Intervenção militar no Rio de Janeiro

E a greve de fome de “um tal” de “Manoel da Conceição Santos”

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Ou da luta de classes trabalhando em favor do Estado

Tenho me cobrado para escrever sobre a intervenção no Rio. Aliás eu não, minha consciência. Eu mesmo, sem ela, só no querer, quero mesmo como bom brasileiro é que o mundo se acabe em barranco para eu morrer encostado. Suponho que há bem mais gente, também acometido deste tipo bem especifico de saco cheio, onde até o som das sua voz mesmo que seja só na sua cabeça reclamando sem poder fazer nada já te irrita. De saco-cheio portanto não só dos problemas, mas já até da impotência perante os problemas, que se não explodem em revolta ficam assim. Meio sem sentido nem razão de ser.

Mas voltemos ao papo imaginário com a dona consciência. Virá e mexe ela repete para mim: qual é o problema? proteste! denuncie! não te custa nada, toma intento…” Mas eu não cedo, e retruco: “sei que não custa nada, mas também de que adianta? Tanto quanto.” Jogo empatado, a inércia vence.

Foi então tive eu tive a seguinte ideia: eu não, ela conspirando com a reflexão: “tá bom, então, não escreve nada… copia e cola alguma coisa que você já escreveu sobre o assunto e pronto… Sim eu sei o que você deve estar pensando, de que adianta? Também nada…. não serve nem de descargo da dona consciência. Mas essa era a armadilha. Cá estou eu agora a escrever sobre o artigo e inevitavelmente sobre o que ele trata a intervenção.

O primeiro escrito é de Setembro de 2015. E fiz questão de postá-lo não porque ele seja insuportavelmente atual, mas insuportavelmente inútil justamente por ter se tornado isso, um retrato dessa atualidade que se antes poderia ser mudada, hoje não mais. Já o escrito que segue é mais uma critica tanto da inutilidade desse atualidade desse artigo já ultrapassado, quanto da intervenção militar que por coincidência merece para começar a mesma crítica: a atualidade do que não fomos capazes de ultrapassar.

Perguntei então para Dona consciência se ela estava satisfeita? Ou pelo menos aliviada? Ela riu… não estava e sabia que nem eu. Fora do seu tempo e lugar aquele texto podia até falar de uma realidade mais atual agora, do que quando foi escrito, mas por isso mesmo já não era mais um protesto, não era mais uma denuncia… não era sequer era panfletário; era, no máximo, uma coleção de previsões sobre coisas que já aconteceram. Tão inúteis quanto um bilhete de loteria com os números certos… do sorteio passado. Impaciente perguntei para ela, meu eu consciente, “o que você quer eu faça? O que sobrou para denunciar? O que há para mostrar que eles não tenham tatuado na própria testa?” “Quem é que precisa que eu legende ou desenhe? Quem é precisa de explicação para entender quem é quem, o que eles fizeram? o estão fazendo? e até mesmo o que vão fazer?”

Minha consciência, não se demoveu com meus argumentos: “ Se virá, malandro, que o futuro é seu.

Previsões

O que é mais insuportável a respeito da consciência, é que por definição ela sempre está com a razão. Fácil, quando se é feita de.

O escrito acima não foi o primeiro escrito em que falei sobre isso, e nem foi o último… escrevi vários na mesmo linha… no fundo a repetição de um mantra de previsões sobre previsões… Algo que até fazia sentido, tinha um propósito, naquele outro momento. Agora não mais. Ao menos não para mim. No atual momento essas coisas soavam mais como aquela ladainha aborrecida do “eu não disse?”. Algo que não é só patético, mas merece como resposta um “e daí? que bom para você…” isso para não dizer “dane-se seu narcista e egoísta de merda…” Perdão, minha consciência, é impoliticamente correta. Só para constar é minha hipocrisia agora que está falando. Mentira sou eu mesmo, o sarcasmo. Cadê meu remédio…

Enfim, literalmente voltando… não há nada mais chato e sobretudo inútil do que ler e escrever sobre previsões que se já foram. Principalmente previsões sobre coisas ruins que se concretizaram. Previsões muito ruins diga-se de passagem. Porque previsão boa não é só aquela que diz o que vai acontecer, é a que ajuda a evitar. Previsão não são boas porque não se concretizam. Previsões boas são aquelas que conseguem alterar o curso do que predizem. Previsões boas funcionam como avisos e são avisos que funcionam… e evidente não é esse o caso. É o contrário. Não me diz absolutamente mais nada, nada de novo. Fora é claro confirmar empiricamente isso mesmo: o completo fracasso ou impotência deste tipo predição em transformar a realidade. Com certeza melhor seria, se eu tivesse publicado uma receita de bolo.

Porém não confunda essa desilusão com amargura. Desilusão é realidade. É literalmente tomar consciência do real com a profundidade e concretude que só o senso de quem vivência e logo sente pode dar. Não, não culpo quem perde sua revolta em amargura, ao afoga sua desilusão numa histérica ansiedade por conformação a normalidade. Mas como se tornar amargo não muda em nada os fatos, mas muda e muito o gosto e apetite pelas coisas, prefiro me voltar e re-voltar para coisas que que tenho acredito que ainda tem algum propósito, sobre coisas que tenho fé que possam significar e mudar alguma coisa.

