente?

A luta só continua. Até porque nunca parou.

Não paramos quando eles “mandaram”. Não vamos fingir que a luta só recomeça agora só porque eles “querem”.

“A verdadeira luta continua?”

Piada.

A verdadeira luta nunca parou. Ela nunca parou para vocês sentarem e não vai parar vocês Ela não morrer agora que seus velhos aliados de direita lhe passaram a perna e tomaram seu poder. Ela não parou quando eram a canalha de esquerda que perseguiam os ativistas de esquerda dissimuladamente ela não vai parar agora se a direita vier.

Não posso falar pelos outros ativistas mas duvido que quem como a gente nunca trocou de lado nem de causa, não se vendeu em troca de grana ou poder, nem se rendeu com a intimidação e patrulhas nem quando vocês detinham o aparelho estatal, vai agora que livre das sua perseguições dissimuladas e ameaças veladas, vai abandonar a causa para que vocês possam vir fazer sua demagogia de novo nas bases da inovação e ação social.

É por essas e por outras, que não é “antes tarde do que nunca”. Diga isso para quem perdeu o não que volta mais. É “já vão tarde”; e infelizmente, para muita gente, tarde demais. Só para eles “nunca é tarde”. Para nós nunca foi, nem nunca será cedo demais para a justiça.

Chega de reformismo, progressismo e demagogia. É tempo de pelo menos um pouco de coragem revolucionária e praxis libertária. Sempre é. Porque a justiça que tarda, já falha. E é mais criminosa ainda que seus réus se tarda de propósito. Não só porque encobre criminosos ou mantém inocentes sob suspeita, mas porque não pára o esquema que continua a fazer novas vítimas.

O crime não compensa? Mas e a mera justiça punitiva protege a vida? Ou compensa o que se perdeu?

Não. Onde há injustiça e injustiçados só há uma certeza: a verdadeira justiça, aquela que salva e protege vidas, não chegou ainda. Aquela que é capaz de salvar e proteger vidas. E qual justiça é essa?

Tenha certeza: não é a justiça vigilante dos estado mínimos. Nem a justiça burguesa dos regimes de terror e guilhotinas.

A verdadeira justiça, a que o povo clama desde que inventaram os poderes supremos, a única justiça que legítima revoluções é a social.

Quem quer cabeças dos inimigos em bandejas de prata é a burguesia, a direita e a esquerda. São eles e suas manadas que pedem guerra de classes e o poder a todo custo.

O povo?

O povo quer paz, liberdade e justiça, mas não de papel, mas paz e liberdade de fato sensível: justiça social e agrária, justiça que se sente na carne como a punição. Justiça que alimenta o corpo e o espírito

Justiça como pão, e justiça como dignidade, ou simplesmente a justiça como liberdade fundamental de quem não quer mais querem comer na mão de ninguém.

Então o povo só tem fome de pão? Só se mexe pelas necessidades e liberdades mais básicas? Não, o povo fica na sua, não toma partido, porque nenhum partido é o dele. Sim, ele quer o seu “pão nosso de cada dia”, mas não da mão de nenhum atravessador. Fica longe desta luta porque não é dele, nem por ele.

A luta que está aí não é uma luta por pão e liberdade, mas uma guerra de hipócritas, fanáticos e pelegos por poder. É por isso que até quando cala o povo prova sua sabedoria, e a sinceridade da sua paz. Porque alheio está, mas não dos seus ou da sua própria causa, mas destes delírio coletivo de surtados em guerra ideológica pelo trono.

O abismo que distancia a verdade das suas carências e os discursos dessa burguesia e burocracia política e acadêmica é tão grande quanto o retrato e a original. A distancia entre o negro o índio e o pobre que habita o imaginário escolarizado seja pela doutrina da esquerda seja pela da direita, e a pessoa de carne e osso desconhecida invisível, empregada ou marginalizada. Reduzida a trabalhador ou empregado, a bandido ou vitima da sociedade, mas jamais o cidadão igual em direitos políticos e econômicos, em liberdades fundamentais de fato.

Não estou querendo livrar bandidos ordinários da justiça comum, nem muito menos defendendo os altamente perigosos e qualificados por seus privilégios e poderes. Ambos devem ser desarmados e detidos e com toda a urgência que a defesa da vida e liberdade demandam, especialmente os armados das canetas e aparelhos estatais.

