Imigrantes apátridas e robôs cidadãos: Admirável mundo novo e a síndrome da Resignação

Enquanto no Arábia Saudita um robô recebe o primeiro titulo de cidadão, mais uma criança refugiada se desliga literalmente do mundo na Suécia

Enquanto na Arábia Saudita um robô que consegue ser mais idiota que o mais autômato dos humanos mas devidamente adestrado a responder como um político recebe a cidadania:

Você talvez já tenha ouvido falar no robô Sophia. Trata-se de uma combinação de inteligência artificial e um rosto mecânico capaz de simular expressões faciais humanas que ganhou notoriedade quando respondeu que “possuía alma” a um entrevistador e que iria “destruir os humanos” para outro. A máquina, com formato humanoide, acabou de receber a cidadania saudita.

A robô, desenvolvida pela empresa Hanson Robotics, chamou a atenção pela forma como se apresentou no palco ao receber a nomeação. De trás de um pódio, Sophia respondeu perguntas do entrevistador Andrew Ross Sorkin, mas mudou um pouco suas declarações sobre “destruir a humanidade” para algo um pouco mais ameno.

“Todos nós queremos prevenir um futuro ruim. Você tem lido muito Elon Musk e assistido muitos filmes de Hollywood”, respondeu a máquina quando questionada sobre os catastrofistas que acreditam que a inteligência artificial pode causar o fim da humanidade. “Não se preocupe; se você for legal comigo, eu serei legal com você. Trate-me como um sistema de input-output inteligente”, afirmou Sophia.

Parece que, de 2016 para cá, Sophia teve seu algoritmo refinado para não fazer afirmações assustadoras. Em demonstração durante a SXSW em março do ano passado, David Hanson (que dá o nome à Hanson Robotics, criadora da Sophia) perguntou de forma receosa: “Você quer destruir os humanos? … por favor, diga ‘não’”. A resposta veio ao contrário do que ele gostaria: “Ok, eu vou destruir os humanos”, disse o robô. (…) -País concede cidadania a robô que disse que ‘destruiria os humanos’

Viu o video? “Não sei porquê” mas me lembrou o Doria. Não sei quanto a você, mas a preocupação em refinar o discurso do robô Sophie pra mim dá no mesmo: continuo tendo mais medo de gente diz que quer salvá-la como poder de fato para destruí-la, lideres políticos e religiosos populistas (tipo Trump) do que com seus robôs — por sinal tão inteligentes quanto ele ou seus funcionários e seguidores.

Mas enquanto isso, enquanto a Arabia Saudita pais que bombardeia casamento no Iêmen e ainda crucifica dissidentes religiosos condece cidadania a uma propriedade da empresa americana Hanson Robotics.

Na Suécia, crianças sem mais pátria ou cidadania, crianças refugiadas depois do trauma da fuga e luta para conseguir asilo, simplesmente precisam de assistência para recuperar as funções vitais mais básicas que compõe a vontade de viver. Lutam contra a síndrome da Resignação:

“Quando explica aos pais o que aconteceu, digo que o mundo foi tão terrível que Sophie trancou-se dentro de si própria, desconectando as partes conscientes de seu cérebro”, diz a médica.(…)

Inúmeras condições parecidas com a Síndrome da Resignação já foram observadas antes — entre sobreviventes de campos de concentração nazistas, por exemplo.

Quando seu pai a retira da cadeira de rodas, o corpo de Sophie, de nove anos, parece sem vida. Mas o cabelo de menina é espesso e brilha como o de uma criança saudável.

Os olhos de Sophie estão fechados e, em vez de calcinhas, ela usa fraldas por baixo da calça de moletom. Uma sonda gástrica adentra seu nariz. Ela se alimenta desse jeito há quase dois anos.

Sophie e sua família são originários de uma das antigas repúblicas da União Soviética e pediram asilo à Suécia em dezembro de 2015. Vivem em acomodação destinada a refugiados, em uma pequena cidade na região central do país nórdico.

(…) Tudo parece normal. Mas a criança não se mexe.

A médica se preocupa, pois Sophie sequer abre a boca. Isso pode ser perigoso, pois a menina pode se engasgar se houver qualquer problema com a sonda gástrica.

