Ip Man, StarWars… de onde vem todo essa força contracultural das artes marciais?

Image for post
Image for post

Ou da gênese libertária das artes marciais como luta social

Image for post
Image for post

Das Origens Populares Sociais e Libertárias das Artes Marciais

Fabiana, sou fã demais de filmes de artes marciais, Ip Man então… é dos meus favoritos… descontando, é claro, as representações caricatas e ofensivas dos japoneses, é um dos melhores. Mas não vou entrar nesta questão da guerra cultural. Primeiro para não ser chato em absolutamente tudo. E depois para poder ir direto ao tema deste artigo. O caráter libertário das artes marciais.

O que eu curto nestes filmes -especialmente os com um pano de fundo histórico e um mínimo de coerência com a filosofia desta arte é o que você falou e que está bastante presente em Ip Man. A arte marcial não apenas como técnica de defesa pessoal, mas como técnica e filosofia libertária aplicada de luta e resistência popular contra o opressão.

Esse filosófico estético e ativista está nas raízes de quase todas as artes marciais. As artes marciais antes de serem reduzidas a mera recreação, esporte, ou técnica de defesa pessoal, foram em sua esmagadora origem histórica desenvolvidas literalmente como instrumento de autodefesa dos oprimidos contra a agressão e repressão sistemática de senhores da terra ou seus dominadores.

As artes marciais guarda ainda hoje as razões de suas gênese libertária. Tanto em sua filosofia que se confunde com a própria estrategia de resistência, quanto nas táticas e técnicas de defesa e contra-ataque que usam muito da força do agressor contra ele mesmo. É possível ler nos seus movimentos toda essa verdadeira filosofia aplicada como arte de resistência e luta do oprimido conta a força bruta, violenta e supremacista: dos mais poderosos; mais números; e mais bem armados.

As próprias armas da arte marcial refletem sua origem: quando não são as próprias mãos nuas, são os instrumentos de trabalho ou recreação do servo ou escravo usados contra para se defender ou iludibriar o senhor. Do nu-cha-ku do kung fu que servia para bater o arroz, a “dança” do capoeirista… o que me leva admirar profundamente essa arte é o ela tem em sua força original: uma filosofia aplicada como ato e arte de defesa popular na luta social. Uma arte cuja prática requer não apenas manifestação numa profunda fé na força vital de cada pessoa, mas na beleza inerente de todo a dança pela liberdade.

O uso das mãos, dos instrumentos de trabalho, a dança e a fé é na arte marcial a manifestação desta técnica em movimento em todos os sentidos da palavra como chi, filosofia aplicada e luta por uma causa sabidamente legitimamente justa, a defesa do mais fraco desarmado e oprimido contra o opressor.

Tome o capoeirista e seu candomblé ou mestre shaolin e o Tao. Não há ali uma cultura no sentido de um culto, mas da manifestação de uma força estética-artista; O objetivo dos seus movimentos a sua dança não é apenas o enganar o adversário, é dar fluidez a beleza, de onde todo artista tira sua força e nutre a usa obra, não como produto, mas como o próprio resultado do ato artístico inseparável dele.

Acredito que mesmo inconscientemente a arte marcial fascina tanto as pessoas por conta disso. Sua estética está perfeitamente conectada a sua ética. Sua prática quando arte transmite perfeitamente essa significação de uma filosofia em ato cuja beleza é inerente aos propósitos de seus movimentos. E quando pensamos então na arte marcial dentro do seu tempo e espaço histórico, no qual os propósitos destes movimentos não estavam reduzidos somente a libertação interior ou individual como meditação, mas eram um instrumento que fazia do seu praticante não só um monge pregador mas um monge guerreiro, não a serviço militar mas da liberdade e justiça social. E é neste fundo histórico que está o mito original da arte marcial.

Mito presente em Ip Man, mas também na mitologia Jedi de Star Wars. George Lucas estudou Joseph Campell e sabia bem o poder do mito. Sabia o que seus Jedis e a luta contra o Império e portanto sabia e confessou o que estava fazendo quando os vendeu a Disney. Mas eu prometi não vou entrar nesta questão.

