Guerra e Paz: Das suas causas e razões

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Batalha dos Guararapes Victor Meirelles

Três grandes potências “ocidentais”, EUA, Reino Unido e França- antigos aliados da Segunda Guerra Mundial- bombardearam a Síria reascendendo com a Russia a velha guerra fria. Há quem afirme que o risco de um novo conflito que escale para proporções mundiais nunca esteve tão alto desde então. Faz sentido. Mas há que se lembrar, ou consultar, para verificar que a guerra fria, também não começou nada fria. Estava mais para uma trégua estratégica entre inimigos que assim como se viram obrigados a se aliar estrategicamente contra um mesmo inimigo comum, também se viram obrigados a recuar e levantar muros até poder se recompor e rearmar para dar o desfecho a uma guerra que não terminou com um único império vencedor.

O empecilho (até agora) é que nesse processo, mais do que nas duas primeiras grandes guerras, o desenvolvimento da tecnologia de destruição em massa, superou em muito as ambições imperiais. A corrida armamentista que não era uma corrida para lugar nenhum, mas para cada bloco conseguir a supremacia militar capaz de impor seu domínios pela dissuasão- o que traduzindo quer dizer não só a ameaça de ataque, mas o ataque se tal supremacia é desafiada passou a não ter um fim, ou pelo menos não mais o fim que eles gostariam. De modo que conforme eles aumentavam parte a parte o poder de destruição, para prevalecer, o que ficava cada vez mais patente é que não haveria vencedores entre os que tivessem menos perda, o fator que define a vitória em uma guerra, mas simplesmente haveria perdas demais para sob qualquer ótica ou narrativa um vencedor.

O momento atual, ou pior a sua compreensão é portanto mais similar com os primeiros momentos da guerra fria, logo após o pós-guerra, quando a chance de voltar a pegar fogo era concreta, do que para o final quando a conclusão acima enunciada de destruição mútua era mais do que evidente. Porém, uma das maiores diferenças entre aquele primeiro momento da velha guerra fria para atual, seja que o mundo saído recente de mais uma guerra, não via como as atuais gerações a possibilidade de mais outro confronto como o grande impossibilidade que as gerações que não enfrentaram a guerra (não em sua casa, ou com a constrição dos seus filhos) enxergam. Os povos saibam do que os Estados e estadistas eram capazes. Não haviam como negar os cadáveres estava diante dos seus olhos. Logo, sim o momento é mais perigoso, porque não só governantes, mas os povos perderam a memória e noção do perigo. Governantes acreditam que com novas tecnologias podem voltar aos seus jogos de guerra, sem correrem o risco de escalar até a destruição mútua total. Governados que eles não são estúpidos e irracionais para acreditar e brincar com isso. São?

É claro que são. Longos períodos de paz não são a regra. São a exceção na história da humanidade. E esse um dos maiores senão o maior deles.

É natural que hiperdimensionemos nosso tempo, e projetemos (e sonhemos) nosso período de vida como se fosse a eternidade. Mas estatisticamente a relativa paz paz entre os povos, — e coloca relativa nisto- está mais para um desvio do padrão histórico, do que para o fim da história, como gostariam os vencedores.

A história dos povos é a a história de suas guerras e revoluções. Não só porque os historiadores tenham o mesmo fetiche, ou tentem satisfazer o fetiche dos seus imperadores e impérios por grandeza e poder. Mas porque quase nunca a humanidade conseguiu se transformar sem conflito entre o velho e o novo, entre as novas forças que queriam ocupar mais espaços e dominar no seu tempo, e a as velhas que não queriam sair perder seu lugar.

Mas, mais do que isso, mais do que um choque de gerações, a guerra e pilhagem e a formação de tribos, clãs e territórios sempre foi desde o gêneses e a gênese de nossa espécie uma atividade tão natural a nós quanto usar ferramentas, falar ou plantar e colher. A paz mundial, o fim das guerras demandaria um novo homem, e não as tribos territorialistas de macacos falantes que ainda somos ao menos em comportamento e enquanto espécie. Tal mudança de hábitos requeria outra mentalidade, consciência. Evolução e não revolução. Mas ainda somos os mesmos e vivemos como os pais dos pais dos nossos pais, só que sem clavas ou espadas, mas com fuzis e bombas.

