Josué de Castro:”Geografia da Fome” e Geopolítica da Fome”, “Armamentismo”

E O choro desesperado das crianças separadas dos seus pais na fronteira dos EUA

O desesperado pranto de 10 crianças centro-americanas separadas de seus pais num dia da semana passada pelas autoridades de imigração norte-americanas é algo atroz de escutar. Muitas parecem chorar com tanta força que mal conseguem respirar. Gritam repetidamente mami e papi, como se fossem as únicas palavras que conhecem.

A voz de barítono de um agente da patrulha fronteiriça retumba por cima do choro. Bom, temos uma orquestra por aqui, brinca. Só falta o maestro.” -O choro desesperado das crianças separadas dos seus pais na fronteira dos EUA

Falta maestro??? Lógico que falta. E aproveita e anota aí: a terra é plana.

Não se Condutieri era só o que faltava, já não falta mais. Nem Duce, nem palco, nem público fanático e cativo a bater palmas, nem atores; e o principal não faltam mecenas interessados em bancar e capitalizar mais uma temporada de espetáculos nazi-fascista.

Image for post
Image for post
Quando ele começar a colocar gente em câmaras de gás, aí talvez, só talvez, as pessoas digam, bem pode ser que ele seja mesmo capaz de cometer atrocidades que tantos anseiam. Será? Não claro que não. Não contra gente, só contra macaquitos.

Posso sair daqui pra me organizar (x2)
Posso sair daqui pra desorganizar

Da lama ao caos, do caos a lama (x2)
o homem roubado nunca se engana

O sol queimou, queimou a lama do rio
Eu vi um chié andando devagar
E um aratú pra lá e pra cá

E um caranguejo andando pro sul
Saiu do mangue e virou gabiru

Ô Josué eu nunca vi tamanha desgraça
Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça
Peguei um balaio fui na feira roubar tomate e cebola
Ia passando uma véia e pegou a minha cenoura
“Aê minha véia deixa a cenoura aqui
Com a barriga vazia eu não consigo dormir”
E com o bucho mais cheio comecei a pensar
Que eu me organizando posso desorganizar
Que eu desorganizando posso me organizar
Que eu me desorganizando posso me organizar.

Da lama ao caos, do caos a lama
o homem roubado nunca se engana
Da lama ao caos, do caos a lama
o homem roubado nunca se engana — Da Lama ao Caos,Chico Science & Nação Zumbi

Repentinamente, terminada a Segunda Guerra Mundial, o tabu foi quebrado e rompido o silêncio e Malthus lançado na lixeira da História. Os horrores da guerra, do nazismo, dos campos de extermínio, os sofrimentos e a fome compartilhados provocaram um extraordinário despertar da consciência europeia. A consciência coletiva se revoltou num movimento de transformação profunda da sociedade, através do qual os homens reivindicavam a independência, a democracia e a justiça social. Suas consequências foram numerosas e benéficas. Entre outras providências, ela impôs aos Estados a

proteção social às suas populações e, também, a criação de instituições interestatais, de formas de direito internacional e de armas de combate ao flagelo da fome.

Em seus Manifestos( filosóficos, traduzidos por Louis Althusser, Ludwig

Feuerbach escrevia:

A consciência, entendida em seu sentido mais estrito, só existe para um ser que tem por objeto a sua própria espécie e a sua própria essência […]. Ser dotado de consciência é ser capaz de ciência. A ciência é a consciência das espécies. Ora, apenas um ser que tem por objeto a sua própria espécie, a sua própria essência, está capacitado para colocar-se como objeto, em suas significações essenciais, a coisas e seres distintos dele mesmo.

A consciência da identidade entre todos os homens é o fundamento do direito à alimentação. Ninguém poderia tolerar a destruição de seu semelhante pela fome sem colocar em perigo sua própria humanidade, sua própria identidade.

(…)

Saindo da longa noite do nazismo, uma evidência começava assim a se colocar, tardando anos a impor-se aos países e aos seus dirigentes: a erradicação da fome é da responsabilidade dos homens nesse terreno, não existe nenhuma fatalidade. O inimigo pode ser vencido: basta implementar um determinado número de medidas concretas e coletivas para tornar efetivo e objeto de justiça o direito à alimentação.

Já era claro, no espírito dos pioneiros do pacto, que os países não poderiam deixar a realização do direito à alimentação ao livre jogo das forças do mercado.Intervenções normativas eram indispensáveis, como: a reforma agrária em todas as partes onde reinava a distribuição desigual das terras aráveis o subsídio público aos alimentos básicos em favor daqueles que não podiam se assegurar uma alimentação regular, adequada e suficiente o investimento público, nacional e internacional, para garantir a preservação dos solos e o aumento da produtividade (insumos, irrigação, equipamentos, sementes) no quadro da agricultura de víveres a equidade no acesso ao alimento a eliminação do monopólio das sociedades agroalimentares multinacionais sobre os mercados de sementes e insumos e sobre o comércio de alimentos básicos.

Mais que qualquer outro, um homem contribuiu para este despertar da consciência dos povos ocidentais em face da fome: o médico brasileiro Josué Apolônio de Castro(…) — Jean Ziegler, Destruição massiva. Geopolítica da fome

Um jovem recifense formou-se na Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro, — atual UFRJ — , em 1929, com apenas 20 anos de idade, e depois foi estagiar por alguns meses nos Estados Unidos. Então, voltou para sua terra, abriu um consultório, e pouco depois foi contratado por uma fábrica local para cuidar de trabalhadores com um estranho problema de saúde, que os tornava indolentes e apáticos. Essa incumbência mudou sua vida.

Ele não tardou a diagnosticar a doença: “Sei o que meus clientes têm, mas não posso curá-los porque sou apenas médico e não diretor dessa empresa. O mal dessa gente é fome”. Em consequência, foi despedido. Mas, a partir daí, dedicou-se ao estudo dessa enfermidade, tornando-se um influente nutricionista, geógrafo, sociólogo, político, escritor e ativista do combate à fome no País e fora dele.(…) — Josué de Castro, o brasileiro mais respeitado no mundo

Armamentismo: discurso de Josué de Castro

Senhor presidente, meus amigos,

Após tão brilhante, tão instrutiva e, até certo ponto, tão encorajadora discussão como a que acabamos de ouvir nesta manhã, sobre um tema tão grave, tão denso e tão perigoso como é o tema da corrida armamentista no nosso mundo atual, não me resta quase nada a acrescentar. Apenas algumas palavras para sublinhar certos aspectos que me parecem essenciais em nossa luta pela paz, denunciando toda a extensão do perigo que pesa sobre nosso mundo devido a esta impetuosa corrida armamentista. Este perigo não está apenas diretamente relacionado com as armas de destruição em massa, que podem aniquilar toda a humanidade — como foi provado pelos homens de ciência que se ocupam do estudo da energia atômica. Bem se sabe, como foi dito copiosas vezes, que o lançamento de bombas atômicas por todas as partes do nosso mundo, de forma continuada, pode contaminar rapidamente toda a atmosfera da nossa Terra e, em pouco tempo, toda a vida será extinta da superfície do solo, — a vida humana, a vida animal, a vida vegetal — e nossa Terra será reduzida a uma carcaça morta, como um planeta lunar. E o homem, que construiu toda a civilização, que vestiu esta Terra com o manto colorido das criações humanas, que escreveu a história com o seu sangue, seu trabalho e sua energia sobre a pele da Terra, será obrigado a desaparecer e a deixar em seu lugar o nada, a ausência, o silêncio, a eternidade.

É este o perigo que pesa sobre o nosso mundo, mas não é apenas assim, desta maneira, que o perigo do armamento e o uso da energia atômica como armas de guerra pesam sobre a humanidade; eles também pesam contra a paz de forma indireta. Porque as armas de guerra, as armas de destruição atômica, a corrida armamentista custam muito caro. Sabemos que por todas as partes o orçamento de guerra das grandes potências, para a guerra fria, como a denominamos neste momento, são orçamentos astronômicos que aniquilam a humanidade na medida em que os recursos são concentrados numa atividade negativa, numa atividade destrutiva, quando deveriam ser empregados no bem-estar de toda a humanidade. É este o ponto que vou colocar em relevo com alguns números significativos que traduzem bem, com uma eloqüência matemática, o que significa para o mundo a corrida armamentista da qual nós fazemos parte.

Bem sabemos que o maior perigo contra a paz é o desequilíbrio econômico do nosso planeta, desequilíbrio que pode dividir nosso mundo em dois mundos antagônicos, com um antagonismo maior que o físico dos dois pólos da terra, ou o econômico dos dois mundos ideológicos, o do mundo soviético e o do mundo capitalista ocidental. O que divide os homens não são as coisas, são as idéias de que eles têm das coisas, e as idéias ricas são bem diferentes das idéias pobres. Se estudamos o que se passa com o nosso mundo atual do ponto de vista econômico, podemos ver, pelos dados que foram recolhidos pela Organização das Nações Unidas, coisas aterrorizantes. No mundo atual, os 20 países mais ricos, que concentram apenas 16% da população do globo, detêm mais de 70% da renda universal e, no entanto, no outro extremo, os 15 países mais pobres do mundo, nos quais se concentram mais de 50% da população mundial, pois na pobreza existe também um excesso de pessoas, porque o quadro da pobreza é miserável e o leito da miséria é fecundo, a renda é igualmente miserável e não chega a 10% da renda total do mundo. Este contraste econômico mostra o quanto é difícil obter a paz universal sem a unidade do mundo, sem a unificação e a compreensão integrais entre os homens, permitindo a coisa mais difícil de nosso tempo, que é a coexistência do homem com o homem.

Não se chegará jamais à paz com um mundo dividido entre a abundância e a miséria, o luxo e a pobreza, o desperdício e a fome. É preciso acabar com essa desigualdade social. O que se passa neste momento com a corrida armamentista? O que se passa, é que percebemos que a cada dia os dois grupos estão cada vez mais separados, afastam-se os pobres dos ricos, acentua-se ainda um pouco mais esta separação entre os países pobres e os países ricos, entre os países que denominamos de “bem desenvolvidos” industrialmente e tecnicamente e os países denominados “subdesenvolvidos”. Se observamos tudo o que se passou, podemos confirmar este fato. Reconhece-se, por toda parte, por meio dos dados recolhidos pela organização que eu tenho a honra de presidir, a Organização das Nações Unidas par a Agricultura e a Alimentação, a FAO, que dois terços da humanidade continuam, neste momento, a viver ou, melhor dizendo, a morrer de fome, pois estas pessoas não têm alimentação adequada nem suficiente. Estes dois terços de pessoas que sucumbem à fome por toda a parte, concentram-se de forma predominante nas chamadas regiões subdesenvolvidas do mundo. Será que este mapa da fome, esta distribuição geográfica da fome, com manchas negras que envergonham a humanidade, será que estas manchas têm clareado nos últimos tempos?

Temos dados que são aparentemente encorajadores. Nos quatro últimos anos, a produção de alimento no mundo aumentou bastante. Ela aumentou numa proporção de 3% ao ano, ao passo que o crescimento da população mundial era de apenas 1,5% ao ano; isto quer dizer que o aumento da produção alimentar corresponde ao dobro do crescimento populacional, o que demonstra não ser verdadeiro o argumento segundo o qual é impossível acabar com a fome do mundo, de acordo com um velho conceito malthusiano, para o qual o mundo deve acabar irremediavelmente em uma epidemia de fome, pois o crescimento da população se dá numa progressão mais intensa do que a progressão do aumento da produção alimentar no mundo. Isto não é absolutamente verdade. O mundo tem recursos suficientes para nutrir uma população muito mais densa do que a população atual. A natureza não é ingrata, ela tem recursos suficientes, ela é boa, ela é generosa. Aqueles que não têm sido muito generosos são alguns grupos humanos que se apoderaram dos recursos naturais e fizeram uma divisão destes recursos de forma injusta e ilegal. Mas se os dados recolhidos pela FAO nos mostra uma certa melhoria do mundo, na realidade isso não acontece, pois o aumento da produção de alimentos deu-se quase inteiramente nos países desenvolvidos; nos países da fome, no países subdesenvolvidos, a produção continua a ser insuficiente e seu crescimento não correspondente absolutamente ao crescimento da população. E não podemos mais aderir ao tipo clássico de economia das necessidades.

É preciso produzir para as necessidades humanas, é preciso produzir para os grupos que têm necessidade de qualquer coisa para manter suas condições de vida. E os níveis de vida, por esta razão, mantêm-se muito baixos, cada vez mais baixos nos países subdesenvolvidos. Isso acontece de modo mais claro e criou igualmente um grave problema nos países bem desenvolvidos. Começamos a ver retornar os problemas da superprodução, problemas do excedente de alimentos que são acumulados e com os quais não se sabe muito bem o que fazer para vendê-los aos países pobres, que não possuem divisas em dólares para comprá-los. Então, chegamos na mesma situação de antes da última guerra, em 1930, quando os economistas reunidos numa conferência em Genebra chegaram à conclusão de que vivemos num mundo de abundância em meio à miséria. O fato permitiu a Kenneth Boulding dizer que a civilização ocidental, que todas as civilizações ocidentais sempre foram pequenas ilhas de abundância rodeadas por um oceano de miséria. Este é o nosso caso, é o que acontece hoje. É absolutamente necessário mudar este quadro lamentável. Mas não se pode mudá-lo com facilidade. E por quê? Porque os países pobres, os países subdesenvolvidos, não encontram os meios, nem toda a ajuda de que eles necessitam para sair do servilismo econômico.

Os países pobres jamais conseguem se livrar desta situação porque eles foram postos neste estado pelos imperialistas e colonialistas internacionais. Eles não são naturalmente pobres, eles foram explorados de tal maneira que se viram obrigados a se manterem pobres. Eles não obtiveram ajuda porque os capitais são sempre investidos nos países bem desenvolvidos, nas indústrias de guerra. Daí a razão pela qual temos essas relações tão perigosas entre o rearmamento, a pobreza e o subdesenvolvimento de nosso mundo. Os estudos realizados para as Agências especializadas das Nações Unidas mostraram que os países subdesenvolvidos têm necessidade, ao menos anualmente, de um fluxo de capital em torno de 15 milhões de dólares para manter um desenvolvimento regular, capaz de provocar não apenas o seu desenvolvimento técnico e o seu desenvolvimento econômico, que, a meu ver, são os meios, mas não o fim, mas o seu desenvolvimento social. São necessários 15 milhões de dólares e se olharmos as últimas estatísticas, podemos verificar que o fluxo de capital para os países subdesenvolvidos, nos últimos anos, gira em torno de 1 milhão e meio de dólares, ou seja, é inacreditavelmente inferior ao mínimo necessário para o desenvolvimento daqueles países.