Do mito da Arte Marcial na Ética da Ação Social

Image for post
Image for post

Não quero fazer deste artigo um crítica. Quero fazer deste artigo uma proposição, mas sem propor nada. Gostaria simplesmente que ele despertasse nas pessoas a vontade de olhar para arte marcial e sua filosofia como fonte de inspiração para estilo de vida menos ocidental e portanto mais autêntico: Como um estilo de vida mais conexo com a ação social, e sobretudo uma ação social jamais desconecta do próprio estilo de vida.

Quero tentar trazer a origem da artes marciais para fora do arcabouço da cultura de massa. Quero tentar remover a embalagem, todas as camadas de lixo de propaganda estatal e comercial que o embrulham e na verdade encobrem não apenas os propósitos originais dessa arte em ato, mas da artes e ativismos sociais integrados apenas como demagogia a vida de seus pregadores contra-praticantes.

Quero portanto apontar para as artes marciais e a toda filosofia dentro de sua raiz histórica para apontar o quão distante estamos do Tao da Ação Social, e o quanto precisamos de uma ética do ativismo social inspirada na filosofia da arte marcial como luta social — até para nos livramos desta demagogia acadêmica e política como se fosse a ação, mas pregação do próprio culto-show de imobilização das massas.

A pregação politico-econômica do culto estatal disfarçado de civilizatório não é apenas um discurso hipócrita de servilidade destituído de qualquer coerência; não é um discurso destituído da prática legitimadora, é um discurso imposto e impostor, que serve literalmente ao status quo tanto como instrumento de promessa imobilizadora quanto como farsa substituta a necessária e urgente ação social.

A demagogia a falsificação ideológica é uma estratégia contra-ativista e anti-libertário de desconstrução das utopias. Porém a apologia da demagogia, da pregação sem nenhum compromisso com a prática necessária, e pior da submissão a realidade imposta não é apenas servil mas opressora e repressiva.

É um instrumento não apenas de dominação disfarçado de servilidade, mas uma neurose que quando internalizada como trauma da banalização de um cotidiano distópico, ou seja como a aceitação da realidade e demagogia como a naturalidade e a inovação, encarcera os dominados coletivamente num ciclo perpetuo de auto-ilusão e faz do próprio oprimido seu primeiro repressor.

Assim como a arte marcial, a meditação, a religião, a filosofia ou qualquer conhecimento ou ciência destituídos de sua razão natural e social não liberta, mas aliena. Todo ativismo político e econômico sem a práxis pessoal e social não é apenas artificial é anti-social e anti-natural. É representação não como arte mas como farsa, superposição ideológica da realidade.

As atividades politicas, econômicas, culturais de fundamento religioso filosófico ou cientifico destituída de todo o saber sensível-significativo da práxis criativa-artística desintegrada da naturalidade e socialidade é desumanizante e desnaturadora.

A separação do ideal e o material a abstração, da tese e pratica própria amputação do corpo e da alma, e suas sínteses completamente antinaturais e demagógicas a sentença de morte da natureza e sua sacralidade. Essa matemática cartesiana é a lógica da morte e tem como produto a extinção em massa. Sua apologia redunda nessa cultura representada arquetipicamente pelo mito contemporâneo do apocalipse zumbis de canibais ou robôs.

O mito contemporâneo não é o Jedi, esse infelizmente é a ameaça fantasma. O mito contemporâneo que encarna o terror da nossa inconsciência coletivo é o do homem-robô, do homem sem alma lobo do homem e do mundo. Do homem devorador da prole e do proletariado, adorador de deuses mortos, insandecido em cultos e rituais materialista e matercidas da sacralidade da natureza livre, e da liberdade como ordem natural.

O demagogo, o populista e o autoritário são três personas de um mesma figura encarna em diferentes atores dessa farsa, são as máscaras do homem desconectado insensível e desinteligente da rede solidaria de todos os semelhantes e diversos, de toda a humanidade e natureza. E que todos nós temos dentro de nós, não apenas como superegos, mas como vontades egocêntricas prontas a fazer da nosso próprio espírito libertário a primeira vítima dessa obsessão encarnada como vontade de poder.

A arte o Esporte

Image for post
Image for post

Como sei disso se nunca pratiquei as artes marciais? Sei disso só praticando o ativismo social de base?

Óbvio que quem quer lutar contra os senhores feudais contemporâneos precisa saber sobre tudo isso ou eles vão acabar com você. Você pode até não saber que sabe, nem saber dar o salto do capoeiristas e derrubar o capataz do cavalo, mas saltar de banda, e fingir que está dançando a música deles, enquanto luta, isso é básico.

