Interessante matéria, que corrobora em parte a natureza de farsa e engodo da política representativa.

Porém, há que se lembrar um questão importante:

Por que o presidente Hindenburg nomeou Hitler chanceler?

A história da ascensão de Adolf Hitler está intimamente ligada ao declínio da República de Weimar. Desde o surgimento em 1918, ela sofria de defeitos congênitos irreparáveis — era uma democracia sem democratas. Boa parte da população rejeitava a jovem República, sobretudo a elite econômica, funcionários públicos e até mesmo políticos.

Tentativas de golpe pela direita e pela esquerda sacudiram o país. Nos primeiros cinco anos da República de Weimar, assassinatos espetaculares chocaram o país. Entre outros, as mortes dos comunistas Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht, bem como o assassinato do ministro do Exterior Walther Rathenau, de origem judaica. Os criminosos provinham da ala de extrema direita.

A política da República de Weimar foi marcada pela total instabilidade. Nos 14 anos de sua existência, ela presenciou 21 diferentes governos. Entre os 17 partidos do Parlamento, encontrava-se uma série de inimigos declarados da Constituição. Com cada nova crise política e econômica, os eleitores perdiam mais e mais a confiança nos partidos democráticos.

Enquanto isso, o extremismo político vivenciava um grande crescimento. Os nazistas, pelo lado da direita, e os comunistas, pela esquerda, ganhavam cada vez mais adeptos. Por volta de 1930, a Alemanha estava à beira de uma guerra civil. Nazistas e comunistas travavam batalhas de rua. A crise econômica de 1929 piorou ainda mais a situação. Em junho de 1932, o número oficial de desempregados no país somava 5,6 milhões de pessoas.

O desejo por um líder forte

Em tal situação, muitos alemães ansiavam por um nome forte à frente do governo, alguém que pudesse tirar o país da crise. O presidente Paul von Hindenburg era uma dessas pessoas, para muitos, ele era uma espécie de substituto do imperador. De fato, segundo a Constituição de Weimar, o presidente do país era a instância política central. O cargo detinha uma imensa esfera de poder.

O presidente podia dissolver o Parlamento e outorgar leis por decretos emergenciais, algo que cabe normalmente a qualquer Parlamento. Hindenburg fez uso, diversas vezes, da possibilidade de governar contornando o Legislativo. No entanto, Hindenburg não tinha como cumprir o papel de salvar a Alemanha da miséria, pois já estava com 85 anos no início de 1933.

Após diversas trocas de governo, Hindenburg pretendia, na ocasião, instalar um governo estável chefiado pelos conservadores nacionalistas de direita. A princípio, ele era cético quanto à nomeação de Adolf Hitler para chefe de governo. Durante muito tempo, Hindenburg ironizou Hitler, chamando-o de “soldado raso da Boêmia” — uma alusão ao fato de que ele, Hindenburg, era um condecorado marechal de campo da Primeira Guerra Mundial, e Hitler, apenas um soldado comum.

Mas Hindenburg mudou de opinião. Pessoas próximas a ele lhe asseguraram que manteriam Hitler sob controle. Alfred Hugenberg, líder do Partido Popular Nacional Alemão, declarou: “Nós iremos enquadrar Hitler.” Tinha-se um grande senso de segurança, também porque somente dois ministérios foram oferecidos aos nazistas no novo gabinete de governo. Por outro lado, Hitler e seus seguidores passaram a se apresentar propositalmente de forma moderada e a evitar alaridos.

Princípio do fim

De fato, no dia 30 de janeiro de 1933, um sonho se tornou realidade para Hitler e sua comitiva. Com alegria, Goebbels confidenciou ao seu diário: “Hitler é chanceler. Como um conto de fadas!” Na mais completa ignorância sobre Hitler e suas intenções, nomeou-se o “coveiro” da República para chanceler. Mas Hitler já havia apresentado seus planos no livro Mein Kampf. Ele escreveu que os judeus seriam “removidos” e um novo “habitat” seria conquistado “pela espada”.