Esse é o maior ganho, e a ao mesmo tempo perda, de ficar velho. A bem dita experiência. Ela aumenta a nossa capacidade de previsão, porém na exata medida que mata a maior força da nossa juventude, a força que tanto contribui para nossa para inovação: a ingenuidade. É a ingenuidade que nos permite dar instantaneamente o beneficio da dúvida e nos colocar em risco sem nem sequer saber no que (ou com quem) estamos nos metendo… é a inocência que longe de ser a ignorância, permite o aprender e saber, é o estado natural a disposição contraposta a essa predisposição para pressupor e crer que o há de vir a ser, há de ser sempre como era, porque sempre foi assim. É preciso não saber que não é possível para fazer o que os outros acham impossível. Mais do que nunca é preciso hoje inocência, e não experiência. Gente com disposição não para prever e antever as realidades que virão, mas se levantar para construir o que habito e costume nos diz ser impossível, ou nos diz que é só utopia. Eis o problema eterno do brasil com seu futuro: há um abismo infinito que os separa Brasil e futuro, o abismo do que queremos fazer e o que precisamos fazer, do que sabemos que precisa ser feito, e do que fingimos não saber. Há um vácuo que continuamos a preencher comodamente com mais vácuo; comodamente, pagando para ver, mesmo sabendo que não temos mais o beneficio nem da dúvida, nem da inocência, para no dia da cobrança dizer que não sabíamos quem é que no Brasil sempre paga todos as contas, as vezes com até com a vida, e quem é se sempre leva tudo sem pagar por nada, nem pelos privilégios, nem pelos crimes.

Felizmente a velhice especialmente a da alma, compensa a perda da inocência, com outro dom: a teimosia. A juventude precisa se mobilizar para resistir o velho resiste pura e simplesmente por hábito, por teimosia, não raro, burra. Assim, se minha experiência me obriga a aconselhar quem eu gosto a publicar uma receita de bolo ou como diria o compositor Vandré, pelo menos pegar sua viola e vá cantar em outro lugar. Assado, minha teimosia insiste em continuar a fazer o que minha consciência manda: teimar… mesmo sabendo (por experiência) que teimar será, mais cedo do que imagina, também uma questão de segurança nacional.

Então já entrando no assunto intervenções, fica a dica para quem nunca viu a verdadeira face do estado democrático de direito, nem seus atores, sem a maquiagem do “social”, aliás não viu a cara e nem quer encarar: quanto mais um estado se torna autoritário, mais o exercício das coisas, até as mais simples viram uma luta, os direitos mais básicos e fundamentais, até mesmo como falar o que pensa, o simples exercício da cidadania fica cada vez mais parecido com o ativismo, seus riscos e demandas. Viver é suspeito. Desobedecer é subversivo. Tudo carecem de autorização e demandam explicação. Logo, se não quer encarar, nem não olhe nos olhos, não levante, baixe a cabeça, diga sim senhor, não senhor e não insista, renda-se. Ou vai teimar?

Vai? Ok, então por sua conta e risco, se vai resistir não se esqueça da regra número 1 de sobrevivência nessa situação: não basta ficar em quem ameaça atirar na sua cara se você não obedecer, esse que te toma por inimigo é pelo menos honesto, declara guerra. Diz o que quer é para que veio. Preciso é também ficar ainda mais atento com quem não diz o que quer nem a que veio, mas só o que você quer ouvir. Não se engane esse aí também vai atirar em você só que pelas costas. Discurso, ideologia e desculpa é igual bunda todo mundo tem uma. O negócio quando o cidadão se torna um ativista, ou a cidadania passa a ser considerado ativismo, é verificar o que realmente faz quem está falando, a começar agora mesmo por esse cuzão que vos fala.

Dito isso, vamos ao assunto propriamente dito a intervenção militar.

Os alienistas e o alienismo no Brasil

Intervenção. O problema brasileiro é mesmo caso de intervenção, mas não militar e sim psiquiátrica, logo não nas favelas, mas nos palácios. Um caso de intervenção nos interventores. Um problema muito mais antigo que a invenção de Brasilia, do Brasil ou da brasilidade. Um problema de que vai da das suas fundações constitucionais até as suas estruturas sociais e institucionais. Um problema que Machado de Assis já diagnosticara com muito mais propriedade do que qualquer outro, e isto quando o Brasil ainda era oficialmente um império e a sua corte ainda vivia só no Rio no conto O Alienista: Quem é que vai alienar o alienista? Quem é que vai intervir no interventor? E não estou falando do general, mas do seu chefe ao menos em tese o comandante-em-chefe, o alienista-mor, o presidente. Uma persona que oficialmente chefia portanto essa operação enquanto também é oficialmente suspeito de outras operações, estas criminosas, que estão sob a investigação da própria polícia federal.

Perdão, deixa eu ver se entendi….

Temos então um presidente, suspeito de ser dono da boca do Porto de Santos, traficante de cargos e viciado em poder, investigado pela própria polícia federal — que o diga o seu comissário de policia de estimação adestrado por Sarney, o tal Segóvia (a primeira pessoa me fez entender o que seria o “cocô do cavalo do bandido)- essa é a figura institucional federal, que o interventor militar vai ter que se reportar sobre o crime organizado no Rio? Se perguntar não for crime ou como disse o próprio do Ministro do Presidente para a Justiça, se as dúvida razoável ainda não for crime quer fazer uma pergunta? O interventor vai prestar contas com ou sem Moreira Franco presente, com ou sem o gato angora do lado do chefe?

De boa, quem é o fornecedor dessa droga do poder estragado é esse que eles estão consumindo lá na “high society” de Brasilia? Isso não é entorpecente é alucinógeno. O ópio deles é poder, e qual é o nosso?

Para o mundo eu quero descer. Ficamos loucos. Estamos mesmos acreditando que o médico vai curar a si mesmo? Quando ele nem médico é, na verdade nem sequer é um charlatão. Ele não é a cura ele é a doença. Pior, ele não é nem doença, ele é a sua causa. É o parasita que causa esse e outros feridas no Brasil. Até no nome popular do parasita e “cientifico” da doença entrega: vampirismo e fisiologismo. Ele(s) é um dos parasitas oportunistas, que infestam e debilitam e o corpo provocando a doença e se aproveitam dos padecem dela.