O fator mais significativo nesse período de paz, duradouro não foi o advento dos direitos humanos pelo humanismo, por mais que como um defensor do de ambos gostaria que fosse. Foi o advento das armas de destruição em massa. São elas que seguram a mão, dos adoradores da grandeza e supremacia das posses poder e violência. Logo apenas circunstancialmente. Um pequeno desequilíbrio, seja pela certeza da sua queda, ou a certeza que podem derrubar o outro sem cair, ainda que ao custo de milhares de vidas, a grandeza ainda fascina esse homem que se crê predestinado a grandiosidade.

Dizem os relatos históricos que o rei Luis alguma coisa da França ao ser apresentado a um protótipo da metralhadora abominou tal invenção capaz de matar tantos em tão pouco tempo. Deve ser verdadeiro, mas não por princípios de humanitário, nem de economia de vidas humanas de soldados nem próprios nem adversários, aos quais monarquias nunca foram afeitas, mas justamente por estragar o principal jogo dessas classes de nobres governantes, antes do advento do capitalismo.

Guerras antes da introdução das armas fogo e destruição em massa nasciam e morriam em todos os lugares junto com as estações do ano. Vinham junto com ventos do verão para apenas hibernarem nos invernos. O mesmo inverno que derrotou junto com a morte de milhões nas terras russas, a expansão de dois impérios: o de Bonaparte e Hitler. Dois eventos de proporções gigantescas que formam o inconsciente que forma o inconsciente coletivo mitificado desse povo russo, que assim como o norte-americano e outrora o europeu se considera divinamente predestinado.

Guerras que parecem distantes no tempo e espaço das eternas províncias ao sul das Américas, mas que mudaram nossas história. Não é possível quanto mais tempo o Estado Novo de Vargas permaneceria de pé, ou o Brasil uma colônia de Portugal. Mas se Napoleão não tivesse marchado sobre Lisboa, e se a cobra não tivesse fumado cachimbo, jamais as cortês reais portuguesas teriam se instalado de mala e cuia na eterna corte brasileira, o Rio de Janeiro, e os portos brasileiros abertos aos ingleses, nem havido o arranjo de pai para filho que chamamos de independência do Brasil. Nem os velhos tenentistas agora brigadeiros e generais de Vargas teriam tomado as rédeas da “redemocratização” das suas mãos, se o ditador populista (ou popular, a gosto do freguês) não tivesse sido intimado a apoiar os “aliados”.

Há séculos o Brasil e a América Latina em geral deixou de ser palco de guerras as regulares de proporções mundiais, das então ditas potências. A última do Paraguai que resultou nada menos que a proclamação da nossa (sempre velha) república. Mas como bem recorda o articulista português, desde do principio da nossa colonização, quando portugueses, espanhóis, franceses, e holandeses disputavam a possessão das riquezas dessas terra d´além mar, não assistimos de perto o que é ser palco de uma disputa direta com tropas armadas ocupando in loco o solo nativo como teatro de operações:

Se os historiadores aceitassem os argumentos da The Economiste da BBC, há muito, pois, que a Terceira Guerra Mundial já aconteceu, tendo terminado em 1945 com as bombas atómicas sobre o Japão. Mas as duas publicações britânicas, se saíssem do contexto anglo-saxónico, poderiam ter recuado à passagem do século XVI para o XVII e encontrado outro conflito fortíssimo candidato a ser, realmente, a Primeira Guerra Mundial: a chamada Guerra Luso-Holandesa. Sim, leu bem. Portugueses e holandeses andaram à luta não por meio mundo, mas sim pelo mundo todo.