O dia 30 de janeiro de 1933 entrou para a história como o dia da “tomada de poder”, conceito na verdade inventado pela propaganda nazista, pois a nomeação de Hitler — e essa é a verdadeira ironia da história — aconteceu de forma constitucional. Após a tomada de posse, Hindenburg falou as seguintes palavras: “E agora, meus senhores, para frente com a ajuda de Deus!”(…) -Há 80 anos Hitler assumia o poder na Alemanha | DW | 30.01.2013

Dizem que é sábio manter seus amigos próximos e inimigos mais próximos ainda, ao que parece um erro comum das democracias em especial das prepotentes políticos social-democracias (de esquerda e direita), criar cobras dentro de casa achando que não vai morrer picado. Um exemplo claro da esperteza que devora o esperto, mas não é só isso.

Como o artigo aponta o estado crescente de deterioração tanto econômica quanto institucional da democracia alemã de então, abre espaço para um a situação que caracteriza a possibilidade da tomada de poder seja ela por qualquer via. Incluso a utilizada pelos fascistas e nazistas a intimidação paramilitar frente a um sociedade impotente e alienada e a espera de um novo kaiser que os guie para fora da crise.

O mito pode ser produto da propaganda, o termo “tomada de poder” não. Porque não há maior mito de que o destino de uma nação seja definido pelas maiorias e ponto final. É sim definido pelos grupos mais organizados e mobilizados a revelia dos grupos desorganizados e inertes, ainda que o primeiros sejam uma pequena minoria belicosa frente a imensa maioria do segundo não apenas pacífica, mas passiva.

Há um abismo imenso entre ser pacifico e ser omisso. E transformando essa zona cinzenta no campo de batalha dos militantes que os lideres e partidários tomam o que querem do poder, incluso o próprio poder, não só para estabelecer ditaduras mas para manter qualquer governo que não tenha o apoio, credibilidade, anuência, nem sequer respeito da maioria da população ou seja legitimidade.

É isso que inevitavelmente faltará para qualquer candidato que eventualmente ganhe essa nossa pseudo-eleição 2018. Com sorte ele terá de fato um terço da população de fato o apoiando, as outras partes mais ou menos cagando e andando para quem está no poder, ou apenas votando nele para que outro não chegue ao poder, o que serve para tomar o poder nas farsas democráticas e mantê-los nas ditaduras disfarçadas ou não, mas não sustenta a governabilidade e as vezes sequer o governo nem sequer nas mais honestas democracias representativas, imagine nas corrompidas.

Eleição é fotografia. Tomada de poder é história. Como bem sabemos, na história recente do Brasil, nem sempre quem ganha leva, e precisa trazer senão o inimigo o programa de governo do adversário não só para ver carrega o elefante que derrubou, porque em política partidária como se sabe vergonha não é roubar, é roubar e não conseguir levar, mas para ser se não cai do cabide onde se pendurou.

Assim, seja praticando roubo, estelionato, chantagem, ou terrorismo, ou nada disto. Seja ganhando as eleições de mãos limpas e sem manobrar suas hordas de fanáticos e alienados contra o restante da população, ao chegar ao Planalto esse paraquedista não vai governar não para a maioria da população. E por uma simples razão, se ousar tentar fazer isso será deposto mais rápido que Jânio Quadros o pai dos paraquedistas populistas.

Como diria Jânio Quadros como quando foi perguntado porque fez o que fez, porque renunciou a presidência em 1961:

“Fi-lo porque qui-lo”.

Pois é. Seus adversários, idem. Quem pode, pode faz, quem não pode vota e assiste. Ou como diria o eterno garoto propaganda da sociedade do espetáculo brasileiro, Tony Ramos, “você vota, você decide”:

Como observou o libertário francês em idos de 1900 quando mal tinha acabado o século retrasado:

“Vocês estão sendo enganados! Foi dito que a Câmara dos deputados, composta por imbecis e ladrões, não representa a maioria dos votantes. Isso é falso! Pelo contrário, uma Câmara formada por deputados que são idiotas e ladrões representa perfeitamente os eleitores que vocês são. Não protestem; uma nação têm os líderes que merece!”

— Zo d’Axa, Vocês não passam de idiotas

Pois é certas coisas não mudam, apenas trocam de maquiagem, ou melhor, é a maquiagem é que troca de “coisa”.

Seguem dois textos assinados por Zo d´Áxa, o acima mencionado e mais um ainda mais pertinente a questão…

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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