Mas não. Não foi no ativismo social que me toquei que a filosofia e a sociedade ocidental não iriam suprir minha carência de reintegração prática e estética e social como forma de vida. Minha inspiração na arte marcial é posterior, porque o meu primeiro Tao para a ação social, se quiser acreditar, foi o basquete.

Não apenas porque tive como professor, e exemplo, uma figura desconhecida do grande público, mas lendária entre quem joga o Basquete no Brasil: Vicente França. Um paragrafo não faz jus a sua história e exemplo, merecia ele mesmo uma artigo. Mas acho que tem gente que conhece bem melhor sua história do que eu. Por isso mesmo basicamente por aqui dou meu testemunho do que ele foi e representou para mim. O negão era foda. Mesmo depois de velho jogava anos-luz que a maioria da molecada, e não estou romantizando, até porque a gente era muito ruim, e manteve praticamente sozinho uma escola de basquetebol e um time numa das cidades mais ricas do Brasil sem discriminar ninguém. E isso quantas e quantas vezes reciclando latinhas.

Mas não foi só ele. Tanto quanto, ou muito mais reveladora foi para mim a experiencia do basquete jogadas nas ruas nas quadras suburbanas arrebentadas e abandonadas das periferias do ABC paulista. Sem juiz, sem premio, nem platéia. Só pelo prazer da disputa entre amigos, ou desconhecidos. Ou quantas vezes sozinho, Só eu a bola e a cesta completamente torta.

Nesta brincadeira boba de passar uma bola por um cesto arrebentei com meu corpo. Uma idiotice, não nego. E para quê? Para quê dar aquela finta a mais? Para bloquear um cara com o dobro do seu tamanho, quando nem salário recebia pra isso?

Ora, a resposta como eu disse é a mesma que o praticante ainda encontra hoje na arte marcial.

Claro que falta o aspecto social, e como a própria arte marcial o basquete como todo esporte de massa já está devidamente incorporado a culturas de dominação, ou no caso nem nasceu fora dele. Desde que o professor canadense colocou um cesto até as ruas do Harlem ou periferias do ABC o caminho foi oposto. Mas a falta de uma origem sociolibertária não retirou do Basquete seu potencial libertador do ponto de vista pessoal, nem impediu que ele fosse apropriado como elemento da contra-cultura tanto negra quanto outsider.

Do mesmo modo a própria redução da arte marcial a atividade estética esportiva ou meditativa também não retirou dela todo seu potencial de desenvolvimento humano. Embora a amputação social seja evidente mesmo fora da evidente perversão do espetáculo imbecilizante da arte como a reprodução mais evidente do circo de gladiadores moderno.

As artes marciais quando não estão a serviço militar, estão assim como o esporte e até mesmo a arte, cada dia mais próximos do circo romano e seus gladiadores. E os gladiadores modernos, sejam eles esportistas, atores, lutadores, todos os praticantes de uma arte hoje são em si novamente o espetáculo, porque todo império é no fundo um Big-Brother, onde os alienados consomem não a obra e sua significação, mas a emoção e o própria dor e alegria daquele que produz sentimentos através do seu movimento estético seja como arte, seja enquanto sua própria vida artística.

As obras de Van Gogh decoram museus ou banheiros de gente rica, enquanto o povo brutalizado e estupidificado consome sua pobreza e orelhas cortadas como fofoca e nem revista caras, mas de “noticias populares”.

Mas não é apenas uma questão do circo comercial, ou do empobrecimento da arte ou esporte transformados a espetáculo da cultura de violência. É a redução do espectador a consumidor sem nenhum conhecimento de causa não apenas daquilo que assiste sem conhecer como praticante amador, mas daquilo que pensa conhecer intermediado por comentaristas da vida que desconhecem ainda mais a pratica do que eles.

As artes marciais hoje são apenas esporte, ou as vezes até menos que isso. Não são mais como nas cidades da Grécia, de Sparta a Atenas, a preparação constante para a luta como confraternização. É obvio que eu estou romantizando. Mas em Atenas até a arte da palavra, era entendida como o caminho da “luta” democrática que devia ser aprimorado nos campeonatos de retórica tão ou mais espetaculares que as lutas livres.