As datas que balizam o conflito são 1595–1663. Recém-independente da Espanha, a República das Províncias Unidas ataca o Império Português, então sob domínio dos Filipes. Primeiro é um saque ao Recife, depois outro a São Tomé, e de repente uma ofensiva global contra Brasil, Angola, Moçambique, Goa, Ceilão, Malaca, Macau e uma imensidão de ilhas das especiarias, a atual Indonésia. Mesmo quando Portugal restaura a independência, e tem de combater na Europa contra Espanha para a garantir, os holandeses persistem na ofensiva, que ao acabar mostra um resultado de quase empate. Portugal conseguiu reconquistar o nordeste brasileiro e Luanda, manteve Moçambique, Goa e Macau, mas perdeu o Ceilão (hoje Sri Lanka), Malaca e quase todas as ilhas das especiarias, com exceção de Timor, mesmo assim repartido com os holandeses, que contavam com o apoio das tribos da metade ocidental.

No Brasil, a maioria das tribos índias combateu por Portugal. Com tantos casamentos entre os católicos portugueses e as indígenas (algo que os calvinistas evitavam), foi, no fundo, uma vitória com ajuda dos nossos sogros, cunhados e primos. A batalha decisiva foi em 1649 a de Guararapes (ver pintura que está no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro) e cinco anos depois deste combate perto do Recife a rendição foi oficial, com os holandeses a deixar o Brasil para sempre.

Especule-se então agora, sabendo-se destas Guerra Luso-Holandesa e Guerra dos Sete Anos, que se vier aí alguma nova guerra mundial terá de ser a Quinta.

Pode parecer pretensioso o argumento, mas a ideia de mundo, é em si mesma pretensiosa: o mundo todo sempre foi o mundo conhecido pelo homem de então e suas narrativas, assim como a vontade de poder sempre foi a de possuir tudo, todas as terras muito além do que o horizonte dos olhos podem perder. E muito antes do advento do mercantilismo e capitalismo, de Alexandre Magno, a Roma dos César até a dos Papas, o mundo sempre foi derrubado e reerguido por essa vontade de grandeza e eternidade, essa tentativa teratológica do homem em negar sua condição animal e mortal.

Prevalece hoje a analise economicista e materialista do mundo. E logo também das guerras. Mas essa visão passa longe de enxergar as causas e origens da exploração do homem pelo homem. De explicar o assassinato, a escravidão, os holocausto, as tiranias, a fome e a miséria. Assim como passam longe de explicar porque reis-deuses ergueram pirâmides, ou se enterravam com suas tropas e riquezas, seja no Egito, seja na China. Nem muito menos porque povos inteiros se deixam enterram ou se jogam em precipícios como manadas seguindo seus líderes. Não explicam seus custos nem as finalidades.

Todos os sistemas de produção e destruição adventados são explicados por razões econômicas, materiais. As guerras atuais são por petróleo. Como todas as guerras foram pelo controle dos territórios e suas recursos incluso os humanos. Impérios, do romano ao católico, passando pelos mercantis até os capitalistas atuais se ergueram e se mantiveram enquanto foram militar, econômica e ideologicamente capazes de expandir seus domínios, mantendo seu crescimento sustentável com a pilhagem escravidão e domesticação das suas colônias. Evidentemente que de forma cada vez mais desenvolvidas e eficientes, não só na arte de matar, mas também na arte de domesticar por aculturação. Também, evidente que exploramos e travamos guerras, pelo domínio de recursos. Mas isso não responde porque buscamos insaciavelmente por mais domínios e recursos.

O materialismo diz porque fazemos, mas não nos diz o porquê o fazemos. É a busca da felicidade? Qual felicidade? Que satisfação de sentimentos, dores ou prazeres, sonhos ou confortos moveria o homem e o mundo para as direções que tomamos? O darwinismo e o seu filho o materialismo histórico reduziu a compreensão da vida a uma luta pela sobrevivência material. Assim como a sua evolução como o resultado da capacidade adaptação ao meio ambiente. Mas o que o homem fez para o bem e para o mal foi justamente o oposto: transformou o mundo de acordo com sua vontade e potencia.

Não é possível entender o espirito desse homem, nem muito menos dessa civilização “ocidental” decadente que querendo ou não fazemos parte, olhando apenas para a sua materialidade, para suas razões. E não para suas paixões. Sem entender essa vontade que antes de ser de poder é de potencia. Não é possível entender onde esse homem civilizado queria chegar, sem olhar e ouvir o ápice do seu espirito manifestos nas ditas artes e obras clássicas e humanistas de um lado, e simultaneamente suas conquistas colonias genocidas.