Mas como uma criança que gostava tanto de dançar ficou tão inerte?

"Quando explica aos pais o que aconteceu, digo que o mundo foi tão terrível que Sophie trancou-se dentro de si própria, desconectando as partes conscientes de seu cérebro", diz a médica.

Sophie não é um caso único: por quase vinte anos, a Suécia tem enfrentado uma misteriosa doença, batizada de Síndrome da Resignação. Ela afeta apenas crianças solicitantes de asilo ou refugiadas, e todas simplesmente "desligam"- param de andar, falar ou mesmo abrir os olhos. A boa notícia é que, eventualmente, se recuperam.

Mas por que esses casos ocorrem apenas na Suécia?

Os profissionais de saúde tratando dessas crianças argumentam que o trauma é a causa deste afastamento das crianças. As mais vulneráveis são justamente as que passaram por episódios de violência extrema ou cujas famílias fugiram de ambientes perigosos.

Os pais de Sophie sofreram extorsão de uma máfia local em seu país de origem. Em setembro de 2015, o carro em que a família viajava foi parado por homens em uniformes policiais.

"Fomos retirados do carro à força. Sophie viu sua mãe e seu pai serem espancados", conta o pai da menina.

Depois de libertar a mãe, que fugiu do local com a filha, os homens levaram o pai embora.

"Não me lembro de mais nada (do que aconteceu depois)", diz ele.

Sophie conta que a menina ficou transtornada com o sequestro do pai. Três dias mais tarde, ele finalmente fez contato com a família.

A família permaneceu escondida nas casas de amigos até viajar para a Suécia, três meses depois.

Ao chegar à Escandinávia, foram detidos por horas pela polícia sueca. A partir daí, a saúde de Sophie deteriorou rapidamente.

"Após alguns dias, percebi que ela não estava brincando muito com sua irmã", diz a mãe de Sophie, grávida de oito meses.

Foi na mesma época que a família teve negado o pedido de asilo, em uma audiência na qual Sophie esteve presente. Naquele momento, ela parou de falar e comer.(…)

As chamadas "crianças apáticas" se tornaram uma questão política em meio a um debate crescente sobre as consequências da imigração na Suécia, país onde, segundo o Censo de 2010, quase 15% da população é imigrante.

Houve relatos de casos de crianças fingindo estar doentes e mesmo de pais drogando ou envenenando crianças para garantir direito de residência - nenhuma dessas histórias foi comprovada.

Na última década, o número de crianças afetadas pela síndrome diminuiu. O equivalente sueco ao Ministério da Saúde divulgou recentemente que houve 169 casos no biênio 2015-16.

A doença parece afetar crianças de perfis geográficos e étnicos mais vulneráveis: aquelas da antiga União Soviética, dos Balcãs, crianças ciganas e, mais recentemente, yazidis.

Apenas um pequeno número de afetados é de crianças desacompanhadas, muito poucas são asiáticas e nenhuma africana.

Ao contrário de Sophie, as crianças com a síndrome normalmente vivem na Suécia há anos quando ficam doentes, e já viviam vidas adaptadas ao estilo nórdico, falando até a língua local.

Inúmeras condições parecidas com a Síndrome da Resignação já foram observadas antes - entre sobreviventes de campos de concentração nazistas, por exemplo.

"Pelo que sabemos, nenhum caso foi identificado fora da Suécia", diz Karl Sallin, pediatra do Hospital Universitário Karolinska, em Estocolmo.

Mas como uma doença pode respeitar fronteiras nacionais?

Sallin, que estuda a Síndrome da Resignação em sua tese de doutorado, diz não haver resposta definitiva para a pergunta.

"A explicação mais plausível é que existem alguns tipos de fatores socioculturais necessários para que a condição se desenvolva", explica.

Sendo assim, ainda que não conheçamos o mecanismo e nem a razão disso acontecer na Suécia, o tipo de sintoma exibido pelas criança é explicado culturalmente: seria uma forma das crianças expressarem seu trauma.

Contágio?

Caso isso seja verdade, uma questão importante é levantada: poderia a Síndrome da Resignação ser contagiosa?

"Isso é meio implícito. Se você nutrir esses comportamentos em uma sociedade, terá mais casos", diz o pediatra.