Em outras palavras? É sério? Tem gente acreditando nisso? Estamos mesmo a esperar que o câncer em metástase em Brasilia vai curar o câncer no Rio? Ficamos loucos. Estamos a literalmente a aplaudir que traficantes e viciados em poder completamente cheirados em Brasilia acabem com o crime organizado no Rio? Até onde sei organização criminosa, não acaba com crime organizado, ela toma território da facção adversária. É esse o papel que as forças armadas vão se prestar? Ou será que alguém em estado de lucidez acredita que os chefes das organizações criminosas mais poderosas que controlam o pais estão mesmo lá escondidas em morro? Ah, vai…

Não, não estamos loucos, porque loucos já eramos. Estamos alucinados. Pedir e esperar que uma intervenção militar funcione como se fosse uma pilula mágica já é uma loucura. Acreditar que organizações criminosos com todo tipo de imunidade e prerrogativa, até mesmo de decretar até legislar em causa própria, legalizando seus crimes, e criminalizando direitos e até deveres civis. Isso não já alucinação. Esquizofrenia em último estagio. Falta só gente começar a pular de janela…

Nosso problema já é mais não ideológico é psiquiátrico. É caso mesmo de intervenção… nos interventores. Não sou idiota, ok não tenho como negar minha condição sou, mas não consigo comprar essa ideia. E não consigo imaginar que os militares são tão vacas fardadas para comprar também. Aliás comprar essa história é também de suposição de idiotia, que requer um grau de imbecilização grave. É obvio que este pedido não veio do governador do Rio, mas foi imposto pelo governo federal. Assim como é obvio que a sugestão não veio nem dos parasitas fisiologistas no poder, mas de setores militares que já tomaram e continuam a tomar o poder em “progressão sucessiva” e de fato não de fora, mas de dentro do palácio. Colocaram uma cenoura atrás e outra na frente, do velho bandido mimado e entorpecido como um balão pelo poder.

Etchegoyen, a eminência militar cada vez menos parda, inclusive já passou até recibo, quando afirmou que não vai ter mais intervenção em outros Estados. Governador pedir; presidente decretar; e forças armadas cumprir é para trouxa ver, a ordem das aparências, a ordem de fato, dos fatores e das ordens agora é justamente oposta. Logo a pergunta é para quem já governa de fato o Brasil: vocês rolam na bosta, ou só tem um estomago estratégico extraordinário para engolir a nojeira? Estomago e prepotência; porque se há uma coisa que a história do estadismo (e dos estadistas) ensina- a nossa mesmo, de Figueiredo a Dilma- é que quem vive entre escorpiões e porcos inevitavelmente ou termina picado ou chafurdando na mesma lama, e não raro fazendo e levando as duas coisas. Isso é claro pressupondo que vocês já não sejam nem porcos nem escorpiões.

Ou o quê? Ou melhor onde? Vocês acham que Maluf, Sarney, vieram de onde? Do M-26? MR-8? Da ALN, Da VPR?

Ver a Arena disfarçada de MDB que ela devorou e encarnou, de volta a tutela da ditadura, é assistir a “democracia” fisiologista voltar a seu útero, os filhotes voltar ao abrigo das asas de seus progenitores. Tutores sempre prontos a cuidar da sua prole como um patriarca de uma grande corporação o faz com seus herdeiros… com todo o zelo necessário para proteger a si e sua corporação.

E essa é a maior ingenuidade dos procuradores e juízes, do tenentismo togado. Justiça e foro igual para todos aos ouvidos de generais mesmo os honestos é pior do que corrupção, é subversão. O que um civil chama de democracia, justiça e igualdade perante a lei, um militar chama de anarquia, desacato a autoridade e quebra da ordem hierárquica. Mesmos os que querem o fim da corrupção, não vão permitir que subalternos julguem superiores, que pessoas de diferentes categorias sejam julgadas como se fossem iguais, iguais em autoridade. Querer submeter a todos as mesmas leis e regras, aos mesmos tribunais juízos, juízes e tribunais, é submeter autoridades a mesma jurisdição da população quando não a jurisdição da própria população. Uma aberração! Jamais! Um superior só pode julgados por seus pares, semelhantes ou iguais. Nunca por inferiores e subordinados. E na hierarquia militar não há categoria moralmente inferior a de um civil, porque nem militar ele é. Se o subalterno deve obedecer porque precisa ser liderado pelos seus superiores porque eles são mais capazes, um individuo que não é capaz de cuidar de si e os seus, é o incapaz completo, carente de proteção, que deve ser tutelado. Um civil a merce de forças armadas… qual? é justamente o objeto da disputa nas guerras por tal prerrogativa sobre e território e seus moradores.

Esse tipo de igualdade ou emancipação é uma atentado ao caráter sagrado dos cargos e instituições, da ordem que eles idolatram e se enxergam como os guardiões. Um presidente civil corrupto e criminoso pode até ser julgado por seus pares, e até deposto por seus superiores morais os militares, o inverso jamais, nunca um militar de alta patente poderá ser julgado nos mesmos tribunais e instancias inferiores da sociedade. Isso seria revolução, quebra da ordem constituída. E eles estão lá para manter essa ordem hierárquica supraconstitucional. O espirito de corpo como encarnação do próprio Estado, e entendido como se fosse o espirito da própria nação, não como sociedade entre pessoas iguais perante a lei, mas como Estado colocando através da lei e da ordem cada pessoa em seu devido lugar. Um lugar onde a igualdade jurídica, ou a cidadania plena jamais terão lugar.

É uma questão de mentalidade que por sinal não só dos militares da própria população civil. De modo não só as figuras que se pensam o que seria do mundo e deles sem subordinados, mas subordinados a se perguntar o que fariam da sua vida sem os lideres a dizer o que fazer dela. É por isso que a pessoa que empunha um cetro coroa faixa não é intocável, enquanto está investida deles.

Essa é ingenuidade do tenentismo judiciário. Estão literalmente dando remédio e vacina para um problema que não é infeccioso, mas genético, um problema de constituição histórica do Brasil. Eles acham que estão lutando só contra parasitas, vírus dentro do corpo, higienizando-o. Eles estão lutando sem saber como um corpo estranho dentro do próprio corpo e serão combatidos por sua lógica de imunidades o sistema imunológico. De modo que ou serão eliminados ou servirão a formação do exército de anti-corpos contra o que eles um dia foram, exatamente como o movimento tenentista que terminou como quadro tanto da “era” (ditadura) Vargas quanto do “regime” (ditadura) militar de 64.