Como sair desta situação? Admito a existência de assistência técnica, existem programas de assistência técnica que trabalham para isto. Não posso negar que eles fizeram alguma coisa, isto seria uma auto-condenação — pois sou presidente do Conselho de um organismo internacional que faz este tipo de assistência técnica na área de agricultura e alimentação, embora seja muito pouco o que se tem feito. E por quê? Porque os recursos materiais, os orçamentos das instituições internacionais, que podem dar esta assistência, são inacreditavelmente ineficientes. O orçamento de todos os organismos internacionais que oferecem assistência técnica não chega a representar nem mesmo uma fração insignificante dos orçamentos de guerra das grandes potências. Vejamos um exemplo.

Tomemos o exemplo do Reino Unido, que reserva 1,65 bilhão de libras esterlinas para o orçamento de guerra. O Reino Unido coloca no programa de assistência técnica aos países subdesenvolvidos, em sua maioria colônias britânicas, apenas 40 milhões de libras esterlinas, ou seja, eles despendem para esse fim apenas 2,5% do que eles gastam com a guerra fria. Só na energia atômica, conforme nos informou o orador inglês M. Burgop, eles gastam 50 milhões de libras esterlinas, quer dizer, um pouco mais do que eles despendem em todos os programas de assistência técnica por meio dos organismos internacionais das Nações Unidas. O caso da Inglaterra não é o pior. Pois a Inglaterra, neste momento, não é a campeã do “rearmamento”. De fato, ela tem a tarefa de desenvolver a economia de suas ex-colônias para fazer sobreviver o imperialismo britânico. O caso mais gritante é o dos Estados Unidos, onde os gastos de guerra chegam à impressionante cifra de 70 trilhões de dólares. As despesas em assistência técnica não chegam a 1% dessa cifra. Então, isso exprime com clareza o quanto é difícil manter o programa de assistência técnica e que não se pode fazer com que os povos e as regiões miseráveis saiam da miséria apenas por esse meio. Não se pode, simplesmente, porque se tem encorajado por toda parte a indústria de guerra contra a produção essencial de matérias-primas dessas regiões. Algumas dessas matérias-primas são, contudo, necessárias à indústria de guerra, à ?????(buraco no texto original) à indústria da guerra atômica, dos fabricantes de guerra nos países mais desenvolvidos. Para prová-lo, temos um bom exemplo na América Latina. Sabe-se que ela não tem divisas, que não pode progredir, que não pode se industrializar, pois não pode importar as máquinas necessárias para uma industrialização moderna. Ela não dispõe de divisas porque a exportação de matérias-primas não é suficiente para manter o equilíbrio da balança comercial. O que isto significa? Talvez, que não se trabalha na América Latina, que não se produz na América Latina. Mas, se vocês olharem as estatísticas, irão constatar as seguintes coisas: que a exportação bruta, em quantidade, de matérias-primas na América Latina é muito maior do que era antes da guerra. A exportação bruta na América Latina, por pessoa, mesmo com o crescimento da sua população, é muito maior hoje do que no passado. Mas o rendimento dessas matérias-primas, proporcionalmente em relação aos preços dos produtos de importação, é muito baixo. Este exemplo traduz o imperialismo econômico e colonial que fixa preços muito baixos para as matérias-primas e muito altos para os produtos industriais, para as máquinas produzidas pelos países desenvolvidos, as grandes potências que continuam a explorar colonialmente o mundo inteiro ou, ao menos, uma grande parte do nosso mundo. Então, isso mostra bem que não é possível fugir deste quadro senão por uma identificação dos pontos de vista, por uma união de todos os povos do mundo para reagir contra o imperialismo e o colonialismo. E será somente neste momento que poderemos estar certos de vencer a guerra contra a guerra e ganhar a paz.

É por essa razão que me parece muito estimulante que por toda parte as pessoas comecem a agir com o espírito de uma espécie de acordo para chegar a esse ponto de vista comum. Na verdade, os povos subdesenvolvidos saíram de seu estado de apatia e de passividade. Eles tomaram consciência da sua miséria. Isso foi bem exposto pelo primeiro-ministro da Índia, Nehru, ao afirmar que a fome e a miséria sempre 1. Esta lacuna consta no texto original (nota do editor). Josué de Castro e o Brasil existiram na Índia. Não se trata de nenhuma novidade, mas o que é novo é a consciência que hoje o povo indiano tem da sua miséria e a sua vontade de superá-la. Esse é o ponto essencial. Os povos coloniais têm consciência de que a miséria e a fome não são fenômenos naturais, que são uma criação humana, um produto da injustiça social, o produto de uma estrutura socioeconômica que jamais investiu no bem-estar da coletividade porque ela se construiu a partir do interesse exclusivo de uma minoria que explora o mundo ou, como afirmou nesta manhã um orador francês, a partir do interesse de construtores de calamidades, dos aproveitadores do sofrimento humano.

Não quero me estender, pois já é tarde. Quero apenas fazer um apelo: o Conselho Mundial deve apoiar a resolução tomada há alguns dias em Londres para uma reunião de homens de ciência, convocados pela Organização Mundial dos Parlamentares visando à estruturação de um governo mundial, para a qual eu tive a honra de ser convidado. Eles chegaram à conclusão de que era muito difícil, neste momento, fechar um acordo sobre o controle internacional da energia atômica. É ao menos necessário que se crie um Conselho Mundial de Homens de Ciência para denunciar ao mundo o perigo da energia atômica sob todas as formas. É preciso agir com urgência para evitar o aniquilamento do nosso mundo, e acatar esta resolução é o mínimo que se pode fazer. Quanto ao modo como devemos agir, nós ainda não sabemos. Mas é preciso começar a agir. E isso é necessário, pois não temos uma grande esperança nos homens da política, nos políticos. Talvez porque o problema já tenha saído de suas mãos!

Quando se perguntou a Einstein por que se iniciou a construção da bomba atômica com relativa facilidade, quando encontramos tanta dificuldade para o seu controle, ele respondeu que talvez tenha sido porque a política é muito mais difícil do que a física. Então, como a política é tão complicada, comecemos pelo mais simples, pela ação dos homens de ciência. E os trabalhadores da ciência, os intelectuais, os homens de idéias, os homens de boa vontade de todas as partes devem se reunir para lutar contra o perigo que ameaça nosso mundo. Há dois caminhos à nossa frente: o caminho do pão e o caminho da bomba. É preciso escolher rápido. Eu quero simbolizar pelo caminho do pão, este da justiça social, para dar pão a todas as pessoas do mundo, evocando o banquete da Terra para os dois terços que estão à margem, que não recebem senão em alguns intervalos algumas migalhas da mesa dos ricos. É preciso que nosso mundo nos integre verdadeiramente. Eu acredito que já é passado o tempo em que as pessoas pobres podiam se conformar segundo a frase das Escrituras: “Aos pobres é reservado o reino dos céus”. Agora, devemos pensar que aos pobres deve também ser reservado o reino da Terra, pois a Terra é para todos os homens e não só para um grupo de privilegiados. E se não trabalharmos por toda parte com energia, para nos desviarmos do caminho da bomba, seremos uma vez mais expulsos da Terra, perderemos não apenas o reino dos céus, mas também o reino da Terra. — Armamentismo (discurso), Josué de Castro

Pobre Josué…. acreditava que comunidades cientificas e acadêmicas não eram classes políticas e que as Organizações das Nações Unidas, eram organizações de povos e nações e ativistas sociais e não de Estados, governantes e tecnocratas. Organismos que seria prontamente esvaziada e abandonada no exata instante que não cagasse mais, educada, polidamente e obedientemente, as regras das potências.

Organismo que vai morrer exatamente pelo mesmo método que se mata essas populações quando elas não servem mais aos seus interesses, morte por inanição financeira e falência dos órgãos. E nas mãos da mesma geopolítica que desenha a geografia e mapeia o mundo via industria da fome, da guerra e da doença, até chegar a solução final, a morte, mas não antes sem passar por todos os processos de dessa linha de destruição em massa primeiro. A saber: o extermínio pelo êxodo, e pela marginalização nos guetos, mas pode chamar de migração e favelas.

Refugiados e a técnica de extermínio pelo êxodos e migrações

Por quase três décadas, de 1895 a 1922, episódios de perseguições, assassinatos em massa e deportações se sucederam em diferentes regiões da Turquia. Mas é a partir de 24 de abril de 1915 que teve início uma desenfreada matança que, em semanas, provocou a morte de 1,4 milhão dos 2,1 milhões de armênios, de acordo com dados do Patriarcado Armênio. É como se apenas os moradores do Nordeste sobrevivessem a um massacre que trucidasse os brasileiros.

Jovens turcos

A matança dos armênios soa ainda mais absurda pelo fato de essa nacionalidade ser parte integrante do dia a dia do então Império Otomano, que englobava, além da Turquia e Armênia, partes do Líbano, Síria, Iraque e Palestina. Embora tivessem seu próprio país, e alguns entre eles reivindicassem sua autonomia, há vários séculos os armênios viviam nas cidades do império. Eram funcionários públicos, professores, policiais, comerciantes, jornalistas, soldados do Exército, médicos, sapateiros, advogados, donas de casa e artistas, que dividiam sua vida diária com os vizinhos turcos. Contra eles se ergueu principalmente o panturquismo, o nacionalismo radical defendido pelos Jovens Turcos, vertente política que havia tomado o poder no Império em 1908.

À frente do governo dos Jovens Turcos estavam três paxás. Entre eles, Mehmed Talaat Pasha foi o mais ativo idealizador e executor do genocídio. Foi ele, ainda no posto de ministro do Interior, quem ordenou, no fatídico 24 de abril de 1915, a prisão e a execução de 250 intelectuais e líderes armênios que viviam na então capital Constantinopla (a atual Istambul). Entre eles estava toda a redação do jornal Azadamart, o principal órgão de comunicação em língua armênia no império.

Cinco semanas depois, Talaat proporia a Lei de Deportação Temporária, que seria a luz verde para o grande genocídio que, de resto, já vinha sendo gestado desde outubro do ano anterior, quando os otomanos entraram em guerra contra a Rússia e perderam de maneira espetacular sua primeira batalha.

Como parte do povo armênio vivia em território russo, o governo dos Jovens Turcos colocou todos no mesmo saco e acusou os armênios de traírem a Turquia.

Tal argumento seria usado ao longo dos anos para justificar o genocídio como consequência dos combates da Primeira Guerra, e não uma matança planejada. Mas uma das provas apontadas pelos armênios de que em Constantinopla o genocídio fazia parte de um plano elaborado é “uma medida insólita” tomada pelo governo: todos os soldados e policiais armênios a serviço do império foram desarmados. “As consequências dessa medida são fáceis de imaginar, procura-se prevenir assim qualquer resistência à execução que virá”, escreveu o teólogo brasileiro Aharon Sapsezian autor de História da Armênia — Drama e Esperança de uma Nação.

E o que veio foram ordens de Constantinopla, “seguindo um programa preciso”, conforme esclarece relatório elaborado pelo Tribunal Permanente dos Povos, de deportar os moradores das províncias da Armênia. Para onde? Não se sabia e não importava. Tinham de deixar o país. A elaboração do plano ficou a cargo do Comitê União e Progresso, em Constantinopla, que fornecia armas, veículos e apoio à SO, ou “organização especial”, que executava as ordens. A SO tinha poderes para demitir os funcionários que não concordassem com as medidas contra os armênios.

Deportações

As ordens de deportação eram anunciadas publicamente, as famílias tinham dois dias para juntar seus pertences. Padres, políticos e jovens armênios eram obrigados a assinar confissões forjadas e em seguida executados.

Idosos, mulheres e crianças tinham, no início do genocídio, direito a serem transportados em comboios. Depois, atravessavam a pé o deserto da Mesopotâmia, onde é hoje o noroeste do Iraque. Há relatos de que barcos repletos de armênios eram afundados no Mar Negro e Rio Tigre. Nas aldeias remotas, onde havia poucas testemunhas, foi muito pior. Mulheres eram estupradas, crianças, crucificadas e milhares enforcados ou decapitados por soldados do Exército, policiais e membros da SO. Com seus proprietários expulsos, as casas eram vendidas, os pertences saqueados. Outras vezes, queimavam-se as residências com os moradores dentro.

A caminho dos campos de concentração em Alepo, hoje cidade síria, mulheres e crianças andavam em fila e, ao seu lado, um soldado carregava objetos que lhes roubou. Não havia água ou comida para todos. Milhares andavam até cair e morrer magros como esqueletos. Raros são os descendentes de armênios que não tiveram bisavôs, avôs, pais ou mesmo irmãos assassinados.

A diáspora espalhou armênios por todo o Ocidente. O Brasil é um dos países que receberam grande número de imigrantes. “Sou filha da diáspora”, diz Sossi Amiralian, doutora em Literatura Armênia pela USP, nascida no Líbano, onde a família havia se refugiado. “Meus pais viveram o genocídio de perto. Os dois perderam seus pais”, conta. O avô paterno de Sossi, Levon Amiralian, era influente na cidade de Marach. Pelo lado materno, Mardiros Kehiaian vivia em Adana. As duas cidades foram especialmente atingidas pelos genocidas. “Não conheci meus avós, foram decapitados quando meus pais ainda eram crianças.”

Joias costuradas

O pai de Sossi, Garabad, e a avó dela tiveram sorte, seu tio-avô tinha amizade com algumas autoridades turcas que se apiedaram da família e lhes providenciaram transporte seguro. Não fosse isso, afirma Sossi, não haveria como resistir aos turcos. “Os armênios não tinham armas; minha avó contava que para defender seus filhos deixava permanentemente uma panela de água fervente com pimenta sobre o fogão. Caso fosse atacada lançaria aquela mistura nos soldados.”

Outras mães não tiveram nem mesmo a oportunidade de tentar se defender. Flora Kuyumjian demorou décadas até conseguir contar para seus netos como foi o ataque à sua casa. Depois de agarrarem seu marido, Minas, e o levarem para fora, degolaram seus dois filhos diante dos seus olhos. O bebê recém-nascido que estava em seus braços lhe foi tomado e afogado na bacia de água na qual lavava a roupa. “Ela levou um golpe no pescoço e desmaiou, quando acordou estava boiando no mar e foi recolhida por uma família de turcos que a tomaram como escrava, para cuidar da sua filha”, conta a diretora de arte Moema Kuyumjian, sua neta. Flora não ficou mais do que dois dias junto com os seus algozes. Cristã convicta, como a grande maioria dos armênios, fugiu atormentada pela ideia obsessiva que vinha à sua cabeça de matar por vingança a criança sob os seus cuidados.

Se não tinha sobre o fogão uma panela de água fervente para defender-se contra seus agressores, Flora tomara outros cuidados para enfrentar aquele genocídio que se anunciava havia algum tempo. Na barra da sua saia, costurou as poucas joias que possuía. Foi com elas que subornou um soldado turco para chegar à Síria. Ali, mendigou e sobreviveu comendo restos de feira. Um dia encontrou-se por acaso com o marido, Minas, também vagando como pedinte.

