Idiocracia 2: Supremacia, Eugenia e Racismo (primeira parte)

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“O homem mata o homem, quando odeia, quer o ódio seja inspirado pela rapina ou pela vingança; os povos matam e roubam colectivamente, chamando conquista ao roubo e guerra ao assassinato em grande escala.” — Paolo Mantegazza, neurologista e antropólogo darwinista italiano

Retomo o tema da Idiocracia de onde parei no texto passado: o filme norte-americano homônimo no Brasil: Idiocracia.

Um filme que embora sendo uma critica afiadíssima dessa tirania da idiotia como farsa democrática também decaí nas mesmas idiossincrasias e preconceitos que caracterizam o supremacismo, a base angular da mais forte de todas as idiocracia: a ditadura explícita sem disfarces. Afinal, até para reforçar o que é idiocracia, é importante deixar claro que a idiocracia que conhecemos hoje, essa democracia de fachada ou ditadura disfarçada não é a definição de idiocracia nem a pior forma de regime idiocrático. Pois se aquilo que define a idiotia politica é a alienação voluntária, então não há grau de idiotia nem regime que demande e promove maior grau de alienação do que aquele que consegue tal grau de alienação explicitamente sem subterfúgios.

Como veremos é um erro pensar que todas as pessoas que estão submetidas a regimes autoritários ou ditaduras renunciam a um grau maior dos seus direitos e liberdades políticas porque são forçadas. Elas o fazem exatamente pela mesma razão que pessoas alienam-se de bom grado nas democracia representativas: elas participam de uma mesma ideologia- no caso das ditaduras uma ideologia supremacistas.

O supremacismo pode ser racial, nacional, cultural, religioso, ou estar erguido sobre qualquer outra forma de discriminação que justifique qualquer regime autoritário mal ou bem disfarçado. A diferença do supremacismo, ou do regime autoritário mais fraco para o totalitários é que o preconceito que busca justificar a superioridade ou autoridade dos poderosos na relação de submissão dos demais não é mais uma condição circunstancial que poderia vir a ser extinta ou até mesmo invertida, mas é condição de superioridade e logo inferioridade irremediável, uma relação de poder permanente, nata, hereditária.

O presente texto pretende explicar porque esse preconceito-mor, o supremacismo produz a idiotia mais grave e redunda nas perigosos estados de delírio coletiva ou regimes idiocráticos, as ditaduras totalitárias.

Voltemos então ao filme.

O filme por mais inteligente e autocritico, ainda sim como produto cultural-comercial, também não conseguiu escapar desse arcabouço preconceitual que reproduz a essência das idiotia: o supremacismo. Mas onde está o supremacismo no filme. No racismo e na eugenismo. Notem que embora eles identificam e criticam muitos dos males da America, do consumismo ao materialismo que emburrecem na hora de explicar cientificamente esse processo e apontar para seus agentes causadores, eles voltam aos mais velhos e batidos preconceitos fundadores das idiocracias: o mal está no outro. O mal é o outro que degenera nossa raça, nossa nação nossa terra. Isso é supremacismo e não há forma mais presente ainda do pensamento supremacista do que o racismo e o eugenismo. Racismo como a suposição de inferioridade atrelada a características físicas, culturais de uma determinada raça ou povo. E a eugenia a suposição de que tais características que predefinidoras da superioridade e inferioridade são transmitidas hereditariamente.

Entretanto, como disse, ao telespectador que não se presta ao papel de vigilante moral ou polícia ideologia, o filme ao carregar inadvertidamente esses preconceitos funciona ainda melhor hoje: (i)como denuncia da idiotia das democracias especialmente ao Norte mas também ao Sul das Américas e outras idiocrasias mundo afora; (ii) e como advertência que nenhum critico ou critica está imune aos preconceitos tão enraizadas, inconscientemente sublimados em todos nós e em nossas sociedades, muitas vezes contra nossa nós mesmos.

De fato por mais consciente e autocritico não é possível crer que não vamos em em momento algum reproduzir a cultura em que estamos imerso. E sermos inconscientemente preconceituosos. O que evidentemente não é desculpa para ser nazi, nem para virar patrulha ideológica de si mesmo nem obviamente muito menos dos outros. Mas é sim um excelente ponto de partida para entender como funciona a alienação até o limite da imbecilização mais extrema: essa renuncia consciente e voluntária a sua vida e liberdade em prol de uma ideologia que se entranha de tal forma na sociedade que anormal é não seguir e reproduzir os preconceitos e não o oposto.

Mas onde estão o racismo e eugenia no filme?

O racismo é bastante evidente e é o que torna a critica não só pertinente mas uma premonição as avessas: O presidente dos idiotas no filme, o ator Terry Crews em grande atuação, chama-se Camacho. É portanto um negro, com nome latino, caracterizado como se fosse um James Brown. E que além de ex-lutador de luta-livre, é o ex-ator porno. Assim embora lembre Trump em toda a sua idiotia agressiva. Não é figura dele que vemos no filme como comandante-em-chefe da idiocracia norte-americana, não um supremacista branco, bilionário inescrupuloso, engravatado narcisista, o conservador e puritano reacionários, o idiota-mor dos americanos mas claro um negro. Notem que de todas essas características elencadas Trump só não é um puritano… pelo contrário é alguém recorrentemente acusado de ser um predador sexual. O que encaixar ainda mais perfeitamente no arquétipo do vencedor nas sociedades machistas-capitalistas fundadas no culto a rapinagem! E que consideram esse atributos de rapers como sinal de civilidade, inteligencia e predestinação ao sucesso. mas sim o que esses idiocracias fundadas no supremacismo branco teme e pregam problema americano: o negro, ou mais precisamente o não-caucasiano “puro”.