Porque isso longe de ser uma guerra de classes é de setores e categorias, Projetos de poder, ou de nação, mas de preservação de privilégios adquiridos como direitos sobre os povos e nações, do individuo e privado até o coletivo e comum, Uma disputa que longe de ser nacional é global.

A guerra de categorias como a nova guerra de classes

A intervenção militar no Rio de Janeiro é apenas mais um capítulo desta tragédia anunciada, mais um capitulo que prenuncia onde exatamente essa novela que não é só sobre o Rio mas sobre o Brasil e está longe de acabar vai terminar e blá, blá blá…. Muito embora seja uma tragédia real, e não uma novela, nem um carnaval, não deixam de ser encaradas como tal não só pelo respeitável público, mas até mesmo pelo público que nem sequer respeitável aos olhos dos protagonistas desse teatro que virou de operações, é.

Exatamente como uma novela, o grande público mesmo sabendo que a trama e o desfecho nunca mudam, porque os autores, produtores e protagonistas são sempre os mesmos, ainda sim preferindo permanecer assistindo, ou mais precisamente só assistindo, embasbacado, dizendo para si mesmo: “Não, não é possível será?” Tentando adivinhar qual será o próximo capítulo. O brasileiro é e quer ser um tele-espectador da sua vida transformada e reduzida em imagem. Se contenta em indignar e vibrar com as reviravoltas da trama, torcendo por seus mocinhos ou bandidos. Contar o desfecho dessas tramas ou pior como são feitas as salsichas para esses adultos causa ainda mais revolta que dizer que Papai Noel não existe. Estraga a magia dessa fábrica de ilusões da vida real. A sociedade é um show e o show não pode parar.

Dizem que tamanho caos não se improvisa, pois eu digo nem tamanho caos nem tamanha incompetência. Não se consegue sem muita diligência e dedicação ser tão incompetência. Até atirando arbitrária e aleatoriamente você consegue acertar de vez em quando. Claro que para errar muito basta não ter boa mira, mas para errar sempre não importa o quão boa ou ruim é a mira, porém é absolutamente necessário sempre mirar no lugar errado. De modo que supor portanto que o que está acontecendo no Rio, é uma falha de quem o governo, supor estupidez em quem banca o estupido, é deixar-se cair num conto, é cair no golpe.

Sabemos onde isso vai dar. Não porque pressupomos de forma pessimista que sempre foi assim então assim sempre será. Mas principalmente porque se as mesmas forças forem aplicadas sobre as mesmas situações comandadas pelos mesmos interesses, sem nenhuma variante, somente um erro de cálculo pode mudar o resultado. E se há uma coisa que resiste, e insiste em persistir ao longo de toda história do brasil são as mesmas forças a defender os seus interesses que nunca forma o de nação, mas de classe.

E quando digo classes não estou me refiro a divisão marxistas de proprietários e proletariados, mas as subdivisões mais complexas que compõe atualmente os diversos setores e categorias profissionais que compõem as classes sociais e estatais. Até porque a divisão entre Estado e Sociedade, embora permaneça como a base fundamental do sistema politico-econômico, não se dá nem se encaixa mais dentro dessas velhas caixas. As disputa por poder está mais difusa e compartimentada, as forças e interesses estão mais divididos em setores e categorias profissionais que não podem mais ser compreendidos em generalizações do tipo, povo, trabalhadores, proprietários, elites ou governantes. Nem generalização de classe, nem muito menos abstrações representativas dessas classificações, que se constituem não só de fato como classes distintas e concorrentes e até contrapostas em interesses aqueles que supostamente representam, como se misturam e confundem de fato com aquilo que também em tese representa ou deveria ser seu oposto ou oposição.

As ideias de povo, ou mesmo como classe trabalhadora, caras as ideologias de esquerdas assim como as de livre mercado, como produtores não se agrupam mais dentro das ideologias, nem os diferentes setores compõe nada que se assemelhe a uma classe, Assim como a própria ideia de pátria, nação ou instituições de estado também não. A institucionalização das representação e consequente especialização e profissionalização dos próprios cargos e funções de representação, transformou as funções de representação em verdadeiras categorias profissionais, e dada a natureza do poder que usufruem em verdadeiras classes não-sociais, mas estatais e paraestatais, ou mais precisamente novas castas na medida que só se constituem como uma classe unida em defesa dos seus privilégios em oposição ao povo e a sociedade, que assim como eles também não se definem por comunhão de nada, mas por oposição ou convergência de interesses particulares ou coletivos, porém nunca fundamentais nem comuns. Tais categorias não se constituem portanto sequer classes, quanto mais sociedades ou estados. Mas forças ora aliadas ora inimigas a disputar o controle e ocupação dessas classes, sociedades e estados pela exclusão dos projetos de poder concorrentes e não pela união em favor de qualquer tipo interesse ou bem comum. Sua razão seja a razão social ou razão de estado não passa de interesses particulares da sua classe corporativizados dentro do Estado e da sociedade. De modo que ditas classes ou mesmo nações são mais a trégua entre tribos a disputar o mesmo espaço no mesmo território do propriamente do qualquer coisa parecida com uma nação, federação de nações, ou um estado de paz.

Seja como castas ou classes, essas categorias tais como tribos, buscam essencialmente a defesa dos seus e do que é seu. De modo que essas classes e suas representações não representam mais propriamente suas funções coletivas, mas os interesses particulares da sua classe, cada qual se movendo supostamente em nome daquilo que supostamente representam mas de fato defendendo e lutando uns contra os outros para preservar seus privilégios. E o bem comum não passe do produto destas disputas de interesses, o resto de subtração que se opera por convergências e divergências e não consensos e comunhões nem mais sequer de paz.