Flora lembrava que seu sofrimento a havia feito tão dura que não chorou nem se emocionou. Com o tempo, tiveram outros dois filhos. “Ela os batizou Arthur e Eduardo, que foi o meu pai”, diz Moema. “Os mesmos nomes dos dois filhos assassinados pelos turcos.” Da Síria, Minas e Flora passaram ao Líbano, onde a família conseguiu passaportes. Vieram para o Brasil e se estabeleceram em São José do Rio Preto, São Paulo, em 1926.

Sem reconhecimento

(…) O governo turco tem dificuldade em admitir publicamente que houve, em 1915, um genocídio planejado e conduzido oficialmente, semelhante ao Holocausto que foi promovido pelo governo nazista alemão contra os judeus na Segunda Guerra. Entre os argumentos oficiais está o de que o êxodo e a morte de centenas de milhares de armênios seria um efeito colateral das batalhas e da divisão europeia na Primeira Guerra. Os defensores de que de fato houve um genocídio liderado pelo governo do Império Otomano alegam, e divulgam, o conteúdo de comunicação do governo instruindo sobre como deveria ser feita a eliminação dos armênios.

Em seu História da Armênia, Aharon Sapsezian cita o livro Memórias, escrito pelo jornalista armênio Naim Bey, que, segundo Sapsezian, era o responsável por receber em Alepo seus compatriotas refugiados. O jornalista reproduz em seu livro, publicado em 1920, documentos oficiais que teriam sido enviados pelo ministro do Interior, Talaat Pasha, ao prefeito de Alepo. Um deles: “O governo decidiu exterminar os armênios habitantes na Turquia. Aqueles que se opuserem a essa ordem e decisão não poderão integrar o quadro governamental. Sem nenhuma consideração, nem mesmo pelas crianças, mulheres ou pelos enfermos, por mais trágicos que sejam os meios de exterminação utilizados, e sem se deixar levar pelos apelos da consciência, é preciso pôr termo à sua existência”.- Genocídio Armênio: Um outro holocausto

Marginalizados e a técnica dos guetos e favelas

A criação do gueto — novembro de 1940

A perseguição aos judeus é iniciada imediatamente, apesar dos comandantes da Wehrmacht terem assegurado aos líderes comunitários que não havia o que temer. Decretos após decretos são promulgados, todos visando humilhar, isolar e minar a capacidade de sobrevivência judaica.

Uma das primeiras providências para garantir a implementação de suas ordens é a criação, em Varsóvia e em outras cidades, do Judenrat2, um Conselho Judaico que seria dirigido por Adam Czerniakow, de outubro de 1939 até seu suicídio, em 23 de julho de 1943. No diário que manteve até seus últimos momentos, ele revela que os Judenrat funcionavam em um ambiente de incerteza, violência e falta de poder.

Devido aos interesses conflitantes entre a administração civil alemã, o exército e as SS, o Conselho Judaico consegue atrasar a criação do Gueto por um ano.

No dia 12 de outubro de 1940, eles recebem a notificação nazista sobre a delimitação de um “bairro residencial judaico em Varsóvia”. Era Yom Kipur — os nazistas tinham uma “predileção” por infligir os maiores castigos nos dias mais sagrados do calendário judaico. Dos 375 mil judeus que viviam na cidade, cerca de 140 mil não residiam nas áreas delimitadas. Os nazistas deram prazo até o final de outubro para a transferência para o Gueto. Um terço da população de Varsóvia seria encurralada numa área de quatro quilômetros quadrados…

Em 15 de novembro o Gueto é lacrado e cercado por um muro alto; suas portas de saída vigiadas por homens armados. Nenhum judeu poderia entrar nem sair, a não ser para os trabalhos forçados, a deportação ou ser enterrado. Para tentar entender a nova realidade com que os judeus se defrontavam, temos que ter em mente que o gueto nazista era um mundo por si só. Os nazistas haviam cortado qualquer meio de comunicação com o mundo exterior. Era uma situação além de qualquer imaginação: as pessoas tentavam levar uma vida “normal” para não enlouquecer ou perder as esperanças, ainda que as ruas estivessem cheias de cadáveres.

(…)

Apesar do combate diário à degradação e desumanização, não havia uma resistência armada. Todos as lideranças — do Judenrat, da comunidade paralela, dos movimentos juvenis, concordavam em um ponto: enquanto houvesse possibilidade de sobrevivência, a prioridade era salvar vidas ainda que de uma minoria. Sabiam que um ato de violência provocaria a morte de dezenas ou centenas de judeus, e, talvez a liquidação “prematura” do Gueto.

(…)

Até que se dessem conta de que os nazistas visavam a aniquilação judaica, a preocupação dos movimentos juvenis era manter a vida e a dignidade dos jovens. Seus integrantes se reuniam em refeitórios e bibliotecas mantidos pela comunidade paralela. Foram criadas células subterrâneas e estudados os meios de romper o isolamento imposto pelos nazistas. Os esgotos, única via de saída do Gueto, foram “mapeados” após dezenas de jovens terem morrido sufocados ou afogados. À custa de outras dezenas de vidas, estabeleceram contatos com outros guetos através de couriers, em sua maioria mulheres ou jovens sem traços judaicos. A imprensa underground, dirigida pelos movimentos juvenis e partidos políticos, desempenhou papel crucial no preparo dos habitantes do Gueto para o levante armado. Seus jornais foram os primeiros a noticiar os assassinatos em massa em Treblinka, Sobibor, Chelmno e Maidanek.

A “Solução Final”

A invasão da União Soviética, em junho de 1941, deu início ao processo de matança sistemática executada pelos Einsatzgruppen. Apesar do “muro de silêncio” erguido pelos alemães, chegam a Varsóvia as primeiras notícias sobre o que ocorria com a população judaica em Mielec, Lublin e Vilna.

(…) As informações sobre campos de extermínio também chegam a Varsóvia. Dois judeus, após fugir do campo de Chelmno, revelam que os nazistas estavam assassinando judeus em câmaras de gás. Era difícil acreditar e, mais difícil ainda, assimilar a terrível verdade. O testemunho de um deles, tomado por um membro do Oineg Shabbes, o grupo de Ringelblum, é transmitido para Londres, onde ficava o Governo Polonês no Exílio.

Os líderes do movimento clandestino, no entanto, já não nutriam ilusões sobre as intenções nazistas e compreenderam que a estratégia de não-provocação que vinha sendo adotada ajudava os planos dos nazistas. Sionistas e comunistas se unem para formar o Bloco Anti-Fascista (AFB), de combate. Mordechai Anielewicz, do Hashomer Hatzair, era um dos líderes.

A Grande Deportação

(…) Estavam corretas as avaliações dos judeus de que aquelas ações prenunciavam uma nova etapa. No início de julho, Heinrich Himmler, comandante das SS, despacha aos comandantes em Varsóvia a ordem de “reinstalação” de toda a população judaica até dezembro de 1942.

A primeira fase da grande “Aktion”, a deportação em massa dos judeus de Varsóvia, tem início na noite de 22 de julho de 1942, véspera de 9 de Av, dia de luto para o Povo Judeu. Prossegue durante sete semanas. Os nazistas avisam ao Judenrat que “os judeus, sem distinção de idade ou sexo, salvo exceções específicas, serão deportados para o Leste”. Apenas seriam poupados aqueles que trabalhavam no Gueto em indústrias alemãs ou os membros do Judenrat. Ao receber a intimação, Czerniakow se suicida, como vimos acima.

Milhares são levados diariamente ao ponto de reunião, a Umschlagplatz, onde aguardam para serem jogados, sem água ou comida, nos vagões dos trens de gado. Em 7 de agosto, os nazistas levam as 200 crianças do orfanato do Dr. Janus Korczak. Apesar da possibilidade de se salvar, o grande educador não abandonou “suas crianças”. Marchou à frente dos órfãos, juntamente com sua equipe, até os trens da morte.

Na época, o percurso entre Varsóvia e Treblinka, cerca de 78 km, levava quase 12 horas. Ao chegar, os judeus eram atirados dos vagões, enfileirados, para passar por um portão, sobre o qual pendia a cortina da Arca Sagrada da Grande Sinagoga de Varsóvia e onde se lia “Por estes portões passam os justos”. Em 12 de setembro as deportações cessam. De acordo com dados nazistas, 235.741 pessoas haviam sido enviadas ao campo de extermínio de Treblinka. Dez mil morreram nas ruas do Gueto e 12 mil foram enviadas a outros campos de trabalhos forçados.

A rapidez e rigor da grande deportação surpreenderam os movimentos juvenis e o Bund, deixando-os sem ação. (…)

No final de 1942, dos 380 mil judeus que viviam no Gueto restavam apenas 70 mil. Ironicamente, a vida se tornara mais fácil. Os sobreviventes das deportações eram os mais jovens e fortes. Não havia mais crianças, idosos ou doentes. Porém, os que haviam ficado eram atormentados por um sentimento de culpa por terem sobrevivido, permitindo que sua família fosse levada sem qualquer tentativa de oposição. Um ódio profundo e um grande desejo de vingança os corroía. A desesperança torna-se pré-requisito para a resistência. Os nazistas não tinham conseguido levá-los, mas logo voltariam. E, dessa vez, pagariam caro pela vida de cada judeu.(…)

No entanto, os nazistas continuam com as deportações, conseguindo matar ou colocar nos trens de 5.000 a 6.500 judeus.

A ação final contra o Gueto se inicia em 18 de abril de 1943. O plano era apresentar Varsóvia como “Judenfrei” (livre de judeus) no dia 30 de abril, aniversário de Hitler. (…)

Mas, após uma semana de luta ininterrupta, a situação se torna insustentável para os combatentes. Haviam sofrido poucas baixas, mas estavam exaustos — combatentes e judeus. O fogo consumira as reservas de alimento e os escombros entulhavam a maioria dos poços de água do Gueto. E, o pior, a munição chegava ao fim.

O último dos principais focos de resistência era o bunker de comando da rua Mila 18, onde estavam baseados 120 combatentes. Em 8 de maio, os alemães bombardeiam sua entrada durante duas horas, mas como os combatentes não se rendiam, injetam gás venenoso dentro do bunker, pelos bueiros dos esgotos. Um dos combatentes descobre uma saída oculta; mas poucos conseguem escapar. Os outros, pouco a pouco, morrem sufocados pelo gás, ou dão cabo da própria vida. (…)

Em 12 de maio, Shmuel Zygelboym, representante do Bund no Governo Polonês no Exílio, se suicida. Deixa uma carta na qual diz que apesar de a culpa pelo Holocausto ser dos alemães, nem a resistência polonesa, o Governo polonês ou os aliados tinham feito o necessário para evitar a matança dos judeus. Ninguém os havia ajudado. Os habitantes de Varsóvia, indiferentes, assistiram o Gueto arder, seus moradores saltando pelas janelas. (…)- HOLOCAUSTO — O Levante do Gueto de Varsóvia

Um Exemplo do século XXI

Há um genocídio em curso no mundo e — por ignorância, indiferença ou desinteresse — não se vislumbra esforço para o travar. Manifesta-se há décadas, como água a ferver em lume brando. No centro dessa ebulição está o povo rohingya, a minoria muçulmana de Myanmar (antiga Birmânia), que, ano após ano, tem vindo a ser despojada de direitos, dignidade e perspetiva de sobrevivência.

Para as Nações Unidas e a comunidade internacional em geral, a perseguição aos rohingya atingiu contornos de “limpeza étnica” — a expulsão de um grupo de determinada região. Organizações internacionais no terreno vão mais longe, denunciando um processo de “genocídio” — a destruição completa de um grupo.

“Uma campanha brutal de violência, violações em massa e a destruição parcial ou completa de mais de 350 aldeias forçaram 700 mil rohingya a procurar refúgio no Bangladesh desde 25 de agosto de 2017. Foi o êxodo humano mais rápido desde o genocídio do Ruanda”, diz ao Expresso, desde Rangum, a neozelandesa Alicia de la Cour Venning.

Esta investigadora da Universidade Queen Mary, de Londres, assenta convicções em visitas aos campos de refugiados e nos relatos de sobreviventes do terror orquestrado por forças do Estado birmanês, com a cumplicidade das autoridades de Arracão (estado costeiro também conhecido pelas designações inglesas Rakhine ou Arakan) — de onde têm fugido os rohingya — , monges budistas e ativistas da sociedade civil.

“Temos provas de que este genocídio foi planeado”, diz a investigadora da Iniciativa Internacional para os Crimes de Estado (ISCI, sigla inglesa). “As execuções, violações e a expulsão do povo rohingya foram concebidas como estratégia de longo prazo por parte do Estado birmanês.” Um longo “processo de engenharia social”, por fases, que começou com a estigmatização da comunidade e continuou com o seu enfraquecimento gradual e sistemático visando a sua extinção total.

ESTIGMATIZAÇÃO

Os rohingya enfrentam perseguições há gerações, mas o seu processo de desumanização escalou irreversivelmente a partir de 1982, quando uma nova Lei da Cidadania os excluiu da lista de 135 minorias oficialmente reconhecidas. Passaram a ser “os outros”, bodes expiatórios úteis em contextos de crise. Essa segregação confirmou-se aquando da realização do último censo, em 2014, em que apenas puderam participar os rohingya registados como “bengalis” — entre os birmaneses, são vistos como imigrantes ilegais.

Em Myanmar, “rohingya” é palavra proibida. “Julgo que decorre de rohang, que é a palavra bengali para Arracão”, explica ao Expresso Justin Watkins, professor de língua birmanesa na Universidade de Londres. “Quererá dizer ‘povo do Arracão’, que é uma das razões por que não são aceites pelo Governo.”

Na segunda-feira, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou-se “chocado” após o general U Min Aung Hlaing, chefe de Estado-maior do Exército birmanês, se ter referido aos rohingya como “bengalis”, sem “características ou cultura em comum com as etnias de Myanmar”. Em 2009, as palavras de outro general teriam merecido condenação mais vigorosa… após comparar a “pele clara e macia” do povo de Myanmar e a tez “castanha escura” dos rohingya, Ye Myint Aung, em missão no consulado birmanês de Hong Kong, descreveu-os como “ogres horríveis”.

ASSÉDIO

Em paralelo com a privação de direitos, os rohingya têm sido alvo de campanhas de intimidação que levam, com frequência, ao acendimento do rastilho da violência. À semelhança das fases iniciais do genocídio no Ruanda, quando se espalhou na rádio o medo e se alimentou o ódio contra os tutsis, chamados “baratas”, “serpentes” e “diabos que comem os órgãos vitais dos hutus”, esse tipo de propaganda teve eco em Myanmar, com órgãos de informação estatais a retratarem os muçulmanos como “pulgas humanas detestáveis”.

Também proeminentes monges budistas contribuíram para essa demonização. “Os muçulmanos são como a carpa africana: reproduzem-se depressa e são muito violentos, comem os da própria espécie”, defendeu Ashin Wirathu. Em 2013 foi capa da revista “Time” com o título: “O rosto do terror budista”.