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Alías considerando a origem da palavra inglesa rape tem em latim a mesma origem do rapto e da rapinagem em português, e olhando para os simbolos de muitos governos mundo afora não se pode dizer que quem avisa amigo é, mas sim que todos os idiotas estão avisados, inclusive nós, os idiotas que não são brancos e nem sequer são (norte) americanos.

rape (v.)

late 14c., “seize prey; abduct, take by force,” from rape (n.) and from Anglo-French raper (Old French rapir) “to seize, abduct,” a legal term, probably from past participle of Latin rapere “seize, carry off by force, abduct” (see rapid).

Latin rapere was used for “sexually violate,” but only very rarely; the usual Latin word being stuprare “to defile, ravish, violate,” related to stuprum (n.), literally “disgrace.” Meaning “to abduct (a woman), ravish;” also “seduce (a man)” is from early 15c. in English. Related: Raped; raping. Uncertain connection to Low German and Dutch rapen in the same sense.rape (n.2)

early 14c., “booty, prey;” mid-14c., “forceful seizure; plundering, robbery, extortion,” from Anglo-French rap, rape, and directly from Latin rapere “seize” (see rape (v.)). Meaning “act of abducting a woman or sexually violating her or both” is from early 15c., but perhaps late 13c. in Anglo-Latin.

fonte: http://www.etymonline.com/index.php?term=rape

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Coitadas da águia. Será que um dia de tivermos uma ditadura das corporações financeiras eles vão colocar o tubarão em seus brasões e marcas? Mas perdão. Voltemos ao filme.

Assim, embora Idiocracia critique o culto ao dinheiro, aparência, consumismo, intolerância, insensibilidade desprezo ao dialogo, entre mutias outras autocriticas mordazes a sociedade americana, a idiotia no filme continua a ser representado por dois arquétipos do racismo-eugenismo moderno e contemporâneo não só ao norte das Américas mas também ao sul: os negros e caipiras, o white trash de lá e o famoso “Jeca Tatu” daqui.

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Lobato: outro grande escritor que não escapou dos fumos de seu tempo e da classe
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…e pagou caro pelo que pediu. Foi preso nada menos que pelo ditador que rapinou suas propostas tanto eugenistas quanto desenvolvimentistas: papai Vargas.

Sendo por definição a idiotia a renuncia do capaz ao seu livre pensamento, a alienação do eu livre e pensante do seu direito de autodeterminação, capacidade de próprio-concepção e perigosamente sua responsabilizada de autopreservação. Como pode alguém que carece da liberdade de expressão e criação se deixar legar por tal ideias e até mesmo se entrega ou por a serviço desses regimes? Como pode não uma pessoa que trabalha no criativo não perceber que a forma mais extrema dessas alienação, dessa idiotia, o pensamento ditatorial e autoritário não irá mais hora menos hora matar sia liberdade de expressão ou até mais ele se julgar necessário?

Como alguém que se julga tão culto e inteligente pode cair numa armadilha destas? Como alguém que precisa da liberdade de pensamento e expressão para trabalhar embarcar em ideias autoritárias e supremacistas? Como pode alguém que tem acesso a informação e se considera minimamente consciente se deixar levar por tal ideias e até mesmo se entregar ou pior se por a serviço desses regimes sem perceber o crimes ou perigos destas ideias? Notem que minha pergunta já responde a si mesmo e quando é que uma pessoa ou classe vaidosa que se julga superior não não caiu no canto do autoritarismo e supremacismo? Não é que o autoritário e supremacista não veja o absurdo do crime, ele vê perfeitamente, só não considera sua pressuposição de superioridade como absurda nem criminosa, e sim uma prerrogativa natural. Literalmente um direito sobre o outro. O supremacismo atende assim tanto as expectativas de quem se considera superior mas não se acha devidamente reconhecido quanto de quem deseja mais poder e controle sobre os outros mas nunca tem o suficiente. Quanto aos perigos que isso representa o supremacista necessariamente deve ser tornar cego, para poder se tornar um supremacista. Porque aquilo que leva o supremacista e autoritário a cair na marginalidade e ser perseguido é justamente a pressuposição que ele como credo para impor sua ideologia: que ele é e jamais deixará de ser superior.

É por isso que o supremacismo não é só um crime mas em ultima instancia sempre um erro lógico fatal. Ele supõe que a superioridade seja propriedade absoluta e geral e não a resultante circunstancial de uma relação que é sempre relativa e particular. Um erro clássico de quem ocupa uma posição privilégiada, mas que para mantê-la renunciam a mobilidade e visão para além dos seus campos e horizontes.

Logo se a democracia é uma farsa é sobretudo porque muita gente que se acha muito culta, esperta ou inteligente que cultiva hipocritamente ou inconscientemente essa idiocracia supremacista, inclusive pregando a liberdade, emancipação e até a libertação das pessoas. Se a democracia é isso o que conhecemos também porque existem muitos autoridades defensoras das liberdades… reduzindo a democracia a mera técnica de controle social. Um mercado politico feito a imagem e semelhança do igualmente falso livre mercado onde assim como o cliente consumidor é levado a crer que é ele que escolhe o que deve quer consumir quando é só um empregado que sequer controla o que sua vida produtiva quanto mais o que deve ou não ser produzido. Um mercado politico onde o cidadão-eleitor acredita que controla o sua vida pública e até mesmo resguarda sua privada quando elege ou se financia seu governante quando é justamente o contrário são eles que estão sendo comprados vendidos como escravos para os verdadeiros desses mercado politico-financeiro mundial.

continua…

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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