Sem entender essa vontade de encarnar e criar o divino em si mesmo como obra, senhor do destino, do tempo e espaço, tão grandiosa quanto insana, aterrorizante. Essa vontade que produziu os maiores gênios e obras e também os maiores monstros e crimes da humanidade. Porque não é toa que antes de ser um estadista genocida, Hitler foi antes de tudo, e toda vida, um pintor frustado.

Se as causas da guerra fossem econômicas e as motivações econômicas fossem a mera satisfações de necessidades ou sentimentos de bem-estar ou felicidade, seria de se supor que no dia em que a Economia acabasse, no dia que a tecnologia findasse a escassez de recursos, se findariam todas as disputas e privações.

Se findariam?

Seria o estado original e primitivo dos homens, uma estado de guerra por recursos raros e escassos? Da pilhagem a acumulação? Teria passado o homem da condição ecológica para a econômica por adaptação e reprodução de hábitos adquiridos durante períodos de privação? Abandonaria esse homem essas cultura e costumes se chegasse por acaso a um paraíso na terra? Se pudesse viver como bem entendesse e tivesse o que quisesse sem precisar tomar nada de ninguém, deixaria de matar e explorar outros seres vivos ou seu semelhante?

Se acredita nisso, sinto muito, você é mais utopista do que eu, pois desconhece a sua própria natureza.

Mesmo que na gênese da humanidade a escassez tenha produzido esse homem, ou que um dia através da tecnologia ele possa dispensar a escravidão, a pilhagem e a guerra para sustentar seu ócio; mesmo que ele não precise mais sequer se alimentar ou dispor de um único ser vivo, seja ele animal ou vegetal, para prover seu sustento ou riqueza, ainda assim ele irá caçar e criar outros seres vivos apenas pelo prazer, por esporte -ao menos enquanto ele for o que é: homem. Vai tomar a força o que poderia ser consentido, vai impor dor a quem não pode resistir, e assistir ele agonizar até morrer, porque isso o faz sentir vivo; o faz esquecer da sua condição natural que não consegue aceitar, a mortalidade. E ainda que fosse etéreo, imortal e invulnerável, enfim um deus entre mortais, não iria se satisfazer apenas existindo, mas brincando com a vida daqueles que riem e choram, sofrem e gozam porque são efêmeros.

Não. As razões econômicas e materiais apenas explicam as motivações das ações humanas. Não explicam suas razões de ser. Um mundo onde todos tivessem tudo o que querem e precisam igualmente seria absolutamente insuportável ao homem que busca mais do que ser só um homem. O homem não busca riqueza e poder para fazer algo. O homem busca riqueza e poder para ser mais do que um simples homem. Uma condição de senhor que não se realiza sem escravos. Um domínio que não se satisfaz sem dominados. Um sujeito que não existe sem objeto. Um desejo obsessor que nunca se satisfaz, nem mesmo com a posse de tudo. É preciso mais, porque é o mais que se almeja. É preciso sempre um nova alma a ser submetida, abatida e devorada para que ele possa satisfazer o seu desejo, que não é ter ou poder, e sim ser mais. A matéria é meio, a finalidade é um ideal: a superioridade. Supremacia, superioridade, grandeza. Eis os anseios relativos, impossíveis do homem realizar em si mesmo, mas tão somente através do outro. Anseio que não conseguem se realizar nem ser satisfeitos sem que se coloque alguém de joelhos em submissão como o espelho concreto da sua majestade.

É nisto que a economismo e materialismo jamais compreenderão as razões sequer da posse e poder quanto mais o logos e a pisque dos poderosos e possessores. Posse e poder não são feitas de razão, mas de paixões. E suas razões econômicas e materiais são meras racionalizações, meios. Assim como as própria posse e poder também o são. Meios ideias e materiais de satisfazer essas taras que vai muito além do simples desejar ter ou poder, mas desejam o ser estar; ser e estar acima de tudo e todos, algo que se consegue produz nem deter só possuindo mais que os outros, mas possuindo o outro, expropriado e desempoderado, vulnerável, carente, dependente, impotente, servil e submisso. Esse desse barro que esse senhor se faz todo poderoso.