Do assédio físico e psicológico às políticas públicas discriminatórias, os rohingya foram acumulando frustração e desespero. O surto mais recente de violência rebentou a 25 de agosto de 2017, depois de rohingya armados terem atacado postos da polícia, matando 12 agentes. A retaliação fez-se sentir ao estilo de uma punição coletiva: aldeias inteiras foram queimadas e quem tentou pôr-se a salvo foi alvejado. Em serviço nos campos do Bangladesh, os Médicos Sem Fronteiras denunciaram, em outubro, que metade das violações ocorridas durante a fuga dos rohingya envolvia menores.

ISOLAMENTO

O pesadelo dos rohingya começa, desde logo, na região onde vivem. Encurralado entre o golfo de Bengala e a cadeia montanhosa de Arakan Yoma, o Arracão é dos estados mais pobres de Myanmar. Para os seus 3,2 milhões de habitantes — 2,1 milhões de budistas e mais de um milhão de muçulmanos — , ir à escola ou ao médico é mais difícil do que no resto do país.
Excluídos da sociedade e alvo de violência organizada, os rohingya foram sendo encurralados em “áreas de segurança”, que mais não são do que campos de detenção, “uma espécie de regime de apartheid que não lhes permite estudar, trabalhar, casar, viajar ou professar a sua religião”, explica ao Expresso Daniela Nascimento, professora de Relações Internacionais na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Ali vivem dependentes da ajuda do Programa Alimentar Mundial e dos Médicos Sem Fronteiras.

De tempos a tempos a violência empurra-os na direção da fronteira. Em janeiro de 2017 foi conhecido um plano polémico do Governo do Bangladesh para recolocar dezenas de milhares de rohingya na ilha de Thengar Char, no golfo de Bengala. É que a ilha é inabitável: remota, vulnerável a inundações e um paraíso para piratas.

Sem espaço para se mexerem, crianças rohingya aguardam por uma refeição quente, no campo de refugiados de Palong Khali, no Bangladesh

ENFRAQUECIMENTO

Acantonados em guetos e impedidos de circular livremente, os rohigya vivem em situação de grande fragilidade: sobrelotação, subnutrição, epidemias, falta de cuidados de saúde, violência, tortura e assassínios esporádicos. Fugindo da perseguição e da miséria, em 2015, milhares lançaram-se ao mar de Andamão em “caixões flutuantes”, como a ONU designou os barcos. Andaram semanas à deriva, disputando comida e bebendo urina, sem que nenhum país abrisse fronteiras para os acolher. Muitos morreram afogados ou famintos, outros acabaram nas mãos de traficantes.

EXTERMÍNIO

Corresponde à matança final. A ela escaparam, por agora, os rohingya que conseguiram chegar ao Bangladesh mas alimentam o sonho de regressarem à terra que consideram sua. A 23 de novembro passado, os governos do Bangladesh e de Myanmar assinaram um acordo de repatriamento para ser concretizado em dois anos. “A não ser que haja uma mudança real das condições de acolhimento e integração no país, creio que se manterão elevadas as probabilidades de continuação das políticas de perseguição, exclusão e segregação dos rohingya”, diz Nascimento. Com a agravante de que, como na Alemanha nazi ou no Ruanda, a população birmanesa está “virada” contra os rohingya e pouco recetiva a tê-los de volta. Restará às autoridades procurar uma “solução final”.

REPRESENTAÇÃO SIMBÓLICA

A denúncia foi feita este mês pela Amnistia Internacional, que a comprovou com imagens de satélite: no norte do Arracão, onde existiam aldeias rohingya, há agora terrenos arrasados por bulldozers e edifícios em construção. “O Governo está a tentar redesenhar a paisagem social da região, apropriando-se de terras ‘abandonadas’ pelos rohingya, gado e propriedades, estabelecendo novas zonas económicas e destruindo as casas que restam, estruturas religiosas e até vegetação, tornando a paisagem irreconhecível, para impedir o regresso dos rohingya às suas terras de origem”, conclui Venning. “No lugar onde viveu uma próspera comunidade rohingya o Estado está a criar novas infraestruturas militares, residenciais e económicas e a alterar a demografia, transferindo populações budistas do centro para o norte.” Eliminando a memória de como os rohingya um dia ali viveram.-

Não, as semelhanças não são mera coincidência. São a repetição de padrões, uma mesma mentalidade supremacista anciente em diferentes etapas de um mesmo sistema de produção e suas crises econômicas e humanitárias cíclicas e inerentes. etapas de processos em escala industrial do capitalismo estatal, ou melhor, Estadismo de Capital. Um processo que pouco importa se foi cuidadamente premeditado planejado desde o princípio ou apenas foi escalando até ser racionalizado e sistematizado na fabricação das soluções finais, o resultado no final é mesmo. Em que ponto o racismo, supremacismo e fanatismo latente assumiu o controle e poder; em que ponto os valores e instintos solidários já precarizados pelo culto ao poder de tudo que é capital, nacional e divino foi definitivamente amputados e substituído pelo xenofobia, ódio, e desprezo totalitário a vida humana alheia; em que ponto a inversão de valores e instintos gregários naturais foram completamente suprimidos por sentimentos e racionalizações fundamentalista messiânicas, pelos culto a deuses, estados e riquezas e suas identidades e lideranças nacionais, religiosas e comerciais. Isso que é relevante como profilaxia, é absolutamente irrelevante no meio do processo já em curso, ou do altíssimo risco e probabilidade dele tomar esses curso se continuar fingindo que tudo é e continua normal não importa o que aconteça.

A questão não é ficar tentando adivinhar até onde eles são capazes de chegar, supondo em qual etapa eles vão parar ou não. A questão é que nós que não somos brancos, somos macaquitos, fruto do pior pecado para os puritanos higienistas, a miscigenação, obvio que não por causa do estupro, mas por causa da mancha no raça.

Seja nas fronteiras da Europa com a Africa, da America do Norte com a Latina mais, Nos fronteiras do Ocidente com o Oriente, ou entre os muros que dos burgos e as favelas brasileiras o que estamos assistindo não é só uma crise humanitária, mas mais uma etapa da expansão imperial e colonial do capital que acelera ou desacelera a sua industria economia de canibalização dos não tão brancos, não tão humanos, não tão ao centro, não tão grandes, mas ao contrário dos bancos e estados e igrejas pequenos demais, impotentes para merecer sobreviver, aos adoradores de grandezas, potencias e totalidades, tão pequenos, invisível quanto tudo que é fundamental e real e vivo, simplesmente indivíduos, seres humanos.

O holocausto patriarcal do capitalismo estatal

Viver crendo no fim do mundo, mesmo quando se vive num apocalipse é como caminhar olhando para o céus para ver se não seremos atingidos por um asteroide, uma vaca, um suicida ou um até mesmo um cocô na cabeça. Eventos altamente improváveis, e que matam pouco mais gente que ataques de tubarão, dizem.

Porém, o extremo contrário, viver supondo que nada vai acontecer, ou pior, que nada está acontecendo, pode gerar um falsa sensação de estabilidade e segurança tão perigosa quanta a própria paralisia ou fatalismo.

Temos uma tendência epistemológica muito útil de crer que os eventos que assistimos cotidiana e regularmente irão continuar a se repetir com a mesma regularidade. Acreditamos por exemplo de forma muito natural e saudável que o o sol vai nascer amanhã. Essa pressuposição é uma aposta em probabilidades tão altas que mal percebemos que não é uma certeza, mas uma das melhores apostas da vida.

Mas hoje já se sabe que haverá uma geração de “azarados” que não terá a mesma sorte. Existem até aqueles que podem se dar ao luxo de pensar no fim do mundo… daqui alguns lhões de anos, mas da não é muito diferente do fim de cada vida particular. fim dos tempos não é só completamente relativo mas absolutamente assimétrico.

Na verdade, a última geração sem sorte que encontra a extinção é sempre aquela que não pode escapar da sua sina, seja ela natural ou provocada por seus seus semelhantes. O ultimo dos moicanos é sempre apenas o filho das famílias, povos e classes trucidadas e expropriadas. Seja um povo em extinção, seja uma especie inteira, a geração derradeira, os últimos de uma gene, são sempre os filhos daqueles que já viviam no limiar da sobrevivência e de certa forma já estavam apenas no corredor da morte da sua extinção.

Para eles discutir a sobrevivência “astroplanetária” da especie é algo completamente absurdo. Uma sensação de absurdo derivada do saber que não se estará vivo até lá, mas de que sequer seus seus descendentes estarão.

Na verdade o fato de cientistas e estadistas do primeiro mundo poderem se dar ao luxo de debater com seriedade a colonização de outros planetas enquanto enquanto ainda lutamos contra a fome e a guerra e a devastação natural não é apenas sintomático das desigualdades, mas do tipo de homem que pretende continuar prevalecendo a custa da seleção assassina dos demais.

Esta hipótese, do holocausto capitalismo, pode não ter sido formulada sobre nenhuma base científica, mas não tem nada de conspiratória. Não precisa recorrer a nenhum grupo de conspiradores mundiais se reunindo secretamente para dominar o mundo. Ao contrário, prevê que mesmo que houvesse pessoas se reunido para por um fim nisto não seriam capazes, não sozinhas de fazê-lo.

(…)pouco importará por exemplo se a desigualdade de riquezas continua a aumentar ou diminuir a diversidade genética não deixará de aumentar a sua variedade com o aumento da população. Porém se (…) o capital atuar mesmo como uma ferramenta de eugenismo (negativo e positivo) a diversidade após um dado período de tempo ao invés de naturalmente aumentar por miscigenação (afinal somos seres sexuados) não apenas terá diminuído, como os genes dos clãs predominantes, isto é, daqueles que detém o capital estarão presentes em todas as demais classes sociais enquanto os dos antepassados dos atuais pobres e miseráveis e empregados estarão praticamente extintos.

Claro que estou menosprezando que o fato de o patriarcalismo é um cultura de estupro em sentido forte, isto é, de assassino dos homens dos povos dominados e estupro das mulheres, mas a tendencia é que os descendentes dos machos primogênitos serão os próximos povoadores do mundo, e seus irmãos e irmãs mais novos os seus próximos escravos e futuros povos e famílias extintas do mundo.

Logo, (…)as classes dominantes de dentro de um determinado território dominado, são em geral os herdeiros dos primogênitos masculinos das classes mais abastadas do passado. Enquanto os descendentes dos irmãos mais novos, sobretudo, do sexo feminino tendem a decair a classe servil, mas só enquanto são considerados empregáveis e sua gene é tolerada enquanto o custo da sua exploração não for maior que a manutenção da vida servil dessas população. Neste ponto, simplesmente se elimina o custo com o recurso, no caso, gente.

Ora, mas e as sociedades que não são formadas por uma mesma gene?

O processo é idêntico.

Os irmãos menos próximos e semelhantes vão sendo gradualmente exterminados para dar lugar como servos aos mais. Até que se tornem tão estranhos e estrangeiros aos seus dominadores que não sejam sequer considerados outra raça, mas uma coisa que pode ser descartada ou consumida como carne bovina ou uma máquina.

Veja que o resultado é sempre o mesmo: a cultura patriarcal tende a exterminar a linhagem feminina do mundo provacando a discórdia, segregação escravização da irmandade, até o extermino dos semelhantes em favor da herança dos primogênitos masculinos desses clãs superiores herdeiros do capital.

Note que o fator determinante não é a primogenitura nem o patriarcado, mas a transmissão do capital a uma determinada gene, geração após geração que termina por se ramificar em diferentes famílias, classes e etnias que afastadas do centro, a gene hereditária do poder vão ocupando o lugar das mortas como seus escravos e servos políticos e econômica.

O “único problema desse processo” é que ele requer e demanda que gente ao sul do Equador como eu (e você) continue acreditando em duas coisas:

que os supremacistas me tomam por gente igual a eles e não por coisa.

que não sou absolutamente igual a meus irmãos morrendo nas periferias, apenas porque eu o meus filhos (ainda) não são a bola da vez e nem tão escuros.

(…) O supremacismo e o estadismo fracassaram.

O culto milenar ao poder supremo aos valores únicos falharam completamente como projeto pax para a humanidade e estratégia de sobrevivência da especie. E persistir nesse modelo nos levará a guerra e extinção em massa. Não estamos apenas em um processo acelerado de degradação do nosso meio ambiente. Estamos em um processo lento de holocausto da nossa própria espécie. -ESTADISMO: o Ouroboros para tolos (Parte 2)

Josué de Castro e o combate ao neomalthusianismo- Marina Gusmão de Mendonça

A obra de Josué de Castro, tão esquecida pelos historiadores, mostra-se extremamente atual, principalmente considerando-se que, de acordo com os recentes relatórios da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO)3 , tem aumentado, nos últimos anos, o número de pessoas que padecem daquilo que a Organização das Nações Unidas (ONU) classifica como “insegurança alimentar”4 , ou seja, uma situação em que mais de um bilhão de indivíduos ao redor do planeta não encontram meios para garantir uma alimentação regular, tanto quantitativa como qualitativamente. É preciso assinalar que, no relatório de 2010, a FAO indica uma pequeníssima redução do número de pessoas em estado de insegurança alimentar, em virtude da ainda frágil recuperação da economia mundial depois da recessão de 2009 (veja-se: DEPÓSITO DE DOCUMENTOS DE LA FAO The state of food insecurity in the world, 2010, op. cit.). Porém, o noticiário nestes primeiros meses de 2011 dá conta de um novo aumento dos preços dos alimentos, o que, certamente, contribuirá para a elevação do número de pessoas em estado de insegurança alimentar.

Evidentemente, o problema se agravou sobremaneira a partir de 2007, quando os primeiros sinais da crise econômica, que eclodiu em setembro de 2008, eliminou milhões de postos de trabalho no mundo todo, ao mesmo tempo em que se assiste ao aumento vertiginoso dos preços dos alimentos, gerando uma situação de crescente instabilidade, de que são exemplos marcantes os recentes conflitos políticos no norte da África e no Oriente Médio. Aliás, uma demonstração inequívoca da gravidade do problema é o fato de o índice de preços dos produtos alimentícios elaborado pela ONU, em fevereiro de 2011, ter aumentado pelo oitavo mês consecutivo, elevando-se para o maior nível desde 1905 . A esse respeito, as recentes declarações de Jacques Diouf, diretor-geral da FAO, são bastante pessimistas. Segundo ele, “a alta dos preços aumenta as preocupações e estamos reduzindo rapidamente os estoques. Durante anos temos alertado que é preciso maior produtividade e investimento em agricultura” . Essa situação constitui um terreno fértil para a retomada de soluções fáceis (e desumanas) para o problema, consubstanciadas no ideário dos neomalthusianos , que preconizam a necessidade de redução da população mundial para que se garanta o abastecimento de alimentos.