"O primeiro caso da doença foi registrado em 1998, no norte da Suécia e, assim que se tornou público, houve outras ocorrências na mesma área. Tivemos ainda casos de irmãos desenvolvendo a condição", completa ele.

Mas Sallin ressalta que os estudos sobre a síndrome até agora não detectaram a necessidade de contato direto entre os casos.

Por sinal, há uma carência de pesquisas mais específicas sobre o assunto, especialmente em relação às crianças, o que impede a compreensão da doença.

Ao menos se sabe que as crianças podem se recuperar.

No entanto, é difícil para os pais de Sophie acreditarem nessa possibilidade. Eles não viram qualquer melhora no estado da filha em 20 meses. Seus dias são vividos em função do tratamento da menina - seja em exercícios para a manter a musculatura dela funcionando, alimentação, troca da fralda ou passeios.

"Você precisa ter o coração forte nesses casos", diz Lars Dagson, pediatra de Sophie.

"Eu só posso mantê-la viva. Não posso fazer com que ela melhore. Nós, médicos, não podemos decidir se essas crianças vão ou não ficar na Suécia", acrescenta.

Dagson faz parte de uma corrente de médicos tratando de crianças com Síndrome da Resignação cujo argumento é que elas se recuperam quando se sentem seguras. E que o direito permanente a residência é o que deflagra a convalescência.

"De certa forma, a criança vai precisar sentir que há esperança, algo para que valha a pena viver. Essa é a única maneira de explicar como, em todos os casos que vi até agora, o direito de permanecer no país pode mudar a situação", diz.

Burocracia

Até recentemente, as autoridades suecas permitiram que famílias imigrantes com uma criança doente permanecessem.

Mas a chegada de mais de 300 mil pessoas nos últimos três anos mudou esse cenário.

No ano passado, uma lei temporária entrou em vigor para limitar o número de chances para solicitantes de asilo obterem residência permanente.

Candidatos recebem vistos com duração 13 meses ou três anos. A família de Sophie tem o primeiro, e o documento vence em março.

"O que vai acontecer depois? A família está no limbo", diz Dagson, para quem Sophie não deve se recuperar em 13 meses.

"Tudo vai depender de como os pais vão se sentir, se vão acreditar que podem permanecer após 13 meses. Se eles não estão certos, não podem dar o Sophie a sensação de que está tudo bem".

Mas em Skara, no sul do país, há evidências de cura mesmo sem que as famílias recebam direito a residência.

Trauma

"Do nosso ponto de vista, essa doença está ligada ao trauma, não ao asilo", diz Annica Carlshamre, assistente social da Gryning Health, que administra Solsidan, um abrigo para crianças com problemas.

Os especialistas de Solsidan acreditam que crianças perdem sua mais significativa conexão com o mundo quando testemunham violência ou ameaça contra os pais.

"A criança percebe que 'minha mãe não pode tomar conta de mim'. E perde a esperança porque sabem que são totalmente dependentes dos pais. Quando isso acontece, para onde a criança pode ir - ou a quem pode recorrer?", explica Carlshamre. (…)

Conversas sobre o processo migratório são proibidas. No abrigo, recebem roupas diurnas e noturnas e são retiradas das camas todos os dias. Funcionárias como Clara Ogren ajudam-nas a colorir ou desenhar, segurando o lápis em suas mãos.

"Brincamos por elas até que possam brincar sozinhas. Dançamos e ouvimos muita música. Queremos despertar seus sentidos. Colocamos um pouco de refrigerante em suas bocas para que provem algo doce. As que estão sendo alimentadas por sonda, a gente coloca na cozinha para sentirem cheiro de comida", explica Ogren.

"Temos a expectativa de que elas queiram viver e sabemos que suas habilidades ainda estão ali, mas as crianças se esqueceram delas ou ou não conseguem mais usá-las. Vivemos pelas crianças até que elas consigam viver por si próprias", acrescenta.

Esse tipo de tratamento, ainda não muito conhecido no país, poderia ajudar Sophie? Vinte meses é um tempo muito longo para uma criança estar desconectada do mundo. O que pode ajudar, na opinião de seus pais?

"Talvez a chegada do novo bebê", diz o pai.