Porém mesmo que esse homem conseguisse completar seus anseios de grandeza e superioridade pela completa domesticação alienação e privação dos outros homens, convencendo-os enfim que a inferioridade é natureza, ceder as vontades seu destino e obedecer suas ordens o seu próprio bem. Mesmo que atingir enfim estágio final da dominação cultural onde não precisasse mais da agressão, repressão, privação ou terror para conseguir tudo o que quer, ainda sim não se satisfaria sem praticar e assistir a violação agressão e carestia aos inferiorizados, porque impor deles e suas aflições seu poder e posse são inúteis como prazer e concretização da sua superioridade. De que ainda poder dispor das pessoas como bem quiser se não se dispõe de fato delas?

Não basta ter ou poder mais, não basta controlar o que os demais podem ou possuem, incluso suas vontades, não basta ter e poder dispor das pessoas como se bem entende, é preciso impor para satisfazer esse pathos, afirmar a superioridade. É preciso matar a alma, a volição que compete com a sua, reduzir o ser vivente a coleção de cabeças empalhadas como troféus no museu da memória da sua supremacia.

Estudar a disposição de corpos de um navio negreiro, as câmaras de um campo de concentração, ou as fábricas da revolução industria, é como entrar na casa de um açougueiro que colecionador de borboletas, que ao invés de abater e colecionar borboletas coleciona gentes. É adentrar na casa de um serial killer que tece e se veste com as peles das suas vítimas suas roupas intimas. É entrar na arquitetura das camadas mais subterrâneas da nossa inconsciência coletiva que tentamos desesperadamente renegar para nos sentir mais gente.

Não é o respeito ao que é vivo e humano que seja maior, é o desejo de grandeza e superioridade que está diminuído pela impotência. Não é só o poder que corrompe. É a potencia que desumaniza E a potencias absolutas desumanizam completamente. Não há portanto maior tolice do que acreditar que existam tomadas de decisão racionais. Ou que exista qualquer espécie de ser racional. A razão é só o nome que damos para o conjunto das operações lógico mentais que processam nossas paixões. Mesmo os argumentos e ações mais racionais também são produtos da paixão, a paixão pela razão, que se de fato movesse as paixões e não fosse como tudo movida por elas, produziria consciência e não meramente inteligência e desinteligências. Produziria um o ethos que seria uma força de vontade motriz e não um mera ideologia ou filtro condutor ou repressor desse pathos. Seria mais do que uma forma completamente distinta de ver e interpretar o mundo, seria uma completamente distinta de sentir e repensar o próprio sentimento e pensamento. Um pensar consciente, e não apenas senciente.

O credo na racionalidade é o mais irracional de todos os credos. Porque nos torna cego e crentes fieis de que exista um espécie, ou uma espécie de homem que é governado pela razão. E não por sua anima, suas vontades e paixões. É só mais uma racionalização dessa vontade de supremacia, dessa vontade de ser uma entidade dotada de uma centelha divina. Que tecnologia e garfos de prata fora, não vai além de um delírio, delírio de tribos de macacos territorialistas ancestrais.

Não fundo não queremos ser, nos contemos em acreditar e nos convencer que que somos. Não queremos adicar nem desses desejos e prazeres mais primitivos, nem muito menos trabalhar para constituir de fato qualquer coisa humana ou solidariamente próxima desse ideal além da mera arrogância, pretensão e prepotência de divindade e poder total. No fundo, o deus para o qual ainda rezamos, a divindade que adoramos é ainda a mesma pela que sacrificamos crianças com medo do fogo que cairá dos céus. E não é a toa que nossos homens santos tenham sua preferência sexual por crianças, ou os exércitos por suas infantarias. Nossa noção de divino ainda é literalmente a crono-lógica, a invenção de potencias mundanas e transcendentais que tenta engana a evolução do tempo e morte se perpetuando no poder a devorar seus próprios filhos.