Não quero diminuir a conquista que é a queda de criminosos estatais que usam os votos que recebem se fossem prerrogativas particulares ou direitos adquiridos e os usam como armas para se manter no poder contra a própria população. Como se o direito deles de ficar ou tomar o poder a revelia da soberania popular, fosse mais sagrado do que o da população se autodeterminar.

Não quero de modo algum tirar o mérito do precedente aberto que é deposição de governantes que usam dos seus cargos e mandatos com intuito de se mante no poder violando direitos de forma criminosa.

Porém devemos compreender o cúmulo do absurdo sob o qual girou toda essa discussão. Que é a questão da comprovação dos crimes do representante. Nisto nossa constituição é mais do que arcaica: é patriarcal. Ela só permite o divórcio legal do povo do governante a qualquer tempo, se ele renunciar ou cometer crimes sendo inclusive julgado por outros políticos. Ou seja um processo totalmente a mercê da vontade política inclusive do judiciário. E vontade popular? Ela só existe nas urnas. Ou seja onde não há sequer recall, tudo que resta é o instituto do Impeachment, que mesmo permitindo a iniciativa popular, e sendo um julgamento político é um processo feito pelo congresso que não vai sequer a referendo.

Para o povo é como um divórcio católico romano: só com justa causa e a aprovação da autoridade eclesiástica. Não é a toa que a hipocrisia dos político populista, especialmente os fabricados em sacristia ou reciclados em cultos evangélicos, negam seus crimes e falhas com quase como se tivessem adotado o credo fanático da infabilidade papal para seus grandes líderes. Não importam o que eles tenham feitos, eles são erram nem cometem delitos porque simplesmente as almas mais puras do mundo cometê-los.

As pessoas sãs acham até graça na insistência quase insana nos discursos absurdos deles, mas se quiserem se dar ao trabalho de assistir de ponta a ponta um culto religioso poderão até achar graça ou pensar “não, não é possível, é tudo combinado”, mas se prestarem atenção verão que que a muitos fieis, não se chamam fieis por acaso. A mente é delicada e as pessoas não fazem ideia o quão ela é vulnerável especialmente quando as pessoas enfrentam a carência e carestia.

Por isso pouco me interessa qual será a punição, qual será o freakshow que eles utilizaram para acalmar os histéricos fabricados lado a lado. Não é só Cunha e Dilma tem que sair dos tronos e responder por seus mandos e desmandos. Eles e muitos outros, que estavam e vão se acomodar nos lugares vagos. Mas mesmo supondo que todos eles sejam postos fora, (o que espero mas não creio) e que todos eles respondem ou paguem pelo mal que fizeram, não mofando em cadeia, mas restituindo o que arrebentaram. O que é impossível. Afinal eles não explodiram um avião. Eles arrebentaram um pais. E se um jato custo milhões de dólares, e carrega algumas centenas de vidas. Um aparelho estatal custa trilhões e lida com centenas de milhões de vidas, e não há riqueza nem trabalho de uma unica pessoa no mundo capaz de reparar esse dano.

E ainda tem gente que acha que falta de competência e responsabilidade não é crime.

Ok, não é possível reaver tudo o que foi roubado ou destruído. Mas eles mofando na cadeia- coisa que não vai acontecer, mas digamos se acontecesse — isso de alguma forma traria a justiça que precisamos? A justiça teria assim sido feita?Teríamos ao final desse processo de volta alguma coisa do que eles roubaram? Receberíamos de volta ao menos as chaves das casas que eles tomaram e pilharam e queimaram? Ou não? Elas simplesmente agora será entregue a revelia a novos posseiros? Quando as casas do povo serão devolvidas aos seus legítimos donos? Quando nos livraremos de vez desses grileiros da república e teremos enfim uma democracia de verdade?

Ok. Ditadura nunca mais. Mas e democracia já e sempre, quando é que teremos? Que tal agora? Ou vamos esperar outros “Antes tarde do que nunca?”

Quando afinal vamos assumir o controle do nosso patrimônio nacional? Ou seremos tratados como crianças geração após geração até ficarmos velhos babões? Quando teremos a enfim justiça social? Quando conquistaremos o pão no Brasil?

O “povo” não sai as ruas para gritar fora Cunha? O “povo” não sai as ruas para gritar fora Dilma? Por que? Porque não é otário. Não, meus caros doutos do socialismo e liberalismo das barrigas e bolsos cheios, o povo não se move só quando aperta a barriga. Não, sinhozinho. É que nem sempre o povo se move só porque vocês querem, ou mandam.