O ideário neomalthusiano

Como se sabe, a obra de Thomas Robert Malthus (1766/1834), Ensaio sobre a população8 , publicada primeiramente em 1798, e consolidada em 1803, constituiu a base de todos os estudos demográficos posteriores. Para Malthus, haveria uma total incompatibilidade entre a capacidade de reprodução humana e a possibilidade de produção dos meios de subsistência, uma vez que a população, quando não controlada, tende a crescer em progressão geométrica, enquanto os meios de subsistência aumentam em progressão aritmética . Malthus afirmava que, até aquele momento, o desastre havia sido evitado por fatores repressivos e preventivos, os quais refrearam o crescimento indefinido da população humana. Para ele, os elementos repressivos, tais como as epidemias, as doenças causadas pela fome, as guerras e a insuficiência de certos fatores de produção, especialmente a terra, tendem a aumentar a mortalidade, reduzindo, portanto, o contingente populacional. Já os preventivos são de ordem moral, decorrentes da utilização voluntária de meios de controle da natalidade, e devem ser incentivados. Assim, um homem só deve constituir família quando dispõe de meios suficientes para seu sustento. Caso contrário, tem de optar pelo celibato e pela castidade . Dessa forma, Malthus refutava qualquer intervenção do Estado no sentido de amenizar a miséria de grandes contingentes populacionais por intermédio de auxílio material a indivíduos incapazes de prover o próprio sustento e o de sua família. Aceitava apenas que o Estado criasse instrumentos para ampliar a oferta dos meios de subsistência . Contudo, como salientou Paul Hugon, tão logo foi divulgada a obra de Malthus, surgiram, em diversos países, os pensadores neomalthusianos, que “dela se apossaram, transformaram-na, deformaram-na. Serviram-se da idéia de coibição voluntária, não mais com objetivos econômicos, mas político-sociais e, para pôr em prática essa idéia, não se limitaram a preconizar (…) a adoção da coibição moral como meio único” . De fato, para os neomalthusianos, era necessário um controle rígido da natalidade, uma vez que: a) o número de consumidores tende a aumentar em proporção superior ao produto nacional, o que leva ao empobrecimento geral da população; b) a relação entre o contingente economicamente ativo e a população global tende a ser desfavorável; c) o aumento da população leva à necessidade de ampliação do fator trabalho em detrimento da formação de capital; d) o crescimento contínuo da população provoca destruição do meio ambiente e o esgotamento de recursos não renováveis .

Como se vê, das preocupações dos neomalthusianos não constava qualquer perspectiva de alteração da realidade, isto é, de modificação das estruturas econômicas e sociais ou das relações entre países ricos e pobres. Essas idéias tomaram um grande impulso logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, por meio da publicação, em 1948, do livro O caminho da sobrevivência, de autoria do ecologista e ornitólogo norte-americano William Vogt (1902–1968), e que se tornou a bíblia dos neomalthusianos. Para Vogt, o único fator de produção que realmente gera riqueza é a terra, e ela estava se tornando perigosamente escassa para alimentar uma população cada vez maior. Segundo ele, a natureza dotou os Estados Unidos de grandes recursos naturais, que deveriam ser preservados para manter o estilo e o padrão de vida norteamericanos. Todavia, esse estilo e esse padrão não poderiam ser estendidos ao restante da humanidade. Assim, “quando o agricultor é suficientemente hábil para dirigir bem a sua terra, e pode produzir para as suas necessidades e desejos sem diminuir a capacidade produtiva (…) a economia mantém-se equilibrada. Quando, porém, devido ao solo pobre ou a métodos agrícolas inadequados, o fazendeiro só pode manter o seu trator, o seu automóvel, o seu quarto de banho e o seu rádio, minando a terra, é difícil defender o seu direito ao chamado padrão de vida americano” . Dessa forma, e supostamente preocupado com a preservação do meio ambiente para garantir a sobrevivência de gerações futuras, Vogt defendia a manutenção de grandes áreas intocadas. Além disso, manifestava-se radicalmente contra a adoção de medidas sanitárias preventivas que eliminassem os riscos de doenças em certas zonas do mundo, ou de técnicas que tornassem aquelas terras agricultáveis. De fato, para ele, “os insetos portadores de enfermidades humanas transformam grandes áreas do globo em terras que ficam à margem da atividade do homem. Tal infortúnio não é, todavia, tão importante como tem sido sugerido pelos que propõem o controle da malária. Em muitas áreas, a malária é, realmente, uma benção disfarçada, já que uma grande proporção das zonas contaminadas não pode ser aproveitada, tendo a doença, desse modo, impedido que o homem destruísse tais terras”. E acrescentava: “em certas áreas da África, onde o mosquito tsé-tsé foi localmente dominado, as populações nativas devastaram as terras anteriormente despovoadas, tendo, em poucos anos, destruído virtualmente sua capacidade de produção (…). Neste caso, o mosquito tsé-tsé, em lugar de constituir um fator de limitação para o homem, foi, verdadeiramente, um protetor de importantes recursos naturais”.

Como se vê, Vogt combatia a adoção de medidas sanitárias que pudessem salvar vidas e amenizar os sofrimentos de grandes contingentes humanos. O que ele não dizia explicitamente é que este combate era dirigido principalmente contra populações de regiões muito pobres, ou seja, de países do chamado Terceiro Mundo, assim como não mencionava a quem beneficiaria a preservação de “importantes recursos naturais”. Mas ele iria mais longe, chegando a negar que fossem utilizados os conhecimentos médicos para salvar populações pobres, que deviam ser deixadas para morrer à míngua. Senão, vejamos: “A profissão médica moderna, ainda estabelecendo a sua ética de acordo com as dúbias afirmativas de um homem ignorante que viveu há mais de dois mil anos (…) continua a acreditar ser seu dever conservar vivo o maior número possível de indivíduos.Em muitos lugares do mundo, os médicos aplicam a sua inteligência a um aspecto do bem-estar do homem — a sobrevivência — e negam o seu direito moral de aplicá-la ao problema considerado em seu todo. Mediante assistência médica e melhoria das condições sanitárias, são responsáveis pelo fato de milhões de pessoas viverem mais tempo em crescente miséria”. Em outro trecho, defendia simplesmente a eliminação dos pobres, como se pode ver a seguir: “Até mais ou menos a época da Revolução Industrial, era impossível o transporte de víveres em grande escala, sendo quase nulas as facilidades de armazenamento. Quando as colheitas fracassavam, o povo morria. Quando o povo aumentava, ultrapassando a capacidade da terra que devia alimentá-lo, raramente havia outra saída senão a morte. A Grécia antiga constitui exceção. A sabedoria do seu povo encontrou uma expressão que é raramente comentada; conscientes da ameaça constante de excesso de população, reduziam propositadamente tal perigo por meio da prostituição, do infanticídio, da emigração e da colonização. Para muitos, é repugnante a ética de algumas dessas medidas; prefeririam a miséria e a morte pela fome, em massa. Na maior parte do mundo „civilizado‟, o povo apenas morre por falta de alimento” .- Josué de Castro e o combate ao neomalthusianismo- Marina Gusmão de Mendonça

Não são só os fascistas que estão saindo como se nunca tivessem feito nada na história da humanidade. Racistas também tem cada vez mostrado sua cara e seu discurso sem medo de recriminação, muito pelo contrário, até a espera de aplausos. Claro que a santíssima trindade do supremacismo não estaria completa sem os eugenistas. (…)

Pressão populacional. Pressão populacional não é nem um eufemismo, remete a quantidade de pessoas. é um termo que quer dizer sem meias palavras que existem pessoas em excesso, como num barco que afunda porque está muito cheio. Qual a solução final: jogar gente ao mar.

Pois é, segundo eles o barco do mundo, ambiental e até mesmo social está basicamente afundando porque está afundando simplesmente porque está muito cheio, é muita vaca peidando é muito gente-gado deixando pegada de carbono!!! Não, é claro que não é, não pode ser, a porra da poluição, da industrial, militar, e financeira, não, não são os gastos das corporações governamentais e transnacionais monstruosos como a exploração desenfreada de recursos naturais e humanos. É a quantidade de carbono, a vida carbonizada em tese em breve em prática, ao qual foi reduzida a vida de uma criança (sul)americana, africana ou da coitada de Bangladesh que mal deixa pegadas no meio ambiente, porque mal tem força para se ficar de pé, quanto mais para crescer e caminhar, que dirá sobreviver para deixar qualquer pegada ou legado.

Até mesmo o problema do Estado social e do emprego se resolve como a mesma lógica que levou as cruzadas: Eliminando o excesso de gente, o excedente de mão-de-obra. Notem o absurdo: o desemprego é causado pelo excesso de gente querendo trabalhar e viver!!! E como seria diferente na cabeça deles? Na lógica do capitalismo absolutista e fascista, gente, gado é tudo a mesma coisa, commodities. Isso não é a vida como ela é, é a cabeça desses canibais de tudo e todos, exposta em toda a sua genialidade… psicopática.

Essa lógica é genocida e eugenista, e já que esses iluminados servos do supremacistas estão tão moralmente preocupados com a vida na terra que eles sacrifiquem a si mesmo e não o alheio, em seu holocausto maldito, que os genocidas se matem, e não assassinem, não sufoquem a vida dos outros. Ou melhor por que simplesmente não vão cuidar de dar um fim nas outras pegadas deixada pela desumanidades, as pegadas que vocês bancam e são bancados para esconder e apagar?

(…) E ainda falam em moralidade? Conseguem ser mais hipócritas dos que religiosos que são contra o aborto dos seus fieis em potencial, mas não querem nem saber como a mãe vai se sustentar ou alimentar seus filhos. Fodam-se. Não é a toa que neofacistas está em ascensão. Eles pregam abertamente a satisfação dos instintos mais primais que essa gente tenta satisfazer de forma tão mal dissimulada. Eles estão rasgando a fantasia e tirando a mascará logo. Mas, nós já sabíamos e sabemos quem vocês são e o que fizeram nas outras primaveras passadas… dos povos.

O problema não é a ecologia, a ciência ou a tecnologia, o problema é a ciência a tecnologia e o conhecimento sendo produzido por quem se finge imparcial e independente, mas na verdade é servo e empregado fiel e subordinado a quem os sustenta e paga para sustentar esse tipo de mentalidade e propaganda tão linda.

Imagine qual poderia ser a visão da produção de alimentos, soluções públicas sociais e ambientais produzidas por quem pensa o outro dessa forma tão “humana”… imagine a produção de serviço sociais, escolas, hospitais, remédios, alimentos, seguridades e seguranças públicas, imagine tudo produzido dentro dessa mesma logica que produz os sistemas operacionais tipo Windows da Microsoft. Bem você não precisa imaginar porque eles são produzidos assim e estão diante de nossos olhos e são as infraestruturas e superestruturas da nossa vida institucionalizada. Na verdade a ordem geracional é exatamente a inversa: Esses sistemas operacionais e informacionais, esses programas e tecnologias incluso as sociais, são produzidos seguindo essa lógica e mentalidade, eles são o produto desse mesmo monopólio do capital natural e cognoscível que o financia, que antes de tudo é uma forma de pensar e (des)valorar a condição humana, sobretudo do outro.

Não, o problema não ecológico nem muito menos a ecologia.

A ecologia não vai contra a humanidade, não vai contra os povos, Pelo contrário. Ela é uma forma mais consciente de humanismo que amplia a defesa da vida e liberdade para todos as formas de vida. Porém ela, a ecologia, quando a serviço das maquinas de guerra e reificação dos seres e seus donos e tiranos, não é ecologia, é economia aplicada a vida humana e natural, é contabilidade de mortos e nascimentos. Não é utopia é distopia, onde o Planeta é pensado pior do que um campo de concentração e trabalho forçados é o Planeta como fazenda de gado em favor devoradores de gentes. Não é o Planeta como uma grande e Senzala negra e suas pequenas casas grandes e brancas, é o planeta como gueto… de Varsóvia.

As coisas tem nome. Pregar civilizada ou educadamente coisas monstruosas não te faz civilizado nem educado, mas apenas um genocida ilustrado. Pregar a despopulação, a diminuição da quantidade de gente, ao invés dos gastos e danos dos todo poderosos governamentais e empresarias, tem nome: e se chama holocausto. Culpar as pessoas pelos crimes dos seus deuses e estados tem nome e não é só eugenia, mas totalitarismo, agora travestido de defesa da mãe “Terra”e “Natureza”. Autoritarismo estatal e austeridade fiscal para salvar privilegiados disfarçada ambientalismo e ecologismos. Pátrio-poder em sua forma e soluções finais, nazi e fascistoides.

Fazer da defesa ecológica uma guerra contra a humanidade será a solução e o crime final do homem contra o homem e o fim da humanidade não apenas como ideal e projeto inacabado, mas como espécie, canibalizada por sua própria ideologia supremacista insana e por essa psicopatologia enrustida de civilidade que transforma homens em lobos do próprio homem.

O maior perigo para o Planeta não são as populações, são os monopolizadores de todos os recursos naturais, inclusos os humanos. Não são os povos e populações, mas seus governos e empresas. Pessoas comuns não tem como acumular toneladas de armas de destruição em massa, destruir culturas etnias e meio ambientes, nem promover genocídios e extermínios em massa, nem sozinhas em em sociedade. São as maquinas governamentais e industriais e seus donos os únicos capazes de roubar e centralizar tudo o que é produzido como capital e trabalho para não promover tamanho holocausto como base da sua economia de teratológica, sua economia de morto.

Destruição e extermínio sistematizado é um produto de quem inventa e racionaliza soluções finais e não dos povos sobre os quais se pilha e marginaliza e depois se joga a culpa por todos os pecados dos tiranos do mundo para novamente poder marginalizar e exterminar e novamente pilhar. Um ciclo vicioso onde o holocaustos e genocídios engendram os impérios e suas supremacias, e as supremacistas e seus impérios em crise engendram os novos holocaustos, para se perpetuar e prevalecer. Um ciclo vicioso onde os crimes contra a humanidade não são o desvio padrão, são apenas o mesmo sistema e mentalidade aplicado quando os recursos ou a logística que mantém já não dá mais conta de manter a ditadura dos privilégios e privilegiados e seus disfarças de humanistas, republicanos, democratas, socialistas ou liberais.

É brincadeira… quando eles inclusive não tem argumentos científicos, eles simplesmente calam quanto e continuam a repetir sua teorias da terra plana com eles no centro do universo, simplesmente ignorando a obsolência das suas falácias.

Superpopulação e problemas sociais não são um produto do excesso de pessoas, mas da desigualdade violenta de poder politico e econômico. Ou como demostrou por A mais B Josué de Castro:

Superpopulação é uma subproduto da carestia. Uma reação de uma população que tenta resistir ao extermínio da unica forma que ainda pode reproduzindo mais.