O economicismo enxerga que todo bem ou mal está no capitalismo, quando os sistemas socioeconômicos não produzem vontades nem potencias, mas no máximo desejos e meios de satisfaze-los, o que faz desses sistemas instrumento dessas vontades e não sua causa ou força geradora. Não. Nem a guerra, nem mesmo o racismo desaparecia se a administração da privação e escassez deixasse de prevalecer como visão, não desaparecia nem se a própria escassez e privação fossem extintas, ou sua produção fosse abolida e criminalizada. Porque eles não são meros frutos de interesses econômicos, mas sim da própria vontade de supremacia, perversão da qual tanto os interesses mais egocentrados quanto os seus piores males são produtos- e cuja produção se mantém mesmo quando tais guerras e discriminação e segregação custam mais caro do que os ganhos materiais. Em outras palavras, não importas as perdas e custas, se preciso for para prevalecer e manter a supremacia será sacrificado, porque posses e poder são meios, o ser supremo em sua forma concreta ou transcendental a finalidade existência.

Há portanto um erro lógico de processamento da ordem dos fatores determinantes no economicismo. Supõe-se que os males presentes nas relações de poder, seja em tempos de paz disfarçada ou de guerra declarada, sejam efeitos colaterais da busca desenfreada por riqueza. Ou que o poder seja apenas um ferramente para obtenção de mais posses e recursos, quando não só posses e recursos, mas a própria desigualdade que eles representam como poder sobre os expropriados não é um efeito colateral do desprezo pelos demais, mas do ser total e absoluta pleno em superioridade por submissão e supressão do outro.

O fetiche não é sobre a mercadoria, mas sobre a pessoa. Não é na posse de coisas, mas a redução dos seres a coisa. É na redução da pessoa a condição bestial de objeto, a ser usado, possuído e consumido como carne sacrificial do sujeito, que o supremacista renega a sua condição de coisa animal projetada no outro e atinge o gozo da superioridade como ser dotado de vontade sobre-natural para desnaturar e governar artificialmente as coisas como um deus ex machina.

A economia assim como a política não passa como um tanque ou uma clava de outro instrumento a satisfação dos objetivos, desejos, e manias desse homem. E embora a cultura e os hábitos moldem reforcem e moldem sua psique, antes da primeira ação houve a primeira ideação. E a primeira ideação não foi a das busca dos meios, a vontade de ter ou poder mais, mas a de ser mais. Algo que não se realiza sem ter alguém em função como seu inferior.

Se num dado momento determinadas tribos humanas descobriram que das atividades econômicas a mais eficiente e barata era primeiro matar, pilhar, e depois escravizar e colonizar outras tribos. Antes disso dentro do próprio seio dessas tribos, já havia surgido a ideia que alguns indivíduos estavam natural ou divinamente pré-selecionados a prevalecer seja pela força bruta, pela inteligência, pela gene ou gênero a se impor e dispor de quem quer que estivesse mais vulneráveis.

Antes mesmos de racionalizar tal sentimento de superioridade como ideologia esse homem se apaixonou com toda libido por si mesmo e seu poder absoluto, adorou o poder da força de seu braço capaz de destruir toda a beleza e complexidade de uma vida humana com um único golpe. Ele não era capaz de criar vida, nem gestá-la, mas era capaz de destruí-la. E pela morte poderia se assenhorar da vida.

Nossa economia, nossa política, nossas cultura é produto desse homem que nasceu em algum momento da história da humanidade. E cujas tribos se espalharam e proliferam dizimando outros homens e estuprando mulheres. Esse é o grande ancestral da humanidade, o nosso grande patriarca. E não há povo que não tenha em seu DNA em sua gene o sangue desse homem caçador e canibalizador de gentes ou das mulheres dos povos que foram genocidados ou etnocidados por esses conquistadores- O homem que previu como rei-deus-patriarca , predestinado a disseminar e inseminar sua monocultura por todos os lugares da terra. O homem que se sustenta e expande sua tribo colonizando outros homens.