Nem sempre a fome, o empreguinho, o beneficio social, a medalha, o diploma, o carginho, funcionam. Por que nem para todo mundo a dignidade é uma abstração que pode ser comprada, dada, ou reduzida a foros privilegiados.

Dignidade não é algo que se veste ou investe, e ritos e rituais laicos ou religiosos, cultos ou culturas não podem conferem dignidades que não possuem, nem conseguem sequer deter. Mas o que esses pretos-da-casa e capitães-do-mato sabem de liberdade? Ou libertação? O que é o povo para os marxistas senão a massa dos coletivos imaginários? E o que é o povo aos liberais senão um mercado da mão de obra humana para os seus negócios? O que é a liberdade para esse “liberal” completamente estatizados e dependentes do protecionismo do seu estado? E o que é a igualdade para esses “comunista” senão a da pobreza política e econômica de todos abaixo da riquezas e privilégios?

Não senhores o povo é o próprio livre mercado livre dos delírios corporativos de coletivistas e individualistas e sua cisão forçada entre cooperação e concorrência. O povo é o milagre da multidão que consegue ocupar um mesmo espaço ao mesmo tempo sem entrar em choque.

Quase todos objetos inanimados não ocupam o mesmo lugar ao mesmo tempo. E se forçados a ir de encontro um ao outro vão se chocar e se arrebentar. Mas seres dotados de anima, seres dotados de livre vontade, não só não são dotados da capacidade de ir ao encontro uns dos outros com toda sua força sem entrar em choque, Como são capazes pela mesma disposição de ocupá-lo o mesmo espaço ao mesmo tempo se está for a a vontade de ambos.

O Povo é o milagre da multidão que se converte em comunhão por consensualidade de paz.

O povo é o livre mercado em seu estado puro e natural, porque o verdadeiro livre mercado é a rede de todas as demandas populares e de todas as ofertas de produtos e serviços sociais livres e concorrentes para provê-las. E verdadeiro livre mercado é feito das vontades das pessoas reintegradas as suas posses e direitos naturais políticos e econômicos e não da ditadura das corporações e suas representações políticas disfarçadas de nossas.

É por isso que para o povo, o povo de verdade de carne e osso, e não o objeto do fetiche neoliberal ou bolchevicóide, a luta não continua, a verdadeira luta nunca parou. Nem para eles nem para o verdadeiro ativista que compartilharam voluntariamente da sua sina de exclusão dessa podreira de poder.

Não meus mui amigos da velha esquerda reacionária, raivosa e decaída. A luta não morreu enquanto vocês estavam muito bem acomodados dormindo com o inimigo (que lhe fez e roubou a cama). A luta não parou quando vocês e suas suas patrulhas ideológicas e de pelegos, vendidos e cagalhões nos vendiam. Ela não parou enquanto vocês estavam loucos para furar os olhos ou cortar a língua de quem denunciava o quanto tudo ainda estava errado, não parou para ver a banda passar nem vocês plantarem tempestades, então podem ficar “tranquilos” ela não vai parar agora para vocês, para vocês tomarem e tacarem fogo em mais causas sociais.

Mudaram os generais, os nomes e as faces das ditaduras mudaram apena os bandidos e com sorte a truculência dos métodos, mas a batalha continua. Porque eles podem trocar de papéis atores mas a farsa continua. E quem conhece sabe: não se dá as costas para eles, nem quando eles se fingem de mortos, a menos que você queira levar um tiro nela. Então, se você como eu trabalha por uma causa social, dica de coração não tirem o olho deles, porque pode ser que eles não voltem tão cedo, mas faça as contas de quantos deles pendurados em cargos comissionados ou protegidos por verbas vão voltar “a luta” nas “causas sociais”. E se você é novato no ativismo social. Olhe para os últimos dias deles são mais do que reveladores de como vão proceder se você não entregar o que eles querem.

Isso mesmo. Eles vão arrebentarem com tudo que não puderem ter só para eles.

Não pode?

“Como não pode? Em política tudo pode.”¹ Bem pelo menos é o que eles dizem- nas gravações é claro, não nos palanques.

Emblemático.

[1] Ministro Aloísio Mercadante em negociação com o secretário do ex-líder do governo no Senado Delcidio Amaral enquanto o segundo estava preso.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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