Não são só os políticos que se constituíram enquanto uma classe a parte e acima não só da sociedade que no visão da sua tribo não passam de nativos a serem governados e postos para trabalhar para eles. Mas acima do própria entidade que congrega sua classe: o Estado. São juízes, militares, polícias, burocratas e funcionários públicos, sindicalistas, advogados, toda a sorte de categorias que desfrutam de algum tipo de algum privilégio jurídico-institucional estatal ou paraestatal concedido e subsidiado pelo poder coercitivo e tributário do Estado. E que obviamente não se restringe só aos setores públicos mas a todos setores e categorias também privados que sejam igualmente privilégiados como bancos ou empresas fundos…Todos essas novas categorias se constituíram em novas classes com interesses difusos forças antagônicas suficiente tanto em disputa pela primazia do poder quanto a manutenção dos seus privilégios, ou o que é a mesma coisa, em quem vai ficar com o maior parte do butim sobre os demais.

Na atual fase da organização dos sistemas e instituições politicas e econômicas as primitivas divisões são meras bandeiras, peças de propaganda para o restante da população reduzida a eleitores-consumidores, alienadas e alijadas de antemão e por definição e legislação dessas disputas por poder como representatividade. Uma divisão ou mais precisamente uma arquitetura das instituições e “razões sociais” que favorece portanto não só a segregação e discriminação, e a luta, mas desintegração do povo como sociedade e nação, e sua dominação como massa de manobra e mão de obra. De quem? Ora de quem dominar o poder. Esse é o prêmio e butim da disputa entre essas categorias que fingem servir interesses sociais e esses classes que fingem representar os interesses de classe ou nacionais.

É nesse contesto que se insere a intervenção militar da União no Rio de Janeiro. Pedida pela governador do Estado, decretada pelo presidente, assumida pelo general nomeado como interventor. Ignorado por uma “esquerda” que só se preocupa em salvar o seu grande-líder, ou devorar eleitoralmente seu carcaça política. E claro dourada como pilula por uma mídia oligopolista. E fingida igualmente como preocupação pelo povo, que não se preocupa em seu destino como povo, caga e anda para o vizinho, quer saber é quando vai cair o próximo carnaval.

O que estamos assistir- não só no Brasil, mas no mundo- no que é chamado de combate a corrupção, é tanto um processo de apropriação e ajustamento de clamores populares ao sistema, quanto em si uma própria reação de depuração do sistema politico-econômico buscando se ajustar a uma nova fase do processo de produção caracterizada pelo controle da informação. Isso não quer dizer que nesse processo o controle dos meios naturais, industrias e financeiros que caracterizam as outras fases do capitalismo perdem preponderância, isso quer dizer que o sistema se reforma e complexifica em camadas sobrepostas, onde contradição e concorrência entre os setores que controlam cada um dessas formas de capital leva o sistema a crises e eventualmente a sua autodestruição, mas não necessariamente, pois a cada crise sempre há a possibilidade de reforma e reajustamento do sistema que como diz o filosofo alemão se não morre se torna ainda mais forte, se complexificando nas camadas e setores das suas contradições que protegem o seu núcleo duro: a velha e boa privação primitiva.

Não é só a divisão entre as pessoas em classes, gêneros e genes que precisa se ampliar em infinitas generalizações discriminatórias para manter a dominação num sistema cuja produção e reprodução se torna mais complexa, é a divisão da pessoa natural, é a quebra da pessoa em si, a sua integridade da dividindo e apartando ela de si mesmo, reduzindo sua própria noção de identidade e afinidade instintiva e natural a de classes e categoria determinadas por função. Função que por definição não se equaciona por correspondência a si mesma, mas pela relação subordinada ao fator determinante que a define, o sujeito da relação que reduz a existência alheia para ampliar a sua como funções sobre os sujeitados.

O que estamos a assistir no mundo em diversos países, é basicamente o façamos as revoluções antes que o povo o faça, ou mais precisamente, a apropriação como força possessora pelo espirito de corpo, do “espirito” de ideias. O sistema está a cortar as cabeças dispensáveis para entregar ao furor das massas, de modo a tanto reduzir a revolução a uma mera cortar de cabeças quanto o cortar das cabeças como se fosse o principio e objetivo das revolução que assim se perde, e torna-se a própria reprodução do sistema em novas vestes, que fora a aparência é a mesma, é ainda o algoz vestido com a pele das suas vítimas.

O caso da intervenção do Rio de Janeiro é paradigmático nestes processo mundial, como aliás é o todo o processo de derrocada da nossa psedo-democracia sarneyenta. Onde a instituição apodrece, mas fica junto com o verme. Um processo patético, como o da próprio policia federal buscando recuperar as aparências de dignidade, e razão social do que é literalmente governado por interesses antissocial.

Intervenção que é sim militar, como expresso explicitamente no próprio decreto. Como também é mais um crime que vai muito além do político-eleitoral dessas quadrilhas que pretende se perpetuar a custo como classe governamental. Mas essa já não é mais nem a questão, porque não a pessoa minimamente lúcida neste pais que já não saiba que eles estão cagando para a democracia e limpando a bunda com a constituição. Aliás com sempre fizeram, a diferença que num mundo onde tem câmera, gravadores, mídias para todos os lados fica mais difícil esconder isso nas alcovas dos palácios.

O que algumas pessoas estão finalmente entendendo pela força dos fatos. Não tem nada a ver com ser bandido, porque muitos o continuaram a sair impunes desde que saibam articular as redes do poder, enquanto outros serão jogados a justiça cega, exatamente pelo mesmo motivo determinante: o seu grau de pertencimento ou penetração nas redes de poder. São lobos a lutar contra lobos não para libertar as ovelhas, mas para não deixar que elas escapem. Logo não haveria problema, mas sim uma solução nessa guerra entre facções criminosas legalizadas, se como toda e qualquer guerra quem terminasse sendo tratados e dizimado como ovelhas não fossem os civis, bandidos ou inocentes. E não os governantes de fachada ou de fato, militares ou oligarcas que amanhã estarão novamente atrás de uma mesa, celebrando a pacificação das suas guerras que nunca foram de classes, mas de preservação da prerrogativa de classificação e desclassificação e logo exclusão dos demais. O povo. Alías demais é como povo.