Finde-se a privação primitiva dos pobres, restitua-se a soberania sobre o bem comum e findar-se-á o problema da superpopulação. Mas essa não é uma solução viável para vocês não? Afinal quem vai limpar sua merda? Quem vai matar e morrer nas suas guerras? Quem vai construir seus palácios e impérios? Robôs?

As pessoas não entendem que o problema do mundo não é a tecnologia ou falta de. Mas uma mentalidade de ovelha fiel ao homem lobo do homem. Uma mentalidade que não consegue ver que esse homem-lobo quando no poder é um tarado não só com a lei ao seu lado, mas como o poder de impor as suas taras como lei. Um estatopata. Um homem canibal tiver ciência, ou só os botões e pílulas para não morrer mais de causas naturais, ou energia limpa infinita, não será o fim da escravidão ou predação, mas o fim de qualquer humanidade possível. O dia em que o ser humano se reduzirá definitivamente a homem, e se tornará a encarnação definitiva do espírito, da inconsciência coletiva, a egrégora do mal que o possui o dito civilizado, o zumbi que muitos índios tentaram em vão e ingenuamente curar, e foram devorados. Cada pessoa será então apenas uma célula da sua própria máquina, feita a imagem e semelhanças de seus super-homens, uma engrenagem na maior distopia (im)possível:

Um mundo sem crianças. Sem natureza. Um admirável mundo novo de mortos vivos e seus capitais

O holocausto do capital, essa distopia e afecção canibal não é um problema ecológico, é antropológico. Não é uma condição da natureza humana, mas uma doença da suas desnaturação cultural. Uma psicose e psicopatia da (in)consciência coletiva humana.

Ou simplesmente: Não é a ecologia é a geopolítica, seu idiota. — Mais Josué de Castro e menos Thomas Malthus, Superpopulação, eugenia, teleonomia e cacotanásia

Notem que historicamente estamos presos em ciclos republicanos e imperiais de luta entre mais democracia ou ditaduras onde não banimos de vez a ilegitimidade de qualquer forma de desigualdade de poder e elegemos permanentemente a igualdade de autoridade como liberdades fundamentais de fato iguais para todos como o principio fundamentador da coexistência pacifica de todas sociedades dentro ou fora das fronteiras de um território.

(…) A paz não é produto da arte da guerra, Mas das artes marciais, e sua luta de raiz popular social e contra-violenta contra os supremacistas. Será o produto tanto do nascimento da livre consciência quanto das tecnologias inspiradas por esta nova condição humana, que darão materialidade a justiça social como proteção segurança dos povos e natureza. A paz de fato e não como mito e falsificação ideológica da guerra, a paz como libertação revolucionária do estadismo brutal primitivo,obsoleto e insustentável.

E em favor deste equilíbrio ecológico contra toda potencia ou superpotência supremacista e belicosa , e em favor do ideal contra-violento de não-vulnerabilização da vida que sustentamos nosso direito legitimo de resistência e defesa natural e revolucionária de todas as nossas formas de vida, inclusive as que não puderam nascer ou crescer ainda.

Se levantar e rebelar é mais do que um direito é uma necessidade quando os meios vitais e ambientais se esgotam. Por isso restabelecer o equilíbrio de forças da qual depende não apenas a isonomia de direitos universais e deveres mútuos, mas a igualdade de poderes e liberdades fundamentais é tão urgente, tanto como restauração da autoridade igual sobre o bem comum quanto garantia de relações consensuais para todos aqueles que essa estado como rede de proteção social possa alcançar e defender.

(…)

Quando direitos naturais de posse do bem comum que pertenciam a todos passam a ser discriminados e reservados somente aos supremacistas, o culto ao poder se faz Estado. Mas quando esses direitos passam a ser hereditários e privativos apenas dos descendentes ou primogênitos, os fidalgos, o estado se torna num primeiro momento patriarcal e patrimonialista e invariavelmente a longo prazo geração após geração em regime racista e eugenista. Onde os descentes bastardos privados da herança natural vão primeiro sendo escravizados por seus primos e irmãos até enfim desaparecer como famílias e povos inteiros por completa falta de meios próprios a subsistência.

A expropriação original da propriedade não é a origem dos estados de desigualdade social e exploração do trabalho forçado por privação do capital, é processo reiterado e retroalimentado como direito hereditário verdadeiro processo de extermínio progressivo e lento dos destituído da posse original atrelada a gene disfarçada de cidadania e nacionalidade.

Assim os povos marginalizados e expropriados desaparecem não apenas pelo apagamento da sua identidade original, etnocídio. Desaparecem como toda forma vida levada a extinção colonial: pela destruição da sua forma de vida, subtração de habitats e impedimento a força do acesso aos recursos naturais necessário a vida. Rigorosamente a extinção de toda uma gene, genocídio.

Como se não bastasse, esse crime contra a humanidade e a natureza tem ainda agravantes. É processado de forma sistematizada tanto legal quanto socialmente, de tal modo que não só a reação da vítima é criminalizada mas até mesmo qualquer tentativa de fuga! Tentar escapar deste território nacional convertido em campo de concentração e exploração de trabalhos forçados sem a devida autorização dos supremacistas não é só ilegal, mas quase impossível àquele que mal tem como sobreviver sem vender seu trabalho em troca da subsistência roubada.

A desigualdade de poder enquanto privilégio das autoridades constitui os direitos adquirido dos monopolizadores da violência contra os direitos naturais dos expropriados tanto do direito da legitima de defesa quanto da participação do bem comum. Liberdades e igualdades fundamentais são assim não só suprimidas mas invertidas como obrigação de renuncia e submissão legais e desiguais a violência e violação elevadas ao status de direitos adquiridos dos supremacistas. E viver em paz é pervertido no morrer calado.

Uma vez esquecida e encoberta a violência do crime original pelo próprio passar das gerações e assunção do roubo como propriedade pacifica pela própria falta de resistência daqueles que ignoram por desenraizamento das identidades e origens. Qualquer tentativa de correção deste injustiça mesmo que pacifica é tomada por violência! enquanto o crime se perpetua legalizado.

E isto se chama o holocausto do capital. Porque não só as pessoas estão perversa e legalmente presas aos campos de concentração e exploração do trabalho, mas porque o supremacista eugenista toma a desistência da classe ou gene conformada a morte e escravidão pela banalização da violência contra ela, ou até mesmo a ignorância do seus direitos naturais por força do cativeiro desde o nascimento como se fosse o consentimento tácito aos seus roubos, estupros e execuções.

Tomam as memórias apagadas e a catatonia dos povos estuprados e levados sem resistência ao abate da vida cotidiana como se Como se aceitassem a redução da sua vida a pena de trabalhos forçados como se fosse a confissão espontânea da sua suposta inferioridade, e morte. Como se fosse o consentimento tácito da vitima com o seu próprio extermínio e não uma confissão inquisitorial obtida por tortura!

Não é uma falha do sistema que Estados e religiões dirigidas ao poder total quando o atingem o que querem viram inquisições e promovem abertamente o holocausto que os estados menos totalitários fingem remediar. A fé estatal e religiosa no poder total é um instrumento não apenas de roubo mas de escravidão e genocídio do supremacismo eugenista. E pobre do povo que adora seus conquistadores reis e deuses feito a imagem e semelhança, morre higienicamente lambendo a mão dos seus mestre pio e ciente.

Não é a propriedade econômica em si que provoca a desigualdade e consequentemente o extermínio dos povos marginalizados, mas sim a possessão das relação e concepções. É o domínio cultural que sustenta tanto o poder político quanto os valores econômicos. Claro que ele é subsidiada pela violência legalizada como monopólio geopolítico e econômico, mas esse subsidio funciona como controle de rebelados, e não contra a mudança do paradigma de consciência.

A força do corpo artificial, é também sua fraqueza. Derrube as lideranças e outros ídolos serão postos no seu lugar. Derrube os sinais e as colônias de formigas abandonam os reinos e a rainhas. Mate o mito. E o reino cai. O mito não é o rei. É o signo real como realidade anti-natural.

(…) O tripalium é oficina do diabo. E feliz do povo que dominado e expropriados por tiranos sem chance de se livrar de seus usurpadores e seus impostos sobre seu trabalho e propriedade que resta sabe praticar a arte marcial da resistência e sabotagem zomista da vagabundagem contra os dominadores e trabalho voluntário e solidário aos seus irmãos de privações. Porque ter que trabalhar por falta de meios pode ser uma necessidade forçada, mas cavar sua própria cova ou a seus descendentes com a gosto servil dos acomodados e conformados não.

A falsificação da propriedade como titulo de posse dado ou reiterado por apropriação violenta contra o direito de propriedade e apropriação natural por ocupação e usufruto pacíficos não é só a legalização de crimes contra direitos naturais e deveres de paz, são crimes contra a natureza e humanidade que não se dissipam no tempo nem se podem reparam com as necessárias compensações enquanto não se restitui aquilo que foi roubado e ainda está privado dos legítimos donos por particular ou Estados.

(…) Estados assim constituídos são crimes contra povos que se perpetuam e renovam, a cada nova geração nascida no cativeiro da privação do bem comum e natural. Crimes que não desaparecem mas se repete contra cada descentes dos expropriados que já nascem compelidos e vulneráveis a violências e aos trabalhos forçados. E repito, o costume e a desistência dos que nascem em cativeiro, ou que caminham em silêncio para o abate não faz das justificativas nazi-eugenistas a concordância deles com seu destino, mas do processo de alienação genocida um verdadeiro holocausto.

Os supostos direitos de posse exclusiva que aqueles que tomam primeiro o mundo contra os que chegam depois ou perderam faz tempo a sua terra, não apenas fortalece direitos patriarcais baseados em primogenitura, e as ditaduras dos velhos contra o novo, mas a escravidão e extermínio marginal racista e velado de negros por brancos que um dia, antes de babel, foram seus irmãos- bastardos aos olhos dos racistas, mas querendo ou não irmãos.

São crimes contra a humanidade que nos conduzem involutivamente não só a extinção da espécie humana por desinteligência autodestrutiva, mas já antes por desintegração e desumanização dos povos seletivamente e artificialmente extintos, juntos como qualquer chance de constituição de uma humanidade desculturada e cosmopolitizada.

A criminalização da marginalidade sem a restituição dos meios necessários a subsistência não constitui estado de paz, mas o estado policial que contigencia o extermínio urbano para que ele não decaía em guerra civil aberta e politizada.

Se o tempo poderia curar os crimes do passado, a sua herança tanto como propriedade privadora quanto como servilidade forçada apenas o reitera. Pois, as transferências hereditárias das propriedades violadoras da natureza e direito natural subsidiadas pelo próprio monopólio da violência em si, não minimiza nem diminui o passivo histórico, só aumenta.

Nestes falsos estados civis, nestes estados falsificados de paz, como em qualquer guerra as vítimas não desaparecem porque seus corpos foram enterrados em valas ou incinerados, nem seus nomes e memórias apagados, as pessoas e almas mortas não precisam ser contadas para se somar e permanecer. E pobre da alma que tem olhos só para ver o evidente, porque átomos também um dia foram pensados como quimeras.

Muitos, até mesmo libertários ou até socialistas acham que a posse de territórios e terras pela violência era coisa dos seus reis e senhores e antepassados. Mas a apropriação violenta original não é nem seria suficiente para gentrificar o mundo desigual como ele é hoje, não poderia manter sozinha a exploração dos trabalho forçado depois da “abolição” da escravidão, nem explicaria a eugenização do mundo depois das “proibições” das discriminações e perseguições raciais.

Esses direitos exclusivos dos bens nascidos é e se consuma do outro lado dos burgos e fronteiras como fenômeno da morte dos mais inocentes e vulneráveis: as crianças e recém-nascidos. Conduz não apenas ao permanente crescimento da desigualdade social entre os proprietários e expropriados por nascença, mas ao continuo e permanente extermínio destas famílias, povos e nações privadas geopoliticamente do território e economicamente da terra e da natureza- enfim dos poderes iguais de decisão e usufruto do que é natural e necessário.

Hoje esse processo como tudo se acelera.

Os pseudo-direitos patriarcais-hereditários assentados na violência não precisam mais de um passado remoto para se passarem por justos e e seus protetores violentos por “legítimos” defensores da paz e justiça. Mesmo que derivados de crimes de guerra, invasão, roubos, de governos, corporações recentes, hoje doses cavalares de terrorismo e consumismo estatal e privado e midiático, servem para apagar mais rapidamente não apenas memorias de vida mas identidades sem precisar esperar pela morte das primeiras gerações.

O nascimento em cativeiro porém não fábrica ignorantes sozinho. Para domesticar é preciso doutrinar e para doutrinar sem que se haja revolta é preciso vender o mal como se fosse um bem. É preciso substituir a própria herança a própria transmissão do código natural do aprendizado pelo código artificial do culto supremacista. E nisto a propaganda jamais substituirá o capital como processo de doutrinação.

O capital antes de ser expropriado, há que ser divido e antes de ser divido precisa ser abstraído para ser reduzido e objetivado como tal. E quem pensa que o domínio capitalista é predominantemente econômico e se dá pela mera expropriação da propriedade reduzida a sua materialidade produtiva já nem se dá conta mais das outras esferas que de poder política e cultural que envolvem e compartimentalizam não apenas a economia da sua vida.

Para se apropriar do capital é preciso abstraí-lo tanto da essência quanto aparta-lo da própria natureza, e ao mesmo tempo um processo de segregação daqueles que precisam dela quanto da desintegração da sua qualidade natural. O capital é um abstração ideológica imposta como domínio do real pela desintegração tanto do bem natural da sua essência quanto da segregação dos seres tanto da natureza quanto da sua essência já apartadas.

O capital constitui a base da dominação do homem pelo homem não porque o priva dos seus meios vitais, mas porque reproduz a ideologia dominadora não apenas como ritual, mas como a própria preconcepção da realidade aos olhos daqueles que carecem dele e aceitam as regras do jogo e passam a lutar us contra os outros tanto por usufruto rarificado quanto por seu desejo de posse consumo exclusivos amplificados.

Toda alienação não se dá pela mera imposição do artificial contra a natural, mas pela sua substituição da naturalidade pela realidade ou legalidade como normalidade, isto é, o poder real e legal cotidiana e intransigente imposto contra a ordem natural morta. Mas o processo de alienação do capital vai além porque ele não impõe uma abstração como se fosse a rede da realidade, mas a realidade como o conjunto de abstração. E por isso está para o supremacismo como a invenção do zero para a matemática. Simplesmente ampliou sua capacidade de contabilizar os seres muito além dos números naturais. -O Holocausto do Capital

Image for post
Image for post
Império é império, só muda de nome e endereço.

E sempre tem um “branco” da casa para entregar os seus não-irmãos, a direita e esquerda, casados ou brigados, mas sempre unidos como classe política vendida e vendedora de carne humana, seu pão e sua terra para eugenistas travestidos de capitalistas e estadistas.