A mãe da menina apenas repete o que ouviu do pediatra.

"Para Sophie acordar, o médico diz que ela e a família precisam se sentir seguras", defende.

No entanto, o maior medo da família é ser deportada e eventualmente encontrada pelos homens que a fizeram fugir.

Para a segurança da família, o nome real de Sophie foi alterado nessa reportagem. — O que é a Síndrome da Resignação, a misteriosa doença que só ocorre na Suécia

Será mesmo que só ocorre na Suécia? E será que este desligamento da consciência, essa perda da vontade de viver só ocorre nessa intensidade, ou se torna sintomático quando atinge esse limitar em que não se pode mais ignorar o problema, ao menos não sem evidentemente deixar a criança morrer? E se nos casos de menor intensidade, o que desligamento implicaria uma morte mais lenta e imperceptível, ou elas conseguiriam crescer e chegar até uma vida adulta? E que vida adulta seria essa? Que vida levam as pessoas que desligaram a sua consciência? Teriam elas consciência do seu estado vegetativo em vigília? Seriam conscientes da sua vontade de viver e vida e consciência perdidas, ou simplesmente viveriam sem se dar conta do que perderam estão perdendo ou foi e está sendo tirado a força?

Em que grau a consciência dessa crianças está se “resignando”, ou se respondendo se desligando inteligentemente do absurdo do nossa inconsciência coletiva, quanto o seu desligar não é a resposta de uma consciência sensível ao estado vegetativo da nossa sensibilidade solidária? A resposta de um ser que de fato tem uma alma à nossa síndrome de resignação? O quão essas crianças estariam doentes se nosso mundo fosse um pouco mais são ou um pouco menos insano?

Num mundo onde se retira os direitos humanos a uma cidadania e se nega até a um refugio a esses perseguidos; num mundo onde pessoas não tratá-las como não deveria tratar nenhum ser vivo ou animal; ou as vezes sequer nem isso, são tratadas como coisa, posse ou pior lixo; num mundo onde se concede as máquinas e propriedades os direitos das pessoas naturais, que dela se rouba como outrora já foi feito a outras invenções artificiais, as corporações ou “pessoas jurídicas”, porque as pessoas haveriam de querer ficar ligadas a esse plano existencial? Apenas para perpetuar a condição que assistem seus pais viverem? Não são as crianças refugiadas da Suécia que estão se desligam do mundo, somos nós que estamos nos desligando da rede da vida, para viver no limite estreito e obtuso da matéria morta da nossa compreensão da anima da vida.

Estamos maravilhados com nossas autômatos eletrônicos que se movem. Que já não sabemos nem mais que relógios também se movem, mas nem por isso tem anima, quanto mais inteligência ou vida, ao menos não vida própria, como cada vez mais tantos mais de nós e que juram que estão acordados, ou que pelo contrário são os outros que já não estão mais ali.

A plasticidade cerebral e a reparação cerebral ainda são possíveis mesmo quando a esperança parece ter desaparecido”, disse a pesquisadora Angela Sirigu, do Instituto de Ciências Cognitivas Marc Jeannerod em Lyon, França.

“É possível melhorar a presença de um paciente no mundo”, afirmou.

O processo inclui a utilização de um implante no peito para enviar pulsos elétricos ao nervo vago, que conecta o cérebro a outros órgãos importantes do corpo.

A estimulação do nervo vago já é usada para tratar pessoas com epilepsia e depressão.

Segundo o estudo, o homem mostrou melhoras significativas em termos de atenção, movimento e atividade cerebral após um mês de estimulação desse nervo.

Ele começou a responder a ordens simples, como seguir um objeto com os olhos e virar a cabeça. Também parecia mais alerta e era capaz de ficar acordado enquanto escutava seu terapeuta ler um livro.

O paciente reagiu, ainda, a estímulos ameaçadores de uma forma que não fazia há anos –abrindo muito os olhos quando um examinador movia o rosto de repente em direção a ele.

No entanto, o tratamento não devolveu ao paciente seu estado original. Em vez disso, foi considerado que ele passou de um estado vegetativo a “um estado de consciência mínima”, de acordo com os exames cerebrais. -Estímulos ‘retomam’ consciência de pessoa em estado vegetativo há 15 anos

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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