O dilema do bom general

Essa contradição pode ser entendida melhor numa alegoria, o dilema do “bom general”:

Ignore se você acredita ou não, para efeitos de raciocínio, vamos dar o beneficio da dúvida e pressupor que o interventor não seja corrupto, mas incorruptível. Seja o bom e honesto general. que vai mesmo aplicar toda sua inteligência e violência e forças armadas a sua disposição para resolver a questão da criminalidade.

Suponha que ele mesmo não sendo a sua formação vai de fato investigar o crime. O que é fundamental, não só do ponto de vista da justiça quanto da inteligência. É preciso investigar para descobrir causa e causadores, para poder deter causadores e eliminar causas. Até porque deter as causas eliminando causadores, é a operação inversa a da investigação é acobertamento por queima de arquivo. A eliminação de provas vivas.

Logo se o general for de fato um interventor e não um executor para cumprir a sua missão, ele precisará muito mais do que licença para matar alvos-previamente definidos sem ter que responder por isso na justiça comum; Longe disso. Ele precisará de outros poderes e imunidades. O poder por exemplo de usar a inteligência a sua disposição para efetuar as diligências que os conduza as cabeças, aos chefões do crime organizado brasileiro e seus cúmplices de alto escalão, e a imunidade de não ser penalizado de chegando em que não estava predeterminado não ser punido por cumprir sua missão e dever. Não poderá evidente nem ficar restrito a estourar boca de fumo em favelas, já que os soldados do trafico continuarão a ser substituídos, de tão forma rápida e sobretudo barata quanto a vulnerabilidade da população a pobreza. Enquanto o imenso exercito de reserva mantido através da pobreza não for eliminado, essa é uma guerra sempre perdida contra seu próprio povo. Porque só se diminui esses contingente de 2 formas: a humanista e a nazistas; Matando pobres e sua prole ou acabando com a pobreza. Considerando que com certeza não é a segunda. A pergunta que fica é em que grau vai ser aplicada a primeira “solução”. Mas uma coisa é certa, por mais que seja um “paliativo” ou pura pirotecnia, vai-se matar e morrer gente inocente. Em geral a criminalidade regride num primeiro momento, para num segundo vai voltar ao como era antes; porque não agiu sobre as causas dessa criminalidade que não são nem a pobreza, que num pais rico como o nosso, não é provocada por desastres naturais ou falta de recursos, mas por um outro tipo de crime organizado: o do roubo e tráfico da coisa pública pelo próprio governo. Roubo e trafico tanto doméstico quanto internacional.

Acabe com as condições pelas quais o crime organizado comum se retroalimenta, tanto como condição socioeconômica quanto suporte político, governamental, policial legislativo e judicial e o custo não acaba mas sobe e eventualmente vai a falência pela sem o subsidio a proteção e subsidio criminoso do aparelho estatal. Acabar mesmo com o trafico de drogas só matando playboy que consome ou legalizando o consumo, porque onde houver procura de quem pode pagar, vai haver alguém para atender a demanda. Claro que onde a pobreza é menor, há menos mão-de-obra “disposta” a se prestar a esse serviço por carestia, mas sempre resta aqueles que pelo preço certo farão o serviço não importa quão ricos sejam. E esse é justamente o problema: encarece a droga de gente poderosa, que bate palma quando se fala em metralhar traficante, mas não consegue viver nem trampar sem dar uma cheirada.

Suponha que esse general nesse processo sério de dearticulação do crime organizado vá portanto buscar as cabeças, os peixes grandes ao invés de ficar enxugando gelo. Droga não se planta em favela. Fortunas de impérios não se escondem debaixo de colchão. Nem é possível fazer tanto dinheiro vendendo (e comprando) só quem não tem capital nem poder. Suponha portanto que ele venha a descobrir o que o todo mundo já sabe, que o crime organizado não está dentro do sistema, mas faz parte dele. Vai descobrir que o crime ilegal não está propriamente infiltrado na legalidade, mas faz parte dela, pactua com ela como a noite do dia e a ilegalidade é apenas uma parte de toda uma organização criminosa que não só está legalizada, mas controlando a instituição do que é legal e ilegal, manipulando cada vez de forma mais explicita e tosca a noção do que é crime ou não, não só no plano estadual, mas federal.

Suponha que ele descubra que os cúmplices, comparsas, ou mesmo co-lideranças dos setores legalizados dessas organizações não seja apenas elementos de alto escalão dos poderes federais, chefes de policia federal, ministros e até mesmo presidentes e ex-presidentes dos 3 poderes. Inclusive o seu próprio superior hierárquico, a quem ele como interventor tem que prestar contas: o presidente da república. Suponha que ele descubra que interventores e intervidos são membros não só de um mesmo partido, mas que a imagem e semelhança dos organizações criminosas, são membros de facções rivais tanto de uma mesma quadrilha espalhadas por todos estados e território nacional. Suponha que o ele descubra que a intervenção no Rio seja na verdade um bela duma Pax Paulista, onde reza a lenda governo e tráfico fecharam um pacto. Lenda urbana como diria outra eminência, o doutor Mendes.

Uma loucura, eu sei, Uma hipótese tão implausível num pais com a solidez moral e institucional que chega a ser uma leviandade até aventá-la dado a pública e notória reputação ilibada das classes políticas e econômicas que nos governam, quero dizer setores e suas categorias. Como disse uma mera suposição. Até porque no Brasil não temos dúvidas só certezas.

Assim, a grande dúvida hipotética seria portanto como nosso bom e honesto general agiria. O que ele faria nessa situação? Supondo que o exército não tenha nenhum envolvimento nestes negócios de traficantes políticos, o que ele poderia fazer? E se elementos da própria corporação entranhados no governo não estivessem dispostos a expor figuras e instituições do Estado que lhe servem de marionete? E se a ordem não for investigar, mas ignorar evidências que levem a seus superiores? O que o honesto e bom general faria? Ou melhor o que ele poderia fazer numa situação dessas?