Em 1840, a obra do anatomista escocês Robert Knox, “Races of men” forneceu fundamentos para o racismo e justificou o extermínio: “A raça é tudo: literatura, ciência, arte, em uma palavra, a civilização, depende dela. As raças negras podem ser civilizadas? Eu devo dizer que não. (…) A raça saxônica jamais as tolerará, jamais se miscigenarão, jamais viverão em paz. É uma guerra de extermínio”. (Roberto Knox, 1840)

Medição do crânio, desenho de Samuel G. Morton, 1839. Por essa época, nos Estados Unidos, o anatomista Samuel George Morton, estudando os crânios de diferentes etnias concluía que a capacidade craniana determinava a capacidade intelectual e que os caucasianos por terem os maiores cérebros eram, portanto, mais inteligentes. Abaixo deles vinham os índios e, por último, os negros.

Morton usou essas “evidências” para defender a ideia de que o ser humano não tinha tido uma origem comum. Afirmava com racismo que cada raça fora criada separadamente e a cada uma foi dada características específicas e irrevogáveis. Assim, para ele, tasmanianos, africanos e índios americanos talvez nem chegassem a ser totalmente humanos.

Darwinismo social e eugenia A obra de Charles Darwin, “A origem das espécies”, de 1859, com sua teoria da evolução natural, acabou servindo de álibi para justificar a expansão global da raça britânica. As ideias de Darwin foram usadas para explicar as sociedades humanas dando origem ao darwinismo social baseado na tese de que somente os mais aptos, os “superiores” vencem. Os “perdedores” estavam fadados a desaparecer. Muitas dessas raças ‘inferiores” seriam apenas lembradas como curiosidades, peças empalhadas em museus de Antropologia.

O cientista inglês Francis Galton, baseando-se na obra de seu primo Charles Darwin, propôs a seleção artificial para o aprimoramento da população humana através de casamentos seletivos entre brancos, unicamente. Nascia a eugenia, termo criado por Galton, em 1883, significando “bem nascido”. Suas ideias tiveram enorme repercussão e foram elogiadas no meio científico. A eugenia parecia ser a solução para reverter o desequilíbrio social que, na época, ocorria, na Inglaterra. O forte crescimento demográfico das classes pobres frente à diminuição das classes mais ricas e cultas gerou o temor de uma “degeneração biológica”. Entre 1880 e 1930, a eugenia logo se transformou num movimento que angariou inúmeros adeptos entre a maioria dos cientistas e principalmente entre a população branca. Serviu de justificativa para o racismo e a repressão policial contra operários e os mais pobres. Falava-se em “raças criminosas”. Pregações dos missionários cristãos de que “somos todos irmãos” foram vistas como ideias ultrapassadas. O poema “O fardo do homem branco”, de Rudyard Kipling, passou a ser considerado um romantismo obsoleto.

A Grande Fome na Índia Britânica

As teorias do racismo foram aplicadas não somente nas novas colônias, mas também nas partes antigas do Império Britânico. Entre 1876 e 1878, a Índia foi afetada pelo fenômeno climático hoje conhecido como El Niño. As monções não vieram e a seca destruiu os cultivos. A população rural consumiu todas suas reservas alimentares e a fome se alastrou pelo país. Cerca de 8 milhões de camponeses indianos morreram de fome. Fome na Índia, 1876–1878. O que agravou a tragédia foi o fato dos britânicos terem desmantelado a agricultura tradicional que, durante séculos, evitava que a escassez se transformasse em fome. Os britânicos forçaram os agricultores indianos a plantarem trigo e algodão em larga escala para exportação acabando com a agricultura familiar de subsistência. Para o vice-rei da Índia, Lord Robert Bulwer Lytton, a morte de milhões de agricultores pobres nada mais era do que parte da “seleção natural” em que sucumbiam os mais fracos. Ignorando a tragédia e sucumbindo ao racismo, Lytton concentrou-se nos preparativos da grandiosa festa de coroação da rainha Vitória como imperatriz da Índia, ocorrida em 1877.

Namíbia

Darwinismo social, eugenia e racismo científico serviram de justificativa para o que ocorreu na Namíbia, colônia alemã na África. Em 1904, o povo nativo se rebelou contra a brutalidade das autoridades alemãs. Em resposta, os alemães aprisionaram e escravizaram os hereros e namaquas em campos de concentração. Somente na ilha de Shark, cerca de 3.500 indivíduos foram exterminados. Entre 1904 e 1907, o massacre extinguiu 80% da população nativa além da prática de tortura e do abuso sexual às mulheres sobreviventes. Execução dos herero, Namíbia, 1907.

O genocídio dos hereros e namaquas foi o primeiro do século XX e é precursor do extermínio que ocorreu no período nazista. Nessa época, o cientista alemão Eugen Fischer, defensor da eugenia, pesquisava a população de Rehoboth, pequena aldeia situada ao norte da Namíbia. Interessava-lhe encontrar provas de “degeneração racial” entre os 3.000 nativos miscigenados, isto é, nascidos de uniões mistas de alemães com africanos. Sua proposta para deter o avanço da “degeneração” era a esterilização dessa população. O eugenismo nos Estados Unidos O movimento eugenista ganhou força em 1912 com a realização do Primeiro Congresso Internacional de Eugenia, em Londres.

As ideias eugenistas ganharam adeptos em vários países da Europa, Ásia, América Latina e, principalmente nos Estados Unidos e na Alemanha. Em 1910, Charles Davenport, professor de Zoologia da Universidade de Chicago, obteve financiamento de grandes empresas americanas para fundar o Escritório de Registros de Eugenia (Eugenics Record Office, ERO) que teria a função de organizar a coleta de dados familiares. O movimento eugenista nos Estados Unidos crescia no mesmo período em que começavam a chegar levas de imigrantes do sul e do leste da Europa. Para os eugenistas, tornou-se importante proteger “seus estoques genéticos populacionais dos degenerados e socialmente indesejados”, isto é, deficientes mentais, criminosos, delinquentes, deficientes físicos, infectados com doenças contagiosas etc. Em 1930, leis de esterilização haviam sido aprovadas em 23 estados norte-americanos. Em 1938, mais de 30 mil pessoas haviam sido esterilizadas involuntariamente. Casamentos inter-raciais foram proibidos em 27 estados.

Alemanha nazista Fundações americanas, como a Fundação Rockfeller, financiaram o desenvolvimento da eugenia alemã. Sob as ordens do governo nazista, Eugen Fischer, o mesmo que trabalhara na Namíbia, foi autorizado a esterilizar afro-alemães. Eugen Fischer em seu escritório em Berlim, 1938. Tratava-se de uma minoria, entre 500 e 800 indivíduos, descendentes de alemães colonizadores e missionários que residiram nas colônias alemães da África e tiveram filhos com mulheres nativas. Após a Primeira Guerra Mundial, com a perda do império colonial alemão, alguns desses colonos voltaram à Alemanha com suas respectivas famílias. Essa população foi esterilizada incluindo 400 crianças e doentes mentais. Quando a Segunda Guerra Mundial começou, em 1939, o governo nazista abandonou o programa de esterilização pelo extermínio daqueles considerados “indesejados” para a “pureza racial ariana”. O racismo nazista pode ser visto, dessa forma, como parte de um processo histórico mais longo que se desdobrava havia um século. — Racismo: uma história — Documentário

O caso foi relatado pelo professor Oscar Vilhena, da FGV Direito SP, em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo. Segundo ele, a história aconteceu na cidade de Mococa, em São Paulo. O juiz não fez audiência, não nomeou um defensor e não pediu documentos que mostrassem que ocorreu consentimento por parte da mulher, que tem filhos. Apenas determinou a condução coercitiva para a operação. Vilhena não revelou os nomes do juiz e do promotor, só da vítima.

“Como Janaína é pobre, vive em situação de rua, dependente química, um membro do Ministério Público entendeu que ela deveria ser esterilizada. Ela foi ao Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) para retirar todos os pedidos de exames agendados com essa finalidade. Foi quando o juiz ordenou a condução coercitiva. Quando o recurso do município chegou ao Tribunal de Justiça de São Paulo, a mutilação já havia ocorrido”, diz o texto de Oscar Vilhena.(…)

Vieira ressalta como a esterilização compulsória já foi usada em outros momentos e países com finalidade de controle racial e social da população. “A esterilização coercitiva, com finalidades eugênicas e apuração da raça, foi largamente empregada pelo regime nazista. A China fez uso da esterilização coercitiva em massa para conter a natalidade. Os Estados Unidos a empregavam para punir criminosos. Mesmo no Brasil, como foi apontado por uma comissão parlamentar de inquérito, ainda em 1991, havia tolerância com políticas de esterilização coercitiva em massa, com finalidades demográficas.”

Não senhoras e senhores, o racismo não está a serviço do capitalismo, mas o capitalismo, e não entender a ordem desses fatores é fatal. Prova disso é o caso de Janaína e tantos. Se o problema fosse os custos que a “prole” de uma pessoa causa a sociedade, essa sociedade faria vasectomia em políticos e colocaria eles em campos de concentração, porque o crime e prejuízo que essas aristocracias, esses clãs políticos de capitães hereditários modernos causam é infinitamente maior que o prejuízo causado pela somatória roubo e assassinato de todos os marginais, que dirá da carestia dos marginalizados. Mas se assim fizemos não seriamos mais uma sociedade, mas um Estado. Não seriamos mais nós, mas eles, vindos de uma outra origem, mas com o mesmo espirito de porco.

“A minha tese é simples. Família ainda importa. As estruturas de parentesco formaram parte da realidade social e política brasileira no século XXI”. (…) Em “Na teia do nepotismo — sociologia política das relações de parentesco e poder político no Paraná e no Brasil”, Oliveira pretende traçar um panorama geral sobre como o nepotismo surgiu, se desenvolveu e ainda perpetua nas diversas esferas de poder no país.

(…)a hierarquização do Estado brasileiro em seu princípio (pautado também por insígnias simbólicas) aliado à nobreza portuguesa contribui para que o nepotismo se desenvolvesse. Afinal, o poder nas câmaras municipais, dos padres das famílias e dos tabelionatos era geralmente concentrado nas mãos de poucas famílias. Além disso, frequentar espaços sociais comuns e o relacionamento intraclasse fizeram com que a miscigenação entre as famílias aumentasse nas vilas do país. Em outras palavras: os integrantes da nobreza procuravam perpetuar os laços familiares com membros de famílias da mesma linhagem social, postadas sempre nos altos estratos sociais. Estas foram as linhas gerais das origens do nepotismo no Brasil, descritas minuciosamente pelo autor, com citação de dados históricos e episódios que marcaram o início do domínio das famílias nas esferas de poder nacionais. No segundo momento, há a valorização da estrutura social e os indícios de como o nepotismo se transformou em um processo condizente com a sociedade brasileira.

Neste sentido, o autor argumenta que as famílias de origem portuguesa — chamadas de “quinhentões” são as que dominam as estruturas de poder, espalhando-se pelos principais postos de ação social. Prova disso são as propriedades escravistas em seus nomes, a atuação nas fazendas e nos engenhos, os proprietários de tabelionatos, representação de autoridade nas vilas, a extensão para os poderes legislativo, executivo e judiciário, enfim, uma ramificação socioestatal e Estado e sociedade amplamente difundida até os dias de hoje. Aliada a esta estrutura social brasileira surge a análise genealógica, ratificando a tese de Oliveira que família ainda importa: o Estado em que os poderosos mandam necessita de pesquisas sobre a genealogia e as redes de parentesco atuando em favor do poder.

Diante deste quadro, o nepotismo e seus tentáculos é, sobretudo, “um processo de produção e reprodução de desigualdades” e, segundo Oliveira, é necessária a criação de um observatório para estudar o fenômeno — muitas vezes organizado por redes familiares em um dado espaço e tempo. Em seu estágio inicial o nepotismo ocorre através de uma rede de poder local, espalhando-se pelos poderes executivo, legislativo e judiciário abordados no texto. Além destes, o autor elege os cartórios, os tribunais de contas, o Conselho Nacional de Justiça — CNJ, os tribunais eleitorais e os conselhos das estatais para a execução de um detalhado exame do nepotismo no Brasil.-OLIVEIRA, Ricardo Costa de. Na teia do nepotismo — sociologia política das relações de parentesco

O sol nasce e ilumina
As pedras evoluídas
Que cresceram com a força
De pedreiros suicidas
Cavaleiros circulam
Vigiando as pessoas
Não importa se são ruins
Nem importa se são boas

E a cidade se apresenta
Centro das ambições
Para mendigos ou ricos
E outras armações
Coletivos, automóveis,

Motos e metrôs
Trabalhadores, patrões,
Policiais, camelôs

A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce
A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce

A cidade se encontra
Prostituída
Por aqueles que a usaram
Em busca de uma saída
Ilusora de pessoas
De outros lugares,
A cidade e sua fama
Vai além dos mares

E no meio da esperteza
Internacional
A cidade até que não está tão mal
E a situação sempre mais ou menos
Sempre uns com mais e outros com menos

A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce
A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce

Eu vou fazer uma embolada,
Um samba, um maracatu
Tudo bem envenenado
Bom pra mim e bom pra tu
Pra gente sair da lama e enfrentar os urubus

Num dia de sol, recife acordou
Com a mesma fedentina do dia anterior. -Chico Science e Nação Zumbi

JOSUÉ DE CASTRO: UM AUTOR DO LEGADO ESQUECIDO?