E não me surpreenderia se esse primeiro homem tivesse dizimado todas as outras espécies de homens primitivos, como o fez depois quando já se considerava civilizado com as outras raças que considera inferiores. E com as quais jamais partilharia a mesa não importa quão farta, porque o lugar dos cães é no quintal servindo o mestre, e comendo as sobras, não na sala de jantar. Como o fez?

Não há economia política, nem política econômica, não há guerra nem paz, que modifique a vontade desse homem, porque não é a vontade gregária de ser semelhante mas ser dissemelhante é o que lhe faz o que dá sentido ao que ele entende por ser um humano. A unica paz possível não é pela igualdade entre os semelhantes, mas pelo extermínio dos desiguais e diferentes. E mesmo assim seria apenas uma trégua, porque conforme sua prole desse patriarca se reproduzisse em novas tribos. Elas voltariam a se odiar explorar e matar como superiores e inferiores. Os pais aos filhos, e os primogênitos aos demais herdeiros.

Seu pertencimento não existe sem exclusão. Seu prazer não existe sem o sofrimento. Sua riqueza não existe sem a pobreza. Seu poder não existe sem a privação da liberdade. Sua condição é como um clube restrito, não é especial se todos podem estar nele. Não é sagrado, não é divino, não é humano, não é civilizado, é só um animal, um bárbaro, um nativo como outro qualquer. Não está no topo, não está no centro. Logo não há sucesso. Porque não basta ser bem sucedido, a esse homem, é preciso vencer. É preciso prevalecer. Não existe win-win. Win-win é empate. E empate não é vitória. É preciso haver perdedores. E enquanto esse dinossauro caminhar sobre a terra, há de haver fracassados, submetidos, há de haver presas e predadores, nessa vida reduzida a uma enorme cadeia alimentar onde ele é o topo.

Se o advento da exploração e colonização permitiu a esse homem supremacista predador e monoculturador adorador da sua própria imagem e semelhança como divindade dominar e se espalhar sua gene e pisque por todo o mundo. Não será senão sem o advento de uma nova gênese para a humanidade, e uma nova psique que ela irá se libertar desse monstro que habita não o outro, mas a nós mesmos.

Se o advento do pensamento racional um dia humanizou um pouco mais a nossas condição animal e pretensões divinas teratológicas. Hoje ela é insuficiente para o levar adiante nossa evolução humana. É preciso mais do que a potencia da inteligência para dar os próximos passos, é preciso consciência. Uma capacidade hoje ainda tão abstrata e tão empiricamente pobre em ato e compreensão quanto deve ter sido o advento da razão em direção a ciência quando o homem governado ainda era completamente por seus instintos e credos e preconcepções mais primitivos. Um conceito tão vazio de sentido, e carente de método e práticas quanto a ciência no seu pré-advento como pensamento racional.

Entretanto, não diferente de qualquer outra forma de pensamento com a capacidade de alterar a plasticidade não só conceitual, mas mental, a consciência pode ser adquirida, reforçada e ampliada em sua força e capacidade pela mais antigas das formas de autotransformação do homem. não do homem sobre o outro o homem, mas dele por si e em si mesmo: o hábito.

A disciplina que se impõe não como senhor ao escravo, ou do mestre ao discípulo, mas da pessoa como governo do sua vontade de vir ser sobre o que se é, deseja ou quer, não só como disposição mas como hábito, é a concretização dessa transformação. Não mais como produto da vontade e concepção alheia, ou dos acidentes e condições do mundo, mas da sua livre vontade como força de vontade capaz de persistir. Hábito. Parte integrante não mais do que queremos ser, mas do que de fato somos.

O hábito que faz o monge, o atleta, o soldado, o guerreiro, o trabalhador e o homem de fé, o fundamento da arte arte marcial, mas também do livre pensador e artista e ator, incluso humano e social. Porque da mesma forma que o rito e culto a guerra, violência e supremacia foi introduzido por costume e aculturação,podemos nos livrar dele, nos desculturalizar e desritualizar também por força do hábito de outros costumes fundados em instintos que apesar de tudo persistem ainda que apagados, como a empatia e solidariedade e responsabilidade.

Mas isso já seria literalmente outra história, de uma outra humanidade.

X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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