Eis a questão. A contradição da intervenção e o dilema do interventor. Mas não se preocupe com isto. Porque esse dilema e contradição não existem nem podem existir. E se existissem (ou vierem a existir) seriam facilmente contornáveis: basta fazer outra intervenção, no interventor, digo o do Rio e não o do Planalto. Não que Temer seja imprescindível. Figuras sem nenhuma pudor nem escrúpulo para se prestar ao papel que ele faz não faltam. Mantê-lo ou não do poder é irrelevante desde que ele permanece alinhado aos interesses e dentro da agenda, a persona é substituível, até mesmo o cargo pode ser alterado, presidente, semi-presidente, primeiro-ministro, ou rainha da Inglaterra como o governador do Rio, o importante é manter o poder. Pode até ser mais um precedente útil na suspensão das eleições, se até lá, a impostura do centro do poder continuar vulnerável como está, tanto ao impostores de direita ou da esquerda e seus postes, tanto faz se com os velhos parasitas de sempre ou não. O que não pode e não vai ocorrer, em hipótese alguma, não enquanto quem detém de fato a posse e poder de fato sobre o território brasileiro puderem impedir, é que o centro, saia das suas mãos, das suas esferas de interesse, influência e se necessário for intervenção.

Isso nunca foi apenas uma disputa nacional, mas transnacional, onde não só os governos países periféricos e provincianos estão sendo movimentados e transformados, mas também as grandes potenciais numa disputa que é tanto geopolítica quanto econômica. A questão não é se livrar ou não, mas qual a função ou necessidade disto, dentro da agenda de cada um deles, sejam os militares ou o mercado. As demandas deles podem ser convergentes a da população, mas os interesses são outros. E o fator determinante dessa tomada de decisão, desse programa para o país, não são as demandas populares mas a segurança desses interesses. De modo que novas ou mais amplas intervenções são apenas uma questão de se e quando. Quando: as eleições. Se: se eles não conseguirem reverter a opinião pública a tempo, para um poste ou os submarinos de Lula, ou se perderem. Se a derrota for certa, não vai haver eleição. E tiver e perderem não vai haver posse. Simples assim. É preciso se colocar no lugar, na cabeça do outro para entender e tentar antever suas decisões. E na cabeça de quem detém o poder hoje: há uma agenda a ser cumprida, e uma ameaça a ser eliminada. A agenda é econômica. A ameaça é política. O Brasil não vai ter um governo que não esteja alinhado com essa agenda de precarização. E não, não há a menor chance de um governo simpatizante do “bolivarianismo” ou demagogo e populista de esquerda como foram os do PT. Não há mais tempo-espaço para esse jogo duplo: discursos e migalhas para população e servilismo e lucros garantidos para as grandes setores e categorias corporativas tanto privadas quanto estatais. O mundo mudou. A chapa esquentou. A doutrina Bush encontrou em Trump sua encarnação: quem não está conosco está contra nós. Nesse sentido, a intervenção é um recado de que quem detém o poder de fato: eles não estão só dispostos, estão de prontidão para fazer o que acharem que for necessário quando acharem necessário. A questão nacional é hoje literalmente maior, global. O Brasil é uma economia grande demais, para sofrer uma venezuelização. Grécia sim, Venezuela não.

A Venezuela, é infelizmente na America Latina, como a Siria é no Oriente o melhor exemplo da bomba que explode quando se mistura os interesses de potencias rivais dispostas a qualquer coisa encontram tiranos igualmente dispostos a coisas piores ainda contra seu próprio povo para se manter no poder, enquanto os povos seguem cegos e doutrinados presos em suas bolhas ideologias. Olhem para a Venezuela é para hipocrisia da política mundial, tanto da esquerda e direita. Alguém realmente acredita que alguém a governo ou oposição, realmente se importa com a população da Venezuela? Com direitos humanos? São outros valores em disputa, mas o interesse é o mesmo: poder. Por eles Maduro poderia jogar armas químicas, ou acorrentar todo mundo numa fabrica desde que é claro permaneça do lado certo, comprando e vendendo seus produtos e ideologias. Pouco importa se é uma ditadura ou não, o importante é que esse tirano seja de estimação; saiba se colocar no seu tanto na divisão internacional do capital e trabalho, quanto na disputas geopolíticas que gerenciam e resguardam inclusive militar e juridicamente esses interesses. O problema não é que eles fazem ou são, não é a tirania e a fome, mas a tirania e a fome de quem. de qual projeto de poder e bloco político-econômico eles estão alinhados. Ou alguém nascido no Brasil e America Latina que não viva em uma bolha, em sã consciência acha que governos americanos, russos, ou chineses, brasileiros estão ligando direitos civis ou humanos… Por favor. Quem não liga para vidas porque haveria de se preocupar com direitos ou problemas humanos? Garanto que eles estão tão preocupados qualquer governo está preocupado com os rohingyas em bangladesh — a começar pelo próprio governo de Mianmar.

Intervenções, ocupações, golpes ou revoluções, resistências e oposições, democracia, direitos humanos civis e sociais, combate ao terrorismo ou bandismo, tudo isso não passa de propaganda para elas, apenas um dos frontes dessa guerra: a “pelos corações e mentes”. Front importante, mas nada além disso um front. E nesse front se a população tiver que estar sujeita aos caprichos e interesses de velhos minados e tarados por poder, capazes de tomar as decisões mais perigosas pelas motivações pessoalmente mais fúteis e canalhas, que seja, se tal futilidade e corrupção convergir e trabalhar pelos interesses estratégicos que o amor seja eterno… enquanto dure.

Se tudo o que eles querem é não perder seu caviar, como os depostos perderam sua mortadela. Que seja, enquanto eles estiverem mijando dentro do penico. Isso não é mais uma questão de direito é uma questão de Estado, e tolo de quem quem acredita que são a mesma coisa e ainda acha que o crente e fiel religioso é o único otário alienado.

Manter as coisas em seus devidos lugares, muito bem apartadas e dividas em conformidade com sua classificações e lutando por seus interesses não de classe, mas funcional é o fundamental para que jamais elas já se unem inclusive para além das divisões de classe, se unam pelo seu interesse e bem comum. Essa é a materialidade deste crime onde o legal e ilegal o legitimo e ilegitimo, um crime que basta legislar e decretar para impor e se não der certo voltar a essência, a origem genética e histórica de todo Estado: ocupar, intervir e tributar, em posses e trabalho.