Logo, não é uma questão da mera experimentação. O treino, a prática, e a superação, não mechem apenas com a plasticidade do corpo, ou das conexões neurais, eles mechem com a plasticidade da espírito, e realimentam a força de vontade. O próprio ambiente daqueles que se dedicam a prática de uma arte é em si transformador. E aquele que não se dispõe ao esforço trabalho braçal mesmo do trabalho intelectual que envolve a conquista desse autodesenvolvimento não conseguem compreendê-lo fora da superficialidade destituída de sensibilidade e inteligencia emotiva dos meros observadores da vida.

A arte marcial é meditação, é esporte, é filosofia aplicada. E quando é tudo isso ao mesmo tempo, se concretiza como autoconhecimento e libertação pessoal. Mas inspirada na arte marcial, toda a atividade e ativismo estético-artístico e social reintegrados, todo ato enquanto luta dentro de uma ética auto-regrada por uma filosofia aplicada com uma causa e razão social é mais do que libertação subjetiva e pessoal, é libertação objetiva, material e universal. É a arte marcial em sua gênese, a arte da defesa e luta social como resistência contra-violenta ao poder, é o movimento libertário como tekne de conscientização emancipação e autodefesa dos violentados contra os violentadores. E nisto só encontra paralelo como processo de desenvolvimento humano e aprendizado nas pedagogias anarquistas e libertárias.

O ativismo social precisa se espelhar na arte marcial em sua gênese de movimento de defesa e resistência social, filosofia em ato como fé no sentido oriental da nossa capacidade de autocontrole do fluxo de nossa força interna como vontade. Neste sentido a ação social não ganha apenas uma dimensão ética mas técnica no sentido mais profundo da palavra o artístico. Pois sem deixar de ser transcende o ato lúdico recreativo se faz movimento social, popular e contracultural com força de resistência até mesmo política e econômica .

A (contra)cultura POP

Image for post
Image for post

Uma arte marcial pode perder seu poder de resistência social como no caso do Tai-Chi, mas não perde sua capacidade de libertação meditativa do praticante. Nem sua capacidade de conscientização do praticante não alienado.

Se nas sociedades modernas de consumo, o que se consome não são as obras, mas as pessoas, como não apenas como mão-de-obra, mas como obra de si, os artistas, esportistas, lutadores, o líder empresarial ou político são só o arquétipo do que está venda no mundo contemporâneo. E não é o seu trabalho. É você.

O que se consome são as pessoas e não suas obras. E o artista e o esportista, o campeão quando não é um pelego governamental, ou um vendedor de tênis e perfume, quando ele compreende a sua identidade e significação pública ele pode representar não como farsa mas por necessidade a figura do heroi. Mesmo quando sua arte está reduzida a comercialização e reprodução dos status quo, ele pode até mesmo como ato de revolta e independência ser revolucionário e libertador de si mesmo e da criação dessa condição escrava de si ou até mesmo do seu trabalho como arte.

Talvez não seja por acaso que o mais importante atleta de todos os tempos tenha vindo do boxe.

Se obviamente a luta é entre os esportes aquele que obviamente mais se aproxima das artes marciais ele também é pelo mesmo motivo obvio o que são as mais facilmente se reduz a farsa e apologia a violência. Não é preciso nem falar o quanto a industria do boxe é parecida com a industria política. Estudar a historia do boxe é como estudar a sociedade do espetáculo seu racismo perversidade apologia a violência. É como estudar a história do estadismo, e cruzar então as duas histórias é entender o quão os monopólios da violência carecem destas sociedades do espetáculo da violência para brutalizar as massas.

Não é de se surpreender portanto que o atleta do século não seja Pelé, Maradona, nem Jordan? Mas Muhammad Ali. Ele não foi nenhum Spartacus dos tempos modernos mas compreendeu e enfrentou sua condição humana e social como poucos. Entendeu a força cultural não apenas da sua arte enquanto esporte, mas enquanto farsa e show- construído as custas do seu sangue bem real. E fez desta consciência sobre ambas a força da sua arte marcial com a qual lutou com tanta maestria também fora dos ringues.