(…) No decorrer desse estudo, apaixonei-me por Josué de Castro. Nutri uma daquelas paixões avassaladoras — com todos os problemas que essas paixões acarretam: brigas, afastamento e o eterno encantar-se. Interessei-me por descobrir o médico de formação, mas não por “vocação”, e o cientista social por disposição individual e social (Aguiar, 2000). Exilado, em 1964, teve sua literatura banida das prateleiras das livrarias do Brasil. Um pensador dinâmico, corajoso e questionador das políticas ideológicas de seu tempo. Um militante social polêmico e ousado. Devo dizer que o que mais me surpreende e alegra-me em seus escritos é o otimismo com que analisa a sociedade, sua preocupação com as problemáticas sociais, sobretudo no Nordeste brasileiro. Um homem que ousou lutar pelo fim do fenômeno da fome. Fenômeno esse responsável pela criação de um exército de “mortos vivos” nessa região brasileira. “Só um sonhador apaixonado ousaria ir tão longe, tão ardentemente em busca de soluções” (Silva, 1998, p. 4). Sim! Josué era um “utópico sonhador”. Utópico no sentido traduzido por Karl Mannheim (1986), que aponta que os indivíduos ou grupos sociais cultivam a mentalidade utópica presente em todas as épocas. Nesse sentido, o termo utópico não está atrelado a ideias ilusórias, como rotineiramente associamos. Trata-se das representações de ideais e teorias que aspiram outra realidade ainda não existente, tendo, portanto, uma dimensão de negação da ordem social estabelecida, orientandose para sua ruptura. Quando ocorre a ruptura, presenciamos a entrada em cena da ideologia, que é a mentalidade dominante de um dado contexto social (Silva, 2010). Segundo Silva (1998), como utópico, Josué viveu a tragédia da militância solitária, a utopia de sonhador solitário. Mas, como sonhador, fez da temática da fome seu leitmotiv de vida, sua poética de existência. Seus depoimentos e escritos e sua intensa militância política revelam seu caráter humanista, um humanismo que almeja tornar-se realidade, costume e convivência social (Nascimento, 2002). Esse humanismo, nada tinha de abstrato, indiferenciado ou cristão, próprio daqueles que toleram o próximo por entendê-lo feito à imagem e semelhança de Deus. Josué de Castro era ateu, seu humanismo relacionava-se ao seu compromisso social e político em defesa das classes destituídas dos bens da terra. 23 […] Creio que já passou o tempo em que os povos miseráveis se conformavam, segundo a frase das escrituras sagradas, de que aos pobres pertence o reino dos céus. Devemos pensar que também aos pobres pertence o reino da terra, pois a terra é um bem comum para servir todos os homens. Se não trabalharmos com energia para nos desviarmos do caminho da bomba, do caminho da perdição, seremos expulsos da terra. E aqueles que perderam o reino dos céus perderão também o reino da terra… (Castro, 1954)3 . Como não se encantar por um autor que traduziu desavergonhadamente com sensibilidade e racionalidade científica e, sobretudo, com propostas de políticas sociais, o drama da fome? Que tipo de intelectual é esse? Como combina pensamento sistematizado e ação? Fui envolvida nesse debate. Era o perfil de intelectual ao qual gostaria de ter sido apresentada nos anos iniciais do curso de Ciências Sociais, quando comecei a questionar-me sobre qual seria o papel dos intelectuais? Mais especificamente queria compreender como os intelectuais brasileiros se comportaram nos momentos decisivos de nossa cultura política, como influenciam na luta por justiça social, e Josué de Castro estendeu-me a sua mão e demonstrou que a sociologia é também uma ciência engajada, capaz de revelar as tramas e os dramas existenciais e coletivos. De certo, a proposta era ambiciosa pelo referencial teórico que deveria perpassar, afinal trata-se da preocupação com o lugar do indivíduo no processo de mudança social, refere-se à relação entre agência e estrutura, questão famosa nas ciências sociais, que tende a relacionar os seus estudos com ênfase na estrutura social como motivadora da ação ou na motivação do agente como explicação da ação. Tais questões são recorrentes entre os cientistas sociais, que, geralmente, são classificados de acordo com a ênfase que dão à referida relação entre indivíduos e sociedade (Silva, 2010).(…)

Mesmo levando em conta tal racionalidade, briguei com Josué de Castro e o seu desajustamento a minha hipótese, a saber: de que ele era militante de esquerda, marxista, intelectual orgânico, um revolucionário, um humanista cristão. Entretanto, não era possível lançar tais enquadramentos a Castro, que se apresentava mais como um intelectual mannheimiano, reformista e sistematizador das ideologias e utopias. Desencantei. Mas, por fim, seduzida por sua obra e pelo que o próprio Josué de Castro fez com seus sujeitos de estudos, voltei a revisitá-lo, dando-o a dignidade de ser sujeito, agente ativo e deixei que ele se revelasse como o intelectual-político e ele foi mostrando-se um personagem, ainda que aparentemente marginal na nossa cultura política acadêmica, mas de uma vivacidade histórica e de um profícuo conhecimento sobre a realidade brasileira, portanto, um intérprete do pensamento social em saúde. 25 Desse modo, neste estudo, assim como em outros estudos sobre Josué de Castro, haverá aqui um desejo de exaltar suas ideias, trazendo mais à tona suas virtudes e qualidades com o objetivo de reavivar o debate em torno de seu pensamento. Entretanto, a despeito dos perigos que esse caminho poderá trazer na construção do conhecimento, trata-se apenas do esforço de retirar sua obra do esquecimento. Não ocultando, com isso, suas contradições e seus argumentos “conflitantes e conflituosos”, próprios de quem faz e fez de seu pensamento um manifesto político (Silva, 2010).(…)

O Livro Negro da Fome (1960)13. Para Silva (1998; 2009) esse livro avança em termos teóricos no campo da sociologia ao propor uma nova teoria científica do desenvolvimento econômico, sem vinculação com os modelos exportados dos países desenvolvidos, apresentando os pontos norteadores de um método que, segundo sua concepção, seria básico para se compreender a produção da pobreza. Foi também neste livro que elaborou um programa efetivo de luta contra a fome que compôs um dos objetivos centrais da Associação Mundial de Luta Contra a Fome (ASCOFAM) fundada em 1957. (…)

O nome de Josué de Castro constava na primeira lista dos brasileiros a ter seus direitos políticos cassados em abril de 1964. A cassação de Josué de Castro ocorreu por encampar, nos anos 1950–1960, a luta pelas Reformas de base e, sobretudo, pela Reforma Agrária, que apresentava uma necessidade de suma importância histórica, considerando-a como um imperativo nacional a ser alcançado para incluir milhares de brasileiros excluídos socialmente. Segundo Josué de Castro, essa problemática política instalada no país caracterizava-se pela dinâmica estabelecida entre os atores intelectuais e políticos que tenderam a promover apenas agitações intelectuais e ações improdutivas, que vinham se desenhando no país desde o fim da década de 1950: A verdade é que a política no Brasil só inspira e aguça para uma espécie de atividade espasmodicamente agitada e intelectualmente improdutiva. Mais agitação que ação verdadeira.

“Não há debates nem lutas por ideias e princípios, mas uma surda e contínua luta pessoal por vantagens e posições. É uma luta de vida e de morte — luta vegetativa — sem deixar nenhuma disponibilidade para quaisquer veleidades intelectuais. Depois de dois anos como parlamentar, cheguei à triste conclusão da esterilidade e da infecundidade da inteligência no Parlamento. É esta uma arena ou circo onde se digladiam outras espécies de força: a astúcia, a audácia, o cinismo, o oportunismo. Não há lugar lá para outras qualidades humanas menos subalternas, como o espírito público, o desejo de servir, a busca de novos caminhos que possam conduzir a uma melhor distribuição de quotas de felicidade. Mesmo quando são debatidos problemas que em sua aparência envolvem estes aspectos do bem-estar coletivo, o tratamento ou nível de debate, o encaminhamento ou escamoteação dos argumentos se faz de tal modo que não é difícil verificar que a mola impulsionadora de toda aquela agitação em torno do problema não é o amor à causa, mas o desejo de aparecer, de brilhar, de se impor e cobrar politicamente com boas compensações — esta é a regra de conduta que dá raiva (Discurso proferido na Câmara Federal em 1 de setembro de 1963).”

A crítica de Castro estava sendo direcionada não apenas ao corpo político de direita que planejava o golpe, mas também à classe intelectual e política de esquerda. Mesmo identificando-se como político esquerdista, Josué de Castro chegou a mencionar uma ditadura de esquerda do Partido Comunista, ressaltando: “Sou da esquerda, mas não tolero a ditadura. Por isso, nunca fui nem serei do Partido Comunista. Ditadura, nem do proletariado” (Castro, 1963 apud Silva, 1998, p.114).

No exílio em Paris (1964–1973) continuou a desenvolver suas atividades em várias associações científicas na Europa, Estados Unidos e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). No Brasil, influenciou, em 1972, na criação do Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição (INAN), que propõe uma inovação no discurso oficial ao trazer a concepção de desnutrição como doença social. Além disso, escreveu os livros: Sete Palmos de Terra e um Caixão (1965) em que traz à tona a problemática da falta de participação popular no processo de decisão política do país, sinalizando que esta não-participação se dava pela bipolaridade da política brasileira: a esquerda mal organizada e a direita conservadora, problematizando ainda sobre a distribuição de terra, sobretudo, no Nordeste brasileiro. Em 1967, publicou “Homens e Caranguejos”, um romance em que o próprio autor nos oferece a possibilidade de também ser lido como autobiografia. (…) Em 1967 esteve no Rio de Janeiro, em missão especial da ONU como representante do Centro Internacional de Desenvolvimento (CID) e como membro do Instituto de Formação Humana e Pesquisa da ONU para tratar de assuntos relacionados a temática da fome, conseguiu entrar no Brasil por possuir um passaporte diplomático, mas tinha restrições para sua permanência, com o vencimento do passaporte não conseguiu mais voltar ao Brasil, morreu em 1973 em Paris acometido pela velha depressão que o acompanhava desde sua época de estudante no Rio de Janeiro (Silva, 1998). Assim nos revela sua filha, Ana Maria de Castro: Posso afirmar, sem qualquer pieguismo, que Josué de Castro morreu de depressão, morreu de tristeza, tristeza de estar longe de sua terra e de seus filhos. Tristeza de não poder viver e conviver com seus amigos, como Otávio Pernambucano, Fernando [Santana], Jamesson Ferreira Lima, Cid Sampaio, Pelópidas da Silveira, Barbosa Lima Sobrinho, Arraes e tantos outros. Não consigo esquecer seu desencanto, quando já doente, mais uma vez, lhe foi negado o passaporte brasileiro, para que pudesse voltar ao Brasil (Castro, A. M., 2007, p. 259). Tempos antes de amanhecer morto em seu apartamento em Paris, em 24 de setembro de 1973, ao despedir-se do amigo Gilberto Costa Carvalho disse-lhe: “não se morre só de nefrite, de doenças dos vasos ou do aparelho digestivo, morre-se também de saudade, de saudade da terra onde a gente nasceu”. (…)

Entretanto, o que explicaria a ausência de debate acadêmico em torno de seu legado intelectual? Por que escrever uma tese sobre um autor pouco lido? Ou melhor, por que fazer ciência estudando um autor? Partimos do pressuposto de que: “O cientista não é produto apenas de seu treinamento numa disciplina e consequente aquisição de um modo particular de ver o mundo, mas também das circunstâncias, relações e expectativas experimentadas durante a vida. É um indivíduo que busca se posicionar dentro de um campo de possibilidades historicamente definidas e, portanto, lança mão de estratégias, numa complexa paisagem que combina concepções de ciência, estruturas de instituições e arranjos políticos” (Silva, 2011, p.36).

Nesse sentido, conhecer personalidades e seus pensamentos e refletir sobre atos e ações fazem parte da práxis científica de um campo do conhecimento. Sendo assim, abordar a trajetória individual de cientistas significa, como afirma Mary Jo Nye (2006), fazer “história da ciência por outros meios”. Acredito que sua obra faz parte de uma tradição mais ampla das interpretações sobre a realidade social brasileira, no que tange, sobretudo, às questões referentes à situação da saúde pública do país. Contudo, dificilmente, seu nome é citado junto aos intérpretes brasileiros. Por que a sua obra não é discutida nas universidades brasileiras? Essa assertiva e indagação tornou-se importante neste estudo. Curiosamente, o desconhecimento em torno da obra de Castro continua, mesmo no Governo do Partido dos Trabalhadores (PT), que o adota como símbolo das Políticas Públicas Sociais e de Segurança Alimentar. Isto porque, para nós, é um autor proclamado pela trajetória pública, porém não discutido nas ciências sociais e nas ciências da saúde, com raras exceções nos debates de nutrição com ênfase em Saúde Coletiva, sendo geralmente pouco lido pelos acadêmicos. Possivelmente as últimas gerações de brasileiros, mesmo os “leitores” mais assíduos, não conhecem a obra Geografia da Fome, nem sabem quem foi Josué de Castro. Em contrapartida, qualquer adolescente na França e no Canadá deve ter tido a oportunidade de ler alguns de seus escritos (Mançano [et ali], 2000).

Geralmente seus estudiosos relataram que o encontro com a obra de Josué de Castro aconteceu ao acaso (Silva, 2008; Nascimento, 2008; Schappo, 2008; Carvalho; 2008). Assim também foi meu encontro com a obra de Josué de Castro, quando um amigo nos apresentou, emprestando-me alguns de seus livros. Anteriormente a este acontecimento, lembrei que anos antes, ainda no terceiro período da graduação em Ciências Sociais, um amigo e militante social, hoje Médico formado em Cuba, perguntou-me sobre Josué de Castro, sinalizei apenas que não tive oportunidade de ler sobre este pensador. Mas, sinceramente, não sabia de quem se tratava, assim como meus companheiros de curso. Este amigo então relatou que ele era lido na formação médica em Cuba.

A defesa em reavivar a obra de Josué de Castro é não apenas por ser uma obra atual do ponto de vista metodológico — se partimos da assertiva de que se trata de uma obra que faz bom uso da interdisciplinaridade, abrangendo conceituação, aplicação e combinação da geografia, epidemiologia, sociologia, antropologia, história e economia, mas também por ser uma obra que evidencia não apenas fatos do passado, mas apresenta eventos e perspectivas que formam os painéis mais visíveis da nova e da futura agenda de desafios da humanidade. (…)

Partindo da assertiva de Nascimento (2012), a fome transformou-se, a partir de Josué de Castro, numa categoria do pensamento moderno, sendo categoria fundamental nas agendas nacionais e internacionais, a ponto de ser o primeiro Objetivo de Desenvolvimento do Milênio. A declaração do Milênio foi aprovada pelas Nações Unidas em 2000 e foi assinada por 192 países, incluindo o Brasil, que firmaram o pacto de oito macros objetivos a serem atingidos até 2015. O Combate a fome e à pobreza estava listado entre os primeiros. 50 com que este personagem analisa a sociedade; a aposta na ciência como mecanismo para saída para problemática social; e sua preocupação com as estruturas sociais, sobretudo, no Nordeste brasileiro. Outro aspecto no qual acreditamos neste estudo é a possibilidade de abrir precedentes para o campo da Saúde Coletiva estudar biografia de personagens e pensadores que constituem e constituíram esse campo de saber e que utilizaram de espaços políticos para colocar em prática políticas públicas baseadas nas reflexões/conclusões de sua atividade pesquisa. Isso por que como Cientista Social vinculada à linha de Fundamentos sócio-históricos culturais em saúde numa instituição de pesquisa médica e biológica, nos demos conta de que há muitos personagens e pensamentos a serem lidos e/ou revistados no campo das ciências e da saúde no Brasil. Cabe ainda frisar que, boa parte da produção científica que aborda a trajetória de Josué de Castro, ressalta o silêncio acadêmico em torno de sua importância intelectual no Brasil, pontuando que este silêncio é datado, iniciando nos anos 1964 e, em certo sentido, persiste nos dias atuais. Baseado nesta assertiva, que apresentamos como objetivo central problematizar o possível “esquecimento” do legado intelectual de Castro, sendo assim, a nossa pergunta de pesquisa está contida no nosso título: Será Josué de Castro, um autor do legado esquecido? (…) — MERCÊS DE FÁTIMA DOS SANTOS SILVA, JOSUÉ DE CASTRO: UM AUTOR DO LEGADO ESQUECIDO?

Written by

X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store