Realismo versus idealismo reduzidos a realpolitik e fundamentalismo

O mundo mudou. O período de supremacia absoluta americana que vai da queda do muro de Berlim a crise financeira de 2008 acabou. A Siria é o novo Vietnã do século XXI. E Russia e China se erguem como os polos dessa guerra fria que no fundo só esquentou. Corrupção, direitos humanos, opinião pública… são apenas variáveis menos importantes que permeabilidade de fronteiras e gestão territorial dos recursos e riquezas naturais. Tais questões pertencem a área de propaganda e guerra de informação e contra-informação.

E quem para quem não se deu conta ainda e achava que intervenção, com generais na letra do decreto e tudo era uma coisa de paranoico, fica a dica: a realidade está sempre a superar a nóia e a paranóia. Até porque o que as pessoas chamam por realidade não passa de uma conjunto de esperanças e ilusões, promessas e propagandas tanto politicas quanto econômicas. A nóia e o entorpecente dos que se acham limpos e normais.

Então pega o remédio que pediu e toma. Manda quem pode, obedece (e cala) quem tem juízo. E aí de quem agora não souber com quem está falando… o Brasil está voltando a normalidade… aquela lá do cale-se ou deixe-o. Ou qualquer coisa parecida numa pílula mais bem dourada. Porque o negócio é levar vantagem em tudo certo? E malandro é o gato que já nasce de bigode…

Ou de barba…

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Há cinco anos, PT e PMDB celebravam aliança com bolo de casamento

O Brasil definitivamente não é um lugar para principiantes, nem muito menos para quem tem princípios, ou como diria o Barba: para “principistas”. Princípios? Mané, princípios… aqui Maquiavel é estagiário. Enfia seus princípios e finalidades onde quiser, porque aqui não há sequer coerência…mané finalidade… Aqui só há meios a justificar seus próprios meios. apenas a luta sem fim pela sua posse. E quem não tiver meios que se ponha no seu devido lugar e vá lutar e labutar pela sua sobrevivência. E quem tiver princípios que vá viver em outro lugar. Porque aqui esse mal é fatal. Ou para quem não fala a língua dos sarneys, traduzo para o lulês: “Quem quiser ser principista, não faça política”.

Mais realpolitk que isso mesmo na alemanha dos anos 30 do século passado. Onde não por acaso, os gênios da realpolitik colocaram nada mais nada menos do um ideólogo fundamentalista, o inimigo, Hitler para dentro do governo. E claro foram derrubados por ele não de fora mas por dentro, Quem cria cobra morre picado, ou dito de outra forma: quem se acha muito esperto sempre acaba devorado pela esperteza. Um axioma realista do idealismo que serve tanto para idealistas quanto os mais realistas dos realistas. Os pragmatistas. Porque só há uma mentalidade ainda mais vulnerável ao fundamentalismo ideológico que aquela a pressupor que seus princípios são o real, é aquele que pressupõe que sua falta de princípios é mais do que a realidade, é o mundo por trás da sua representação reais. Não há mentalidade mais frágil e campo mais fértil a disseminação do fundamentalismo político e religioso, do que o pragmatismo especialmente quando perde de vez a noção que a definição daquilo que funciona ou dá certo é também uma ideologia determinada pelos valores e interesses. Não há ideologia que prepare o terreno ou mesmo geste dentro de si o totalitarismo do que o pragmatismo que se degenera na falsificação ideológica da sua própria concepção. Basta olhar para os lulistas e os bolsonaristas e o cordão umbilical que liga uma geração a outra. Utopias que degeneradas como distopias em si mesmas e sua contradição. Diferentes caminhos, todos sempre levando sempre a um mesmo lugar.

O que os realistas chamam de realidade é a mesma abstração que idealistas ou principistas chamam por ideais. Um conjunto de concepções e axiomas que cada qual supõe como o verdadeiro, seja como o possível ou real, como as coisas são dadas ou podem vir a ser, em detrimento aos fatos que não nem uma coisa nem outra, mas o contrário de ambas, nos fenômenos onde as ideologias fundamentalistas ou realistas são meras elementos e não o conjunto e nem muito menos o fator determinante dos eventos, mas um produto.

Não é a toa que a consciência seja confundida com a dona consciência, com um superego a se contrapor aos instintos mais primitivos e não um eu integrado onde o eu consciente é propriamente o ser livre e não meramente um freio ou açoite, um modulador das vontades reduzidas a meros medos e desejos, de uma existência reduzida a busca e controle das tristezas e felicidades, dores e prazeres. O demagogo tem razão, essa política não é lugar para quem quer ter princípios. Não é a agora de quem quer governar a si mesmo, mas sim aos outros. Não é o lugar onde as liberdades e vocações nascem, mas o lugar para onde elas vão para degenerar e morrer de vez como vontade de poder.

Não Manuel da Conceição você a sua perna não é só a classe. É também deles. A sua perna, aquela que foi amputada, é os que os une como outra classe, a dos sarneys e Lulas, os necromantes que nunca morrem. Como disse Lula, eles não são gente como nós, feito de carne e osso, eles são ideias, conjuradas da carne e ossos, sonhos e solidariedade… dos outros.

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Mas e você que não é feito de pedacinhos dos outros? Não se preocupe “cidadão de bem” quanto a vocês os generais vão intervir muito bem em favor em seu favor. com a sua concepção toda especial e “sem ideologia” dos direitos a vida e liberdade desses outros tipos e espécies de seres humanos:

General Heleno: “Direitos Humanos são para humanos direitos” — O Antagonista

Mas e quanto aos outros?

Quê é que tem eles? Eles não são nem gente, não como a gente, e nem muito são “feito de ideias”, são feitos de carne, e carne pode ser presa e morta. Ademais, não se preocupe, mortos não falam.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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