Jesse Owens também colocou em xeque o supremacismo ariano para morrer lavando banheiro na America branca e racista. Bruce Lee, o discípulo de IP MAN, (outro que merecia artigo próprio) se tornou não apenas uma estrela não-branca, mas asiática nesta mesma America racista, mas mais do isso se fez um mito numa lugar onde gente de olho puxado (amarela ou vermelha) é índio ou não é gente e serve apenas vilão e coadjuvante para ser caçado como búfalos por cawboys a lá John Wayne. Mas Nenhum atleta, de longe, participou das lutas e transformou seu tempo como o rapaz que trocou de fé e de nome e colocou em xeque uma guerra por objeção de consciência. Um jovem andava com Malcolm X e Sam Cooke, e não sei eles ou outro ícone pop de outra arte mas tão revolucionário quanto ele John Lennon.

Lennon e Ali não forma apenas figuras pops que cruzaram os limites preestabelecidos os arcabouços que reduziam sua arte e personas a meras propriedades intelectuais corporativas. Eles devolveram a si mesmo e sua arte a consciência libertário e social que separa os parnasianos e seus vasos chineses dos escritos simbolistas de um Augusto dos Anjos. E poque não? destes filmes de artes marciais.

Sim a arte marcial é para mim a imagem histórica do ativismo libertária, da coerência da filosofia aplicada não apenas como amor ao conhecimento mas fé na necessidade da preservação da liberdade imprescindível a sua criação e reprodução e a fonte de inspiração tático e estratégias resistências libertária do seculo XXI.

Mas afinal de contas que hábito então faz o monge? O que ele veste ou que ele prática? Pois é nisto mesmo, nesta metáfora (que não é metáfora) que se resume toda a ética do ativismo social: O hábito não é a veste, nem a prática nem sequer a pratica que se prega nem a pregação que se pratica. O habito é a veste que se prática. E o ativismo é o ato que professa e a profissão da fé em ato.

Conclusão ou de como o monge faz seu hábito

Image for post
Image for post

Para que falar tanto se poderia resumir tudo dizer apenas com o provérbio: o hábito faz o monge. Simples porque não poderia resumir nada disso assim, porque o hábito não faz o monge. É o verdadeiro monge que faz seu hábito.

Pois assim como a prática que praticamos mas não vestimos em publico não é a virtude, mas o vício. A prática que vestimos em público mas não praticamos é só o disfarce… e de todos esses nossos vícios e desejos inconfessos e os outros veem em nós mas não falam, mais por medo de revelar as mesmas fantasias do que por pena da nossa condição patética.

Como assim? O hábito verdadeiro não precisa ser vestido e praticado? O ativismo social não é então o hábito que deve se praticar quando se veste, e a ideal que deve se vestir enquanto prática? Mais do que isso. O hábito não se veste nem se prática ele é a vestimenta da prática. Não é a uma prática com a qual nos vestimos, é a prática como nossa investidura, nossa armadura invisível.

O hábito não faz o monge, o verdadeiro monge, o guerreiro, faz da sua prática sua arma, armadura e vestimenta. Não é meramente uma questão de por praticar o que prega, ou de pregar o que se prática, mas de saber que o que separa o demagogo do ativista não é meramente a coerência entre o que se faz e fala, mas o saber que mesmo tudo o que se faz é sempre nada perto do que é preciso ser feito.

PS:

Sei que muita gente pode ler isso que escrevi como se fosse um autoelogio e critica a todos os demais defensores da causa social que defendo. Mas não, estou fazendo sim uma autocritica. Não me sinto nenhum mestre ou autoridade da atividade que me dedico. Tenho obviamente muito orgulho de tudo que fiz nestes quase 10 anos de ativismo, foi é o melhor que posso. Mas nada disso me impede de ter vergonha indignação e consciência de ter conseguir fazer tão pouco.

Não peço portanto que as pessoas me elogiem nem se indignem pelo tão pouco que eu faço. Nem que elogiem ou se indignem com aqueles que só pregam e não fazem nada ou menos ainda. Peço que as pessoas reflitam da razão da minha indignação e perplexidade com o fato de nós que tão pouco ou nada fazemos podermos ainda sim ser tomados por autoridade sobre uma causa social tão importante e que precisa mais do que nunca muito mais do que fazemos?

Como pode o ativismo social e própria a renda básica universal serem artes tão pouco praticadas e desenvolvidas quando precisamos tão desesperadamente delas?

Mas isso é uma outra história.

Outras Leituras:

http://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/331195/complemento_1.htm?sequence=2

Written by

X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store